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quinta-feira, novembro 07, 2019

Videoaulas sobre o engano das falácias

Falácia significa erro, engano ou falsidade. Normalmente, falácia é uma ideia errada que é transmitida como verdadeira, enganando as pessoas. No âmbito da lógica, falácia consiste no ato de chegar a uma determinada conclusão errada a partir de proposições falsas. A filosofia de Aristóteles abordou a chamada “falácia formal” como um sofisma, ou seja, um raciocínio errado que tenta passar como verdadeiro, normalmente com o intuito de ludibriar outras pessoas. De acordo com a lógica filosófica aristotélica, a “falácia informal” difere-se da formal, principalmente pelo fato de a primeira usar de raciocínios válidos, a princípio, para chegar a resultados que sejam inconsistentes e com premissas falsas. Ao contrário das falácias formais, que são mais fáceis de identificar, as falácias informais, por apresentar uma forma lógica válida, podem ser de difícil identificação.
Falácia também pode ser sinônimo de ardil ou logro; uma atitude que tem como objetivo obter vantagem sobre outra pessoa, enganando-a. Muitas vezes está relacionada com falta de honestidade.
Com origem no termo latim fallacia, essa palavra indica a característica ou propriedade de algo que é falaz, ou seja, engana ou ilude.

segunda-feira, setembro 24, 2018

Em face da morte: no abismo do nada ou nos braços de Deus?

Conta-se que “no início de setembro de 1869, Leon Tolstoi escreveu uma carta à esposa Sonya, que começava assim: ‘Uma coisa extraordinária me aconteceu em Arzamas. Eram duas e meia da manhã [...]. De repente, fui tomado de um desespero, um medo, um terror tal que nunca tinha conhecido antes. Depois lhe contarei os detalhes.’” O filósofo Kerry Walters, comentando esse estranho episódio, relata: “Quando passou sua noite terrível em Arzamas, Tolstoi tinha quarenta e poucos anos, excelente forma física e era marido e pai feliz. Era rico e aclamado em toda a Europa, como um dos maiores escritores de seu tempo. Além disso, acabara de dar os últimos retoques em sua obra-prima, Guerra e Paz. Estava no auge da vida. Tolstoi decidiu dar-se umas férias, viajando centenas de quilômetros até uma propriedade que estava interessado em comprar. A caminho, no meio da estepe russa, parou para passar a noite em uma tosca estalagem no vilarejo isolado de Arzamas. Jantou e se retirou para o quarto, completamente em paz consigo mesmo e com o mundo. Mas, nas horas escuras antes do amanhecer, Tolstoi acordou em pânico, com a certeza de que havia uma presença sinistra no quarto com ele. Tentando se acalmar, murmurou: ‘Isto é ridículo [...]. Do que estou com medo?’ Então ouviu uma resposta: ‘De mim’, respondeu a Morte. ‘Estou aqui.’”

O próprio Tolstoi narrou posteriormente que “um tremor frio percorreu-me a espinha. Sim, a Morte. Ela virá, já está aqui, embora nada tenha a ver comigo agora [...]. Todo o meu ser padecia com a necessidade de viver, o direito de viver e, no mesmo instante, senti a morte em ação. E foi horrível ser partido por dentro. Tentei afastar meu terror. Achei um toco de vela em um cadelabro de bronze e o acendi. A chama avermelhada, a vela mais curta que o castiçal, tudo me dizia a mesma coisa: não há nada na vida, não existe nada a não ser a morte e a morte não deveria existir!” Sobre a experiência esquisita e apavorante do escritor russo, Kerry Walters conclui: “Tolstoi iniciou a viagem de volta para casa completamente mudado. Essa horrível noite de pânico da morte no fim do verão de 1869 marcou-o para o resto da vida. O conto de Tolstoi ‘A morte de Ivan Ilych’, um dos retratos ficcionais mais absorventes e autênticos do processo de morrer, surgiu dessa experiência”.

Certa vez me perguntaram se eu tinha medo de morrer. Respondi que não gostaria de morrer; por isso, há dentro de mim o receio da morte. Tal como Tolstoi, eu só poderia encará-la com amedrontamento. No entanto, em maior ou menor grau, embora o medo da morte seja um sentimento universalmente experimentado, existiria a possibilidade de a “indesejada das gentes” ser enfrentada com certa coragem e até mesmo com esperança? Ou seria muita pretensão só cabível na ficção poética de Manuel Bandeira?

“Quando a Indesejada das gentes chegar / (Não sei se dura ou caroável), / Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: / — Alô, iniludível! / O meu dia foi bom, pode a noite descer. / (A noite com seus sortilégios.) / Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar.”

Quem não se lembra daquele ente amado pelo qual são derramadas lágrimas de saudade? Eu mesmo já perdi para a morte – recentemente até – algumas pessoas preciosas. A consciência da perda (saber que meus queridos passaram para a inexistência antes de mim) aumentou ainda mais minhas reflexões acerca do processo de morrer, o qual já começa com o nascimento. Pois, diferentemente dos animais, o homem morre e sabe que morre. Esse conhecimento instiga seu temor e curiosidade a ponto de questionar: “O que acontecerá comigo quando eu me for? Desaparecerei para sempre ou haverá alguma forma de sobrevivência do meu eu?”

Constitui a vida uma trajetória para o nada, a completa dissolução a ponto de virarmos “poeira das estrelas”? Ou morrer significa a “passagem” para um suposto mundo pós-morte, de acordo com algumas crenças religiosas? Morrendo, entramos de fato na extinção total ou passamos para outro estado de “vida”? São ideias antagônicas apresentadas à humanidade, as quais nos desafiam a investigar a natureza da morte e a buscar um meio de escapar dela.

Comecemos pela proposta niilista. Livros como Nos Cumes do Desespero (1932), Breviário de Decomposição (1949), A Tentação de Existir (1956) e Do Inconveniente de Ter Nascido (1973), todos do filósofo romeno Emil Cioran, exalam um pathos nauseante como se quisessem mostrar que a vida é mero acidente, sendo a morte a regra inexorável da existência, que sempre existiu e sempre existirá. Tudo morre e morrerá. Diz Cioran: “É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido.” Por outro lado, “com efeito, se o homem vem do nada para, no fim, retornar ao nada, por que, então, não ficou no nada de vez? Seria a parábola da vida um desvio breve, inútil e absurdo? É o que exprime a inscrição de um epitáfio romano antigo: In nihil ab nihilo quam citius recidimus (‘Quão rapidamente caímos do nada para o nada’)”. Para os mortalistas modernos, “os homens não passam de futuros mortos”, ou no verso pessimista de Fernando Pessoa, “cadáveres adiados que procriam”.

Na obra O Livro do Sentido: Crise e busca de sentido hoje (volume I), o teólogo católico Clodovis Boff enuncia as raízes ontológicas da vontade de viver. Em outra perspectiva, a da esperança firmada no Transcendente, ele expõe convicção contrária ao pensamento de Emil Cioran: “Se o sentimento de finitude e, portanto, de insegurança e angústia é elementar, especialmente em relação à morte, não constitui, contudo, o stimmung primeiro e mais profundo, como querem as atuais filosofias pessimistas. [...] A disposição mais originária do ser humano é a da criaturalidade, esse sentimento positivo e maravilhoso de viver, que é o sorver a vida em sua própria fonte criadora. Ora, é aí que se encontra a origem última da ‘vontade de viver’, e de viver cada vez mais. Portanto, a disposição existencial de estar voltado para a vida é mais radical do que a de estar voltado para a morte. O apetite de viver é mais arcaico e mais poderoso do que o de morrer. A pulsão de morte tem raízes psicológicas e mesmo existenciais, mas só a pulsão de vida tem raízes verdadeiramente ontológicas. [...] O Homo religiosus, por sentir a existência como um dom do alto, vive a experiência de finitude não só de modo conformado, mas na gratidão, na confiança e na coragem. Como finito, o homem sente-se ‘dado’, e dado por Alguém. [...] Exclama então: ‘Como é maravilhoso existir, quando se poderia não ter vindo à existência. E se existo, não precisando existir, é porque existo de graça e por graça. Gozo de uma vida que me é dada, sem tê-la em absoluto merecido.’ [...] Portanto, a experiência exultante da criaturalidade, a experiência de ser criado, propicia afirmar-se diante de um mundo precário e perigoso a partir da vinculação ontológica com a fonte de tudo.” 

