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segunda-feira, março 16, 2009

revivendo o passado

O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há por baixo delas.

a viagem do elefante - josé saramago



calha esta citação de vir a propósito das reflexões da maria correia, no olivesaria.

para todos nós, os da geração desencantada, da inocência perdida, a banda sonora que falta no post do olivesaria, no final de um filme memorável que - não por acaso - é o nome deste blog:





terça-feira, dezembro 09, 2008

saír do armário


bicho-do-mato. sem irmãos, sem primos. a menina de botas ortopédicas que desatava mal saía de casa, atafulhada de roupa para não se constipar, a boina guardada dentro da pasta da escola para não ser gozada pelos colegas. resistência passiva. numa redoma.

as tardes em casa, vigiada pela avó paterna, parada, especada à porta do quarto - incapaz de um ardil ou subtileza - a olhar para mim. perguntava-lhe o que estava a fazer ali, a segurar a ombreira da porta e ela, com a honestidade dos que passaram a vida a obedecer, respondia-me que o meu pai a tinha mandado ver o que eu fazia, dentro das quatro paredes do meu quarto.

o corredor era comprido. comprido e largo, com um recanto onde mais tarde se fez um guarda-fatos, de parede a parede. nele aprendi primeiro a andar de triciclo, de bicicleta depois, antes de ter obtido autorização para ir para as primeiras voltas no passeio, em redor dos prédios. o sr. amaro, um braço paralisado, tinha uma oficina improvisada para remendar os furos dos pneus das bicicletas de toda a canalha. sem mão(s) a medir.

pedalar rua acima, rua abaixo, em redor do jardim da companhia das àguas. andar por cima do muro, saltar na parte mais alta, chupar as flores cor-de-rosa dos arbustos, colher as bolinhas laranja para soprar por zarabatanas improvisadas. os mesmos arbustos onde mais tarde me escondi com colegas para fumarmos os primeiros cigarros roubados ao meu pai.

até aos 10 anos, o colégio. filinhas ordeiras para as aulas, para o refeitório, para as visitas de estudo. o horror ao ballet, às aulas de ginástica. um canto para me enfiar ao abrigo dos olhares e gracejos e implicâncias dos miúdos mais desembaraçados. um dia, a professora mandou-me ir buscar um apagador à sala do lado. entrei tão silenciosamente que ninguém deu por mim. a aula prosseguiu e eu ali, parada, sem coragem para interromper, sem coragem para voltar para trás de mãos a abanar. neste impasse, uma porta aberta de um armário e eu metida lá dentro, acocorada, até se terem lembrado de ir procurar por mim.

"não". consta que foi a primeira palavra que aprendi a dizer. so quiet, so low-profile. and yet... boa aluna, tentaram fazer-me chefe de grupo, mas a semente da anarquia estragava-me o perfil de "capataz". esgueirava-me antes de me irem buscar à porta do colégio, para ir sozinha para casa, envergonhada e asfixiada pela super-protecção.

o ambiente que se viveu após 74 e a transição para a escola preparatória, foi o fósforo aceso no rastilho de pólvora comprimida. a passagem da resistência passiva para a rebelião descarada. a adolescência em pé de guerra.

a geração que viu os helicópteros a sobrevoar a fernando pessoa no 11 de março e ia ouvindo os rumores do que se estava a passar no ralis. o pai de uma colega que teve de fugir para o brasil. os professores que eram levados a conselho directivo por turmas em peso. e aqueles em que não se tocava nem num cabelo, defendidos pelos mesmos pequenos selvagens que aprendiam em (quase) auto-gestão que o respeito não se obtinha por decreto ou hierarquia. tinha que se merecer.

escapar à vigilância do sr. lima e ao seu manso pastor alemão e passar as redes da escola para ir comprar gelados à sorraia. caramelo, chocolate, morango. gelados de máquina, em cone, a vinte e cinco tostões, subtraídos ao cofre onde guardava as moeditas que ia cravando aos meus avós, as notinhas verdes do santo antónio a cada fim-de-semana.

saír da fernando pessoa para os viveiros. um lamaçal, os pavilhões ainda em construção. a sala "de convívio" tinha só as paredes. alguns colegas roubavam sódio nos laboratórios de química para fazer fogos de artifício nas poças das casas de banho que as empregadas não limpavam nunca. os esqueletos com um lencinho na cabeça e um cigarro no maxilar escancarado. cadeiras partidas, brincadeiras com extintores, o pó vermelho do chão. tóxico, segundo se dizia. alguns professores que nos dias quentes nos levavam para aulas ao ar livre, sentados na relva, fora dos muros da escola. os "furos", os tempos livres, a era de ouro das conversas intermináveis. sobre tudo e sobre nada.

amizades que perduraram, outras a que se perdeu o rasto. os primeiros copos, as aventuras para lá dos limites do bairro, as horas de regresso a casa cada vez mais esticadas.

