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domingo, outubro 31, 2010

A parábola da Ribeira da Foz

Neste meu post, para o ilustrar, usei uma fotografia com uma extensa legenda explicando-a.
Todos os comentários ao post se centraram nessa legenda.
A questão de fundo prende-se com uma velha discussão: quando uma empresa investe em conservação isso é bom ou é simplesmente o chouriço que se dá a quem se roubou um porco?
O caso concreto é das celuloses, que ocupam com eucalitptal umas valentes centenas de hectares e deixam alguns para conservação (actualmente, com o modelo de certificação que usam, cerca de 10%), mas poderiam ser as eléctricas e as suas barragens, os eólicos e as suas torres, as construtoras e as suas estradas, enfim, a lista poderia não ter fim.
No fundo a discussão resume-se a saber se estamos melhor com empresas que produzem na lógica própria do negócio, usando para isso os recursos do território que podem ou querem, deixando uns bocados para a biodiversidade e a conservação, ou seria melhor que as empresas tivessem, de base, uma posição de conservação, a que adaptavam o seu negócio.
Do meu ponto de vista não há vantagem nenhuma em ser ineficiente no negócio a favor da conservação. Ou há razões para que a lógica de conservação de um recurso escape à produção económica (e há sítios em que isso se justifica), ou se um território tem uma lógica de produção, então que o faça o mais eficientemente possível, sem perdas para terceiros.
O problema é que nesta discussão o que uns acham perdas aceitáveis (quer porque são pequenas e reversiveis, quer porque sendo grandes e irreversiveis se justificam face aos benefícios da produção), outros acham perdas absolutamente inaceitáveis.
O caso dos eucaliptais e das barragens são provavelmente dos que mais extremadamente se discutem.
Infelizmente mais com o coração que com a razão.
Entrar pela ribeira da Foz, totalmente rodeada de eucaliptais que geram a riqueza que permite manter e alargar um corredor ecológico notável faz qualquer um interrogar-se sobre o que seria o destino dessa galeria ripícola se se tivesse mantido o uso tradicional da propriedade, com base em gado, agricultura e, provavelmente, algum montado.
Sair dessa galeria para o eucaliptal envolvente faz qualquer um interrogar-se sobre que mais valias de conservação poderiam existir na manutenção do mosaico pré-existente (desconheço o que existia na propriedade antes da primeira florestação, sirvo-me apenas da minha experiência e da observação da envolvente para admitir um cenário de montado pobre e agricultura marginal).
Mas ao mesmo tempo é inevitável admitir que esse cenário provavelmente estaria fora de causa, sendo mais natural que a economia da produção conduzisse ao abandono produzindo uma paisagem comum em Portugal, com recuperação notável dos sistemas naturais (evoluindo o montado para o sobreiral), de elevada susceptibilidade ao fogo e de baixo potencial de criação de riqueza.
O eucaliptal em Portugal é um bom motivo de discussão numa óptica ambiental: vale mais que os 750 000 hectares de eucalipto que temos sejam povoamentos mal geridos, com alguma diversidade biológica, com algum sub coberto interessante aqui e ali, com recuperação de carvalhal aqui e ali, produzindo alguma riqueza, como acontece na maioria desses 750 000 hectares, ou ganharíamos mais em ter povoamentos geridos de forma comercial pura e dura, como acontece nos cerca de 150 a 200 mil hectares geridos pelas celuloses e afins, criando riqueza a sério e gerindo e mantendo valores de conservação notáveis, em áreas mais ou menos marginais para a produção, de forma profissional.
Confesso que não tenho ideias totalmente claras a esse respeito, excepto achar que não faz sentido prescindir de produzir riqueza a partir da produção de eucalipto, pasta e papel.
Declaração de interesses: colaboro profissionalmente com a Altri.
henrique pereira dos santos

sábado, agosto 28, 2010

arbustos, matos e ervas


ovelhas pastando
Imilchil, Alto Atlas
Agosto de 2010

floresta de cedros
Ifrane RN (Azrou), Mèknes, Médio Atlas
Agosto de 2010


oliveira
Tizi-n-Isli, Kasba Tadla, Médio Atlas
Agosto de 2010

 eucalíptal
Guermasse, Marrakech
Agosto de 2010

vale de Todra, Alto Atlas
Agosto de 2010


vale de Todra, Alto Atlas
Agosto de 2010
Há alguns dias atrás, publiquei aqui um pequeno post - agricultura de subsistência - amavelmente comentado por algumas pessoas. O primeiro comentário de Carlos Aguiar aquele texto trouxe-me à memória ideia que fui cimentando, ao longo dos dias da minha última viagem por Marrocos, da quase total ausência de sub-coberto florestal de muitas paisagens marroquinas. Registei-o com enorme estranheza, na minha santíssima ignorância. Talvez o sobrepastoreio e o uso do solo para o cultivo de cereais até a exaustão sejam fortemente responsáveis por estas paisagens. Talvez seja apenas obra da "natureza". Talvez estes e outros fenómenos. E talvez o Carlos possa ajudar a compreender estas imagens :)

