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segunda-feira, abril 24, 2023

O elo perdido, segundo Frei Betto

[Meus comentários seguem entre colchetes. – MB] Há tempos a ci­ência in­ves­tiga o elo per­dido entre o ma­caco e o homem. Já há con­senso de que Darwin tinha razão [sic]. Até o papa João Paulo II, que não era de dar o braço a torcer, ad­mitiu a per­ti­nência do darwi­nismo [sim os últimos papas deixaram clara sua visão evoteísta, que tenta misturar Bíblia com darwinismo]. O que obrigou os bispos da Ar­gen­tina, adeptos fun­da­men­ta­listas [sic] do cri­a­ci­o­nismo, a sus­pender, nas es­colas ca­tó­licas, o en­sino de que entre Deus e nós não houve outros in­ter­me­diários senão Adão e Eva.

Os cri­a­ci­o­nistas não podem ir além da ideia de um deus oleiro que, tendo brin­cado com ar­gila e so­prado o barro, deu vida às maquetes hu­manas [lamentável ver um frei usar linguagem irônica ao se referir ao relato histórico e factual da criação conforme registrado por Moisés em Gênesis]. Se dessem um passo a mais na ge­ne­a­logia do pri­meiro casal fi­ca­riam en­ca­la­crados. Se Adão e Eva ti­veram apenas fi­lhos machos, Caim, Abel e Seth, como se ex­plica essa vasta des­cen­dência da qual fa­zemos parte? Se­ríamos todos fi­lhos e filhas de um pa­ra­di­síaco in­cesto? [“Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete.
Depois que gerou Sete, Adão viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas” (Gênesis 5:3, 4). Que falta faz ler a Bíblia levando-a a sério.]

Como os an­tigos he­breus não frequen­taram a uni­ver­si­dade e, por­tanto, es­tavam isentos da lin­guagem aca­dê­mica, abs­trata, em toda a Bí­blia não há uma só aula de dou­trina ou te­o­logia [quanta prepotência!]. Sua lin­guagem é a do mi­neiro, à base de “causos”. Vê-se o que se lê. A lin­guagem figurativa, própria dos povos semitas, trans­forma con­ceitos em ima­gens. O vo­cá­bulo he­braico “terra” deu origem a Adão [sim, pois ele foi formado dos mesmos constituintes químicos do solo], e “vida” a Eva [claro, pois é da mulher que provém a vida], numa configuração plástica da noção de que Deus criou o mundo e a humanidade. O curioso é que o autor bíblico sugere que a vida veio da terra, o que só foi constatado pela ciência no século 19, quando foram descobertas as leis da evolução do Universo.

A Bí­blia quer en­sinar apenas que Deus é o cri­ador do Uni­verso, in­cluídos os hu­manos que, em­bora obra di­vina, pa­decem de duas li­mi­tações in­trans­po­ní­veis: têm prazo de va­li­dade e de­feito de fa­bri­cação [se levasse a Bíblia a sério, entenderei o que explica o capítulo 3 de Gênesis: que a morte e os “defeitos” não fazem parte da criação original de Deus, mas são resultado temporário da entrada do pecado no mundo]. O que a dou­trina cristã chama de pe­cado ori­ginal [se não há doutrinas na Bíblia, como escreveu Betto, então elas foram todas inventadas pelos cristãos?].

Isto é óbvio: todos morrem um dia, mal­grado as aca­de­mias de le­tras re­pletas de imor­tais, e não são poucos os que de­mons­tram grandes de­feitos de fa­bri­cação – ao longo da vida tornam-se cor­ruptos, men­ti­rosos, criminosos, opor­tu­nistas, se­gre­ga­dores, ma­chistas, homofóbicos, cí­nicos. Em suma, ho­mens sem qua­li­dade, diria Musil. E muitos com uma cu­riosa ten­dência para a po­lí­tica [adepto da teologia da libertação há muitos anos, o frei não perderia a oportunidade de politizar o assunto...].

Quando teria se dado o salto do símio ao hu­mano? No dia em que um ma­caco uti­lizou um pe­daço de pau como ex­tensão das mãos, como mostra Stanley Ku­brick, no filme “2001, uma odis­seia no es­paço”? [curiosamente, o relato bíblico da criação é mitológico, alegórico, mas no filme é “mostrada” e evolução humana... Cada um escolhe as fontes nas quais acreditar.] Ou no dia em que o oran­go­tango de­cidiu, ao con­trário de toda a fa­mília zo­o­ló­gica, deixar de comer quando tem fome e marcar hora para as re­fei­ções? Teria sido na­quela tarde de sá­bado em que o ma­caco tem­perou a caça com pi­menta e assou na brasa que res­tara de uma quei­mada pro­du­zida pelo re­lâm­pago, sem saber que in­ven­tava o chur­rasco? [Isso não é história pra macaco dormir; o texto bíblico, esse sim, é!]

Um ver­da­deiro hu­mano seria uma pessoa do­tada de cri­a­ti­vi­dade. Quem já viu uma casa de joão-de-barro com uma va­ran­dinha ou um pu­xa­dinho para abrigar o filho recém-casado? [Pois é. Quais foram as mutações aleatórias filtradas pela seleção natural lenta e gradual que “ensinaram” o joão-de-barro e tantos outros animais a serem tão engenhosos, dependentes de instintos que deveriam funcionar bem desde o princípio?] Ocorre que a cri­a­ti­vi­dade é também um atri­buto dos ban­didos. Talvez seja me­lhor ca­rac­te­rizar o hu­mano por suas vir­tudes: uma pessoa ge­ne­rosa, al­truísta, ética, so­li­dária, amo­rosa, capaz de par­ti­lhar seus bens e dons. Isso existe? [E se existe, quando foi que a evolução nos dotou de tais atributos antievolutivos, que contrariam a “sobrevivência do mais forte”?]

Se es­ti­vermos de acordo que isso ainda é um pro­jeto, uma pers­pec­tiva, um sonho, então há que aceitar: o elo per­dido entre o ma­caco e o homem somos nós, essa ca­deia de ma­mí­feros que co­meça com a cu­ri­o­si­dade de Adão e Eva, que foram meter o nariz onde não eram cha­mados, à ge­ração atual con­tem­po­rânea de Biden e Putin! Aliás, dois bons exem­plos da es­pécie pré-hu­mana que tem o rabo preso; onde mete os pés cria uma bana­nosa e vive in­va­dindo o es­paço alheio. [Aí tenho que concordar com Betto: Biden e Putin (e Xi Jinping, também) são “bons” exemplos da decadência da humanidade, em sua sanha conquistadora, repressora, destrutiva, capitalista, gramcista, secularista, deturpadora de valores bíblicos, etc., etc.]

Nós somos o elo que an­dava per­dido. No en­tanto, ele sempre es­teve na nossa frente. Basta-nos mirar no es­pelho. O ver­da­dei­ra­mente hu­mano é ainda um projeto de fu­turo. Caso con­trário, o pró­prio elo ha­verá de se romper e o pro­jeto hu­mano que­dará como uma utopia. Talvez re­a­li­zável em algum outro planeta onde haja abun­dância disto que tanto falta por aqui: vida in­te­li­gente. [Esta é a visão típica dos religiosos marxistas da teologia da libertação: não há esperança real para a humanidade; tudo se trata de utopia irrealizável; os cristão bíblicos criacionistas creem que Deus resolverá o problema; creem que Jesus voltará e um dia recriará a Terra, devolvendo-a à sua condição edênica. Mas como crer nisso, quando se pensa que o “pecado original” não existiu de fato (pelo menos não como relata a Bíblia em Gênesis 3), e que, portanto, Jesus não veio para saldar a dívida humana e redimir a humanidade, mas veio para morrer como um mero mártir revolucionário? Como crer nisso, se a segunda vinda de Cristo sequer é tida como uma doutrina e uma promessa Bíblica?]

Ou quem sabe o Cri­ador de­cida passar a limpo sua cri­ação pela se­gunda vez. Du­vido que vá des­truí-la com um novo di­lúvio. A água é, hoje, um bem es­casso. Deus é ge­ne­roso, não per­du­lário. Talvez o aque­ci­mento global seja o pri­meiro in­dício de que tudo ha­verá de virar cinza. Ou, quem sabe, nós mesmos apressaremos o apocalipse desencadeando uma guerra nuclear. Então um novo Gê­nesis terá início. [Como? De que forma? Destruiremos o mundo para que possa haver uma nova suposta evolução? Deus deixará as coisas chegarem a esse ponto, assistindo a tudo de braços cruzados?]

