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novembro 01, 2012

De quanta cor há o que vejo?




DEPOIS DA LUZ...

De quantas estradas precisam meus olhos até o limite?
O que alcançam por sobre a imagem,
no verso dos objetos, a mergulhar nos vermelhos,
a tocar levemente os amarelos e cinzas da tarde?
Essas bolas curiosas, o que dirão, depois, já sem luz,
sobre como é fundo o leito das cores,
sobre como é vão o fio que desenha o sentido do dia?

Com o cair da nitidez, 
Estando já à porta as sensações de ocaso,
quando de cansaço ruírem os meus contrastes,
que tonalidades dirão o depois das coisas?
Por quantos raios descerá uma manhã?
Que matizes estarão lá,
após o desbotamento de tudo?

Sigo com mil olhares até a última chance de ir
Por entre os tantos azuis que forem possíveis
E que não me seja apagado o que ver
Enquanto houver tão latente o que querer

Ricardo Fabião (novembro, 2012)


Imagem captada, por mim, de um certo jardim, em Garanhuns-PE.

julho 20, 2010

Quando passar o sol que não passa


Para José Saramago

Ele não virá para hoje à noite,
Para nem mais uma palavra sua voz depois;
Só um tanto de lacuna no que silencia ficamos cá.
Talvez ele esteja guardado dentro do sol que passou,
Mantido sob o eterno calor do fogo de suas frases,
E de tanto sol que é, que foi, ficou, assim, à luz, suspenso...
Não mais anoitecerá conosco para só ir.
Talvez esteja aqui a dizer e não sintamos,
Ou certamente na revelação dos segredos, não ouvimos,
Que a descompasso da alma é ruidoso, não vemos,
Que o muro do mundo é alto, não vamos.

Hoje mais do que antes somos cegos,
Estamos de solidão em guarda, 
Um corpo solto dentro da roupa que não cabe,
Pois ele não virá para a distância da noite.
Então mais noite haverá que nos escureça ser,
Sem o tamanho do seu sol de manhã sempre,
E sem que se colha um mar para tão profundo existir.
Ergamos, pois, a tenda para que o escuro não entre,
Que doer assim nos mantém mais órfãos do que fôramos.
Cuidemos dos barcos e dos ventos,
Que sem o calor de suas palavras, 
Talvez faça mais frio viver,
E torne-se mais longe chegar...

Não, ele nunca mais virá para hoje à noite;
Só escurece indo...
Mas desconfio de que haja um só lugar
Que não tenha ficado mais sol
Após sua passagem.

Ricardo Fabião (Junho - 2010)

Na imagem: José Saramago em 1996
Fotografado por Sebastião Salgado

julho 10, 2010

Vida a dois


Para tentar dois em um - dois
Para confirmar um por dois - um
Para três quartos do amor - um
Para oito quintos de crise - dois
Para três tempos insistindo - um
Para um tanto de impasse - dois
Para cinco sextos de sofrer - um
Para um sexto do outro - silêncio
Para duas vezes ao dia - engasgo
Para um trago de dor - memória
Para dois tantos de tudo - um
Para o que resta de pouco - outro
Para sete nonos de aposta - um
Para o restante evitado - outro
Para noites de comemoração - um
Para resposta aos amigos - dois
Para onze décimos de farpas - dois
Para retornos interditados - dois
Para olhares incompatíveis - dois
Para novas possibilidades - poucos
Para oito oitavos de vazio - talvez
Para viver o resto dos dias - dois
Para um caminho avançando - um
Para um caminho ficando - outro
Para histórias partilhadas - um
Para tempos que não se atam - dois
Para depois da intolerância - dois
Para fim de um por um só - depois
Para um responder aos dois - tempo

Para tudo depois - o que é dos dois
Quando talvez dois diluídos em um
Ou para dois sendo um sem outro
Quando, para dois destinos, dois

