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sábado, agosto 18, 2012

Eucaliptos nórdicos


Eucalyptus nitens numa plantação serrana no norte de Portugal
Numa monumental gaffe, o comentador televisivo (não o chamaria jornalista) Miguel Sousa Tavares, ao serviço da SIC, concluiu de forma brilhante que, com a proposta de alteração da legislação que regulamenta projetos de florestação de espécies de rápido crescimento, Portugal correria sérios riscos de ter mais eucaliptos que os países nórdicos (ou algo semelhante, porque não consegui verificar com exatidão a frase, uma vez que a gravação do programa foi tirada de imediato do site da SIC após alguém se ter apercebido da asneira proferida pelo menino bonito da estação).

Não é preciso explicar que os eucaliptos não se dão em climas nórdicos. No entanto, esta questão levanta uma interrogação interessante: e se dessem? Nas recorrentes discussões que tenho com as mais diversas pessoas sobre os eucaliptos na floresta e sociedade Portuguesas, está latente a ideia, sobretudo nas pessoas mais críticas à presença desta espécie no nosso País, que a sua presença é sinal de terceiromundismo que, supostamente, caracteriza a política pública e privada florestal em Portugal (opinião que não partilho, como será evidente).

Acontece que, também nos países nórdicos (que começam, para mim, a norte dos Pireneus), a utilização de espécies exóticas é prática corrente, tanto por parte dos serviços públicos como por proprietários privados. Espécies como Pseudotsuga menziesii, Larix kaempferi, Picea alba e P. sitchensisAbies grandis, Pinus nigra e outras do mesmo género, Quercus rubra, Robinia pseudoacacia, Populus das mais diversas espécies e seus híbridos são plantadas, sempre que estas espécies oferecem boas perspetivas da sua valorização. Curiosamente, esta questão não é alvo da caça à bruxa que assistimos cá em Portugal em relação aos eucaliptos. Com o pragmatismo característico dos nórdicos, a questão é colocada na perspetiva da função principal de uma certa área florestal: se sua função é de produção florestal, então há-de-se escolher as melhores espécies em relação a esse objetivo, sem dogmas nem preconceitos. Por isso já assisti, por exemplo nos Países Baixos donde sou natural, à eliminação de Pseudotsugas numa área de conservação e a sua plantação logo ao lado, onde foi atribuída a função de produção.

Voltando à interrogação inicial: e se os eucaliptos se dessem por lá? Eu não tenho a mínima dúvida que, tal como cá, os países nórdicos recorriam à plantação de eucaliptos. Só não o fazem porque os eucaliptos não se dão por essas terras! Por enquanto, porque nas serras de Escócia já foram plantados eucaliptais da espécie Eucalyptus nitens, mais resistente ao frio que o "nosso" Eucalyptus globulus (como a foto acima comprova, tal como o post aqui), na perspetiva de constituirem possíveis culturas energéticas.

Henk Feith
Declaração de interessa: trabalho para ALTRI, grupo que integra a fileira da indústria de celulose. No entanto, as opiniões aqui expressas o são a título pessoal.

sexta-feira, abril 17, 2009

Florestação e solos agrícolas



Num comentário a este post, João M A Soares diz:

"Vejo-o indignado com a hipótese de florestar terras da RAN. Será que considera o uso florestal dos solos como um uso destrutivo ou irreversível dos solos (como o betão e o alcatrão)?Sempre pensei que a "lógica" da RAN era a da preservação dos seus solos e não propriamente o do seu uso "obrigatório" para a produção de bens alimentares que até podem não ser economicamente viáveis(na lógica da antiga e "saudosa" Albânia...). As árvore florestais - cujo comportamento biológico não se afasta das árvores "agrícolas" (macieiras, pereiras e figueiras) - podem ser arrancadas a todo o tempo e no seu lugar podem ser feitos produtos agrícolas.Parece-me..."