Des­confio que, no sexto dia, Deus criará ani­mais inaptos a de­sen­volver uma ca­deia evo­lu­tiva. E, no sé­timo, se re­cos­tará em sua rede no Jardim do Éden, porque nin­guém é de ferro, e con­tem­plará a be­leza do Uni­verso – agora livre da ameaça de um pe­ri­goso pre­dador descendente dos ma­cacos, o elo entre o que já não é e o que nunca foi. [Lamento muito que um frei, um religioso mantenha esse tipo de ponto de vista melancólico e o ensine por aí; mas chego a entendê-lo, pois, antes de me tornar criacionista, sustentei visão semelhante e desprovida de esperança. Mas os iluminados são eles e os “fundamentalistas” de mente estreita somos nós. Sim, uma pena.]

(Instituto Humanitas Unisinos)





terça-feira, outubro 20, 2020

Pesquisa: vida “começou” com animais parecidos com os atuais


Acredita-se que a vida se originou na Terra há cerca de 3,5 bilhões de anos [segundo a cronologia evolucionista]. Porém, como exatamente ela era, é difícil ter certeza. Acredita-se que seres unicelulares, como as bactérias, foram os primeiros habitantes vivos do planeta. Isso mostraria que a vida primitiva era muito diferente da atual. Agora, uma nova pesquisa liderada pelo geneticista evolucionista Momir Futo e publicada na Molecular Biology and Evolution mostrou que pode haver mais semelhanças do que o imaginado.

 Sabe-se que as bactérias se unem e criam uma casa comunitária protetora, formando colônias conhecidas como biofilmes, que fazem com que os organismos fiquem mais fortes. Isso porque, na segurança dessas estruturas, podem resistir melhor às mudanças climáticas, comunicar-se e até compartilhar uma espécie de memória coletiva. Agora, Futo e sua equipe descobriram que esses biofilmes também se desenvolvem como um organismo multicelular. Isso inclui divisão de trabalho, morte celular programada e autorreconhecimento.

 No laboratório, os pesquisadores investigaram o Bacillus subtilis em forma de bastonete, comumente encontrado no solo, em vacas e até nos humanos. A equipe estabeleceu uma linha do tempo de expressão genética do biofilme conforme ele se desenvolvia, começando com algumas células iniciais até dois meses de idade. Além disso, os cientistas compararam os produtos dos genes com os de outras bactérias da sua árvore genealógica, mapeando os relacionamentos evolutivos.

 “Surpreendentemente, descobrimos que os genes evolutivos mais jovens foram cada vez mais expressos em relação aos pontos temporais posteriores do crescimento do biofilme”, explicou Tomislav Domazet-Lošo, da Universidade Católica da Croácia. A ordem da expressão gênica durante o crescimento da estrutura reflete o tempo de evolução [sic] desses genes. O mecanismo é semelhante ao que embriões animais em desenvolvimento possuem.

 Esta, porém, não é a única maneira em que os biofilmes se assemelham aos embriões animais. Há também a organização passo a passo da expressão gênica. Ela representa um aumento na comunicação entre as células durante o desenvolvimento, o que, no caso dos biofilmes, coincide com o aparecimento de rugas 3D. “Isso significa que as bactérias são verdadeiros organismos multicelulares como nós”, destacou Domazet-Lošo. “Considerando que os fósseis mais antigos conhecidos são biofilmes bacterianos, é bem provável que a primeira vida também fosse multicelular, e não uma criatura unicelular como considerado até agora”, finalizou.

 Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores utilizaram um novo método, conhecido como filoestratigrafia, e ainda há certa dúvida sobre sua confiabilidade. Além disso, a equipe afirma que os resultados são limitados a biofilmes de uma única espécie e em condições laboratoriais. Apesar disso, os pesquisadores concluíram que “é indiscutível que a célula é a unidade básica da vida; no entanto, isso não implica prontamente que a primeira vida foi estritamente unicelular”.

 (Olhar Digital)

 Nota: Quanto mais o tempo avança e mais pesquisas são feitas, mais se percebe que a vida “começou” com toda a complexidade conhecida hoje e necessária desde sempre. A hipótese do “surgimento” da vida a partir da não vida, de maneira rudimentar e aleatória, vai sofrendo golpe após golpe, e fortalecendo a ficção científica chamada “panspermia cósmica” (ato de jogar a “batata quente” para fora). [MB]

O paper original (open access) pode ser baixado aqui.

Assista ao vídeo "Panspermia cósmica: o retorno"

sexta-feira, setembro 04, 2020

A falsa marcha do progresso


O Instagram da revista Galileu publicou a seguinte nota: “Publicada pela primeira vez em 1965, não é exagero dizer que a ‘Marcha do Progresso’, que você vê acima, é uma das representações mais mal-interpretadas de todos os tempos. Muito disso se dá por concepções equivocadas sobre a teoria da evolução desenvolvida pelo biólogo britânico Charles Darwin. É comum vermos a imagem sendo utilizada para ilustrar a ‘transformação’ do macaco em humano, passando a ideia de que há uma hierarquia entre os seres vivos na qual alguns organismos são ‘simples’ e outros, ‘sofisticados’. O desenho também dá a impressão de que entre o surgimento de uma espécie e outra há um salto evolutivo drástico, ou seja, não há intermediários entre elas. O principal motivo por trás dessa leitura equivocada é a má compreensão da teoria da evolução de Darwin.”

Quando li “biólogo britânico Charles Darwin”, tive vontade de nem prosseguir na leitura. Darwin nunca foi biólogo. Os primeiros cursos de Biologia foram criados bem depois da morte do naturalista que estudou Teologia. Mas resolvi fazer um esforço e ler o restante.  

O objetivo da nota é mostrar que a imagem (ridícula por si só) não refletiria a “realidade” de que existiriam elos transicionais entre as espécias e não “saltos evolutivos”. Mas o que nos mostra o registro fóssil? Exatamente: saltos evolutivos.

De qualquer forma, grosso modo, a imagem expressa, sim, a filosofia subjacente ao modelo darwinista. Ou seja: está errada de qualquer forma.

Michelson Borges

quarta-feira, junho 03, 2020

Darwinismo social e racismo

"O darwinismo social tem origem na teoria da seleção natural de Charles Darwin, que explica a diversidade de espécies de seres vivos através do processo da evolução. O sucesso da teoria da evolução motivou o surgimento de correntes nas ciências sociais baseadas na tese da sobrevivência do mais adaptado, da importância de um controle sobre a demografia humana. De acordo com esse pensamento, existiriam características biológicas e sociais que determinariam que uma pessoa é superior à outra e que as pessoas que se enquadrassem nesses critérios seriam as mais aptas. Geralmente, alguns padrões determinados como indícios de superioridade em um ser humano seriam a habilidade nas ciências humanas e exatas em detrimento das outras ciências, como a arte, por exemplo, e a raça da qual ela faz parte" (Wells, D. Collin. 1907. "Darwinismo social". American Journal of Sociology, v. 12, n° 5, p. 695-716).

"O darwinismo social foi empregado para tentar explicar a inconstância pós-Revolução Industrial, sugerindo que os que estavam pobres eram os menos aptos (segundo interpretação da época da teoria de Darwin) e os mais ricos que evoluíram economicamente seriam os mais aptos a sobreviver, por isso, os mais evoluídos. Durante o século 19, as potências europeias também usaram o darwinismo social como justificativa para o imperialismo" (Spencer, Herbert. 1860. "O organismo social", publicado originalmente em The Review Westminster. Reproduzido em (1892) de Spencer Ensaios: científico, político e especulativo. Londres e Nova York).



segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Evolucionistas são nazistas e creem que viemos do macaco?