Ricardo Fabião (dezembro, 2009)

abril 25, 2010

O primeiro desenho



O céu é de tão alto para muito mais
O sol é de tão intenso para mais luz
O céu gasta vãos com aviões e fumaça
O sol brinca de apagando e acendendo
O céu apanhou todos os azuis para ser
O sol engoliu luminárias e ficou aceso
O céu é pai das nuvens e das distâncias
O sol alimenta as manhãs e as estradas
O céu tem as paredes e os corredores
O sol está no abajur em cima do alto
O céu vai a todo lugar sem mexer o pé
O sol aquece tudo cá sem adormecer

O céu sobrevoa os desenhos do mundo
O sol vai mais baixo para pintar os dias
O céu gasta todo tempo sendo um vazio
O sol junta tudo e transforma em cores
O céu é de subir cada vez mais assim
O sol é de descer para encontrar chão
O céu tem tanta idade que nunca anda
O sol só vale o tempo de sua claridade
O céu não faz por esperar que aconteça
O sol descreve compromissos e horários
O céu é um arco por cima das cabeças
O sol é um fogo por dentro de tudo

O céu só há por haver sol
O sol por vagar nesse céu
O céu vai mais fora que as estrelas
O sol vem mais dentro que as células
Céu que por fora corpo
Sol que por dentro alma

Ricardo Fabião (Abril - 2010)

abril 20, 2010

Janela para vazios





Para Margarete e Alômia

Quando ele se tornou vizinho começou a manhã.
Antes disso em uma noite cabia tudo que havia.
A família do lado veio com aparatos e quadrados,
E com tecnologia de ponta e plantas de plástico,
E tudo ansiavam de um viver fora e longe de si,
Cada qual seu destino de ilha: mãe, pai e filho.

Essa impossibilidade escondeu a chave dos três,
E com cadeado as palavras só diziam por dentro.
O vizinho quis sorrir de amigo aos daquele lado,
Mas sorriso é algo que os três de lá não puderam,
E não viram. Puseram muito silêncio por entre,
E assim aconteceu esse vazio entre as casas.

E o vizinho ficou de olhos ali por trás de tudo,
Com uma tristeza que só entendiam as estrelas.
A vida doía então absurdamente geométrica:
O pai quando caminhava descrevia triângulos;
Às vezes ia muito baixo, às vezes alto para lá,
E ninguém calculava os lados desse mundo.

A mãe tinha pés que desenhavam losangos;
E havia rugas contra as esquinas de sua manhã;
Por isso camuflava gritos com jóias e perucas.
Era mulher de muito arrumar, de pouco sorrir;
E ninguém acompanhava seu triste caminho.

O filho tinha círculos esverdeados no que era,
De onde avançava um vazio mudo como bola;
E rolava no chão que era só reto e não se via,
E não encaixava olhar nos três ângulos do pai,
E não acertava ser nos quatro pontos da mãe.

Assim o tamanho desse lar era um cubo fechado.
Com sinais vermelhos nos corredores e quartos,
E janelas que só mostravam tudo ao invés assim.
E no jardim as cores tinham vazios quantizados;
E o mundo era imaginado só de depois e acolá.

Mas o tal vizinho trabalhava com giz e apagador,
E gostava de sorrir da vida e sabia os segredos.
E foi convidado a rabiscar desenhos-de-ser-feliz.
E riscou no ar um sobrado com desmedido azul,
E zeloso girou os rumos onde todos pudessem ir:

Fez quarto com todas as formas para o menino;
E dois tantos da mesma providência para a mãe,
E as chaves para que o pai abrisse aqueles lados.
Desfez as linhas que não brilhavam nos olhares,
E desenhou curvas mais para cima nos sorrisos.

Com giz e segredos retornou ao ficar de vizinho.
E correram os três para a casa dentro do azul.
E tentaram eufóricos os desenhos de conviver.
E houve festa de enxergar o outro e até suportar,
Pois tinha mais azul ali do que no mundo todo...
Mas nem toda casa azul tem suavidade de céu:

O pai passou a receber visita que não se sabia;
E com caminhos demais a mãe deixou de voltar.
O menino a olhar círculos, triângulos e losangos,
Mas não compreendia a insistência dos silêncios.
E de tanto desencontro que um cinza-mudo veio.