Gonçalo Rosa

quarta-feira, agosto 25, 2010

150 000 cabras, 48 milhões de euros

O projecto pelos seus promotores (ou pelo relato da sua apresentação que dele faz o jornal Cinco Quinas, porque no site dos promotores há dificuldade em ter acesso a informação mais detalhada, embora no primeiro jornal do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial, a páginas 8 e 9, se faça uma descrição genérica):
"O Director Geral do AECT Duero-Douro, José Luis Pascual Criado, pormenorizou as características do Projecto Self-Prevention. Segundo as suas palavras, além de actuar activamente para a prevenção de incêndios, o Projecto contribui para um modelo de desenvolvimento socioeconómico para todo o território do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro.
Disse que o investimento em matéria de prevenção é necessário para terminar com o fogo, mas também é necessário o envolvimento dos habitantes. Defendeu o Self-Prevention como projecto social, territorial, para as pessoas que moram nele, gerando um plano de futuro a longo prazo.
...
Está-se a trabalhar no Projecto Self-Prevention a partir da base, ou seja, a prevenção de incêndios.
Este visa reintroduzir 150.000 cabeças de gado para que sejam os próprios animais os "limpadores naturais" dos campos agrícolas abandonados, matos e valetas, deixando livres de vegetação aquelas zonas de potencial perigo de incêndio.
O projecto irá implantar-se num território fronteiriço de Portugal e Espanha, num total de 9 mil Km2, com 125 mil habitantes, e envolverá 187 entidades públicas dos dois países.
Após o investimento inicial, calculado em perto de 49 milhões de euros, estima-se uma rentabilidade anual do projecto de 30 milhões de euros. Com este projecto estima-se a criação de 558 postos de trabalho especializado, até porque está prevista a criação de 12 queijarias, uma central de comercialização, dois matadouros, 15 lojas de venda de produtos, e uma plataforma logística de transporte e distribuição, para além de se acreditar em novas potencialidades turísticas da região.
Para a concretização do projecto espera-se agora a adesão dos agricultores, onde existe a influência deste projecto. Os agricultores que apostarem nesta iniciativa, por cada cabra que coloque no projecto, recebe uma acção, e os proprietários de terrenos recebem três acções por hectare. Os lucros obtidos serão repartidos, depois, pelos titulares de acções no projecto. Para já, do lado português, estão envolvidos os municípios de Vila Nova de Foz Côa, Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal, tendo já sido demonstrada também a intenção do município de Manteigas em aderir ao projecto do AECT.
Este projecto estará articulado em torno duma empresa de participação pública e privada que optimizará a sua sustentabilidade económica na produção e comercialização de leite e derivados caprinos.
Por: Cinco Quinas"

Quem lê o que aqui e noutros lados escrevo sabe que eu não poderia deixar de subscrever as intenções deste projecto e ficar satisfeito de ver quase todos os jornais e sites de jornais de hoje a falar positivamente, e não como uma ideia impossível de operacionalizar, de um projecto que pretende ter 150 000 cabras para ajudar à gestão do fogo e à criação de riqueza e emprego no interior rural.
Mas ao mesmo tempo conheço demasiado bem esta lógica de captação de recursos, por entidades públicas que se juntam para fazer entidades privadas que apresentam projectos de candidaturas a ajudas públicas, que incluem muita infra-estruturação (lojas, queijarias, matadouros) e no fim se espera a adesão dos verdadeiros produtores.
Por mim preferia que fizessem um fundo de capital de risco para entrar no capital das empresas dos produtores até elas atingirem a velocidade de cruzeiro, vender a sua participação e partirem para outra.
48 milhões de euros em capital de risco já era relevante.
Assim, fico satisfeito com a difusão da ideia, espero e desejo que resulte, mas como contribuinte tremo só de olhar para a fotografia de topo deste post, que retrata os membros do Agrupamento Europeu de Cooperação Trans-fronteiriça, e pensar que é esta a base de gestão de um projecto de 48 milhões de euros entregues ao Estado por quem produz riqueza.
henrique pereira dos santos

