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domingo, julho 02, 2017

Pesquisador encontra relação entre caracteres chineses e texto bíblico

O Deus descrito pela Bíblia é o mesmo que os antigos chineses adoravam no início de sua civilização. Foi o que concluiu o doutor Chan Kei Thong, um cristão que construiu sua carreira na área de liderança, mas dedicou sete anos para pesquisar os registros históricos chineses que o levaram a esse resultado. Seu livro, intitulado Faith of Our Fathers: Finding God in Ancient China (Fé de Nossos Pais: Encontrando Deus na China Antiga, ainda sem tradução para o português), detalha como os significados das palavras nos caracteres chineses trazem referências a situações e lugares encontrados no livro sagrado do cristianismo [saiba mais sobre isso aqui]. Sobre o tema, a Sociedade Criacionista Brasileira (SBC) publicou a obra Descoberta do Gênesis na Língua Chinesa, escrito pelo reverendo C. H. Kang e pela doutora Ethel R. Nelson.

Nascido em Singapura, Thong ajudou a fundar a Leadership Development International (LDI), da qual esteve à frente como diretor executivo a fim de torná-la um dos mais influentes sistemas de educação internacional, com sete escolas na China e uma no Oriente Médio, empregando mais de 800 pessoas e obtendo um faturamento anual de mais de 35 milhões de dólares. Hoje, leciona no programa de mestrado em Liderança da Trinity Western University, no Canadá, e dedica o restante de seu tempo para mentorear líderes na China e no Oriente Médio.

Nesta entrevista, concedida à Agência Adventista Sul-Americana de Notícias durante sua primeira visita ao Brasil, ele discorre sobre algumas das evidências que encontrou e como ajudam a comprovar a existência de Deus e a confiabilidade do texto bíblico.

domingo, outubro 03, 2010

A arte de escrever bem para o bem

Há livros para ser lidos e outros para ser degustados. A Arte de Escrever, de Arthur Schopenhauer, está na segunda categoria – não por acaso: do começo ao fim, o autor aplica as regras que ensina. Escrito na primeira metade do século 19, o livro surpreende justamente por ter sido produzido por um filósofo alemão. Seus pares são conhecidos pelas obras massivas (e, às vezes, maçantes) que legaram ao mundo. Mas Schopenhauer é diferente. Segundo ele, “um bom cozinheiro pode dar gosto até a uma velha sola de sapato; da mesma maneira, um bom escritor pode tornar interessante mesmo o assunto mais árido” (A Arte de Escrever, p. 21 – L&PM, 2005).

Clareza e estilo vivo marcam a obra do filósofo. Ele é o tipo de autor que lapida o texto como se cada palavra devesse ter o sentido exato para o qual foi designada, a fim de que o leitor não entenda nada além do que o autor quis dizer. O texto deve ser claro e fácil de entender, pois, “se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou”, conforme escreveu Jorge Luis Borges. O tempo e a paciência do leitor também devem sempre ser considerados por quem escreve, ainda que seja apenas um e-mail. Por isso, as dicas de Schopenhauer valem para todos os que redigem – desde um bilhete até um livro.

A Arte de Escrever não trata apenas da escrita, mas dos atos de pensar e ler. Para o autor, mais do que obter informação, devemos ter pensamentos profundos oriundos de reflexão. Mas o que nos interessa aqui são suas dicas de redação: “Não há nada mais fácil do que escrever de tal maneira que ninguém entenda; em compensação, nada mais difícil do que expressar pensamentos significativos de modo que todos os compreendam. O ininteligível é parente do insensato, e sem dúvida é infinitamente mais provável que ele esconda uma mistificação do que uma intuição profunda. [...] a simplicidade sempre foi uma marca não só da verdade, mas também do gênio. [...] escrever mal, ou de modo obscuro, significa pensar de modo confuso e indistinto. [...] muitos escritores procuram esconder sua pobreza de pensamento justamente sob uma profusão de palavras. [...] É sempre melhor deixar de lado algo bom do que incluir algo insignificante. [...] o sinal de uma cabeça eminente é resumir muitos pensamentos em poucas palavras” (ibid., p. 83, 84, 93).