E quando falavam só se ouvia rabisco enroscado;
E tanta mágoa se deu que a noite nem dormiu lá;
O sol perdeu a hora de acordar o resto do tempo.
Com isso o azul virou uma calha e molhou tudo,
E não teve sossego que ali arrumasse as cores. 

E da janela ao lado o vizinho calava tristeza só,
E era apertado como olhava a casa e o apagador.
E com essa tristeza rasgou em duas voltas assim,
E já no lugar era só o fundo do mundo que se via,
Costurado no pano que cobria o tamanho do céu.

No lugar da casa, onde restaram mudas de azul,
Riscou um abismo com larguras de um “v” vazio,
E fez-se o chão que ia mais longe do que não ver.
E foi assim que quis manter sua casa de vizinho: 
De cara com um silêncio de tamanha distância.

Nos dias em que mais doía a incerteza de gente,
Ele brincava com as estrelas de ser mais mudo,
De ser menos humano para ser mais do abismo,
Do fundo disso. Mas guardou consigo as cores,
Para pôr nas janelas quando quisesse outro dia.

Ricardo Fabião (Abril - 2010)

Texto para o desafio de Abril - Fábrica de letras
Tema: Abismo

Edgar Mueller é conhecido por fazer pinturas tridimensionais em ruas (3D Street Art).
O abismo acima é de sua autoria. 

março 31, 2010

A ladeira




Eu preciso aprender a morrer como rio,
A escorrer como um fio de rio que sorri.
E nesse destino incerto de azul e espaço,
E aos instantes de braços e corredeiras,
Deixar minha correnteza de alma inteira
Vagar abismos maiores de além e devires.

Alegre por ser tão manhã quanto já fora;
Que seja assim o oceano à minha espera.
Como rio que mais água tem por morrer,
Que me permita então mais alma engolir
No mergulho; quando assim bater a hora.
Tudo de mim que já há que mais lá seja.

Então que eu incorpore a alegria dos rios,
Que descem só de almejar esse ser depois,
De catar vazios que lhes permitem a queda.
Minha vida, ah, que eu colha tudo de viver,
E aconteça caindo até que um mar se faça:
Esse depois; como já dito ter que alcançar.

Avançar talvez como rio que à morte vai
Seja o melhor que em vida nos aconteça;
Acatar o desenho inclinado da existência,
E evitar a solidão de ser partido em poças,
Calculando que do parado destino desvia.
- Um secar assim é morrer mais doloroso.

Vou como rio e rio e rio até o mais viver.
E não seja eternidade o vão desse depois,
Seja de intensidade esse mar de encontrar;
Minha alma que abotoada aos azuis deste,
Torne-se tão ampla quanto um fim de rio,
Que morre, morre, morre e não esvazia.

Ricardo Fabião (Abril - 2010) 

Texto para o desafio de Abril - Fábrica de Letras
Tema: Abismo

* Foto de Katrin Adam - "Um homem só"

março 19, 2010

Algo sempre


                                       
                                        Para Mercedes Sosa

A morte não tem cobertor para os sonhos
Por isso no morrendo há que restar o passo,
Indo a lugares onde um morrer nunca invade.
No morto um tanto de viver torna-se carne,
Onde os olhares do tempo estão congelados.
Ali muito de dentro haverá inevitável vida,
Em verde soprar além do branco da porta,
Da última; nem tudo da vida retorna ao pó.

Se a palavra e sua pressa de horizonte,
Se a música e sua onipresença vertical,
Quando cruzadas buscam fundo no infinito.  
E sendo cantar como se desfia uma alma,
E doá-la, muito mais do que sons e gestos,
Depois disso não se volta mais ao começo,
Pois há vida crescendo além desse corpo,
Tomando chão, comendo as mil distâncias,
De rumo onde não se sabe imaginar.

