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quarta-feira, maio 15, 2024

O grande conflito e a criação: uma breve análise

A partir de 2023, a Igreja Adventista do Sétimo Dia iniciou a distribuição em massa do best-seller O Grande Conflito, da escritora norte-americana Ellen G. White. O projeto pretende entregar, gratuitamente, um bilhão de exemplares (200 milhões impressos e o restante em formato digital), alcançando 12% da população da Terra, em apenas dois anos.[1] A mensagem do livro trata da crença bíblica do grande conflito entre o bem e o mal. Esse ensino importante está relacionado com o criacionismo bíblico.

 

Qual é a relação entre a doutrina do grande conflito e a criação? Como esses dois conceitos podem ser definidos e como eles afetam nossa vida? Vamos tentar responder a essas perguntas com a Bíblia, os escritos de Ellen White e outros autores.    

 

O grande conflito e a criação são crenças fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia.[2] O livro Nisto Cremos esboça e comenta esses dois ensinos. O grande conflito está presente na seção “a doutrina da salvação”, e constitui a crença oito: “Toda a humanidade está agora envolvida no grande conflito entre Cristo e Satanás quanto ao caráter de Deus, sua Lei e Sua soberania sobre o Universo. Esse conflito se originou no Céu, quando um ser criado, dotado de liberdade de escolha, por exaltação própria, tornou-se Satanás, o adversário de Deus, e conduziu à rebelião uma parte dos anjos. Ele introduziu o espírito de rebelião neste mundo, ao induzir Adão e Eva ao pecado. Esse pecado humano resultou na deformação da imagem de Deus na humanidade, no transtorno do mundo criado e em sua consequente devastação por ocasião do dilúvio global, conforme retratado no relato histórico de Gênesis 1 a 11. Observado por toda a criação, este mundo se tornou o palco o conflito universal, dentro do qual será finalmente vindicado o Deus de amor. Para ajudar Seu povo nesse conflito, Cristo envia o Espírito Santo e os anjos leais para os guiar, proteger e amparar no caminho da salvação” (Gn 3; 6-8; Jó 1:6-12; Is 14:12-14; Ez 28:12-18; Rm 1:19-32; 3:4; 5:12-21; 8:19-22; 1Co 4:9; Hb 1:14; 1Pe 5:8; 2 Pe 3:6; Ap 12:4-9).[3]

 

A crença “A Criação” está presente na seção “a doutrina do ser humano”, e constitui a crença 6: “Deus comunica por meio das Escrituras o relato autentico e histórico de Sua atividade criadora. Ele criou o Universo e, em uma criação recente, de seis dias, o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e descansou no sétimo dia (Êx 20:11). Assim Ele estabeleceu o sábado como memorial perpétuo da obra que Ele realizou e terminou em seis dias literais que, junto com o sábado, constituem a mesma unidade temporal que hoje chamamos de semana. O primeiro homem e a primeira mulher foram formados à imagem de Deus como obra-prima da criação, foi-lhes dado domínio sobre o mundo e atribuiu-se-lhes a responsabilidade de cuidar dele. Quando o mundo foi concluído, ele era muito bom, proclamando a glória de Deus” (Gn 1-2; 5; 11; Êx 20:8-11; Sl 19:1-6; 33:6, 9; 104; Is 45:12, 18; At 17:24; Cl 1:16; Hb 1:2; 11:3; Ap 10:6; 14:7).[4]

 

Com a ascensão do modernismo, através do Iluminismo, a realidade de seres sobrenaturais como anjos e demônios foi amplamente questionada e, com frequência, descartada. Antes do modernismo, porém, a realidade de um conflito cósmico foi amplamente defendida pelos cristãos.[5] Um pouco antes dessa fase, também influenciado pelo Iluminismo e o Racionalismo, o cristianismo ficou dividido sobre a doutrina da criação. A publicação do livro A Origem das Espécies, por meio da seleção natural ou a luta pela existência na natureza, de Charles Darwin (em 1859), levou muitos cristãos a rejeitarem o Criador e Sua obra.

 

Grande conflito: concepção adventista

 

Os adventistas consideram o grande conflito sua cosmovisão para explicar a realidade. Para eles essa crença “é fundamental, pois serve de base para descrever a história do planeta Terra juntamente com as implicações que envolvem a raça humana”. Em outras palavras, “a expressão o grande conflito é utilizada” pelos adventistas como referência a uma interpretação bíblica da história humana. O centro dessa mensagem específica é a luta entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre Cristo e Satanás, onde o campo de batalha é o planeta Terra”.[6]     

 

As referências bíblicas sobre o grande conflito formam “um mosaico da verdade”, que explica a mensagem total da Escritura com maior clareza. O conflito moral, que tem perturbado o Universo, acha-se estreitamente vinculado ao plano de salvação, que prevê “a libertação da humanidade da escravidão do pecado, e uma teodiceia para a Divindade contra as acusações de Satanás”.[7] Para o teólogo Fernando Canale, o grande conflito constitui uma “metanarrativa que segue a lógica interna e a progressão histórica das atividades divinas envolvidas no plano e realização da redenção cósmica”.[8]

 

Mark Finley explica que os três temas mais importantes da Bíblia (Jesus, o plano da salvação e a cruz) “se desdobram tendo como base um cenário ainda mais abrangente: ‘o grande conflito’. Esse tema permeia a Bíblia, de Gênesis a Apocalipse”.[9] O grande conflito, portanto, aglutina e explica os demais temas bíblicos, como uma assadeira de bolo que recebe os ingredientes e lhes dá forma e sabor. O estudo da Bíblia com as lentes do conflito cósmico, então, amplia a compreensão de episódios isolados e dá significado ao quadro completo. Alberto Timm explica que, para os adventistas, o grande conflito constituiu “a moldura de seu pensamento teológico”.[10]

 

Ellen White, o grande conflito e a criação

 

Para Ellen White, a “história do grande conflito entre o bem e o mal, desde o tempo em que, a princípio, se iniciou no Céu até à ruína final da rebelião e extirpação total do pecado, é também uma demonstração do imutável amor de Deus”.[11] Esse tema tornou-se para ela “seu princípio organizador. Todas as áreas de seu pensamento se desenrolavam a partir desse princípio internamente consistente”.[12] Ela sistematizou o tema na série O Conflito dos Séculos (cinco livros), que descreve o conflito cósmico entre Cristo e Satanás ao longo da história, desde a queda da Lúcifer no Céu até o fim do milênio.[13]

 

Segundo Márcio Costa, o “tema do grande conflito talvez seja a maior contribuição teológica de Ellen White”[14], e George Knight afirmou que o “segundo tema fundamental que corre como um fio por toda a sua obra é o grande conflito”.[15]

 

A criação também recebeu um destaque especial nos escritos da autora. Ela afirmou a criação literal da Terra, o sábado como memorial desse feito e o impacto dessa crença na história bíblica. Ela também rejeitou, categoricamente, a teoria da evolução:   

 

“Deus criou o homem à Sua própria imagem. Não há aquí misterio. Não há lugar para a suposição de que o homem evoluiu, por meio de morosos graus de desenvolvimento, das formas inferiores da vida animal ou vegetal. Tal ensino rebaixa a grande obra do Criador ao nível das concepções estreitas e terrenas do homem. [...] Os seres humanos são tão persistentes em excluir a Deus da soberania do Universo, que degradam ao homem e o despojam da dignidade de sua origem. [...] A genealogia da humanidade, conforme é dada pela inspiração, remonta sua origem não a uma linhagem de micróbios, moluscos e quadrúpedes que se desenvolveram, mas ao grande Criador.”[16]

 

Ellen White defendia que a criação foi concluída no fim da primeira semana literal e sua extensão foi global; que Deus criou a Terra em perfeição; que a humanidade recebeu a imagem divina “tanto na aparência exterior como no caráter”, e que a queda ocasionou a devastação da Terra e a degradação humana. Ela ainda afiançou o dilúvio global e assegurou a restauração da Terra ao seu estado original, por Deus.[17]

 

Para a Igreja Adventista, a “criação é a verdade fundamental das Escrituras. Todos os ensinamentos bíblicos, incluindo a encarnação de Cristo, Sua morte na cruz, Sua segunda vinda e todos os outros ensinos estão fundamentados na verdade de que nosso mundo foi criado pelo Senhor”.[18]

 

