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sábado, 26 de outubro de 2013

Abertura de concurso público para escolha de próxima direcção da Cinemateca


Pelo menos até agora, terá passado despercebido à maior parte da comunicação social este aviso publicado em Diário da República no passado dia 23 de Outubro, que diz:

"Nos termos do disposto no n.o 2 do artigo 19 da Lei n.o 2/2004 de 15 de janeiro, alterada e republicada pela Lei n.o 64/2011, de 22 de dezembro, torna-se público que a CReSAP, entidade responsável pelo procedimento, vai proceder à abertura, pelo prazo de dez dias úteis a contar da presente publicação, do procedimento concursal n.o 213_CRE- SAP_144_09/13 de recrutamento e seleção do cargo de Diretor da Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema, I. P. (...)"

O que nesse aviso se anuncia tem duplo interesse: primeiro, consubstancia o afastamento da direcção da Cinemateca Portuguesa, algo que interpreto como uma decorrência das declarações recentes do secretário de Estado da Cultura; segundo, pela primeira vez na história da instituição, e seguindo a recomendação que eu apontara aqui, a direcção da Cinemateca vai ser nomeada por "procedimento concursal" aberto "a todos os cidadãos nacionais, no uso dos seus direitos civis".

O concurso, administrado pela Comissão de Recrutamento e Seleção Para a Administração Pública (CReSAP), estabelece uma série de critérios de escolha, sendo que os modos de selecção incluem uma avaliação do currículo do candidato mais uma entrevista onde, e cito, se "Visa obter, através de uma relação interpessoal, informações sobre comportamentos profissionais diretamente relacionados com as competências consideradas essenciais para o exercício do cargo". Mais informações úteis podem ser consultadas aqui (concurso para o cargo de director) ou aqui (concurso para o cargo de subdirector).

A constituição do júri é já pública e as candidaturas serão aceites até 10 dias úteis desde a publicação do dito aviso em Diário da República. Assim, o prazo para envio das candidaturas deverá terminar no dia 5 de Novembro.

(Agradeço ao Samuel Andrade a divulgação desta informação nas redes sociais.)

Adenda (dia 1 de Novembro): O DN, reproduzindo uma notícia da Lusa, esclarece que o secretário de Estado da Cultura havia anunciado em audiência parlamentar, no passado dia 9 de Outubro, que iria abrir concurso público para todas as áreas que tutela. Apesar disto, e até na sequência das críticas que dirigiu à actual direcção no canal Q, permanece a dúvida quanto à constituição da futura direcção da Cinemateca. Isto porque o concurso público não impossibilita que os actuais directores concorram e, dado o seu vasto currículo na área (sobretudo do actual subdirector), é mais do que natural que não estejamos na presença de uma revolução nos comandos da Cinemateca Portuguesa.

A notícia indica como prazo de entrega da candidatura dia 6 e não 5 como referi, contando com o próprio dia do lançamento do concurso em Diário da República.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Cinemateca/ANIM: arquivo sob perigo


A peça "Cinemateca/ANIM: arquivo sob perigo" foi realizada por mim e pela Mariana Castro para percebermos e darmos a perceber à opinião pública o real estado do arquivo de cinema em Portugal. Nesse sentido, aos cidadãos preocupados com os assuntos da cultura no nosso país, apelo à leitura, ao comentário e, enfim, à partilha. Trata-se de um inestimável contributo de dois dos principais responsáveis pelo ANIM para a reflexão sobre as consequências que já acarreta esta revolucionária transição do formato analógico para o formato digital. Se o leitor ainda não compreendeu bem o alcance desta revolução, então (de novo) apelamos para que leia, comente e partilhe esta peça.

Quero agradecer ao Rui Machado, António Medeiros e restantes trabalhadores do ANIM que facilitaram a concretização desta reportagem, desejando o melhor para o seu futuro.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Barreto Xavier e a Cinemateca: "não me agrada que os meus directores gerais façam dramatizações em público"


Abaixo transcrevo um excerto da entrevista (que pode ser vista aqui, a partir do minuto 17:10) realizada por Luís Gouveia Monteiro ao secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, no programa "O que Fica do Que Passa" do canal Q. Momento decisivo para se perceber o que já tinha escrito aqui, no CINEdrio, a propósito do jogo do telefone estragado que se tem desenvolvido entre a actual direcção da Cinemateca e a Secretaria de Estado da Cultura. As declarações de Jorge Barreto Xavier são graves e podem significar a última estocada na autoridade da actual direcção. O lamentável episódio da reabertura ou não da Cinemateca neste Verão é qualificado pelo próprio de "um disparate" e uma "e(n)fabulação" feita - e Jorge Barreto Xavier não se poupa em informalismos - "pela Maria João Seixas".

Quanto à gestão financeira da instituição, o secretário de Estado não se coíbe de criticar também a direcção (os seus responsáveis...) por não conseguir suprir a receita que falta ou reduzir a despesa. Denuncia ainda aquilo que será uma orçamentação "miraculosa" das actividades da Cinemateca desde 2008: "não corresponde à verdade das coisas". Recordo que Maria João Seixas anunciou no dia 21 de Agosto que a Cinemateca não reunia condições financeiras para abrir portas. Menos de 24 horas depois, com um simples mail, o secretário de Estado da Cultura prontamente garantiu que a Cinemateca não ia fechar - e, de facto, não fechou. Durante todo o processo, a directora da Cinemateca nunca criticou directamente a acção do secretário de Estado e mesmo quando a casa estava a arder manifestou a sua crença de que tudo iria correr bem.

Mas não é consensual por exemplo que se tenha chegado a uma situação a que se chegou neste Verão de emergência de não haver dinheiro para funcionar...

Não. Essa foi uma dramatização excessiva feita pela Maria João Seixas. E eu, de facto, não me agrada que os meus directores gerais façam dramatizações em público.

