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quarta-feira, julho 07, 2021

A história, seus dramas e Deus

 

O mundo passa por uma nova configuração histórica, em razão de grandes mudanças no cenário global. Ocorrências drásticas e repentinas, a exemplo da pandemia do novo coronavírus, afetam tudo e todos – o meio ambiente, a economia, a política, as leis, a religião, o pensamento e o psiquismo das pessoas. A forma de ver a realidade mudou mais uma vez, e nós, feito crianças amedrontadas, só conseguimos vislumbrar no horizonte dos eventos uma crise humanitária. Diante disso, quem seria capaz de apresentar uma análise segura para além da crise mundial, que apontasse para o sentido e a esperança? Quem poderia explicar a história e apresentar um “plano de salvação”?

 As crises vêm e vão, demolindo o otimismo humano como se derruba um castelo de cartas. Quando elas surgem inesperadamente, aparecem também os “profetas apocalípticos” – seculares e religiosos –, os quais, na figura de analistas do momento, submetem os acontecimentos dramáticos às suas narrativas de cunho sociológico, político, filosófico, científico, metafísico ou meramente opinativo. Os prognósticos elaborados por tais analistas chocam-se entre si, mas cruzam-se também, sendo o elemento comum a todos eles certa percepção escatológica que leva muitos a “desmaiarem de terror pela expectativa das coisas vindouras”.

 O sentimento escatológico parece despertar-nos para a realidade de uma meta-história a esclarecer a história e seus dramas. É neste ponto que a proposta teísta e criacionista de explicitação para os acontecimentos do mundo ganha destaque e defronta-se com as investigações meramente seculares e horizontais dos fatos, sobrepondo-se a estas no quesito interpretação. Nesse aspecto o teísmo bíblico, carregado de simbolismos proféticos estudados à luz do princípio historicista de interpretação, é abarcante pois interliga passado, presente e futuro, introduzindo um fator transcendente que responde (em meio ao caos, à desorientação e à aparente falta de significado) ao porquê da história. Os livros de Daniel e Apocalipse são o exemplo máximo dessa forma de ver os fatos históricos.

Todavia, com a pregação da “morte de Deus”, reconfigurada pelo establishment filosófico da pós-modernidade, a alternativa teísta continua descartada pelos investigadores humanistas da história, e a única conclusão a que se chega é: Não precisamos de Deus para qualquer explicação ou solução dos nossos dramas. Mais: se a possibilidade de Sua existência continua viável, Ele nada tem a ver conosco, pois Sua interferência nos negócios humanos é tanto fictícia quanto indesejada. Senão, vejamos a posição neoiluminista: “Ao procurar uma coerência para a história e as condições que ela implica, o filósofo não precisará do respaldo de Deus. [...] Deus tanto é mais importante quanto mais longe se encontrar. Estranho à história, sua interferência significaria a anulação da autonomia. Da mesma forma que o Universo se abre ao exame da razão, porque ele já é razão, também a história do ser humano se abre a uma explicação racional, porque é animada de uma aspiração racional, a saber, a afirmação do homem enquanto senhor de si e administrador do mundo. [...] As verdades da razão opõem-se, por conseguinte, às verdades da teologia. [...] Os objetos de fé serão relegados ao foro íntimo, à privacidade do crente e não possuirão nenhum estatuto intelectual capaz de elevá-los à certeza metafísica. [...] A nova posição frente à história mostra que a mesma deixou de se referir a um todo monoliticamente concebido e passa a ser objeto de uma elaboração reflexiva em torno da diversidade profana e real. [...] A razão apresenta-se como um instrumento capaz de voltar os interesses do historiador-filósofo para os elementos imanentes à própria história, reconhecendo-a num cenário terreno e natural, impedindo, em consequência, o recurso ao maravilhoso como fator explicativo para os fatos.”¹

 Noutra perspectiva, o pensamento clássico teísta contesta a filosofia apresentada acima. Ele reconhece no Criador o Agente que acompanha não só a história individual do ser humano, mas também a história universal, intervindo nelas em momentos cruciais. Dessa forma, pode-se discernir a evidente e notável atuação divina nos momentos mais significativos da história: “Nos anais da história humana o crescimento das nações, o levantamento e queda de impérios, aparecem como dependendo da vontade e façanhas do homem. O desenvolver dos acontecimentos em grande parte parece determinar-se por seu poder, ambição ou capricho. Na Palavra de Deus, porém, afasta-se a cortina, e contemplamos ao fundo, em cima, e em toda a marcha e contramarcha dos interesses, poderio e paixões humanas, a força de um Ser todo misericordioso, a executar, silenciosamente, pacientemente, os conselhos de Sua própria vontade. [...] A história que o grande Eu Sou assinalou em Sua Palavra, unindo-se cada elo aos demais na cadeia profética, desde a eternidade no passado até à eternidade no futuro, diz-nos onde nos achamos hoje, no prosseguimento dos séculos, e o que se poderá esperar no tempo vindouro. Tudo o que a profecia predisse como devendo acontecer, até à presente época, tem-se traçado nas páginas da História, e podemos estar certos de que tudo que ainda deve vir se cumprirá em sua ordem.”²

Para aqueles que estão convictos de que Deus não existe, ou que existe mas não age na imanência (deísmo), o título desse texto deveria ser mais curto; apenas A história e seus dramas, ecoando assim o pensamento do bioquímico francês Jacques Monod: “É preciso  que o Homem enfim desperte de seu sonho milenar para descobrir sua solidão total, sua estranheza radical. Agora, sabe que, como um cigano, está à margem do universo onde deve viver. Universo surdo à sua música, indiferente às suas esperanças, como a seus sofrimentos ou a seus crimes. […] Onde o recurso?”³ Talvez o “sonho milenar” ao qual Monod se referiu seja o mesmo que Sigmund Freud definiu como “ilusão consoladora”: acreditar na proposta cristã de que um Ser divino não abandonou a Terra à suposta indiferença do universo. Se a visão teísta pode ser considerada misteriosa e enigmática, ou mesmo aparentemente ilusória, o enigma da história, conforme o físico e sacerdote episcopal William G. Polard declarou, “reside no fato de que todo evento é ao mesmo tempo resultado da operação de leis naturais, universais, e o objeto do exercício da vontade divina. Ao desdobrar-se a História, o mundo avança de acordo com as exigências internas de sua estrutura e as leis universais às quais está sujeito. Porém, entre acasos e acidentes dessas alternativas, a História traça seu curso espantoso sempre respondendo à vontade do Criador. O cristão vê as contingências e acidentes da História como a trama e a urdidura do plano que Deus, em Sua providência, está tecendo”.4

“Onde o recurso?”, perguntou Monod. Para as crises manifestadas em pandemias, guerras, fome, injustiça, opressão e tragédias de todo tipo, Deus continua sendo a salvação da história. E se esta retém seu caráter trágico, é “porque a alienação que separa o homem de Deus não pode ser corrigida unilateralmente. A reconciliação não pode ser efetivada a não ser pela resposta livre do homem ao apelo do amor divino. Embora trágica, a história, mesmo a história profana, participa de um desígnio redentor, tanto por revelar o amor de Deus, como pelo fato de promover uma liberdade crescente. [...] A história não é nem sem significado, nem inconsequente”5. Além do mais, ela traz consigo profundas implicações espirituais.

 A pessoa de fé que busca sentido e propósito pressente que a história não terminará de maneira trágica. Porém, enquanto o fim glorioso não chega para a meta-história assumir o seu lugar, o sofrimento do tempo presente perdura; contudo, ao invés da indiferença do universo, existe a consoladora certeza dada pelo próprio Criador: “Eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28:20). 

Frank de Souza Mangabeira

 Referências:

1. MENEZES, Edmilson; OLIVEIRA, Everaldo (Org.). Modernidade filosófica: um projeto, múltiplos caminhos. São Cristóvão. Editora UFS, 2011.

2. White, Ellen G. Educação. Casa Publicadora Brasileira, Santo André, São Paulo, 1977.

3. Monod, Jacques. O acaso e a necessidade. Editora Vozes Ltda: Petrópolis, Rio de Janeiro, 1972.

4. Pollard, William G. Chance and Providence: God’s action in a world governed by cientific law. Charles Scribner’s Sons: New York, 1958.