sábado, julho 03, 2010

Ilídio de Araújo

Ilídio de Araújo fez no Porto a apresentaçäo do livro que escrevi, mas fê-lo usando a apresentaçäo para uma coisa rara, como ele próprio diz: falar de das paisagens, näo tanto do livro.
E porque é hoje raro ouvir Ilídio de Araújo falar de paisagens transcrevo partes do que disse. A extensäo do texto näo me permite a cópia integral e corro o risco de fazer batota escolhendo eu o que transcrever.
Mas achei que o que foi dito há semanas no Porto (e que por estes dias chegou ao meu mail) vale os riscos.
"O meu colega Henrique Pereira dos Santos teve a gentileza de, há algumas semanas atrás, me vir entregar um exemplar de um compêndio de meditações suas sobre as paisagens portuguesas, a que deu o título «Do Tempo e da Paisagem». Proporciona-se-me agora uma oportunidade de publicamente dar conta da meditação que a sua leitura me suscitou, e a que poderia dar quase o mesmo título: «Da Paisagem e do Tempo Actual»
...
Naquele tempo eu andava pelas nossas paisagens à procura de problemas; hoje fujo deles como de perturbadores pesadelos ... só ... me fez quebrar o voto de não mais falar publicamente de «paisagens» num país cujos governantes confundem econometristas com economistas, desenhadores com urbanistas, idiotas com doutores. E para quem os problemas das paisagens são problemas de lana caprina que nada têm a ver com a produtividade final do nosso trabalho colectivo.
...
a gestão das paisagens exige de quem tenha de a fazer um conhecimento muito abrangente do funcionamento e exigências dos múltiplos sistemas que as integram ou devam integrar, e do modo de os harmonizar para evitar imcompatibilidades, deseconomias e desequilibrios que possam tornar-se catastróficos por empolarem exageradamente os custos de produção, e assim comprometerem a produtividade do nosso trabalho colectivo.
...
Porque a gestão qualificada das paisagens tem de se alicerçar forçosa e basilarmente no respeito pelas exigências do funcionamento economicamente viável nos sistemas bióticos de fixação da energia solar (nas explorações agrícolas, florestais e nos sistemas hídricos).
...
A maior parte dos nossos responsaveis políticos quando ouve falar de paisagens continua a focar a sua atenção apenas em aspectos pseudo-estéticos, porque, esquecendo completamente as funções essenciais das paisagens humanizadas, permanecem insensíveis às desastrosas consequências económicas do desordenamento paisagístico
...
o progresso técnico, a explosão demográfica, o progresso humano e social, e a globalização mundial da economia, fizeram recair sobre a Administração Pública um volume imenso de tarefas de previsão e de coordenação, que eram imprevisíveis há 60 anos – quando a ambição máxima de desenvolvimento que se propunha para cada português não passava de uma cabana, uma horta e sete palmos de terra no cemitério paroquial (emprestados por quatro ou cinco anos). Hoje qualquer idiota doutorado em contas de mercearia e mestre escola incapaz de escrever uma postal sem dar uma dúzia de facadas na ortografia da sua própria língua reclama do Estado o direito adquirido a uma infinidade de serviços mais ou menos gratuitos, e de um menu de mordomias e privilégios, acrescentado com vencimentos mensais de milhões de euros.
...
Mas foi precisamente, quando começaram a crescer exponencialmente as responsabilidades políticas no domínio da gestão do território, e que a acção política mais exigia a presença de uma rectaguarda técnica à altura da complexidade dos problemas, que um governo de pessoas irresponsáveis resolveu desmantelar os gabinetes de estudo e planeamento (sectoriais e de coordenação) que já tinham acumulado os saberes e a experiência indispensáveis à fundamentação da actuação governativa e, quebrando a tradição de os postos de chefia na Administração Pública serem ocupados por funcionários que ao longo das suas laboriosas carreiras se tivessem revelado os mais capazes de garantirem a melhor gestão e evolução dos serviços públicos, promoveu a ocupação dos postos de chefia no aparelho do Estado por indivíduos cuja única recomendação para o lugar era a cumplicidade partidária com os governantes. Desse modo o aparelho do Estado entrou em rápida degradação, muitos lugares de chefia dos Serviços públicos foram invadidos por uma vaga de idiotas e oportunistas sem preparação para o desempenho das funções que o posto requeria. e os governamtes passaram a governar apoiados numa rectaguarda de pessoas tecnicamente irresponsáveis, mas que rapidamente se convenciam de terem recebido do Espirito Santo, no acto da investidura, todas as competências exigidas pelo desempenho das funções inerentes ao lugar que lhes foi confiado.
...
Naturalmente é a parte mais vulnerável da nossa população que já está e vai continuar a pagar durante as próximas décadas o preço de se deixar governar durante os últimos 25 anos por primeiros-ministros tão pretenciosos e arrogantes nas suas propostas, como inconscientes das suas limitações e impreparados para as responsabilidades da governação.
...
A optimização da produtividade do trabalho e dos investimentos tem de ser o objectivo essencial das políticas de ordenamento das paisagens, e impressiona-me ouvir constantemente apontar a baixa produtividade do nosso trabalho como a nossa maior pecha económica, ao mesmo tempo que vai passando década sobre década, sem que os responsáveis pela nossa Economia se apercebam de que o principal factor responsável pela baixa produtividade social do trabalho do povo português (dentro do seu país) é precisamente o inqualificável desordenamento das nossas paisagens humanizadas, geridas por idiotas em obediência a planos idiotamente elaborados.
...
E depois de vários partidos políticos terem aproveitado a sua passagem pelo governo para instalarem no aparelho do Estado as suas clientelas, assistimos agora ao espectáculo revoltante de governantes oriundos de partidos que andaram as esbanjar os recursos postos á sua disposição para racionalizarem os sistemas produtivos do país, andarem a esmifrar o povo laborioso, não para endireitarem as finanças do País, mas para continuarem a sustentar os privilégios das quadrilhas mais ou menos parasitárias que incrustaram no aparelho de Estado para lhes garantir alguma esperança de reeleição, face ao número crescente dos que, não se revendo em nenhum dos actuais partidos políticos, são ainda frequentemente assaltados pela suspeita de que alguns destes estejam a transformar-se em autênticas organizações mafiosas.
...
A maior parte dos portugueses continua a pensar que, como há 100 anos, qualquer espertalhaço de olho vivo é capaz de conduzir a nau do Estado a porto seguro, e têm tendência para confiarem mais no vendedor de banha-de-cobra que em troca de voto lhes promete uma cautela do Euro-.milhões, do que em quem lhes diz que se quizerem uma velhice tranquila têm de se sujeitar a uma vida ordeira e laboriosa, e olho atento aos vigaristas que o cercam .
Concluo que no âmago do nosso drama actual está o problema da gestão racional e ordenada das nossas paisagesns, que, tanto quanto me é dado apreciar, continua a ser orientada por idotas irresponsáveis."
henrique pereira dos santos, citando Ilídio de Araújo