Você sabia que Adolf Hitler era “fã” de Charles Darwin, e que usou a ideia de seleção natural para levar avante seus planos eugenistas? Quem afirma isso é a secretária pessoal do führer, Traudl Junge, no livro Até o Fim (Ediouro). A obra foi escrita com base nos diários de Traudl, cujo objetivo foi alertar as pessoas para o fato de que jamais pode ser subestimado o poder sedutor de líderes fanáticos. Na página 140, a autora registrou a filosofia de vida do ditador e o que ele pensava sobre religião: “[Hitler] não tinha qualquer ligação religiosa; achava que as religiões cristãs eram mecanismos hipócritas e ardilosos para apanhar incautos. Sua religião eram as leis da natureza. Conseguia subordinar seu violento dogma mais facilmente a elas do que aos ensinamentos cristãos de amor ao próximo e ao inimigo. ‘A ciência ainda não chegou a uma conclusão sobre a raiz que determina a espécie humana. Somos provavelmente o estágio mais desenvolvido de algum mamífero, que se desenvolveu do réptil a mamífero, talvez do macaco ao homem. Somos um membro da criação e filhos da natureza, e para nós valem as mesmas leis que para todos os seres vivos. Na natureza a lei da guerra vale desde o começo. Todo aquele que não consegue viver, e que é fraco, é exterminado. Só o ser humano e, principalmente, a igreja têm por objetivo manter vivos artificialmente o fraco, o que não tem condições de viver e aquele que não tem valor.”

Assim, fica claro que o conceito de luta e de sobrevivência do mais apto moldou o pensamento do genocida, servindo de justificativa “moral” para suas decisões e ações. Hitler se julgava apto a decidir quem tinha valor e quem não tinha. Ele quis dar uma “mãozinha” para a seleção natural eliminando logo aqueles que ele considerava inferiores, como os judeus, os negros e os homossexuais.

Segundo o ditador, “somos provavelmente o estágio mais desenvolvido de algum mamífero, que se desenvolveu do réptil a mamífero, talvez do macaco ao homem”. Portanto, podemos concluir que, assim como Hitler, os evolucionistas creem que o homem veio do macaco e, pior: creem que o nazismo está correto, que a religião não presta e que devemos exterminar os fracos.

Antes que você proteste veementemente (e com razão), deixe-me dizer-lhe que obviamente eu não concordo com a conclusão acima. Obviamente entendo que não se pode julgar o todo pela parte, e que não se podem tirar conclusões gerais com base no que um ou outro pense a respeito do assunto – mesmo que esse um ou outro seja uma figura histórica famosa.

Não, evolucionistas não são nazistas, e afirmar isso com base no que um evolucionista pensa seria leviandade e mesmo maldade da minha parte. Nem todos os evolucionistas abominam a religião, e evolucionistas bem informados jamais diriam que o homem veio do macaco. O que eles dizem é que seres humanos e macacos tiveram um ancestral comum (desconhecido, é verdade).

Então por que resolvi escrever este texto? Porque tem gente fazendo com os criacionistas exatamente o que eu poderia ter feito com os evolucionistas, se eu fosse um canalha (para dizer o pior) ou simplesmente mal informado (para dizer o mínimo).

Recentemente, o criacionismo vem ocupando espaço nos noticiários e tendo suas premissas totalmente distorcidas. Há repórteres levianamente associando o criacionismo com a ideia absurda da Terra plana e a defesa assassina da não vacinação. Existem criacionistas mal informados que defendem essas bandeiras? Sim, existem; assim como há evolucionistas que fazem o mesmo (aliás, o fundador da Flat Earth Society é evolucionista). Mas vamos julgar todos os criacionistas por causa daqueles? Se o fizéssemos, estaríamos cometendo o mesmo erro de chamar os evolucionistas de nazistas.

A Sociedade Criacionista Brasileira (SCB) já se manifestou a respeito do terraplanismo por meio de uma nota de repúdio (veja aqui). Por que repórteres e formadores de opinião não mencionam isso? Desconhecem o fato? Preferem convenientemente ignorá-lo? A SCB está há quase 50 anos atuando no Brasil. Tem site e CNPJ. É fácil chegar até ela. Em meus blogs e em minhas redes sociais tenho denunciado a irresponsabilidade dos antivacinas. Não conheço uma entidade criacionista ou divulgador sério do criacionismo que defenda essa insanidade criminosa. Então por que a associação? Para denegrir os criacionistas e blindar Darwin? Para embarcar na onda e lacrar?

Uma das charges mais infelizes sobre esse assunto foi publicada no jornal gaúcho Zero Hora:



De um lado da ilustração há a tal associação de conceitos superficial e tendenciosa por meio de personagens caricatos; do outro está um senhor de jaleco branco (representante da ciência) acompanhado de uma moça e da frase “a burrice é ousada”. Sim, é mesmo ousada, e às vezes injusta.

Evolucionistas não são nazistas, tanto quanto criacionistas não são terraplanistas nem fixistas inimigos do bom conhecimento. Os pioneiros da ciência, como Isaac Newton, Galileu Galilei, Blaise Pascal e outros, criam na literalidade de Gênesis, mas nem por isso deixaram de legar à humanidade um patrimônio científico gigantesco. 

O assunto é mais sério e profundo do que a maioria pensa, e vem sendo tratado de maneira superficial, enviesada e politizada por pessoas que não têm compromisso com a verdade. Por causa disso, estamos assistindo à criação de novos campos de concentração ideológicos para os ditos fundamentalistas retrógrados, e a uma nova matança  de carreiras e reputações.

Michelson Borges 

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

Fundador da Sociedade Criacionista Brasileira foi diretor da Fapesp


Com a indicação do criacionista e defensor da Teoria do Design Inteligente Benedito Guimarães de Aguiar Neto para a direção da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), grande polêmica foi criada nos meios de comunicação brasileiros e até do exterior. Benedito é engenheiro eletricista (1977) e mestre em engenharia (1982) pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Cursou o doutorado (1987) na Technische Universität Berlin, na Alemanha, e o pós-doutorado (2008) na University of Washington, nos Estados Unidos; além disso, foi reitor da prestigiada Universidade Mackenzie, de São Paulo. Mesmo com esse currículo respeitável e com uma carteira de grandes contribuições para o avanço do conhecimento e da cultura, ele está sendo alvo de críticas injustas e precipitadas. Por quê? Porque em lugar de pensar que a vida teria contrariado os fatos e surgido por acaso, Benedito acredita que vida proveio de vida, ou seja, um Criador a trouxe à existência. E isso foi suficiente para a “geração espontânea” de várias notas de repúdio.

Neste momento de ânimos alterados, é bom lembrar que alguns anos atrás outro criacionista dirigiu uma agência de fomento à pesquisa, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Veja o que diz o site da instituição:

“Natural de São Carlos, interior paulista, Ruy Carlos de Camargo Vieira (1930-) é engenheiro mecânico e eletricista formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) em 1953. Trabalhou dois anos no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) antes de ingressar como professor da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP. Participou da criação do Centro de Recursos Hídricos e Ecologia Aplicada da EESC. Em 1972, Vieira mudou-se para Brasília para integrar a Comissão de Especialistas em Ensino de Engenharia do Departamento de Assuntos Universitários do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que acompanha e avalia as escolas de engenharia. Durante sua gestão como diretor científico na Fapesp, avançaram os projetos especiais como o RADARSP II e a implantação de biotérios nas universidades públicas. Foi também a época da implantação da Emenda Leça [que assegurou a regularidade do repasse dos recursos para a Fapesp e para os pesquisadores e estudantes com projetos ou bolsas aprovados]. Autor de livros e artigos sobre ciência e religiosidade, Vieira foi um dos fundadores da Sociedade Criacionista Brasileira, em 1972.”

Note que o site até menciona o fato de o Dr. Ruy ter sido um dos fundadores da SCB, o que de forma alguma desmerece todas as conquistas dele à frente da instituição.

O Dr. Ruy Vieira também representou o MEC no Conselho da Agência Espacial Brasileira e foi membro do Conselho Federal de Educação, entre outras muitas atribuições. Ou seja, um homem competente, culto, dedicado, humilde (e posso atestar tudo isso, pois tenho o privilégio de conhecê-lo pessoalmente) e que deixou um rastro de boas realizações por onde passou. É o que se espera do Dr. Benedito, independentemente de suas crenças e idiossincrasias.

Num Estado laico, qualquer pessoa, independentemente de sua fé ou da falta dela, tem direito de exercer sua cidadania e servir ao País, desde que tenha competência para ocupar o cargo específico para a qual foi chamada. Que o tempo e as realizações falem por si mesmos.