5. Schwants, Siegfried J. O significado bíblico da história. Instituto Adventista de Ensino: São Paulo, 1984.

quinta-feira, maio 13, 2021

Deus e as forças do caos: uma reflexão criacionista

Parmênides de Eleia, filósofo pré-socrático, imbuído de admiração perante a existência, afirmou no sexto fragmento do seu poema: “Há o que há”, “o ser é”. Ou ainda: “O certo é que existe alguma coisa, e isso é espantoso e prodigioso...!” Por causa de tal espanto, elaborou-se uma questão fundamental: “Por que há alguma coisa em vez de nada haver?” Essa intrigante pergunta gerou outra: “Por que há música em vez de ruído?” A primeira indagação nos coloca diante do mistério da existência; a segunda, chama nossa atenção para o fato de que a realidade segue um padrão ordenado. Então, se há música em vez de ruído, consequentemente a matéria não existe de forma desorganizada nem descontrolada. Percebemos – em todos os seus níveis – ordem, interdependência, beleza, funcionalidade e propósito, a indicarem um grau de planejamento estupendo. Diante dessa forte constatação, seria possível conceber o Universo como mero resultado do acaso e da ação de forças caóticas impessoais? Para o mundo pagão e na visão materialista de muitas mentes científicas modernas, sim; pelas lentes da cosmovisão judaico-cristã, jamais!

Na Teogonia, o poeta grego Hesíodo mostra o início do cosmos da seguinte maneira: “Sim, bem primeiro nasceu Caos [...]. / Do Caos, Érebo e Noite negra nasceram.” Nos versos hesiódicos, o Caos - estágio primordial, estranha potência, vale profundo, espaço incomensurável – viria antes do cosmos, sendo o progenitor de toda a criação, “a base opaca e primária, o pressuposto pré-histórico de toda gênese”. O poeta romano Ovídio chamou-o rudis indigestaque moles (Metamorfoses 1,7), massa informe e confusa. Já os antigos nórdicos tinham um nome para o abismo primordial: Ginnungagap.O Gênesis, contudo, opõe-se diametralmente às concepções pagãs, como se vê no primeiro capítulo do livro bíblico, narrativa considerada mitologia judaica por muitos intérpretes equivocados. O princípio criacionista, todavia, não está só em Gênesis; perpassa a Escritura inteira mostrando que “Ele [Deus] fez a terra com o Seu poder; Ele estabeleceu o mundo com a Sua sabedoria, e com a Sua inteligência estendeu os céus” (Jr 10:12). Haja luz! Ela brilha desse relato único. Por conseguinte, as origens não derivam da obscuridade, mas da Causa pessoal jamais causada, que fez surgir o tempo e estabeleceu o Universo sobre leis físicas inabaláveis sustentadas por Seu poder sobrenatural.

Em Gênesis a criação é fruto da vontade divina que, sem esforço algum, profere ordens para o caos primitivo. Consoante o teólogo Laurence A. Turner, “não existe a sugestão de que esse caos fosse uma força ativamente oposta a Deus, como em alguns mitos antigos do Oriente Médio, ou de que Deus tivesse criado algo de um padrão inferior”. Outro teólogo, Richard M. Davidson, evita usar a palavra caos “para descrever essa condição do planeta antes da semana da criação. Alguns têm alegado que os termos tohu-bohu se referem a um ‘universo caótico’, não organizado’. Porém, o estudo cuidadoso [...] mostra que esses termos se referem não ao caos, mas a um estado de ‘vazio improdutivo’ em Gênesis 1:2”.

Na queda humana em pecado surgiu uma nova condição, o grande conflito entre a ordem da criação e os elementos caóticos. Desde esse acontecimento, o caos se espalhou em todas as direções e em todos os lugares: na história milenar de nossa raça, na natureza, nas sociedades e no interior das pessoas – algo “onipresente”, bem notório e marcante na realidade física. O mundo natural, por exemplo, sofre com catástrofes, desastres ambientais, pandemias e outras ocorrências de grande alcance e terríveis resultados. Apesar de tão triste cenário, entretanto, “onde quer que você olhe, para o exterior ou para o interior, você vê ordem. Por mais que nosso mundo tenha sido danificado pelo pecado, ainda podemos ver a ação de nosso Criador no desígnio e na ordem do mundo natural”, refletiu certo observador da natureza. Para o ilustre francês Pierre P. Grassé, autor de um importante tratado de zoologia, “se bem que nem tudo seja perfeito, o mundo dos seres vivos tem muito pouco de caótico, e a vida é consequência de uma ordem muito rigorosa. No momento em que aparece um fator de desordem, por ínfimo que seja, em um ser organizado, sobrevém nele a enfermidade e a morte. Os fenômenos vitais não acontecem com anarquia”. A natureza, bastante combalida, ainda traz em sua estrutura a marca do projeto inteligente e a lembrança de sua perfeição original, além de apontar para a futura restauração. Sua mensagem é clara: “O mundo, embora caído, não é todo tristeza e miséria. [...] Há flores sobre os cardos, e os espinhos acham-se cobertos de rosas.” 

Quando o patriarca Jó recebeu uma enxurrada inexplicável de eventos caóticos, confundiu-se e não soube discernir o porquê de acontecimentos trágicos desabarem sobre si. Sendo um homem de fé, ele, no entanto, angustiou-se. Apenas quando Deus lhe apareceu, Jó pôde compreender que as forças da criação, ativas no grande conflito cósmico, continuavam dominadas. O Beemote e o Leviatã – respectivamente criaturas descomunais da terra e do mar (Jó 40:15; 41:1) – foram apresentados ao homem da terra de Uz como potências amedrontadoras que só Deus poderia subjugar. Dessa forma, pela experiência de Jó, somos convidados a olhar além das aparências contingenciais da vida a fim de discernir o Poder que controla e mantém a Terra. É por causa de Deus que o caos não reina inteiramente. Em razão Dele – no Qual “vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17:28) e em Quem todas as coisas subsistem –, a história, a natureza e a vida humana seguem em luta contra o absurdo.

Se “Deus não é Deus de desordem” (1 Co 14:33), que mensagem o caos avassalador pode comunicar ao homem contemporâneo, já que o século 21 é abissal, confuso e repleto de perplexidades? O caos clama e grita, indicando a necessidade de paz e harmonia em face da turbulência; ele representa a inquietude a convidar o agir imediato de Deus. As águas primitivas no princípio da criação, símbolos de agitação e barulho, revolviam-se nas trevas, rogando pela aproximação do Ordenador divino. Elas representam o movimento conturbado das “águas humanas” que aguardam a palavra do Criador para sossegar. A confusão é um anseio pela presença de Alguém capaz de criar um novo estado de coisas, pondo paz e harmonia na existência atribulada: “Salva-me, ó Deus, porque as águas me sobem até à alma. Estou atolado em profundo lamaçal, que não dá pé; estou nas profundezas das águas, e a corrente me submerge" (Sl 69:1 e 2). Na perturbação não se escuta a voz divina; é o mundo barulhento que “fala” desejando “ouvir” essa voz. Quando tudo é escuridão e descontrole, a alma humana precisa escutar: “Aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus” (Sl 46:10). O mundo buliçoso e o ser inquieto tranquilizam-se quando se submetem e obedecem à Palavra divina.

Acima das “teorias do caos”, com seus padrões desconstrucionistas e a-históricos de estrutura, persistem os comandos da Voz que deu forma e beleza às coisas e seres. No futuro haverá a soltura dos “ventos” (Ap 7:1-3) causadores de destruição, mas podemos estar certos de que as origens nos revelam como será o fim: Deus intervirá, dominando e eliminando as potências tenebrosas e destrutivas deste planeta caído. As forças do caos, naturais ou sobrenaturais, jamais vencerão as ordens poderosas do Criador.

(Frank de Souza Mangabeira)

terça-feira, agosto 20, 2019

Eu: primata bípede ou ícone de Deus?


Toda pessoa já fez ou fará esta pergunta existencial: “Quem sou eu?” Com a mão no queixo ou coçando a cabeça, somos impulsionados por um imperativo que instiga o pensamento à procura da verdade sobre a natureza humana com suas dimensões biológica, psíquica e espiritual. Mediante a ciência, a filosofia, a religião e outros caminhos epistemológicos – ou até mesmo pela via do senso comum –, o Homo sapiens vasculha suas origens remotas, lançando mão do conhecimento que lhe é possível ter. Ele não se conforma em ignorar o berço ancestral do seu nascimento. “Quem sou eu?” constitui uma indagação das mais desafiadoras e enigmáticas que só pode ser respondida, em sentido último, por meio de metanarrativas apoiadas em algum tipo de metafísica/revelação. Porém, essa pergunta nos coloca diante de outra questão dicotômica ainda mais interessante: “Sou um ser com ascendência animal – entrelaçado em relações filogenéticas evolutivas e pertencente à família hominidae – ou alguém sem o mínimo parentesco com as criaturas irracionais, um filho de Deus?” Sejam quais forem as evidências para sustentar uma tese ou outra, o misterioso aparecimento da humanidade na Terra passa por duas narrativas conflitantes, as quais, por meio dos dados disponíveis, constroem, cada uma, a sua ciência histórica.

