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4 de fevereiro de 2024

As minhas aventuras no país dos sovietes

 

Autor: José Milhazes
Género: Biografia, Política

Idioma: Português

Páginas: 352

Editora: Oficina do Livro

Ano: 2017

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José Milhazes é jornalista, escritor e tradutor, assim como comentador político.

Natural da Póvoa de Varzim, originário de uma humilde família de pescadores, ruma, em 1977, à União Soviética (o «Paraíso») para se licenciar em História da Rússia e «assistir à construção do comunismo».

«Éramos cerca de 15 bolseiros portugueses que iam estudar para a União Soviética através do PCP, da UEC, da Associação de Amizade Portugal-URSS e da Intersindical.»

Licencia-se em 1983, constitui família (a esposa é estónia) e fica a residir na URSS.

Com o passar dos anos, torna-se correspondente do jornal Público em Moscovo. Em 2002, começa a colaborar com a SIC. Acumula as actividades jornalísticas com a tradução de obras literárias e políticas.

Ao longo das décadas como residente no país, vê a URSS dar lugar à Rússia, assistindo à ascensão, e queda, de vários políticos, assim como ao colapso da "cortina de ferro" e à formação de novos Estados no Leste europeu.

Em 2013 é distinguido com a Ordem do Mérito da República Portuguesa. Regressa a Portugal em 2015.

Em As minhas aventuras no país dos sovietes, tudo isto é contado ao leitor de uma forma mais ou menos cronológica, com vários apontamentos de situações vividas pelo autor: na universidade, no hospital (onde fica internado 9 meses, na altura em que era estudante), em órgãos políticos, na comunidade de estrangeiros onde se insere, no quotidiano. Algumas pessoas são nomeadas, outras não.

O tom é franco e directo, o tom de alguém que viu muita coisa e não tem peias em fazer apreciações pessoais. A meio da narrativa, há a menção a várias anedotas soviéticas que circulavam, o que permite perceber como o povo via a máquina estatal que os (des)governava.

Tive pena que José Milhazes não aprofundasse mais algumas situações, muitas vezes narradas en passant. Estará a reservar a informação para uma biografia mais extensa?

Gostei bastante, As minhas aventuras no país dos sovietes é uma leitura interessante sobre um percurso ainda mais interessante, e as páginas passam a bom ritmo. Conto ler outros livros do autor.

NOTA: os sovietes eram conselhos políticos formados pelas classes mais populares, que lutavam pela reforma agrária e direitos trabalhistas – o termo é a tradução russa para “conselho”, em português.

«Brejnev e Reagan decidem fazer uma corrida. Reagan vence. Os jornais americanos escrevem: “Reagan venceu, Brejnev foi derrotado.” Os jornais soviéticos informam: “Brejnev chegou em segundo lugar e Reagan em penúltimo.” (anedota soviética)»

*****
(muito bom)

20 de março de 2021

Hunger - a memoir of (my) body

 

Autor: Roxane Gay
Género: Autobiografia

Idioma: Inglês

Páginas: 232

Editora: Harper (Kindle)

Ano: 2016
 

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«Mine is not a success story. Mine is, simply, a true story.»

Comentar uma autobiografia é delicado. É importante reter que a apreciação do livro é relativamente à forma como a história é contada.

Roxane Gay foi violada aos 12 anos por um grupo de rapazes. A dor nunca desapareceu; a autora está agora nos seus 40 e continua obcecada pela pessoa instrumental na sua agressão, um adolescente por quem estava apaixonada na altura. É impossível para a maioria de nós pôr-se no lugar de Roxane. Imaginar os danos que isso provoca é um pouco mais fácil.

«I don’t want to be defined by the worst thing that has happened to me.»

O tema central do livro é a obesidade, as dezenas de quilos que Roxane acumulou ao longo dos anos, a sua «armadura contra o mundo», útil para afastar os olhares masculinos e para se tornar invisível mesmo pesando mais de 250 quilos do alto do seu metro e noventa. Ao comer e comer e comer, anulou-se completamente… e tornou o seu corpo numa prisão.

E isso teve consequências. Lidar com a gordofobia, os olhares reprovadores, os comentários “bem intencionados”... é cansativo. A autora alterna entre a vitimização e a aversão para consigo mesma, a revolta pela forma como as pessoas obesas são tratadas e em como o mundo não está preparado para as acomodar presente em cada página – as conversas são tensas, a mobília não aguenta, caminhar fá-la ficar sem fôlego, o pessoal médico não é compassivo. 