Ontem a correr e no meio de outras coisas fiz um comentário apressado que não é compatível, nem com a linearidade de João Soares vir aqui discutir a questão, nem mesmo com a seriedade das questões que são levantadas. Como por outro lado este post é já antigo e poucas pessoas irão ler os seus comentários resolvi agora, com mais calma, procurar esclarecer neste post o que penso sobre o assunto.
A argumentação de João Soares parece-me ser a que está na base da inclusão da florestação na definição de actividade agrícola.
É, parece-me também, uma argumentação falaciosa e passo a tentar fundamentar.
Em primeiro lugar gostaria de descartar a discussão sobre a Albânia dizendo que sim, que a ideia de reserva agrícola tem como objectivo preservar o potencial dos solos agrícolas, independentemente da rentabilidade conjuntural das culturas que lá se possam fazer.
A razão para esta opção é simples: numa economia de mercado aberta (ao contrário do que acontece numa economia de subsistência) há variações conjunturais que levam à desvalorização do solo agrícola face a usos alternativos, implicando a sua ocupação com usos que podem destruir a capacidade produtiva do solo.
Em países onde o solo agrícola é abundante esta situação pode ser relativamente pouco preocupante. Em países em que o solo agrícola é escasso esta é uma falha de mercado grave, em que a racionalidade do curto prazo se sobrepõe à racionalidade do longo prazo (no essencial foi o que sucedeu no mercado financeiro recentemente) e levando à tomada de decisões irreversiveis que implicam a capacidade futura de produzir eficientemente alimentos (essa é a diferença para o mercado financeiro, visto que nesse caso, com mais ou menos custos sociais, a reversão das decisões é possível).
Portanto a questão não está em manter usos agrícolas não rentáveis, a questão está em manter a capacidade produtiva dos solos. Nesse ponto estamos de acordo.
Resta agora discutir se a florestação, qualquer florestação, é irrelevante para a manutenção da capacidade produtiva dos solos.
Parece-me que o exemplo da comparação entre a produção de eucaliptos da forma mais intensiva possível e a produção de maçãs ou laranjas é um bom ponto de partida, desde que a discussão não seja entre o comportamento biológico das árvores mas entre sistemas de produção.
Uma ocupação florestal sem remoção da produção, com árvores de crescimento lento e sem ou com pouca intervenção, pode eventualmente não só manter, como melhorar a fertilidade do solo onde se implanta, mesmo que exista um custo final de arroteamento se se quiser reverter de novo para área agrícola.
Mas uma seara de eucaliptos, com pesadas operações florestais e adubações específicas para o aumento da produção de lenho, com retirada de matos constante, com utilização intensa de máquinas, dificilmente mantém o potencial de produção desse solo. O mesmo se diga para outras espécies.
Estou disponível para ser convencido do contrário do que disse neste último parágrafo, mas se o parágrafo não estiver totalmente errado, faz sentido que uma lei que pretende proteger o solo agrícola não trate indiferenciadamente a agricultura e a floresta.
Diga-se em abono da verdade que eu entendo que a actividade agrícola em solos da RAN deveria também ser condicionada à garantia da manutenção da capacidade do solo, porque também não é verdade que qualquer actividade agrícola seja compatível com a manutenção da fertilidade.
Aqui chegados o que me parece sensato é que um diploma sobre a Reserva Agrícola trate a florestação de uma forma autónoma, procurando balizar que florestações e em que circunstâncias podem ser consideradas compatíveis com a Reserva Agrícola. E quando não são consideradas compatíveis, em que circunstâncias se devem admitir excepções. Por exemplo, acho razoável que existam sistemas de caução bancária para que no fim do tempo de exploração existam recursos para repôr as características do solo anteriores à exploração. Acho razoável que existam soluções de compensação com reposição de fertilidade noutras localizações.
Ou seja, o meu ponto de partida é o de que não faz sentido considerar que explorar florestalmente solos agrícolas é indiferente para a manutenção da sua fertilidade mas não faz sentido lançar sobre a florestação de solos agrícolas um anátema.
São essas discussões as que valia a pena ter feito antes de aprovar um diploma desastroso para o património do país.
henrique pereira dos santos

terça-feira, fevereiro 14, 2006

É necessário desfazer fábulas para discutir problemas sérios


















Imagem da laurisilva nos Açores (Flores). Foto gentilemente cedida por Joaquin Hortal

Se há algo que caracteriza o espírito deste blogue é a convicção de que as questões ambientais devem ser discutidas com base na racionalidade e no rigor.

Alguns pretendem enfatizar alternativas de cariz ideológico no debate ambiental. Esta perspectiva contrasta com uma visão, essencialmente pragmática, que procura identificar os problemas de forma objectiva e encontrar soluções socialmente aceitáveis. Esta visão pragmática assenta nos seguintes pressupostos: 1) o direito [e desejo] a usufruir de um bom ambiente é transversal a toda a sociedade; e 2) este direito [desejo] insere-se numa concepção alargada de “bem estar” onde o qualidade do ambiente e da economia não são indissociáveis.

Estou convicto que uma das condições essenciais para a realização de um debate maduro sobre questões ambientais é que o ponto de partida, o diagnóstico dos problemas, seja realista e fundamentado. O contrário, um diagnóstico distorcido por visões emotivas ou ideologicamente marcadas, será dificilmente partilhado por um espectro alargado da sociedade tendo ainda o condão de gerar antagonismos numa fase de debate demasiado precoce para que de aí saiam soluções úteis. Julgo que o texto do Dr. Jorge Paiva, que aqui se reproduz, é exemplo deste tipo de textos que pouco úteis.

O artigo é estruturado de forma a transmitir a ideia de que os incêndios decorrem da política de eucaliptização levada a cabo em Portugal entre os anos 70-90. Todavia, como é demonstrado pelo artigo de Luís Silva Reis e explicado de forma substantiva pelo Paulo Fernandes, os povoamentos de eucalipto ardem pouco relativamente aos povoamentos de pinheiro bravo. Isto apesar da elevada inflamabilidade do eucalipto. Logo, se o objectivo do artigo de Jorge Paiva era discutir os incêndios e suas causas existe lapso de lógica no enquadramento do problema (se os povoamentos de eucalipto ardem pouco não serão estes que estarão na raiz dos incêndios em Portugal) que revela que a ideologia (neste caso a aversão ao eucalipto) se sobrepõe à análise fria e racional do problema.

É patente que no artigo se valoriza a capacidade de contar uma estória em detrimento do rigor sobre a História. Por exemplo, afirma-se que a floresta antiga de loureiros, a laurisilva, desapareceu no final da ultima glaciação (20 mil anos) e não no final do Terciário (1.8 milhões de anos) como se defende na literatura especializada. Aliás o próprio autor do texto, em fóruns de menor audiência, reconhece explicita, ou implicitamente, este facto. Também se refere que a paisagem glaciar de Portugal se aproximou da Taiga (floresta de coníferas do norte da Europa), quando se sabe que esta se aproximava mais da estepe arbustiva. Proclama-se também que o Pinheiro bravo é uma espécie exótica quando se sabe hoje (ver artigo de Carlos Aguiar) que a espécie é nativa de Portugal. Existem duas interpretações possíveis sobre estas imprecisões técnicas. A primeira é que são lapsos. A segunda é que são “licenças literárias” para melhor contar uma estória cuja eficácia depende do grau de emoção que despertar nos leitores.

A questão essencial não é se o eucalipto está na origem do fenómeno dos incêndios em Portugal (parece ser óbvio que não está), nem se o eucalipto é árvore a abater (postura pouco produtiva). O importante é discutir o tipo de paisagem e estrutura económica que queremos para a floresta em Portugal. Penso que o contributo de Paulo Canaveira é útil para o debate (e original pois não é todos os dias que os técnicos de empresas de celulose entabulam diálogo aberto e horizontal com ambientalistas) ainda que seja importante analisar as causas que subjazem a eucaliptização indiscriminada que ocorreu nos anos 70-90 para melhor entender a situação actual, de moderação no discurso, das empresas de celulose.