Na versão contada pelo conhecido paleoantropólogo Richard E. Leakey, a pergunta “Quem sou eu?” é respondida assim: “A partir de linhas de indícios diferentes – alguns genéticos, alguns fósseis –, sabemos [sic] que a primeira espécie humana evoluiu há cerca de sete milhões de anos. Na época em que o Homo erectus surgiu em cena, há quase dois milhões de anos, a pré-história humana já estava em marcha. Não sabemos ainda como muitas espécies humanas viveram e morreram antes do aparecimento do Homo erectus; houve pelo menos seis, e talvez o dobro desse número. Entretanto, sabemos de fato [sic] que todas as espécies humanas que viveram antes do Homo erectus eram, embora bípedes, marcadamente simiescas em muitos aspectos. Elas tinham cérebros relativamente pequenos, suas maxilas eram prognatas (isto é, projetavam-se para a frente), e a forma de seus corpos era mais simiesca do que humana em aspectos particulares, tais como o peito em forma afunilada, pescoço pequeno e nenhuma cintura.”[1]

Detalhes à parte, na mesma esteira vai o historiador israelense Yuval Noah Harari: “Gostemos ou não, somos membros de uma família grande e particularmente ruidosa chamada grandes primatas. Nossos parentes vivos mais próximos incluem os chimpanzés, os gorilas e os orangotangos. Os chimpanzés são os mais próximos. [...] Os humanos surgiram na África Oriental há cerca de 2,5 milhões de anos, a partir de um gênero anterior de primatas chamados Australopithecus, que significa ‘macaco do Sul’. Por volta de dois milhões de anos atrás, alguns desses homens e mulheres arcaicos deixaram sua terra natal para se aventurar e se assentar em vastas áreas da África do Norte, da Europa e da Ásia.”[2]

Sabe-se, cientificamente, que o nascimento da humanidade ocorreu segundo a maneira contada pelos autores acima, ou tudo não passa de artifício hipotético fundamentado em certa visão de mundo e nas interpretações equivocadas dos resquícios paleoantropológicos encontrados em algumas regiões da Terra? Gostemos ou não, essa forma de encarar a origem do homem possui inúmeros problemas que esbarram na ciência empírica e laboratorial, percebidos por mentes críticas bem informadas, entre as quais encontram-se até mesmo estudiosos crentes no “fato” da evolução. David Pilbeam, paleontólogo norte-americano, por exemplo, honestamente reconheceu: “Praticamente todas as nossas teorias sobre as origens humanas desenvolveram-se relativamente à margem do registro fóssil. Nossas teorias frequentemente têm dito mais sobre suposições sobre o que de fato ocorreu.”[3]

A controvérsia prossegue. Ainda assim, o poder explanatório da teoria da evolução persuadiu – além de grandes cientistas – muitos religiosos, teólogos e igrejas cristãs a se renderem ao discurso que usa áreas da ciência para apoiar especulações baseadas em extrapolações de dados; pois, em tal perspectiva, se estes não forem interpretados “à luz da evolução”, nada fará sentido em biologia, em antropologia ou em qualquer saber que tenha o homem por objeto de estudo. Contudo, embora o pensamento evolucionista domine a comunidade científica, soam representativas vozes discordantes que, com argumentos plausíveis, apresentam o contraponto capaz de fazer frente à quase universal doutrina do transformismo macroevolucionário.

A outra narrativa, também alicerçada nos fatos da ciência e ancorada na concepção teísta de mundo, conta-nos algo exclusivo e extraordinário, mas digno de apreciação: “E disse Deus: Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança [...]. E criou Deus o homem à Sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1:26, 27). Nessa versão, os primeiros humanos, representados pelo casal Adão e Eva, tiveram origem diferenciada e especial, à parte dos demais seres vivos. Tal pressuposição advinda da Bíblia, circunscrita à estrutura conceitual criacionista, é vista por muitos como um conto mágico e indigno de consideração científica. Todavia, apesar do preconceito, das distorções e da incompreensão acerca desse modelo, não se pode deixar de se encantar e de se atrair pela beleza e lógica da exposição teísta: “Depois que a Terra com sua abundante vida animal e vegetal fora suscitada à existência, o homem, a obra coroadora do Criador, e aquele para quem a linda Terra fora preparada, foi trazido em cena. A ele foi dado domínio sobre tudo que seus olhos poderiam contemplar; pois ‘disse Deus: Façamos o homem a Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança’ [...]. Aqui está claramente estabelecida a origem da raça humana; e o relato divino refere tão compreensivelmente que não há lugar para conclusões errôneas. Deus criou o homem à Sua própria imagem. Não há aqui mistério. Não há lugar para a suposição de que o homem evoluiu, por meio de morosos graus de desenvolvimento, das formas inferiores da vida animal ou vegetal. Tal ensino rebaixa a grande obra do Criador ao nível das concepções estreitas e terrenas do homem. [...] A genealogia de nossa raça, conforme é dada pela inspiração, remonta sua origem não a uma linhagem de micróbios, moluscos e quadrúpedes a se desenvolverem, mas ao grande Criador. Posto que formado do pó, Adão era filho ‘de Deus’ (Lucas 3:38).”[4] Guiados pela inspiração bíblica, reflitamos um pouco sobre esse relato incomum mas passível de credibilidade.

Trazendo a humanidade à existência, ao invés de usar a palavra (num ato de solitária ordem: “Haja!”, “ajuntem-se!”, “produza!”, “povoem-se!”), as pessoas da Divindade dialogam entre Si e compartilham a alegria de formar um ser peculiar. Em ação sublime e irrepetível, repleta de carinho, cuidado, perícia, propósito e amor, surgem homem e mulher envolvidos em glória e perfeição. Não criaturas bestiais, descendentes de uma linhagem de seres inferiores, e sim o ápice do fiat divino. Portanto, “embora partilhe com animais determinados aspectos físicos, o que é razoável visto dever, como eles, viver no mesmo mundo, respirando o mesmo ar e participando dos mesmos ciclos vitais, o homem emerge da natureza qual autêntica obra-prima da Criação. Do ponto de vista da classificação científica, todos os seres vivos, incluindo o homem, são colocados em um dos dois grupos. Ou são plantas ou são animais [...]. Por mais que o homem se pareça com os animais, estritamente do ponto de vista dos anatomistas e fisiologistas, mesmo assim as diferenças não são imaginárias [...]. Um macaco pode olhar um céu estrelado, mas unicamente o homem pode ponderar a sua significação [...]. É esta considerável diferença entre a mente humana e a mente dos animais que eleva o homem acima de qualquer classificação com os brutos [...]. Quando consideramos a anatomia e os processos biológicos do homem, em verdade, ‘a vantagem do homem sobre os animais não é nenhuma’ [...]. Os animais se sobrepõem ao homem em todos os sentidos que ele possui, e mesmo assim o homem estabeleceu seu domínio sobre a terra através do maravilhoso mecanismo da sua incomparável mente”.[5]

Formado do pó da terra e com o fôlego de vida a animá-lo, o homem reúne em si, numa inter-relação harmoniosa e indivisível, as dimensões física, mental e espiritual. Sua origem superior aponta para um destino excelente: o de usufruir a presença de Deus, experimentando-O no corpo por meio dos sentidos, alargando seu horizonte mental e adorando-O em espírito. Sendo “tridimensional”, o homem equilibra-se sobre a forte base de sua natureza marcada pelo divino.

O “pó da terra” é o elemento que nos mantém ligados ao restante da criação, a lembrança de que somos seres físicos, dependentes, finitos; o “fôlego de vida” simboliza o elo afetivo-espiritual entre criatura e Criador, apontando-nos a eternidade como alvo. Pessoa alguma alcança plenitude de vida exagerando a importância da matéria, dos sentidos, da imanência - elementos promotores do hedonismo e existencialismo humanista. Do contrário, esquecer e desprezar os deveres relacionados ao mundo material e social para se dedicar a uma existência de ascetismo, desconsiderando o mundo sensível, constitui convite à alienação que empurra o indivíduo para um abismo de abstração e incompletude, derivado de vaga e fluida metafísica. Na criação, matéria e fôlego combinaram-se fazendo do homem ser vivente pleno.       