Se não tivesse sido essa dramatização, a Cinemateca teria dinheiro para funcionar até ao fim do ano?

Isso é um disparate. Isso é um disparate. Obviamente eu não vou discutir em público aquilo que é o meu trabalho com os meus directores gerais, mas aquilo que eu consensualizo com os directores gerais - e isso aconteceu com os da Cinemateca - é explicar que as dificuldades existiam, existem, mas que eu garantia que não iria haver fecho da Cinemateca. Tive de o repetir em público, o que não era necessário.

E teve que aparecer com aqueles 700 000 euros...

Eu não apareci com 700 000 euros nenhuns. Tudo isso já existia. Isso foi uma enfabulação [sic] de uma circunstância feita... eu ainda hoje não percebi porquê.

(...) Ainda a propósito daquela questão Ministério versus Secretaria de Estado, diz-me a minha quinta coluna que esse dinheiro terá vindo de fundos europeus depois postos no Fundo de Fomento (...)

No que diz respeito à questão da Cinemateca, a questão do financiamento não tem de todo a ver com fundos comunitários. Nós estamos a suprir as necessidades de funcionamento da Cinemateca com montantes adicionais que fomos buscar ao Fundo de Fomento Cultural. A Cinemateca desde 2008 que tem decréscimo de receita. Mas desde 2008 que a Cinemateca inscreve todos os anos, erradamente, uma previsão orçamental em função do montante de 2007. Ou seja, ou os governos tinham encontrado a diferença do gap entre o montante inscrito e o montante da receita - visto que a taxa de publicidade televisiva baixou 50% de 2008 a 2013.. Cada ano, desde essa data, a Cinemateca não tinha o dinheiro da previsão orçamental. É expectável que os seus responsáveis e obviamente os membros do governo encontrem um caminho ou para suprir a receita que falta ou para reduzir a despesa. Não existem orçamentos miraculosos, em que se coloca um certo número no Orçamento de Estado que não corresponde à verdade das coisas. Isto foi mal feito e não foi mal feito em 2013, foi mal feito sucessivamente, durante vários anos. Nós estamos a corrigir isso e obviamente temos propostas para o Orçamento de Estado de 2014 para suprir isso. Não vamos é agora pensar que é uma coisa que de repente aconteceu em Julho de 2013. Isso é completamente falso e por isso é lamentável o modo como o processo passou, mesmo em termos públicos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Viva a Cinemateca!


No texto "Clarificação e rápida resolução da actual situação da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema", que eu subscrevi, pode-se ler a certa altura:

Reivindicamos, enquanto utentes da instituição, enquanto contribuintes e cidadãos do Estado português, que as partes (direcção e tutela) se reúnam e que desse encontro resulte um documento, cujas linhas principais sejam tornadas públicas, onde conste um rigoroso compromisso com soluções de longo prazo. É mister que este conjunto de medidas assegure a resolução das várias insuficiências – materiais, financeiras, estruturais e/ou políticas – que têm, cumulativamente, perturbado e comprometido o funcionamento da casa-mãe do cinema.

A reivindicação é simples e directa. Nada justifica o jogo do telefone estragado que há demasiado tempo se tem desenrolado entre a direcção da Cinemateca e a tutela - e destas duas com a opinião pública. É tempo da sociedade civil chamar as partes à sua responsabilidade e provocar uma resolução imediata e sustentada de todos os problemas que minam a credibilidade do nosso Museu do Cinema.

Adenda (do dia 23 de Agosto): transcrevo abaixo o comentário deixado pelo Samuel Andrade, do blogue Keyzer Soze's Place, no supracitado artigo do À pala de Walsh. Um comentário que me parece muito significativo.

Confesso-me bastante perturbado com as notícias recentes sobre uma eventual impossibilidade, por motivos financeiros, de reabertura da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. No entanto, e como fã inveterado de todos os quadrantes da actividade da Cinemateca, também não posso deixar de manifestar desagrado pela natureza da reacção, ou ausência da mesma, a essa perspectiva.

Com todo o respeito pelo cariz público da instituição e dos seus representantes, sinto-me na obrigação de frisar que temos — e não é só de agora… — apenas assistido, por parte dos responsáveis da Cinemateca, ao mero anúncio da “catástrofe iminente” e posterior cruzar de braços, numa atitude de quem espera que sejam “os outros” a resolver os problemas presentes.

Há muito que deveriam ter sido encontradas fontes alternativas de financiamento. Há muito que se exige um comportamento substancialmente mais proactivo por parte de quem gere a instituição. Há muito que a Cinemateca deveria ter aberto as suas portas à comunidade que a rodeia, numa efectiva demonstração de adaptação e capacidade de atracção pública, social e financeira à prova de qualquer “tumulto” ou negligência de ordem política.

E a rápida resolução da actual situação da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema tem de passar, portanto, pela obrigatória e radical remodelação do seu modelo humano, estratégico(?) e organizativo presentemente em vigor.

Adenda (do dia 24 de Agosto): acabo de assinar uma petição pública dirigida à Assembleia da República que pretende "promover o debate urgente deste assunto, visando as iniciativas legislativas e políticas necessárias para garantir o funcionamento e evitar o encerramento da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, protegendo, desta feita, grande parte da memória de todos nós, que é um enorme pedaço de Portugal, em risco de se perder para sempre".

A iniciativa é louvável, mas a sua formulação incompleta, já que, como se percebeu, a Cinemateca irá reabrir, mas a sua reabertura poderá não querer dizer que os problemas que a têm afligido tenham sido resolvidos ou que o seu encerramento não esteja simplesmente a ser adiado. Esta petição poderia ser mais útil se procurasse abrir a discussão acerca de um novo modelo de gestão assente em compromissos claros mutuamente acordados entre tutela e direcção, que dêem garantias aos utentes de que a Cinemateca não vai continuar a ser vítima deste processo de rápida e aparentemente inevitável degenerescência.