Por mais desalentador que seja, eu tenho de concordar com o pensamento niilista num único aspecto: ao morrer, o homem adentra o reino do esquecimento e da inexistência completa. Morte é morte mesmo, em que tudo se desfaz e nada sobrevive. Contudo, discordo do espírito absoluto do niilismo, porque acredito no triunfo da vida mediante a esperança escatológica. O que isso significa? Partindo do pressuposto bíblico, assim como a vida surgiu por intervenção sobrenatural, quando, no princípio, a Terra “sem forma e vazia” (em estado caótico e morta, por assim dizer) foi organizada e embelezada por Deus, semelhantemente esse mesmo Ser intervirá na situação trágica atual do planeta para trazer de volta aquela condição de existência original da qual a morte não fazia parte. Essa fé no ato divino de recriação, que o ateu niilista considera utopia e consolo enganoso, para o crente é sólida certeza baseada na promessa da ressurreição e restauração total de todas as coisas, consoante a revelação cristã (1 Coríntios 15).

Voltemo-nos agora para outra compreensão radical acerca da morte, defendida pelas correntes religiosas que tomam os termos “espírito” e “alma” como entidades conscientes que sobrevivem ao desfazimento do corpo. Alicerçado sobre a crença equivocada de que o homem é inerentemente imortal, o espiritualismo, em todas as suas vertentes, apregoa o seguinte: “Morrer não é morrer”, mas entrar num plano alternativo de “existência”.  À primeira vista, tal fé parece manter certo ponto de contato com a máxima do químico francês Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Logo, a morte seria apenas um tipo de transição, e o corpo físico mero invólucro da alma que nunca perece. Essa ideia persuasiva, que vem desde a antiguidade, herdada da mentalidade grega e incorporada a crenças cristãs contemporâneas, tornou-se a “esperança” de grande parte da humanidade não conformada com o aniquilamento do ser. Entretanto, a concepção espiritualista é totalmente estranha e antagônica ao pensamento judaico-cristão pautado nas Escrituras, uma vez que na antropologia bíblica o homem, ser vivente, não tem uma alma, ele é uma alma que morre. Portanto, a dicotomia separatista espírito/corpo encontra no testemunho bíblico seu mais forte oponente. Nesse aspecto, o espiritualismo constitui um engano religioso de primeira linha, sustentado na grande mentira dita à mulher no Éden: “Certamente não morrereis” (Gênesis 3:4).

Confrontados com o ensinamento bíblico, tanto o niilismo, que nos empurra para o nada absoluto, quanto o dogma espiritualista, que não reconhece a natureza essencialmente mortal do ser humano, apresentam-se como propostas poderosas e cativantes, mas são profundas distorções da verdade no plano filosófico e religioso. O primeiro, com seu olhar extremamente pessimista, contempla a precariedade humana e as tragédias do mundo e deduz que a vida, imersa no escuro, será desfeita no nada total; já o segundo – sendo uma forma elaborada de negação da morte – assume feição enganosa ao aproveitar-se do nosso desejo de imortalidade e da intuição elementar e legítima de que não fomos criados para cair definitivamente no esquecimento, já que “Deus pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” (Eclesiastes 3:11). Nesse caso, o espiritualismo coloca uma máscara na face da morte, escondendo a fealdade dela por meio da contrafação. A “solução” advinda desse sistema religioso, embora atraente para muitos, é fábula na forma de doutrina que, no fim, acabará decepcionando quem nela acredita.

Retomando a experiência de Tolstoi, reflete Kerry Walters: “Muitos de nós tivemos nossa própria noite escura de Arzamas, na qual fomos atingidos no estômago pela percepção de que um dia a morte vai nos aniquilar completamente, que o mundo vai continuar e nós não vamos. Nesses momentos de desorientação, não adianta apelar ao antigo argumento de Epicuro, de que ‘onde a morte está eu não estou e onde eu estou a morte não está: então, por que temer a morte?’” Penso eu que só temos condição de não temê-la, escapando de sua soberania, por meio da fé bíblica – “uma afirmação triunfante da vida” –, na qual vislumbramos tanto a explicação do enigma quanto a saída final desse cativeiro. Dessa forma, só existe uma proposta – nem fatalista nem ilusória – capaz de nos trazer a solução desejada: o drama histórico da crucifixão de Cristo, cujo significado assume proporções que transcendem as fronteiras do nosso mundo para repercutir por todo o Universo.

Na experiência do “bom ladrão”, naquela tarde de sexta-feira crucial, a morte defrontou-se com a esperança última, perdendo a supremacia ontológica. Em seu momento decisivo, nem o niilismo nem o enganoso consolo espiritualista de vida pós-morte ofuscaram a confiança do homem moribundo na Pessoa divina de Jesus. Seu olhar encontrara a Verdade, o Doador da vida que também estava morrendo pelos pecados dos seres humanos, segundo as Escrituras. Por meio da fé, o pobre mortal teve a garantia de voltar a viver não naquele mesmo dia, mas na grande e futura “manhã da ressurreição”. Apostando numa existência eterna, o ladrão arrependido se lança nos braços de Deus com a súplica final: “Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu reino.” A resposta veio imediata: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:42, 43).

Diante da “ameaça do não ser”, serão lembrados por Deus os mortais deste planeta? Se a morte não deveria existir, mas entrou intrusamente em nosso mundo, governando com mão de ferro a vida, então a esperança da raça humana é estar guardada na lembrança de Deus. Seja qual for o momento – quando tudo vai bem ou quando somos assombrados pelo espectro da morte –, cada pessoa precisa suplicar a Jesus por existência eterna. Ele, que desceu à sepultura, mas, saindo dela, afirmou triunfantemente “Eu sou a ressurreição e a vida” (João 11:25), não deixará de ouvir o pedido daqueles cuja escolha em segui-Lo pode se dar mesmo nos momentos derradeiros de vida.

Todos os que desceram à sepultura, “dormindo em Jesus”, levaram consigo a promessa divina de que serão vitoriosos sobre a morte para usufruir vida sem fim ao lado do Criador. Eles partiram apossando-se das palavras ditas por Cristo ao suplicante na cruz: “Estarás comigo no paraíso.” Vivendo ou morrendo, que a oração do “bom ladrão” seja também a nossa: “Senhor, lembra-Te de mim!”

Frank de Souza Mangabeira

quarta-feira, julho 25, 2018

No princípio: por uma explicação das origens que inclua Deus

Vivemos ainda na tão proclamada pós-modernidade, sob o guarda-chuva conceitual do “Deus está morto” nietzschiano, seja qual for a interpretação dada a esse pensamento. Sendo assim, esta é uma época caracterizada pela incerteza e, como tal, um tempo de pluriontologias em que – na opinião das pessoas guiadas pelo nietzscheísmo ou por outras filosofias relativistas – não há resposta última, absoluta ou definitiva para explicar a realidade. A impressão que se tem, no entanto, é a de que as metanarrativas não morreram com a suposta morte de Deus, mas continuam por aí competindo entre si e guerreando com as “espadas” da ciência, da filosofia e da teologia.

O pluralismo ontológico - estranho desafio à metafísica - “sustenta que realmente não há uma resposta certa para muitas perguntas ontológicas. De acordo com o pluralista ontológico, há apenas maneiras diferentes de descrever a realidade, e nenhuma delas é mais correta ou mais precisa do que a outra. Não há nenhuma verdade absoluta em resposta a essas perguntas”. Em resumo, tudo é provisório, e estar convicto de algo seria o mesmo que se autoenganar ou, quando muito, participar de um jogo de linguagens. Consequentemente, a pergunta “o que é a verdade?” perde o sentido, restando apenas a crença de que a verdade é um construto da mente humana. Todavia, há um impulso por respostas profundas agitando o íntimo do homem, sempre incomodando-o. Ele não abre mão, sobretudo, de tentar entender a origem do Universo e do mundo nos quais está inserido. Inquieta e curiosa, a humanidade lança o olhar ao longínquo e nebuloso passado e indaga: “Qual ontologia poderia me dizer de onde eu vim e quem eu sou?”