Segundo o Paulo Canaveira verificaram-se “erros” económicos pois plantaram-se eucaliptos em áreas marginais para o crescimento das espécies. É verdade mas também é verdade que a política das celuloses não era a de maximizar a produtividade (toneladas por hectare) mas a produção (toneladas). Uma lógica idêntica, aliás, à da campanha do trigo do Estado Novo. Por outro lado o problema da eucaliptização, no contexto ambiental, não se resume a plantações em áreas marginais para a produção do eucalipto. Existe um problema de coincidência entre terrenos disponíveis para plantações (áreas pouco produtivas do ponto de vista agrícola) e áreas de elevado valor para a conservação. Num País cuja cobertura de áreas classificadas para a conservação excede os 21% do território, pode-se dizer que existe um enquadramento legal de base para disciplinar o zonamento da actividade florestal. Um enquadramento que era menos forte quando as empresas de celulose arrasaram a Serra d’Ossa, partes da Serra da Malcata e muitas outras áreas residuais para o Lince Ibérico. Noutros Países, onde as leis ambientais são menos estritas, as empresas de celulose continuam, como aliás não deixa de ser natural, de reger-se por critérios de racionalidade económica pura. Por exemplo, numa visita recente ao Brasil pude observar áreas de mata atlântica (um dos sistemas florestais mais ameaçados do mundo) a serem substituídas por plantações de eucalipto. Ou seja, a moderação do discurso é questão de contexto e isso tem de ser entendido para que a interacção com o sector industrial seja profícua.

De forma geral sou inequivocamente avesso a que áreas de valor para a conservação sejam transformadas em plantações sejam elas de eucalipto, pinheiro, ou outra espécie. Nestas áreas há que procurar trabalhar com o sistema existente tirando partido das valências económicas endógenas. Em Portugal tal rentabilização dos valores naturais tem sido difícil porque temos um tecido social pouco empreendedor que prefere, regra geral, soluções fáceis como a plantação de uma espécie cujo escoamento é assegurado por uma grande empresa. Por outro lado temos um público de utilizadores de paisagem que é pouco exigente em termos de qualidade. Noutros Países com tradições mais empreendedoras e graus de civilidade mais avançados (vide o sul de França) as regiões com valor natural, ou paisagístico, são exploradas economicamente pelos residentes locais sem que tais actividades atentem contra a “galinha dos ovos de ouro”.

Além da fraca capacidade empreendedora dos portugueses, não tem ajudado o facto de o movimento ambientalista se ter entrincheirado em posições que por vezes roçam o anti-desenvolvimento de actividades económicas em áreas de valor de conservação. A recente inversão de discurso ao nível do Instituto de Conservação da Natureza merece um aplauso prudente. Prudente porque temos pouca tradição na matéria e muitas das experiências de desenvolvimento económico têm ido no sentido da destruição de valores mais do que do seu aproveitamento sustentável (a Costa Alentejana e Vicentina é exemplo paradigmático dessa incapacidade de oferecer alternativas de baixo impacte). Mas vale a pena estar atendo e adoptar uma postura construtiva pois a alternativa a soluções económicas fáceis e destruidoras de valores naturais não é, na maior parte dos casos, a ausência de actividades económicas.

Além da questão do zonamento de actividades (um dos aspectos mais polémicos da eucaliptização) é importante discutir as práticas silvícolas adoptadas em plantações de eucalipto, mas também pinheiro, fora das áreas com valor de conservação. A adesão a sistemas de certificação de produtos florestais é o caminho a seguir e é fundamental que, mais do que atacar o eucalipto enquanto árvore, os ambientalistas nacionais não se alheiem destes processos participando, sempre que possível, na definição de critérios de certificação e fiscalização da sua aplicação no terreno.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

O que arde em Portugal quando se fala de floresta?

Por Luís Silva Reis

Para além da óbvia perda económica e da desflorestação que grassa em várias regiões do País, considero não ser linear nem totalmente esclarecedor, por mais paradoxal que pareça, apurar o(s) impacte(s) que os fogos florestais tiveram ao longo do último quarto de século em Portugal. Existem ainda demasiados ângulos de análise e de conhecimento, onde as áreas não se encontram sendimentadas por razões de variada ordem, o que dificulta sobremaneira abordagens sumárias a este tema.

Talvez a questão mais unanimemente aceite será a de que a destruição incidiu sobretudo em áreas de resinosas, nomeadamente pinheiro bravo (PB) e, em menor grau, resinosas de altitude (pinheiro larício, pinheiro silvestre e pseudotsuga).

Mesmo ao nível das espécies resinosas, existem evidências de “contra-ciclo”, como o esforço importante de arborização com pinheiro manso, que ocorreu no decorrer dos anos 90, essencialmente nas áreas do Alentejo, Algarve, Ribatejo e Oeste. Muito provavelmente, este esforço vai fazer com que a área desta espécie dê um salto interessante/visível nas estatísticas do próximo Inventário Florestal Nacional (IFN2006), já contabilizando o desconto da perda de áreas que possa ter ocorrido no distrito de Viseu e do litoral a Sul do Tejo.

Ao nível das cupressáceas, a tendência será, muito provavelmente, equivalente, embora a representatividade destas espécies no panorama português continue ainda ser residual/invisível aos “olhos” do IFN2006.

Antes de me concentrar nas questões mais relevantes, não queria deixar de alertar para uma questão que, mesmo no meio técnico florestal/silvícola português, tem sido sistematicamente subdimensionada ou mesmo desvalorizada. É a que respeita ao desaparecimento das áreas de resinosas de altitude.

