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terça-feira, novembro 23, 2010

Est modus in rebus

Um leitor abespinhou-se com o que eu disse sobre a paranóia higienista e os seus custos ambientais e sociais.
A sua crítica tem dois pontos (aos outros respondi nos comentários ao post).
O primeiro diz respeito ao meu uso de uma hipérbole, quando classifico o ideal da assépsia presente na paranóia higienista. É simplesmente uma questão de gosto literário e portanto passo à frente.
O segundo é mais de fundo. Eu falei da regulamentação, ou seja, da aplicação de regras pelo Estado para garantir a saúde pública. O leitor responde-me com política industrial. Isto é, eu defendo que o Estado deve definir regras em função de objectivos e fiscalizar esses objectivos, o leitor acha que isso não faz sentido porque não é assim que o produtor deve proceder.
Felizmente não sou só eu que acho isto: Claas van der Linde e Michael Porter, num artigo que cito amiúde, Green and Competitive, dizem exactamente o mesmo da regulamentação ambiental. E mais, dizem que esta é uma característica base para que a regulamentação ambiental provoque inovação e competitividade.
Confundir as funções do Estado e as funções do director de qualidade da entidade produtora é meio caminho andado para a asneira e resulta do facto de haver burocratas que acham que os outros são idiotas e não sabem o que é melhor para si próprios.
Esta convicção de superioridade intelectual, de conhecimento e moral é muito frequente nos paranoicos higienistas (e, já agora, nos ambientalistas), o que os leva a querer que as pessoas façam o que eles querem e não apenas que, fazendo cadaum o que quer, o resultado final não colida com o bem público.
O exemplo dos panos de cozinha ou dos papéis descartáveis é evidente.
Há com certeza riscos no uso de panos de cozinha. E há duas formas de lidar com isto: ou se considera esse risco inaceitável e se impõe o desaparecimento dos panos de cozinha (que é a solução em vigor) ou se considera que o risco é do produtor e se produz uma regulamentação que leve o produtor a considerar esse risco a sério nas suas decisões, por exemplo, impondo pesadas penalizações se se verificarem quebras de higiene decorrentes dos panos (e, já agora, dos papeis descartáveis). O produtor tem a liberdade de escolher o que faz, desde que o resultado esteja dentro de parâmetros definidos.
O mesmo se diria para o uso de produtos. Eu vendo os bolos fabricados por quem quiser, mas sou responsável se uma fiscalização detectar produtos em más condições. E responsável quer dizer pesadas sanções e uma fiscalização eficaz.
Não há nenhuma razão para definir em concreto a forma de produzir os bens (excepto para coisas muito específicas e de elevado risco, como as mioleiras das vacas ou alguns produtos de limpeza cancerígenos), pretendendo com isso obter um resultado concreto.
Que nas instalações industriais e de certa dimensão se imponham algumas regras básicas faz sentido, mas lembro-me bem de que o único sítio onde até hoje vi retretes turcas em Portugal (aquelas que são no chão) foi nas instalações industriais que regulamentarmente estavam obrigadas a tê-las (eram aliás apenas colocadas para a vistoria que concedia o licenciamento, porque os trabalhadores se recusavam com frequência a usá-las, pelo que logo que licenciada a instalação industrial se trocavam por retretes a sério, como aquelas a que qualquer português está habituado a usar. Já nessa altura o argumento era o da higiene, mas curiosamente o argumento só existia para a indústria, que para as áreas de serviço das auto-estradas, por exemplo, onde as casas de banho são muito mais usadas, nunca vi tal tipo de retretes, nem os concessionários aceitariam porque isso significaria perder muitos clientes).
E há duas razões para recusar esta lógica prescritiva em vez da orientação para resultados: 1) porque isso penaliza injustamente quem faz bem mas diferente (artesanal, de pequena escala, com fecho de ciclos na produção, com produtos não industriais, por exemplo); 2) Porque na verdade o que conta mais neste tipo de negócio é a vontade do produtor, e mesmo cumprindo formalmente todos os requisitos um produtor desleixado nunca terá bons resultados, sendo pouco penalizado por isso (excepto pelos clientes, provavelmente).
De qualquer maneira acho curioso que se invoque a discussão com a indústria alimentar para justificar as regras. Exactamente porque é a indústria alimentar a mais beneficiada com esta forma de funcionar, eliminando concorrentes incómodos através da proibição dos factores que lhes permitem compensar desvantagens de escala através da especificidade.
E também acho muito interessante que para qualquer regra ambiental haja discussão pública, fundamentação da regra, estudos específicos e etc., e que no caso da paranóia higienista falemos sempre sem termos com clareza números sobre intoxicação alimentar, mortes por má qualidade de produtos e coisas que tal, em especial com segmentação por sectores, separando os resultados da indústria dos resultados do artesanato alimentar.
Numa coisa o leitor tem toda a razão: eu sou um ignorante neste assunto. Mas tenho o direito a fazer as perguntas que quiser e a que me respondam racionalmente, com dados empíricos e razões sólidas que expliquem por que razão tenho de suportar custos ambientais e sociais que me parecem excessivos.
A mim e a muita gente.
Responder que quem não alinha na paranóia da assépsia é um bruto, infantil, ignorante que quer dar lixo aos pobres não acrescenta nada a não ser conhecimento sobre quem responde assim.
henrique pereira dos santos