Michelson Borges




Há biólogos evolucionistas céticos quanto à Teoria Sintética


“Desde a Síntese Evolutiva das décadas de 1930 e 1940, alguns biólogos expressaram dúvidas de que a Teoria Sintética [a versão neodarwiniana predominante da evolução], baseada principalmente em mutações, variações genéticas e seleção natural, explique adequadamente a macroevolução ou evolução acima do nível da espécie” (Futuyma, D. J., “Can modern evolutionary theory explain macroevolution?”, in: Serrelli, E. and Gontier, N. [Eds.], Macroevolution:Explanation, Interpretation And Evidence, Springer International Publishing, Berlin, p. 29-85, 2015; via Desafiando a Nomenklatura Científica).

terça-feira, novembro 05, 2019

Uma pregação desesperada em favor da evolução

Evolução é um fato? É um dos melhores exemplos de boa ciência que temos à nossa disposição? Quando li a reportagem abaixo, tive uma forte reação que mesclou revolta e indignação. Passado algum tempo de digestão, resolvi escrever um comentário crítico sobre algumas das distorções que a mídia pseudocientífica se esforça para apregoar como ciência, mas que é, na verdade, uma cruzada darwinista que tenta impôr com veemência a teoria do naturalista inglês Darwin como um fato científico indiscutível. Vamos a ela [meus comentários estão destacados entre colchetes]:

Como nós sabemos que a evolução está de fato acontecendo?

Fonte: BBCpor Chris Baraunik

A evolução é uma das grandes teorias em toda a ciência [penso ser difícil dizer isso sem alto grau de subjetividade, assim como acho difícil comparar a TE com a gravitação universal ou o modelo atômico de Bohr]. Ela explica a vida: especificamente, como a primeira forma de vida gerou toda a gigantesca diversidade que nós vemos hoje, das bactérias até aos carvalhos e às baleias azuis [na realidade uma das grandes fragilidades da teoria da evolução é a ausência completa de explicação para o surgimento da primeira célula viva, haja vista a complexidade irredutível da mais simples forma de vida concebível e das condições contraditórias e mutuamente excludentes do ambiente para que isso ocorresse de forma espontânea].

Para os cientistas, a evolução é um fato [quais cientistas? todos eles? quais as evidências? essa é uma afirmação baseada em estatística ou apenas uma bravata?]. Nós sabemos que a vida evoluiu com a mesma certeza de que sabemos que a Terra é aproximadamente esférica, que a gravidade nos mantém sobre ela, e que as vespas no piquenique são chatas [simplesmente ignoram as inúmeras evidências em contrário - vide os materiais disponíveis neste site. Um engodo de retórica também].

Não que você não saiba que a mídia, em alguns países, rebaixa-a a “apenas uma teoria”, ou a despacha como uma mentira [sugestivamente os países teocráticos e atrasados, quem sabe].

Por que os biólogos estão tão certos sobre isto [e os bioquímicos, químicos, físicos etc.? agora "todos os cientistas" reduziram-se apenas aos biólogos...]? Qual é a evidência? A resposta mais simples é a que existem tantas coisas que é difícil saber por onde começar [mais outra bravata sem muito fundamento, como veremos adiante]. Mas aqui está um resumo muito apressado da evidência de que a vida, de fato, evoluiu [sic - na verdade, o texto abaixo mostrará a fragilidade das "certezas" até agora declaradas].

Pode ajudar se primeiro se disser o que a teoria da evolução de Darwin diz de fato. A maior parte de nós tem a ideia geral: organismos mudam ao longo do tempo, apenas os aptos sobrevivem, e de alguma forma os macacos se tornaram em seres humanos.

A teoria da evolução de Darwin diz que cada novo organismo é sutilmente diferente dos seus pais, e estas diferenças podem, às vezes, ajudar a procriação ou a impedir. Como os organismos competem por comida e parceiros, os que possuem características avantajadas produzem mais prole, como aqueles com características desvantajosas podem não produzir nenhuma. Então, dentro de uma dada população, características vantajosas se tornam comuns e as desvantajosas desaparecem [estas características observadas por Darwin na reprodução dos tentilhões e dos cães, por exemplo, explicam variações dentro da espécie e, em nenhum momento, a teoria da evolução explica como informação complexa e útil poderia surgir por mutações nos seres vivos].

Dado tempo suficiente, estas mudanças se acumulam e levam ao aparecimento de novas espécies e novos tipos de organismo, uma pequena mudança de cada vez [novamente: como? como um ser simples poderia dar origem a um mais complexo, que possui mais informação genética e cujas mutações intermediárias não seriam úteis para produzir um órgão irredutivelmente complexo, por exemplo? Parece que todas essas dificuldades foram jogadas no chapéu mágico do "dado tempo suficiente"]. 

Passo a passo, vermes se tornaram peixes, peixes vieram para a terra e desenvolveram quatro patas, estes animais quadrúpedes produziram pelos e – eventualmente – alguns deles começaram a andar em duas patas, chamaram-se a si mesmos “humanos” e descobriram a evolução [o registro fóssil é surpreendentemente silente nessas transições imaginárias aqui descritas. Existem, sim, seres intrigantes como o ornitorrinco e os peixes blênios, mas esses animais continuam apresentando questões impeditivas para a sua origem evolutiva e que podem ser encaixadas com facilidade no modelo criacionista].

Isto pode ser difícil de se acreditar [é mesmo! aqui eu estou de completo acordo]. Uma coisa é constatar que você não é idêntico aos seus pais: talvez seu cabelo tenha uma cor diferente, ou você seja mais alto, ou tenha uma natureza mais alegre [e continuo sendo um humano, como eles]. Mas é muito mais difícil de se aceitar que você é descendente, por incontáveis gerações, de um verme.

Muitas pessoas certamente não aceitam isso. Mas esqueça todo o drama por um momento. Ao invés disso, comece onde Charles Darwin começou: na sua porta.

O livro de Darwin, Sobre a Origem das Espécies, publicado em 1859, começa por convidar o leitor a olhar o que lhe é familiar. Não às inexploradas ilhas tropicais ou florestas distantes, mas à fazenda e ao jardim. Lá, você pode facilmente ver que os organismos passam suas características para sua prole, mudando a natureza daquele organismo ao longo do tempo [a mudança de natureza da prole nunca foi observada por Darwin. Cães continuaram sendo cães, plantas continuaram sendo plantas, e aves continuaram sendo aves. Não houve nem mesmo aumento de complexidade dentro da própria espécie. "Mudar a natureza do organismo" é uma licença poética muito descabida aqui].

Darwin destacou o processo de cultivo [de plantas] e criação [de animais]. Por gerações, fazendeiros e jardineiros têm, propositalmente, criado animais para serem maiores ou mais fortes, e plantas para produzirem melhores colheitas [vide comentário anterior].

Criadores [de animais e vegetais - breeders] trabalham exatamente como Darwin imaginou que a evolução trabalha [não, não trabalham. Eles escolhem deliberadamente as características desejadas e imaginadas para o propósito final: melhorar sua economia. Isso não ocorre de maneira cega e desajudada, como na teoria da evolução]. Suponha que você deseja criar galinhas que põem mais ovos. Primeiro, você deve encontrar aquelas que põem mais ovos do que as outras. Então você precisa chocar os ovos delas e assegurar-se de que as galinhas resultantes se reproduzam. Essas galinhas devem também pôr mais ovos [se isso não tiver um benefício imediato, para a TE, as galinhas mais poedeiras são descartadas - justamente o contrário do que ocorre com a atuação dos criadores de raças de animais, porque exaurem mais rapidamente os recursos através da postura. E essa característica da seleção natural é impeditiva na evolução de órgãos complexos].

Se repetir o processo com cada geração, eventualmente você terá galinhas que põem muito mais ovos do que as selvagens põem [mas não terá galinhas amamentando seus pintainhos nem latindo para cuidar da sua casa]. Uma galinha da selva – o parente selvagem mais próximo da galinha doméstica – pode pôr 30 ovos por ano, quando as galinhas da fazenda podem produzir dez vezes esta quantidade. Estas mudanças de geração a geração são chamadas “descendência com modificação”.