Outra marca dos escritos de Schopenhauer são as boas metáforas e comparações. Por exemplo: “Os pensamentos obedecem à lei da gravidade, de modo que o caminho da cabeça para o papel é muito mais fácil do que o caminho do papel para a cabeça, então é preciso ajudá-los no segundo percurso com todos os meios à nossa disposição” (ibid., p. 111). Aí entram as dicas de redação e o esforço para escrever bem. Aliás, dizem que Platão redigiu sete vezes a introdução de sua República, com diversas modificações.

Isso me lembra um texto de Graciliano Ramos sobre as lavadeiras de Alagoas: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa.”

Outro livro importante para os que se aventuram no mundo das letras é A Redação Pelo Parágrafo, de Luiz Carlos Figueiredo (Editora UnB, 1995). À semelhança de Schopenhauer, Figueiredo defende a organização e o encadeamento dos parágrafos, a fim de ajudar o leitor a acompanhar o raciocínio. Em sua obra, Figueiredo trabalha em seis capítulos, que abordam a organização das ideias, os tipos e tamanhos de parágrafos e a ligação entre eles. Não é à toa que a capa do livro seja ilustrada com uma corrente de letras: cada elo representa um parágrafo (no qual apenas uma ideia deve ser trabalhada) que deve estar ligado ao outro pela ideia central do texto.

Ater-se à ideia central e caprichar na composição de cada parágrafo é como fazer uma boa construção. Para usar outra ilustração schopenhaueriana: “Poucos escrevem como um arquiteto constrói: primeiro esboçando o projeto e considerando-o detalhadamente. A maioria escreve da mesma maneira com que jogamos dominó. Nesse jogo, às vezes segundo uma intenção, às vezes por mero acaso, uma peça se encaixa na outra, e o mesmo se dá com o encadeamento e a conexão de suas frases. Alguns sabem apenas de modo aproximado que figura terá o conjunto e aonde chegará o que escrevem. Muitos não sabem nem isso, mas escrevem como os pólipos de corais constroem: uma frase se encaixa em outra frase, encaminhando-se para onde Deus quiser” (ibid., p. 115).

Ao tratar do tema das incômodas orações intercaladas (que despedaçam o período principal), Schopenhauer diz que “uma pessoa só pode pensar com clareza um pensamento de cada vez; assim, não se pode exigir que pense dois, ou mesmo mais, de uma vez só” (ibid., 115). O mesmo vale para os parágrafos.

Figueiredo afirma que, “na escrita, os parágrafos são as principais partes de determinado texto (artigo, capítulo, entrevista, ensaio, etc.). Para assimilar o texto, o leitor precisa entender as partes, isto é, os parágrafos. E o escritor, para ser entendido pelo leitor, tem que construir textos divididos em parágrafos que espelhem divisão lógica, da qual fazem parte a unidade, a coerência e a consistência” (A Redação Pelo Parágrafo, p. 12). E compara: “Os parágrafos são como ‘prateleiras’ que dividem uma sequência de informações ou pensamentos. Servem para facilitar a compreensão e a leitura do texto, dar folga ao leitor, que acompanha, passo a passo, a linha de raciocínio desenvolvida pelo escritor. [...] O entrelaçamento de um parágrafo com outro, ou a ligação de um raciocínio com outro, dá coesão ao texto” (ibid., p. 13, 14).

Para dar aquela “afiada” no uso da língua, um ótimo e prático livro é A Arte de Escrever Bem – Um guia para jornalistas e profissionais do texto, de Dad Squarisi e Arlete Salvador (Editora Contexto, 2004). As autoras também batem nas teclas da concisão e da simplicidade. “A frase curta tem duas vantagens. Uma: diminui o número de erros. Com ela, tropeçamos menos nas conjunções, nas vírgulas e nas concordâncias. A outra: torna o texto mais claro. Clareza é, disparado, a maior qualidade do estilo. Montaigne, há quatrocentos anos, ensinou: ‘O estilo deve ter três qualidades – clareza, clareza, clareza’. [...] Palavras longas e pomposas funcionam como uma cortina de fumaça entre quem escreve e quem lê. Seja simples. Entre dois vocábulos, prefira o mais curto. Entre dois curtos, o mais expressivo” (A Arte de Escrever Bem, p. 23, 27).