domingo, novembro 21, 2010

A paranóia higienista e a sustentabilidade

Fotografia tirada daqui
Há já algum tempo que tinha ideia de fazer um post sobre isto.
Uma mensagem na lista Ambio, com referência a esta petição, acabou por servir de pretexto.
Não está em causa, naturalmente, negar a importância das regras de higiene e saúde pública associadas à alimentação em locais públicos.
O que está em causa é a psicose com os procedimentos, em detrimento da avaliação concreta dos produtos.
O Estado, por opção ou por demissão, desisitiu de verificar a qualidade do que é servido, resolvendo o problema definindo com o maior rigor possível as condições de produção facilmente verificáveis.
E para o fazer assumiu a assépsia como um valor absoluto.
A primeira vez que tive consciência do imenso impacto ambiental desta opção foi quando uma vizinha minha, dona de um café, me explicou que todos os panos de cozinha e limpeza foram banidos do café, substituídos por sistemas descartáveis. Era indiferente a impecável limpeza existente no café e nos panos, papéis descartáveis é que tinha de ser.
Ainda recentemente, numa das acções de formação que tenho num projecto que visa aumentar o uso de produtos locais e produtores de biodiversidade, projecto esse orientado para os restaurantes da zona, um dos participantes dizia que não podia, se quisesse, ter um porco (ou mais) que criaria para garantir a qualidade do que servia. Ou melhor, poder, podia criá-lo, até era possível, embora com alguma complicação, ir abatê-lo ao matadouro, mas depois, se quisesse ter banha de qualidade no restaurante não podia. Ter um caldeiro de banha industrial ordinária, com certeza, isso podia, porque o processo de produção estava controlado. Mas ter um caldeiro próprio de banha de boa qualidade (devo dizer, um produto hoje muito difícil de obter) só se comprasse um caldeiro de banha ordinária, a deitasse fora, e enchesse o caldeiro da banha da sua produção, fingindo que era industrial (como ninguém controla verdadeiramente o produto a coisa passaria facilmente).
Se eu for um estudante que queira arredondar o meu orçamento fazendo umas bolachas que a senhora do quiosque venderia, não posso. Porque o produto não presta? Não, porque o Estado em vez de controlar o produto quer controlar o sítio onde se faz e as exigências são as da produção industrial.
Os exemplos seriam muitos.
Mas o mais chocante é mesmo o que se passa no encerramento dos supermercados, em que dezenas de pessoas esperam pelos caixotes do lixo cheios de alimentos em perfeitas condições que o supermercado não pode dar, mas pode pôr no lixo onde os interessados os vão buscar sem qualquer controlo.
Não ignoro as dificuldades práticas desta petição, mas faz sentido lutar contra o desperdício em nome de uma assépsia ideal que todos sabemos que não serve as pessoas, e dentro destas, muito menos serve as pessoas mais pobres.
henrique pereira dos santos

domingo, novembro 14, 2010

Ainda o IVA para uma alimentação sustentável

Motivado pela crónica do Ricardo Garcia (e pelo pedido subsequente de uma ONG para colaborar numa discussão sobre o assunto) olhei para o IVA de uma factura de compras de hoje.
É uma factura pouco característica cá de casa porque se trata de uma ida a um supermercado a que normalmente não vou, motivado por objectivos específicos.
Mas ainda assim surpreendente.
O IVA de 23% ficou reservado a um frasco de pimenta (nós que demos a volta ao mundo para a trazer para cá, agora consideramo-la um produto de luxo) e a uma mão-cheia de camarão com que irei dar gosto a um molho branco mais daqui a pouco. Razoavelmente justo, mais no camarão que na pimenta, perfeitamente aceitável do ponto de vista da sustentabilidade (o camarão provavelmente até mereceria uma taxação maior).
O IVA mais pequenino reflecte a ideia de que os produtos lácteos, que são tudo menos sustentáveis, são muito importantes na alimentação, nomeadamente das crianças. Do ponto de vista da sustentabilidade é um absurdo. Mas vamos admitir que seria preciso encontrar um equilíbrio com o pessoal do nutricionismo (ninguém conhece alguém ligado ao ensino desta coisa, agora que até há uma ordem profissional da profissão? É que tenho a ideia de que andam completamente a Leste do que seja a sustentabilidade). Seria por isso razoável taxar o leite simples no mínimo. Mas uns iogurtes claramente excessivos que comprei? Francamente não vejo razão para isso. Os iogurtes simples, ainda vá, mas os outros?
O peixe goza do mesmo estatuto de IVA reduzido. Nada a apontar se eu não tivesse comprado peixe congelado. A congelação é o método mais insustentável de conservação que conheço, por mim todos os congelados iam para o IVA máximo.
O mais curioso está no IVA intermédio.
Tremoços. Não costumava comprar, mas um dia o Chef António Alexandre serviu-me uma salada de sapata seca (sapata, não sapateira, inclui-se na procupação do Chef António Alexandre recuperar produtos desvalorizados, como o peixe seco) onde se incluíam uns tremoços. Passei a incluir tremoços em muitas das saladas que faço e por isso os comprei. Uma cultura pobre, que normalmente entra na rotação para azotar a terra (como as outras leguminosas), ou seja, uma clara muleta de uma gestão sustentável na agricultura a quem os teóricos das finanças atribuem o estatuto de marisco pobre para acompanhar cervejas, e portanto não taxam como o camarão, porque pobre, mas taxam a mais que os iogurtes, uma coisa totalmente insustentável nos nossos sistemas produtivos.
Mais estranho, as azeitonas (também entram muitas vezes nas saladas). Azeitonas? As azeitonas em Portugal estão no IVA intermédio? Taxadas acima do peixe e da carne e do leite? Alguém consegue explicar? Deve ser por serem consideradas um aperitivo.
Parece-me que vale a pena começar a olhar para o assunto numa óptica de sustentabilidade.
henrique pereira dos santos

domingo, julho 25, 2010

e o doido sou eu!



Na última sexta-feira, em debate televisivo emitido transmitido pela SIC Notícias, um dirigente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP) considerou que a possibilidade de abertura de grandes hipermercados aos domingos à tarde responder ao interesse dos cidadãos não é uma boa justificação. Como exemplo, afirmou que apesar de poder dar muito jeito a muita gente, não passaria pela cabeça de ninguém que, por exemplo, as repartições de finanças passassem a abrir ao sábado.
Pois… eu bem sentia que as minhas ideias de que o Estado serve os cidadãos e não o contrário eram grosseiro despautério :S
Gonçalo Rosa