Vida costuma não caber toda num vivente,
Às vezes vaza um viver para outras almas.
E isso avança como ânsias de trepadeiras,
A montar luzes dentro de outras luzes
Das vazantes sobre o sossego das pedras.
Nessa junção, entrelaçam-se os enredos,
E cada enredo, com rabiscos de infinitas pontas,
Lança ramos sobre todas as possibilidades.
E isso cresce
É assim que se vive e se morre sempre:
Sem passar, só sendo...

O poeta, costureiro de mundos, sabe:
Vida dentro de outra, noutra
Tantas, todas.

Juntas, vezes sendo, lidas noutra história,
Fundem-se em formatos diversos de vozes,
Distorções de amores e confusões de cores.
Curva da volta de uns, reta de outro seguir;
Uns que só ficam de muitos que só seguem,
Uns de mato e terra, uns de mar e adiante,
Entrelaçados pois num vivendo de sempre,
Ventre-após-ventre de futuras gerações.

Se um viver espalha-se por vão como fluido,
De certo um morrer sim pode várias mortes:
A que emudece amputada da que fenece,
A que plana desembainhada da que migra,
A que morre ainda que de vida permaneça,
A que indaga seja quanto mais luz se faça,
A que menos passa quando mais voz deseja,
A que aberta contra a distração dos vivos.

Depois disso onde sepultam as frases do fim,
Possa talvez uma fronteira desconhecida,
Um ponto vivo a respirar além dessa esquina;
A lançar sinais de que não se morre havendo
Algo maior que todo seu quando ainda-sendo,
Escorado à porta com um cesto de poesia,
Com voz para entorpecer as dores de um dia,
E alma para conduzir uma distância inteira.

Disso assim restará para os lados a ponte:
Vivos que vão ao morto, este de ir aos vivos;
E a música levando e trazendo a mensagem,
Um sempre.

Ricardo Fabião (outubro - 2009)


março 12, 2010

Afluente




Para Fernando Pessoa


Ah, poeta...
"Dá-me sonhos teus para eu brincar" *
E brincando de sonhar estender-te as mãos;
Para que venha tua palavra escrever minha vida,
Regar as minhas mudas tímidas de liberdade,
Meus projetos de norte e sul de toda parte,
Para que não haja mais lacunas entre ser e expressar...

Eu digo certo as coisas dos homens,
E somo de cor as contas quadradas da álgebra,
Mas não domino o plano disforme de contar poesia,
De arrumar palavras sabendo onde cada uma cabe,
De ajeitá-las de modo que possam abrigar um olho,
E tão rapidamente alcancem seus destinos de dizer.

Ah, vem morar na minha aldeia, 
Acender-me o azul dos dias,
Que tudo meu é cansado de cinza e de ocaso.
Conta-me como se descreve um doer em verso,
Pois nem sempre juntando dor e pena dá poema.
Explica-me como são as alegrias das palavras rimadas,
Ensina-me como sair em curvas por dentro do sentimento,
E ao mesmo tempo ter a mais reta visão de isento.
Se me estenderes teu rio como caminhada,
Não secarei ao tempo, de morte não morrerei...

Ah, acende-me um instante de tua plenitude,
E deixa-me enxergar o viés da alma, o frenesi dos sentidos.
Não quero ser apenas de viver e morrer como faço...
Preciso de tua escada para enxergar a altura do mundo,
Já que sendo meu chão de gente comum, sigo estreito de tão óbvio.
E assim, de frente para teu tamanho de rio e de poeta,
Que eu me faça afluente para me perder de tanto navegar.

Só depois disso assim, de ir tão longe como tu escreves,
De conferir infinitamente poesia como tu és,
Desça eu as escadas e encontre já um outro de mim,
Com alma suficiente para versar um mundo inteiro.

Ricardo Fabião (Março - 2010)

(*) O verso "dá-me sonhos teus para eu brincar" faz parte do poema O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa).

março 11, 2010

Ancoradouro


Quando enfim tecido meu corpo de poesia,
Não demorará que me encontrem os leitores.
A alguns estenderei a mão e vários caminhos,
E disso criaremos pontes e passagens secretas.
É o modo como opera uma fábrica de espelhos:
Eu projeto aqui e tu me refletes em ti e adiante...
Como de ti há também luz que volta e me ilumina.
Seguimos eu e o meu leitor a refletir novas luzes,
De maneira que não sabemos o chão que elas são,
E olhando para trás não entendemos seu começo.