Uma galinha jovem pode ser em muitos sentidos similar aos seus progenitores: será reconhecível como uma galinha, e definitivamente não um tamanduá, e provavelmente será mais parecida com os seus pais do que será com outras galinhas [!!!]. Mas não será idêntica [talvez porque o Criador não desejasse um planeta de clones, que seria bastante entendiante].

“É isto que a evolução é”, diz Steve Jones, da University College London, no Reino Unido. “É uma série de erros que se acumulam” [principalmente nas universidades e museus].

Você pode pensar que a reprodução pode apenas fazer umas poucas modificações, mas parece não haver fim para estas ["parece não haver fim para estas" - opa! estamos mais modestos aqui! este tom está infinitamente mais brando do que as bravatas iniciais da reportagem!]. “Não há nenhum caso registrado de um ser mutável cessando de variar sob cultivo”, escreveu Darwin. “Nossas plantas mais antigas cultiváveis, como o trigo, ainda produzem novas variáveis: nossos animais domésticos mais antigos ainda são capazes de rápido desenvolvimento ou modificação” [até aqui nenhuma evidência de variação inter-espécies ou de acréscimo de informação. A variação dentro de uma mesma espécie sendo usada como explicação para a macroevolução parece ser um clássico exemplo do problema da indução].

A criação [breeding], argumentou Darwin, é essencialmente a evolução sob a supervisão humana. Ela nos mostra que as minúsculas mudanças de geração a geração podem se somar. “É inevitável”, diz Jones. “Está fadado a acontecer” [Ler comentários acima. Problema da indução. Eu tomo um exemplo muito modesto e faço uma generalização absurda, com evidências fracas e ambíguas, não explico os problemas inerentes e lanço-os no chapéu mágico do tempo].

Ainda, é um passo sair da criação cuidadosa de galinhas que põem mais ovos para a evolução natural de novas espécies. De acordo com a teoria evolucionária, aquelas galinhas são ultimamente descendentes dos dinossauros, e se você for ainda mais para trás, dos peixes [só me explique como, por favor].

A resposta é simplesmente que a evolução toma muito tempo para fazer grandes mudanças [olha o chapéu mágico aí, gente!]. Para se ter uma evidência disto, você deve olhar para os registros mais antigos. Você deve olhar para os fósseis.

Fósseis são as reminiscências de organismos que morreram há muito, preservados em rocha. Porque as rochas são depositadas em camadas, uma sobre a outra, o registro fóssil é, geralmente, estabelecido em ordem de data: os fósseis mais antigos estão no fundo [a diferença das taxas de flutuabilidade dos cadáveres também é uma explicação para a ordenação do registro fóssil].

Percorrendo o registro fóssil, fica claro que a vida mudou ao longo do tempo [na realidade, a vida era diferente muito tempo atrás. Não há transição clara e inconfundível entre um tipo de organismo e outro, sem que haja ao menos grandes doses de especulação e subjetividade].

Os fósseis mais velhos de todos são reminiscências de organismos simples como bactérias, com coisas mais complicadas como animais e plantas apenas aparecendo muito mais tarde [vide a taxa de flutuabilidade dos corpos]. Entre esses fósseis animais, os peixes aparecem muito antes que os anfíbios, pássaros e mamíferos. Nossos parentes mais próximos, os macacos, são encontrados apenas nas rochas mais rasas e recentes [os corpos de mamíferos flutuam por mais tempo na água, e há também uma teoria sobre zoneamento ecológico que pode explicar esses fósseis].

“Eu sempre penso que o caso mais convincente de evolução está no registro fóssil”, diz Jones. “É notável que uma página em cada seis no livro A Origem das Espécies lida com o registro fóssil. [Darwin] soube que este era um caso irrefutável de que a evolução aconteceu” [o registro fóssil, conforme apregoado pela TE, está completo em apenas dois lugares: os museus e os livros de história. Nenhum sítio fóssil, por mais completo e impressionante que seja, como, por exemplo, o folhelho Burgess, apresenta a cadeia evolutiva como preconizada na teoria. Darwin, na realidade, disse que uma contraprova de sua teoria seria a existência de registros fósseis sem explicação para seu surgimento - do que tivemos plena evidência a posteriori, como na Explosão Cambriana, por exemplo].

Ao estudar cuidadosamente os fósseis, os cientistas têm sido capazes de ligar muitas espécies extintas com aquelas que sobrevivem hoje, às vezes indicando que uma descende da outra [com muita subjetividade e não sem deixar larga margem para questionamento].

Por exemplo, em 2014 pesquisadores descreveram os fósseis de um carnívoro de 55 milhões de anos de idade chamado Dormaalocyon, que pode ser um ancestral comum dos leões, tigres e ursos de hoje. As formas dos dentes do Dormaalocyon evidenciam isto [pela forma dos dentes eu poderia também estabelecer a evolução do Tião Macalé a partir de um furador de papel].

Ainda, você pode não estar convencido. Estes animais podem todos ter dentes similares, mas leões, tigres e Dormaalocyons são ainda espécies distintas. Como nós realmente sabemos que uma espécie evoluiu em outra?

O registro fóssil é de muita ajuda aqui, porque este está incompleto [realmente, um registro fóssil incompleto beneficia muito a TE, pois na incompletude estão os seres imaginários que constituem os fósseis de transição - que nunca serão encontrados, porque nunca existiram de verdade]. “Se olhar para a maioria dos registros fósseis, o que você vê atualmente é uma forma que dura mais ou menos um longo tempo e depois a nova penca de fósseis que você tem é bem diferente do que tinha antes”, diz Jones [surpresa! dura mais ou menos certo tempo com a mesma forma e de repente muda rapidamente! não seria esperado justamente o oposto, conforme axiomas da TE?].

Mas conforme temos escavado mais e mais restos, um tesouro de “fósseis de transição” tem sido descoberto. Estes “elos perdidos” são intermediários entre as espécies familiares [os fósseis "de transição" descobertos são apenas assumidos e classificados como de transição. Em vários casos, alguns deles relatados neste site, ficou claro que a transição imaginada inicialmente não se observou. Um exemplo clássico é o do homem de Neanderthal, tido anteriormente como um precursor do Homo sapiens, mas agora classificado como uma espécie paralela. Mas há ainda muitos outros casos semelhantes]. 

De fato, antes nós dissemos que as galinhas são, em última instância, descendentes dos dinossauros. Em 2000 um time liderado por Xing Xu, da Academia de Ciências Chinesa, descobriu um dinossauro pequeno chamado Microraptor, que possuía penas semelhantes às das aves modernas e pode ter sido capaz de voar [sempre há um alto grau de subjetividade nessa reconstituição fóssil. É importante ao leitor saber que os fósseis por vezes são apenas marcas deixadas em rochas por seres que viveram há muito tempo, sendo, na maioria das vezes, evidências de pequenos fragmentos ou partes de corpos que já não estão presentes. A recomposição desses fósseis é um trabalho duro e que, em diversas ocasiões, apresenta lacunas que são preenchidas por dedução e indução. Já houve caso de uma espécie de dinossauro que nunca existiu de fato - o Brontossauro - que teve a cabeça montada na cauda ao invés do pescoço, e de um Apatossauro que teve a cabeça de outro animal montada em seu corpo. Dúvidas sobre esses dois animais persistiram até 1970, após durarem quase 100 anos. Aí vem a mídia pseudocientífica e adiciona as "certezas" que os próprios cientistas não têm. A paleontologia é um ramo fantástico da ciência, mas está longe de ser cheia de certezas e provas contundentes, como alegado].

É também possível observar a evolução de novas espécies enquanto ela ocorre. Em 2009, Peter e Rosemary Grant, da Universidade Princeton em New Jersey, descreveram uma nova espécie de tentilhão que veio à existência em uma das ilhas Galápagos: as mesmas ilhas visitadas por Darwin. Em 1981, um único tentilhão-da-terra chegou na ilha chamada Daphne Maior. Este era incomumente grande e entoava um trinado algo diferente do trinado dos pássaros locais. Ele era capaz de se reproduzir, e sua prole herdou suas características diferenciadas. Após algumas gerações, eles estavam isolados em termos reprodutivos: eles pareciam diferentes dos outros pássaros, e cantavam de forma diferente, então podiam apenas reproduzir-se entre si. Este pequeno grupo de pássaros formou uma nova espécie: eles se “especiaram” [e continuou sendo uma espécie de tentilhão, que não acrescentou informação ao seu DNA. Isso é plenamente aceito hoje no criacionismo, sem ferir qualquer princípio bíblico ou admitir a TE].