Adenda (do dia 29 de Agosto): apelo a todos que marquem presença na "Concentração contra o encerramento da Cinemateca Portuguesa". A iniciativa é boa, dará visibilidade pública (e esperemos que também mediática) à presente situação da instituição. Penso que seria de bom tom que, durante esta concentração, a direcção fizesse como no passado protesto e tomasse a palavra para, primeiro, actualizar os níveis de alarme provocados há uma semana e, segundo, sensibilizar os presentes para todas as insuficiências que precisam de ser superadas para que a Cinemateca não só assegure a estabilidade no funcionamento como a qualidade programática e aptidão museológica de todos os seus serviços.

Adenda (do dia 1 de Setembro): a concentração da passada sexta-feira deu para comprovar várias coisas que tenho aqui escrito e descrito. Primeiro, a Cinemateca, tal como anunciou a directora Maria João Seixas e o subdirector José Manuel Costa, irá reabrir já amanhã- o programa, aliás, pode ser consultado aqui. Segundo, a solução encontrada com a tutela é meramente provisória ou, pior adjectivação é impossível, "excepcional". Isto é, o dinheiro que foi desbloqueado para assegurar a manutenção dos serviços da Cinemateca e ANIM cobrirá, de modo excepcional (!), o período que vai de Setembro a Dezembro deste ano. Findo este remendo mal amanhado, a Cinemateca regressa à estaca zero e, nessa altura, os protestos serão, certamente, menos intensos - todos nós conhecemos a história do Pedro e do Lobo... Terceiro, confirma-se que a verdadeira luta não se deve ficar apenas pela abertura ou não desta que é não só a nossa única Cinemateca como é, inquestionavelmente, uma Cinemateca única no panorama internacional.

O funcionamento de uma instituição como esta não pode ser susceptível de discussão, o que é susceptível de discussão - e indignação! - é a forma como a nossa Cinemateca está a ser tratada, rasando neste momento a mais inconcebível indignidade. Posto isto, a sociedade civil tem como missão assegurar um debate sério e objectivo sobre a sustentabilidade desta instituição. Para tal, as duas partes (direcção e tutela) terão de se sentar à mesma mesa e, com total clareza e transparência, REPENSAR o modelo de financiamento e a própria orgânica de poder da Cinemateca/ANIM. É urgente que tal aconteça, visto que o poder político - de novo, muito à la Griffith - fixou Dezembro como o novo deadline, uma "linha de morte" que poderá, desta feita, ser traçada pela última vez.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cinemateca Portuguesa: a derradeira queda da casa-mãe do cinema?


A Cinemateca Portuguesa, adianta o jornal Público de hoje, poderá não reabrir portas em Setembro. A sua directora fala de uma situação aflitiva e insustentável. Diz que avisou atempadamente o secretário de Estado da situação e que, apesar de todo o seu empenho, este não conseguiu "buscar dinheiro" das Finanças. Face ao derradeiro golpe na dignidade da instituição, que poderá deixar de poder assegurar o pagamento da electricidade e, com isso, não só encerrar portas como comprometer todo o espólio cinematográfico nacional armazenado no ANIM, a directora declara: "Acredito que tudo se pode ainda resolver, mas este momento é de grande aflição.”

A política da Cinemateca tem-se baseado nesta crença numa solução salvífica de última hora à la Griffith, fazendo figas para que no mês seguinte o miraculoso Deus ex machina venha não impedir mas, já só e apenas, adiar a catástrofe. Escrevi sobre tudo isto em três posts que podem ser consultados aqui, sendo que o primeiro, que prenuncia o terrível fim da Cinemateca, data de 2011. Passaram quase 3 anos e continuadamente assistimos nos media a uma Cinemateca no fio da navalha, sempre à beira de uma catástrofe que se sente mas sobre a qual se "acredita" que não poderá vir. Os problemas acumulam-se, nenhum é resolvido, tudo desliza para o abismo... mas "acredita-se", ainda assim, que tal não venha a acontecer. A sensação que fica é a de que se agora a electricidade for desligada parcialmente na Cinemateca para salvar o ANIM, essa medida será encarada como a salvação possível e desse remendo rapidamente passaremos para a sua permanência futura sem solução à vista, sustentada apenas por essa crença vaga de que tudo ficará bem no fim: quiçá uma Cinemateca sem filmes e pessoas, mas (ainda assim!) limpa e com casas de banho funcionais.

A política directiva da Cinemateca está reduzida a um modo de sobrevivência, a um pronto socorro sem horizontes ou, enfim, a um exercício de fé inconsequente. Dois executivos passaram - e neste último vamos no segundo secretário de Estado da Cultura -, manifestações públicas foram organizadas, artigos de opinião já foram redigidos, um mês dedicado à situação da Cinemateca ("Foco no Arquivo" = "Fogo no Arquivo", como leu e bem Margarida Gil) já foi posto em marcha e graças a ele poucas são as altas personalidades da comunidade de profissionais do cinema que não estão mais do que conscientes de todos os problemas que, ontem como hoje, põem em risco o futuro da Cinemateca. Tudo isto já foi feito, mas politicamente o resultado é quase nulo. A direcção tentou, timidamente dirão algumas vozes, mas tentou denunciar a sua própria impotência.

O que resta hoje é a crença de que essa impotência poderá estar ou vir a estar na origem do fim da instituição tal como a conhecemos ou do seu fim ponto final. Face a isto, ou se repensa de uma vez por todas - se for caso disso, para lá da presente direcção - a política de sustentabilidade, os canais de comunicação com a tutela e a própria orgânica interna de uma instituição com a complexidade da Cinemateca ou o filme continuará rápida e previsivelmente a aproximar-se da mensagem final que ninguém quer ler: "The End".