 As situações multiplicam-se e os relatos são penosos; Roxane diz que as humilhações por que passou ao longo dos anos forçaram-na a ver com outros olhos o seu próprio corpo e os dos outros. Porém, o seu corpo continua a ser vilificado, a gordura que carrega altamente indesejável para si e para os que a rodeiam. A escrita fá-la feliz, assim como finalmente saber que é amada pela sua família, amigos e pela "sua pessoa", mas tem sido um caminho longo - e inacabado.

Esta não é uma história bem-sucedida de perda de peso nem de superação. Roxane Gay é uma mulher negra, bissexual, obesa, e sem um “final feliz” à vista. O livro, de 2016, é escrito na primeira pessoa num tom cru e directo.  

Um testemunho corajoso e doloroso, que merece uma leitura atenta.

«It took me a long time, but I prefer “victim” to “survivor” now. I don’t want to diminish the gravity of what happened. I don’t want to pretend I’m on some triumphant, uplifting journey. I don’t want to pretend that everything is okay. I’m living with what happened, moving forward without forgetting, moving forward without pretending I am unscarred

****
(bom)

27 de setembro de 2020

Too Much and Never Enough: how my family created the world's most dangerous man

 
Autor: Mary L. Trump
Género: Política
Idioma: Inglês
Duração: 7h e 5m
Editora: Simon & Schster Audio (Audible)
Ano: 2020

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Mais um livro sobre Donald Trump, o actual presidente dos EUA.
 
Desta vez, a autora é um membro da família, na pessoa da sobrinha Mary Lea Trump.
 

O livro foi bastante publicitado e alegadamente vendeu 1 milhão de cópias no dia de lançamento, em Julho passado.

A autora, licenciada em Literatura e doutorada em Psicologia, apoiou a campanha de Hillary Clinton em 2016
contra o tio, declarou diversas vezes que Trump se devia demitir e diagnosticou-o como um sociopata - incapaz de empatia, mentiroso compulsivo, sem respeito por terceiros
; o resultado são comportamentos narcisistas e abusivos.

Nesta biografia não autorizada, Mary L. Trump conta a história de uma família disfuncional, com base em situações vividas e presenciadas pela autora ou relatadas a esta por familiares e amigos, e com informação coligida de e-mails, relatórios financeiros (um dos quais vencedor do Pulitzer em 2019) e um artigo de investigação do New York Times.
 
É sensível classificar uma biografia, e aqui não há muita informação nova. Vários capítulos reúnem informação que se encontra disponível na internet e/ou que foi publicada pelos media. Sentimos pena do pai da autora, Fred Junior, o varão e herdeiro da família, que nunca quis ter nada a ver com o negócio da família mas que, manipulado pelo pai, Fred Senior - classificado também como um sociopata pela autora -, achou não ter outra escolha. Morreu nos quarenta, de problemas cardíacos agravados pelo alcoolismo. Donald Trump terá "escapado" porque escolheu tornar-se como o pai, um «bussiness man sem escrúpulos». A matriarca, mãe de Donald e avó da autora, sempre terá sido emocionalmente ausente e alienada dos dois filhos homens, focando-se ao invés na educação das duas filhas mulheres.
 
Donald Trump terá sido educado na base de que as regras não se aplicam a ele e que era/é vital cultivar uma imagem e discurso de sucesso e auto-confiança - um vendedor do "fake it until you make it". Mas não houve aqui nenhum "made it". Sucessivos anos de maus negócios, bancarrotas, empréstimos duvidosos e evasões fiscais puseram a nu a incapacidade de Trump para os negócios e foram delapidando a fortuna familiar, apesar de alguns golpes publicitários e de cosmética (a maioria nas páginas sociais das publicações) para preservar a marca Trump.
 
Este livro ilustra capítulos da infância, adolescência e vida adulta do actual presidente do país mais poderoso do mundo; não sei qual o grau de veracidade e quão fidedigna é a memória da autora. Independentemente disso, algumas coisas fazem sentido e assentam na personagem de Donald Trump.
 
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(bom)

9 de maio de 2020

Brave

 
Autor: Rose McGowan
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Duração: 6h e 53min
Editora: Harper Audio
Ano: 2018
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O nome de Rose McGowan evoca algumas interpretações do cinema indie, onde se estreou nos anos 90. Com o passar dos anos, fez a transição para o cinema comercial (Scream de Wes Craven; Planet Terror de Robert Rodriguez) e para a televisão (Charmed). Depois deixou de aparecer. Há uns anos, quando se assumiu como uma das vítimas de abuso sexual de Harvey Weinstein, tornou-se uma das figuras principais do movimento Me Too.