Na concepção científica majoritária, a teoria geral da evolução (nas suas modalidades de evolução cósmica, química e biológica) constitui o fator explanatório por excelência “capaz” de apresentar respostas acerca das origens. O discurso de seus porta-vozes mais dogmáticos propõe: “Darwin efetivamente varreu o propósito para o lado no mundo vivo”, e “todas as reimposições do propósito são artifícios dos religiosos para alimentarem a sua fé”. Pensando assim, Peter Atkins, químico de Oxford, não vê nenhuma contribuição a ser oferecida pela religião, pois ela só apresenta “soluços vazios e flatulência verbal que passa por exposição teísta”. Na imaginação radical desse cientista ateu, “a humanidade deve aceitar que a ciência eliminou a justificação para crer no propósito cósmico”. Em seu livro Creation Revisited, Atkins acredita que o Universo surgiu porque “por acaso houve uma flutuação no vazio”: tese mais espantosa e fantástica do que apelar para o Criador!

Os opositores do modelo bíblico das origens acentuam a superioridade da teoria da evolução como o melhor modelo apresentado pela ciência, caso Deus seja excluído das explicações. Entretanto, conforme salienta o zoólogo criacionista Ariel Roth, “a perseverança que os evolucionistas têm demonstrado é altamente elogiável. Mas, após dois séculos de uma busca essencialmente infrutífera, chegou a hora de os cientistas considerarem com seriedade alternativas não naturalistas. O planejamento da vida por uma inteligência racional como Deus parece necessário para explicar aquilo que a ciência está continuamente descobrindo”. Porém, esclarece Roth, “essencialmente Deus é excluído dos compêndios e revistas científicos. Como atualmente praticada, a ciência é uma combinação peculiar de pesquisa em busca da verdade sobre a natureza, e de filosofia secular excludente de Deus. Lidamos hoje com uma comunidade científica que tem esse forte compromisso materialista (mecanicista, naturalístico), que considera anticientífico incluir Deus como fator explanatório na ciência. Não é permitida a presença de Deus no cardápio das possíveis explanações científicas. Isso desmente o quadro usual da ciência, que é apresentada como pesquisa aberta da verdade, que segue os dados da natureza para onde eles possam conduzir”.

De várias maneiras, há esforços poderosos a fim de eliminar Deus da paisagem do mundo natural. É “pecado” mencioná-Lo. Quanto a decifrar o enigma das origens, a ciência materialista proclama sua total confiança na razão humana e em suas ferramentas de laboratório. Nada contra a tentativa, uma vez que “pode ser inofensivo pesquisar além do que a Palavra de Deus revelou, se nossas teorias não contradizem fatos encontrados nas Escrituras; mas aqueles que deixam a Palavra de Deus e procuram explicar Suas obras criadas por meio de princípios científicos, estão vagando sem mapa nem bússola em um oceano desconhecido”, adverte Ellen G. White.

O orgulhoso cientificismo não reconhece a existência de uma fronteira demarcada pela Revelação, além da qual não podemos passar; limite imposto pelo “está escrito”. Em palavras mais exatas: “Precisamente como Deus realizou a obra da criação, jamais Ele o revelou ao homem; a ciência humana não pode pesquisar os segredos do Altíssimo. Seu poder criador é tão incompreensível como a Sua existência”. Essa declaração de Ellen G. White encontra eco em Phillip Johnson, um dos proponentes do Design Inteligente: “A investigação científica da origem da vida está efetivamente fechada como se Deus tivesse reservado o assunto apenas para Si mesmo.” Seria isso arbitrariedade divina, capricho, tal como a mítica ação de Zeus que acorrentou Prometeu nos rochedos do Cáucaso porque o titã roubou o fogo dos deuses e levou o conhecimento aos homens? Por que então a porta da explicação última continua fechada? Quem sabe para levar o homem ao reconhecimento de suas limitações; para mostrar-lhe que o domínio total da matéria é de outro Ser; para conscientizá-lo de que não é um deus, mas criatura; para frear o seu poder destruidor sobre a natureza e até para lhe permitir avançar no conhecimento. E o mais importante: deixar viva no homem a necessidade de adoração. Por isso, o Criador pergunta aparentemente em tom de desafio:

 

Onde você estava


Quando os elétrons bailaram pela primeira vez / E o Universo ferveu, aceso, no calor da criação?
Por acaso, assistiu / Quando as bolhas de fogo giraram em rodas amarelas, / E romperam, com chamas, os limites da escuridão?

Você não viu./ Nem contemplou o esplendor, / Pois seus olhos humanos / Não suportariam o calor. / Mas Eu vi!

E foi você / Quem escreveu a melodia que ressoou em ondas, / Chamando os átomos para dançar com as estrelas? / Certamente não foi, / Pois essa música foi escrita em tons maiores, / E veio autenticada com as Minhas chancelas.

Você não a compôs. / Nem seguiu a melodia, / Pois sua voz humana / Não alcança a escala. / Mas Eu cantei.

E como se atreve a dizer, / (Você, fraco, frágil e passageiro) / “Eu sou quem observa: sem mim nada existe!”? / Tolo! Como se vivesse para sempre! / Nem viu seu filho se formar no útero da mãe. / Ao nascimento do Cosmos, há Um só que assiste.

Sim, Eu observei. / Eu fiz os traços / E dirigi os passos / Eu sou o Senhor da Dança / Sou Eu.

No estudo da natureza não precisa haver duelo entre Deus e homem. As sentenças poéticas acima podem ser entendidas como um convite à investigação, ao raciocínio e à pesquisa, os quais levem em consideração o Agente divino como o fundamento da realidade material. Vemos desafio semelhante nos capítulos 38 a 41 do livro de Jó, onde Deus Se apresenta como o “grande Inquisidor”, levantando perguntas sobre o mundo natural perante o sofrimento inexplicável de Sua criação. O texto mostra um Pai que cuida do mundo, especialmente dos seres humanos (Mateus 10:29-31), evidenciando o controle e a soberania divina sobre todos os fenômenos e acontecimentos, mesmo os mais dramáticos.

Investigar a natureza, dominando-a benignamente, significa encontrar a Fonte espiritual da matéria, porquanto “qualquer que seja o ramo de investigação a que procedamos com um sincero propósito de chegar à verdade, somos postos em contato com a Inteligência invisível e poderosa que opera em tudo e através de tudo”. As coisas criadas estão aí para nos ensinar não apenas sobre elas mesmas, mas também acerca do seu Autor. Esta é a tese de Jó ao declarar: “Mas, pergunta aos animais, e cada um deles te ensinará, e às aves dos céus, e elas te farão saber; ou fala com a terra, e ela te instruirá, até os peixes do mar te informarão. Qual dentre todas essas coisas não sabe que a mão do Senhor fez isto?” (Jó 12:7-9). Igual pensamento tinha o teólogo e filósofo medieval Boaventura. Ele acreditava ser a criação um guia para o Criador: “Todas as criaturas deste mundo sensível conduzem a alma da pessoa sábia e contemplativa para o Deus eterno, já que são as sombras, ecos e efígies, os vestígios, imagens e manifestações desse primeiro princípio mais poderoso, sábio e melhor que há; dessa origem eterna, luz e plenitude, dessa Arte produtiva, exemplar e ordenadora. São postos diante de nós para que conheçamos Deus; são sinais divinamente dados. Pois toda criatura é, por natureza, um tipo de retrato e semelhança dessa Sabedoria eterna.”

No tocante a processos empíricos e laboratoriais, explicar o funcionamento das leis da natureza permitiu à ciência grande desenvolvimento. Contudo, a ciência humana ainda é uma criança assustada e impotente quando se depara com o “início dos tempos”. Sonhar, conjecturar, hipotetizar e construir modelos teóricos é o máximo que ela consegue. Verdadeiramente, “pensar os pensamentos de Deus de acordo com Ele”, consoante o ilustre astrônomo Johannes Kepler, deveria ser o objetivo do empreendimento científico, já que “o principal objetivo de todas as investigações do mundo exterior deveria ser o de descobrir a ordem racional nele imposta por Deus e por ele revelada na linguagem da matemática”.

No princípio...