Colocados num patamar de superioridade, homem e mulher erguem-se como rei e rainha do planeta. Coube-lhes a responsabilidade de serem tutores da Terra, administrando os variados ambientes do mundo - céus atmosféricos, águas e terra. Nesse domínio veio embutido o dom da ciência, podendo haver interferência e controle em cada espaço do planeta. De algum modo, fazendo uso do conhecimento e habilidades concedidos pelo Criador, o homem seria capaz de viajar às profundidades aquáticas, elevar-se a grandes altitudes e percorrer a largura e o comprimento do mundo. Eis o poder com o qual a raça foi dotada no princípio, porquanto a Terra deveria ser conhecida da forma mais abarcante possível. Afinal, era a sua morada cósmica, devendo cada compartimento da “casa” tornar-se familiar ao morador. Encerra-se a obra divina no sexto dia, sob feliz avaliação: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1:31).

O Criador abençoou os primeiros humanos com um lar-jardim, locus de deleite e paz inserido na Terra paradisíaca. Nessa bênção estavam inclusas: as relações sociais representadas nos vários laços que passariam a existir (“sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra”); a administração benigna do planeta envolvendo o cuidado das criaturas e do ambiente, a dádiva do prazer ao experimentarem os suprimentos de Deus e o descanso do sétimo dia. Além disso, uma ordem foi imposta a fim de se lembrarem dos limites de sua natureza e de que não eram seres infinitos nem deuses. “Não comerás do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” jamais significou uma restrição esdrúxula e arbitrária, mas sábio comando que, se obedecido, garantiria vida e felicidade eternas e revelaria a confiança do homem nas palavras de Deus. Para tristeza do Universo, infelizmente experimentamos o “sabor da morte” ao devorarmos o mal como a uma iguaria. Todavia, para alegria dos caídos deste mundo e dos não caídos seres que observaram o “espetáculo da desgraça humana”, uma porta de escape foi aberta ao inaugurar-se o plano de redenção. 

Em Observações filosóficas, Ludwig Wittgenstein interpela o leitor com a seguinte proposta: “Diga-me como você procura e lhe direi o que você procura”. Mais adiante, o filósofo expande o raciocínio: “O modo como você procura expressa de alguma forma o que você espera [encontrar]”. Por fim, ele arremata: “Uma pergunta denota um método de procura”. Na busca pelas origens humanas, temos muitas perguntas a fazer. A partir delas, construímos nosso método de investigação, talvez marcado por jogos de linguagem. O que esperamos encontrar acerca de nós mesmos? Aristóteles afirmou que “o homem é por natureza um animal político; Schopenhauer, por sua vez, declarou que “é um animal metafísico”. Já o primatólogo Frans de Waal conclui especulativamente: “Se em nossa essência somos grandes primatas, como eu suponho, ou se pelo menos descendemos da mesma linhagem dos outros grandes primatas, como todo biólogo (sic) supõe, nascemos com uma gama de tendências que vão das mais vis às mais nobres. [...] Podemos ser primatas perversos, mas isso é explicável e benéfico para o mundo”6. O fenômeno humano continua um controverso mistério. Quem sou eu? Pelo modo criacionista de enxergar a humanidade, não sou nem animal primata, nem anjo, nem demônio; tampouco divindade. Embora caído, continuo um ser edênico: ícone de Deus.

Frank de Souza Mangabeira

Referências:
1. Leakey, Richard. (1997). A origem da espécie humana; trad. Alexandre Tort. Rio de Janeiro: Editora Rocco Ltda.
2. Harari, Yuval Noah. (2017). Sapiens: uma breve história da humanidade; trad. Janaína Marcoantonio. Porto Alegre: L & PM.
3. Ap. Flori, Jean; Rasolofomasoandro, Henri. Em Busca das Origens: evolução ou criação? Madri: Editorial Safeliz, 2002, p. 281.
4. White, Ellen G. (2003). Patriarcas e ProfetasCasa Publicadora Brasileira: Tatuí, São Paulo.
5. Marsh, Frank Lewis. Estudos sobre criacionismo. Casa Publicadora Brasileira: Santo André, São Paulo.
6. Waal, Frans de. (2007). Eu, primata: por que somos como somos. Companhia das Letras.

quinta-feira, dezembro 27, 2018

A falta essencial


Lendo Platão, eu me recordo de que “a natureza humana é como um jarro rachado. Mal o enchemos, ele começa a se esvaziar”. Consequentemente, surge a carência, a mãe dos desejos dos mortais. Em cada vida existe uma falta significativa. Essa ausência fundamental constitui o dínamo de todas as buscas, a força que nos impele para a frente e nos leva à realização de atos nobres ou até absurdos e reprováveis. Perseguimos aquilo de que sentimos necessidade, não é mesmo? A humanidade, de todos os séculos, há de concordar comigo. Penso eu.

Do que o ser humano realmente precisa? As respostas multiplicam-se, conforme a carência nutrida. Para uns são as necessidades básicas – alimento, roupa, abrigo, etc. Ansiar tais coisas e exigi-las é legítimo. O clamor de milhões ecoa dia a dia pelo globo, como canção pungente – um réquiem prenunciador de morte –, rogando aos abastados o direito natural de possuir o fundamental para se viver. Privada dos bens de sobrevivência, a multidão padece à míngua, cercada, entretanto, de abundância. Na expressão apocalíptica, soa o apelo desses necessitados: “Quem tem ouvidos, ouça...” E quem tem coração ajude.

Outros não saberiam sobreviver sem coisas supérfluas, colocadas pela propaganda midiática como itens dos quais não se pode prescindir: celular, joias, carro novo, roupas “de marca”, e por aí vai. A lista prossegue ad infinitum... Muitos matam e morrem em razão de artigos perecíveis que “a traça rói e os ladrões roubam e minam”, consoante as palavras de Jesus Cristo. Ele também asseverou: “A vida de um homem não consiste na abundância de bens que possui.” A geração atual seria capaz de crucificá-Lo de novo, já que Sua incômoda afirmação choca-se frontalmente contra a era narcísica de consumismo voraz na qual nos encontramos.

De maneira perceptível, o consumidor pós-moderno, em seu estado crítico de carência, devora não só produtos, mas também informação, ideologias, tecnologia, ciência, filosofia e múltiplas espiritualidades. Ainda assim, permanece faminto, insatisfeito, um eterno glutão empanturrado de vazio. A realidade evidencia que o homem contemporâneo, imerso em seu conturbado processo histórico, assemelha-se ao mítico rei grego Erisícton. Somos acometidos de uma fome insaciável tanto pela matéria física quanto pelo material simbólico. Essa ânsia ameaçadoramente destrutiva, se não for controlada, tem o potencial de aniquilar o próprio eu.

Voltemos aos necessitados. Existem aqueles agrupados numa categoria sui generis, os quais não vivem sem o brilho do status. E o status assume variadas e disfarçadas feições: o mais inteligente, o mais poderoso, o mais influente, o mais conquistador, o mais bonito, o mais... Não devemos nos esquecer também dos indivíduos sob constante excitação e adrenalina. Prazeres, festas, luzes, sons e badalação, eis o alvo e referência desse grupo. Eu poderia inventariar outras classes de seres carentes; contudo, vou parar por aqui com mais uma afirmativa categórica de Jesus: “Filho, uma coisa te falta.” A carapuça que Sua declaração traz ajusta-se na cabeça de todos nós.
 
Entre inúmeras coisas importantes, pressinto a falta de uma que é suprema. Você, leitor, seria capaz de identificá-la em mim, em ti, em nós? Ai! A visão humana é tão míope, finita, embaçada, sempre desviando o olhar para outros elementos mais aparentes, mais atraentes, mais “necessários”. Eu vou lhe dizer em que consiste a falta essencial. Podemos classificá-la como um princípio latente, inconsciente, subjacente à estrutura do Homo sapiens (sapiens?). Não estranhe o eco (-ente) nos três adjetivos: enfatiza a insistência humana em querer ter sua carência basilar satisfeita.

A quintessência presente nas grandes almas não é algo além do alcance da frágil natureza humana. Está disponível a qualquer desejante em potencial, bastando apenas que se tenha boa vontade e decisão em adotá-la como princípio norteador da vida. Encontra-se por trás do silêncio; no inaudito diz tudo, mas também se revela nas palavras simples ou eloquentes. Esconde-se em ações pequenas e GRANDES e oculta-se à sombra de declarações corriqueiras e aparentemente envelhecidas pela banalidade dos superficiais. “Posso fazer algo por você? Eis aqui minha mão estendida”; “Choro com o seu sofrimento”; “Eu o entendo e o acolho, embora tenhamos diferenças”. Tais frases, entremeadas com a semântica da vida, afugentam o egoísmo natural que dá voltas em torno do próprio umbigo. Não se desgastam com o passar dos dias, não desaparecem diante das provas do quotidiano nem evaporam sob o calor massacrante da rotina; elas se renovam em cada enunciação e ação.