quarta-feira, junho 16, 2010

Propaganda

Na sexta feira estarei no Porto a ouvir Ilídio de Araújo dizer o que pensa sobre o livro que publiquei.
Estas sessões de apresentação do livro têm sido muito úteis para mim e sobretudo um grande prazer.
Nas outras apresentações pedi sempre que fosse um não paisagista a apresentar o livro (aliás no seu lançamento, na feira do livro de Lisboa, estava apenas uma paisagista na sala, que felizmente estava cheia, mas fiquei sempre na dúvida se a paisagista lá estava porque lhe interessava um livro sobre paisagem ou se por ser minha mulher). De maneira geral, com excepção do lançamento em Lisboa, tem havido paisagistas interessados em ouvir o que outros dizem sobre o seu objecto de trabalho, tendo a sessão de Vila Real sido mesmo organizada pelos responsáveis pelo curso de arquitectura paisagista.
Mas o livro é um livro de divulgação para não especialistas e por isso fiz sempre esta opção de procurar ouvir não especialistas a explicar como tinham lido o livro. E tem sido interessante para mim ouvir o que dizem.
No Porto o apresentador não foi escolhido por mim, mas fico muito contente por terem escolhido o Ilídio de Araújo.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, maio 17, 2010

Barão de S. João

Roubei a fotografia à Almargem
Leio no Público que terá sido ontem inaugurado o Parque Eólico de Barão de S. João.
Cruzei-me em várias ocasiões com este projecto, sempre na posição de quem tinha a responsabilidade de salvaguardar os interesses da conservação no processo de licenciamento. A primeira vez que tomei contacto com o processo já ele tinha uma longa história, com algumas asneiras evidentes por parte de conservacionistas que acham que as suas opiniões devem ser acatadas por direito divino e não por traduzirem, de forma fundamentada, o que está escrito na lei.
É um exemplo bastante bom dos projectos em que tive tantas discussões com os promotores, licenciadores e etc., que apoiavam o projecto, como com os meus colegas da conservação que entendiam que o projecto deveria ser liminarmente chumbado. Tem a particularidade desta situação ter sido ilustrada por um email tresmalhado de um dos consultores do promotor ter vindo parar inadvertidamente à minha caixa de correio pedindo a técnicos do ICNB que chumbassem o projecto, ao mesmo tempo que se assinavam estudos que diziam o contrário.
Mas não é sobre miséria moral que quero fazer um post, é mesmo sobre como foi construída a decisão.
O projecto foi inicialmente contestado liminarmente pelos conservacionistas pois localiza-se no principal corredor migratório conhecido em Portugal, o que certamente implicaria impactos muito grandes para a avifauna que usa aquele corredor.
Duas questões se levantaram contestando esta ideia base: 1) em concreto qual é a dimensão e configuração do dito corredor?; 2) outros parques eólicos já existentes no dito corredor estavam a ser monitorizados e os resultados não confirmavam a ideia de elevada mortalidade de espécies protegidas migradoras (nem de outras, diga-se em abono da verdade).
Como é costume em conservação, uma outra questão foi levantada: um casal de águia de bonnelli andaria por ali e aquele era potencial sítio de nidificação qualquer dia (é frequente quando aparece um projecto de que alguns conservacionistas não gostam para um sítio qualquer aparecer também informação de conservação que justificaria o chumbo imediato do projecto com base no princípio da precaução).
Com a pressão conhecida (e legítima) para a produção de energias renováveis, qualquer dificuldade no licenciamento deste tipo de projectos tinha como consequência eu ouvir o que Maomé não disse do toucinho (diga-se em abono da verdade, mais dos diferentes organismos do Estado e tutela política que propriamento dos promotores, de maneira geral muito mais razoáveis e racionais que os caniches de que a administração pública está cheia, sempre a abanar a cauda à voz do dono).
O resultado foi o chumbo do projecto tal como estava previsto e naquele momento, embora com reconhecimento de que a decisão poderia ser revista se a informação sobre a águia de bonelli fosse mais consistente (o princípio da decisão era de que na dúvida é preciso tratar o risco como um facto) e a informaçaõ sobre a migração fosse também mais consistente, permitindo assim discutir o risco de forma mais racional.