sábado, julho 24, 2010

a nostalgia da mercearia de bairro


sacado do blogue Humor Antigo

A decisão da abertura de hipermercados com superfície superior a 2000 metros quadrados ao domingo à tarde passa para as mãos das autarquias (ver aqui). Esta possibilidade que agora se abre, e que vem no sentido do que desde há muito defendo, parte do princípio liberal de que os interesses dos cidadãos devem ser atendidos e de que o Estado, em defesa do comércio tradicional (basicamente, tem sido esse o principal argumento dos agentes políticos), não deve criar regulamentação que distorça o mercado.      
A ideia de defender o comércio tradicional em detrimento dos grandes hipermercados, é fundamentalmente sustentada pelo pressuposto de que o comércio tradicional emprega mais trabalhadores que as grandes superfícies (se compararmos o que faz algum sentido comparar, ou seja, número e diversidade de lojas mais ou menos equivalentes entre os dois conceitos) e alicerçada na opinião de uma considerável parte da população que padece do que vulgarmente chamo de “nostalgia da mercearia de bairro”, maleita essa que é suficientemente sentida para que se delibere sobre a vida dos outros, apoiando a proibição legal da abertura de grandes hipermercados aos domingos à tarde, mas suficientemente suave para que, mesmo que pagando preços mais elevados entre outras desvantagens, se compre no comércio tradicional.
Para muitos de nós, hipermercados e grandes superfícies comerciais apresentam-se muito mais atractivos que o comércio tradicional. E não é difícil perceber porquê. Preços globalmente mais baixos, enorme variedade de produtos e serviços oferecidos concentrados numa área fácil percorrer a pé (sendo isto válido para o grandes hipermercados, é-o a maior escala para os grandes centros comerciais onde muitos daqueles se inserem e onde habitualmente existem lojas diversas, agências bancárias, cinemas, restauração, etc.), facilidade de acesso e de estacionamento, horários ajustados às necessidades dos clientes, maior conforto em dias com condições climatéricas adversas (chuva, temperaturas extremas) parecem compensar o serviço tendencialmente mais personalizado das pequenas lojas do comércio tradicional.
Alguns partidos, como o PCP e o BE, reforçam a ideia de um eventual menor número de postos de trabalho (mais uma vez, comparando o que faz algum sentido comparar), proporcionado pelos grandes hipermercados relativamente ao pequeno comércio, pressuposto este contrariado pelos grandes grupos económicos que beneficiam com esta medida e que defendem exactamente o oposto. Apesar de não conhecer estudos que analisem este ponto, parece fazer sentido que, balanço feito, se percam postos de trabalho. Mas o que contesto é a lógica de distorcer o mercado, regulamentando-o, de forma a salvaguardar postos de trabalho em prejuízo dos interesses do cidadão comum que até aqui não podia optar por fazer compras num hipermercado ao domingo à tarde. Aliás, esta tentação é análoga à justificação de alguns agentes políticos para a execução de algumas obras públicas, de interesse público questionável, mas que, na sua fase de execução, garantem emprego.
Há ainda quem argumente que esta liberalização representa um apelo ao consumo. Se, por um lado, não duvido que a nossa sociedade é tremendamente consumista, com todos os problemas – nomeadamente ambientais - que isso implica, tenho muitas dúvidas que passe a consumir muito mais por causa da abertura de grandes hipermercados aos domingos à tarde. Em boa verdade, a enorme maioria dos portugueses não consegue, sequer, aforrar dinheiro, pelo que, no essencial, o que esta abertura implicará será uma transferência do consumo no pequeno comércio para os grandes hipermercados. Aliás, é este pressuposto que está na origem das preocupações de quem opera no comércio tradicional.
Por fim, ouço preocupações com a eventual destruição da instituição Família que, desta forma, ao fim-de-semana, se arrastaria para os grandes hipermercados aos domingos à tarde, dispensando um saudável e caseiro convívio familiar ou mesmo num qualquer jardim da sua aldeia, vila ou cidade. Acontece que tenho tremendas dificuldades em estabular pessoas, preferindo, por isso, deixar ao critério de cada um a forma como usa a sua liberdade. Se prefere recorrer ao comércio tradicional em vez de comprar em grandes superfícies, se decide passar a tarde de domingo com a família, amigos, sozinhos, em convívio ou andar às compras num qualquer hipermercado. Enfim… tentações liberais.
Gonçalo Rosa

domingo, abril 18, 2010

Porque não...

Publicidade tirada aqui

Algo se passa na publicidade de atividades ambientalmente impactantes. Depois da campanha da EDP, que em primeiro lugar foi uma prova de força entre a empresa e o movimento ambientalista (ganho pela EDP, sem dúvida), vimos agora a Oliveira da Serra avançar com uma campanha, muito bem delineada no meu entender de consumidor (não sou especialista em publicidade), que assume a estratégia empresarial da marca de forma clara.

A marca afirma que quer plantar o maior olival do país, e passo a citar: "Todas elas (as quintas com olival - HF) fazem parte da nossa ambição em ter o maior olival do país e transformar Portugal num dos maiores produtores de azeite do mundo. Ou mesmo o maior. Porque não?". A mensagem é clara e ancorada em visões sobre o futuro desenvolvimento de Portugal: O nosso produto é bom e podemos fazer com que Portugal seja um grande produtor.
O crescimento da capacidade de produção passa pela plantação de olival (super) intensivo. As fotografias utilizadas na campanha mostram de facto esse tipo de olival, mas numa perspetiva romântica, com neblina matinal qb e aparentemente uma paisagem bonita. Essa imagem romântica contrasta com a realidade da cultura intensiva a base de rega, fertilizantes e pesticidas, cujo impacte ambiental ainda está por apurar e para o qual o movimento ambientalista está a começar a alertar.

Quando pergunta diretamente ao consumidor: Porque não?, torna o cúmplice de um objetivo que une empresa, consumidor e (brilhante) o País e retira espaço de manobra à crítica ambiental (algo de semelhante se passou com a energia eólica cujo capital de simpatia se baseia na ideia de contribuir para um bom comum: energias renováveis).

No entanto, a questão é mais complexa na perspetiva do consumo. Portugal é deficitário em azeite: consome muito mais que produz. O consumo de azeite está a aumentar ao nível mundial e isto coloca questões de sustentabilidade da sua produção. Para satisfazer este aumento de consumo, muito promovido devido à excelente qualidade do azeite como alimento e seus benefícios em termos de saúde, a solução passa pelo aumento da produção, quer isto dizer pela expansão do olival (super-) intensivo. Os azeites "gourmet", tanto na moda e porta-estandarte do alimente dos elites, nunca poderão satisfazer esta procura e mesmo esses são produzidos à base de azeitonas de olivais intensivas.

Como sempre, o mais fácil é dizer: "olival superintensivo em Portugal nem pensar". Assim ficamos com a bonita, tradicional e pobre paisagem alentejana e importamos, de consciência tranquila, azeite proveniente de olivais superintensivos Espanhóis, Gregos, Chineses (não tardará) ou seja lá donde for.

Mais difícil é: assumir que queremos consumir azeite, de preferência Português, portanto vamos lá discutir os impactes ambientais da cultura intensiva e ver como se pode conciliar os objetivos de produção e de salvaguarda de valores como o solo, a água e a paisagem. Eis um desafio interessante para os próximos tempos.