Em se tratando das origens, sempre nos sustentaremos em argumentos de autoridade: ou no que afirmam os cientistas e filósofos com suas controversas especulações ou no que declara a Revelação. Com Gênesis ou sem o fiat divino, essa busca por explicações só indica uma coisa: queremos saber! Não há objetivo filosófico e científico mais nobre. Entretanto, a resposta última e mais adequada terá características sempre metafísicas e religiosas: Deus fez! Quando os cientistas, com seus processos de investigação, reconhecerem tal fato, terão realizado sua maior descoberta e dado o maior salto de humildade da história.

Frank de Souza Mangabeira

sábado, maio 19, 2018

Yoda e a pós-modernidade

"Chegou a hora de você ignorar uma pilha de livros velhos." "São os textos Jedi sagrados!"n"Uma lida neles você deu?" [embarassado] "Bem... eu..." "Mágicos eles não são... sim... sim... sabedoria eles possuem... mas não há nada naquela biblioteca que a jovem Rey já não possua."

Essa é a fala do espírito desencarnado do gnomo alienígena Yoda com o ex-caipira ingênuo e aventureiro, agora hermitão, Luke Skywalker, a respeito da jovem novo-padrão-de-[não]beleza-e-comportamento-feminista Rey (p.s.: nome assexual), em torno do minuto 82 do filme Star Wars: The Last JediEssa fala, de um dos personagens mais canhestros e emblemáticos da cultura popular do último meio-século, representa com invulgar escancaramento o pensamento pós-moderno que nos cerca aonde quer que vamos ou onde quer que permaneçamos.

Não precisamos ser muito perspicazes para entender qual é o recado dessa (e de muitas outras) fala, para quem se destina e quem é o autor. "Sim, sim. Sabedoria os velhos livros sagrados possuem, mas nada que você, que é um Jedi (caso contrário não estaria se interessando por este filme), já não possua. Olhe para dentro de você, a resposta e o poder estão sempre lá."

A cultura pós-moderna surge como uma reação normal e até mesmo esperada da frustração humana dos últimos 250 anos. Por determinado tempo se imaginou que os problemas da humanidade seriam resolvidos quando todos tivessem acesso à comida e aos bens de consumo necessários. Veio a revolução industrial e escravizou seres humanos a jornadas de 16 horas diárias, sete dias por semana, com recursos para parcamente pagar por seu alimento, e apenas isso. Então foi a vez das doenças: a higiene e a vacina de Pasteur, os antibióticos de Fleming e tudo o mais eliminaram algumas doenças - só para dar lugar a outras muito mais misteriosas e sinistras como o câncer e as doenças genéticas. O desenvolvimento da ciência levaria a humanidade ao suprimento inesgotável de energia a partir da fissão do átomo, mas as esperanças praticamente se desfizeram ao se verem dezenas de milhares de pessoas instantaneamente incineradas pelos filhotes gêmeos bivitelinos do Projeto Manhattan e sua prole infindável nas mãos de americanos, russos, ingleses, franceses, indianos, paquistaneses e até... norte-coreanos. Frustrações de um mundo sem Deus, que quer se apropriar por si só da fórmula da vida e da felicidade.

Mais uma vez: a indústria, a ciência, a medicina são todas dádivas maravilhosas. Me refiro aqui ao depósito da confiança humana exclusivamente nessas ferramentas e ao esquecimento da figura do Criador.

O método científico cartesiano não foi capaz de lidar satisfatoriamente com questões subjetivas, metafísicas e de altíssima complexidade. Bauman abordou esse paradoxo em termos de modernidade líquida. Edgar Morin falou sobre a metáfora do holograma para expor ideias sobre o pensamento complexo. Michel Focault, Jacques Derrida, dentre outros, aliados com o mais antigo David Hume tentam desconstruir (e conseguiram, em grande extensão) o conceito de uma verdade absoluta, do dogmatismo e do positivismo, justamente sobre os argumentos de que a ciência de Newton e Descartes falhara, e a da relatividade de Einstein viera para sobrepujá-la. Ora, se o que era tido como pétreo nas ciências duras foi "derrubado" e considerado relativo, por que não os estudos sociais e humanos, incluindo a ética e a moral?

Embora as previsões de Nietzsche de que Deus estava morto e a religião não veria a luz do século 21 felizmente e profeticamente estivessem erradas, de certa forma, a religião (quase) morreu. O homem se tornou o seu próprio deus, e então a régua da perfeição, do padrão moral de ideal para o ser caído passou a ser ele mesmo: um ser confuso, malévolo e inseguro, tentando se autoafirmar em ideias de autoajuda como a do Sr. Miyagi New Age, descritas acima. Mesmo nas igrejas é muito comum vermos repetidamente esse novo paradigma transliterado. Deus saiu do altar e ocupou um lugarzinho escondido no meio da plateia, se é que é convidado(!). A música já não é mais uma ode ao - indescritivelmente- grande-demais-para-ser-adjetivado-humanamente - Criador, Mantenedor e Redentor, e passa a incorporar indiscriminadamente a primeira pessoa dos pronomes pessoais do caso reto e, notavelmente, os possessivos. Os sermões abandonaram o "livro antigo que tem algumas coisas boas" para recorrer às elucubrações portentosas dos doutos em centros de treinamento secular altamente institucionalizados.

Nos tornamos nihilistas. Nos tornamos relativistas. Nos tornamos hedonistas. Nos tornamos individualistas.

Supresa! Será que Deus foi "pego despreparado"?

Gaste alguns minutos refletindo sobre as palavras de Paulo a Timóteo:

"Sabe porém isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos, porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus. Tendo aparência de piedade, mas negando-lhe a eficácia dela. Destes, afasta-te" (2 Timóteo 3:1-5).

Com outros termos, Paulo descreve a sociedade pós-moderna. Em tempo: estou fazendo uma leitura e uma aplicação amplas. Evidentemente nosso mundo guarda, em todos os seus recônditos, pessoas às quais esta descrição não se adequa bem. Mas você irá concordar que esta parece ser uma descrição perfeita do que lemos no nosso site favorito de notícias, o que recebemos no Whatsapp, vemos no Facebook ou experienciamos no trânsito das grandes cidades.

A pós-modernidade, de acordo com a Bíblia, é o sintoma de uma causa que ocorre em uma etapa anterior: "...e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos" (2 Tessalonicenses 2:10).

Mais uma vez ela: a verdade. O engano, de acordo com Paulo, ocorre não como condição inicial, mas como condição final. A causa está declarada na segunda sentença do versículo: não acolheram o amor da verdade. Quando a verdade é rejeitada, resta apenas a ilusão do engano próprio, que é o pior tipo de engano que existe.


Quando o mundo aceitou a ideia de que Deus não Se revelou na Bíblia ou na pessoa de Cristo, embora tenha tido maus testemunhos da Igreja durante mais de um milênio, e continua tendo, infelizmente, abriu as portas para que toda e qualquer filosofia se apresentasse como válida e digna de atenção. Todavia, "pelos seus frutos os conhecereis". O humanismo tem se mostrado deserto, infrutífero e desconsolador. A ciência, uma ferramenta inegavelmente fantástica dada aos seres humanos, fora da consideração de seu Autor, como Newton sempre mantinha em mente, se torna um veículo instável de alguns acertos, quase ao acaso, e um universo de falhas, às vezes desastrosas. O hedonismo, em lugar de trazer liberdade e felicidade, está trazendo frustração e depressão.

Mas nem tudo são lágrimas. Qual a boa notícia? Se o ser humano tem carência de uma verdade pétrea que atue como um padrão de referência, para manter sua estabilidade mental e emocional, e seu significado, resta dizer que essa verdade existe, e está acessível a todos. Não com as ferramentas humanas, mas alcançável pelos humanos. E a despeito das inumeráveis caricaturas enganosas dessa Verdade, que se prezam a descrê-la, ela continua sendo surpreendentemente maravilhosa e atrativa.

E uma notícia melhor ainda é que essa Verdade é proativa e está à procura do filho rebelde e assustado em um mundo hostil: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (João 14:6).

Por que o autoexilado Skywalker ficou silencioso e perdidamente confuso diante do pigmeu verde e aceitou fleumaticamente sua saraivada de pensamentos massageadores do ego, mas vazios? Foi porque o eremita não leu os livros antigos sagrados. Guardava por guardar. Pela tradição. Porque os antigos fizeram. Quando chegou a hora da verdade, ele falhou.