Michelson Borges escreveu: “Graças à teoria da evolução, o relato da criação, em Gênesis, gradualmente passou a ser visto” apenas como um mito. Minando a credibilidade do relato de Gênesis, desencadeia-se um “efeito dominó”, derrubando toda a teologia bíblica. Se a criação não foi exatamente como está descrita, não houve queda e, por conseguinte, a redenção não é necessária. Nesse caso, para que Jesus voltará ou para que o sábado como memorial da criação e selo de Deus?[19]

 

Para o historiador Justo González, “criacionismo é a resposta de alguns cristãos conservadores à teoria da evolução, visto como ameaça à doutrina cristã da criação. […] de acordo com os criacionistas, o relato bíblico […] da criação é científicamente defensável, e há uma irreconciliável diferença entre a doutrina cristã da criação e a teoria científica da evolução”.[20]

 

O geólogo Nahor N. Souza Jr. define criacionismo como uma “cosmovisão em que ocorrem associações intuitivas ou intencionais entre o conhecimento bíblico (historicidade de Gn 1 a 11), o conhecimento de Deus (origens, sustentação e restauração) e o conhecimento da natureza (nos seus aspectos científicos e estéticos).”[21]

 

O próprio nome “adventista do sétimo dia” está tão intimamente ligado à criação que as crenças que leva implícitas são chaves no grande conflito entre Deus e Satanás. No contexto dessa batalha cósmica, amplamente difundida, a crença da evolução é uma das fortalezas do inimigo. Com referência ao passado, Deus é despojado de Seu poder criador; com referência ao futuro, Satanás, por meio de seus agentes, luta pelo culto supremo que somente o Criador merece.[22]

 

Grande conflito e criação: relações

 

O grande conflito e a criação estão relacionados de muitas maneiras. Essa conexão envolve a origem e desfecho de ambos. A criação é mais antiga, pois em Cristo “foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste” (Cl 1:16, 17). A queda de Lúcifer e sua obra caluniosa contra seu criador antecederam a criação da Terra.[23] Sua guerra contra Cristo, derrota e expulsão do Céu transladaram o conflito para a Terra (Ap 12:7-12; Gn 3). Esse conflito foi vencido por Cristo ao bradar na cruz “está consumado” (Jo 19:30). “Era o propósito de Deus repovoar o Céu com a família humana”,[24] o que se cumprirá após o milênio, quando Satanás e seus seguidores (demônios e ímpios) serão aniquilados e a Terra recriada. O conflito terá seu desfecho, o bem vencerá o mal e a harmonia do Universo voltará, como fora no princípio (Ap 20–22).[25]

 

Três áreas importantes nessa correlação são a teológica, a hermenêutica e a missiológica. Teologicamente, os dois conceitos fornecem as bases para a correta compreensão sobre quem é Deus, o que é a realidade, como Ele age em relação às Suas criaturas e como os seres humanos devem se relacionar com Deus e com seus semelhantes. Enquanto o grande conflito é a moldura do pensamento teológico adventista, a criação é seu fundamento ou ponto de partida. A criação aponta para Deus, o originador de tudo o que existe, e o grande conflito expõe Seu caráter no trato com Suas criaturas.  

 

Baseando-se nas ideias de James W. Sire, Carlos Flávio Teixeira afirma que a estrutura da cosmovisão cristã “parte da criação do mundo, observando especificamente os efeitos catastróficos do pecado na mente e no coração humano, a guerra espiritual cósmica onde a verdade sobre a realidade e o significado da vida estão em jogo, a graciosa irrupção do reino de Deus dentro da história humana na pessoa e obra de Jesus Cristo, que torna o conhecimento do Deus verdadeiro e de Sua criação possível ao crente”.[26]

 

Segundo John Peckham, “uma teologia canônica que busque extrair sua estrutura conceitual do cânon das Escrituras é obrigada a incorporar uma estrutura baseada no conflito cósmico”.[27] De igual maneira, negar o relato da criação afeta a compreensão das demais doutrinas básicas, como o matrimônio, o sábado, a salvação e a escatologia.[28] Como disse Ruy Viera, “as crenças adventistas do sétimo dia fundamentam-se na revelação bíblica sobre a criação”.[29]

 

Segundo Hiran Jacobini, o conflito cósmico é um princípio hermenêutico implicado pela própria Palavra de Deus e, portanto, essencial à sua interpretação e compreensão; (2) a temática do conflito cósmico é parte integrante na cosmovisão dos autores bíblicos; e, portanto, uma pré-suposição importante na construção do mapa teológico das Escrituras; (3) o Conflito Cósmico é um fundo harmônico que permeia todas as narrativas bíblicas.[30] O mesmo poderia ser dito acerca da criação, que é parte intrínseca do pensamento bíblico e precisa ser levada em conta em sua correta interpretação. Jesus, ao interpretar as Escrituras, fez alusões à criação e ao conflito entre o bem e o mal (Mt 13:18-30, 36-43; 19:1-12; Lc 23:13, 25-32). Se não levarmos em conta o conflito e a criação, podemos distorcer o texto bíblico ou interpretá-lo, por um lado alegoricamente (negando a criação literal), e por outro humanisticamente (negando o conflito cósmico). A negação desses princípios e suas implicações para a vida e ética parece influenciar as interpretações alternativas atuais do relato bíblico.[31]

 

Tanto o grande conflito quanto a criação ocupam espaço privilegiado nas Escrituras, com grandes porções a respeito. O propósito disso não é apenas representativo, mas interpretativo. É significativo que a Bíblia comece com a criação e muitos livros bíblicos com uma evocação a esse evento (1Cr 1:1; Is 1:2; Ec 1:1-11, 1:9; Dan 1:12; Jo 1:1-14, etc.). Da mesma forma, os autores bíblicos apontam a realidade do grande conflito, em muitas passagens e episódios (Jó 1; Dn 10; Zc 3; Ef 6; Ap 12). Ambos os conceitos são apresentados como reais e não alegóricos. O conflito, embora envolva seres sobrenaturais invisíveis, pode ser percebido no fluxo da história bíblica e secular.[32]

 

Há ainda uma relação missiológica entre o conflito cósmico e a criação. Ismael da Silva e Rodrigo Follis afirmam que “a teologia do cotidiano contemporânea, através dos seus símbolos e de sua mística, encontra na metanarrativa do grande conflito cósmico um cenário propício para que a cosmovisão cristã seja contextualizada e desenvolvida na mentalidade pós-moderna”.[33] Segundo Vanderlei Dornelles, “o apelo do primeiro anjo, em Apocalipse 14:6, 7, para que os povos da ‘terra’ adorem ‘Aquele que fez o céu, e a terra, e o mar’, mostra que a temática da criação está no centro do conflito final descrito” nas visões de Apocalipse 12-14[34] e faz parte de sua proclamação final. O movimento criacionista moderno, iniciado pelos adventistas por meio de George McCready Price (1870-1963), contribuiu para essa proclamação.[34]  

 

A compreensão do grande conflito, em sua relação com a criação é fundamental. O significado dessas doutrinas afeta a vida espiritual,[35] contribuindo no amadurecimento espiritual até alcançarmos a estatura da plenitude de Cristo (Ef 4:16). “Ellen White percebia a conexão direta entre o tema do grande conflito, com foco na restauração, e sua filosofia de educação, observando seu propósito e objetivo mútuos: ‘Restaurar no homem a imagem de ser Autor, levá-lo de novo à perfeição em que fora criado. [...] Essa devia ser obra da redenção.”[36]

 

(Ribamar Diniz é Mestre em Teologia, Especialista em Missão Urbana [SALT/FADBA], Mestre em História Social [Unifap]; membro da Sociedade Criacionista Brasileira e do LEHME [Laboratório de Estudos da História e Memória do Unasp] e pastor na Missão Pará-Amapá)

 

Referências:

1. Mais detalhes sobre o projeto em https://greatcontroversyproject.org/. Acesso: 22 de abril e 2024.

2. Sobre o Grande Conflito veja Frank B. Holbrook, O Grande Conflito. In Rauol Dederen, (editor), Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2011), p. 1070-1112; Associação Ministerial da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. O Grande Conflito. In: Nisto Cremos: as 28 crenças fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia. 10 ed. Tradução: Hélio L. Grellmann. Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2018), p. 124-133. John C. Peckham, Teodiceia do Amor: O Conflito Cósmico e o Problema do Mal (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora, 2022). Sobre a criação veja Nisto Cremos, p. 86-98; William H. Shea, Criação. In: Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, p. 467-511 e a série de livros publicados no site da www.scb.org. 