Henk Feith

quarta-feira, dezembro 30, 2009

A rolha e o boicote - parte 2

Dando continuidade a uma resposta minha a este post do HPS, resolvi enviar um e-mail à empresa que produz o vinho em causa (Quinta do Côtto), no dia 1 de dezembro. Recebi ontem a resposta do CEO da empresa (Sr. Miguel Champalimaud), datada de 16 de dezembro.

Penso que a resposta, aparentemente pública, é muito interessante, e surpreendente pela forma e conteúdo. Sendo bastante extensa, merece uma análise cuidadosa, mas para já não queria privar os leitores do Ambio da leitura da resposta.

Em breve procurarei transmitir a minha interpretação da resposta num terceiro post sobre esta matéria, que me parece muito relevante pela atualidade e pela visão sobre ambiente, comércio e conservação.

O texto do meu e-mail à Montez-Champalimaud foi o seguinte:

Ex.mos Srs.,
Recentemente foi publicado nos meios de comunicação escrita um anúncio do seu conhecido vinho Quinta do Côtto, no qual se destacava o facto da tradicional rolha de cortiça ser substituída por um vedante tipo "screwcap".
Este anúncio foi recebido por muitas pessoas com desagrado e reprovação, considerando o facto de a rolha ser um elemento importantíssimo na sustentabilidade económica de um ecossistema característico de Portugal e de elevadíssimo valor ambiental e social: o montado de sobro. Com o exemplo que a sua empresa está a dar, mostra a sua insensibilidade para a preservação do montado de sobro e, com ele, todo um sistema socio-económico das zonas rurais de Portugal.
Estou plenamente ciente das vantagens comerciais dos screwcaps, mas também estou em crer que a utilização da rolha como evidência do empenho ambiental e social da sua empresa e do contributo que dá à sustentação de um elemento que pertence à herança ambiental e cultural de Portugal. A rolha é, em vez de um problema meramente técnico, uma excelente oportunidade de comunicação com o exigente público consumidor dos seus (excelentes, que se diga) vinhos.
Para ver que o seu anúncio não ficou despercebido, veja: http://ambio.blogspot.com/2009/11/por-mim-boicoto.html
Com os meus melhores cumprimentos,
Henk Feith


Segue aqui a resposta:

Apreciadores de Vinhos e Outros

Assunto: ScrewTop /TampadeRosca /Quinta do Côtto

Na sequência da recente campanha publicitária ao vinho Quinta do Côtto, chegaram-me algumas reacções à mesma.

Sendo minha opinião que todo o debate de ideias, é útil, é com agrado que a ele me submeto, respondendo directamente àqueles que se me dirigiram e indirectamente àqueles que sobre a matéria, vinho e vedantes, têm curiosidade e opinião.

Para simplificação da elaboração dos meus comentários/resposta às reacções, dividi-os em quatro grandes tipos, a saber:

A. A gente da indústria corticeira, ex. APCOR, Ecologicalcork.com, Empregados das Corticeiras, etc, etc,.

B. A gente do Viva a Pátria, ex. cortiça produto nacional, a preservação do montado de sobro, do ambiente, de todo um sistema socioeconómico das zonas rurais de Portugal, ecossistemas únicos, etc, etc.

C. A gente da tradição dos costumes, do produto natural, etc, etc.

D. A gente da retaliação e boicote, etc, etc.


ROBERT PARKER disse:

“Acredito que em 2015, vinho engarrafado com rolhas será uma minoria. A indústria da cortiça não investiu em técnicas que evitem a transmissão ao vinho do sabor e aroma a rolha, que arruínam até 15% de todo o vinho engarrafado”.


Eu, MIGUEL CHAMPALIMAUD, digo:

“Sou a favor da inovação, da qualidade e modernidade do vinho”;

“sou a favor da verdade achando que chegou a altura de assumirmos, ao nível da indústria-vinícula, o que há mais de 40 anos, por razões óbvias, se usa em todas as universidades e ou centros de investigação vinícola, os screwtops/tampasderosca, único sistema vedante que garante eficazmente o não contágio do vinho que se encontra na garrafa, por produtos aromas e sabores que lhe são estranhos”;

“sou a favor da eficácia e produtividade e contra as falácias e os preconceitos que só defendem e servem aqueles que estão instalados à custa do bem-estar e pobreza de terceiros”;

“numa garrafa de vinho, a rolha é apenas uma matéria subsidiária, um vedante que deveria preservar o vinho que a garrafa contém e nunca arruiná-lo”;

“sou a favor dos ventos da História, recusar o progresso científico e tecnológico de nada serve, nem serviu então àqueles que, no seu tempo, foram a favor da destruição das máquinas a vapor”.


1. Dito o que, é minha convicção, sinto e penso, permitam-me deduzir e aduzir alguns argumentos e factos sobre a matéria, screwtops/tampasderosca versus rolhas de cortiça, a saber:

1.1 A gente da indústria corticeira é a única responsável pelas dificuldades com que se debate a rolha de cortiça e os produtores de cortiça. Ao não investirem há muitos anos na qualidade e fiabilidade do produto e aumentando desmesuradamente os preços das rolhas, abriram espaço aos novos vedantes nomeadamente às screwtops/tampasderosca. Os produtores de cortiça constituindo o elo mais fraco do sistema, não deixam de ser responsáveis de, pela sua falta de reacção, individualismo e passividade, terem permitido que se tenha constituído um quase monopólio no lado da industria que, abusando da sua posição dominante a montante e a jusante, sugou até ao tutano a industria vitivinícola nacional e internacional.

1.2 A gente do viva a Pátria como sempre e é próprio da História recente de Portugal, é um grupo social, reaccionário, que a coberto do amor dos outros pela pátria e do interesse dito nacional, se enriquece diariamente, empobrecendo todos os dias todo o país, pelo que nada mais há para lhe dizer, a não ser que há muito, ninguém acredita neles.

1.3 A gente da tradição dos costumes, do produto 100% natural, não resiste à realidade dos factos que todos vêem e eles não querem ver. Como todos sabemos na indústria vinícola, a rolha de cortiça como vedante de vinho, não é parte da tradição e costume. Há poucos anos (40 a 50), a tradição e o costume do vinho em todo o lado, era ser servido e bebido a partir da pipa, pelo que cai pela base a alegada ancestral tradição e costume de vedar as garrafas de vinho com rolhas de cortiça. Quanto ao 100% natural, não vêem nem querem ver o que todos na industria da cortiça e vinícola sabem há muito - todas as rolhas de cortiça são hoje tratadas com diversos produtos químicos, visando obter rolhas que em contacto com o vinho não lhe transmitam poeiras, odores e sabores alheios ao vinho que é suposto preservar, como vedante da garrafa em que são utilizadas.