E você?

(Alexsander Silva é doutorando em Administração)

P.S.: No referido filme, todos - absolutamente todos - os personagens masculinos humanos são: ou maus, ou fracos, ou tolos, ou covardes. E todos os personagens femininos são: sábios, corajosos, fortes, autocontidos e dotados de sensibilidade.

Leia também: O feminismo invadiu Star Wars
Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.

2 Timóteo 3:1
Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos,
Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons,
Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,
Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

2 Timóteo 3:1-5
Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos,
Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons,
Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,
Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

2 Timóteo 3:1-5
Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos,
Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons,
Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,
Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

2 Timóteo 3:1-5
Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos,
Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons,
Traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus,
Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

2 Timóteo 3:1-5

quinta-feira, maio 03, 2018

Ontologia, leis físicas e a “atemporalidade” de Deus


Nosso artigo que toca na questão da relação de Deus com o tempo gerou comentários bastante interessantes. Parte dos comentários refere-se à falta de profundidade no que foi dito sobre o debate teológico em si, com suas várias posições, argumentos e contra-argumentos que foram propostos ao longo da história, bem como as diversas ideias que foram consideradas e aceitas por uns e descartadas por outros. Não são apenas duas posições, mas um espectro de ideias. É verdade que deixamos de comentar (intencionalmente) todo esse rico debate, até porque não era esse o foco do artigo. O objetivo era dizer que existe esse debate com dois pólos principais em relação à questão da temporalidade de Deus e que em boa parte ele tende a apoiar-se no vazio quando não leva em conta a natureza do tempo. E levar em conta a natureza do tempo é algo difícil quando não se sabe o que é o tempo, detalhe que só foi descoberto no século 20 e ainda permanece desconhecido para a maioria das pessoas. O resultado inevitável são argumentos razoáveis misturados com falácias, as quais parecem ao senso comum tão razoáveis quanto o restante. Nosso foco continua sendo esclarecer alguns detalhes do conhecimento técnico que temos atualmente e deixar para os teólogos aplicar o assunto ao debate sobre a temporalidade de Deus. Como fizemos antes, podemos exemplificar consequências e reformulação de conceitos. Em particular, qualquer cenário ou ideia na qual Deus seja incapaz de agir na história, ao longo do tempo, entra em conflito com a Bíblia. Qualquer ideia que limite Deus a uma linha de tempo qualquer entra em conflito com o que sabemos sobre o tempo e sobre Deus. Deus necessariamente existe independentemente do tempo e além dele, mas a palavra “independentemente”, aqui, tem um significado técnico que pode ser diferente do que alguns esperariam em um debate filosófico. De forma alguma significa que Deus não interage com o tempo.

Outro detalhe importante é a inadequação de linguagens não formais (não matemáticas) para lidar com esse tipo de assunto. Quando falamos em “interagir com o tempo”, por exemplo, em linguagem comum, as pessoas tendem a pensar em um processo, parte do qual ocorre fora do tempo. Evidentemente, isso não faz sentido, mas nos referimos a um tipo de relação que, pelo ponto de vista de quem vive a passagem do tempo, corresponde a um processo ao longo dele. Uma parte desse aspecto foi discutida por Agostinho, com base apenas em uma boa intuição sobre o tempo. Hoje, porém, temos conhecimentos para tratar desse assunto em muito maior profundidade e entrar seguramente em detalhes que em épocas anteriores não eram imaginados ou, em alguns casos, eram meras especulações.

Alguns dos comentários feitos indicam que precisamos discutir também certas questões periféricas para que o tema seja mais bem entendido. As reais implicações sobre o que sabemos hoje a respeito da natureza do tempo não parecem ter sido plenamente avaliadas, mesmo por alguns dos nossos leitores mais competentes que conhecem o debate teológico, mas que se beneficiariam de uma intuição mais profunda de aspectos físicos do problema. Infelizmente, essa percepção tende a ser bloqueada por alguns conceitos filosóficos que precisam de alguns ajustes para se encaixar no que a natureza nos revela.

Ontologia

Uma das questões levantadas nos comentários é sobre a ontologia do tempo e das leis físicas. A título de exemplo, em nosso artigo mencionamos o princípio da ação mínima como um exemplo de entidade atemporal que não apenas interfere, mas rege o que acontece ao longo do tempo. Isso foi recebido com estranheza por alguns. Afinal, o princípio da ação mínima pode ser considerado uma entidade? E o tempo? Seria uma entidade ou apenas um atributo do Universo? Nesse ponto temos um conflito de jargões de diferentes áreas. Além disso, existe uma questão conceitual que transcende à diferença de uso de palavras. Por essa razão, mesmo antes de discutirmos jargões, procuraremos comentar de maneira informal essa questão ontológica. Adiantamos, porém, que o conceito de entidade que utilizamos aqui também é bastante geral. Um atributo de qualquer coisa (ou pessoa) é uma entidade matemática. Mas o assunto principal agora é ontologia.

Para quem não está familiarizado com esse termo filosófico, ontologia diz respeito à essência do ser, o que ele é de fato; como as entidades se classificam e se relacionam em função de sua natureza mais fundamental.

Na cultura do último século no estudo da Física, tipicamente reservam-se questões ontológicas para filósofos. Físicos preocupam-se com comportamentos, em sentido amplo. Forma, cor, características, por exemplo, são comportamentos. Comportamentos em relação ao tempo representam apenas um dos tipos que estudamos. A rigor, o físico não pergunta o que é um elétron em sua essência, mas como ele se comporta. Qualquer coisa que se comporte como um elétron será chamada de elétron, por definição. A classificação é feita por meio do comportamento. Mas o que é um elétron, em última análise? Em princípio, essa não é uma pergunta para a qual o físico se julgue competente para procurar uma resposta. Eu disse “em princípio”.

Descoberta de leis

Esse jogo de quebra-cabeças que consiste em reunir pistas sobre como funciona a realidade física apresenta uma “virada” interessante quando se ligam alguns pontos. Para explicar que virada é essa e em que se baseia convém trazer à tona alguns detalhes mais relevantes da história das descobertas na área da Física.

Seguindo a proposta de Galileu e outros, Isaac Newton deu largos passos rumo a adotar uma forma de estudar a natureza utilizando métodos matemáticos de maneira mais sistemática. No processo, descobriu o Cálculo Diferencial e Integral (assim como Leibniz, independentemente). Isso foi essencial ao progresso dos últimos séculos, pois o estudo da realidade física tem o Cálculo como pré-requisito e não há como ir muito longe no estudo das leis da natureza sem um conhecimento sólido de equações diferenciais, que dependem do Cálculo. Usando essas ferramentas matemáticas descobertas no próprio mundo físico, Newton conseguiu formular três leis da Mecânica. Essas mesmas ferramentas matemáticas revelam um rico infinito além, o qual ainda mantém físicos e matemáticos ocupados até os dias atuais. É difícil até mesmo dar conta da quantidade de informações que jorram abundantemente da natureza quando usamos esses métodos. Comparado com isso, o conhecimento humano adquirido ao longo de dois milênios corresponde apenas a gotas.

Juntamente com a Teoria da Mecânica de Newton (três equações e suas consequências) havia uma série de ideias extras mantidas pelo próprio Newton e por outros. Entre elas, a de que o tempo seria algo absoluto. Nada nas leis de Newton diz isso, mas essa ideia era tida como verdadeira e afetava a maneira como as pessoas utilizavam as equações de Newton.

No século 19, James C. Maxwell descobriu a Teoria Eletromagnética, composta de quatro equações diferenciais vetoriais que regem os fenômenos eletromagnéticos, isto é, quase tudo o que existe no cotidiano, incluindo a Química, a Biologia e a tecnologia de aparelhos elétricos e eletrônicos. Tornou-se viável construir aparelhos que processam informações sofisticadas graças a essa teoria. O problema é que as equações do eletromagnetismo nos dizem que a velocidade de propagação das ondas eletromagnéticas é absoluta. Três possibilidades foram imaginadas: (1) houve erro na dedução das equações, (2) existe um referencial absoluto e aquela forma das equações só funciona nesse referencial ou (3) o tempo é relativo, o espaço é relativo, mas o espaço-tempo é absoluto. Até onde se pode medir e testar, a proposta (1) é falsa; as equações são válidas. O item (2) também demonstrou-se falso; as equações valem em qualquer referencial inercial. O item (3) deu origem à Relatividade Especial, demonstrando-se verdadeiro em cada um dos milhões de instâncias testadas até hoje. Mas a Relatividade Especial parecia gerar resultados bem diferentes dos da Teoria de Newton a altas velocidades. Contraria também a intuição comum e até hoje sofre críticas por isso, tipicamente com argumentos falsos, mas que parecem razoáveis. Um exemplo é o famoso pseudo-paradoxo dos gêmeos, simples de resolver mas que confunde alguns.