3. Nisto Cremos, p. 124.

4. Nisto Cremos, p. 86.

5. Pecham, Teodiceia do Amor, p. 108.

6. Gladys Angélica A e Felipe Carmo da Silva, “A Magia Profunda”: As Crônicas de Nárnia à luz do Grande Conflito. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Salto - SP – 17 a 19/06/2016. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/sudeste2016/resumos/R53-0734-1.pdf. Acesso: 22 de abril de 2024.

7. Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, p. 1070.

8. Canale, F. From vision to system: finishing the task of adventist theology part iii sanctuary and hermeneutics. Journal of the Adventist Theological Society, v. 17. n. 2, 36-80, 2006. Disponível em: https://digitalcommons.andrews.edu/jats/vol17/iss2/3/ Acesso em: 19 nov. 2017.

9. Finley, O Grande Conflito, Lição da Escola Sabatina, abril-junho de 2024, p. 05.

10. Alberto R. Timm, O Santuário e as três mensagens angélicas: fatores integrativos no desenvolvimento das doutrinas adventistas. 6ta edição. Tradução: Arlete Inês Vicente (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2018), p. 228. Para um estudo sobre o conceito de conflito cósmico entre o bem e o mal nas religiões antigas ver, Cosmos, Chaos and the World to Come: The Ancient Roots of Apocalyptic Faith de Norman Cohn, publicado pela Yale University, 1993.

11. Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, Tatuí, 16ed. (São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2006), p. 33.

12. Denis Fortin e Jerry Moon, eds., Enciclopédia Ellen G. White (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2018), p. 949.

13. Fortin e Moon, Enciclopédia Ellen G. White, p. 1295.

14. Revista Adventista, agosto de 2021, p. 20.

15. Para este autor o primeiro é o amor de Deus e os demais são Jesus, a cruz e a salvação por sua mediação; a centralidade da Bíblia; a segunda vinda; A mensagem do terceiro anjo e a missão da Igreja Adventista; o cristianismo prático e o desenvolvimento do caráter cristão. George R. Knight, Introducción a los escritos de Elen G. de White. Florida: Asociación Casa Editora Sudamericana, 2014), p. 140-162.

16. Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, 45.

17. Enciclopédia Ellen G. White, p. 789-791.

18. Lição da Escola Sabatina, jan-mar 2013, 04.

19. Michelson Borges, Nos Bastidores da Mídia, edição atualizada (Tatuí, São Paulo: CPB, 2016), p. 14.

20. Justo L. Gonzales, Essential Theological Terms (Louisville, KY: Westminster John Knox, 2005), p. 42.

21. Dr. Nahor Jr. Palestra no Congresso de Universitários APlaC, Brasília, 02 de fevereiro de 2013. Anotações do autor.

22. Marcos Terreros? Quien es um adventista? Alguien que exalta la creación. In: Theologika: Revista Biblico-Teologica, Vol. XVIII, n. 1, 2003, p. 14-15.

23. Veja Ellen G. White, A Verdade sobre os anjos, p. 32.

24. Ellen White, Carta 91, 1900. “O Céu triunfará, pois as vagas deixadas pelos anjos caídos de Satanás e seu exército serão preenchidas pelos redimidos do Senhor”. (Olhando Para o Alto, p. 56).

25. Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, São Paulo: CPB, 2005), p. 678.

26. Carlos Flávio Teixeira, Verdadeira: filosofia, cosmovisão e ética cristã. 1ra edição. Engenheiro Coelho, Unaspress, 2024), p. 49.

27. Peckham, Teodiceia do Amor, p. 110-111.

28. Elias Brasil de Souza e Adenilton Tavares de Aguiar. A criação e a teologia adventista: Gênesis 1 e a linguagem criacionista de João. In: Wellington dos Santos Silva (org). Criacionismo no Século 21: Uma abordagem multidisciplinar, 1ª ed. (Cachoeira, CePLiB, 2013), p. 187

29. Ruy Carlos de Camargo Viera, A semana da criação: examinando o relato bíblico deum ponto de vista moderno (Brasília: Sociedade Criacionista Brasileira, 2012), p. 11.

30. Hiran E. C. Jacobini. O Conflito Cósmico: um princípio hermenêutico das Escrituras. Monografia em Estudos Teológicos. Centro Universitário Adventista de São Paulo – Campus Engenheiro Coelho. Novembro 2011. Disponível em: https://cdn.centrowhite.org.br/home/uploads/2023/02/O-CONFLITO-COSMICO-UM-PRINCIPIO-HERMENEUTICO-DAS-ESCRITURAS-1.pdf. Acesso: 22 de abril de 2024.

31. Veja o artigo de Carlos Flávio Teixeira sobre as hermenêuticas alternativas em https://teste.ministeriopastoral.com.br/novas-leituras/. Acesso: 01 de maio de 2024.

32. As cenas do prolongado conflito entre o bem e o mal foram apresentadas a Ellen White. Entre outras coisas, ela viu que Satanás tem levado os homens “a adorar a criatura em lugar do Criador, pode ser divisado em toda a história passada. Os esforços de Satanás para representar falsamente o caráter de Deus, para fazer com que os homens nutram um conceito errôneo do Criador, e assim O considerem com temor e ódio em vez de amor; podem ser observados na história dos patriarcas, profetas e apóstolos, mártires e reformadores. O Grande Conflito, p. 12-13.  

33. SANTOS DA SILVA, I.; FOLLIS SANTOS, R. Por uma teodiceia bíblica: Contextualizando a cosmovisão cristã para a mentalidade pós-moderna. Kerygma, Engenheiro Coelho (SP), v. 16, n. 2, p. 23–41, 2022. Disponível em: https://revistas.unasp.edu.br/kerygma/article/view/1500. Acesso em: 22 abr. 2024.

34. Vanderlei dorneles, “Adorai aquele que fez: a narrativa da criação e o clímax do grande conflito em Apocalipse 12 a 14. Revista Criacionsita, nº 100, anual 2019, p. 6-21.

35. Michelson Borges, Há 150 anos nascia o pioneiro do criacionismo moderno. https://noticias.adventistas.org/pt/coluna/michelson.borges/ha-150-anos-nascia-o-pioneiro-do-criacionismo-moderno/. Acesso: 01 de maio de 2024.

36. Knight, Introducción a los escritos de Elen G. de White, p. 162: “O grande conflito, o amor de Deus e os outros grandes temas dos escritos de Ellen White não são para discutir-se em forma abstrata. Longe disso, afetam a nossa vida diária. Cada um de nós deve escolher viver no mundo real aceitando os princípios de Deus ou os de Satanás.”

Fortin e Moon, Enciclopédia Ellen G. White, p. 950.

terça-feira, maio 09, 2023

As três mensagens angélicas e o criacionismo

Uma reflexão oportuna em complemento à lição da Escola Sabatina desta semana ("Adorando o Criador")


As três mensagens angélicas de Apocalipse 14:6-12 resumem a missão do povo de Deus no tempo do fim. Essas mensagens referem-se à forma como o evangelho eterno deve ser apresentado nesta época.

A primeira mensagem estabelece os dois fundamentos da missão:

  1. Temei a Deus e dai-Lhe glória, pois é chegada a hora do Seu juízo.
  2. Adorai Aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas.

O primeiro fundamento refere-se ao período profético atual e sua conexão com o plano da salvação, bem como com a questão da norma do juízo e a correta relação entre fé e obras. Essa parte tem sido bastante bem explorada na teologia adventista, exceto por um ponto que depende do segundo fundamento.

O segundo fundamento é a mensagem criacionista, que tem sido vista de maneira simplista e distorcida. Destaco então alguns dos pontos mais importantes.

1. No tempo do fim, o inimigo estaria muito experiente, eficiente e especialmente empenhado em enganar.
2. Deus proveu duas armas principais para combater os enganos do inimigo e para proporcionar um grande aprofundamento no conhecimento:
  • A primeira arma é uma motivação para que a Bíblia fosse estudada de maneira mais sistemática e profunda. A Reforma Protestante proporcionou o ambiente para isso. O estudo das profecias foi grandemente beneficiado.
  • A segunda arma é uma metodologia de estudo que permite superar as limitações da razão humana: a revolução científica apresentou um novo significado para a palavra “ciência” a partir de uma cosmovisão criacionista: a ideia foi a de que Deus é perfeito, sistemático e criou tudo o que existe usando padrões matemáticos de Seu próprio caráter; por outro lado, a razão humana tem-se mostrado insuficiente e não confiável para lidar com certos aspectos da realidade; propôs-se, então, encontrar e utilizar padrões matemáticos usados por Deus na criação e manutenção do Universo e usá-los para ler o que está escrito no livro da natureza, ao invés de apenas admirar suas gravuras; a metodologia matemática que se obtém dessa forma foi chamada de Ciência e está intimamente ligada à missão criacionista.
3. O inimigo contra-atacou de duas maneiras:
  • Criando viés e empecilhos ao estudo da Bíblia, de maneira a obscurecer ensinamentos importantes;
  • Induzindo um conceito racionalista de ciência, uma contrafação que fosse compatível com o humanismo; por exemplo, o chamado “método científico” (que é essencialmente tentativa e erro) faz parte dessa contrafação.