As autoras fazem eco a Schopenhauer e destacam, além da clareza, a concisão. “Concisão não significa lacônico, mas denso. Opõe-se a vago, impreciso, verborrágico. No estilo denso, cada palavra, cada frase, cada parágrafo devem estar impregnados de sentido” (ibid., p. 39). Por isso, ler e reler o texto, cortando as “gordurinhas”, sempre faz bem, afinal, como disse Marques Rebelo, “escrever é cortar”.

Finalmente, mas não menos importante (na verdade, é mais), indico o livro O Outro Poder, de Ellen G. White (Casa Publicadora Brasileira, 2010). Quem escreve, assim como quem fala, deveria sempre usar as palavras para ajudar as pessoas a crescer física, mental e espiritualmente, e a melhor maneira de fazer é isso é atraindo “a atenção das pessoas para as verdades vivas da [Palavra de Deus]” (O Outro Poder, p. 9). Escritores cristãos (e não apenas eles, evidentemente) deveriam lapidar seus textos de modo a interessar o leitor para que ele seja levado a considerar seriamente a mensagem de esperança por trás das letras.

Embora, como Schopenhauer, Ellen White tenha escrito seus livros há mais de um século, ela estava à frente de seu tempo no que diz respeito à compreensão do que significa escrever de maneira interessante. Ela aconselhou: “Nossos periódicos devem sair repletos de verdade que apresente interesse vital e espiritual para o povo. [...] Compete a nossas publicações a mais sagrada obra de tornar clara, compreensível e simples a base espiritual da nossa fé” (ibid.). Clareza, compreensibilidade e simplicidade deveriam ser qualidades do texto de todos os que escrevem para o público. O alvo? Ei-lo: “A escrita deve ser usada como meio de semear a semente para a vida eterna” (ibid., p. 13).

A autora também aconselha concisão para manter o interesse: “Concisão deve ser observada, de modo a interessar o leitor. Artigos longos e enfadonhos são prejudiciais à verdade que o escritor pretende apresentar” (ibid., p. 56). Aos leitores, ela aconselha: “Não temos tempo para devotar a assuntos vulgares, nem tempo para gastar com livros que apenas entretêm” (ibid., p. 98).

Um texto bíblico que serve de boa dica para quem quer escrever bem e com eficácia é Habacuque 2:2: “E o Senhor Deus disse: ‘Escreva em tábuas [jornal, folhetos, livros, sites, blogs] a visão que você vai ter, escreva com clareza o que vou lhe mostrar, para que possa ser lido com facilidade’” (NTLH).

Assim, não importa se se trata de um bilhete de porta de geladeira, e-mail, artigo ou livro, escreva com clareza, simplicidade e concisão; releia o que escreveu antes de publicar e coloque o coração em cada palavra. O leitor agradece.

Michelson Borges

Nota: O leite materno é a quintessência do que existe em termos de nutrição. Por quê? Porque ele é o melhor que o corpo da mãe pode produzir para o crescimento e a saúde do bebê. O texto de quem escreve para o bem deve ser como o leite materno: produzido com carinho e adequado às necessidades de quem lê, proporcionando-lhe saúde e crescimento. Por que pensei nessa analogia? Simples: porque o texto acima começou a ser escrito numa madrugada, na maternidade da Santa Casa de Tatuí, SP, depois que acordei minha esposa para amamentar nosso recém-nascido filho Mikhael.[MB]

domingo, agosto 29, 2010

Quando falávamos apenas uma língua

Ciência e religião sempre buscaram respostas para duas questões essenciais: a origem e o destino de tudo. O Gênesis, na Bíblia, coloca o planeta em que habitamos como o centro da criação divina que deu origem ao universo. Na teoria do Big Bang, uma grande explosão é a explicação científica para a origem e a expansão do universo. Aquele mesmo livro da Bíblia fala na criação de Adão, o primeiro homem da Terra. A teoria evolucionista aponta ancestrais comuns entre homens e primatas. Na Bíblia, a origem da grande diversidade de línguas do mundo é tida como um castigo de Deus. Pelo texto bíblico, no princípio dos tempos, só se falava uma língua. Quando os homens resolveram construir uma torre que pudesse alcançar o céu, para ficar mais próximos de Deus [na verdade, para desafiar Deus], foram castigados por seu Criador e destinados a falar diferentes idiomas. Não havendo mais entendimento entre eles, tiveram que parar a construção da torre de Babel.