No início do século 20, outra descoberta importante ocorreu: descobriu-se que átomos possuem um núcleo eletricamente positivo com volume insignificante comparado com o tamanho total do átomo. E o núcleo contém quase toda a massa do átomo. Ao redor, temos elétrons, negativos. Imaginou-se o átomo como sendo semelhante ao Sistema Solar, com o núcleo fazendo o papel do Sol e os elétrons orbitando o núcleo como planetas. Mas a Teoria Eletromagnética dizia algo importante sobre isso: se os elétrons se movessem em trajetórias curvas ao redor do núcleo, irradiariam sua energia cinética e logo cairiam sobre o núcleo. Os átomos não seriam estáveis. Mas os átomos são estáveis. O que estava errado? A Teoria Eletromagnética ou a Teoria de Newton? Por que elas pareciam incompatíveis? Imaginou-se então que, no mundo microscópico, as leis de Newton não valeriam e que novas leis entrariam em vigor.

Essas coisas causaram uma espécie de crise filosófica entre físicos. Como entender esse fracasso de teorias bem testadas? Propôs-se que o papel dessas teorias não seria o de descrever hipóteses ontológicas, mas o de produzir resultados observáveis dentro de uma região de validade. As leis de Newton, por exemplo, seriam válidas somente para baixas velocidades e para o mundo macroscópico. Felizmente, esse não foi o fim da conversa. Algo muito interessante ocorreu em seguida e impôs mais um corretivo ao pensamento dos físicos. Infelizmente, a maioria parece ter parado na fase anterior.

Antes de prosseguir, precisamos comentar brevemente uma estrutura matemática chamada de espaço de Hilbert. E antes de falar nisso, precisamos comentar o conceito de vetor. Quem teve a oportunidade de cursar o Ensino Médio deve ter aprendido algo sobre vetores. Nesse nível, tipicamente, diz-se que eles possuem direção, módulo e sentido. Um exemplo disso é a velocidade. Para uma descrição da velocidade de algo, precisamos pelo menos do valor dessa velocidade (módulo: quantos quilômetros por hora) e para onde está indo o objeto em movimento. Na verdade, esse é apenas um dos tipos de vetores que existem. Existe uma infinidade de tipos de vetores e os respectivos espaços nos quais eles existem. Esses espaços consistem em um conjunto de vetores (tipicamente em quantidade infinita) juntamente com escalares (que podem ser números) e operações internas e externas a esses conjuntos. Usamos definições matemáticas rigorosas para defini-los e teoremas para lidar com eles. Uma das famílias de espaços vetoriais são os espaços de Hilbert. Eles são extremamente úteis para representar situações (estados) de sistemas físicos, entre outras coisas. Outro conceito importante é o de operador. Podemos, por exemplo, representar a velocidade de um avião por um vetor. Mas como representar um giro na trajetória causado pelo piloto? Trata-se de uma transformação que muda a velocidade do avião de um vetor para outro. Matematicamente, descrevemos isso como uma operação que aplicamos sobre um vetor e cujo resultado é outro vetor. A entidade matemática responsável por essa operação chama-se operador.

Voltemos à história das descobertas. Encontraram-se duas maneiras de estudar as leis do mundo microscópico (mundo quântico). Essas maneiras pareciam totalmente diferentes, mas davam os mesmos resultados. Examinando ambas, é possível notar que são instâncias de diferentes representações de operadores e vetores em espaços de Hilbert. As abordagens usadas até então para estudar o mundo microscópico (quântico) eram apenas dois exemplos de um conjunto infinito de representações possíveis de espaços de Hilbert. Cada direção nesse espaço representa um estado físico (no sentido de descrição completa do sistema, não se é sólido, líquido ou gasoso). Os operadores, que transformam um vetor em outro, correspondem a mudanças de estado físico, como no exemplo do operador rotação faz um avião desviar-se de sua trajetória original.

O interessante é que, ao contrário do que pareceu antes, as leis de Newton continuam perfeitamente válidas no mundo microscópico. O que não é válido é representar grandezas mensuráveis somente por números. Nesses domínios, é importante representar o ato de medir, sendo o resultado da medida insuficiente para descrever o que ocorre. O ato de medir corresponde a operadores no espaço de Hilbert. As leis da Mecânica Quântica são as leis de Newton expressas como representações de relações entre operadores no espaço de Hilbert.

E quanto à Relatividade? A Teoria de Newton não diz que o tempo é absoluto? De maneira nenhuma! Quando corretamente expressas, as equações de Newton não dizem que o tempo é absoluto. De fato, a Relatividade Especial consiste nas equações de Newton acrescidas de dois novos postulados (duas leis extras). Nada deixou de valer. Aliás, nenhuma teoria baseada em métodos matemáticos corretamente usados jamais deixou de valer diante de novas descobertas. De fato, ao testar novas teorias, uma das primeiras coisas que os físicos fazem é verificar se elas passam no princípio da correspondência: se uma teoria nova possui intersecção com uma teoria já testada em sua região de validade, então a nova teoria precisa concordar com a teoria anterior na região da intersecção. A realidade não muda. O que já funciona não pode parar de funcionar porque algo novo foi descoberto. A ideia de que teorias aceitas hoje podem ser rejeitadas amanhã é válida no âmbito do que deveria ser chamado de pseudociência ou falsa ciência. Na Ciência formal isso não acontece.

De volta à Mecânica Quântica, apesar de não se pretender utilizá-la para resolver questões ontológicas, ela se desdobrou em tantas consequências interessantes que fez com que os físicos e filósofos ficassem a debater até hoje em busca de maneiras de colocar tais achados em algum arcabouço filosófico (o matemático baseado em espaços de Hilbert já estava lá e resolveu os problemas com facilidade). Embora esse não seja o trabalho do físico, é difícil resistir a um apelo assim. Afinal, alguém precisa traduzir uma parte do que o formalismo matemático diz para que o conhecimento se espalhe na sociedade. Traduzi-lo inteiramente para uma linguagem humana é impossível, mas é importante traduzir o que for possível. Entre esses desdobramentos, existem alguns com implicações sobre a ontologia de tudo o que nos cerca. Mesmo que não seja isso o que os físicos procurem, teorias e frameworks científicos são descobertos e não inventados (ao contrário das teorias e frameworks pseudocientíficos), de forma que possuem vida própria e podem contrariar até mesmo seus formuladores (aqueles que encontraram maneiras de escrever as relações descobertas em linguagem formal). Uma consequência disso é que teorias científicas podem trazer informações inesperadas sobre a realidade, surpreendendo até seus descobridores. Isso, de fato, acontece com certa frequência quando se usam métodos matemáticos da Ciência. Muitas entidades e fenômenos desconhecidos foram descobertos dessa maneira muito antes de serem observados na prática.

Mecânica Quântica e Ontologia

Tentaremos agora prover um vislumbre de um detalhe do mundo quântico que traz em seu germe profundas implicações ontológicas.