A mente humana é incapaz de lidar corretamente com domínios que estejam longe do cotidiano. Essa limitação é herdada pela Filosofia, que é a forma mais organizada do entendimento coletivo humano. A ciência humana, que é uma construção social, possui a mesma limitação, pois está subordinada à Filosofia. O método científico, por exemplo, depende de hipóteses que podemos imaginar.

Por outro lado, a verdadeira Ciência não está sujeita e essas limitações e apresenta as seguintes características principais:

  1. Permite penetrar em áreas inacessíveis a qualquer outra abordagem.
  1. Permite lidar corretamente com assuntos que não fazem sentido para a razão humana. Isso inclui fenômenos físicos contraintuitivos, mas não se limita a eles. A razão humana pura, quando consegue opinar sobre esses assuntos, chega frequentemente a conclusões falsas.
  1. Permite prever, até em detalhes quantitativos finos, fenômenos nunca antes observados ou sequer imaginados; fenômenos que desafiam a razão humana e mesmo a imaginação.

Apesar de os conceitos da ciência humana haverem predominado na literatura, inclusive na criacionista, foi a tradição de pesquisa e metodologia que veio do conceito de Ciência como metodologia matemática que causou, direta e indiretamente, o aumento exponencial do conhecimento humano nos últimos séculos bem como o desenvolvimento sem precedentes da tecnologia, graças a um conhecimento profundo de leis físicas e de como lidar com relações matemáticas mais complexas.

Entre os primeiros e mais importantes resultados do uso da verdadeira Ciência, estão conhecimentos sobre a natureza e universalidade da lei de Deus, em seus aspectos físicos (como a realidade funciona) e morais (como agir para maximizar a saúde, a felicidade, e assim por diante).

A perfeição do caráter divino, que também se manifesta na forma de amor, implica em que tudo o que Ele faz é perfeito, o que significa que as leis físicas são otimizadas em todo o Universo e em qualquer outro universo que por acaso exista. Isso nos dá uma poderosa ferramenta matemática para estudar leis físicas: algo que tem sido chamado de princípio da ação mínima, descoberto no século 18. Esse princípio nos permite obter equações que descrevem as leis físicas de maneira muito mais abrangente do que palavras poderiam fazê-lo.

As leis físicas estabelecem relações de causa e efeito, entre outras coisas. Isso significa que nossas ações (incluindo pensamentos) têm consequências. Muitas dessas consequências induzem sofrimento, injustiça e morte. Outras consequências melhoram a qualidade de vida, a felicidade, o convívio e assim por diante. As regras que nos ajudam a tomar as decisões que levam às melhores consequências chamam-se leis morais.

O sofrimento, a injustiça e a morte entraram neste mundo pela desobediência a leis morais, mas Deus tem um plano para restaurar a Terra e garantir a vida eterna a todos os que aceitarem Seu plano. O preço da salvação foi integralmente pago na cruz. Nada do que fizermos pode acrescentar um centavo a esse pagamento. Porém, nossa adesão a esse plano inclui aceitar ser transformados para conseguir viver em harmonia com as leis morais a fim de que, no futuro, não tornemos a trazer o mal de volta à existência. É por isso que a norma do juízo divino é a lei moral e nossa aceitação do plano que nos coloca novamente em harmonia com essa lei.

A Bíblia traz informação suficiente para entendermos o essencial e aceitarmos o plano da salvação. Mesmo assim, referências que ela faz a assuntos que transcendem ao cotidiano humano tendem a ser mal-entendidas por causa de limitações da intuição. Porém, foi a Bíblia que forneceu as informações que levaram à descoberta da Ciência como metodologia matemática, que é a única ferramenta que nos permite ir além do nível trivial no estudo das leis de Deus.

Conhecimentos científicos nessa área são importantes para entendermos temas ligados ao plano da salvação e à hora do juízo na qual vivemos. Isso também faz parte da missão criacionista.

A missão criacionista consiste no uso dos métodos matemáticos da verdadeira Ciência para o estudo mais profundo tanto da revelação escrita quanto da revelação natural a fim de que se possa apresentar com propriedade a Deus como Criador de todas as coisas e como justo Juiz cujo tribunal está em sessão neste momento.

Ao tomar nossa parte nessa missão, nos deparamos com “estranhas formas de erros religiosos e filosóficos combinados cuja exposição requer conhecimento de verdades científicas como também bíblicas” (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 514).

(Eduardo Lütz é bacharel em Física e mestre em Astrofísica Nuclear pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

segunda-feira, abril 24, 2023

O elo perdido, segundo Frei Betto

[Meus comentários seguem entre colchetes. – MB] Há tempos a ci­ência in­ves­tiga o elo per­dido entre o ma­caco e o homem. Já há con­senso de que Darwin tinha razão [sic]. Até o papa João Paulo II, que não era de dar o braço a torcer, ad­mitiu a per­ti­nência do darwi­nismo [sim os últimos papas deixaram clara sua visão evoteísta, que tenta misturar Bíblia com darwinismo]. O que obrigou os bispos da Ar­gen­tina, adeptos fun­da­men­ta­listas [sic] do cri­a­ci­o­nismo, a sus­pender, nas es­colas ca­tó­licas, o en­sino de que entre Deus e nós não houve outros in­ter­me­diários senão Adão e Eva.

Os cri­a­ci­o­nistas não podem ir além da ideia de um deus oleiro que, tendo brin­cado com ar­gila e so­prado o barro, deu vida às maquetes hu­manas [lamentável ver um frei usar linguagem irônica ao se referir ao relato histórico e factual da criação conforme registrado por Moisés em Gênesis]. Se dessem um passo a mais na ge­ne­a­logia do pri­meiro casal fi­ca­riam en­ca­la­crados. Se Adão e Eva ti­veram apenas fi­lhos machos, Caim, Abel e Seth, como se ex­plica essa vasta des­cen­dência da qual fa­zemos parte? Se­ríamos todos fi­lhos e filhas de um pa­ra­di­síaco in­cesto? [“Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete.
Depois que gerou Sete, Adão viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas” (Gênesis 5:3, 4). Que falta faz ler a Bíblia levando-a a sério.]

Como os an­tigos he­breus não frequen­taram a uni­ver­si­dade e, por­tanto, es­tavam isentos da lin­guagem aca­dê­mica, abs­trata, em toda a Bí­blia não há uma só aula de dou­trina ou te­o­logia [quanta prepotência!]. Sua lin­guagem é a do mi­neiro, à base de “causos”. Vê-se o que se lê. A lin­guagem figurativa, própria dos povos semitas, trans­forma con­ceitos em ima­gens. O vo­cá­bulo he­braico “terra” deu origem a Adão [sim, pois ele foi formado dos mesmos constituintes químicos do solo], e “vida” a Eva [claro, pois é da mulher que provém a vida], numa configuração plástica da noção de que Deus criou o mundo e a humanidade. O curioso é que o autor bíblico sugere que a vida veio da terra, o que só foi constatado pela ciência no século 19, quando foram descobertas as leis da evolução do Universo.

A Bí­blia quer en­sinar apenas que Deus é o cri­ador do Uni­verso, in­cluídos os hu­manos que, em­bora obra di­vina, pa­decem de duas li­mi­tações in­trans­po­ní­veis: têm prazo de va­li­dade e de­feito de fa­bri­cação [se levasse a Bíblia a sério, entenderei o que explica o capítulo 3 de Gênesis: que a morte e os “defeitos” não fazem parte da criação original de Deus, mas são resultado temporário da entrada do pecado no mundo]. O que a dou­trina cristã chama de pe­cado ori­ginal [se não há doutrinas na Bíblia, como escreveu Betto, então elas foram todas inventadas pelos cristãos?].

Isto é óbvio: todos morrem um dia, mal­grado as aca­de­mias de le­tras re­pletas de imor­tais, e não são poucos os que de­mons­tram grandes de­feitos de fa­bri­cação – ao longo da vida tornam-se cor­ruptos, men­ti­rosos, criminosos, opor­tu­nistas, se­gre­ga­dores, ma­chistas, homofóbicos, cí­nicos. Em suma, ho­mens sem qua­li­dade, diria Musil. E muitos com uma cu­riosa ten­dência para a po­lí­tica [adepto da teologia da libertação há muitos anos, o frei não perderia a oportunidade de politizar o assunto...].