É neste contextoque Portugal assiste às mais intensas taxas do poder destrutivo dos fogos, tendo em conta que as áreas destas espécies muito raramente sobrevivem (a não ser em casos de fogos pouco intensos que não atingem as copas, tanto quanto me é dado ver). Ou seja, as áreas ardidas deste tipo de espécies passam rapidamente a áreas de matos.

No espaço de 15 anos, terão desaparecido mais de 10.000 hectares de áreas destas espécies (avalio neste momento em cerca de 50.000 hectares, a área ocupada pelas referidas resinosas). Trata-se de povoamentos de grande interesse florestal e histórico, para além do óbvio interesse económico. Basta fazer contas para prevêr o ano em que estas espécies vão desaparecer do cenário florestal português, se nada mais estruturante for feito para as gerir, já que o nível de arborização é absolutamente residual, permitindo-se que se encerre um capítulo interessantissímo da história florestal portuguesa.

Existem distritos onde estimo que se tenham verificado perdas esmagadoras, como é o caso do distrito de Viana do Castelo. Aqui, para além da área ainda existente no Parque Nacional da Peneda Gerês, só consigo contabilizar mais umas centenas de hectares repartidos pela Serra de Arga, (Serra da) Boalhosa (estes maioritariamente na posse de privados), nas serranias entre o rioVez e o rio Coura e nas entre o rio Lima e o rio Neiva.

Para além do seu valor económico, estas espécies estão normalmente em áreas onde nenhuma outra espécie crescerá de imediato, caso, por hipótese, se proceda rearborização dessas áreas.

Por outro lado, pela sua localização, dificuldade de arborização, etc, prognostico que muitas delas, uma vez ardidas, dificilmente serão rearborizadas, situação que deveria gerar redobrada atenção por quem de direito.

Gostaria de referir que parte da dificuldade inicialmente mencionada, reside no facto de não haver um registo cartográfico sistemático, anual e preciso, a nível nacional, que tenha mais do que 15 anos, o que permitiria, de forma mais evidente, relacionar durante um prazo mais alongado, o fogo e a dinâmica de transformação da paisagem.

Mesmo assim, e retomando o fio condutor inicial, pode afirmar-se que, com toda a certeza, o PB é de longe a espécie mais atingida pelos fogos nos últimos 15 anos. Não me é possível apresentar aqui dados mais estabilizados, mas acrescento que o PB nunca representa, a nível anual, menos de 50% da área florestal ardida, por espécie, havendo inclusivamente um número razoável destes 15 anos em que ronda os 75% da área total ardida.

Este efeito destrutivo é, aliás, visível pelo desaparecimento de pinhais em muitas áreas de PB de Norte a Sul do País, indo certamente confirmar-se esta tendência de regressão no IFN2006.

De entre os fenómenos que muito terão contribuído para este facto destacam-se não apenas o número de fogos ocorrido em áreas de PB, mas principalmente a insistência com que eles ocorrem na mesma área geográfica. Nos últimos 15 anos, dezenas de milhar de hectares de Portugal, foram percorridos, por dois, três fogos e mais fogos.

Em paralelo com este fenómeno, na década de 90 viveram-se anos em que a área de eucalipto (EUC) continuou a crescer em Portugal, muito embora a estratégia de expansão, por parte das empresas de celulose, tenha vindo a alterar-se significativamente. A progressão anual da área de eucalipto em Portugal foi mais intensa nos finais dos anos 80 e no início da década de 90, muito por via directa da acção florestal das referidas empresas, passando para níveis inferiores na 2ª metade da década de 90 e seguintes.

Relembro que no início da década de 90, a área total de EUC já se encontrava acima dos 600.000 hectares.

Em meados da década passada, a expansão passa por um período que denomino de “rentabilização”. As celuloses passam a apostar fortemente na gestão/arborização das melhores áreas para produção de eucalipto em Portugal (essencialmente nos distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria e Santarém), abandonando/transformando as “áreas marginais” e evitando assim repetir erros passados de política florestal e financeiros. Para além disso, adquire outra relevância a “transformação silenciosa” das áreas de PB do minifúndio florestal do Centro e Norte litoral, promovidas pelos seus proprietários, numa acção paulatina em que o corte de uma área de PB, é seguida pela plantação de EUC.

A conjugação destas duas acções permitiu que ao nível das regiões atrás referidas se produzissem/ampliassem áreas consideráveis contínuas de EUC, escassamente entrecortadas, essencialmente por PB, preparando/anunciando a quase inevitabilidade das pirotragédias que nos últimos anos aconteceram e que, infelizmente, penso ainda que vão acontecer nessas regiões, por mais uns anos.

Como referi noutras ocasiões, a área ardida de EUC em Portugal entre 2000 e 2003 manteve-se em níveis inferiores a 5.000 hectares/ano, sendo também o cenário dominante na década passada. Embora não possa agora apresentar dados mais concretos, avanço que houve vários anos na década de 90 em que a área ardida de EUC foi residual (inferior a 1.000 ha) e, salvo erro, pelo menos um, no qual subiu a patamares em torno dos 5.000 ha. Este foi um período durante o qual o EUC se expandiu de forma contínua em Portugal, com uma aparente contenção dos efeitos perniciosos dos fogos florestais, muito por via do efeito conjugado de uma gestão florestal mais activa e de acções de prevenção/combate mais eficazes, em comparação com as exercidas por parte de outros proprietários florestais.

Estou em crer que a área de eucaliptal em Portugal já se encontra no patamar dos 800.000 hectares, aproximando-se da área de PB (ou mesmo disputando a primazia?), espécie que entretanto sofrerá uma queda importante e situar-se em patamares abaixo de 1.000.000 de hectares.