Essa nova espécie é apenas sutilmente diferente de seus antecessores: seus bicos são diferentes e trinam unusualmente. Mas é possível olhar muito além nas mudanças enquanto elas acontecem.

Richard Lenski, da Universidade Estadual de Michigan, está no cargo do experimento evolucionário mais extenso do mundo. Desde 1988, Lenski tem acompanhado 12 populações de bactérias Escherichia coli em seu laboratório. As bactérias são deixadas à sua própria sorte em containers de armazenamento, com nutrientes para se alimentarem, e a equipe de Lenski regularmente congela pequenas amostras. “Nós tentamos fazer isso todo dia”, ele diz.

As E. coli não são mais as mesmas como elas eram em 1988. “Em todas as 12 populações, as bactérias evoluíram para crescer muito mais rapidamente do que o seu ancestral”, disse Lensky. Elas se adaptaram ao mix específico de [nutrientes] químicos que ele dá a elas.

“É uma demonstração muito direta da ideia de Darwin sobre a adaptação através de seleção natural. Agora, cerca de 20 anos depois no experimento, a linhagem típica cresce 80% mais rápido do que o seu ancestral” [note que agora não se fala de evolução, mas de "adaptação", o que é bem diferente e nada sutil. É esperado que populações de bactérias com abundância de alimento e sem predadores presentes cresçam mais - isso se dá com praticamente todos os animais, até com os humanos].

Em 2008, a equipe de Lenski reportou que as bactérias deram um gigantesco passo adiante [há bastante entusiasmo aqui, como veremos abaixo]. A mistura em que elas vivem incluem um químico chamado citrato, o qual a E. coli não pode digerir [meia-verdade: a E. coli pode, sim, digerir citrato anaerobicamente. Toda a estrutura genética para isso já está presente na bactéria]. Mas 31.500 gerações no experimento, uma das 12 populações começou a se alimentar de citrato. Isto seria como os humanos de repente desenvolverem a capacidade de comer cascas de árvore [nesse caso, os seres humanos deveriam ter desenvolvido uma capacidade totalmente nova de digerir resina, o que não é comparável ao fato de a E.coli ter começado a digerir citrato. Na realidade, de acordo com informações divulgadas pelo site creation.com, a mídia pseudocientífica tenta dar a ideia de que a E. coli de Lenski teria começado a metabolizar o citrato, também conhecido como óxido cítrico ou TCA, mas isso simplesmente não é verdade. A E. coli comum sempre pôde metabolizar o TCA de forma anaeróbica. A mutação que ocorreu no experimento de Lenski apenas alterou uma propriedade do DNA da E. coli que Michael Behe chama de "o limite da evolução": um benefício adaptativo que depende de uma única mutação para acontecer e que, por isso mesmo, seria extremamente improvável de ocorrer para casos mais complexos, onde muitas mutações precisariam ser observadas de forma mais ou menos simultânea e cumulativa para proporcionar uma vantagem competitiva. Destaca-se que o experimento de Lenski equivale a alguns milhões de anos em gerações humanas, só que no mundo das bactérias. Portanto, seria esperado que as mutações da E. coli no experimento de Lenski fossem muito mais expressivas caso a TE de Darwin estivesse assim correta, mas isso não foi observado. Em outras palavras, o experimento de Lenski simplesmente mostrou o contrário: não foi possível observar a evolução significativa que se esperaria caso a teoria darwinista fosse uma verdade, como afirma a reportagem da BBC].

O citrato sempre esteve lá, disse Lenski, “então, todas as populações tiveram a oportunidade de evoluir a habilidade de usá-lo... Mas apenas uma das 12 populações achou uma forma de fazer isso”.

Neste ponto, o hábito de Lenski de regularmente congelar amostras da bactéria se provou crucial. Ele foi capaz de voltar atrás nas amostras mais antigas, e traçar as mudanças que levaram a E. coli a se alimentar de citrato.

Para fazer isso, ele teve que olhar sob o capô. Ele usou uma ferramenta que não estava disponível nos dias de Darwin, mas que revolucionou o nosso entendimento da evolução como um todo: genética.

Todos os seres vivos carregam genes, na forma do DNA.

Genes controlam como um organismo cresce e se desenvolve, e eles são passados dos pais para seus descendentes. Quando uma mamãe galinha põe um monte de ovos, e passa essa característica para sua prole, ela o faz através de seus genes.

Ao longo do último século os cientistas catalogaram os genes de diferentes espécies. Isso resultou em que todas as formas de vida armazenam informação em seu DNA da mesma forma: elas todas usam o mesmo “código genético” [e... ??? como isso poderia validar a TE?].

E mais ainda, organismos podem compartilhar os mesmos genes. Milhares de genes encontrados no DNA humano podem ser encontrados também no DNA de outras criaturas, incluindo plantas e mesmo bactérias [o que é altamente esperado se considerarmos que um único Criador tenha produzido todas as formas de vida conhecidas. Teria Deus de jogar fora todas as fôrmas de cada uma das criaturas e começar cada espécie do zero para ser reconhecido como Criador? Um artista, artesão, engenheiro ou arquiteto não reutiliza elementos de suas obras anteriores para criar as novas? Não seria essa uma evidência favorável a um único Autor da vida?].

Esses dois fatos implicam que toda a vida moderna descendeu de um único ancestral comum, o “último ancestral universal”, que viveu bilhões de anos atrás [sic].

Ao comparar quantos genes os organismos compartilham, nós podemos entender como eles estão relacionados. Assim, os humanos compartilham mais genes com os símios como chimpanzés e gorilas do que com outros animais, a um percentual de 96%. Isso sugere que eles são os nossos parentes mais próximos [essa é uma falácia de um método de classificação de seres vivos chamado de cladístico. Você pode classificar chapéus, carros, obras de arte e qualquer coisa com esse método. A TE usa essa classificação para inferir que há descendência ou ancestralidade comum entre os seres. Mas isso significaria a possibilidade de inferir que um Porsche é descendente de um Fusca que sofreu mutações aleatórias ao longo de milhões de anos, ou que a estátua do Moisés de Michelangelo descende da estátua do Davi do mesmo autor].

“Tente explicar isso de qualquer outra forma do que o fato de que essas relações são baseadas em uma sequência de mudanças ao longo do tempo”, diz Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres. “Nós temos um ancestral comum com os chimpanzés, e nós e eles divergimos desde então, daquele ancestral comum” [problema da indução, mais uma vez].

Nós também podemos usar a genética para traçar os detalhes das mudanças evolucionárias.

“Você pode comparar diferentes tipos de bactérias e encontrar os genes que eles compartilham”, diz Nancy Moran da Universidade do Texas em Austin. “Uma vez que você reconhece estes genes... você pode olhar para como eles evoluíram em diferentes tipos de populações” [mais uma inferência, que é fruto de ambiguidade causal. Há outra explicação para essa semelhança, conforme comentário acima].

Quando Lenski voltou através das suas amostras de E. coli, ele descobriu que as bactérias comedoras de citrato tiveram várias mudanças no seu DNA que as outras bactérias não apresentaram. Estas mudanças são chamadas mutações.

Algumas delas aconteceram muito antes de as bactérias desenvolverem sua nova habilidade. “Em si mesmas, [estas mutações] não conferiram a habilidade de crescer no citrato, mas criaram o ambiente para mutações subsequentes que então conferiram aquela habilidade”, disse Lensky [os dados do experimento de Lensky não foram publicados com nível de detalhe suficiente para entender o que realmente aconteceu no genoma da população da E. coli no experimento. De acordo com o site creation.com, o que pode ter ocorrido foi uma mutação que equivaleria, a título de comparação, a uma quebra em uma fotocélula que acende a luz da casa apenas quando o sol vai embora, mantendo a partir desse defeito a luz da casa acesa em todo o tempo, dia ou noite. Isso se referindo ao fato de que a E. coli pode transportar o citrato em condições anaeróbicas, mas agora o transporta em qualquer situação - aeróbica ou anaeróbica. Outra possibilidade seria uma mutação em um gene que controla o transporte de tartrato. Esse gene poderia ter "pifado" e permitido que outras substâncias fossem transportadas para dentro da célula, diminuindo a especificidade no processo de transporte. Seria como o caminhão do lixo agora passar na sua rua e pegar, além do seu lixo, seu jornal, suas rosas e seu gato. Em ambos os casos aventados, teria havido uma degeneração da capacidade de transporte celular da bactéria, e não uma melhoria. Isso é esperado em mutações aleatórias que têm, via de regra, o efeito de aumentar a entropia - ou a desordem, e não organizar ou acrescentar novas informações úteis ao genoma. Exatamente o contrário do que se quer dar a entender na reportagem].