Quando teria se dado o salto do símio ao hu­mano? No dia em que um ma­caco uti­lizou um pe­daço de pau como ex­tensão das mãos, como mostra Stanley Ku­brick, no filme “2001, uma odis­seia no es­paço”? [curiosamente, o relato bíblico da criação é mitológico, alegórico, mas no filme é “mostrada” e evolução humana... Cada um escolhe as fontes nas quais acreditar.] Ou no dia em que o oran­go­tango de­cidiu, ao con­trário de toda a fa­mília zo­o­ló­gica, deixar de comer quando tem fome e marcar hora para as re­fei­ções? Teria sido na­quela tarde de sá­bado em que o ma­caco tem­perou a caça com pi­menta e assou na brasa que res­tara de uma quei­mada pro­du­zida pelo re­lâm­pago, sem saber que in­ven­tava o chur­rasco? [Isso não é história pra macaco dormir; o texto bíblico, esse sim, é!]

Um ver­da­deiro hu­mano seria uma pessoa do­tada de cri­a­ti­vi­dade. Quem já viu uma casa de joão-de-barro com uma va­ran­dinha ou um pu­xa­dinho para abrigar o filho recém-casado? [Pois é. Quais foram as mutações aleatórias filtradas pela seleção natural lenta e gradual que “ensinaram” o joão-de-barro e tantos outros animais a serem tão engenhosos, dependentes de instintos que deveriam funcionar bem desde o princípio?] Ocorre que a cri­a­ti­vi­dade é também um atri­buto dos ban­didos. Talvez seja me­lhor ca­rac­te­rizar o hu­mano por suas vir­tudes: uma pessoa ge­ne­rosa, al­truísta, ética, so­li­dária, amo­rosa, capaz de par­ti­lhar seus bens e dons. Isso existe? [E se existe, quando foi que a evolução nos dotou de tais atributos antievolutivos, que contrariam a “sobrevivência do mais forte”?]

Se es­ti­vermos de acordo que isso ainda é um pro­jeto, uma pers­pec­tiva, um sonho, então há que aceitar: o elo per­dido entre o ma­caco e o homem somos nós, essa ca­deia de ma­mí­feros que co­meça com a cu­ri­o­si­dade de Adão e Eva, que foram meter o nariz onde não eram cha­mados, à ge­ração atual con­tem­po­rânea de Biden e Putin! Aliás, dois bons exem­plos da es­pécie pré-hu­mana que tem o rabo preso; onde mete os pés cria uma bana­nosa e vive in­va­dindo o es­paço alheio. [Aí tenho que concordar com Betto: Biden e Putin (e Xi Jinping, também) são “bons” exemplos da decadência da humanidade, em sua sanha conquistadora, repressora, destrutiva, capitalista, gramcista, secularista, deturpadora de valores bíblicos, etc., etc.]

Nós somos o elo que an­dava per­dido. No en­tanto, ele sempre es­teve na nossa frente. Basta-nos mirar no es­pelho. O ver­da­dei­ra­mente hu­mano é ainda um projeto de fu­turo. Caso con­trário, o pró­prio elo ha­verá de se romper e o pro­jeto hu­mano que­dará como uma utopia. Talvez re­a­li­zável em algum outro planeta onde haja abun­dância disto que tanto falta por aqui: vida in­te­li­gente. [Esta é a visão típica dos religiosos marxistas da teologia da libertação: não há esperança real para a humanidade; tudo se trata de utopia irrealizável; os cristão bíblicos criacionistas creem que Deus resolverá o problema; creem que Jesus voltará e um dia recriará a Terra, devolvendo-a à sua condição edênica. Mas como crer nisso, quando se pensa que o “pecado original” não existiu de fato (pelo menos não como relata a Bíblia em Gênesis 3), e que, portanto, Jesus não veio para saldar a dívida humana e redimir a humanidade, mas veio para morrer como um mero mártir revolucionário? Como crer nisso, se a segunda vinda de Cristo sequer é tida como uma doutrina e uma promessa Bíblica?]

Ou quem sabe o Cri­ador de­cida passar a limpo sua cri­ação pela se­gunda vez. Du­vido que vá des­truí-la com um novo di­lúvio. A água é, hoje, um bem es­casso. Deus é ge­ne­roso, não per­du­lário. Talvez o aque­ci­mento global seja o pri­meiro in­dício de que tudo ha­verá de virar cinza. Ou, quem sabe, nós mesmos apressaremos o apocalipse desencadeando uma guerra nuclear. Então um novo Gê­nesis terá início. [Como? De que forma? Destruiremos o mundo para que possa haver uma nova suposta evolução? Deus deixará as coisas chegarem a esse ponto, assistindo a tudo de braços cruzados?]

Des­confio que, no sexto dia, Deus criará ani­mais inaptos a de­sen­volver uma ca­deia evo­lu­tiva. E, no sé­timo, se re­cos­tará em sua rede no Jardim do Éden, porque nin­guém é de ferro, e con­tem­plará a be­leza do Uni­verso – agora livre da ameaça de um pe­ri­goso pre­dador descendente dos ma­cacos, o elo entre o que já não é e o que nunca foi. [Lamento muito que um frei, um religioso mantenha esse tipo de ponto de vista melancólico e o ensine por aí; mas chego a entendê-lo, pois, antes de me tornar criacionista, sustentei visão semelhante e desprovida de esperança. Mas os iluminados são eles e os “fundamentalistas” de mente estreita somos nós. Sim, uma pena.]

(Instituto Humanitas Unisinos)





segunda-feira, setembro 24, 2018

Em face da morte: no abismo do nada ou nos braços de Deus?

Conta-se que “no início de setembro de 1869, Leon Tolstoi escreveu uma carta à esposa Sonya, que começava assim: ‘Uma coisa extraordinária me aconteceu em Arzamas. Eram duas e meia da manhã [...]. De repente, fui tomado de um desespero, um medo, um terror tal que nunca tinha conhecido antes. Depois lhe contarei os detalhes.’” O filósofo Kerry Walters, comentando esse estranho episódio, relata: “Quando passou sua noite terrível em Arzamas, Tolstoi tinha quarenta e poucos anos, excelente forma física e era marido e pai feliz. Era rico e aclamado em toda a Europa, como um dos maiores escritores de seu tempo. Além disso, acabara de dar os últimos retoques em sua obra-prima, Guerra e Paz. Estava no auge da vida. Tolstoi decidiu dar-se umas férias, viajando centenas de quilômetros até uma propriedade que estava interessado em comprar. A caminho, no meio da estepe russa, parou para passar a noite em uma tosca estalagem no vilarejo isolado de Arzamas. Jantou e se retirou para o quarto, completamente em paz consigo mesmo e com o mundo. Mas, nas horas escuras antes do amanhecer, Tolstoi acordou em pânico, com a certeza de que havia uma presença sinistra no quarto com ele. Tentando se acalmar, murmurou: ‘Isto é ridículo [...]. Do que estou com medo?’ Então ouviu uma resposta: ‘De mim’, respondeu a Morte. ‘Estou aqui.’”

O próprio Tolstoi narrou posteriormente que “um tremor frio percorreu-me a espinha. Sim, a Morte. Ela virá, já está aqui, embora nada tenha a ver comigo agora [...]. Todo o meu ser padecia com a necessidade de viver, o direito de viver e, no mesmo instante, senti a morte em ação. E foi horrível ser partido por dentro. Tentei afastar meu terror. Achei um toco de vela em um cadelabro de bronze e o acendi. A chama avermelhada, a vela mais curta que o castiçal, tudo me dizia a mesma coisa: não há nada na vida, não existe nada a não ser a morte e a morte não deveria existir!” Sobre a experiência esquisita e apavorante do escritor russo, Kerry Walters conclui: “Tolstoi iniciou a viagem de volta para casa completamente mudado. Essa horrível noite de pânico da morte no fim do verão de 1869 marcou-o para o resto da vida. O conto de Tolstoi ‘A morte de Ivan Ilych’, um dos retratos ficcionais mais absorventes e autênticos do processo de morrer, surgiu dessa experiência”.

Certa vez me perguntaram se eu tinha medo de morrer. Respondi que não gostaria de morrer; por isso, há dentro de mim o receio da morte. Tal como Tolstoi, eu só poderia encará-la com amedrontamento. No entanto, em maior ou menor grau, embora o medo da morte seja um sentimento universalmente experimentado, existiria a possibilidade de a “indesejada das gentes” ser enfrentada com certa coragem e até mesmo com esperança? Ou seria muita pretensão só cabível na ficção poética de Manuel Bandeira?