Adenda (hoje, dia 21 de Agosto): era preciso alarmar toda a gente para numa rápida troca de mails termos esta reacção? A direcção da Cinemateca não fala com a secretaria de Estado? O que está a falhar aqui? Acho que não está a ser feito tudo em defesa desta grande instituição.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

CINEdrio Meets A Culatra Meets Luís Miguel Oliveira



O exercício de criticar a crítica, que estimulei bloggers e cinéfilos a porem em marcha, por exemplo, aqui e aqui, não deve ser confundido com o exercício de "desancar no crítico", nem mesmo me referia a uma crítica ao crítico, pelo menos de uma maneira fulanizada. Claro que não é proibido e também me parece evidente que uma crítica ao crítico pode ser um bom passo intermédio para se chegar a esse confronto entre "maneiras de ver" o mesmo objecto. Precisamente para chegarmos ao ponto que interessa, gostava que o redactor do artigo «A Culatra Meets Luís Miguel Oliveira», o Sr. Antero, fizesse uso do seu "conhecimento na área específica cinematográfica" para desmontar as posições que o citado crítico de cinema tem assumido contra o cânone dominante de Hollywood, isto é, dos super-blockbusters, baseados em bandas desenhadas ou/e na estética best seller, da publicidade, dos videoclipes e dos videojogos.

Dir-me-á que se limitou a "ler" o perfil e estilo do crítico em questão, mas, para além disso e interpreto eu, procura pô-lo em xeque, como que dizendo, ante o mundo, que "o rei vai nu". Mas quando Luís Miguel Oliveira (LMO) diz que um "The Dark Knight Rises" é um filme ideológico (no pior sentido do termo), quando diz que um "Slumdog Millionaire" cheira a merda (no seu sentido olfactivo sem termo), está a chegar a ou a partir de uma posição muito mais substancial e, não tenho medo da palavra, útil que a posição de que não chega a partir ou a chegar a crítica tipicamente descritiva, apolitizada e "mole" que replica, de modo mais ou menos sofisticado, o modelo dos press releases com uns pózinhos de análise narrativa, cultural ou de indústria/comercial. Aliás, a pergunta que deve ser feita - e que talvez este redactor deve fazer a si mesmo antes de mais - é: "o que deve ser a crítica de cinema? O que e para que serve?" Eu acredito na crítica de cinema, talvez hoje mais do que nunca!, como uma forma de resistência, uma tentativa de parar estes tempos de aceleração mediática, de consumismo acéfalo de imagens que se confundem com marcas, marcas que se confundem com imagens; enfim, tempos em que os espectadores se confundem cada vez mais com consumidores.

Ao arrepio da ditadura mediática da actualidade, não me parece reprovável que as referências de LMO, ou boa parte delas, venham dos "tempos antigos", como escreve o Sr. Antero com um inexplicável despeito. Então não será parte da função da crítica invocar e evocar a memória do cinema, debruçar-se sobre o presente com a consciência firme do que está para trás? Não é dever da crítica pôr a história do cinema (o seu passado) ao serviço do seu desenvolvimento presente? Não é dever da crítica apontar esses caminhos, abrir esses horizontes, ao leitor? Dir-me-á o Sr. Antero: "Mas uma coisa é evocar o passado, outra coisa é viver-se no passado, como se só lá estivessem as grandes obras, os grandes autores". Penso que aqui batemos de novo contra o perfil do crítico e a capacidade do leitor para o compreender - talvez a crítica do crítico deva produzir uma justa e avisada auto-crítica no leitor, ou tenha, em potência, a capacidade para estimular nele essa coisa chamada inteligência, isto é, a capacidade de "compreender antes de afirmar"... No caso de LMO, da sua formação clássica, da sua veia diria museológica [no sentido imagi(n)ário de Malraux], é natural que ele próprio atribua a si mesmo um papel que tempera o conservadorismo (afinal, no museu, imaginário ou não, "conservam-se" obras), a prudência e o bom senso com uma exultante e contagiante capacidade de descobrir e dar a descobrir novos e diferentes universos (aliás, basta ler o texto que escreveu sobre o último Brisseau para se perceber como é por estes lados que tem morada o derradeiro reduto da crítica de cinema onde ainda é possível a paixão cinéfila, assim mesmo: "à antiga").

 O que LMO tem vindo a dizer - ia escrever, e talvez bem, "a denunciar" - é aquilo que uma fatia importante de quem vê, segue e lê sobre o cinema tem sentido não tanto com "raiva" mas com igual saturação ou mesmo desencanto. Essa fatia da população não tem é um fórum com a dimensão do Ípsilon, por isso, em certa medida, LMO é o embaixador de uma minoria, uma minoria que me parece ser francamente esclarecida - mesmo que não fosse, sabemos como em democracia as minorias devem ser sempre protegidas. Por exemplo, LMO fala do "fastio", da "maçada", do "cansaço" que lhe provocam alguns dos blockbusters "infantilóides" que monopolizam a oferta fílmica nas nossas salas. O Sr. Antero recorta os adjectivos ou as adjectivações, tira-os ou tira-as do contexto e parece que a prosa de LMO se resume a isso. Isso não é verdade, mas mesmo que fosse, na essência, não trairá aquilo que muitos ou alguns de nós, cinéfilos, sentimos face à generalidade do mainstream americano. (Pessoalmente, gostava que alguém escrevesse preto no branco, porque seria até sinal da sua independência, que os blockbusters americanos da actualidade são puro lixo fílmico - garanto que, aplicando o princípio da dominante, não estaria a comprometer o meu rigor em 80% ou 90% dos casos. Os críticos que não querem enfrentar esta realidade, que "douram a pílula" para não perderem as benesses das principais distribuidoras/anunciantes, são, na minha opinião, actores de uma farsa ideologicamente perversa.)