Somos de nós o lado certo do verso e seu avesso.
Por tudo já dito e para reflexo do que ainda dizer,
Damos ao sentido não apenas o que lhe é cabível,
Mas o que lhe é possível dentro do não-pensado.
As coisas meias todas de sentir deixamos à poesia,
E realçando meia intenção minha e meia de leitor,
Com mais meias de quem for de aventurar partes,
Saber-se-á que uma poesia inteira ou em pedaços
Tem tamanho que não cabe no acaso das gavetas.

Todavia,
Outros leitores passarão sem que me percebam,
Sem que seus olhos ancorem em meus versos...
Sendo por isso um desencontro total de universos,
Um pesar calado de duas possibilidades e pontes.
Passarão pois meus ramos sem lhes propor frutos,
E os laços que faríamos e os abraços de mundos,
Com palavras de costura e a textura de duas almas,
Em contornos de sentidos e de adornos acrescidos,
Em silêncio serão guardados em caixas separadas,
E deixados às gavetas mais escuras da memória:
Eu poesia com um lado meu de encaixe rejeitado,
E o leitor consigo alheio à minha espera de olhares.

Assim, para todo “não” de um sentir há um texto só,
Uma poesia só, um poeta só, um cego só, sozinhos.
Não que detenha razões o que se diz em um poema;
Em contrário tudo de saber aqui é dito pela metade;
Poesia não prega teorias – permite-se a todas elas,
Só pede um instante de sentido e afago qualquer...
Implora por mundos compartilhados no lá fora.

Há textos sem a luz do olhar de quem os vê de fato,
Mas não há poesia sem que entre luzes haja contato:
A de fora que se dentro completa a que incorpora,
E a de dentro aquela que aflora para mundo embora.
Sigo pois a existir no instante vago dos que me veem,
A distribuir palavras para que de sede não padeçam;
As alegrias e os desejos levo aos que me abrem o dia,
E permitem que nele eu desenhe um haver diferente.

Ricardo Fabião (Março - 2010)

março 03, 2010

Combustão


E com estrelas piscando dentro da alma,
e com as células repletas de mundos,
vou rabiscando os vazios da existência
até que se tornem caminhos e passos...

Lanço olhares sobre a guerra dos homens
e choro baixinho por trás das cortinas;
a desejar que sejam apenas pesadelos,
e que logo se agigante uma nova aurora.

Por isso com minhas alegrias de menino,
desço aos porões onde florescem poesias,
a colher uma por uma com preciso zelo;
e os braços coloridos de verdes e laranjas
não são meus somente, são as sementes,
grãos para as manhãs que ainda dormem...

Levo isso por onde vou: estrelas e poesias,
e não temo adentrar escuridões nem limos,
pois lume não falta que me leve adiante,
nem distância há que vença meus anseios...

E por onde segue minha febril carruagem,
alcanço de olhos ao longe sobre os ombros
alguém que apanha um verso meu deixado;
e logo vê-se a chama dentro dos cercados,
assim instantaneamente que milagre parece,
o desejo de investir amor contra as paredes,
e força de ousar paixões para além da estrada,
de não ser apenas mais um só dentro do todo,
por ser brilhando com tudo um de dentro sol.

Ricardo Fabião (Março - 2010)

fevereiro 20, 2010

Mão dupla


Se queres que eu sangre,
que eu doa,
que eu agonize,
que eu me lance,
que eu levite,
dê gargalhadas,
que eu me encontre,
alcance as alturas,
que eu siga para saber,
e volte sabendo menos,
que me perca em cálculos,
e seja feliz por mim apenas,
que eu dance,
e sufoque,
que eu exploda,
e insista,
que me assuste,
sem chão,
sem norte,
tudo isso sobre um vivendo-e-morrendo intensamente,
dê-me um só segundo de mundo a dois...