No século XIX, estudos comparativos levaram à hipótese de uma origem comum entre as línguas europeias e as asiáticas. Elas pertenceriam a uma mesma família linguística, denominada indo-europeu. Para os cientistas da linguagem, no entanto, a proto-língua dessa família não é a língua que deu origem a todas as outras. Chegou-se ao indo-europeu através da comparação de manuscritos antigos em línguas orientais, como o Sânscrito, com o que já se conhecia das línguas germânicas e latinas. Quando surgiram as primeiras formas de escrita, na Antiguidade, já havia grande diversidade linguística no mundo. Como não há registro da forma em que se falava naquele período, as hipóteses sobre uma língua original são consideradas pelo meio científico mera especulação.

Em 1994, entretanto, o linguista Merrit Ruhlen, da Universidade de Stanford, nos EUA, publicou o livro A Origem das Línguas, relançando o debate sobre a questão. “A comunidade linguística estava de acordo até então em pensar que o problema da origem das línguas não podia ser abordado de maneira científica por sua disciplina”, afirma Bernard Victorri, da École Normale Supérieure de Paris. Victorri é um dos pesquisadores que contribuiu para a edição de dezembro de 2000 e janeiro de 2001 da revista francesa Sciences et Avenir, inteiramente dedicada à origem da linguagem e à diversidade linguística no mundo. Em seu artigo, ele explica a teoria de Ruhlen que reagrupa as línguas em 12 grandes famílias linguísticas e estabelece, pelo método comparativo, uma lista de 27 raízes de palavras comuns ao conjunto de línguas do mundo. Segundo o linguista norte-americano, essas raízes pertenceriam a uma língua original, de onde teriam surgido todas as outras. A análise que Victorri faz da teoria de Ruhlen é que apesar de suas hipóteses serem interessantes, seus argumentos não são muito convincentes, especialmente quando ele recorre ao cálculo de probabilidades. Mas ele não descarta a importância dessa contribuição científica: “Reagrupando os esforços de linguistas, antropólogos, arqueólogos e geneticistas, pode-se esperar reconstituir a história da humanidade desde o surgimento da nossa espécie”, afirma.

Merrit Ruhlen foi discípulo de Joseph Greenberg, um dos mais respeitados linguistas norte-americanos. Em 1960, Greenberg publicou um estudo em que postulava 45 características linguísticas universais a partir da comparação de línguas de famílias diferentes espalhadas pelos cinco continentes do globo terrestre. Três anos antes, outro linguista norte-americano de grande prestígio, Noam Chomsky, havia lançado a ideia de que havia princípios universais comuns a todas as línguas, herdados geneticamente. A teoria chomskyana se desenvolveu ao longo da década de 60, propondo que além dos princípios universais, existiriam parâmetros específicos de cada língua, assimilados no contato do falante com sua língua materna. Um dos princípios universais é que toda língua possui sujeito, verbo e objeto, sendo variável a ordem desses constituintes na frase. [...]

(Com Ciência)

Nota: Aqui é importante – como sempre – separar o fato da interpretação. Fato: tudo indica que, no passado, a humanidade falava apenas uma língua. Interpretação de alguns: era a “língua das cavernas”. Na verdade, há uma explicação alternativa: segundo o livro bíblico de Gênesis, foi Deus quem promoveu a variação linguística como punição à rebeldia dos homens que viveram logo após o dilúvio. Detalhe: frequentemente, as línguas antigas são mais complexas, passando de longe do “uga-uga” da ficção. Parece ter havido certa simplificação (degeneração?) da linguagem. De qualquer forma, uma vez mais a ciência chega à conclusão, sem o admitir, de que a Bíblia tinha e tem razão.[MB]

Leia também a entrevista "A origem das línguas e das etnias", com Orlando Ritter.

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quinta-feira, junho 24, 2010

100 anos de vírgula

Sobre a Vírgula (campanha dos 100 anos da ABI - Associação Brasileira de Imprensa)

Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere...

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

Onde deve ser colocada a vírgula?

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO A SUA PROCURA.

* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...
* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM...

quarta-feira, janeiro 14, 2009

ABL lança dicionário e põe fim a dúvidas do Acordo


Deu na Folha de S. Paulo de Hoje: “Re-editar” ou “reeditar”? “Coabitar” ou “co-habitar”? As principais dúvidas que o texto do Acordo Ortográfico, em vigor desde o dia 1º, havia deixado foram esclarecidas pela publicação da segunda edição do dicionário da ABL (Academia Brasileira de Letras), que começou a ser distribuído ontem nas livrarias. O Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, editado pela Companhia Editora Nacional, tem 1.311 páginas e cerca de 33 mil verbetes. “O que está no dicionário vai ser adotado pelo Volp” [Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa], diz Evanildo Bechara, membro da ABL e da comissão de língua portuguesa do Ministério da Educação que trata do Acordo. Volp é o documento que registra a grafia oficial das palavras. A nova versão, com cerca de 370 mil palavras da língua portuguesa, será publicada até o início de março.

As principais dúvidas que o dicionário esclarece são em relação ao uso do hífen. De acordo com Bechara, o Acordo não tratava dos prefixos “re”, “pré” e “pro” por “esquecimento”. Palavras com esses prefixos, segundo o novo dicionário, devem ser grafadas sem hífen, como “reeditar” e “preencher" - e não “re-editar” e “pre-encher”, como interpretaram alguns estudiosos no Acordo.

Embora o Acordo tenha sido assinado por todos os países lusófonos - menos Timor Leste, que deve assiná-lo brevemente -, a ABL afirma que as palavras que geraram dúvidas não foram discutidas com as outras nações. Mas estão valendo no Brasil assim mesmo. “O Acordo diz que duas vogais têm que estar separadas por hífen, mas se esqueceu do [prefixo] “re”. Teria que estar separado, mas isso se choca com a tradição lexicográfica, tanto em dicionários brasileiros como em portugueses”, diz Bechara. “Se o Acordo quisesse contrariar essa tradição, teria sido explícito, o que não ocorreu. Logo, a conclusão é a de que houve um esquecimento.”

A tradição é um dos princípios do Acordo, segundo a ABL. O quarto e último princípio geral afirma que o Acordo deve: “Preservar a tradição ortográfica refletida nos formulários e vocabulários oficiais anteriores, quando das omissões do texto do Acordo.” “O texto do Acordo é curto, não ia abranger as mais de 300 mil palavras que há no Volp”, afirma Bechara.

Outra dúvida que o dicionário esclarece é a grafia da palavra “abrupto”. O dicionário diz: “‘Ab-rupto’ é preferível a “abrupto’” - ou seja, as duas formas são consideradas corretas, mas o ideal é usar a hifenizada. Para Bechara, “‘ab-rupto’ não deve causar Estranhamento”. As escolas devem priorizar a forma com hífen, disse.

Outro ponto questionável do Acordo que o dicionário esclarece é o caso da acentuação em palavras como “destróier”. “O Acordo diz que paroxítonas com ditongos abertos, como ‘ei’ e ‘oi’, perdem o acento. É uma regra específica, mas esqueceu que tem paroxítonas com esses ditongos que terminam em ‘r’, que são obrigatoriamente acentuadas. Como ‘destróier’. Essa regra se choca com a regra específica, mas, entre a regra específica e a geral, ficamos com a geral. Então, o acento continua nessas palavras.”

Mas ainda há um ponto que causa confusão: “co-herdeiro” ficou grafada como “coerdeiro” no dicionário, embora no Acordo a indicação fosse para escrever “coherdeiro”.

Nota: Só para lembrar, o Acordo prevê as seguintes mudanças (em resumo):