Hoje em dia, como já referi, a aposta clara da expansão do EUC em Portugal passa pela arborização, essencialmente nas áreas de reconhecida qualidade para o efeito.

Não queria ainda deixar de referir que, especialmente nos distritos do Norte, se assiste com frequência à propagação seminal de EUC (e até a um comportamento que localmente se pode configurar como espécie “pré-invasora”), sem que no entanto estes padrões de comportamento tenham qualquer expressão significativa para a progressão da área de EUC em Portugal.

Deixo ainda uma última nota de reflexão final, ao nível das folhosas, já que do meu ponto de vista, existe uma espécie deste grupo florestal que, tem tido a Norte, uma tendência equivalente, à do pinheiro manso a Sul. Essa espécie é o castanheiro.

Em 1995, o IFN estimava a existência de cerca de 70.000 hectares desta espécie, e no decorrer dos últimos 15 anos, apesar dos problemas fitossanitários que afectam o castanheiro, houve um esforço de arborização importante, na sua esmagadora maioria promovida por pequenos proprietários agro-florestais, essencialmente nos distritos de Bragança, Vila Real e na parte norte da Guarda e Viseu, o que conjugado com um menor impacte do efeito dos fogos, vai certamente promover a representatividade desta espécieno contexto nacional.


Engenheiro Florestal

terça-feira, janeiro 31, 2006

“Eucaliptização” e vulnerabilidade aos incêndios

Por Paulo Fernandes

Porque arde com tanta intensidade e em tão grande extensão o pinhal e o eucaliptal nacionais? Porque regra geral constituem manchas extensas e contínuas, em estado de abandono ou sub-gestão, de espécies que produzem combustível de qualidade e em quantidade. Jorge Paiva ao referir-se à perigosidade do eucalipto dá no seu texto alguma ênfase ao contributo dos respectivos óleos e resinas, que culmina na frase “ … quando a madeira do eucalipto começa a arder, [os óleos] provocam a explosão dos troncos e respectiva ramada, lançando ramos incandescentes a grande distância”. A composição química da vegetação é na verdade apenas um dos vários factores envolvidos, desempenhando um papel relativamente menor na propagação e intensidade do fogo.

Vegetação com mais substâncias voláteis pode ser mais inflamável, mas este efeito é em muitas espécies anulado ou moderado por outros factores. Um exemplo evidente são espécies como a esteva ou o alecrim, que malgrado a sua composição química são bastante menos inflamáveis que o tojo, por exemplo. É então mais relevante considerar a combustibilidade, ou seja a libertação potencial de energia, conceito distinto do potencial de ignição, e que condiciona a severidade de um incêndio. Da biomassa disponível para arder – uma conjugação da quantidade existente com o seu teor de humidade, dimensão e posição relativamente ao fogo – e do seu arranjo espacial dependem essencialmente a severidade do fogo. Acontece que espécies razoavelmente produtivas e cuja biomassa morta é decomposta lentamente, como o são o pinheiro bravo e o eucalipto, acumulam combustível com rapidez e em quantidade, especialmente em ambiente mediterrâneo (onde a decomposição é já naturalmente lenta).

A presença dos óleos e resinas na vegetação está usualmente associada a um maior poder calorífico. O eucalipto tem cerca de 21000 Joules por grama de poder calorífico, valor considerado relativamente moderado e algo abaixo de certas urzes (Erica arborea, por exemplo) que, sem substâncias voláteis na sua composição, se aproximam de 24000 Joules por grama. As “explosões” a que Jorge Paiva se refere não são mais do que a inflamação dos gases libertados pela biomassa quando é aquecida. O eucalipto é exuberante em "explosões" porque é rico em voláteis, mas tal não acarreta necessariamente fogos mais intensos. Note-se que, contrariamente ao pinhal, raras vezes é o eucaliptal percorrido por fogo de copas, a não ser em plantações mais jovens e/ou em terreno muito declivoso. A inflamação dos gases leva ao envolvimento de mais biomassa na combustão, mas certamente não origina a explosão de troncos, que nem sequer ardem, a não ser que estejam mortos ou sejam bastante finos.

Um factor que concorre em extremo grau para a ameaça colocada pelo eucalipto, e que dificulta sobremaneira o combate ao incêndio, são as características aerodinâmicas das folhas e cascas, que possibilitam os abundantes e conhecidos focos secundários a longa distância (500 a 1000 m). Em todo o caso valores modestos em comparação com os 20 a 30 km de "saltos de fogo" que estão documentados para certas espécies de eucaliptos, felizmente confinadas à Austrália. É este fenómeno que explica a generalizada prática Australiana de execução de fogo controlado em eucaliptal em grande escala, receita que aliás aplicam também ao pinheiro bravo, a fim de simultaneamente aumentar a facilidade de combate de um incêndio e reduzir o seu potencial de produção de focos secundários.

Incêndios de grande intensidade provenientes de pinhais, eucaliptais e matos são usualmente facilmente extinguíveis e reduzem a sua severidade para níveis não letais ao entrarem em bosques caducifólios, devido à natureza do combustível dessas formações, aumento da humidade e redução do vento. Pode este efeito ser conseguido em pinhal e eucaliptal? Certamente, mas a obtenção de resultados práticos exigiria um esforço considerável de gestão de combustíveis e de silvicultura preventiva. O sucesso de uma estratégia deste tipo, no nosso País, está à partida limitado pela debilidade do combate a incêndios que, fatalmente, desperdiçaria essas oportunidades. E a sua implementação será na maioria das situações uma quimera, dada a escala espacial de intervenção que é requerida. Mas não tão irrealista como a proposta de arranque de toiças de eucalipto advogada por Jorge Paiva …


Engenheiro Florestal, Departamento Florestal, Universidade de Tras-os-Montes e Alto Douro