Cito um pequeno exemplo constante do site Lusowine.com, António Amorim, defendendo como lhe compete a indústria da cortiça, falando das rolhas técnicas como a grande solução, diz: “Nas colagens são utilizados aglutinantes quimicamente estáveis, e mecanicamente muito resistentes”.

Diria, eu, pela indústria corticeira, são utilizadas colas químicas estáveis, segundo o Senhor António Amorim, o que não nos garante nada, na medida em que o Senhor António Amorim é interessado directo na afirmação de que tais aglutinantes ou melhor dizendo, colas, são quimicamente estáveis e não vão mais tarde ou mais cedo transmitir odores e sabores ao vinho com o qual por força das coisas estão em contacto.

1.4 A gente da retaliação e boicote, não representam mais do que a reacção de um grupo de pessoas com falta de informação e ou a mando e no interesse de terceiros que, na falta de argumentos sólidos para atacarem o moderno sistema dos screwtops/tampade rosca e defenderem o antiquado sistema de rolha de cortiça com o seu elevado deficit de fiabilidade/qualidade e custo 5 a 9 vezes mais elevado que o screwtops/tampaderosca, fazem consciente ou inconscientemente, o jogo de quem, ao abrigo de um quase monopólio e permanente abuso de uma posição dominante, usa e abusa da indústria vinícola nacional e internacional, enriquecendo ilicitamente à custa do empobrecimento daquela.


2. Antes de terminar, a título pedagógico e para reflexão de todos os interessados, deixo factos, comentários e perguntas que abaixo se transcrevem e que agradecia originassem reflexão, comentários e respostas:

2.1 a tampaderosca evita mão de obra penosa em casa e na industria hoteleira;

2.2 a água mineral com gás ou sem gás, há muito que deixou de usar cortiça como vedante;

2.3 a cerveja há muito que deixou de usar cortiça como vedante;

2.4 os medicamentos há muito que deixaram de usar cortiça como vedante;

2.5 os refrigerantes há muito que deixaram de usar cortiça como vedante;

2.6 uma tampa-de-rosca custa cerca de 1/5 a 1/9 de uma rolha de cortiça e a respectiva cápsula;

2.7 um produtor de vinho paga mais dinheiro por uma rolha de qualidade do que recebe pela venda a granel do respectivo vinho (refiro-me a 0,75 lt);

2.8 de acordo com dados da industria estima-se que cerca de 65% do vinho engarrafado vendido no mundo é comprado por mulheres;

2.9 estima-se ainda que 75% das mulheres que compram e bebem vinho têm dificuldade em abrir uma garrafa de vinho usando um saca rolhas;

2.10 de acordo com o norte americano Robert Parker, famoso apreciador e avaliador de vinhos, até 15% de todo o vinho engarrafado e vedado com rolhas de cortiça, está afectado com sabores e aromas estranhos ao vinho;

2.11 porque é que ninguém protesta ou boicota a industria de água mineral, cerveja, refrigerantes, medicamentos que deixaram de usar a cortiça como vedante?

2.12 porque será que todos aqueles sectores industriais deixaram de usar a cortiça como vedante?;

2.13 porque é que na indústria da construção não se usa, em Portugal ou no mundo, a cortiça como isolante?;

2.14 Porque é que na indústria da construção se usa, em Portugal e no mundo, como isolante produtos derivados do petróleo?;

2.15 Se for comprar uma garrafa de água mineral e tiver oportunidade de escolher entre uma garrafa vedada com rolha de cortiça e outra com tampaderosca, ao mesmo preço, qual delas compra?;

2.16 idem para garrafas de leite?;

2.17 idem para garrafas de cerveja?;

2.18 idem para garrafas de refrigerantes?;

2.19 Se comprar uma televisão para sua casa, compra também um armário para a pôr lá dentro, como fazia a sua avó ou avô nos anos 60?;

2.20 Quando vai comprar ou abrir uma garrafa de vinho fá-lo na expectativa de comer/beber a rolha?;

2.21 numa garrafa de vinho barato ou caro o que é mais importante, a qualidade intrínseca do vinho que lá está dentro, ou o vedante ser uma cara rolha de cortiça ou uma tampaderosca moderna barata, fiável e eficiente?


16 DEZ 2009

terça-feira, dezembro 01, 2009

natal up-to-date






 Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam-se microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge do céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa e passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão-Ferreira
Cancioneiro de Natal, 1969

Gonçalo Rosa

sábado, novembro 28, 2009

A rolha e o boicote


Henrique Pereira dos Santos afirmou neste post que boicotava uma marca conhecida de vinhos por ter substituído a rolha por um "screwcap" metálico (presumo eu, porque não é explícito).

Como terá sido para muitos, também estranhei a publicidade, sobretudo pela frontalidade em que assumiu um assunto sensível como os vedantes artificiais a substituir a clássica rolha de cortiça.

Acontece que, na verdade, não é a rolha que preocupa os boicotantes (nos quais me incluo), porque ainda ninguém apelou à utilização de rolhas nas restantes garrafas que usamos, todas com vedantes artificiais, para não falar das garrafas plásticas, elas totalmente feitas de produtos de origem fossil. Preocupa a sobrevivência do ecossistema montado de sobro, que passa obrigatoriamente pela valorização mercantil da sua produção. E a rolha é dos produtos com maior mais-valia do montado (mas não é o único, felizmente).

A rolha é um vedante de luxo, mesmo para o vinho, que somente nas últimas décadas se vulgarizou na embalagem dos vinhos. Antigamente, grande parte do vinho, mesmo o engarrafado, não usavam rolhas mas sim cápsulas plásticas (quem não se lembra das garrafas de 1 litro de vinho corrente, tão em uso nas zonas rurais até há relativamente pouco tempo).

Para compreender a substituição, devem esquecer um pouco a nossa lusandade (isto existe?) e ver o vinho como um produto de mercado global, em que se combate taco a taco com produtores de todos os continentes.

Os vedantes artificiais, nomeadamente os "screwcap" (ainda não encontrei tradução adequada), têm como vantagens serem mais baratos, mais práticos e não afetem a qualidade de vinho, como fazem as rolhas com TCA, substância que provoca o "sabor a rolha". A sua principal desvantagem é de não apoiar uma produção rural que suporte um ecossistema de elevada relevância em termos de biodiversidade (o montado de sobro), para além de ser de origem fóssil.