Em condições normais, em um espaço-tempo de uma dimensão de tempo e três de espaço, existem dois tipos de partículas fundamentais: férmions e bósons. Exemplos de férmions: elétrons, prótons, nêutrons, neutrinos, quarks. Exemplos de bósons: fótons, glúons, W, Z. O que os distingue é uma propriedade chamada spin. Bósons possuem spin inteiro (ex.: 0, 1, 2, ...). Férmions possuem spin na forma n+½ (ex.: 1/2, 3/2, ...). Parece algo sem maiores consequências, mas não é. Uma consequência importante e não óbvia é que dois férmions não podem ocupar o mesmo estado quântico ao mesmo tempo (“princípio” da exclusão, que na verdade é um teorema). Bósons não possuem tal restrição. É graças a esse comportamento dos férmions que a Química existe. Sem essa propriedade, não haveria níveis eletrônicos estáveis acima do 1s. Não haveria ligações químicas. Não haveria moléculas, nem reações químicas, nem sólidos ou líquidos. Só haveria fluidos semelhantes a gases. A vida seria impossível. Nós não existiríamos. Na verdade, as consequências vão além disso, pois até os núcleos atômicos teriam propriedades tais que toda a matéria do Universo tenderia a colapsar gerando buracos negros. Mesmo que não houvesse o colapso, não haveria estrelas.

Mas o que exatamente isso tem a ver com ontologia? Nossa intuição sobre o assunto molda-se em um ambiente no qual não existem dois objetos exatamente iguais. Cada objeto (no sentido mais amplo da palavra, que inclui pessoas) tem sua identidade e pode ser distinguido dos demais. Nossa intuição ontológica e a filosofia que desenvolvemos a partir dela baseia-se nisso. No mundo microscópio, a partir de certo nível, a situação se inverte. Por exemplo, férmions (ex.: elétrons) só respeitam o princípio da exclusão se forem absolutamente indistinguíveis. Isso é mais profundo do que parece. Para que o “princípio” da exclusão funcione, não pode haver qualquer diferença, conhecida ou desconhecida, entre dois elétrons, dois prótons, e assim por diante. Mais do que isso, é preciso ser impossível até rotular dois elétrons para se dizer qual é o elétron 1 e qual é o elétron 2. Isso necessariamente é impossível. Eles precisam ser indistinguíveis no nível ontológico. Se houver qualquer maneira de atribuir-lhes alguma individualidade, a Química deixa de existir, levando-nos com ela.

A indistinguibilidade de férmions tem consequências fundamentais para a existência de tudo o que a humanidade conhece e experimenta. Mas bósons também são indistinguíveis de outros do mesmo tipo. Isso é uma característica geral da realidade física. É como se não existissem muitos elétrons, mas muitas cópias do mesmo elétron, cópias que não podem sequer ser rotuladas por serem ontologicamente idênticas. Se uma cópia pudesse ser identificada e distinguida das demais, não estaríamos aqui.

Isso tem consequências para o que é composto dessas partículas (ex.: matéria). Dois átomos de um mesmo tipo (ex.: C-12) que estiverem no mesmo estado nuclear e eletrônico são absolutamente indistinguíveis.

Mas, então, como é possível haver objetos diferentes, distinguíveis? Estados podem ser identificados. Estados são informação. Informação permite ontologia física. Duas moléculas exatamente com a mesma composição, mas em estados diferentes são distinguíveis. Estados podem ser transferidos de um material para outro. Isso equivale a teletransporte, já que a ontologia está nos estados. Não são as partículas que nos compõem que nos conferem identidade. Nossa identidade compõe-se de informação, não de matéria.

São as propriedades e os estados dos sistemas físicos que lhes conferem identidade, que os tornam acessíveis a considerações ontológicas.

Nosso objetivo aqui foi o de dar um vislumbre sobre o tipo de coisas que encontramos no estudo da realidade física que nos forçam a repensar o que aprendemos em Filosofia e a utilizar novos conceitos ou a redefinir os antigos.

Propriedades, características, possuem, no mínimo, tanto direito a ser chamadas de entidades quanto partículas ou coisas compostas por elas. Isso inclui o tempo, que é uma propriedade do espaço-tempo, que é o “tecido” do qual o Universo é feito. As leis físicas também possuem existência bem real e são elas que permitem a existência de outras ontologias. Merecem ser chamadas de entidades, embora não sejam seres conscientes, mas apenas padrões matemáticos que permitem que tudo exista e funcione.

Deus é a entidade coerente máxima, o que Lhe confere não apenas consciência em um nível inatingível para seres finitos (onisciência), mas uma infinidade de outras características que sequer podemos imaginar, muitas das quais temos aprendido a estudar graças à enxurrada de conhecimentos específicos sobre o Criador proporcionados pela natureza, depois de destrancarmos a porta com a chave provida pela Bíblia, chave essa chamada Ciência formal (matemática). A onisciência divina é de tal natureza que dispensa o tempo de tal maneira que implica em que Ele tenha características de um Ser Pessoal. Uma familiarização com teoremas ontológicos e suas consequências torna isso até intuitivo. Contudo, precisamos ter em mente que a intuição não é um guia seguro fora dos domínios do cotidiano, o que nos força a depender muito mais da Matemática, que se tem demonstrado sempre confiável. Seres finitos não poderiam ter essa propriedade independentemente do tempo, pois dependem de processos mentais ao longo do tempo para ter consciência. Mas isso abre outra longa questão cuja complexidade técnica exige ainda mais esforço didático do que o que acabamos de apresentar.

(Eduardo Lütz é astrofísico e engenheiro de software)

domingo, abril 22, 2018

Verdade: Isso existe? Isso importa?

Este é o meu post inaugural no blog www.criacionismo.com.br. É uma grande honra e também uma grande alegria contribuir neste projeto com meu amigo, o jornalista Michelson Borges, sem dúvida um dos maiores vultos do criacionismo no Brasil, bem como com tantas figuras que têm feito esforços sobre-humanos para levar uma visão alternativa, sóbria, racional e científica do criacionismo para o público brasileiro. Dedico com carinho o meu melhor a todos esses nobres bastiões da ciência bíblica e também a você, leitor, a quem eu tributo todo o meu respeito e os melhores votos de que você encontre as respostas que procura.

Há cerca de dez anos eu criei um blog chamado Em Defesa da Verdade. Naquela época, ainda muito jovem e idealista, me angustiava e mesmo me irritava a quantidade desmedida de desinformação que circulava nos meios acadêmicos e autointitulados cultos a respeito de criação, Bíblia, religião e mesmo ciência. Como todo apaixonado jovem, decidi que faria o possível para ajudar a criticar as incoerências e falsidades que se espalhavam na velocidade do transístor pela sempre exponencialmente crescente internet. Dez outonos depois, posso dizer que meu objetivo continua sendo o mesmo, todavia com uma visão - espero - mais sóbria e menos iludida a respeito da natureza humana. Concluí, nesse período, que, infelizmente, o erro não se espalha tanto por falta de verdade mas, principalmente, pela indisposição de nós, humanos, desejarmos e aceitarmos uma verdade impopular, e desagradável a um coração corrupto.

"Por isso o direito se tornou atrás, e a justiça se pôs de longe; porque a verdade anda tropeçando pelas ruas, e a equidade não pode entrar" (Isaías 59:14). 

Em tempos de relativismo moral, pergunto: Faz sentido acreditar em uma Verdade? Se sim, como saber o que é a Verdade ou onde encontrá-la? Não estariam certos os que dizem que não existe verdade absoluta? Que a verdade é mutável e dependente da cultura (contexto)? Que cada sociedade constrói o coNjunto de valores morais que forma a ética de um povo?

É sobre esSe assunto e alguns outros que discutiremos no futuro. Por ora, deixe-me apenas estressar uma máxima que de tão expressa já se tornou um clichê: "Tudo é relativo."

Não vou perguntar se você já ouviu esSa expressão, pois já sei a resposta. Vamos apenas refletir rapidamente na lógica desse axioma. Se tudo é relativo, essa asserção também deve ser relativa; e se essa declaração é relativa, então, ao menos em algum momento, nem tudo é relativo. Ou seja, existiria uma verdade absoluta. É um exercício despretensioso, apenas para pensarmos a respeito do que ouvimos todos os dias.

Qual é o ponto? Bem, minha experiência tem me mostrado que os relativistas geralmente usam o argumento do relativismo moral a seu favor, mas quando seus interesses entram em jogo, as atitudes e as posturas se tornam contrárias ao discurso. Vou dar um exemplo: se você encontrar alguém de um grupo que julgo ser 90% dentro do rol de pessoas cultas de hoje em dia e você disser a ela que segue uma religião, ela vai dizer a você: "Que bom! Faz bem a você? Siga o caminho." Mas quando você diz que ela precisa contar às outras pessoas sobre sua fé, e o que você sabe, e que as pessoas precisam mudar o rumo de suas vidas para terem esperança, essa pessoa vai lhe acusar de fundamentalismo ou fanatismo (que são praticamente a mesma coisa em termos práticos hoje em dia).