“Quando a Indesejada das gentes chegar / (Não sei se dura ou caroável), / Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: / — Alô, iniludível! / O meu dia foi bom, pode a noite descer. / (A noite com seus sortilégios.) / Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar.”

Quem não se lembra daquele ente amado pelo qual são derramadas lágrimas de saudade? Eu mesmo já perdi para a morte – recentemente até – algumas pessoas preciosas. A consciência da perda (saber que meus queridos passaram para a inexistência antes de mim) aumentou ainda mais minhas reflexões acerca do processo de morrer, o qual já começa com o nascimento. Pois, diferentemente dos animais, o homem morre e sabe que morre. Esse conhecimento instiga seu temor e curiosidade a ponto de questionar: “O que acontecerá comigo quando eu me for? Desaparecerei para sempre ou haverá alguma forma de sobrevivência do meu eu?”

Constitui a vida uma trajetória para o nada, a completa dissolução a ponto de virarmos “poeira das estrelas”? Ou morrer significa a “passagem” para um suposto mundo pós-morte, de acordo com algumas crenças religiosas? Morrendo, entramos de fato na extinção total ou passamos para outro estado de “vida”? São ideias antagônicas apresentadas à humanidade, as quais nos desafiam a investigar a natureza da morte e a buscar um meio de escapar dela.

Comecemos pela proposta niilista. Livros como Nos Cumes do Desespero (1932), Breviário de Decomposição (1949), A Tentação de Existir (1956) e Do Inconveniente de Ter Nascido (1973), todos do filósofo romeno Emil Cioran, exalam um pathos nauseante como se quisessem mostrar que a vida é mero acidente, sendo a morte a regra inexorável da existência, que sempre existiu e sempre existirá. Tudo morre e morrerá. Diz Cioran: “É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido.” Por outro lado, “com efeito, se o homem vem do nada para, no fim, retornar ao nada, por que, então, não ficou no nada de vez? Seria a parábola da vida um desvio breve, inútil e absurdo? É o que exprime a inscrição de um epitáfio romano antigo: In nihil ab nihilo quam citius recidimus (‘Quão rapidamente caímos do nada para o nada’)”. Para os mortalistas modernos, “os homens não passam de futuros mortos”, ou no verso pessimista de Fernando Pessoa, “cadáveres adiados que procriam”.

Na obra O Livro do Sentido: Crise e busca de sentido hoje (volume I), o teólogo católico Clodovis Boff enuncia as raízes ontológicas da vontade de viver. Em outra perspectiva, a da esperança firmada no Transcendente, ele expõe convicção contrária ao pensamento de Emil Cioran: “Se o sentimento de finitude e, portanto, de insegurança e angústia é elementar, especialmente em relação à morte, não constitui, contudo, o stimmung primeiro e mais profundo, como querem as atuais filosofias pessimistas. [...] A disposição mais originária do ser humano é a da criaturalidade, esse sentimento positivo e maravilhoso de viver, que é o sorver a vida em sua própria fonte criadora. Ora, é aí que se encontra a origem última da ‘vontade de viver’, e de viver cada vez mais. Portanto, a disposição existencial de estar voltado para a vida é mais radical do que a de estar voltado para a morte. O apetite de viver é mais arcaico e mais poderoso do que o de morrer. A pulsão de morte tem raízes psicológicas e mesmo existenciais, mas só a pulsão de vida tem raízes verdadeiramente ontológicas. [...] O Homo religiosus, por sentir a existência como um dom do alto, vive a experiência de finitude não só de modo conformado, mas na gratidão, na confiança e na coragem. Como finito, o homem sente-se ‘dado’, e dado por Alguém. [...] Exclama então: ‘Como é maravilhoso existir, quando se poderia não ter vindo à existência. E se existo, não precisando existir, é porque existo de graça e por graça. Gozo de uma vida que me é dada, sem tê-la em absoluto merecido.’ [...] Portanto, a experiência exultante da criaturalidade, a experiência de ser criado, propicia afirmar-se diante de um mundo precário e perigoso a partir da vinculação ontológica com a fonte de tudo.” 

Por mais desalentador que seja, eu tenho de concordar com o pensamento niilista num único aspecto: ao morrer, o homem adentra o reino do esquecimento e da inexistência completa. Morte é morte mesmo, em que tudo se desfaz e nada sobrevive. Contudo, discordo do espírito absoluto do niilismo, porque acredito no triunfo da vida mediante a esperança escatológica. O que isso significa? Partindo do pressuposto bíblico, assim como a vida surgiu por intervenção sobrenatural, quando, no princípio, a Terra “sem forma e vazia” (em estado caótico e morta, por assim dizer) foi organizada e embelezada por Deus, semelhantemente esse mesmo Ser intervirá na situação trágica atual do planeta para trazer de volta aquela condição de existência original da qual a morte não fazia parte. Essa fé no ato divino de recriação, que o ateu niilista considera utopia e consolo enganoso, para o crente é sólida certeza baseada na promessa da ressurreição e restauração total de todas as coisas, consoante a revelação cristã (1 Coríntios 15).

Voltemo-nos agora para outra compreensão radical acerca da morte, defendida pelas correntes religiosas que tomam os termos “espírito” e “alma” como entidades conscientes que sobrevivem ao desfazimento do corpo. Alicerçado sobre a crença equivocada de que o homem é inerentemente imortal, o espiritualismo, em todas as suas vertentes, apregoa o seguinte: “Morrer não é morrer”, mas entrar num plano alternativo de “existência”.  À primeira vista, tal fé parece manter certo ponto de contato com a máxima do químico francês Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Logo, a morte seria apenas um tipo de transição, e o corpo físico mero invólucro da alma que nunca perece. Essa ideia persuasiva, que vem desde a antiguidade, herdada da mentalidade grega e incorporada a crenças cristãs contemporâneas, tornou-se a “esperança” de grande parte da humanidade não conformada com o aniquilamento do ser. Entretanto, a concepção espiritualista é totalmente estranha e antagônica ao pensamento judaico-cristão pautado nas Escrituras, uma vez que na antropologia bíblica o homem, ser vivente, não tem uma alma, ele é uma alma que morre. Portanto, a dicotomia separatista espírito/corpo encontra no testemunho bíblico seu mais forte oponente. Nesse aspecto, o espiritualismo constitui um engano religioso de primeira linha, sustentado na grande mentira dita à mulher no Éden: “Certamente não morrereis” (Gênesis 3:4).

Confrontados com o ensinamento bíblico, tanto o niilismo, que nos empurra para o nada absoluto, quanto o dogma espiritualista, que não reconhece a natureza essencialmente mortal do ser humano, apresentam-se como propostas poderosas e cativantes, mas são profundas distorções da verdade no plano filosófico e religioso. O primeiro, com seu olhar extremamente pessimista, contempla a precariedade humana e as tragédias do mundo e deduz que a vida, imersa no escuro, será desfeita no nada total; já o segundo – sendo uma forma elaborada de negação da morte – assume feição enganosa ao aproveitar-se do nosso desejo de imortalidade e da intuição elementar e legítima de que não fomos criados para cair definitivamente no esquecimento, já que “Deus pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” (Eclesiastes 3:11). Nesse caso, o espiritualismo coloca uma máscara na face da morte, escondendo a fealdade dela por meio da contrafação. A “solução” advinda desse sistema religioso, embora atraente para muitos, é fábula na forma de doutrina que, no fim, acabará decepcionando quem nela acredita.

Retomando a experiência de Tolstoi, reflete Kerry Walters: “Muitos de nós tivemos nossa própria noite escura de Arzamas, na qual fomos atingidos no estômago pela percepção de que um dia a morte vai nos aniquilar completamente, que o mundo vai continuar e nós não vamos. Nesses momentos de desorientação, não adianta apelar ao antigo argumento de Epicuro, de que ‘onde a morte está eu não estou e onde eu estou a morte não está: então, por que temer a morte?’” Penso eu que só temos condição de não temê-la, escapando de sua soberania, por meio da fé bíblica – “uma afirmação triunfante da vida” –, na qual vislumbramos tanto a explicação do enigma quanto a saída final desse cativeiro. Dessa forma, só existe uma proposta – nem fatalista nem ilusória – capaz de nos trazer a solução desejada: o drama histórico da crucifixão de Cristo, cujo significado assume proporções que transcendem as fronteiras do nosso mundo para repercutir por todo o Universo.