Em viagem recente à minha terra natal (Holanda), verifiquei que mais do que metade das garrafas de vinho comercializadas tinham como vedantes screwcaps ou rolhas plásticas. Ao questionar a minha irmã, pessoa com inteligência bem acima da média e razoavelmente consciente em termos ambientais, sobre a opção por vinhos com rolha natural, ela respondeu de forma surpreendente: "mas que bom que finalmente acabaram com aquelas rolhas chatas! São muito mais práticos os screwcaps, abro e fecho quando quiser. Antes era frequente querer abrir uma garrafa e não ter sacarrolhas à mão. Já tentaste fechar uma garrafa com uma rolha?". Ao explicar a importância do ecossistema montado para a conservação de muitas espécies ameaçadas, ela encolheu os ombros e afirmava que não era motivo para escolher uma garrafa de vinho com rolha de cortiça.

Para os portugueses pode ser uma argumentação inacreditável, mas para compreender o comportamento de grandes empresas como a do Montez Champalimaud que produz o vinho Quinta do Cotto, que procuram sobretudo os mercados internacionais, clientes como a minha irmã são relevantes, e se a sua satisfação passa pela utilização de screwcaps, que assim seja. Se esse screwcap ainda por cima
for mais barato e não tem o problema do TCA, então quem ainda tem dúvidas?

Quer dizer que devemos resignarnos com a invasão do mercado com screwcaps? De todo. Empresas como Montez Champalimaud são sensíveis a factores que afetam a sua imagem. Por isso, não é muito eficiente "boicotar" a compra desse vinho (é de gama média alta, vi o referido venho por uns 8€ no supermercado), isso não aquece nem arrefece a casa do Montez. Já muda de figura se passa a enviar
e-mails, dezenas, centenas, milhares de e-mails a chamar à responsabilidade da empresa as consequências da sua opção. Por isso, para além de não comprar o referido vinho (e as restantes que vão surgindo no mercado nacional), chateia-os, pedindo explicações sobre as suas opções.

Boa sorte!

Henk Feith

terça-feira, outubro 20, 2009

Is less bad good enough?

Ecoponto no subúrbio de Santarém

Uma das questões relevantes na análise da sustentabilidade do uso dos recursos naturais se prende com a inversão da curva de consumo mundial, fortemente ascendente, não só em consequência da subida do nível médio de riqueza dos países em desenvolvimento como China, Índia, Brasil e Russia, mas também da alteração dos padrões de consumo no mundo ocidental. Verifica-se por um lado um multiplicar de apelos ao consumo racional e à redução do desperdício e por outro lado um esforço de muitos cidadãos em responder positivamente a esses apelos. No entanto, grande parte desse esforço é dedicada à minimização dos impactes a jusante do nosso consumo (reciclagem, tratamento de efluentes e emissões gasosas, reutilização etc.) e muito pouco a montante do consumo.
O tema da reciclagem de resíduos é um excelente exemplo e a foto acima mostra que o sistema de recolha de resíduos previamente separados pode tornar-se vítima do seu próprio sucesso. Com equipamentos cada vez mais práticos para a receção dos resíduos (já lá vai o tempo dos feios e infelizes caixotes castanhos com aberturas minúsculas, altas e frequentemente nojentas que dificultavam a colocação das embalagens), a aderência dos cidadãos é surpreendente e obriga as empresas de recolha a um trabalho suplementar para evitar o esgotamento da capacidade.
Se por um lado esse sucesso é francamente positivo (Portugal corre sérios riscos de atingir as metas estabelecidas por Bruxelas, o que não é mal para variar), ao mesmo tempo mostra o outro lado da medalha: as quantidades de resíduos que são produzidos em consequência do nosso consumo são inimagináveis. Eís um bom exemplo (entre muitos) da questão: será que o "less bad" (reciclamos entusiasticamente) é "good enough" para o consumo se tornar realmente sustentável? Ou será o consumo somente sustentável a longo prazo se consegue encarar a questão da sustentabilidade pelo lado a montante do consumo, da redução do consumo?

Henk Feith

quarta-feira, outubro 14, 2009

quanto basta? (parte 2)



Mulher de meia-idade, trabalhava, desde muito nova, numa pequena fábrica de materiais plásticos na margem sul. Ali conhecera aquele que mais tarde viria a ser o seu marido e que ainda hoje era seu colega de trabalho. Ganhavam pouco mais que o ordenado mínimo, que lhes dava para pagar o aluguer do pequeno T1 onde viviam e para manter o velho Citroen Visa onde também viviam duas horas por dia, durante a mísera dúzia de quilómetros que percorriam da casa para o trabalho e do trabalho para casa. O que sobrava dava à justa para as restantes despesas mensais. Comida, água, luz, gás e telefone e pouco mais. Os dias eram passados entre o trabalho, o caminho de e para casa e a lide doméstica. À noite, estoirada, adormecia poucos minutos após se prostrar em frente do televisor. Os passeios de fim-de-semana pelo grande centro comercial a dois passos de sua casa, compunham a rotina semanal de Maria, apenas quebrada por uma ida à praia nos dias mais quentes do Verão. Do outro lado das montras, sonhava com roupas e sapatos que não podia ter, com móveis e electrodomésticos de casa de ricos que via na telenovela da noite, enfim, com um sem número de bens, que entendia como essenciais e cuja compra, talvez mais do que a posse, parecia ingrediente essencial rumo à felicidade.

Sem fazer nada por isso, a sorte caíra-lhe do céu, aos trambolhões, por altura da morte do seu pai, há pouco mais que um par de anos atrás, viúvo havia muitos anos, com quem não falava depois de enormes discussões aquando as partilhas de bens da sua mãe. Para Maria, o seu pai vivera os seus quase 90 anos miseravelmente quando, pelo menos nas últimas duas ou três décadas, poderia ter uma vida bem mais folgada. Certo era que o Sr. Prudêncio deixara um par de casas, uma na vila e outra na aldeia, bem próximo de um belo terreno com sobreiros e pastagens, cuja renda e venda da cortiça davam para ir levando a vida e até amealhar algum dinheiro. E Maria, filha única, preocupou-se em vender tudo o melhor possível, sem que isso pusesse em causa a rapidez com que o pretendia fazer.