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suponho que cresci. ou faço de conta que sim. não mudei o mundo. não sei se o mundo me mudou a mim. passou a época das rebeliões. ainda sei dizer não, mas voltei a "desapertar as botas" quando ninguém está a ver. e quantas, quantas vezes sinto que continuo a lutar comigo mesma para saír daquele armário.


sexta-feira, setembro 12, 2008

livros # 2

O Meu Pé de Laranja-Lima

da série todos temos um passado

Creio que foi o meu primeiro livro, descontando as colecções da Enid Blyton e os livros "aos quadradinhos". Li-o numa tarde de sol, durante as férias - que eram o meu exílio no campo - estirada numa cama de campismo. Por qualquer motivo que não recordo, não me levaram à praia - o meu horizonte de evasão - e eu sentia-me triste e só.

Sem uma palavra, a minha mãe entregou-mo nas mãos. Creio que talvez me tenha querido levar consolo e companhia.

Zezé foi o meu companheiro dessa tarde e de muitos outros dias. É mais um dos meus livros de capa desfeita, que recuso mandar reencadernar.




A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou ‘dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso. [...] Totoca me deu um puxão. Eu acordei. - Que é que você tem, Zezé? - Nada. Tava cantando. - Cantando? É. Então eu devo estar ficando surdo. Será que ele não sabia que se podia cantar para dentro? Fiquei calado. Se não sabia eu não ensinava. Tínhamos chegado na beira da estrada Rio-São Paulo. Passava tudo nela. Caminhão, automóvel, carroça e bicicleta. - Olhe, Zezé, isso é importante. A gente primeiro olha bem. Olha para um lado e para outro. Agora. Atravessamos correndo a estrada. - Teve medo? Bem que tive mas fiz não com a cabeça. - Nós vamos atravessar de novo juntos. Depois quero ver se você aprendeu. Voltamos.
- Agora você sozinho. Nada de medo que você está ficando um homenzinho. Meu coração acelerou. - Agora. Vai. Meti o pé e quase não respirava. Esperei um pedaço e ele deu o sinal para que eu voltasse. - Pela primeira vez, você foi muito bem. Mas esqueceu uma coisa. Tem que olhar para os dois lados para ver se vem carro. Nem toda hora eu vou ficar aqui para lhe dar o sinal. Na volta, a gente treina mais. Agora vamos que eu vou mostrar uma coisa para você. Agarrou a mão e saímos novamente devagar. Eu estava impressionado com uma conversa.
Totoca. - Que é? - Idade da razão pesa? - Que besteira é essa? - Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era "precoce” e que ia entrar logo na idade da razão. E eu não sinto diferença. - Tio Edmundo é um bobo. Vive metendo coisas na sua, cabeça. - Ele não é bobo. Ele é sábio. E quando eu crescer quero ser sábio e poeta e usar gravata de laço. Um dia eu vou tirar retrato de gravata de laço. Por que gravata de laço? Porque ninguém é poeta sem gravata de laço. Quando Tio Edmundo me mostra retrato de poeta na revista, todos têm gravata de laço. - Zezé, deixe de acreditar em tudo que ele fala pra você. Tio Edmundo é meio trongola. Meio mentiroso. - Então ele é filho da puta? - Olhe que você já apanhou na boca de tanto dizer palavrão; Tio Edmundo não é isso. Eu falei trongola. Meio maluco. - Você falou que ele era mentiroso. - Uma coisa nada tem a ver com a outra. - Tem, sim. Noutro dia Papai conversava com seu Severino, aquele que joga escopa e manilha com ele e falou assim de seu Labonne: “o filho da puta do velho mente pra burro"... E ninguém bateu na boca dele. - Gente grande pode dizer, que não faz mal. Fizemos uma pausa. - Tio Edmundo não é... Que é que é mesmo trongola, Totoca? Ele girou o dedo na cabeça. - Ele não é, não. Ele é bonzinho, me ensina as coisas e até hoje só me deu uma palmada e não foi com força. Totoca deu um pulo. - Ele deu uma palmada em você? Quando? - Quando eu estava muito levado e Glória me mandou para a casa de Dindinha. Aí ele