1. Alfabeto: as letras K, W e Y passam a fazer parte do alfabeto
2. Trema: foi eliminado (exceção: nomes próprios, como Müller)
3. Acentuação: não se acentuam os ditongos abertos “ei” e “oi”nas palavras paroxítonas (bóia, colméia, heróico) mas se acentuam os ditongos “éi” e “ói” nas palavras oxítonas e monossílabos de som aberto (herói, dói, pastéis). A mudança também não inclui o ditongo “eu” (chapéu)
3. Não se acentuam os hiatos “ee” e “oo” (deem, voo)
4. Não se usa mais o acento para diferenciar as palavras paroxítonas com a mesma grafia (para, pelo, pólo), mas o acento permanece no verbo pôr em oposição à preposição por e na conjugação pôde para diferenciá-lo de pode (Obs.: o acento é facultativo para fôrma/forma)
5. Não se usa mais o acento no “i” e no “u” tônicos das palavras paroxítonas, quando vierem precedidas de ditongo (feiura)
6. Hífen: não se emprega mais o hífen nos compostos em que o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por “r” ou “s”. Nesses casos, a consoante deve ser duplicada (contrarregra, ultrassom). No caso dos prefixos “hiper”, “inter” e “super”, o uso do hífen continua valendo, quando seguidos de palavras iniciadas por “r” (hiper-realismo, inter-relação, super-racional)
7. Não se emprega mais o hífen nos compostos em que o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente (autoajuda, extraescolar)
8. Não se emprega o hífen em palavras que perderam a noção de composição (mandachuva, paraquedas, paralama, pára-choque)

Leia também: a edição de janeiro-março da revista Conexão JA traz uma boa reportagem sobre o Acordo. Já fez a sua assinatura?

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Com certeza, tipo assim...

Em tempos de acordo ortográfico, ficamos um pouco mais atentos às coisas da Inculta & Bela. Tirei pouco mais de uma semana de férias. Nesse curto período, convivi com mais humanos do que nos outros quase 360 dias de 2008. “E achou o quê?” Huuummm... Mas e a Inculta & Bela?

Pois é... O que aconteceu com o velho e tradicional “sim”? Está em processo de extinção como resposta a uma pergunta direta. O “sim”, agora, é “com certeza”.

— E aí? A praia tá boa?
— Com certeza!
— Vai um sorvete aí?
— Com certeza!

O antigo “sim” tinha lá as suas variantes de ênfase, que indicavam certa riqueza da língua, também melódica, né? Para um “sim” que quisesse indicar obviedade, coisa ululante mesmo, podia-se recorrer ao “Claro!”

— Vai ver a queima de fogos na praia?
— Claro!

E esse “claro” queria dizer que a pergunta embutia uma suposição fora das possibilidades, a saber: “Não, prefiro ficar no quarto”. O “claro!” era pronunciado com um certo alongamento da vogal tônica, indicando aquele “quê” improcedente da indagação.

Acabou! Agora, o sim virou um anódino “com certeza”, que, corrijo-me, deve ser escrito sem exclamação. Está sujeito, no máximo, aos sotaques. Um carioca diz o seu “com certeza” com aquele “r” arrastado, introduzindo uma vogal entre o “e” e o “i” ali nos arredores da segunda sílaba. O paulistano vai com o seu “r” curtinho, língua vibrando rápida e quase distraída no palato. Os paulistas das outras cidades conseguem enfiar um “i” nas cercanias do “r”. Só o que não varia é a chatice: "Com certeza..."

Diz-me um amigo que a culpa é da jornalista Leda Nagle, quando ainda na Globo. Teria dado início ao que acabou se transformando num vício de linguagem. Não sei. Só sei que é uma das coisas mais irritantes da fala dos brasileiros, superado apenas pelo “tipo assim” - ou simplesmente “tipo”. Essa praga se espalha mais entre adolescentes, mas já saltou o muro da idade.

— Você comprou um carro sedã?
— Não! É tipo assim SUV, mas não é bem...
— Uma minivan?
— Com certeza.

O “tipo assim” é especialmente perverso e tem de ser combatido com energia pelos professores porque não se contenta apenas em empobrecer a língua. Também é um atentado terrorista ao pensamento. O falante se dispensa de dizer com clareza o que quer. O “tipo” remete a uma versão aproximada, e a imaginação do interlocutor se encarrega do resto.

E isso me lembra uma terceira praga: as pessoas que falam fazendo aspas no ar, com a ponta dos dedos, como a nos dizer que aquelas palavras têm um outro significado - vale dizer, ele fala algo “tipo assim”, mas não exatamente, entenderam?

— Com certeza, Tio Rei!