Achou-se merecedora de uma bela casa e comprou um T4, novinho em folha, que fazia a inveja das suas amigas. Porque todos os electrodomésticos e velhos móveis – uns oferecidos por algum familiar, outros, de aparite e contraplacado, daqueles de montar – pareciam não condizer com a frescura do novo apartamento, decidiu comprar tudo de novo, tudo do bom. Afinal, a sua nova condição de dona de casa por opção dava-lhe tempo para tudo isso. Decidiram ainda desfazer-se do velho Visa e comprar um jipe, que rapidamente adquiriu o estatuto de bem essencial, embora bebesse como uma esponja e as revisões na oficina da marca custassem uma pequena fortuna. As idas ao restaurante que ainda há pouco apenas aconteciam somente em dia de aniversário, vulgarizaram-se, a ponto de perderem até um certo encanto que pareciam ter e o sonho de poder comprar aquele vestido ou par de sapatos, converteu-se inicialmente numa doce realidade, agora num acto quase mecânico.

Acontece que o dinheiro não é fêmea e, nos últimos tempos, Maria e o seu marido, deixaram de ter liquidez para manter este estilo de vida e deprimem com o cenário presente e com o que virá. Venderam o jipe que, apenas com um par de anos permitiu encaixar algum dinheiro e aliviar as despesas adiando o futuro. Maria, voltou a trabalhar, agora num pequeno café, ganha sensivelmente o mesmo que na pequena fábrica e continua basicamente a fazer o mesmo. Coisas que não gosta.

É fácil imaginar que, brevemente, cortarão a televisão por cabo, controlarão muito mais o crédito nos telemóveis, escolherão alimentos e outros produtos de uso doméstico quase exclusivamente pelo preço e, finalmente, acabarão por vender a casa para comprar ou alugar outra muito mais modesta. E aos fins-de-semana, voltarão a percorrer os corredores do centro comercial por entre a multidão, olhando para as montras como toda aquela massa de gente que sonha com o que não pode ter, achando que a sua felicidade passaria exclusivamente pela vivência daqueles sonhos. 

Gonçalo Rosa

terça-feira, outubro 13, 2009

quanto basta? (parte 1)



Praia de Palmo e Tostão, Santa Luzia, Cabo Verde

Todas as madrugadas, naquele lapso de tempo que o sol não reclama o que a noite renega, Nhô Cruz descia a velha montanha, pedregosa, cujas arestas mais não eram que velhas rugas e a aridez das encostas sua pele seca desejosa por um dilúvio, por pequeno que fosse.

Chegado à grande praia, percorria o extenso areal procurando as velhas e grandes tartarugas que, ano após ano, procuravam o sítio onde viram pela primeira vez a luz do dia, bem antes de, ainda menino, correr pelas ruelas da Povoação Velha, na ilha da Boavista. Desde que, ainda jovem, vira uma grande tartaruga chorar a sua morte, às mãos e facas de uns pescadores do Sal Rei, que se convencera irremediavelmente que estas mais não eram que reencarnações de pessoas. Antes preferia tentar meter conversa com alguma que, já tarde na madrugada, se atrevera a galgar as areias daquela praia deserta, arriscando um sol abrasador que desde as primeiras horas do dia se fazia sentir naquela época do ano. Não raras vezes, ajudava uma tartaruga que se perdia no caminho de regresso à água. O pobre animal acelerava o passo ofegantemente, certamente sem perceber que o maior susto da sua vida coincida provavelmente com o maior rasgo de sorte. Nhô Cruz ganhava o dia.

Já pela manhã, entretinha-se a pescar nas rochas que ditavam o fim da Praia de Palmo a Tostão. Três ou quatro peixes de quilo depois, voltava à pequena casa que ele mesmo construíra com pedras e placas de madeira que apanhava no norte da ilha. A água doce retirada do seu pequeno poço que, naqueles anos, nunca secara, dava para beber, cozinhar, lavar-se, tirar a sede às suas cabras e galinhas e regar a sua pequena horta que milagrosamente crescia naquela terra tão pobre. Evidentemente, não tinha luz eléctrica e as noites eram sorrateiramente iluminadas por uma pequena vela ou pelo velho candeeiro, quando conseguia um pouco de petróleo trazido por algum pescador de Santo Antão. Salgava o peixe para precaver dias de mar menos generoso e produzia tanto queijo das suas cabras que boa parte acabava por se estragar. Uma ou duas vezes por mês, de preferência após mar revolto lançar à praia tudo o que não lhe pertencia, visitava a Praia dos Achados, onde conseguia enormes bocados de madeira. Uma parte, ele mesmo utilizava para fazer lume, a outra acabava por, conjuntamente com os queijos, servir de moeda de troca. Era assim que, quando a ilha era visitada por um bote de pescadores, conseguia arroz, alguma fruta, grogue, petróleo ou fósforos que tanta falta lhe faziam.

Era afável e naturalmente conversador com quem, de tempos em tempos, visitava a ilha. Dispensara as notícias e os relatos de futebol dos opulentos rádios que faziam as delícias dos habitantes da Boavista no fim da segunda metade do século passado, o grogue ao fim da tarde com amigos e vizinhos, enfim, muitas das comodidades e mordomias que a vida na vila proporcionava. E, lá para meados dos anos 70, estranhava muito a enorme confusão da independência e ainda mais a razão de ser de tantos trabalhos. Consta que durante mais de uma década, Nhô Cruz, homem muito simples e de vida simples, foi um homem feliz.

Um dia, ao regressar da pesca, a mulher e os seus dois filhos haviam partido com um pescador de São Vicente que visitara a ilha. Nunca mais regressaram. Nhô Cruz, tornou-se o único habitante da ilha. Ele e as suas tartarugas.

Gonçalo Rosa

sábado, setembro 12, 2009

Le Consommateur - c'est moi


A maior parte das viaturas hoje em dia é equipada com dispositivos de medição do consumo, instantâneo e médio. Esta inovação permite ao condutor monitorizar o seu consumo, logo o seu contributo na emissão de GEE.

Está mais do que comprovado que basta um pequeno esforço para conseguir reduções na ordem de 10 a 20% no consumo e o principal esforço será da esfera mental, seguida por uma condução defensiva que passa sobretudo por uma redução da velocidade média e uma condução anticipativa que evita acelerações e travagens bruscas.
Seguindo os princípios do Ciclo de PDCA (Plan-Do-Check-Act) da gestão ambiental, é fácil promover essa redução.