Apresento-lhe a falta essencial, a palavra-chave realçada e repetida, implícita ou explicitamente, neste texto: o amor, energia poderosa capaz de transformar o mais rígido e empedernido ser. Ele ultrapassa o sentimentalismo barato, indo além do discurso morto dos conceitos abstratos a fim de salvar a experiência humana do niilismo com seu abismo existencial. Em nossa contingência abissal, o amor é a corda lançada no poço sem fundo para de lá resgatar quem está caindo. Ou no pensamento que só a pessoa encharcada de poesia poderia expressar: “Tudo que sabemos do amor é que o amor é tudo que existe. É o tudo e o nada, o momento que passa e o infinito que fica, a transfiguração dos mundos.”

Na percepção de quem ama, a Terra vem saindo de sua “órbita” porque a força da gravidade do amor enfraqueceu-se, deixando de exercer controle sobre nós. Estranhamente, no planeta da abundância falta o tudo. Apesar de tal constatação desanimadora, em sinal de esperança e resgate da vida, o amor, sempre aqui conosco, paira sobre cada ser necessitado, oferecendo plenitude, querendo resgatar o sentido trans-histórico ofuscado e deixado para trás. Sendo o poder mantenedor do equilíbrio universal, como palavra na boca dos humanos, o amor, todavia, constitui um grande problema de interpretação. Talvez por isso ele se apresente simples e complexo, perfeito e imperfeito, ambivalente. Uma coisa é certa, porém: sem amor perde-se o espírito comunicativo e desponta a carência do bom, do belo, do que dizer.

Quando o epílogo de tudo um dia chegar, o amor permanecerá como o “amém do Universo”, a palavra final, pois estamos informados mediante as reveladoras declarações inspiradas de que, ao término do grande conflito da vida, com a extinção do pecado – o opositor do amor –, o Universo inteiro será purificado. Nesse cenário de nova realidade, “uma única palpitação de harmonioso júbilo vibra por toda a vasta criação. DAquele que tudo criou emanam vida, luz e alegria por todos os domínios do espaço infinito. Desde o minúsculo átomo até ao maior dos mundos, todas as coisas, animadas e inanimadas, em sua serena beleza e perfeito gozo, declaram que Deus é amor”.

O amor – a alma do mundo – configura-se no caminho mais excelente e seguro a percorrer, sendo a prova da ligação do homem com o Transcendente. Somos capazes de viver sem muitas coisas, exceto sem o amor. Não se pode existir sem o desiderato da vida. Tem carência dele, caro leitor? O mundo inteiro tem.

Frank de Souza Mangabeira

segunda-feira, outubro 29, 2018

A sensação escatológica


Escatologia é uma palavra de origem grega, peculiar ao vocabulário teológico. Ela diz respeito ao estudo dos eventos finais relacionados à história da Terra e do gênero humano. Marcada por forte semântica de sobrenaturalidade, a escatologia, embora negada e combatida pelo racionalismo, faz-se sentir de forma universal como aura misteriosa a circundar o mundo. 

Pressente-se um intenso “clima de fim” envolvendo os sentimentos, os pensamentos e os discursos (políticos, religiosos, científicos, filosóficos, etc.) da sociedade em geral. Estamos tomados por algo que eu chamo de “sensação escatológica”: certa intuição de insegurança, instabilidade e incerteza que se apossou de quase todos. É como se os acontecimentos da vida, na esfera individual e coletiva, rumassem descontroladamente para o precipício, sendo conduzidos até à consumação. O que está acontecendo?

Desde tempos muito remotos, formas de apocalipse sempre se fizeram presentes no inconsciente coletivo da humanidade. A sensação escatológica perpassou crenças, sistemas e ideologias, sem nunca nos abandonar. No mundo mítico, por exemplo, com raras exceções, a consciência era permanentemente lembrada acerca do “fim do mundo”, do Ragnarök ou juízo final em que o céu e a Terra passariam por perturbações catastróficas, a fim de darem lugar a uma nova realidade. Sob eventos cíclicos ou lineares, as coisas, os seres e mesmo os deuses permaneceriam sujeitos à fatalidade, à vontade do cego e inexorável Destino.

Já no plano filosófico, inaugurando a era da “morte de Deus”, Nietzsche trouxe para a imanência o elemento escatológico do niilismo. Com sua parábola do homem louco no mercado bradando “Deus morreu! Deus permanece morto!”, o filósofo do martelo – um tipo de profeta secular e fenomenólogo certeiro – ao arremessar seu martelo esmiuçador até mesmo nos píncaros da transcendência, pretendera vaticinar o colapso das grandes estruturas da civilização ocidental. Assim, moral cristã, metafísica, ciência e a própria filosofia, na voz nietzscheana, fitaram o abismo cara a cara. “Naturalmente”, pondera George Siegmund em O Ateísmo Moderno – História e Psicanálise, “com o desmoronamento da fé em Deus desaba também todo o chão sobre o qual até então descansavam os valores; o abismo do niilismo que se abre ameaça tragar tudo [...]. O homem viajante perde assim toda a meta, todo o caminho; vê-se cercado pela noite purpúrea da loucura”. 

Ainda em tempos de grande luz no campo do saber, os cientistas descrevem cenários nada promissores, imagens do fim que lançam sombras sobre o nosso planeta e o Universo. Livros e revistas populares de divulgação científica estão cheios de “profecias” acerca da consumação de todas as coisas, a exemplo de O Fim da Terra e do Céu: O apocalipse na ciência e na religião, obra na qual o físico brasileiro Marcelo Gleiser expõe, numa linguagem meio romanceada e quase religiosa, que “o fim está próximo!” e “os céus estão caindo”. Afinal, não foi o grande cientista Stephen Hawking quem declarou: “Apesar de serem baixas as possibilidades de um desastre no planeta Terra em um ano qualquer, isso vai se acumulando com o tempo e se transforma em uma quase certeza para os próximos mil ou dez mil anos”? Seja na concepção científica materialista ou na crença hindu do Bhagavad Gita, ecoa a voz escatológica: “Eu sou o Tempo, o grande destruidor.”

Tratando-se da cosmovisão cristã, a escatologia assume proporções tão grandes que só pode ser apresentada por meio de símbolos, metáforas e representações apocalípticas. Os sinais do Armagedom - “a guerra das guerras” - anunciam o fim de tudo não por causa de colisões cósmicas, morte térmica do Universo ou algo parecido. O eskhaton, no pensamento e profecia bíblicos, acontece em razão da direta interferência divina na História: imperiosa necessidade e única solução para os dramas humanos globais, pois “os ecologistas observam a desintegração de nosso planeta, mas parece que ninguém está disposto a fazer alguma coisa a respeito. Os economistas não conseguem superar seu pessimismo. O desemprego mundial está crescendo. Parte da população do mundo enfrenta o perigo real de morrer de fome. É claro, estamos simplesmente acostumados demais com esses números; eles já não nos incomodam mais. [...] A situação política repousa em solo instável. A paz é de fato um objetivo quando os poderes mundiais se reúnem. Mas as armas continuam debaixo da massa de tratados e organizações. Vivemos à sombra de nuvens atômicas. Não há país que, de alguma forma, não esteja envolvido em algum tipo de conflito. Todas as ações políticas têm repercussão no cenário internacional. Quanto ao estado moral da nossa sociedade, é quase irreconhecível, tão desfigurado se tornou pelo crime, violência, drogas, álcool e doenças. Ninguém é poupado, pois essa condição afeta todos os níveis da sociedade. Simultaneamente, tem surgido uma nova raça de homens e mulheres: os profissionais de sucesso. Quaisquer que tenham sido os nossos ideais artísticos e morais, eles foram substituídos pelo ideal da nossa sociedade, o único pelo qual vale a pena lutar: o dinheiro. A virtude agora é proporcional ao desempenho. A humanidade contemporânea deseja, com todas as forças, se tornar cada vez mais eficaz e cada vez menos humana. Nossa civilização incita os piores desastres, mas ainda assim estamos sãos e salvos. Ainda andamos pelas ruas de nossas cidades. A televisão ainda sussurra as palavras e imagens encorajadoras de nossa prosperidade; e se isso não acontece, não haveria problema, pois seria só um filme mesmo! Nós reciclamos. Fazemos exercícios. Fechamos os olhos e meditamos, recusando enfrentar a lenta putrefação de nossa sociedade decadente e preferindo ignorar os slogans de uns poucos excêntricos. Afinal de contas, todos os nossos líderes falam de uma forma que tranquiliza , e o povo acaba pegando no sono. E as flores do mal germinam por todos os lados. [...] Não há terra, não há ilha, não há tribo remota que possa escapar. É um verdadeiro ‘tempo de angústia’.”