Na experiência do “bom ladrão”, naquela tarde de sexta-feira crucial, a morte defrontou-se com a esperança última, perdendo a supremacia ontológica. Em seu momento decisivo, nem o niilismo nem o enganoso consolo espiritualista de vida pós-morte ofuscaram a confiança do homem moribundo na Pessoa divina de Jesus. Seu olhar encontrara a Verdade, o Doador da vida que também estava morrendo pelos pecados dos seres humanos, segundo as Escrituras. Por meio da fé, o pobre mortal teve a garantia de voltar a viver não naquele mesmo dia, mas na grande e futura “manhã da ressurreição”. Apostando numa existência eterna, o ladrão arrependido se lança nos braços de Deus com a súplica final: “Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu reino.” A resposta veio imediata: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:42, 43).

Diante da “ameaça do não ser”, serão lembrados por Deus os mortais deste planeta? Se a morte não deveria existir, mas entrou intrusamente em nosso mundo, governando com mão de ferro a vida, então a esperança da raça humana é estar guardada na lembrança de Deus. Seja qual for o momento – quando tudo vai bem ou quando somos assombrados pelo espectro da morte –, cada pessoa precisa suplicar a Jesus por existência eterna. Ele, que desceu à sepultura, mas, saindo dela, afirmou triunfantemente “Eu sou a ressurreição e a vida” (João 11:25), não deixará de ouvir o pedido daqueles cuja escolha em segui-Lo pode se dar mesmo nos momentos derradeiros de vida.

Todos os que desceram à sepultura, “dormindo em Jesus”, levaram consigo a promessa divina de que serão vitoriosos sobre a morte para usufruir vida sem fim ao lado do Criador. Eles partiram apossando-se das palavras ditas por Cristo ao suplicante na cruz: “Estarás comigo no paraíso.” Vivendo ou morrendo, que a oração do “bom ladrão” seja também a nossa: “Senhor, lembra-Te de mim!”

Frank de Souza Mangabeira

segunda-feira, setembro 17, 2018

Interpretação literalista e o surgimento da ciência moderna


Por muitos séculos o método mais popular empregado por intérpretes da Bíblia era o alegórico. No livro Tratado sobre os Princípios, publicado por Orígenes (185-253 d.C.), é desenvolvida uma teoria hermenêutica advogando que todo texto bíblico possui três sentidos: o literal, o moral e o alegórico, sendo que o último deveria ser o mais almejado por intérpretes cristãos. Assim, objetos, animais, lugares ou pessoas relatadas na Bíblia representam verdades espirituais além delas mesmas. O conhecimento da natureza era estimulado pela Igreja na medida em que existissem similitudes entre a Bíblia e o mundo natural. Os fenômenos naturais que não são mencionados na Bíblia recebiam pouco interesse. Por esses motivos, a ciência medieval não era empírica como nos dias de hoje. Os “cientistas” – melhor dizendo, os filósofos naturais – daquela época realizavam suas pesquisas nas bibliotecas de suas universidades. Quando se queria saber algo sobre oceanos, as espécies de plantas ou as estrelas, era para os livros de Aristóteles ou Platão que os especialistas recorriam. Ciência era entendida como uma atividade de “preservação e transmissão” do conhecimento obtido por autoridades passadas.

Com o advento do protestantismo, o método de interpretação alegórica proposto por Orígenes foi abandonado. Lutero, ao propor uma leitura literal do texto bíblico, rompeu com séculos de interpretação alegórica e passou a defender uma hermenêutica literalista da Bíblia. Para Lutero e muitos protestantes, o que importava era o sentido óbvio que brota do texto. Portanto, ao contrário da hermenêutica medieval, o sentido literal das palavras encontradas na Bíblia se tornou o alvo principal de exegetas protestantes.

À semelhança de muitas outras áreas, as ciências foram especialmente afetadas pelas mudanças hermenêuticas propostas por Lutero. Sua abordagem literalista do texto bíblico mudou a forma como cientistas interpretavam fenômenos naturais. A migração de uma exegese alegórica para uma literal permitiu que estudiosos olhassem para o texto e, consequentemente, para a natureza, não como algo simbólico, mas como entidades concretas, possuidoras de valor e significado próprio. A insistência protestante de que o sentido óbvio das coisas fosse adotado contribuiu para que a sociedade procurasse maneiras “científicas” de explicar e de encontrar utilidades práticas para os diferentes fenômenos naturais observados.

De maneira especial, a leitura literalista do livro de Gênesis mudou a forma de se relacionar com o mundo natural. Uma vez que a Bíblia foi expurgada de todo misticismo e mistério que lhes foram conferidos por intérpretes medievais, os eventos, as pessoas e os lugares relatados na Bíblia passaram a ser vistos como reais e históricos. As referências à criação, ao jardim do Éden, à queda de Adão e Eva e ao dilúvio, que em tempos medievais estavam carregados de significados alegóricos e teológicos, passaram a ser tratados como literais, atraindo esforços de curiosos para identificar a verdadeira localização desses lugares e eventos.

Como forma de redenção, os cientistas protestantes passaram a ver na empreita científica uma forma de restaurar a humanidade à sua condição original. Essa restauração do ser humano (e da criação, por consequência) deveria se dar em duas frentes. Na primeira, a mente humana restauraria todas as coisas à sua unidade original pelo conhecimento do mundo natural. Na segunda, o ser humano assumiria o controle da natureza e subjugaria todo o domínio natural, retomando sua posição como vice-regente de Deus na Terra. Ao conhecer seus mistérios, o ser humano se tornaria como Adão – mestre da criação.

Em suma, além de muitos outros fatores, a forma como o cristianismo interpretou o texto sagrado teve uma influência direta na forma como cientistas passaram a interpretar os fenômenos naturais. O protestantismo contribuiu com o surgimento das ciências modernas não somente oferecendo um ambiente favorável à realização da atividade científica, mas fornecendo as ferramentas interpretativas para estudarmos a natureza. A partir do momento em que o cristianismo começou a adotar uma leitura literalista, a ciência foi capaz de olhar para a natureza com outros olhos e buscar o sentido óbvio dos processos e objetos do mundo natural. É uma ironia pensar que, em nossos dias, o literalismo hermenêutico está sendo acusado de obstruir o avanço científico e as relações entre a ciência e a religião. Entretanto, quando estudamos a história do relacionamento entre religião e ciência, percebemos que a hermenêutica literalista foi exatamente o fator que forneceu as lentes interpretativas para a revolução científica e o surgimento das ciências modernas.

(Glauber Araújo é editor na Casa Publicadora Brasileira, bacharel em Teologia e mestre em Ciências da Religião)

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quarta-feira, julho 25, 2018

No princípio: por uma explicação das origens que inclua Deus

Vivemos ainda na tão proclamada pós-modernidade, sob o guarda-chuva conceitual do “Deus está morto” nietzschiano, seja qual for a interpretação dada a esse pensamento. Sendo assim, esta é uma época caracterizada pela incerteza e, como tal, um tempo de pluriontologias em que – na opinião das pessoas guiadas pelo nietzscheísmo ou por outras filosofias relativistas – não há resposta última, absoluta ou definitiva para explicar a realidade. A impressão que se tem, no entanto, é a de que as metanarrativas não morreram com a suposta morte de Deus, mas continuam por aí competindo entre si e guerreando com as “espadas” da ciência, da filosofia e da teologia.

O pluralismo ontológico - estranho desafio à metafísica - “sustenta que realmente não há uma resposta certa para muitas perguntas ontológicas. De acordo com o pluralista ontológico, há apenas maneiras diferentes de descrever a realidade, e nenhuma delas é mais correta ou mais precisa do que a outra. Não há nenhuma verdade absoluta em resposta a essas perguntas”. Em resumo, tudo é provisório, e estar convicto de algo seria o mesmo que se autoenganar ou, quando muito, participar de um jogo de linguagens. Consequentemente, a pergunta “o que é a verdade?” perde o sentido, restando apenas a crença de que a verdade é um construto da mente humana. Todavia, há um impulso por respostas profundas agitando o íntimo do homem, sempre incomodando-o. Ele não abre mão, sobretudo, de tentar entender a origem do Universo e do mundo nos quais está inserido. Inquieta e curiosa, a humanidade lança o olhar ao longínquo e nebuloso passado e indaga: “Qual ontologia poderia me dizer de onde eu vim e quem eu sou?”