queria ler o jornal e não achava os óculos. Procurou, danado da vida. Perguntou para Dindinha e nada. Os dois viraram a casa pelo avesso. Aí eu disse que sabia onde estava e se ele me desse um tostão para comprar bolas de gude, eu dizia. Ele foi no colete e apanhou um tostão. -Vai buscar que eu dou. - Eu fui no cesto de roupa suja e apanhei eles. Aí ele me xingou. - “Foi você, seu patife!” Me deu uma palmada na bunda e me tomou o tostão. Totoca riu. - Você vai lá para não apanhar em casa e apanha lá. Vamos mais depressa se não a gente não chega nunca. Eu continuava pensando em Tio Edmundo. Totoca, criança é aposentado? O quê? Tio Edmundo não faz nada, ganha dinheiro. Não trabalha e a Prefeitura paga ele todo mês. - E daí? - Criança não faz nada, come, dorme e ganha dinheiro dos pais. - Aposentado é diferente, Zezé. Aposentado é quem já trabalhou muito, ficou de cabelo branco e anda devagarzinho como Tio Edmundo. Mas vamos deixar de pensar coisas difíceis. Que você goste de aprender com ele, vá lá. Mas comigo, não. Fique igual aos outros meninos. Diga até palavrão, mas deixe de encher essa cabecinha com coisas difíceis. Senão, não saio mais com você.
Fiquei meio emburrado e não quis mais conversar. Também não tinha vontade de cantar. Meu passarinho que cantava pra dentro voou pra longe. Paramos e Totoca apontou a casa.
- É bem ali. Você gosta? Era uma casa comum. Branca de janelas azuis. Toda fechada e caladinha.
- Gosto. Mas por que a gente tem que mudar para cá?
- É bom a gente sempre se mudar. Ficamos observando pela cerca um pé de mangueira de um lado e um tamarindeiro do outro. - Você que quer saber tudo não desconfiou o drama que vai lá em casa. Papai está desempregado, não está? Ele faz mais de seis meses que brigou com Mister Scottfield e puseram ele na rua. Você não viu que Lalá começou a trabalhar na Fábrica? Não sabe que Mamãe vai trabalhar na cidade, no Moinho Inglês? Pois bem, seu bobo. Tudo isso é pra juntar um dinheiro e pagar o aluguel dessa nova casa. A outra, Papai já está devendo bem oito meses. Você é muito criança para saber dessas coisas tristes. Mas eu vou ter que acabar ajudando missa para ajudar em casa.
Demorou um pouco, em silêncio.
- Totoca, vão trazer a pantera negra e as duas leoas pra cá?
- Claro que vão. E o escravo aqui é que vai ter de desmontar o galinheiro. Me
olhou com certa meiguice e pena. - Eu é que vou desmontar o jardim zoológico e armar ele aqui. Fiquei aliviado. Porque senão eu teria que inventar uma nova coisa para brincar com o meu irmãozinho mais novo: Luís.
- Bem, viu como eu sou seu amigo, Zezé. Agora não custava me contar como foi que você conseguiu "aquilo"...
- Juro, Totoca, que não sei. Não sei mesmo.
- Você está mentindo. Você estudou com alguém.
- Não estudei nada. Ninguém me ensinou. Só se foi o diabo que Jandira diz que é meu padrinho, que me ensinou dormindo. Totoca estava perplexo. No começo até me dera cocorotes para eu contar. Mas nem eu sabia contar.
- Ninguém aprende essas coisas sozinho. Mas ficava embatucado porque realmente ninguém vira ninguém me ensinar nada. Era um mistério. Fui me lembrando de alguma coisa que tinha acontecido uma semana antes. A família ficou atarantada.
Começou quando eu me sentei perto de Tio Edmundo na casa de Dindinha, que lia o jornal.
- Titio.
- Que é, meu filho. Ele puxou os óculos para a ponta do nariz como toda gente grande e velha fazia.
- Quando o senhor aprendeu a ler?
- Mais ou menos com seis ou sete anos de idade.
- E uma pessoa pode ler com cinco anos?
- Poder, pode. Ninguém gosta de fazer isso porque a criança ainda é muito pequena.
- Como é que o senhor aprendeu a ler?
- Como todo mundo, na Cartilha. Fazendo B mais A: BA.
- Todo mundo tem que fazer assim?
- Que eu saiba, sim.
- Mas todo mundo mesmo?