Brave começa pelo início: Rose nasceu em Itália em 1973, no culto “Children of God”, de onde o pai se escapou com os filhos tinha Rose 10 anos. A relação com os pais, mesmo fora do culto e já a viver nos EUA, sempre foi turbulenta. Anos mais tarde e já adulta, diz que caiu vítima de outro culto: o de Hollywood.

Apesar de gostar dos filmes em que participava, McGowan diz que sempre se sentiu desconfortável com a obsessão por um corpo e rosto perfeitos e pela constante sexualização da sua imagem. O ponto de viragem foi no final dos anos 90, quando se terá tornado mais uma vítima de Harvey Weinstein. Rose teria 23 anos, estava habituada a relações abusivas e a ver o seu valor ligado ao quão sexy era a sua imagem. Quando alegadamente contou o que acontecera, o conselho foi que ficasse calada (a autora critica o enorme grupo de pessoas em Hollywood que auxiliam os “inúmeros predadores sexuais a ficarem impunes”, a fim colherem benefícios pessoais do poder e do dinheiro dos agressores); nunca apresentou uma queixa na polícia.

Após este episódio, Rose McGowan decidiu afastar-se do mundo do cinema e investir na sua vida afectiva - a sua relação com o músico Marilyn Manson deu que falar. Quando protagonizou um filme com Robert Rodriguez mantendo uma relação com ele (que era casado), foi a gota d’água: era definitivamente uma actriz ambiciosa disposta a tudo e uma mulher promíscua. Tinha agora um rótulo e nada do que fizesse iria alterar isso...

Brave é um manifesto sem barreiras. Rose McGowan assume-se como uma activista destemida e determinada a expôr a verdade sobre a indústria do entretenimento, e ficar calada e não fazer ondas não é opção. Pelo caminho, desmonta o conceito de fama e lança uma luz fria sobre a máquina de Hollywood, da qual se recusa voltar a fazer parte. Urge aos leitores que se recusem a ser manipuladas pelos filmes e sejam corajosas, num apelo à acção de homens e mulheres para "serem gentis e decentes uns para com os outros".

A autora queixa-se que, durante anos, não foi ouvida, não sentiu que fosse respeitada ou levada a sério. Algumas mulheres poderão identificar-se com isto, principalmente quando é descrita a forma como se espera que uma mulher aja quando confrontada com o mundo real: agradável, educada, dócil, facilmente manipulada. 

Livros como Brave podem iniciar discussões sobre a necessidade das mulheres denunciarem situações de assédio e violência. Devem fazê-lo; essas histórias precisam de ser contadas. O facto de algumas vozes terem criticado a Rose McGowan por ser alegadamente doente mental em nada diminui a mensagem do livro nesse aspecto - já para não dizer que as pessoas com problemas mentais também têm voz. A autora admite que foi diagnosticada com transtorno depressivo e que durante anos sofreu de anorexia nervosa. 

Brave é um livro que nos deixa desconfortável, onde questionamos as escolhas da autora que repudia a indústria que lhe deu fama e sustento durante vários anos e que parece ter quase sempre escolhido parceiros abusivos. Nisso Rose McGowan está longe de ser uma mentora. O seu estilo é emocional e há muita raiva e linguagem colorida. É um facto e não deve ser um impedimento para não o ler. Os seus vídeos no YouTube mostram uma mulher zangada, transtornada e muito fragilizada; cada um é livre de interpretar e aceitar o seu discurso abrasivo e linguagem corporal

Ouvi este audiolivro duas vezes seguidas e o impacto da mensagem não perdeu impacto aquando da segunda escuta. A importância de muito do que é dito é tão relevante como isso.

*****
(muito bom)

12 de abril de 2020

Maid - hard work, low pay and a mother's will to survive

 
Autor: Stephanie Land
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Páginas: 288
Editora: Hachette (ebook)
Ano: 2019

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Aos 28 anos, os planos de Stephanie Land passavam por ter um curso superior e tornar-se escritora. Quando um romance de Verão resultou numa gravidez não planeada, viu-se mãe solteira sem suporte familiar.