O Sr. Antero chega a reduzir a seguinte reflexão em torno de "Man of Steal" a uma mera manifestação de um "preconceito" ou mesmo de "ódio": "um frenesi permanente, uma sucessão de estímulos visuais e sonoros que são um fim em si e em caso algum um instrumento para a construção de qualquer coisa que valha a pena confundir com ideias de mise en scène ou de dramaturgia". Na minha opinião, o que LMO faz aqui é não a manifestação de um preconceito ou a sublimação do seu (suposto) ódio anti-comercial ou anti-Hollywood, mas - acho que o tiro, Sr. Antero, lhe saiu pela culatra... - a afirmação de uma visão sobre o cinema, coisa que falta a muitos outros críticos da nossa praça, que se limitam a reproduzir "hypes" ou a reformatar informações de press releases.

Uma visão, neste particular, não muito distante da que tem um veterano crítico da New Yorker (norte-americano, imagine-se!) chamado David Denby. No capítulo «Conglomerate Aesthetics: Notes on the Desintegration of Film Language» do seu livro de 2012 Do the Movies Have a Future?, escreve: "The language big movies are made in - the elements of shooting, editing, storytelling, and characterization - is desintegrating very rapidly and in ways that prevent the audiences from feeling much of anything about what it sees". Mais à frente, aproximando-se de muita coisa diagnosticada (levianamente, diz o Sr. Antero) pelo crítico LMO, assevera: "The studios and filmmakers may have gone a little too far in emptying out meaning. What we have now is not just a raft of routine bad pictures but the first massively successful nihilistic cinema". Sobre o "frenesi permanente" não se fica por meias palavras: "Big movies are now full of needle-nosed flying pteranodons and cars on fire floating through the air (at a recent year-end critics meeting, one reviewer suggested an award to the "best shot of a couple holding hands as they run away from an exploding building")".

Face a isto, a minha sugestão - se me é permitido dá-la ao Sr. Antero - é que se passe agora da crítica ao crítico para uma crítica à crítica, uma a uma, em conjunto, como quiser, mas que fundamentalmente se abra o debate sobre os por quês da necessidade que o Sr. Antero e seus iguais sentem em defender a "estética dos conglomerados", ou o filme X ou o filme Y que entedia ou molesta este ou aquele crítico. Também me ficam algumas dúvidas sobre o que deve ser a crítica de cinema segundo o Sr. Antero. Eu posso avançar desde já com a minha posição: a crítica deve articular um pensamento, colocar-se numa posição não de subserviência aos gostos instituídos (pela indústria, pelos media) mas, desassombrada e prudentemente, de resistência a tudo o que é vendido como um produto acabado e indiscutível.

Da mesma maneira, acho, tal como o crítico Roger Leenhardt sugeria, que à crítica compete a função de dar ao espectador as ferramentas de que este precisa para aprender a ler o cinema directamente "no texto", ao invés de o "apanhar no ar" como "a tradução de uma língua estrangeira". Desmontar o subtexto ideologicamente minado de "The Dark Knight Rises" ou a estética demagógica da pobreza (aquela que, resumindo e concluindo, cheira de facto a merda) de "Slumdog Millionaire" passa, a meu ver, como um contributo importante, ou mesmo decisivo (até porque "a crítica" é uma ideia feminina...), para a formação não só de melhores espectadores como, acima de tudo, de uma sociedade civil mais esclarecida e criticamente activa.

sábado, 18 de maio de 2013

Cinemateca Portuguesa: por uma direcção mais efectiva


O requerimento elaborado pelo grupo parlamentar do PCP sobre a "Situação da Cinemateca" parece ter tudo lá dentro, até conta com frases de algibeira tão habituais como "reais intenções da política de direita". Não duvido da seriedade de quem elencou o que está em falta e o que deve ser feito, mas não posso deixar de notar a ausência aqui de um objectivo fundamental, que é garantir que, mesmo com o dinheiro pedido, a Cinemateca não volte a cair, ou melhor, a decair na sua missão e na sua imagem. É que - como adiantei aqui - o início da derrocada remonta pelo menos aos tempos do governo anterior, cujas reais intenções tinham supostamente sinal político contrário...

Na minha opinião, só repensando o modelo de sustentabilidade da Cinemateca é que se pode assegurar o futuro desta magnífica instituição. Para tal, quanto menos Estado e mais autonomia, melhor. A negociação com o Estado deveria talvez ir por aí - e o documento do PCP aborda já esta questão, quando refere formas alternativas de obtenção de receita -, face até à monstruosa quantidade de problemas acumulados ao longo do mandato desta direcção, problemas que neste momento fragilizam enormemente, ainda para mais na actual conjuntura político-económica, a imagem pública da instituição. Aliás, assiste-se hoje não à indignação geral, mas à quase total apatia da sociedade civil, começando logo pelos utentes e amigos da Cinemateca. Despejam-se uns comentários levianos - como "bandidos" ou "gatunos" - no Facebook, diaboliza-se a governança - quando a situação vem já do governo anterior e quando já vamos no segundo secretário de Estado da Cultura - e segue-se alegremente, dançando e cantando.

Penso que para haver uma mudança de facto consequente, que retire de vez a Cinemateca desta morte lenta, essa restruturação tem de ser iniciada para lá da actual direcção. Na realidade, e isto pode parecer paradoxal, as funções da direcção deveriam ser mais escrutinadas e, logo, politizadas. Sabemos que a sua nomeação é política - efectuada directamente pelo executivo - mas no exercício das suas funções eu, enquanto utente e amigo da Cinemateca, não encontro qualquer forma de responsabilização ou, usando uma palavras mais cara, accountability, até porque não sei - ou não posso concretizar - que valores e critérios presidem a tal nomeação ou o que move o nomeador nessa escolha - podemos nem saber ao certo quais as "ideias de cinema" que irão nortear o(a) director(a) que aí vem.