Como disse lá ouvi o costume (para alguns dos que me lêem neste blog pode parecer estranho, mas eu era considerado um perigoso radical conservacionista em alguns meios, ao mesmo tempo que noutros meios, o que se reconhecerá mais facilmente, um perigoso vendido aos interesses).
O projecto fica suspenso enquanto durante um ano se estuda a bonelli, mais a migração, mais se refina a informação sobre a mortalidade nos parques eólicos existentes.
Sobre a bonelli a coisa ficou mais ou menos resolvida (a espécie está em expansão na zona, não há grande notícia de afectação por infra-estruturas, os factores de ameaça são conhecidos e é, portanto, possível desenhar medidas compensatórias de modo a compensar o risco diminuindo os factores de ameaça da espécie).
Sobre a monitorização dos parques eólicos existentes confirma-se a informação de que não há grande mortalidade, a que há não é de espécies protegidas em migração e que grande parte do que se sabe indicia que um maior afastamento dos aerogeradores (deixando um sim, outro não, na proposta) resolve uma das causas de mortalidade identificada: ao detectar um aerogerador as aves desviam-se de forma brusca e vão morrer no aerogerador do lado. Mais, a monitorização, com um Estado sempre desconfiado, foi feita com duas metodologias sobrepostas, uma pelo promotor e outra pelo Estado, com a participação da SPEA, penso eu, sendo que os resultados mais favoráveis à conservação, e mais desfavoráveis para o promotor, são os do estudo do promotor.
Sobre a migração um acompanhamento aturado permite perceber que a grande maioria das aves voam a alturas que não interferem com os aerogeradores (ou dizendo melhor, os aerogeradores estão colocados a alturas que não interferem com o vôo), sendo muito reduzidas as probabilidades de interacção entre o parque eólico e a migração.
Ainda assim, o risco existe.
E chegamos ao ponto mais interessante deste projecto: a medida de minimização duríssima e complexa, que acabámos por impôr, procurando desenhá-la em todos os pormenores que permitissem a fiscalização pelo Estado do seu cumprimento. A medida não foi desenhada pela administração, foram sim definidos os seus parâmetros, de forma clara, racional e fundamentada em razões de conservação, de necessidade de transparência e capacidade de fiscalização. Foram ainda sugeridas as tecnologias com base em radar para a sua aplicação. O resto foi feito pelos consultores.
Definiu-se um perímetro na envolvente alargada do parque eólico, e impôs-se que se um número mínimo de aves de espécies definidas (foi aí que eu percebi as fragilidades do livro vermelho, ao notar que as espécies ameaçadas, que era o primeiro critério que nos pareceu lógico, incluíam espécies abundantes e vulgares, o que me levou a ir estudar por que razão eram consideradas ameaçadas, estudo esse que achei muito instrutivo, não tanto em matérias de conservação mas especialmente em matérias relacionadas com a psicologia de grupo) entrassem no perímetro os aerogeradores tivessem de ser imediatamente parados.
Caiu o Carmo e a Trindade, quer por parte do conservacionistas que desde o primeiro momento (e penso que ainda hoje) acham que o parque eólico não deveria ser autorizado naquele sítio, quer por parte dos promotores e seus "facilitadores" na administração, para quem a medida implicaria a inviabilidade do parque eólico.
Leio hoje no Público que o parque foi ontem inaugurado e inclui tecnologias portuguesas inspiradas na NASA para dar cumprimento a esta medida.
Dentro de dois anos, graças às fortes obrigações dos promotores em matéria de monitorização, teremos uma ideia se foi uma boa ou má decisão autorizar este parque eólico.
Eu não sei, sei apenas que aprendi muito em processos deste tipo, quando procurei levar a conciliação da conservação e da actividade económica ao limite do possível, especialmente quando os projectos tinham outros benefícios ambientais inquestionáveis.
E arranjei mais inimigos do que alguma vez pensei ser possível. De um lado e do outro das barricadas, como acontece a qualquer mestiço.
Mas também é verdade que para além de dormir hoje muito descansado, há uns quantos que concordando ou discordando do que digo, demonstram um respeito confortável para comigo.
Thanks a lot, para estes.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, março 01, 2010