- Ele me olhou intrigado. Olhe, Zezé, todo mundo precisa fazer assim. Agora me deixe terminar a minha leitura. Veja se tem goiaba no fundo do quintal. Colocou os óculos no lugar e tentou se concentrar na leitura. Mas eu não saí do canto.
- Que pena!... A exclamação saiu tão sentida que ele de novo trouxe os óculos para a ponta do nariz.
- Não adianta, quando você quer...
- É que eu vim lá de casa, andei pra burro só para contar uma coisa para o senhor.
- Então vamos, conte.
- Não. Não é assim. Primeiro preciso saber quando o senhor vai receber a aposentadoria.
- Depois de amanhã. Deu um suave sorriso me estudando.
- E quando é depois de amanhã?
- Sexta-feira. - Pois na sexta-feira o senhor não quer trazer um “Raio de Luar”
pra mim, da cidade?
- Vamos devagar, Zezé. O que é Raio de Luar?
- É o cavalinho branco que eu vi no cinema. O dono dele é Fred Thompson. É um cavalo ensinado.
- Você quer que eu traga um cavalinho de rodas?
- Não, senhor. Quero aquele que tem uma cabeça de pau com rédeas. Que a gente coloca um cabo e sai correndo. Eu preciso treinar porque eu vou trabalhar no cinema mais tarde. Ele continuou rindo.
- Compreendo. E se eu trouxer, o que eu ganho?
- Eu faço uma coisa pro senhor.
- Um beijo?
- Não gosto muito de beijos.
- Um abraço?
Aí eu olhei Tio Edmundo com uma pena danada. Meu passarinho lá dentro falou uma coisa. E eu fui lembrando que muitas vezes tinha escutado... Tio Edmundo era separado da mulher e tinha cinco filhos ... Vivia tão sozinho e caminhava devagar, devagar ... Quem sabe se ele não andava devagar era porque tinha saudade dos filhos? E os filhos nunca vinham fazer uma visita para ele. Dei a volta na mesa e apertei com força o seu pescoço. Senti o seu cabelo branco roçar na minha testa, bem macio.
- Isto não é pelo cavalinho. O que eu vou fazer é outra coisa. Vou ler.
- Você sabe ler, Zezé? Que história é essa? Quem foi que lhe ensinou?
- Ninguém.
- Você está com lorotas.
Me afastei e da porta comentei: - Traga meu cavalinho sexta-feira pra ver se eu não leio!... Depois quando foi de noite e Jandira acendeu a luz do lampião porque a Light cortara a luz por falta de pagamento, eu fiquei na ponta dos pés para ver a “estrela”. Tinha um desenho de uma estrela num papel e embaixo uma oração para proteger a casa. - Jandira me pegue no colo que eu vou ler ali.
- Deixe de invenções, Zezé. Estou muito ocupada.
- Pois me pegue e veja se eu não sei ler.
- Olhe, Zezé, se você estiver me aprontando alguma, você vai ver. Me colocou no colo e me levou bem atrás da porta.
- Então, leia. Quero ver.
Aí eu li mesmo. Li a oração que pedia aos céus, bênção e protecção para a casa e afugentasse os maus espíritos. Jandira me depositou no chão. Estava de queixo caído.
- Zezé, você decorou aquilo. Você está me enganando.
- Juro, Jandira. Eu sei ler tudo.
- Ninguém pode ler sem ter aprendido. Foi Tio Edmundo? Dindinha?
- Ninguém.
Ela pegou um pedaço de jornal e eu li. Li direitinho. Ela deu um grito e chamou Glória. Glória ficou nervosa e foi chamar Alaíde. Em dez minutos uma porção de gente da vizinhança veio ver o fenómeno. Era isso que Totoca estava querendo saber.
- Ele ensinou e prometeu o cavalinho se você aprendesse.
- Não foi, não.
- Eu vou perguntar a ele.
- Pois vá perguntar. Eu não sei dizer como foi, Totoca. Se eu soubesse eu contava pra você.
- Então vamos embora. Você vai ver. Quando precisar de uma coisa... Pegou minha mão, zangado, e me puxou de volta para a casa. Aí ele pensou numa coisa para se vingar.
- Bem feito! Aprendeu cedo demais, seu bobo. Agora vai ter que entrar na Escola em fevereiro. Aquilo tinha sido idéia de Jandira. Assim a casa ficava a manhã inteira em paz e eu aprendia a ter modos. - Vamos treinar a Rio-São Paulo. Porque não pense que no tempo da Escola eu vou ficar de sua empregada, atravessando você todo tempo. Você é muito sabido, que aprenda logo isso também.