Em termos: você pode dizer que tem uma fé. É bonito, politicamente correto aceitar e tolerar a fé das pessoas, desde que esta seja apenas um fenômeno cultural, emocional e social humano. Imagine-se chegando a uma tribo isolada de uma ilha perdida da Oceania e vendo os nativos praticando rituais religiosos peculiares da sua cultura. "Que bonitinho." "Interessante." Pode até sair disso alguma seita para o lado B da nossa sociedade ocidental. Algum amuleto dessa tribo pode aparecer no pescoço de alguma magérrima em alguma catwalk em Paris. Todavia, essa fé, se corajosa o suficiente para crer que deve ser transmitida, precisa se submeter à grande e indiscutível verdade da ausência de verdade, da submissão ao status quo. À verdade de que a sociedade contemporânea, com sua imprensa, seus cientistas, filósofos deve ditar quem você é e como você deve pensar.

É lógico que o conhecimento científico é uma grande bênção, e temos muitas coisas boas em nosso mundo. Meu ponto aqui não é atacar a sociedade, mas desmistificar a ideia de que esta é coerente. De que o paradigma atual de pensamento é uma evolução dos predecessores. De que nós realmente somos livres para pensar o que quisermos no ambiente cultural contemporâneo.

Embarque comigo nessa jornada! Vamos falar de ciência, de razão, de fé e de comportamento. Conto com você nessa caminhada. Grande abraço e lembre-se: "Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará" (João 8:32).

Alexsander Silva
Por isso o direito se tornou atrás, e a justiça se pôs de longe; porque a verdade anda tropeçando pelas ruas, e a eqüidade não pode entrar.

Isaías 59:14
Por isso o direito se tornou atrás, e a justiça se pôs de longe; porque a verdade anda tropeçando pelas ruas, e a eqüidade não pode entrar.

Isaías 59:14

terça-feira, dezembro 12, 2017

Axiomas podem ser falsos?

A palavra “axioma” tem sido usada com diferentes significados, dependendo da área do conhecimento e da época. Em Filosofia, tipicamente define-se axioma como sendo uma verdade autoevidente ou variantes desse conceito, como algo tão fundamental que não pode ser demonstrado logicamente. Em culturas antigas, uma conceituação semelhante também era usada em Matemática, embora essa área não fosse tratada com o rigor que utilizamos hoje, mas na forma de receitas (algoritmos) para resolver problemas práticos. Essas receitas partiam de certos pressupostos aproximados e descreviam uma série de passos para calcular algo. Euclides resumiu conhecimentos de geometria na forma de alguns princípios, os famosos axiomas da Geometria Euclidiana.

Nos últimos séculos, com o conhecimento matemático, descobriram-se maneiras poderosas e confiáveis de estudar Matemática de maneira a transcender a capacidade do raciocínio humano desarmado. E a forma encontrada de tratar axiomas e teoremas é muito importante nesse cenário.

De um lado, temos a forma organizada e sistemática de entender coisas filosoficamente, forma essa sujeita às limitações da capacidade mental humana. Podemos comparar isso à nossa capacidade de andar a pé, correr, pular, escalar montanhas, nadar, mergulhar. Coisas que podemos fazer com nossas habilidades físicas.

Do outro lado, temos uma forma especial de lidar com elementos da Matemática de maneira a refletir de perto suas respectivas propriedades definitórias na própria linguagem usada para descrevê-los. Á primeira vista, isso consiste apenas em usar uma particular abordagem do leque da Filosofia e aplicá-la a uma área bastante específica e restrita, que seria a Matemática. Ao nos aprofundarmos nessa linha, entretanto, descobrimos que essa aparente restrição corresponde, na verdade, a uma tremenda amplificação do que podemos fazer e conhecer de tal maneira a podermos transcender facilmente os limites que temos em qualquer abordagem filosófica. É como passarmos a ter acesso a veículos automotores que nos permitem andar muito mais rápido por terra, água, ar e espaço sideral. Isso inclui o que podemos fazer filosoficamente, mas vai muito além dessas possibilidades.

Nesse caminho de descobertas transcendentes proporcionado pela descoberta da Ciência como sendo um conjunto infinito de métodos matemáticos (conforme proposto por pioneiros como Galileu), descobrimos que alguns conceitos filosóficos utilizados por milênios eram equivocados e que outros baseavam-se em definições ineficientes ou enganosas.

Um dos conceitos que, no âmbito matemático, demonstra-se tanto ineficiente quanto enganoso é a versão filosófica usual de axioma como se fosse uma verdade autoevidente. Quem trabalha com estruturas algébricas e está acostumado a definir entidades matemáticas e demonstrar teoremas não deverá ter grandes dificuldades de perceber que axiomas são apenas itens de definições. Mesmo nos casos em que se poderia abusar da linguagem e considerar um axioma como uma verdade fundamental, ainda assim trata-se de um item de uma definição. Procuraremos esclarecer essa questão por meio de um exemplo que ilustra como lidamos com essas coisas em Matemática.

Definamos o conjunto dos brasileiros como sendo o conjunto das pessoas que satisfazem os seguintes axiomas:

1. Possui cidadania brasileira.
2. É do sexo masculino.

Definamos também o conjunto das brasileiras como sendo o conjunto das pessoas que satisfazem aos seguintes axiomas:

1. Possui cidadania brasileira.
2. É do sexo feminino.

Podemos criar definições semelhantes para argentinas e argentinos.

Em estudos rigorosos de Matemática, axiomas são sempre utilizados da forma como ilustramos acima. Feitas as definições, utilizam-se os axiomas correspondentes para provar teoremas sobre o que foi definido. Os axiomas podem ser usados sem medo de que estejam errados, não por serem verdades fundamentais, mas por se aplicarem por definição ao que foi definido por eles.

Faz algum sentido dizer que a afirmação “é do sexo feminino” é uma verdade autoevidente, fundamental e universal? Deveria ser óbvio que não. Os membros do conjunto dos brasileiros não satisfazem esse axioma. O axioma é verdadeiro para brasileiras e argentinas, mas é falso para brasileiros e argentinos. Uma lição disso é que um mesmo axioma pode ser verdadeiro em um contexto e falso em outro.

Além de axiomas possuírem “região de validade” limitada, existe outro fenômeno importante: uma mesma afirmação que é um axioma em uma definição pode ser um teorema (algo que pode ser provado) em outra. Isso é verdade também para postulados e princípios na pesquisa científica. Um exemplo disso é o famoso princípio da exclusão de Pauli: duas partículas não podem ocupar o mesmo estado quântico ao mesmo tempo. Isso é fundamental para que a Química exista. Mas Pauli tomou isso como ponto de partida em um de seus estudos. Mais tarde, com um melhor entendimento sobre a origem das leis do mundo quântico, passou a ser possível deduzir esse “princípio” a partir de coisas muito mais fundamentais. Hoje, a afirmação de Pauli deveria ser considerada um teorema aplicável a férmions (mas não a bósons).

Em função da forma diferente de usar palavras técnicas, é comum que filósofos interpretem de forma inadequada descobertas na Matemática e na Física, frequentemente atribuindo-lhes limitações que elas não possuem e perdendo de vista os limites reais tanto da sua conclusão quanto da descoberta em si.

De vez em quando também lemos ou ouvimos afirmações fortes como “é impossível provar isso ou aquilo”, ou “não é possível saber sobre isso ou aquilo”, sendo que as respectivas limitações são válidas no âmbito da Filosofia, mas de forma alguma refletem limitações de métodos matemáticos. Um dos detalhes interessantes desses eventos é que frequentemente há pessoas que apresentam exemplos de coisas impossíveis de se conhecer ou provar, sendo que os exemplos apresentados são de coisas bem conhecidas e muitas vezes já provadas, embora o conhecimento do assunto não tenha chegado a essas pessoas.

Com base em uma cosmovisão que precisa de alguns ajustes, pessoas fazem afirmações categóricas que negam fatos conhecidos em meios que fogem ao seu conhecimento.

(Eduardo Lütz é físico e engenheiro de software)