(Do blog do Reinaldo de Azevedo)

sexta-feira, maio 09, 2008

Língua de Jesus está em risco de extinção

A língua que Jesus Cristo falava - aramaico - está à beira da extinção, mas no norte da Síria, as cerca de 18 mil pessoas que a falam lutam para a salvar do esquecimento. Os habitantes da localidade montanhosa de Maalula sentem-se orgulhosos por serem dos poucos que sabem exprimir-se na língua de Cristo. A população está contente por haver agora uma escola governamental que dá cursos de aramaico, o que permite às crianças e aos adultos estudarem a língua num centro acadêmico. A escola, inaugurada no verão passado, "é apenas o começo de um longo caminho para proteger a língua", assegura Anton Taglub, vendedor de cruzes e postais numa loja do mosteiro. ...

Uma língua que sobreviveu três mil anos graças ao isolamento dos seus falantes corre agora perigo, devido à globalização: "Dado o uso contínuo da internet e da televisão, os jovens começam a esquecer algumas palavras do aramaico", explica Mary Riad, guia no mosteiro de São Sérgio e São Baco. ...

(Diário Digital)

sábado, maio 03, 2008

Tribo do Amazonas causa guerra na lingüística

Uma tribo de caçadores-coletores do sul do Amazonas está colocando lingüistas e antropólogos em pé de guerra. Segundo um pesquisador, a língua dos pirahãs, um grupo de 350 pessoas que habitam o rio Maici, perto da divisa com Rondônia, é tão excepcional que põe em xeque a principal teoria vigente sobre a linguagem humana. A tese, no entanto, é contestada por outros lingüistas.

Os pirahãs ficaram famosos entre os acadêmicos devido ao trabalho do americano Daniel Everett, 55, um ex-missionário cristão que hoje é professor da Universidade Estadual de Illinois. Ele começou a estudar a língua da tribo nos anos 1970, com o objetivo (que nunca foi cumprido) de catequizá-los.

Enquanto aprendia a língua, vivendo numa aldeia pirahã com a mulher e os filhos, Everett descobriu uma série de peculiaridades no idioma. Os pirahãs não têm palavras para cores. Usam apenas oito consoantes e três vogais. Não possuem mitos de criação, não têm tempos verbais, não fazem arte e só sabem contar até três.

Em 2005, Everett publicou no periódico Current Anthropology um artigo no qual afirmava também que a língua pirahã não tem recursividade, ou seja, a capacidade de formar sentenças encaixando uma frase na outra. Assim, um pirahã seria capaz de dizer "a canoa de João", "o irmão de João", mas nunca "a canoa do irmão de João". Como vivem numa sociedade extremamente simples, onde o que conta é a experiência imediata (o aqui e agora), os pirahãs, argumenta Everett, têm sua língua (e, portanto, seu pensamento) limitados pela cultura - um caso único.

O trabalho caiu como uma bomba no meio lingüístico. Se Everett estivesse certo, o idioma pirahã seria um sério desafio à teoria da Gramática Universal. Desenvolvida pelo influente lingüista americano Noam Chomsky, a teoria afirma que todos os seres humanos possuem uma faculdade inata da linguagem, uma espécie de "órgão da linguagem" no cérebro. Essa capacidade independeria do meio cultural, tendo sido impressa nos circuitos cerebrais do Homo sapiens pela evolução. E a principal marca dessa faculdade é justamente a recursividade.

Uma exceção a essa regra significaria ou que os pirahãs não são humanos ou que o arcabouço intelectual chomskiano - sob o qual se formaram gerações de lingüistas - está falido. Everett, é claro, aposta na segunda hipótese. [Itálico acrescentado.]

A tese de Everett sobre como a chamada "experiência imediata" limita a competência lingüística dos pirahãs saiu do domínio da academia na semana passada e se espalhou como rastilho de pólvora na imprensa popular. Uma reportagem de 20 páginas intitulada "O Intérprete - Será que uma tribo remota da Amazônia virou do avesso nossa compreensão da linguagem?" foi publicada na prestigiosa revista americana The New Yorker e citada por jornais on-line, revistas e blogs nos EUA e no Brasil.

No entanto, no fim do mês passado, antes de a New Yorker ir para a banca, um trio de lingüistas dos EUA e do Brasil postou no site especializado LingBuzz um artigo contestando ponto a ponto o trabalho de Everett. Andrew Nevins, da Universidade Harvard, David Pesetsky, colega de Chomsky no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e Cilene Rodrigues, da Unicamp, afirmam - com base em trabalhos anteriores do próprio Everett - que o pirahã não apresenta desafio à Gramática Universal.

(Folha de S. Paulo)