Parece que nos achamos perante o dobre de finados da história; contudo, para o teólogo cristão, “a cortina não desce na tragédia”. Embora o próprio Jesus tenha discursado escatologicamente ao afirmar que “os homens desmaiarão de terror, apreensivos com o que estará sobrevindo ao mundo”, Ele conclui em tom de esperança: “Quando começarem a acontecer estas coisas, levantem-se e ergam a cabeça, porque estará próxima a redenção de vocês” (Lucas 21:26, 28). Em síntese, arrisco afirmar, sob pena de ser considerado supersticiosamente religioso, que somos seres com uma fixação pelo fim. Nossa natureza mortal e o peso da finitude geram e desenvolvem em nós esse sentimento escatológico.

Numa longa entrevista transformada em livro, respondendo à pergunta que lhe fora feita, o filósofo alemão Martin Heidegger asseverou: “A filosofia não pode provocar nenhuma alteração imediata do atual estado do mundo. Isso não é válido apenas em relação à filosofia, mas também a todas as meditações e anseios meramente humanos. Já só um deus nos pode ainda salvar.” Otimistas ou pessimistas, teístas ou não, somos todos escatológicos. Imbuídos de tal sensação, a perspectiva da esperança apoiada em Deus faz toda a diferença.

Frank de Souza Mangabeira

segunda-feira, setembro 24, 2018

Em face da morte: no abismo do nada ou nos braços de Deus?

Conta-se que “no início de setembro de 1869, Leon Tolstoi escreveu uma carta à esposa Sonya, que começava assim: ‘Uma coisa extraordinária me aconteceu em Arzamas. Eram duas e meia da manhã [...]. De repente, fui tomado de um desespero, um medo, um terror tal que nunca tinha conhecido antes. Depois lhe contarei os detalhes.’” O filósofo Kerry Walters, comentando esse estranho episódio, relata: “Quando passou sua noite terrível em Arzamas, Tolstoi tinha quarenta e poucos anos, excelente forma física e era marido e pai feliz. Era rico e aclamado em toda a Europa, como um dos maiores escritores de seu tempo. Além disso, acabara de dar os últimos retoques em sua obra-prima, Guerra e Paz. Estava no auge da vida. Tolstoi decidiu dar-se umas férias, viajando centenas de quilômetros até uma propriedade que estava interessado em comprar. A caminho, no meio da estepe russa, parou para passar a noite em uma tosca estalagem no vilarejo isolado de Arzamas. Jantou e se retirou para o quarto, completamente em paz consigo mesmo e com o mundo. Mas, nas horas escuras antes do amanhecer, Tolstoi acordou em pânico, com a certeza de que havia uma presença sinistra no quarto com ele. Tentando se acalmar, murmurou: ‘Isto é ridículo [...]. Do que estou com medo?’ Então ouviu uma resposta: ‘De mim’, respondeu a Morte. ‘Estou aqui.’”

O próprio Tolstoi narrou posteriormente que “um tremor frio percorreu-me a espinha. Sim, a Morte. Ela virá, já está aqui, embora nada tenha a ver comigo agora [...]. Todo o meu ser padecia com a necessidade de viver, o direito de viver e, no mesmo instante, senti a morte em ação. E foi horrível ser partido por dentro. Tentei afastar meu terror. Achei um toco de vela em um cadelabro de bronze e o acendi. A chama avermelhada, a vela mais curta que o castiçal, tudo me dizia a mesma coisa: não há nada na vida, não existe nada a não ser a morte e a morte não deveria existir!” Sobre a experiência esquisita e apavorante do escritor russo, Kerry Walters conclui: “Tolstoi iniciou a viagem de volta para casa completamente mudado. Essa horrível noite de pânico da morte no fim do verão de 1869 marcou-o para o resto da vida. O conto de Tolstoi ‘A morte de Ivan Ilych’, um dos retratos ficcionais mais absorventes e autênticos do processo de morrer, surgiu dessa experiência”.

Certa vez me perguntaram se eu tinha medo de morrer. Respondi que não gostaria de morrer; por isso, há dentro de mim o receio da morte. Tal como Tolstoi, eu só poderia encará-la com amedrontamento. No entanto, em maior ou menor grau, embora o medo da morte seja um sentimento universalmente experimentado, existiria a possibilidade de a “indesejada das gentes” ser enfrentada com certa coragem e até mesmo com esperança? Ou seria muita pretensão só cabível na ficção poética de Manuel Bandeira?

“Quando a Indesejada das gentes chegar / (Não sei se dura ou caroável), / Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: / — Alô, iniludível! / O meu dia foi bom, pode a noite descer. / (A noite com seus sortilégios.) / Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar.”

Quem não se lembra daquele ente amado pelo qual são derramadas lágrimas de saudade? Eu mesmo já perdi para a morte – recentemente até – algumas pessoas preciosas. A consciência da perda (saber que meus queridos passaram para a inexistência antes de mim) aumentou ainda mais minhas reflexões acerca do processo de morrer, o qual já começa com o nascimento. Pois, diferentemente dos animais, o homem morre e sabe que morre. Esse conhecimento instiga seu temor e curiosidade a ponto de questionar: “O que acontecerá comigo quando eu me for? Desaparecerei para sempre ou haverá alguma forma de sobrevivência do meu eu?”

Constitui a vida uma trajetória para o nada, a completa dissolução a ponto de virarmos “poeira das estrelas”? Ou morrer significa a “passagem” para um suposto mundo pós-morte, de acordo com algumas crenças religiosas? Morrendo, entramos de fato na extinção total ou passamos para outro estado de “vida”? São ideias antagônicas apresentadas à humanidade, as quais nos desafiam a investigar a natureza da morte e a buscar um meio de escapar dela.

Comecemos pela proposta niilista. Livros como Nos Cumes do Desespero (1932), Breviário de Decomposição (1949), A Tentação de Existir (1956) e Do Inconveniente de Ter Nascido (1973), todos do filósofo romeno Emil Cioran, exalam um pathos nauseante como se quisessem mostrar que a vida é mero acidente, sendo a morte a regra inexorável da existência, que sempre existiu e sempre existirá. Tudo morre e morrerá. Diz Cioran: “É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido.” Por outro lado, “com efeito, se o homem vem do nada para, no fim, retornar ao nada, por que, então, não ficou no nada de vez? Seria a parábola da vida um desvio breve, inútil e absurdo? É o que exprime a inscrição de um epitáfio romano antigo: In nihil ab nihilo quam citius recidimus (‘Quão rapidamente caímos do nada para o nada’)”. Para os mortalistas modernos, “os homens não passam de futuros mortos”, ou no verso pessimista de Fernando Pessoa, “cadáveres adiados que procriam”.

Na obra O Livro do Sentido: Crise e busca de sentido hoje (volume I), o teólogo católico Clodovis Boff enuncia as raízes ontológicas da vontade de viver. Em outra perspectiva, a da esperança firmada no Transcendente, ele expõe convicção contrária ao pensamento de Emil Cioran: “Se o sentimento de finitude e, portanto, de insegurança e angústia é elementar, especialmente em relação à morte, não constitui, contudo, o stimmung primeiro e mais profundo, como querem as atuais filosofias pessimistas. [...] A disposição mais originária do ser humano é a da criaturalidade, esse sentimento positivo e maravilhoso de viver, que é o sorver a vida em sua própria fonte criadora. Ora, é aí que se encontra a origem última da ‘vontade de viver’, e de viver cada vez mais. Portanto, a disposição existencial de estar voltado para a vida é mais radical do que a de estar voltado para a morte. O apetite de viver é mais arcaico e mais poderoso do que o de morrer. A pulsão de morte tem raízes psicológicas e mesmo existenciais, mas só a pulsão de vida tem raízes verdadeiramente ontológicas. [...] O Homo religiosus, por sentir a existência como um dom do alto, vive a experiência de finitude não só de modo conformado, mas na gratidão, na confiança e na coragem. Como finito, o homem sente-se ‘dado’, e dado por Alguém. [...] Exclama então: ‘Como é maravilhoso existir, quando se poderia não ter vindo à existência. E se existo, não precisando existir, é porque existo de graça e por graça. Gozo de uma vida que me é dada, sem tê-la em absoluto merecido.’ [...] Portanto, a experiência exultante da criaturalidade, a experiência de ser criado, propicia afirmar-se diante de um mundo precário e perigoso a partir da vinculação ontológica com a fonte de tudo.” 