O gosto da biodiversidade (epílogo) V


Correu bem.
A ligação entre a alimentação e a paisagem funciona no contacto directo, parece claro que a escolha dos centros comerciais para comunicar está certa (juntamente com as praias são dos mais democráticos espaços públicos que temos), a natureza (esta é a palavra que é mais comum as pessoas perceberem quando se quer falar de paisagem, território, conservação, biodiversidade, etc.) é matéria que claramente interessa às pessoas pelos motivos mais díspares, e o interesse pela compra de terrenos para conservação é muito evidente (e, embora não ao mesmo nível, também o interesse sobre a possibilidade de venda de terrenos que ia aparecendo aqui e ali).
Foi uma acção que se fez pela primeira vez e seguramente aprendemos muito sobre como funciona um centro comercial. O projecto precisa de ser mais bem adaptado às características especiais dos centros comerciais.
Mas o potencial para a área da conservação e sustentabilidade, não aproveitado integralmente desta vez, é mesmo muito grande.
henrique pereira dos santos

segunda-feira, dezembro 21, 2009

O urso e a conservação


Imagem retirada daqui
Ontem, na revista do Público, vinha um extenso artigo sobre o regresso dos grandes mamíferos. Algures pelo meio falava-se na hipótese do regresso do urso pardo.
Aí por 1983/ 84, não sei bem, no meu relatório de estágio de fim de curso tenho ideia de que já dizia qualquer coisa sobre a hipótese (que devo ter considerada teórica na altura) de reintrodução do urso, porque ao contrário do que eu penso que era uma ideia comum na altura (a extinção do urso em Portugal no séc. XVI) eu dizia, baseado na leitura da integral do que escreveu o Abade de Baçal, que provavelmente no Nordeste só se teria extinto no século XVIII (ou melhor, no século XVIII ainda por lá andava).
Sei que durante o estágio discuti esta questão mas não posso verificar exactamente o que disse nesse relatório de estágio porque está perdido.
Vale a pena olhar um bocadinho para este "está perdido" (não é que o relatório valha grande esforço, é verdade, mas a questão não é este relatório mas o conjunto de coisas produzidas no ICNB em circunstâncias semelhantes).
Na altura em que fiz o relatório (ainda sem computadores), entreguei pelo menos um exemplar no PN de Montezinho, penso que dois para a biblioteca da Universidade de Évora, penso que três ou quatro para os membros do Júri (não tenho a certeza, mas seriam Ribeiro Telles, Fernando Pessoa e Alexandre Cancella de Abreu), provavelmente um para o meu orientador (Robert de Moura) e fiquei com um.
Por qualquer razão emprestei o meu exemplar a alguém que não mo devolveu. Fui um dia à biblioteca de Évora, para arranjar uma cópia para mim, os exemplares tinham sido requisitados e não devolvidos, não se sabia por quem, procurei em Montezinho, havia uma técnica que o tinha levado porque tinha estado a trabalhar no Plano de Ordenamento e fui encontrá-lo um dia em Esposende, porque a técnica entretanto tinha assumido a direccção da área protegida e levado para lá "os seus papéis", ou coisa do género, mas quando o procurei outra vez, tinha desaparecido de novo.
Quando Paula Abreu, no ICNB, estava a fazer o notável e solitário trabalho que culminou na biblioteca digital, também não encontrou o dito relatório. (Verifiquei agora, ao procurar o link, que o logotipo da biblioteca digital desapareceu dos destaques no lado direito da Homepage do ICNB).
O que aqui descrevo aconteceu a dezenas de relatórios sobre isto e aquilo, cada um deles não valendo nada de especial, mas que representariam um acervo de informação insubstituível no seu conjunto. Felizmente Paula Abreu resgatou muitos destes relatórios às catacumbas onde estavam espalhados pelo país, digitilizou-os e foram disponibilizados no site do ICNB.
Infelizmente Paula Abreu pediu uma licença extraordinária, o chefe que tinha na altura e que combateu o perfeccionismo da Paula para só publicar tudo quando estivesse pronto e perfeito, em vez de ir publicando o que já existia da forma como existia, que venceu as resistências da informática à disponibilização de documentos frequentemente pesados, que se esteve nas tintas paras as discussões bizantinas sobre os direitos dos autores sobre a informação (embora a Paula tivesse desencadeado muitas iniciativas diplomáticas autónomas para evitar os conflitos emergentes desta postura e apenas uma pessoa tenha recusado a publicação do seu trabalho, isto foi feito contra a opinião da chefia que entendia que quem pagou os dados foram os contribuintes e portanto eram dados públicos e não era precisa autorização de ninguém para os disponibilizar on-line) também pediu uma licença extraordinária e, tanto quanto sei, este trabalho de resgate de informação parou completamente e duvido que seja retomado sem que entretanto se percam mais e mais documentos.
É trágico que os responsáveis do ICNB pela informação e divulgação, ou comunicação e outras coisas do género, se tenham, com poucas excepções, preocupado mais em fazer publicações com mais ou menos interesse e sem qualquer objectivo estratégico que em conservar e salvaguardar a memória colectiva contida em milhares de documentos, incluindo a herança fantástica do arquivo da circunscrição florestal do Gerês, com mais de cem anos.
"Let's sing another song, boys, this one has grown old and bitter"
Retomemos então a questão do urso.
Lembro-me da anterior presidência do ICNB querer fazer da reintrodução do urso um projecto estratégico, tendo toda a estrutura técnica do ICNB (eu incluído) a dizer, por outras palavras, que o Presidente precisava de descanso para retomar a integralidade das suas faculdades.
Na realidade uma coisa é discutir a chegada do urso, eventualmente a adopção a prazo de medidas que explicitamente têm esse objectivo, outra coisa é assumir-se a bandeira política de reintroduzir o urso em Portugal, que continuo a achar que seria um suicídio político.
Mas o mais relevante nisto tudo é que verdadeiramente o quadro geral de alteração da situação, com fortes ganhos para os grandes mamíferos selvagens, deve menos a políticas de conservação da natureza que à alteração do contexto económico e social.
Quase se poderia dizer que, com excepção de medidas de emergência em situações críticas, é bem possível que a situação actual não estivesse longe do que é hoje, mesmo que não existissem políticas de conservação.
Eu sei que não é bem assim, eu sei que existem efeitos complexos, quer de percepção pública, quer de gestão de questões críticas, mas tenho cada vez mais dúvidas que se justifique todo o aparato regulamentar e administrativo necessário, por exemplo, para remover ninhos de cegonha ou ninhos de andorinha.
Por isso as críticas de Bjorn Lomborg à eficiência no uso dos recursos de muitas opções ambientais não devem ser descartadas a correr só porque Bjorn Lomborg comete erros, voluntários ou involuntários, importantes. Aliás, se isto fosse critério, o que não faltam são erros de todos os lados.
Tenho poucas dúvidas que a análise da eficiência das medidas a adoptar será um campo de debate crescente na área da conservação.
Por exemplo, tenho a ideia que para o urso o melhor é deixar correr o marfim. E para o lobo a opção com melhor "value for money" é recriar a conectividade entre o Norte e o Sul do Douro.
Bem entendido, são só exemplos intuitivos para explicar o tipo de discussão que provavelmente vamos ser obrigados a fazer à medida que os recursos disponiveis para a conservação, quer públicos, quer privados, se tornem, como é provável, mais escassos.
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 15, 2009

Os lobos alentejanos

Esta fotografia fui buscá-la a um blog onde vou pouco mas que está nos meus favoritos "Rua dos dias que voam". Devo-lhes a maior parte do que usei para escrever o capítulo sobre Lisboa (melhor dizendo, sobre ordenamento urbano) do livro que publicarei lá para Maio