Para sobreviver, tornou-se empregada de limpeza; a dificuldade de proporcionar à filha a melhor vida possível, enquanto estudava on-line e passava 4 a 6 horas dárias a limpar casas, foi uma provação; à parte, mantinha um blog para manter o “bichinho” da escrita.

Em Maid, a autora fala da sua experiência de assalariada mal paga que depende de ajuda governamental para pagar a renda, as contas mensais e a alimentação. Fala do estigma de viver no limiar da pobreza, de pagar as compras de supermercado com cupões de alimentos e de se sentir encurralada.

Fala da classe média alta americana e de como é limpar as suas casas. Stephanie não conhece nem de vista a maioria dos clientes, não sabe o seu nome mas observa tudo com curiosidade; tenta imaginar a vida dos habitantes das casas através das suas roupas e objectos diversos, e várias vezes dá por si a pensar em como os bens materiais que tanto lhes inveja não são, afinal, garante de felicidade.

Há vários pormenores de como as limpezas às casas são feitas, como tudo é organizado, e a autora relata-nos o seu quotidiano de esfregar chãos e casas de banho até ficarem num brinquinho, e como o trabalho duro e sem benefícios resulta em espasmos musculares, noites mal dormidas e dores de costas suportadas com ibuprofeno.

Apesar de reconhecer a luta constante de Stephanie Land, e de ser inegável a sua tenacidade, tenho de admitir que não sou fã da sua forma de pensar, que levou a decisões pouco felizes – acredito que a sua fraca auto-estima e desamparo familiar não ajudaram.
 
Há um final feliz para a autora e para a filha, cujas circunstâncias eram extremamente difíceis - é bom ler uma história de superação.

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(bom)

2 de abril de 2020

Persépolis


Autor: Marjane Satrapi
Género: Biografia
Idioma: Inglês
Páginas: 352 (integral)
Editora: Vintage Digital (e-book)
Ano: 2008
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Marjane Satrapi (pseudónimo de Marjane Ebihamis) é de origem iraniana e nesta série de banda desenhada muito aclamada, conta a sua história.

É uma criança quando o regime de Reza Pahlavi cai; o xá fora posto no poder pelos norte-americanos, que queriam acesso livre ao petróleo iraniano. O povo iraniano, ao tentar libertar-se de cinquenta anos de tirania, abriu a porta ao regime islâmico, não lucrando com a troca.


A primeira parte de Persépolis é narrada por uma criança que tenta entender o mundo dos adultos e fazer sentido das coisas que lhe são contadas. Estamos no início da década de 80 e as universidades estão a ser encerradas; o uso do véu torna-se obrigatório para as mulheres. Os pais da precoce Marjane protestam contra o regime mas a repressão é violenta. Assustados, mandam a filha para a Áustria para prosseguir os estudos.

É assim que Marjane começa a frequentar o liceu francês em Viena, sem falar uma palavra de alemão. Os amigos são miúdos rebeldes que lhe dão a conhecer as drogas e a sexualidade livre. Dividida entre duas culturas completamente diferentes, luta por ter algum equilíbrio. 

Quando após quatro anos, Marjane regressa a Teerão, a guerra com o Iraque terminou mas a cidade está em ruínas e o governo continua repressivo. A jovem cai numa depressão grave mas com o apoio da família consegue ultrapassá-la e voltar a concentrar-se na sua educação.

O que eu mais gosto nos desenhos de Marjane Satrapi é a mistura do trágico com o burlesco, nunca se furtando à auto-crítica, aos eventos históricos e ao juízo à sociedade islâmica iraniana, onde a liberdade de expressão não existe, onde tudo é proibido (maquilhagem, música, festas, demonstrações de afecto). Os iranianos tentam criar, em casa, um espaço de liberdade e identidade, mas muitos são influenciados pelos valores tradicionais e são eles mesmos a repreender outros que não sigam a ideologia do regime. 

Persépolis narra gráfica e habilmente os sentimentos e emoções de uma mulher rebelde que recusa viver em submissão, ilustrando de uma forma poderosa o cenário histórico-político iraniano. É uma história arrebatadora, que merece ser lida.

O livro, banido de várias escolas norte-americanas - onde foi incluído como leitura obrigatória, gerando mil controvérsias -, ganhou vários prémios, foi adaptado ao cinema, premiado em Cannes e nomeado aos Óscares. A autora abandonou o Irão em 1994 para não mais voltar. Obteve a nacionalidade francesa e reside em Paris, vivendo da realização, da escrita e da ilustração.

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(muito bom)