Por mais desalentador que seja, eu tenho de concordar com o pensamento niilista num único aspecto: ao morrer, o homem adentra o reino do esquecimento e da inexistência completa. Morte é morte mesmo, em que tudo se desfaz e nada sobrevive. Contudo, discordo do espírito absoluto do niilismo, porque acredito no triunfo da vida mediante a esperança escatológica. O que isso significa? Partindo do pressuposto bíblico, assim como a vida surgiu por intervenção sobrenatural, quando, no princípio, a Terra “sem forma e vazia” (em estado caótico e morta, por assim dizer) foi organizada e embelezada por Deus, semelhantemente esse mesmo Ser intervirá na situação trágica atual do planeta para trazer de volta aquela condição de existência original da qual a morte não fazia parte. Essa fé no ato divino de recriação, que o ateu niilista considera utopia e consolo enganoso, para o crente é sólida certeza baseada na promessa da ressurreição e restauração total de todas as coisas, consoante a revelação cristã (1 Coríntios 15).

Voltemo-nos agora para outra compreensão radical acerca da morte, defendida pelas correntes religiosas que tomam os termos “espírito” e “alma” como entidades conscientes que sobrevivem ao desfazimento do corpo. Alicerçado sobre a crença equivocada de que o homem é inerentemente imortal, o espiritualismo, em todas as suas vertentes, apregoa o seguinte: “Morrer não é morrer”, mas entrar num plano alternativo de “existência”.  À primeira vista, tal fé parece manter certo ponto de contato com a máxima do químico francês Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Logo, a morte seria apenas um tipo de transição, e o corpo físico mero invólucro da alma que nunca perece. Essa ideia persuasiva, que vem desde a antiguidade, herdada da mentalidade grega e incorporada a crenças cristãs contemporâneas, tornou-se a “esperança” de grande parte da humanidade não conformada com o aniquilamento do ser. Entretanto, a concepção espiritualista é totalmente estranha e antagônica ao pensamento judaico-cristão pautado nas Escrituras, uma vez que na antropologia bíblica o homem, ser vivente, não tem uma alma, ele é uma alma que morre. Portanto, a dicotomia separatista espírito/corpo encontra no testemunho bíblico seu mais forte oponente. Nesse aspecto, o espiritualismo constitui um engano religioso de primeira linha, sustentado na grande mentira dita à mulher no Éden: “Certamente não morrereis” (Gênesis 3:4).

Confrontados com o ensinamento bíblico, tanto o niilismo, que nos empurra para o nada absoluto, quanto o dogma espiritualista, que não reconhece a natureza essencialmente mortal do ser humano, apresentam-se como propostas poderosas e cativantes, mas são profundas distorções da verdade no plano filosófico e religioso. O primeiro, com seu olhar extremamente pessimista, contempla a precariedade humana e as tragédias do mundo e deduz que a vida, imersa no escuro, será desfeita no nada total; já o segundo – sendo uma forma elaborada de negação da morte – assume feição enganosa ao aproveitar-se do nosso desejo de imortalidade e da intuição elementar e legítima de que não fomos criados para cair definitivamente no esquecimento, já que “Deus pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” (Eclesiastes 3:11). Nesse caso, o espiritualismo coloca uma máscara na face da morte, escondendo a fealdade dela por meio da contrafação. A “solução” advinda desse sistema religioso, embora atraente para muitos, é fábula na forma de doutrina que, no fim, acabará decepcionando quem nela acredita.

Retomando a experiência de Tolstoi, reflete Kerry Walters: “Muitos de nós tivemos nossa própria noite escura de Arzamas, na qual fomos atingidos no estômago pela percepção de que um dia a morte vai nos aniquilar completamente, que o mundo vai continuar e nós não vamos. Nesses momentos de desorientação, não adianta apelar ao antigo argumento de Epicuro, de que ‘onde a morte está eu não estou e onde eu estou a morte não está: então, por que temer a morte?’” Penso eu que só temos condição de não temê-la, escapando de sua soberania, por meio da fé bíblica – “uma afirmação triunfante da vida” –, na qual vislumbramos tanto a explicação do enigma quanto a saída final desse cativeiro. Dessa forma, só existe uma proposta – nem fatalista nem ilusória – capaz de nos trazer a solução desejada: o drama histórico da crucifixão de Cristo, cujo significado assume proporções que transcendem as fronteiras do nosso mundo para repercutir por todo o Universo.

Na experiência do “bom ladrão”, naquela tarde de sexta-feira crucial, a morte defrontou-se com a esperança última, perdendo a supremacia ontológica. Em seu momento decisivo, nem o niilismo nem o enganoso consolo espiritualista de vida pós-morte ofuscaram a confiança do homem moribundo na Pessoa divina de Jesus. Seu olhar encontrara a Verdade, o Doador da vida que também estava morrendo pelos pecados dos seres humanos, segundo as Escrituras. Por meio da fé, o pobre mortal teve a garantia de voltar a viver não naquele mesmo dia, mas na grande e futura “manhã da ressurreição”. Apostando numa existência eterna, o ladrão arrependido se lança nos braços de Deus com a súplica final: “Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu reino.” A resposta veio imediata: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:42, 43).

Diante da “ameaça do não ser”, serão lembrados por Deus os mortais deste planeta? Se a morte não deveria existir, mas entrou intrusamente em nosso mundo, governando com mão de ferro a vida, então a esperança da raça humana é estar guardada na lembrança de Deus. Seja qual for o momento – quando tudo vai bem ou quando somos assombrados pelo espectro da morte –, cada pessoa precisa suplicar a Jesus por existência eterna. Ele, que desceu à sepultura, mas, saindo dela, afirmou triunfantemente “Eu sou a ressurreição e a vida” (João 11:25), não deixará de ouvir o pedido daqueles cuja escolha em segui-Lo pode se dar mesmo nos momentos derradeiros de vida.

Todos os que desceram à sepultura, “dormindo em Jesus”, levaram consigo a promessa divina de que serão vitoriosos sobre a morte para usufruir vida sem fim ao lado do Criador. Eles partiram apossando-se das palavras ditas por Cristo ao suplicante na cruz: “Estarás comigo no paraíso.” Vivendo ou morrendo, que a oração do “bom ladrão” seja também a nossa: “Senhor, lembra-Te de mim!”

Frank de Souza Mangabeira

quarta-feira, julho 25, 2018

No princípio: por uma explicação das origens que inclua Deus

Vivemos ainda na tão proclamada pós-modernidade, sob o guarda-chuva conceitual do “Deus está morto” nietzschiano, seja qual for a interpretação dada a esse pensamento. Sendo assim, esta é uma época caracterizada pela incerteza e, como tal, um tempo de pluriontologias em que – na opinião das pessoas guiadas pelo nietzscheísmo ou por outras filosofias relativistas – não há resposta última, absoluta ou definitiva para explicar a realidade. A impressão que se tem, no entanto, é a de que as metanarrativas não morreram com a suposta morte de Deus, mas continuam por aí competindo entre si e guerreando com as “espadas” da ciência, da filosofia e da teologia.

O pluralismo ontológico - estranho desafio à metafísica - “sustenta que realmente não há uma resposta certa para muitas perguntas ontológicas. De acordo com o pluralista ontológico, há apenas maneiras diferentes de descrever a realidade, e nenhuma delas é mais correta ou mais precisa do que a outra. Não há nenhuma verdade absoluta em resposta a essas perguntas”. Em resumo, tudo é provisório, e estar convicto de algo seria o mesmo que se autoenganar ou, quando muito, participar de um jogo de linguagens. Consequentemente, a pergunta “o que é a verdade?” perde o sentido, restando apenas a crença de que a verdade é um construto da mente humana. Todavia, há um impulso por respostas profundas agitando o íntimo do homem, sempre incomodando-o. Ele não abre mão, sobretudo, de tentar entender a origem do Universo e do mundo nos quais está inserido. Inquieta e curiosa, a humanidade lança o olhar ao longínquo e nebuloso passado e indaga: “Qual ontologia poderia me dizer de onde eu vim e quem eu sou?”