Um dia destes aconselharam-me a não falar no coelho como presa do lobo, se queria manter um mínimo de credibilidade junto dos especialistas.
Em vez de acatar o conselho sensato, fui lendo aqui e ali coisas sobre a conservação do lobo, até porque a minha credibilidade nesta matéria não tem muito por onde diminuir.
Curiosamente fui encontrando referências ao coelho como presa so lobo (quase sempre marginal, mas com a população actual de coelho, que se estima que seja 5 a 10% da que existia antes das doenças que dizimiram coelhos aos milhões) e, para meu espanto, uma ou outra referência a populações de lobo que têm o coelho como presa preferencial (embora sejam situações pouco frequentes e, naturalmente, em áreas de elevada densidade de coelhos, tanto quanto percebi).
Nessas minhas leituras encontrei um artigo que me deixou bastante contente: “Historical dynamics of a declining wolf population: persecution vs. prey reduction”, de José María Fernández & Nerea Ruiz de Azua.
O que me deixou muito contente foi perceber que afinal há outras pessoas que pensam que a fome pode ser mais importante que a perseguição directa na regressão do lobo na Península, nos últimos dois séculos (mais ou menos).
Na verdade neste post eu tinha questionado algumas ideias comuns sobre o lobo ao verificar que as explicações para a dinâmica da população de lobo descrita para o século XX era incoerente com a dinâmica da paisagem.
Neste artigo, os autores usam um caminho completamente diferente para dizer a mesma coisa, sobre a região concreta que estudaram (o Norte do país Basco, mais ou menos): a análise dos registos históricos do abate de lobos são incoerentes com a estratégia da espécie em situações de perseguição directa e são coerentes com uma situação de stress trófico (que é o mesmo que dizer, com fome).
Curiosamente num mail um dos autores diz-me que partiu de premissas semelhantes às minhas: “en Biología de la Conservación hay algunos tópicos o lugares comunes que impiden diseñar medidas de conservación eficaces. Uno de ellos, que las poblaciones de lobo en Europa declinaron y se extinguieron como consecuencia de la persecución a que fueron sometidas.”.
Não sei o suficiente para avaliar o artigo, sei é que gostei de saber que não estava sozinho nesta discussão e que havia quem, sabendo de lobos seguramente mais que eu, também tinha dúvidas sobre alguns lugares comuns.
E à luz do que fui lendo, ao olhar para a distribuição do lobo em 1930 que reproduzi neste post, fiquei confuso: o que comeriam os lobos alentejanos e algarvios?
Javalis haveria naquelas charnecas com certeza, mas corços? Seriam assim tantos? Ou veados? Ou gamos? E chegavam os que havia, quando a descrição dessas terras e dessas serras é o da desolação que já várias vezes aqui citei a propósito das discussões sobre floresta?
Na caçada que D. Carlos fez em Arronches em 1904 fala-se em dois lobos, um javali e muita caça miúda como perdizes, lebres ou coelhos (obrigado ao Emílio Moitas da EBI de Arronches onde fui buscar esta referência que está nesta apresentação ).
Charnecas e matagais a perder de vista estariam assim infestados de cervídeos que alimentassem as populações de lobo? É que se é certo que o que não faltaria era gado (incluindo porcos de montaria), também o ódio ancestral ao Lobo me parece menos marcado no Sul que no Norte.
E por outro lado a retracção entre os anos 30 e 60 do século vinte pode relacionar-se com a campanha do trigo, com impactos profundos no Alentejo e serras Algarvias, mas parece menos acentuada que a regressão entre os anos sessenta e os anos 80.
Dizer-se que a perseguição aumentou muito nestes últimos anos não me parece que possa sustentar-se em nenhum dado objectivo (embora Emílio Moita, que tenho todo o gosto em citar, faça uma observação judiciosa dizendo que com as alterações provocadas pela agricultura o lobo aumentou os ataques ao gado, aumentando por isso animosidade social contra ele).
Que no século XIX o corço andaria muito mais espalhado que hoje, sem dúvida, nomeadamente no Sul, onde tarda a recuperar. Mas daí a concluir-se que existiam populações de corço (ou de outros cervídeos, como veados ou gamos) em densidades suficientes para manter populações de lobo com as distribuições alargadas que são dadas como válidas, parece-me que vai um arrojo que eu não tenho.
Haverá uma alma caridosa que me saiba explicar o que comiam os lobos alentejanos?
henrique pereira dos santos