Na concepção científica majoritária, a teoria geral da evolução (nas suas modalidades de evolução cósmica, química e biológica) constitui o fator explanatório por excelência “capaz” de apresentar respostas acerca das origens. O discurso de seus porta-vozes mais dogmáticos propõe: “Darwin efetivamente varreu o propósito para o lado no mundo vivo”, e “todas as reimposições do propósito são artifícios dos religiosos para alimentarem a sua fé”. Pensando assim, Peter Atkins, químico de Oxford, não vê nenhuma contribuição a ser oferecida pela religião, pois ela só apresenta “soluços vazios e flatulência verbal que passa por exposição teísta”. Na imaginação radical desse cientista ateu, “a humanidade deve aceitar que a ciência eliminou a justificação para crer no propósito cósmico”. Em seu livro Creation Revisited, Atkins acredita que o Universo surgiu porque “por acaso houve uma flutuação no vazio”: tese mais espantosa e fantástica do que apelar para o Criador!

Os opositores do modelo bíblico das origens acentuam a superioridade da teoria da evolução como o melhor modelo apresentado pela ciência, caso Deus seja excluído das explicações. Entretanto, conforme salienta o zoólogo criacionista Ariel Roth, “a perseverança que os evolucionistas têm demonstrado é altamente elogiável. Mas, após dois séculos de uma busca essencialmente infrutífera, chegou a hora de os cientistas considerarem com seriedade alternativas não naturalistas. O planejamento da vida por uma inteligência racional como Deus parece necessário para explicar aquilo que a ciência está continuamente descobrindo”. Porém, esclarece Roth, “essencialmente Deus é excluído dos compêndios e revistas científicos. Como atualmente praticada, a ciência é uma combinação peculiar de pesquisa em busca da verdade sobre a natureza, e de filosofia secular excludente de Deus. Lidamos hoje com uma comunidade científica que tem esse forte compromisso materialista (mecanicista, naturalístico), que considera anticientífico incluir Deus como fator explanatório na ciência. Não é permitida a presença de Deus no cardápio das possíveis explanações científicas. Isso desmente o quadro usual da ciência, que é apresentada como pesquisa aberta da verdade, que segue os dados da natureza para onde eles possam conduzir”.

De várias maneiras, há esforços poderosos a fim de eliminar Deus da paisagem do mundo natural. É “pecado” mencioná-Lo. Quanto a decifrar o enigma das origens, a ciência materialista proclama sua total confiança na razão humana e em suas ferramentas de laboratório. Nada contra a tentativa, uma vez que “pode ser inofensivo pesquisar além do que a Palavra de Deus revelou, se nossas teorias não contradizem fatos encontrados nas Escrituras; mas aqueles que deixam a Palavra de Deus e procuram explicar Suas obras criadas por meio de princípios científicos, estão vagando sem mapa nem bússola em um oceano desconhecido”, adverte Ellen G. White.

O orgulhoso cientificismo não reconhece a existência de uma fronteira demarcada pela Revelação, além da qual não podemos passar; limite imposto pelo “está escrito”. Em palavras mais exatas: “Precisamente como Deus realizou a obra da criação, jamais Ele o revelou ao homem; a ciência humana não pode pesquisar os segredos do Altíssimo. Seu poder criador é tão incompreensível como a Sua existência”. Essa declaração de Ellen G. White encontra eco em Phillip Johnson, um dos proponentes do Design Inteligente: “A investigação científica da origem da vida está efetivamente fechada como se Deus tivesse reservado o assunto apenas para Si mesmo.” Seria isso arbitrariedade divina, capricho, tal como a mítica ação de Zeus que acorrentou Prometeu nos rochedos do Cáucaso porque o titã roubou o fogo dos deuses e levou o conhecimento aos homens? Por que então a porta da explicação última continua fechada? Quem sabe para levar o homem ao reconhecimento de suas limitações; para mostrar-lhe que o domínio total da matéria é de outro Ser; para conscientizá-lo de que não é um deus, mas criatura; para frear o seu poder destruidor sobre a natureza e até para lhe permitir avançar no conhecimento. E o mais importante: deixar viva no homem a necessidade de adoração. Por isso, o Criador pergunta aparentemente em tom de desafio:

 

Onde você estava


Quando os elétrons bailaram pela primeira vez / E o Universo ferveu, aceso, no calor da criação?
Por acaso, assistiu / Quando as bolhas de fogo giraram em rodas amarelas, / E romperam, com chamas, os limites da escuridão?

Você não viu./ Nem contemplou o esplendor, / Pois seus olhos humanos / Não suportariam o calor. / Mas Eu vi!

E foi você / Quem escreveu a melodia que ressoou em ondas, / Chamando os átomos para dançar com as estrelas? / Certamente não foi, / Pois essa música foi escrita em tons maiores, / E veio autenticada com as Minhas chancelas.

Você não a compôs. / Nem seguiu a melodia, / Pois sua voz humana / Não alcança a escala. / Mas Eu cantei.

E como se atreve a dizer, / (Você, fraco, frágil e passageiro) / “Eu sou quem observa: sem mim nada existe!”? / Tolo! Como se vivesse para sempre! / Nem viu seu filho se formar no útero da mãe. / Ao nascimento do Cosmos, há Um só que assiste.

Sim, Eu observei. / Eu fiz os traços / E dirigi os passos / Eu sou o Senhor da Dança / Sou Eu.

No estudo da natureza não precisa haver duelo entre Deus e homem. As sentenças poéticas acima podem ser entendidas como um convite à investigação, ao raciocínio e à pesquisa, os quais levem em consideração o Agente divino como o fundamento da realidade material. Vemos desafio semelhante nos capítulos 38 a 41 do livro de Jó, onde Deus Se apresenta como o “grande Inquisidor”, levantando perguntas sobre o mundo natural perante o sofrimento inexplicável de Sua criação. O texto mostra um Pai que cuida do mundo, especialmente dos seres humanos (Mateus 10:29-31), evidenciando o controle e a soberania divina sobre todos os fenômenos e acontecimentos, mesmo os mais dramáticos.

Investigar a natureza, dominando-a benignamente, significa encontrar a Fonte espiritual da matéria, porquanto “qualquer que seja o ramo de investigação a que procedamos com um sincero propósito de chegar à verdade, somos postos em contato com a Inteligência invisível e poderosa que opera em tudo e através de tudo”. As coisas criadas estão aí para nos ensinar não apenas sobre elas mesmas, mas também acerca do seu Autor. Esta é a tese de Jó ao declarar: “Mas, pergunta aos animais, e cada um deles te ensinará, e às aves dos céus, e elas te farão saber; ou fala com a terra, e ela te instruirá, até os peixes do mar te informarão. Qual dentre todas essas coisas não sabe que a mão do Senhor fez isto?” (Jó 12:7-9). Igual pensamento tinha o teólogo e filósofo medieval Boaventura. Ele acreditava ser a criação um guia para o Criador: “Todas as criaturas deste mundo sensível conduzem a alma da pessoa sábia e contemplativa para o Deus eterno, já que são as sombras, ecos e efígies, os vestígios, imagens e manifestações desse primeiro princípio mais poderoso, sábio e melhor que há; dessa origem eterna, luz e plenitude, dessa Arte produtiva, exemplar e ordenadora. São postos diante de nós para que conheçamos Deus; são sinais divinamente dados. Pois toda criatura é, por natureza, um tipo de retrato e semelhança dessa Sabedoria eterna.”

No tocante a processos empíricos e laboratoriais, explicar o funcionamento das leis da natureza permitiu à ciência grande desenvolvimento. Contudo, a ciência humana ainda é uma criança assustada e impotente quando se depara com o “início dos tempos”. Sonhar, conjecturar, hipotetizar e construir modelos teóricos é o máximo que ela consegue. Verdadeiramente, “pensar os pensamentos de Deus de acordo com Ele”, consoante o ilustre astrônomo Johannes Kepler, deveria ser o objetivo do empreendimento científico, já que “o principal objetivo de todas as investigações do mundo exterior deveria ser o de descobrir a ordem racional nele imposta por Deus e por ele revelada na linguagem da matemática”.

No princípio...

Em se tratando das origens, sempre nos sustentaremos em argumentos de autoridade: ou no que afirmam os cientistas e filósofos com suas controversas especulações ou no que declara a Revelação. Com Gênesis ou sem o fiat divino, essa busca por explicações só indica uma coisa: queremos saber! Não há objetivo filosófico e científico mais nobre. Entretanto, a resposta última e mais adequada terá características sempre metafísicas e religiosas: Deus fez! Quando os cientistas, com seus processos de investigação, reconhecerem tal fato, terão realizado sua maior descoberta e dado o maior salto de humildade da história.

Frank de Souza Mangabeira