A média representada na foto é a real média anual conseguida após adoção de um estilo de condução "eco", numa carrinha a diesel de gama média, num percurso misto de estradas nacionais (maior parte), autoestradas e cidade.

Não há combustíveis caros, há estilos de condução caros...

Henk Feith

quinta-feira, abril 09, 2009

A vingança do excesso

No passado dia 3 de Março, o jornal brasileiro O Globo publicou um interessante artigo de opinião de Paul Krugman, colunista do New York Times e Prémio Nobel da Economia (2008). Achei interessante mencioná-lo aqui.

A vingança do excesso

Lembram-se dos bons e velhos dias quando falávamos sobre crise do subprime - e alguns até pensavam que essa crise poderia ser contida? Ah! A nostalgia!

Hoje sabemos que os empréstimos subprime eram apenas uma pequena fração do problema. Como essa crise de débito global ocorreu? Por que se espalhou tanto? A resposta, creio, pode ser encontrada num discurso que Ben Bernanke (presidente do Federal Reserve, o BC americano, desde 2006), deu há quatro anos. O que ele disse então foi um prenúncio da crise por vir.

O discurso, intitulado "A abundância global da poupança e o atual déficit em conta corrente dos EUA", ofereceu uma nova explicação para o rápido crescimento do déficit comercial americano no início do século XXI. As causas, argumentou Bernanke, não estavam nos EUA, mas sim na Ásia.

Em meados dos anos 90, destacou ele, as economias emergentes da Ásia eram grandes importadoras de capital, pegando emprestado no exterior para financiar seu desenvolvimento. Porém, após a crise financeira asiática de 1997-1998, esses países começaram a se proteger acumulando grandes quantidades de ativos estrangeiros, na prática exportando capital para o resto do mundo. O resultado foi uma inundação de dinheiro fácil no mundo, procurando algum lugar para ir. A maior parte desse dinheiro foi para os EUA - daí o enorme déficit comercial, pois o déficit comercial é o outro lado da moeda do fluxo de capital.

Bernanke citou "a profundidade e a sofisticação dos mercados financeiros americanos (o que, entre outras coisas, permitiu às famílias fácil acesso ao mercado imobiliário)". Profundidade, sim. Mas sofisticação? Bem, pode-se dizer que os banqueiros americanos, fortalecidos por um quarto de século de frenesi desregulatório, guiaram o mundo na busca de formas sofisticadas de ficarem ricos, camuflando riscos e enganando investidores.

A solta regulação do sistema financeiro marcou muitos dos outros recipientes de grandes fluxos de capital. Isso pode explicar a correlação entre a exaltação conservadora de dois ou três anos atrás e o desastre econômico hoje. "As reformas tornaram a Islândia um tigre nórdico", declarou um ensaio do Cato Institute. "Como a Irlanda se tornou um tigre celta" foi o título de um artigo do Heritage Foundation; "O milagre econômico da Estônia" foi o título de outro. Todas as três nações vivem agora uma profunda crise.

Por um período, a inundação de capital criou a ilusão de riqueza nesses países, assim como fez com os mutuários americanos: os preços dos ativos estavam subindo, as moedas estavam fortes e tudo o mais parecia bem. Mas as bolhas sempre estouram, cedo ou tarde, e as economias do milagre de ontem se tornam os casos fracassado de hoje.

Se você quer saber de onde veio a crise global, então, veja a coisa dessa forma: estamos vendo a vingança do excesso. Foi assim que nos atolamos nesse caos. E ainda estamos procurando uma saída.

Paul Krugman in O Globo, 03.03.2009

Para quem se interessa por Economia, recomendo ainda uma visita ao blog de Paul Krugman.

Gonçalo Rosa

quinta-feira, março 05, 2009

Morto e enterrado

Depois de algum tempo a dar saltos inexplicáveis nalguns filmes que tentava ver, levando-me, por várias vezes, a culpar a qualidade das gravações e a requerer troca das fitas na loja, o meu leitor de DVD's entregou, definitivamente, a alma ao Criador. Lembro-me que custara uns 40 euros, há três ou quatro anos atrás, o preço de um par de alguns dos DVD's que, entretanto, fui comprando, de uma jantarada ou de dois terços de depósito de combustível no carro. Nada de dramática, portanto, a decisão de o colocar num canto e fazer um rápida visita ao centro comercial.

Com nostalgia me lembrei do velho televisor a preto-e-branco na sala da minha avó, que demorava uns dois minutos a aquecer e a dar imagem após o ligarmos. Havia custado uma verdadeira fortuna para a época, seguramente muitos meses de poupança de diversos membros da família, empolgados com a ideia de ter cinema em casa, um jornalista que olhava para nós enquanto lia as notícias, fotonovela com movimento e, de quando em vez, futebolada sem pagarmos bilhete. Se avariasse, o que, se bem me recordo, nunca aconteceu, seguiria o rumo habitual de qualquer electrodoméstico naquela inútil condição. Uma visita à cave do Sr. Augusto que, para desespero de todos, demorava uma pequena eternidade a concertar fosse o que fosse, tal era a quantidade de pequenos electrodomésticos a necessitar de reparo que se empilhavam por todo o lado. Sem dó nem piedade, que nestes objectos afecto é coisa que não existe, acabou por ser substituido, muitos anos depois de novo, por um sedutor e elegante televisor a cores.

Se o muito baixo custo que este tipo de equipamentos hoje atinge teve o condão de democratizar a sua compra e uso - por exemplo, em 2000, 98% das famílias tinham pelo menos um televisor - o facto de frequentemente ser mais barato substituir um aparelho avariado que repará-lo, faz com que acabemos por possuir, ao longo das nossas vidas, de uma quantidade enorme de televisões, dvd's, aparelhagens, secadores de cabelos, máquinas de fazer sumo e de cortar a barba. Ainda que alguns dos seus componentes sejam recicláveis, boa parte destes objectos acabam por não serem mais que lixo, contribuindo para aumentar ainda mais os milhões de toneladas de resíduos que anualmente se produzem no país.

Dirigi-me assim, à grande loja, onde múltiplas opções e preços se alinhavam ao longo de várias prateleiras. Acabei por escolher um dos mais caros (ainda assim, em conta), de marca bem conhecida, na ingénua esperança que haja uma relação inversa entre preço e probabilidade de avariar, mas na certeza de que, se houver azar após a garantia, lá terei que procurar o Sr. Augusto, agora bem mais aliviado de trabalho que há uma vintena de anos atrás.

Gonçalo Rosa