Face à crise identitária que assola a Cinemateca desde o desaparecimento de João Bénard da Costa, talvez se justifique voltar a pegar na proposta avançada por João Mário Grilo pouco tempo antes da escolha da actual directora. A futura direcção deverá ser escolhida por concurso público, onde se discutam não só pessoas e ideias de cinema, mas também projectos de viabilização político-económica da instituição. Claro que, para tal, seria necessário provocar, desde já, o debate político e, sem medos, antecipar a dissolução da actual direcção.

sábado, 27 de abril de 2013

O futuro da Cinemateca: que direcção?


A situação actual da Cinemateca Portuguesa é alarmante e deixa antever um futuro nada risonho para esta instituição que se tem dedicado, de corpo e alma, à "educação do olhar" de sucessivas gerações de cinéfilos. No mês de Maio, cuja programação já está online, os ciclos temáticos ou por autores ficaram reduzidos ao mínimo, um mínimo, aliás,  garantido por apoios exógenos à Cinemateca. Se antes, a direcção e programadores haviam conseguido "disfarçar" o estado real da instituição, agora, o mal está à vista, numa programação "sem âncoras" que já nem impressa condignamente é, tanto em quantidade quanto em qualidade.

O sinal foi dado no texto que abre a programação e que deve ser lido por todos aqueles que se preocupam pela preservação da memória cinéfila e cinematográfica deste nosso país. Agora a pergunta que se coloca - à sociedade civil, está claro - é: o que fazer? Criação de um movimento de protesto, de uma petição pública? Relembro que não há muito tempo, sob a mesma direcção da Cinemateca, foi criado um movimento e que desse movimento resultou uma manifestação e que dessa manifestação... bem, está visto, pouco ou nada resultou. Desde aí, já tivemos uma mudança governamental e, pelas minhas contas, dois secretários de Estado da Cultura. Se calhar, para começar, importa evitar diabolizações fáceis e dar espaço, sem tabus, a todos os diagnósticos e hipóteses de acção.

Pergunto-me se não deveria entrar de vez na "agenda" uma questão decerto pouco cómoda, se calhar muito incómoda dado já estarmos fatalmente sob o efeito deste processo de degenerescência que assola uma instituição dedicada a dar vida aos mortos e aos fantasmas no ecrã. Essa questão é: estará esta direcção preparada para gerir um eventual movimento cívico que reconduza, com estrondo, todos estes problemas a quem de direito? Neste momento, terá esta direcção, sobretudo a presente directora, capacidade ou margem política para sair da sua zona de conforto e se aliar a esta causa, que é a nossa causa, mas também deve ser, antes de mais, a SUA causa? Que margem existe para fazermos alguma coisa, que produza de facto as consequências desejadas?

Entenda-se: estou a falar explicitamente do problema de um eventual - sublinho o eventual - deficit de liderança (ou daquilo que os ingleses chamam leverage) dentro da Cinemateca Portuguesa. Se está em causa o futuro da Cinemateca tal como a conhecemos, então temos de colocar todas as questões. Eu, pessoalmente, tenho horror à passividade, aos meios-termos e à lenta podridão... Gostava de agir - e irei agir, espero - mas pergunto-me se estaremos todos empenhados da mesma maneira (isto é, incondicionalmente) em inverter uma situação que, como utente e amigo da Cinemateca Portuguesa, muito seriamente me preocupa.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Listas individuais da Sight and Sound (III): as escolhas internacionais

"Wanda" (1970) de Barbara Loden

Vistas que estão as escolhas nacionais, sugiro passar rapidamente os olhos por algumas escolhas de especialistas internacionais. Aqui pus em destaque os nomes que, logo à partida, me despertaram maior curiosidade. O primeiro, pela sua bizarria, que gostava de mencionar nestas linhas é o filósofo esloveno Slavoj Zizek. A sua lista está para o top final da Sight & Sound um pouco como a pintura da Sra. Cecília está para o agora famoso "Ecce Homo" que tentou "restaurar". O "mau gosto" é, contudo, assumido, já que o critério adoptado foi só seleccionar "guilty pleasures". Ainda assim, um grande filme como "Fountainhead" de King Vidor sobressai notavelmente, na medida em que merece aqui o seu único - e justíssimo - voto em toda a sondagem.

De resto, temos um western menor, recentemente "refeito" (a meu ver, com sucesso) por James Mangold, o fracassado "Dune" de David Lynch, o bem piroso "The Sound of Music", o falhado "On Dangerous Ground" de Nicholas Ray e Ida Lupino, o esquecido (mas excelente) "Nightmare Alley" e... bem, a partir daqui a coisa desce ao nível do espalhafatoso e entediante "Hero" e, agarrem-se bem!, "Hitman", thriller político de acção realizado por um tal Xavier Gens - adaptação quase intragável de um jogo de computador com o mesmo nome. Não falo dos restantes, que não vi, mas fica aqui pintado uma espécie de "cristo de Slavoj Zizek" que a Sra. Cecília não precisava de "restaurar".

Fora a bizarria mais ou menos assumida por Zizek, destaco a lista de Adrian Martin, não tanto pelos filmes - alguns deles admiro muito, um ou outro ainda não vi, mas fiquei com vontade de ver... - mas pelo critério que engenhosamente "tirou da cartola" para responder a desafio tão difícil. O crítico australiano decidiu nomear apenas filmes que viu nos últimos dez anos, fazendo assim um refresh total em relação a exercícios anteriores.