Pinheiro e eucalipto: caminhos para actualização de atitudes e posições no movimento ambientalista

Por Carlos Aguiar

Haverá pouca gente que sinta um misto de amizade, gratidão e admiração pelo Dr. Paiva tão profundo como eu. Além das qualidades humanas e da generosidade como activista pela causa ambiental, admiro no Dr. Paiva o saber botânico e o trabalho Científico que produziu, e produz, nesta ciência em Portugal (para quem não sabe, o Dr. Paiva é editor de alguns dos volumes da Flora Iberica, talvez a mais prestigiosa obra de taxonomia botânica Europeia pós Flora Europaea). Alguém tão perseguido pelos seus pares por delito de opinião como o Dr. Paiva entende que as suas posições públicas estão sujeitas a um escrutínio atento e cuidadoso. Além do mais, o Dr. Paiva sabe que a sua opinião conta e, por isso, escreve com um evidente intuito de estimular a discussão e de abanar as mentes. Como ambos recusamos o beija-mão das ideias dominantes, julgo seria incorrecto para com ele e para com os leitores deste blogue não assumir a minha discordância com algumas das suas opiniões.

O preâmbulo paleoecológico do artigo do Dr. Paiva foi já suficientemente dissecado [nota do blogue: este aspecto será abordado noutro "post"] . Por isso, vou focar a análise numa questão paralela ao texto do Dr. Paiva: é o pinheiro-bravo indígena de Portugal? Ser ou não ser autóctone faz toda a diferença porque condiciona a interpretação da acção dos serviços florestais durante o séc. XX. A informação paleoecológica disponível é peremptória, o Pinus pinaster é indígena de Portugal!


Durante grande parte do Holocénico co-existiram no território português dois ecótipos distintos: um litoral e outro continental. O ecótipo litoral é indígena, pelo menos, dos sistemas dunares a norte da Figueira da Foz e das paleodunas sadenses. O ecótipo continental foi extinto pelo Homem através da acção combinada do encurtamento do ciclo de recorrência dos fogos, sobrexploração e poluição genética. Este ecótipo ocupava solos delgados, sobretudo em encostas de grande declive; possivelmente alternava nos mesmos espaços com Querci, num ciclo controlado pelo fogo. Lamentavelmente, as arborizações feitas no interior do país foram realizadas com o ecótipo litoral (a maioria dos sementões portugueses estão nas matas nacionais do centro-oeste) daí as fraquíssimas taxas de crescimento nos territórios mais mediterrânico-continentais (algo que ninguém sabia no início do séc. XX).

Do ponto de vista técnico, as arborizações com Pinus estão correctamente justificadas no Plano de Povoamento Florestal (1938-1968) ou no "Reconhecimento dos baldios do continente", documentos, diga-se de enorme solidez e substância técnica. Está escrito que os Pinus actuariam como espécies pioneiras que, além de produzirem riqueza, abririam caminho aos Quercus e à reconstituição de fertilidades perdidas (reparem nos objectivos de emulação dos sistemas naturais). A ideologia subjacente aos planos de arborização era simples: produzir riqueza e restaurar a fertilidade do solo num país pobre, sobrepovoado e sem recursos naturais, profundamente degradado pelo Homem, de fraca aptidão agrícola e com uma enorme falta de matérias lenhosos. Os objectivos de produção de riqueza e de restauração ecológica foram cumpridos enquanto as premissas sociais dos planos de arborização i.e., as características dos sistemas sociais não se alteraram. No meu entender, é injusto apontar um dedo acusador aos idealizadores do Plano de Povoamento Florestal porque este dificilmente podiam prever que o fogo acabaria por atrasar os objectivos de criar um Portugal mais produtivo, e que seria o abandono a abrir caminho aos Querci. De facto, para já não falar nos sistemas de preços e no controlo estatal dos mercados, os sistemas sociais nas sociedades modernas mudam a um taxa francamente superior à duração do ciclo biológico das árvores: por isso é tão difícil planear a floresta.

A conclusão avançada pelo Dr. Paiva " ... pinhais e eucaliptais contínuos, os incêndios florestais tornaram-se não só frequentes, como também incontroláveis. Desta maneira, o nosso país tem já algumas montanhas transformadas em zonas desérticas" necessita de ser clarificada. Na realidade, as montanhas e outras áreas marginais onde o pinheiro (e o eucalipto) têm baixos crescimentos anuais e são pouco rendáveis, utilizando a metáfora do deserto, voltaram a ser o "deserto" que eram. Portanto, a crítica maior às arborização em áreas marginais, concretamente de montanha, tanto de Pinus como de Eucalyptus, não é uma hipotética degradação do território mais sim o enorme desperdício de recursos públicos e privados para tudo ficar na mesma, i.e., um mau investimento da riqueza num país pobre. Quando os erros começaram a ser percepcionados - e o movimento ecologistas foi essencial neste processo - as políticas públicas e os comportamentos demoraram demasiado tempo a mudar, em grande parte por causa o hábito nefasto, que nos caracteriza e persiste, de não fazermos contas e de nada monitorizarmos. As empresas de celuloses, após a mudança de uma lógica pública para uma lógica privada, aprenderam com o erro e rapidamente arrepiaram caminho: investiram em I&D e concentraram as suas actividades onde o eucalipto é rentável … e o mesmo pode acontecer com o pinheiro-bravo. Como os critérios de eficiência e eficácia económica, por atavismo ideológico, demorou (demora?) a impregnar ao Estado, as políticas estatais de arborização continuaram a propagar e a repetir os mesmos erros por muito tempo (até hoje?).