terça-feira, dezembro 01, 2009

O sapateiro e o rabecão



Por causa do meu post sobre os lobos e as serras de entre Vouga e Douro, acabei por ter acesso (o documento é público e existe na APA) a um relatório de monitorização do primeiro ano dos parques eólicos da região.
Voltarei, provavelmente, à fantástica (se procurarem no dicionário, fantástico não quer dizer bom, o que não quer dizer que a reportagem não seja boa, quer apenas dizer que o que me fascina na reportagem é ser fantástica, no verdadeiro sentido da palavra) reportagem que o Público fez sobre o assunto mas hoje queria centrar-me num aspecto concreto do dito relatório.
O relatório em causa identifica como principais ameaças às alcateias da zona as seguintes:
1) Os incêndios, porque são um importante factor de degradação do habitat;
2) O aumento da rede viária, porque são um importante factor de fragmentação do habitat, de perturbação e causa directa de morte de lobos;
3) A utilização generalizada de laços.
Todas estas afirmações adequadamente suportadas em referências bibliográficas.
Conheço este elenco de ameaças e reconheço-o como razoavelmente consensual entre os principais investigadores que trabalham em Lobo.
Mas a meu ver estão completamente errados.
Reconheço a arrogância da afirmação, no sentido em que agora aparece um ignorante em matéria de lobos a dizer que os principais investigadores na matéria estão todos errados, como se os outros fossem todos tontos e só ele o inteligente.
Eu sei que a interpretação citada no parágrafo acima é plausível e por isso gostaria de explicar muito bem que o que pretendo fazer é apenas confrontar estas afirmações com duas narrativas paralelas no tempo, feitas pelos investigadores do lobo e que são contraditórias entre si.
O que não é de estranhar visto que uma delas se suporta em matérias nas quais eles não só não são especialistas, como a não estudam: a dinâmica da paisagem.
À primeira narrativa não vou dedicar muito tempo (pese embora a existência de algumas dúvidas que tenha sobre ela e que talvez trate noutro post um dia destes) limitando-me ao essencial: as populações de lobo estão em perda, pelo menos se tomarmos como referencial os últimos 100 a 150 anos, e por isso os lobos destas alcateias estão especialmente ameaçados e fragilizados.
Partindo desta narrativa, procuremos reconstituir as condições em que viviam essas populações de lobo mais ou menos abundantes (pelo menos longe do limiar de extinção em que hoje são colocadas as populações de lobos ao Sul do Douro).
Em vez de adoptarmos a lógica básica que consta da primeira das ameaças descritas (os fogos queimam, logo destroem a vegetação, logo são um factor de degradação do habitat) adoptemos uma posição um bocadinho mais exigente e vamos verificar o que está efectivamente descrito de como seria a região há 150 anos.
"Um dos tractos de terrenos mais extenso, quasi todo inculto e sem arborisação, diz o engenheiro M. C. Corrêa Paes, é a cumiada que separa parte das aguas do Paiva e do Douro...
... onde há notável falta de madeiras, e onde as lenhas se vendem por subido preço, attenta a sua grande falta.
As cumiadas e parte das encostas das serras de Sernancelhe e da Senhora-da-Lapa, completamente calvas em grande parte da sua superfície, cobrem-se de vegetação no seu prolongamento para o lado do NO., de modo que na chã de Leomil, ao descahir para a vertente septentrional da montanha, vê-se o solo não só coberto de mato, mas também de olival.
...Acima das cotas de 600 a 800 metros (serra de Montemuro) sobr o Douro escasseiam a cultura e o arvoredo; n'esta parte mais elevada da serra a vegetação é rasteira, e o granito mostra-se em muitos pontos escalvado. Na cumiada há somentes fetos, giesta, sumagre, carvalheiras, urzes e outras espécies de mato e plantas herbaceas, nas quais todavia milhares de cabeças de gado encontram no estio a sua nutrição.
...A sua arborização (de uma outra área, mais perto de Sever) tem sido tentada por alguns particulares, mas tem-a estorvado a obstinada opposição dos povos, a quem a cultura prejudicaria um pouco, roubando-lhes a regalia do usu-fructo dos matos bravios.
...Se n'este concelho principalmente, e no de Albergaria, não está hoje arborisada toda ou quase toda a superfície de terreno que não vale a pena agricultar-se, ou que o não possa ser, deve attribuir-se tão grande mal a uma prática condemnavel e a um abuso que muito carece de ser reprimido. Refiro-me às queimadas que por este tempo (mez de outubro) se fazem nestes concelhos no matos altos, com o fim de obter e melhorar as pastagens para o gado lanigero que por ali se cria."
Penso que chegam estas citações do relatório àcerca da arborização geral do país, de 1868 (e poderia acrescentar muitas outras) para se ter uma ideia do que era a paisagem e o uso desta zona há cento e cinquenta anos.
Não tenho aqui à mão, mas se se ler "Montemuro, a mais desconhecida serra de Portugal", de 1940, do meu primo Amorim Girão, poderão ter um retrato de como era esta região há quarenta anos, que confirma o essencial do descrito (como o livro não é de fácil acesso, na única vez em que estive com a Presidente da Câmara de Castro Daire ainda lhe sugeri que o reeditasse, fica uma referência para uma tese de doutoramento de fácil acesso, tendo em conta os quase setenta megas, onde se reproduzem fotografias do livro de Amorim Girão que permitem ter ideia do que era aquela paisagem de fragas e vegetação rasteira).
Ora aqui retomamos a narrativa inicial da evolução da população de lobo.
Se a população de lobo era maior, mais contínua e menos ameaçada numa paisagem mais despida, com menos vegetação e com queimadas constantes, como se pode concluir que os actuais fogos são por um lado um factor de degradação do habitat e por outro um facto de ameaça destas populações de lobo? Eu não consigo compreender.
O mesmo poderemos dizer para as vias de comunicação, visto que estas populações já estavam bem ameaçadas antes da construção da A24, pelo que não pode ser este um factor primordial (pode, no máximo, acentuar dificuldades, mas não é a origem das dificuldades). E nem vejo como se possa dizer que estradas de onde os carros saem pouco são um factor indutor de perturbação maior de milhares de cabeças de gado, acompanhadas pelos seus pastores e os seus cães, meses a fio nos sítios mais recônditos da serra (convém lembrar que no Verão não pastavam aqui apenas as ovelhas das povoações da serra, que já de si seriam incomparavelmente mais que as que hoje por lá andam, mas também às dos povos dos vales mais próximos, nomeadamente Douro e Vouga, que eram aos milhares).
Os laços são para mim uma coisa ainda mais estranha: não só ninguém sabe se havia mais laços antigamente que agora, como o mais provável é que houvesse muitos mais antigamente, porque havia muito mais gente por ali, e com um ódio ancestral ao lobo que está mais que documentado.
O que veradeiramente é diferente é a disponibilidade alimentar: não só as milhares de cabeças de gado estão reduzidas a poucas centenas, como a população de coelho será, na melhor das hipóteses, 5 a 10% da que existia, como ainda a perdiz praticamente desapareceu com o abandono do cultivo de cereais de inverno nas cumeadas.
Ou seja, simplesmentes estes lobos têm é fome.
O resto diz mais respeito às histórias do capuchinho vermelho (histórias do centro da europa, passadas na floresta) que à realidade.
henrique pereira dos santos