Inspiração


nasci quando recriei a dor humana,
sou da intenção muda de certos caminhos,
não me vejo de outro instante senão do devir,
minha fotografia é uma frase avançando,
de onde emergem gritos e vazios profundos;
a ânsia com que vou é dos textos e da loucura,
sou filha do silêncio com contextos de atalho,
guardo alegrias sob o peso das exclamações,
trago entre pontos notícias tristes dos homens,
desço e subo atônita em intervalos de vírgula,
perco minha voz em dúvidas de reticências,
não tenho casa, sou de como segue a frase,
não tenho tema, vivo de sentidos e sons,
entro em parafuso no fim de cada estrofe
para atravessar o fundo branco que há em ser,
se há mais luz depois é quando sou desejo;

fui criada para exceder a intenção do eu lírico,
para nem ser eu mesma e nem assim o eu outro;
existindo de empréstimo de ideias e gêneros,
sou o que se escreve aqui e o que não se vê,
o que se inscreve por haver sido mel ou sangue,
estendo rios para que naveguem os amantes,
semeio horizontes para que sigam os errantes,
desenho planos de fuga, ânsias de fogo e fel,
estou num estado de entrelugar, de entresser,
com veredas que vão a várias possibilidades...
é assim que aconteço de vida em tudo e nada,
para depois dessa viagem de ocos e mundos,
retornar ao desvio onde deito as palavras,
e zelar pelo vão das janelas na última frase,
onde os verdes da alma começam a amadurecer...
com cuidado para que logo deitem as sementes,
que tudo meu morre e nasce de outras linhas,
a evitar sempre os abismos do ponto final.

Ricardo Fabião (Outubro - 2009)

dezembro 31, 2009

Espelho cilíndrico


a realidade não pode traduzir
já que os sonhos vezes mil são minhas trilhas
os verbos não conseguem descrever
já que meus desejos mudam com os ventos
as virtudes não sabem legitimar
já que meus desvios têm múltiplas faces
os dias não alcançam decifrar
já que meus passos acendem e apagam no tempo

nem que eu escreva mil poemas
distribua meu desenho em mares de panfletos...
pouco terá alcançado o mais profundo de mim
porque um texto tem intenções demais
porque uma estrofe tem rimas banais
mesmo um poema, nem este é capaz
sobre nós mesmos tudo que se diz é gasto
caminho longo, horizonte vasto...

acima das minhas palavras estão meus olhares
o que eles trazem
além dos meus verbos gritam meus silêncios
o que está na alma
antes dos meus projetos trago minhas mãos
o que elas produzem
sobre meus anseios avançam minhas estradas
o que elas concluem

a meu respeito embora nunca apresentado
o instante calado é tanto quanto sou e vivo
é sobre mim por dentro e fora o real
o mais próximo das mentiras do espelho

dezembro 04, 2009

A agenda


Decidiu que iria ao dentista,
que aprenderia alemão,
que não faria outras dietas,
que teria um animal de estimação,
que veria os filmes da temporada,
que tomaria sorvetes coloridos,
que assistiria ao pôr-do-sol,
que distribuiria perdão aos inimigos,
que pagaria as dívidas,
que faria tudo de corpo inteiro,
que orações suplicaria
para cumprir todos seus planos.

Calculou que a vida é preciosa,
percebeu que há sempre uma saída,
que com outro olhar se vê outro mundo,
resolveu que retomaria velhos amigos,
revisitaria livros já lidos,
concluiu que tomaria outra estrada,
vislumbrou uma nova chance,
relembrou conselhos e carinhos,
pensou noites de música e festa,
imaginou beijos, abraços e crianças,
agendou tardes de sol para décadas
decidiu que viveria, se pudesse...

Mas não havia tempo
nem possibilidade de retorno,
logo mais viria o choque quadrado do chão,
um corpo vezes altura vezes velocidade...
então tudo seria desfeito, todas as datas.
Findaria o instante dos nove andares
sobre o silêncio caído, esquecido;
permaneceria uma incerteza de gente,
em lá e cá de desenho torto, contorcido,
nem mesmo um sonho inteiro para resgate.