Agora vamos ao eucalipto. A questão que se põe é a seguinte: devemos repudiar a cultura do eucalipto? Esquecer a floresta de produção e dedicar os recursos públicos aos Querci? Começo por expor as minhas dúvidas. Alguém já estudou a taxas de rentabilidade associadas à produção de eucalipto? Por outras palavras, nas áreas onde o Eucalipto é rentável, e estas são cada vez menores com a expansão por exemplo do Eucalyptus grandis (e derivados híbridos) no Brasil, esta cultura compromete significativamente o seu uso futuro? Estamos a passar uma factura pesada para as gerações futuras? Vejamos. É maior o impacte (controlo) nos usos futuros da agricultura de eucaliptos, porque na realidade é isso que se trata (o eucalipto fertiliza-se e cuida-se como uma árvore de fruto), do que usos alternatives como sejam o cultivo de cereais, o corte tradicional de matos ou a produção de mato para arder, e a consequente exportação de nutrientes? Por exemplo, no médio-longo prazo, a hipotética produção de energia a partir de biomassa, defendida pelo actual governo, não será ambientalmente mais gravosa do que a produção de eucaliptos? Para onde irão as cinzas da oxidação das lenhas nas centrais de biomassa? Não bastaram já 5000 anos de "nutrient mining" nas paisagens portuguesas? Na realidade, o eucalipto é tão estranho aos ecossistemas portugueses como o milho, o trigo, o pessegueiro ou a amendoeira. O seu efeito simplificador (ou de substituição) das biocenoses autóctones não é maior do que um milheiral regado com um pivot ou um campo de cebolas numa maceira do Minho. As dificuldades em restaurar os espaços cultivados com eucalipto são bem menores do que num baldio queimado de 5 em 5 anos. Mais perguntas. Não é verdade que a fertilização do eucalipto garante a manutenção da fertilidade do solo de uma forma francamente mais eficiente do que os cereais extensivos "criados" à custa da mineralização da matéria orgânica? e que a cerealicultura deixa o solo bem mais exposto à erosão do que árvores e as toiças dispostas ao longo de curvas de nível? Nas áreas onde o eucalipto é rentável o efeito facilitador da agricultura de eucaliptos nos Querci não é maior do que os pomares macieiras ou aveleiras ou a cerealicultura? E recupero mais uma vez a velha questão: onde é maior o impacte da produção de uma tonelada de pasta de papel? No Minho ou na baixa fluminense? Mais; é ambientalmente mais vantajoso produzir uma tonelada de papel num sistema semi-intensivo ou extensivo (i.e. numa área de maior dimensão)? Portanto, partindo do princípio que o papel é indispensável, a bandeira ecologista nos dias de hoje não pode ser a mesma de há 20 anos atrás.


O movimento ecologista tem que lutar, sim, 1) pelo fim das transferências de riqueza, mediadas pelo estado, através de benefícios fiscais e subsídios, para as celuloses e para produtores florestais irresponsáveis; 2) pugnar por políticas e um planeamento florestal a escalas cartográficas cada vez mais pequenas, em que os custos de oportunidade dos usos sejam quantificados (e.g. substituição de bosques nascentes por monoculturas). A produção de riqueza com a agricultura de eucaliptos tem de ser real e as suas taxas de rentabilidade alteradas (provavelmente reduzidas), através da internalização das suas externalidades negativas (por exemplo, taxas sobre a redução na recarga dos aquíferos e sobre a erosão), mas também das suas externalidades positivas (fixação de carbono). Adicionalmente, é fundamental a internalização das externalidades positivas das folhosas (o que no entanto já tem sido parcialmente feito através dos apoios à florestação) e, para evitar enviesamentos, não esquecer a internalização das externalidades negativas de usos alternativos como a cerealicultura. Como há já alguns anos defendi na AMBIO os critérios de eficiência económica têm cada vez de estar mais próximos do pensamento ecologista.

No meu entender a crítica radical contra o eucalipto de hoje é, sobretudo, ideológica, e, por definição, não refutável. Consequentemente, por uma questão de honestidade científica, estou acordo com as posições do Paulo Canaveira. Não há que ter medo da transferência do eucalipto para antigas áreas agrícolas, pelo contrário! Esta modificação da geografia agro-florestal seria francamente favorável porque libertaria as áreas marginais para a conservação da Natureza e para a produção de bens e serviços que nos são indispensáveis (amenidades, ciclo da água, etc).

Agora, a luta do Dr. Paiva foi inútil? Não, de modo algum? Alertou para os perigos da conivência entre o poder político e as falsas promessas de riqueza. A sua luta foi sobretudo contra a ignorância, a incoerência e contra um estado amador e dominador: portanto, estou com ele.



Engenheiro Agrónomo , Escola Superior Agrária de Bragança

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Eucalipto: O Dogma

Tendo o artigo de Jorge Paiva como mote seguir-se-ão alguns artigos, ou comentários, provenientes de pessoas que se manifestaram publicamente sobre o referido texto quando este foi divulgado na lista AMBIO. Sugere-se igualmente a leitura de um texto anterior, de Pedro Bingre, que ajuda a contextualizar o tema em foco. O primeiro destes textos que agora se publicam é de autoria de Paulo Canaveira. Espera-se que do saudável confronto de opiniões se contribua para aprofundar uma matéria que é do interesse generalizado de muitos os que lêem este blogue.


Por Paulo Canaveira

Nos anos 70/80 observou-se uma rápida alteração de paisagem. O eucalipto (na verdade várias espécies de eucaliptos) presente no nosso País há muitos anos subitamente passa de uma espécie ornamental e de produção de sombra para a ribalta da comunicação e da luta ambiental.

Porquê? Porque estava em curso uma (muito) rápida mudança da paisagem portuguesa com a expansão de plantações de eucalipto um pouco por todo o País. Na altura os promotores dessas arborizações acreditavam que o eucalipto poderia crescer igualmente bem em quase todas as condições do nosso território, bem como constituir-se como alternativa num contexto agrícola que apresentava os primeiros sinais de declínio. Por outro lado, o crescimento industrial dessa altura ditava uma pressão de arborização que assegurasse o abastecimento da matéria-prima em quantidade e qualidade suficientes.