Essa complexa cadeia de eventos ajudou a explicar por que apenas uma população evoluiu essa habilidade [só que a reportagem não fala que a E. coli não precisa e nunca precisou de citrato para sobreviver, mesmo no experimento, pois havia glicose à disposição, e que a bactéria reduziu sua capacidade de digerir glicose em 20%, o que é contraproducente pensando na sobrevivência da E. coli em longo termo].

Isso também ilustra um ponto importante a respeito da evolução. Um passo evolucionário particular pode ser extremamente improvável, mas se houver organismos suficientes sendo empurrados a dá-lo, um deles provavelmente irá fazer – e só precisa de um.

A E. coli de Lenski nos mostra que a evolução pode dar aos organismos novas habilidades radicais. Mas a evolução não faz as coisas ficarem melhores sempre. Seus efeitos são, ao contrário, ao menos aos nossos olhos, aleatórios [o experimento de Lenski na realidade mostra, sim, que a mídia apologética do evolucionismo pode ter habilidades radicais de contar metade da verdade e fazer um tremendo marketing favorável com algo que é justamente uma complicação para os darwinistas].

As mutações que levam a mudanças nos organismos são raramente para melhor, diz Moran. De fato, a maioria das mutações não têm impacto ou têm impacto negativo na forma como um organismo funciona [incluindo o experimento de Lenski, ao que tudo indica].

Nota: Mais uma vez vemos a infeliz tendência de distorcer a realidade para apregoar uma doutrina estranha que demanda tanta fé quanto precisa ter o mais singelo religioso. O tom ácido e desafiador do início do artigo da BBC foi abrandado ao longo do caminho, e as "provas" apresentadas em favor da evolução se mostraram, na melhor das hipóteses, dúbias e perfeitamente possíveis de conciliação com a ideia de um Criador que projetou com cuidado todas as coisas. 

É óbvio que existe, sim, adaptação dos seres vivos. O problema é generalizar essa adaptação, que foi observada por Darwin e tantos outros, aplicando-a ao surgimento de seres extremamente complexos e dotados de gigantescas quantidades de informações genéticas específicas e úteis. Ainda mais, sem explicar satisfatoriamente como isso teria acontecido, jogando tudo no chapéu mágico do tempo. E o pior de tudo: tentando desafiar e ridicularizar quem não engole esse sapo.

De acordo com o Dr. Ariel Roth, 40% dos cientistas acreditam em um Deus que responde às suas orações, e esse percentual se manteve praticamente inalterado em pesquisas realizadas por cerca de uma década, mostrando que a teoria da evolução não está conseguindo converter mesmo os mais céticos de nós ao ateísmo. Longe de ser uma unanimidade entre indivíduos cerebrados, como alguns evolucionistas querem nos fazer acreditar, homens e mulheres de conhecimento reconhecem que há Alguém maior por trás do Universo maravilhoso que nos cerca. 

Embora os criacionistas não tenham todas as respostas para as perguntas do tipo como que nos cercam, temos, sim, plena evidência científica de que podemos racionalmente crer em um Criador que é representado com muita clareza na Bíblia Sagrada. 

"Diz o tolo em seu coração: 'Deus não existe'" (Salmo 14:1).

Referências:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_da_indu%C3%A7%C3%A3o
Roth, A. (2001) Origens: relacionando a ciência com a Bíblia. Casa Publicadora Brasileira.
Darwin, C. (2018). A origem das espécies. Edipro.
https://www.npr.org/2012/12/09/166665795/forget-extinct-the-brontosaurus-never-even-existed
https://creation.com/bacteria-evolving-in-the-lab-lenski-citrate-digesting-e-coli

sexta-feira, agosto 30, 2019

O caráter científico das teorias de criação


Inicialmente, é importante destacar (conforme já mencionado aqui neste blog em vários outros artigos) que há dois tipos de ciência praticados atualmente: a ciência humana e a ciência verdadeira. O que as diferencia significativamente é o tipo de raciocínio adotado. Enquanto a ciência humana (que remonta a Aristóteles) faz uso predominante de um raciocínio intuitivo/filosófico, mais aberto à especulação/interpretação, a ciência verdadeira (descoberta durante a Revolução Científica dos séculos 16 a 18) se utiliza do raciocínio formal (matemático), muito menos limitado e muito mais confiável, o qual deixa o mínimo espaço possível (ou nenhum) para a especulação/interpretação.[1-4] A ciência verdadeira é, portanto, muito mais eficiente em produzir conhecimento genuíno, mas a ciência humana também possui seu mérito. Neste artigo, estarei lidando, de forma geral, com a ciência humana (assim como em meu artigo anterior), haja vista ser esse o tipo de ciência praticada atualmente nas áreas de conhecimento que lidam com a questão das origens – tais como biologia evolutiva e geologia histórica.

A ciência de hoje possui uma visão essencialmente ateísta. Como diria Basil Willey: “A ciência deve ser provisoriamente ateísta, ou deixar de ser ela mesma.”[5] O que explica essa presente condição da ciência é a regra, supostamente necessária para o avanço científico, chamada naturalismo (ou materialismo) metodológico (NM). Stephen Meyer define essa norma da seguinte maneira: “...um princípio que especifica que os cientistas devem explicar todos os eventos através de causas materialísticas (não inteligentes), seja qual for a evidência.”[6] Por “causas materialísticas” entenda-se causas naturais (processos físicos, químicos, biológicos). Dentro desse contexto, qualquer cogitação de uma possível causa sobrenatural para explicar algum fenômeno natural, ainda que baseada em evidências do mundo natural, é descartada sob a acusação de ser metafísica ou teológica – em outras palavras, não científica.

Os defensores do princípio do NM argumentam que a proibição de invocar Deus ou alguma outra inteligência criativa em teorias científicas é bem fundamentada, nem um pouco arbitrária. Para eles, teorias de criação (Teoria do Design Inteligente – TDI – e Criacionismo Científico) não satisfazem padrões objetivos do método científico, conhecidos como critérios de demarcação. Não explicam por meio de causas naturais apenas, nem manifestam várias outras características de verdadeiras teorias científicas, tais como testabilidade, observabilidade e falseabilidade. Assim, diferente de teorias evolucionistas naturalísticas, teorias de criação seriam metodologicamente deficientes.[5]

Porém, há pelo menos três linhas de argumentação que demonstram a falibilidade dessa tentativa de imputar um caráter não científico à TDI,[5] a qual, por definição, “simplesmente diz que certas feições do Universo e dos seres vivos são mais bem explicadas por uma causa inteligente, ao invés de um processo não direcionado, como a seleção natural”.[7] Essa teoria não se preocupa em dizer quem seria essa causa inteligente (que pode ser Deus ou algum ser extraterrestre superevoluído, por exemplo). Apenas afirma que algumas evidências apontam para sua ação no Universo e nos seres vivos.