Ali tudo calado em azul que se colheu caindo;
amores e amigos, braços e pernas misturados,
deixados ao apetite voraz do tempo,
ao lado do branco da agenda não cumprida.

Ricardo Fabião (Dezembro, 2009)

novembro 20, 2009

Prefácio


Ah, se fosse somente a morfologia dos sentimentos...
Amar, simplesmente amar, como seria?
Ah, se então se revelassem os segredos da felicidade,
Que se daria?
Antes, há que se atentar para a sintaxe do dia-a-dia,
E tentar sobreviver às sutilezas dos complementos,
E apurar os predicados e selecionar bons adjuntos.
Há por bem que se traduza a semântica dos olhares,
A pragmática dos sorrisos, como eles se abrem;
Convém que se classifique um aperto de mão,
E as intenções dos sujeitos,
E as entonações dos predicativos,
E os porquês dos superlativos,
E a transitividade dos que se aproximam...
Viver é evento de mil conjugações.
É irregular, intransitivo, indefinido,
É substantivo de qualquer classificação;
Não tem gênero, e seu número é o mundo inteiro.
Viver é gramática que dispensa professores,
Todavia, exige amores, dores, suores;
Espalha-se em desinências múltiplas e formas livres,
Avança para além dos objetos, das pessoas, dos modos, dos tempos.
Sendo assim, conjugação simples,
Viver não é mais difícil que falar,
E cai bem como advérbios, para início, meio, fim e depois;
E tem caminhos e facetas como pronomes;
Está no contexto, fora dele, tentando fazer parte.
É termo simples, sendo indeterminado e palpável.
É comum de dois ou de todo mundo;
É vocativo, clamando por espaço;
É aposto, reforçando o inexplicável;
É período simples e composto.
Está por trás das linhas,
Deslizando entre as vírgulas,
Anterior ao discurso,
Após o ponto final.
Na reescritura.

Ricardo Fabião (Abril, 2007)

novembro 12, 2009

Significado


dentro do instante cabe um fato todo sempre
não como de muitas partes um fato inteiro
só um tanto onde de fato um tempo encaixa
cada segundo a parte da qual se diz um todo
sempre mais inteiro se retomado por partes
se completo o instante um mais todo ocorre
se partido em quantos mais um tanto avança
pois indo a toda parte cada um dos muitos
há que ser mais inteira a noção de um fato
se as partes cabem em si quantas são todas
tudo é das partes que toda parte é em tudo
não se vê em parte sem se mensurar o quanto
e um todo não há que não se meça por partes
tudo portanto partes e todo são do mesmo um
do instante colhido por mãos diversas algo
portas abrindo-se por fora do mesmo dentro
parte por parte por parte por tudo havendo
isso tudo em fato só, significado.

Ricardo Fabião (novembro, 2009)

outubro 04, 2009

O empinador de céus


Um verso tecido para registro do sol,
do sal, da imersão da vida em pedra,
do rio sempre sobre gente sendo só...
E tendo de ser sertão, de ver-se são,
segue nisso João entre sons e céus;
se versa um vão, tece uma amplidão...

Basta só que uma palavra sua lance
sobre outra palavra a ponta do fio,
e essa que perceba o verso avance,
que receba o lance da primeira alcance,
que esticada em frase bata em revoada,
e que lançada sendo tal palavra seja,
que unida a outra mais liberta esteja,
e que repasse a rima itinerante à rede,
e as palavras juntas criem mil modelos,
e pelos versos rolem de gerar sentidos,
indo a mais palavras para mais lugares,
se lançadas sobre mais destinos digam,
de um tempo ao outro, as razões do verbo,
que expressando lancem adiante a chave
que destrava a porta para luz cortante,
e que mais palavras desnoveladas sejam,
velejando em frases para cais distantes;
que suscitem mundos sobre tais novelos,
e as palavras livres saibam ser milhares;
que armada a tenda caibam cem mil delas,
e que todas tantas sendo tão das outras,
recompondo cores e empinando chaves,
sob um sol sertão possam estar em verso,
tais palavras soltas a tecer um mundo,
que com suas asas vão vencer vazios...
e que vezes tudo, vezes céu silêncio,
vezes só poema, todo universo.