O processo foi obviamente rápido demais e generalizado demais. É hoje notório que o eucalipto não é uma espécie que possa ser produzido em qualquer ponto do território. Existem várias situações que ilustram estas “tentativas falhadas” – vejam-se os eucaliptais em Mértola, por exemplo.

A reacção não se fez tardar e o movimento ecologista levantou-se contra esta dinâmica da paisagem. Motivavam-no justas preocupações com a qualidade do solo, consumo de água e redução de biodiversidade. Alguns dos projectos falhados alimentavam com argumentos esta luta e generalizou-se e cristalizou na sociedade portuguesa este conceito de “árvore demónio”, hoje aparentemente inatacável.

A par destes projectos falhados foram feitas muitas arborizações com um enorme sucesso produtivo. A capacidade de produção de fibra e a qualidade da fibra produzida não têm par com as espécies de árvores da flora nativa de Portugal.

Ainda assim, subsistiam dúvidas legítimas sobre o impacto ambiental do eucalipto que era necessário esclarecer. Isso motivou uma investigação e experimentação sem precedentes na história florestal (e agrícola) deste País. 20 anos dessa investigação mudaram muita coisa – desde as variedades de eucalipto utilizadas, às práticas de gestão “recomendadas” e postas em prática no terreno.

O que hoje observamos no território português, quando falamos de eucalipto, é uma mistura de projectos falhados, projectos com uma gestão amadora e projectos com uma gestão altamente sofisticada, apoiada na melhor ciência disponível. Por outra perspectiva, observamos projectos de eucalipto bem localizados (em termos edafo-climáticos) e projectos em locais que não suportam condições adequadas para esta espécie.

Faz sentido, na situação actual, falar dos benefícios ou malefícios do eucalipto? Eu acho sinceramente que não. A diabolização ou o endeusamento da espécie enquanto espécie não faz qualquer sentido técnico e científico.

A questão que coloca o debate na sua dimensão correcta, face à diversidade actual, é: em que condições é que o eucalipto (ou melhor dito a silvicultura do eucalipto) pode, com evidentes ganhos económicos e reduzido impacto ambiental, ser produzido?

Para que esta questão se possa debater é preciso não tratar o eucalipto como um dogma, mas sim tratar a cultura do eucalipto como um problema técnico e científico para resolver. Como com qualquer outro problema científico é preciso revisitar os pressupostos do suposto impacto ambiental e do suposto ganho produtivo e económico e perguntar:

1. À luz do conhecimento actual (muito diferente do ponto em que estávamos à 20 anos atrás) qual é o impacto do eucalipto sobre o solo, água e biodiversidade?

2. Este impacto é igual em todas as situações geográficas? E em todos os sistemas de gestão e práticas culturais?

3. É possível, para os impactos identificados como significativos, desenvolver, testar e implementar soluções de gestão que os reduzam ou anulem?

4. Em que condições (locais e práticas de gestão) é possível produzir eucalipto em quantidade e qualidade suficientes? Como controlar e optimizar os custos de gestão e exploração deste tipo de floresta para garantir um retorno aceitável para os proprietários?

5. Que questões não esclarecidas satisfatoriamente devem orientar a política científica em torno desta espécie?

O que me parece é que o movimento anti-eucalipto está confortavelmente sentado sobre o seu dogma da “árvore demónio” e a simples sugestão de que nem tudo no eucalipto é intrinsecamente mau é combatida com a insinuação de que os mentores dessa argumentação só podem ser comprados, corruptos ou de uma completa irresponsabilidade social.

Pessoalmente, não me revejo em nenhuma das categorias anteriores, e tento apenas manter a mente aberta e confrontar os prós e os contras de qualquer actividade humana – todas as têm.

O paradigma ambiental do montado de sobro (outro dogma nacional) não é inimputável do ponto de vista ambiental, tal como não o é nenhuma actividade de gestão de espaços naturais.

As diferenças de opinião são normais e saudáveis num País que se quer democrático, mas a opinião deve surgir sobre um contexto técnico e científico verdadeiramente sólido. As causas ambientais (ou as industriais), particularmente quando são justas, nada ganham com a manipulação, ampliação, generalização abusiva ou distorção de informação. Os balanços de opinião (informada) e, principalmente, o terreno médio construído a partir de posições inicialmente antagónicas, é o que podemos designar por “desenvolvimento sustentável”.

Felizmente, existem sinais encorajadores de movimentos ecologistas dispostos a questionarem-se e a alargar a sua visão do problema. Permitam-me que lhes sugira uma leitura de um texto do WWF, IUCN e CIFOR “Fast Wood Forestry – Miths and Realities” http://assets.panda.org/downloads/fastwood.pdf onde o movimento ecologista faz uma revisão dos mitos e realidades que rodeiam o debate sobre plantações.

Pela minha parte subscrevo este documento, até porque basicamente conclui que os impactos das plantações são altamente dependentes do contexto em que se desenvolvem, mais do que das espécies envolvidas. Reconhece também o importante papel das plantações na satisfação de necessidades humanas crescentes em produtos com origem florestal e nas vantagens relativas em utilizar plantações para este fim, face às outras opções, tipicamente provindas de florestas “naturais” ou de recursos não-renováveis.

Sejamos nós capazes em Portugal de revisitar os nossos dogmas e de construir um caminho económica, social e ambientalmente sustentável, digno de cidadãos preocupados e de indústrias responsáveis.


Engenheiro Florestal de interesses ambíguos: por um lado trabalho para indústria papeleira, por outro sou gestor de 200 ha de carvalhal e de 50 de galeria ripícola, de amieiros e freixos: tudo espécies "boas" e à prova de fogo - mas que já vi arder!