Na sua lista há um título, que gosto muito, e que também consta do outro top que queria destacar aqui: "Wanda" de Barbara Loden, um dos filmes melhor recuperados dos últimos anos. Também gosto de ver no top de Ray Carney "Killer of Sheep" e um dos meus filmes independentes norte-americanos preferidos do passado recente, "Old Joy" de Kelly Reichardt. Contudo, o critério adoptado por Carney é, na minha opinião, infeliz. O académico norte-americano decidiu só nomear filmes do seu país, diz ele, para reverter o mito  segundo o qual "nenhuma mulher ou homem pode ser profeta no seu próprio país". Já acho muito discutível que os portugueses sondados tenham referido filmes nacionais, agora, assumir esta espécie de visão imperialista ou totalitária da história do cinema parece-me ainda mais questionável, ainda para mais, vinda de um académico...

Como grande admirador dos vídeo-ensaios ou vídeo-apresentações que Tony Rayns tem feito para a editora britânica Masters of Cinema, registo na minha "wish list" cada título asiático por ele referenciado. Fiquei especialmente a salivar por um filme com o título bem expressivo "Textism" de Hirabayashi Isamu, que, segundo Rayns,"stands for a vein of iconoclastic avant gardism that stretches from Robert Florey to Kenneth Anger and Hollis Frampton." Também para amantes do cinema asiático, a lista de Chris Fujiwara constitui um contributo importante, citando um Naruse, um Ozu, um Mizoguchi e o mais recente, e muito bom, "Memories of Murder" do sul-coreano Bong Joon-ho.

Mais tops mereceriam destaque, mas penso ser importante deixar o que sobra à descoberta do leitor. Não quero é fechar este assunto sem apontar algumas ausências que tenho como significativas: David Bordwell, Jacques Rancière, Jacques Aumont, Michel Marie, Stanley Cavell, Serge Toubiana, Andras Balint Kovács, Antoine DeBaecque, Alain Badiou e Louis Skorecki. Não foram convidados? Recusaram o convite?

Também aproveito estas linhas para corrigir um mal-entendido que não é da minha responsabilidade e que é devidamente rectificado no site da Sight & Sound: pelos vistos, as listas foram alojadas com os títulos dispostos alfabeticamente e não na ordem de valor fixada por cada votante, logo, não é correcta a observação que faço em relação ao Ozu ("An Autumn Afternoon") na lista de José Manuel Costa.

Entretanto, já foram tornadas públicas as listas dos realizadores. O nome de João Mário Grilo não faz parte da mesma, pelo que se confirma, na lista dos especialistas, uma ausência de peso (algo inaceitável, na minha opinião).

domingo, 19 de agosto de 2012

Listas individuais da Sight and Sound (II): as escolhas nacionais

"Akibiyori"/"An Autumn Afternoon" (1960) de Yasujiro Ozu

Falemos agora de cinema, quer dizer, do "cinema dos outros". Que escolhas sobressaíram nas diversas listas individuais com os "melhores filmes da história", publicadas recentemente no site do BFI? Que impressões é que a minha retina cinéfila registou? Como já fiz antes, proponho irmos por partes.

Desde logo, destaco naturalmente as listas nacionais, elaboradas por programadores, críticos e académicos (já agora: quais?). Não quero estar aqui a discutir se a selecção acabou por ser representativa da opinião cinéfila nacional (mas não aguento: e Francisco Ferreira, João Lopes, Mário Jorge Torres ou, partindo do pressuposto que não estará na lista dos realizadores, João Mário Grilo?): o que importa é olhar para o que está. E de "o que está" destaco três listas: a de José Manuel Costa, Luís Miguel Oliveira e Augusto M. Seabra.

Já falei da segunda, muito genericamente, aqui, mas só agora temos acesso ao "comentário" do crítico e programador da Cinemateca. Gosto da solução final - expressão infeliz minha, mas nem tanto, como já verão - que o Luís Miguel Oliveira encontrou, pensando o moderno a partir da era clássica, como uma espécie de decorrência ou pináculo da mesma, ideia que seria cara a um Rohmer, para quem o moderno era a apoteose do clássico, ou nada estranha a Jacques Rancière, um dos ausentes de peso nestas listas da Sight and Sound, que num dos seus livros convida o leitor a encontrar elementos da imagem-tempo nos filmes que Deleuze incluiu na sua obra Imagem-Movimento, tendo como momento-charneira, precisamente, a II Guerra Mundial.

É aqui que entra a minha curiosidade em relação ao primeiro critério que Luís Miguel Oliveira confessa ter ponderado para a realização do seu Top10, passo a citar: "At a point, I thought of only naming films made in 1939 – as the world was torn apart by the beginning of the Second World War, cinema could not bear to remain encapsulated in the dreamland it had created for itself". Ideia que um Serge Daney não descuraria e que seguramente resultaria num exercício que seria proveitoso, pelo que gostaria de sugerir que o levasse a cabo e tornasse público - ou já serão listas a mais? Já agora, gostava de perceber o porquê de tanto cinéfilo mais "academizado" ou, como costumava qualificar Agee, "highbrow" começar o seu comentário criticando os moldes desta iniciativa, não só ressalvando o peso das ausências (isso compreendo perfeitamente) mas acentuando mesmo uma certa "má vontade" na resposta ao desafio. Desde quando, e qual o interesse disso, o cinema se tornou numa coisa tão séria, para não dizer sisuda e solene?

Outra lista que destaco e que irei ter no espírito nas minhas indagações futuras (ainda assim, dos filmes escolhidos só não vi dois títulos) é obviamente a de José Manuel Costa, grande professor universitário de cinema e subdirector da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. Primeira nota negativa e primeiro sinal de preocupação em relação ao cuidado investido na organização desta preciosa base de dados: ó amigos ingleses, o que é isso do José Manuel Costa ser crítico e, PASME-SE O LEITOR, de nacionalidade espanhola?! Bem, este é um erro que tem de ser rectificado o quando antes, sob pena de desacreditar todo este esforço, meritório, da revista britânica.