Ricardo Fabião (Outubro, 2009)

"Tecendo a manhã" foi o meu primeiro contato com a poesia de João Cabral de Melo Neto...
A partir dessa experiência, tornou-se impossível não tê-lo comigo em tudo que eu enxergo e acredito poeticamente.
O poema "O empinador de céus", de minha autoria, dialoga com "Tecendo a manhã"; é de certo modo uma homenagem ao citado poeta.

Tecendo a Manhã
João Cabral de Melo Neto

"Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão".

setembro 27, 2009

Caleidoscópio


Gira dentro, mira
Vê-se a forma e vira,
Cai de encaixe a peça,
Noutra cor sem pressa
Que girando brilha
Que mudando trilha,
Segue nova dança
Longe olho alcança
Curioso a vê-la,
Deslizante pela
Luz de uma estrela,
E com a mão movendo,
Vai se refazendo,
Toda caprichosa,
Numa grande rosa,
Que mais cintilante,
Tal qual um brilhante,
Pedra harmoniosa
Semi-preciosa,
A rolar vistosa
Dentro solta e lenta
Que girando inventa
Uma constelação,
Penas de pavão,
Gira e voa e vira
Logo se retira

Já depois mais belos,
Montam-se os elos
Verdes e amarelos,
Ardem tons de azuis,
Tão cheios de luz,
Mas não há demora,
Veja que agora,
Pontos de vermelho
Brilham no espelho,
Vertem-se turquesas
Sutis realezas
Em laranjas crescem
Em rubis padecem
Quando tanto mais
Tombam de lilás
Pontos-luz diversos
Cem mil universos
Manto violeta
Tons de borboleta
E girando fácil,
Pleno de minúcias,
E cedendo ao vício,
Degustando o ócio,
Remontando as luzes,
Ligando as matizes,
Colorindo as asas,
Revirando as coisas
Encaixando as cores,
Desenhando em pares
Um milhão de flores
Uma mão movendo
Oco de olho lendo
Que mirando gira
Que girando muda
Que mudando acende
Que acendendo inspira
Que inspirando vira
Outra forma e mira.

Ricardo Fabião (Junho, 2000)

setembro 18, 2009

Engrenagem


a vida
a arte
o teatro
o camarim
o espetáculo
o desdém
o engasgo
a penumbra
a saída
a rua
a lua
a esquina
o instante
o pensamento
a decisão
a ponte
o olhar
a estrela
o salto
o vento
a velocidade
a água
a bolha
o nariz
o desespero
o barulho
o silêncio
o oco
a notícia
a lembrança
o aplauso
o sucesso
o prêmio
o nome
o tempo
a arte.

Ricardo Fabião (Setembro, 2009)

julho 09, 2009

Quadrado imperfeito (poema)

Há na palavra torta do texto
Dez portas de outras palavras
Quase mortas de quem vê-las
Quase vivas de não sê-las
Tão palavras de si mesmas
Mesmo soma de outros cantos
Vezes tantos de olhos prontos
Quando cruzam de outras montas
Buscam noutras frases pontos
Dentro textos que se partem
No afora de uma sorte
Como aporte de um agora
Indo mais palavras fora
De encaixar palavras dentro
Vão colher dez vãos de porta
Noutras partes vãs do quase
Tomar grãos de mais palavras
Sobre cortes de outra ponta
Sempre tontos de outras partes
Para que se faça o todo
De outros vãos de uma palavra
E não ser apenas uma
Ser estrada para muitas
Tudo porto de outras fontes
Não ser tudo de estar tanta
Nem viver palavra só

Ricardo Fabião (Julho, 2009)



Após publicar o poema, saí pela net
em busca de outros "quadrados imperfeitos"
e achei interessante este que está acima.
Chama-se "Quadrado imperfeito", e foi extraída da página:
http://www.flickr.com/photos/bandeirolascarioca/727996854/

Fogo obsessor

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