Em primeiro lugar, a maioria dos filósofos da ciência de hoje considera a questão “Quais métodos distinguem a ciência da não ciência?” como intratável e desinteressante. Eles têm aprendido com os sucessivos fracassos das tentativas de estabelecer critérios de demarcação, ao longo da história, capazes de distinguir com precisão a ciência da pseudociência, tendo chegado à conclusão de que a principal questão não é se uma teoria é ou não científica, mas se ela é ou não verdadeira ou garantida pela evidência. Como Martin Eger resume bem, “argumentos (ou critérios) de demarcação colapsaram. Filósofos da ciência não os consideram mais. Eles podem ainda desfrutar aceitação no mundo popular, mas esse é um mundo diferente”.[5]

Embora os argumentos de demarcação tenham caído em descrédito, de modo geral, para os filósofos da ciência, eles ainda são bastante valorizados por muitos cientistas. Em função disso, o segundo argumento tem por objetivo demonstrar a inaptidão de tais argumentos em desqualificar a TDI. Mais especificamente, é importante lidar com os seguintes critérios de demarcação, comumente utilizados como justificativa para atribuir o status de pseudociência à TDI: (a) explicações através de causas naturais apenas (é proibido recorrer a qualquer tipo de inteligência criativa), (b) observabilidade, (c) testabilidade, e (d) falseabilidade.[5]

Quanto ao item (a), que corresponde ao NM, é relevante atentarmos para o programa de pesquisa SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre), o qual tem como missão explorar, entender e explicar a origem da vida no Universo e a evolução da inteligência.[8] Os cientistas desse instituto se dedicam a detectar sinais de vida inteligente em algum lugar do Universo. Para isso, buscam ondas de rádio especiais, diferentes das que são comumente detectadas por seus telescópios (produzidas no espaço por causas naturais), que lhes garantam estar diante de uma evidência clara de inteligência. Ou seja, para os cientistas do SETI é fundamental diferenciar fenômenos produzidos por causas naturais daqueles produzidos por uma mente inteligente. Logo, esse programa científico sozinho lança por terra a obrigatoriedade imposta pelo NM de uma teoria utilizar-se apenas de causas naturais em seu recurso explanatório para ser considerada científica.[9] Adicionalmente, a ciência forense, a história e a arqueologia, cujo caráter científico não é questionado, também postulam, assim como o SETI, a ação passada de seres inteligentes para explicar eventos ou objetos em estudo.[5]

Os itens (b) e (c) costumam estar interligados nas críticas feitas à TDI, já que se presume que o caráter inobservável de um agente inteligente o torna inacessível à investigação empírica, tornando a teoria impossível de ser testada.[5]

Porém, a realidade é que muitas áreas de conhecimento já consideradas científicas (por exemplo física, geologia, arqueologia, biologia) lidam rotineiramente com elementos inobserváveis (ex.: forças, átomos, eventos passados, feições geológicas da subsuperfície, estruturas biológicas moleculares), tendo que inferir sua existência a partir de elementos observáveis – ou seja, o teste é indireto. Até mesmo a teoria evolutiva apresenta elementos inobserváveis em sua estrutura, tais como: as formas de vida transicionais que ocupariam os nódulos da árvore da vida evolutiva de Darwin, mutações do passado, e eventos de rápida evolução (Pontualismo).[5]

O próprio Darwin argumentou que a inobservância de eventos/processos passados não significa que teorias sobre as origens sejam intestáveis. Ele afirmou: “Esta hipótese (descendência comum) deve ser testada... tentando ver se ela explica várias classes de fatos grandes e independentes; tais como a sucessão geológica dos seres orgânicos, sua distribuição no passado e no presente, e suas afinidades mútuas e homologias.” Para ele, essas teorias podem ser testadas indiretamente, avaliando seu poder explanatório com respeito a uma variedade de dados relevantes.[5]

Phillip Kitcher, que não é simpático às teorias de criação, reconheceu: “Mesmo postular um Criador que não pode ser observado não precisa ser menos científico do que postular partículas inobserváveis. O que importa é o caráter das propostas e os modos pelos quais elas são articuladas e defendidas.”[5]

O critério de falseabilidade (hipóteses científicas devem fazer previsões passíveis de refutação), item (d), é de difícil aplicação para qualquer teoria das origens. Mesmo que não haja dados que corroborem suas hipóteses preditivas de que certas evidências devem ser encontradas (ex.: os inúmeros fósseis intermediários previstos pela teoria da evolução), elas não podem ser refutadas, pois quase sempre haverá a possibilidade, ainda que mínima, de que tais dados surjam futuramente, já que a evidência e a compreensão do passado que temos são incompletas. Porém, a ciência deve ser capaz, afinal, trabalhando com hipóteses discordantes, e comparando-as com os dados, de identificar quais hipóteses não condizem com a realidade.[5, 10].  

Por fim, como último argumento contra a ideia de que a TDI não é científica, apresenta-se o fato de que ela é metodologicamente equivalente à teoria da evolução (TE), podendo ambas ser classificadas como ciências históricas – as quais lidam com eventos passados únicos, irreprodutíveis em laboratório, buscando explicá-los a partir de feições da natureza do presente, o que as torna significativamente diferentes das ciências não históricas (ex.: física e química), que se preocupam, primariamente, em descobrir, classificar ou explicar regularidades (leis) e propriedades da natureza. A ideia principal desse argumento é que, haja vista a equivalência mencionada, torna-se impossível considerar como científica ou pseudocientífica apenas uma dessas teorias (TDI ou TE). Já que são metodologicamente equivalentes, e a ciência é definida por seus métodos, ou ambas são ciência ou pseudociência.[5]

É pertinente destacar ainda que o doutor em ecologia e biologia evolutiva Leonard Brand propõe que hipóteses úteis (testáveis) podem ser derivadas do Criacionismo Bíblico (que pode ser definido como uma cosmovisão ou filosofia que considera a Bíblia como uma fonte confiável de revelação da verdade). Ele afirma: “Não podemos testar diretamente se Deus esteve envolvido na história da Terra; porém, se Ele Se envolveu das maneiras descritas na Bíblia (criação e catástrofe geológica global), esses eventos deveriam ter deixado alguma evidência no mundo natural (por exemplo, limitada evidência para intermediários evolucionários e evidência pervasiva de ação catastrófica global).” E no decorrer de sua argumentação ele apresenta várias dessas hipóteses, demonstrando como elas têm apresentado considerável poder explanatório.[10]

Portanto, o que temos aqui, mais uma vez, é um exemplo claro de uma ciência histórica,[11] a qual, assim como a TDI, utiliza os mesmos recursos metodológicos e explicativos característicos da TE. Sim, o Criacionismo Científico tem um componente filosófico (suas crenças) que embasa suas hipóteses, mas o mesmo pode ser dito quanto ao Darwinismo (cujas hipóteses se baseiam na crença ateísta do NM) ou TDI (que admite tanto o teísmo quanto o ateísmo). Ademais, é fácil notar, depois de tudo o que foi exposto, que os critérios de demarcação já mencionados também falham em atribuir um caráter de pseudociência ao Criacionismo Científico, como ocorre com a TDI. Logo, a realidade é que, independentemente da cosmovisão adotada para o estudo das origens, seja ela naturalística ou teísta, é possível criar verdadeiras hipóteses científicas para estudar o passado da vida e do Universo. O que, afinal, realmente importa e deve ser levado em consideração é o poder explanatório revelado por cada uma dessas hipóteses quando confrontadas com os dados.

(David Ramos Pereira é geólogo e mestre em Geologia e Geoquímica pela UFPA)

Referências:
[1] A verdadeira e a falsa ciências. http://www.criacionismo.com.br/2016/07/a-verdadeira-e-falsa-ciencias.html; acessado em 20/8/2019.
[2] Ciência não é pesquisa comum. http://www.criacionismo.com.br/2016/09/ciencia-nao-e-pesquisa-comum.html; acessado em 20/8/2019.
[3] A descoberta da ciência. http://www.criacionismo.com.br/2017/03/a-descoberta-da-ciencia.html; acessado em 20/8/2019.
[4] Scientific Revolution. https://www.britannica.com/science/Scientific-Revolution; acessado em 20/8/2019.
[5] The Methodological Equivalence of Design and Descent. https://www.discovery.org/a/1696/; acessado em 18/8/2019.
[6] Denying the Signature: Methodological Naturalism and Materialism-of-the Gaps. https://evolutionnews.org/2015/11/denying_the_sig_4/; acessado em 17/8/2019.
[7] What is Intelligent Design. https://www.discovery.org/v/what-is-intelligent-design/; acessado em 18/9/2019.
[8] SETI Institute – Mission. https://www.seti.org/about-us/mission; acessado em 23/8/2019.
[9] Do You Like SETI? Fine, Then Let’s Dump Methodological Naturalism. https://evolutionnews.org/2014/09/do_you_like_set/; acessado em 20/8/2019.
[10] Brand, L. (2009). Faith, reason, and earth history: a paradigm of earth and biological origins by intelligent design. Andrews University Press, 332 p.
[11] It’s not science. https://creation.com/its-not-science; acessado em 25/8/2019.