Na concepção científica majoritária, a teoria geral da evolução (nas suas modalidades de evolução cósmica, química e biológica) constitui o fator explanatório por excelência “capaz” de apresentar respostas acerca das origens. O discurso de seus porta-vozes mais dogmáticos propõe: “Darwin efetivamente varreu o propósito para o lado no mundo vivo”, e “todas as reimposições do propósito são artifícios dos religiosos para alimentarem a sua fé”. Pensando assim, Peter Atkins, químico de Oxford, não vê nenhuma contribuição a ser oferecida pela religião, pois ela só apresenta “soluços vazios e flatulência verbal que passa por exposição teísta”. Na imaginação radical desse cientista ateu, “a humanidade deve aceitar que a ciência eliminou a justificação para crer no propósito cósmico”. Em seu livro Creation Revisited, Atkins acredita que o Universo surgiu porque “por acaso houve uma flutuação no vazio”: tese mais espantosa e fantástica do que apelar para o Criador!

Os opositores do modelo bíblico das origens acentuam a superioridade da teoria da evolução como o melhor modelo apresentado pela ciência, caso Deus seja excluído das explicações. Entretanto, conforme salienta o zoólogo criacionista Ariel Roth, “a perseverança que os evolucionistas têm demonstrado é altamente elogiável. Mas, após dois séculos de uma busca essencialmente infrutífera, chegou a hora de os cientistas considerarem com seriedade alternativas não naturalistas. O planejamento da vida por uma inteligência racional como Deus parece necessário para explicar aquilo que a ciência está continuamente descobrindo”. Porém, esclarece Roth, “essencialmente Deus é excluído dos compêndios e revistas científicos. Como atualmente praticada, a ciência é uma combinação peculiar de pesquisa em busca da verdade sobre a natureza, e de filosofia secular excludente de Deus. Lidamos hoje com uma comunidade científica que tem esse forte compromisso materialista (mecanicista, naturalístico), que considera anticientífico incluir Deus como fator explanatório na ciência. Não é permitida a presença de Deus no cardápio das possíveis explanações científicas. Isso desmente o quadro usual da ciência, que é apresentada como pesquisa aberta da verdade, que segue os dados da natureza para onde eles possam conduzir”.

De várias maneiras, há esforços poderosos a fim de eliminar Deus da paisagem do mundo natural. É “pecado” mencioná-Lo. Quanto a decifrar o enigma das origens, a ciência materialista proclama sua total confiança na razão humana e em suas ferramentas de laboratório. Nada contra a tentativa, uma vez que “pode ser inofensivo pesquisar além do que a Palavra de Deus revelou, se nossas teorias não contradizem fatos encontrados nas Escrituras; mas aqueles que deixam a Palavra de Deus e procuram explicar Suas obras criadas por meio de princípios científicos, estão vagando sem mapa nem bússola em um oceano desconhecido”, adverte Ellen G. White.

O orgulhoso cientificismo não reconhece a existência de uma fronteira demarcada pela Revelação, além da qual não podemos passar; limite imposto pelo “está escrito”. Em palavras mais exatas: “Precisamente como Deus realizou a obra da criação, jamais Ele o revelou ao homem; a ciência humana não pode pesquisar os segredos do Altíssimo. Seu poder criador é tão incompreensível como a Sua existência”. Essa declaração de Ellen G. White encontra eco em Phillip Johnson, um dos proponentes do Design Inteligente: “A investigação científica da origem da vida está efetivamente fechada como se Deus tivesse reservado o assunto apenas para Si mesmo.” Seria isso arbitrariedade divina, capricho, tal como a mítica ação de Zeus que acorrentou Prometeu nos rochedos do Cáucaso porque o titã roubou o fogo dos deuses e levou o conhecimento aos homens? Por que então a porta da explicação última continua fechada? Quem sabe para levar o homem ao reconhecimento de suas limitações; para mostrar-lhe que o domínio total da matéria é de outro Ser; para conscientizá-lo de que não é um deus, mas criatura; para frear o seu poder destruidor sobre a natureza e até para lhe permitir avançar no conhecimento. E o mais importante: deixar viva no homem a necessidade de adoração. Por isso, o Criador pergunta aparentemente em tom de desafio:

 

Onde você estava


Quando os elétrons bailaram pela primeira vez / E o Universo ferveu, aceso, no calor da criação?
Por acaso, assistiu / Quando as bolhas de fogo giraram em rodas amarelas, / E romperam, com chamas, os limites da escuridão?

Você não viu./ Nem contemplou o esplendor, / Pois seus olhos humanos / Não suportariam o calor. / Mas Eu vi!

E foi você / Quem escreveu a melodia que ressoou em ondas, / Chamando os átomos para dançar com as estrelas? / Certamente não foi, / Pois essa música foi escrita em tons maiores, / E veio autenticada com as Minhas chancelas.

Você não a compôs. / Nem seguiu a melodia, / Pois sua voz humana / Não alcança a escala. / Mas Eu cantei.

E como se atreve a dizer, / (Você, fraco, frágil e passageiro) / “Eu sou quem observa: sem mim nada existe!”? / Tolo! Como se vivesse para sempre! / Nem viu seu filho se formar no útero da mãe. / Ao nascimento do Cosmos, há Um só que assiste.

Sim, Eu observei. / Eu fiz os traços / E dirigi os passos / Eu sou o Senhor da Dança / Sou Eu.

No estudo da natureza não precisa haver duelo entre Deus e homem. As sentenças poéticas acima podem ser entendidas como um convite à investigação, ao raciocínio e à pesquisa, os quais levem em consideração o Agente divino como o fundamento da realidade material. Vemos desafio semelhante nos capítulos 38 a 41 do livro de Jó, onde Deus Se apresenta como o “grande Inquisidor”, levantando perguntas sobre o mundo natural perante o sofrimento inexplicável de Sua criação. O texto mostra um Pai que cuida do mundo, especialmente dos seres humanos (Mateus 10:29-31), evidenciando o controle e a soberania divina sobre todos os fenômenos e acontecimentos, mesmo os mais dramáticos.

Investigar a natureza, dominando-a benignamente, significa encontrar a Fonte espiritual da matéria, porquanto “qualquer que seja o ramo de investigação a que procedamos com um sincero propósito de chegar à verdade, somos postos em contato com a Inteligência invisível e poderosa que opera em tudo e através de tudo”. As coisas criadas estão aí para nos ensinar não apenas sobre elas mesmas, mas também acerca do seu Autor. Esta é a tese de Jó ao declarar: “Mas, pergunta aos animais, e cada um deles te ensinará, e às aves dos céus, e elas te farão saber; ou fala com a terra, e ela te instruirá, até os peixes do mar te informarão. Qual dentre todas essas coisas não sabe que a mão do Senhor fez isto?” (Jó 12:7-9). Igual pensamento tinha o teólogo e filósofo medieval Boaventura. Ele acreditava ser a criação um guia para o Criador: “Todas as criaturas deste mundo sensível conduzem a alma da pessoa sábia e contemplativa para o Deus eterno, já que são as sombras, ecos e efígies, os vestígios, imagens e manifestações desse primeiro princípio mais poderoso, sábio e melhor que há; dessa origem eterna, luz e plenitude, dessa Arte produtiva, exemplar e ordenadora. São postos diante de nós para que conheçamos Deus; são sinais divinamente dados. Pois toda criatura é, por natureza, um tipo de retrato e semelhança dessa Sabedoria eterna.”

No tocante a processos empíricos e laboratoriais, explicar o funcionamento das leis da natureza permitiu à ciência grande desenvolvimento. Contudo, a ciência humana ainda é uma criança assustada e impotente quando se depara com o “início dos tempos”. Sonhar, conjecturar, hipotetizar e construir modelos teóricos é o máximo que ela consegue. Verdadeiramente, “pensar os pensamentos de Deus de acordo com Ele”, consoante o ilustre astrônomo Johannes Kepler, deveria ser o objetivo do empreendimento científico, já que “o principal objetivo de todas as investigações do mundo exterior deveria ser o de descobrir a ordem racional nele imposta por Deus e por ele revelada na linguagem da matemática”.

No princípio...

Em se tratando das origens, sempre nos sustentaremos em argumentos de autoridade: ou no que afirmam os cientistas e filósofos com suas controversas especulações ou no que declara a Revelação. Com Gênesis ou sem o fiat divino, essa busca por explicações só indica uma coisa: queremos saber! Não há objetivo filosófico e científico mais nobre. Entretanto, a resposta última e mais adequada terá características sempre metafísicas e religiosas: Deus fez! Quando os cientistas, com seus processos de investigação, reconhecerem tal fato, terão realizado sua maior descoberta e dado o maior salto de humildade da história.

Frank de Souza Mangabeira