Taqui o cavalinho. Agora eu quero ver. Abriu o jornal e me mostrou uma frase de reclame de um remédio. - “Esse produto se encontra em todas as pharmacias e casas do ramo”. Tio Edmundo foi chamar Dindinha no quintal. - Mamãe. Até Pharmacia ele leu direitinho. Os dois juntos começaram a me dar coisas para ler e eu lia tudo. Minha avó resmungou que o mundo estava perdido.
Ganhei o cavalinho e novamente abracei Tio Edmundo. Então ele pegou no meu queixo e me falou emocionado.
- Você vai longe, peralta. Não é à toa que você se chama José. Você será o sol, e as estrelas vão brilhar ao seu redor. Fiquei olhando sem entender e pensando que ele era mesmo trongola. - Isto você não entende. É a história de José do Egipto. Quando você crescer mais eu conto essa história. Eu era doido por histórias. Quanto mais difíceis, mais eu gostava.
Alisei o meu cavalinho, bastante tempo e depois levantei a vista para Tio
Edmundo e perguntei:
- A semana que vem, o senhor acha que eu já cresci?...

sábado, agosto 23, 2008

em plena silly season

um momento narcísico-hilariante

vão a este site http://www.yearbookyourself.com/e divirtam-se a recriar o vosso aspecto com penteados e acessórios de moda, desde 1950 até 2000. aqui ficam alguns exemplos:


------1964 ------------1966-------------1978



------1982-------------1986-------------1992


------1996------------ 1998------------ 2000





entretanto, ainda não satisfeita com a barrigada de riso, fiz algumas experiências as a boy:



------1950------------1956



nas fotos mais antigas, ainda me safo. agora, naqueles anos em que os gajos usaram cabelinhos mais compridos...


------1974-------------1978-------------1984




...não fosse a maçã-de-adão artificial e poderia facilmente descobrir fotos minhas com aspecto muito semelhante. aliás, na foto de 1984, se compararmos as versões feminina (arrgh) e masculina,









é natural que eu tivesse um aspecto mais semelhante ao da foto da direita. deve ser por isso que passaram a vida a chamar-me maria-rapaz, mas de facto nunca tive grande pachorra para muitos arrebiques.


agora, as conclusões didácticas:

apesar de ter passado toda a minha infância e adolescência com a família a encher-me os ouvidos sobre eu ser a cara-chapada do meu pai, posso provar agora inequivocamente que:


1) não tenho cara de gajo

2) tenho mais traços fisionómicos herdados do meu avô materno do que alguma vez me ocorreu.






(o meu avô à esquerda, a minha fake image ao centro e o meu pai à direita)

quarta-feira, junho 18, 2008

lugares inesquecíveis # 1



sim, sou eu. 22 anos, 2o e tal kilos de mochila às costas, passe de inter-rail na mão, rumo à europa. agosto. má escolha, bem sei, mas lá teve de ser, porque no mês seguinte começava a trabalhar. 38º C à saída de lisboa e chuva durante todo o resto da viagem. primeira etapa: amsterdam. não me lembro quanto terei pago por este postal personalizado, típico recuerdo para turistas. não deve ter sido grande o montante, que o dinheiro era curto e contado, empréstimo a pagar com o primeiro ordenado e estoiradinho até ao fim. dormidas nos comboios e em sleep-inn's com beliches de três andares (imaginam os antros, em amsterdam?), tomar banho nas estações, comprar o farnel do dia no supermercado e uma vez por outra, fazer uma festa com um frango assado e umas latinhas de cerveja. há momentos que não se repetem. felizmente - digo eu - que actualmente não me imagino em tais andanças sem o confortozinho mínimo assegurado. grande era a vontade de desbravar e conhecer mundo e - sobretudo - de romper amarras, afrouxar o asfixiante laço familiar.

segunda-feira, junho 16, 2008

reencontro com o passado

a infância irrompeu-me na garganta em vermelhidão e pus. O corpo fraqueja, trai e cede, acusa sovas antigas que deixam doridos os músculos e as articulações a estalar.

We may be through with the past, but the past ain't through with us