Posto isto, fico contente por ver um Hawks, e um Hawks maravilhoso (ui, que redundância!), bem acima na lista de um académico nacional. Digo isto assim, não por desconsiderar o cinema de John Ford, longe de mim! Mas por já ter defendido que falta entrar uma certa aragem hawksiana na universidade portuguesa - os seus filmes desconcertam o cânone clássico, ao passo que o "fordismo" é um convite pós-griffithiano à sua celebração algo "acrítica". Adoro Ford, não me interpretem mal, mas considero Hawks uma ferramenta do pensamento mais, por assim dizer, "desafiante" e, nos dias de hoje, mais "operativa". Outro destaque, para além da natural inclusão de um Flaherty (tão natural como José Manuel Costa se chamar José Manuel Costa, dirá cada um dos seus alunos da cadeira de Documentário): o primeiro lugar reservado a Ozu e não a qualquer um dos seus filmes da praxe, leia-se, os unânimes "Tokyo Story" e "Late Spring". A estação favorita do vice-director da Cinemateca parece ser outra: o Outono.

Por outro lado, Augusto M. Seabra, o programador da Culturgest e do DocLisboa, conhecido "cronista" da vida pública portuguesa, faz uma lista inesperadamente "by the book", só com filmes "indiscutíveis" e sobejamente amados. Para um divulgador de cinematografias desconhecidas e autores obscuros, encontro pouca "novidade" neste casting. Recomendo, por isso, que se leia a sua justificação e que se procure a verdadeira lista "à Augusto M. Seabra" na referência a nomes como Syberberg, Straub, Munk e Ghatak.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Listas individuais Sight and Sound (I): o que dizem os especialistas sobre o cinema português

"Juventude em Marcha" (2006) de Pedro Costa

Acabam de ser tornadas públicas as listas individuais do top dos "especialistas em cinema" (vamos chamar assim todos os críticos, distribuidores, programadores, académicos que responderam ao desafio da Sight and Sound de eleger os melhores filmes de sempre, uma lista que comentei aqui).

Esta base de dados tem muito sumo lá dentro e, por isso, precisarei de alguns dias até a ter digerido convenientemente. Todavia, deixo já aqui as minhas conclusões mais imediatas.

Primeiro, a produção nacional está de parabéns. Três realizadores portugueses viram mais que um dos seus filmes mencionados por especialistas numa lista onde só se inclui a "nata da nata" do cinema mundial. Pedro Costa, com 13 nomeações no total, e Manoel de Oliveira, com 10, são os cineastas portugueses em maior destaque - seguindo-se João César Monteiro.

Segundo, "Juventude em Marcha" é o filme português com mais menções, 7 no total, seguido de "No Quarto da Vanda", 5 no total. "Vale Abraão" é o terceiro filme português mais "votado", contando com um total de 3 votos, a par de "Mistérios de Lisboa" de Raoul Ruiz. Críticos franceses, espanhóis, britânicos e americanos fazem parte do eleitorado especializado que resolveu alinhar o cinema português com os melhores do mundo.

Terceiro, este resultado é um triunfo nacional que deve ser analisado, antes de cinematograficamente, sob uma perspectiva política. Isto porque, afinal, fica de novo provado, e agora diria "em definitivo", a longevidade e alcance de filmes que, por uma razão ou outra, não mereceram a atenção devida internamente, quer do público, quer do poder político, quer mesmo de alguns "colegas de profissão". Fica provado que cineastas como António-Pedro Vasconcelos ou agentes políticos como o actual Secretário de Estado da Cultura estão rotundamente errados quando vêm desmerecer o cinema de autor nacional, com epítetos como "Pedro Costa, o cineasta oficial das Fontainhas" ou asserções ligeiras em torno da reconciliação um, dois, três entre o cinema nacional e o seu público. A eles devia ser dedicada esta lista.

Quarto, o cinema português vive um período de graça lá fora. Em muito mais casos do que se calhar esperaríamos há uns anos, Pedro Costa e Manoel de Oliveira são ou colocados entre os dez maiores cineastas de sempre ou quando não o são a sua ausência é lamentada pelo especialista votante. Pergunto-me se para tal não terão contribuído as recentes edições em DVD de Pedro Costa, por algumas das melhores editoras de filmes do mundo, como a americana Criterion Collection ou a espanhola )intermedio(, ou caseiramente pela própria Midas (com legendas em inglês), como também o lançamento nacional de algumas obras de Oliveira que estavam há demasiado tempo inacessíveis no mercado (inter)nacional.

Estou certo que teríamos mais nomes e títulos nacionais referenciados se outras obras fundamentais da nossa história tivessem o mesmo tratamento, falo de "Acto da Primavera", "Benilde ou a Virgem Mãe" e "Amor de Perdição" (este apenas disponível numa edição de qualidade suspeita, em Espanha) ou, reportando-me a outros grandes cineastas e obras-primas lusas, toda a obra de António Reis e Margarida Cordeiro, o enorme "Verdes Anos" de Paulo Rocha, etc.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Pensar a crítica e a cinefilia hoje (II)

Equipa da blogosfera (a azul) vs. equipa do CINEdrio (a preto)

Leia a parte I aqui

Apesar de tudo, a maior parte da crítica continua viva e resiste (ou continua viva porque já só resiste), mas não marca tendências como antes nem escreve frases que duram décadas (como o "travelling ser uma questão de moral") nem produz pensamento, apenas ante-produz reacção à opinião (como no caso do Batman no jornal Público). Acção que se alimenta da reacção mais epidérmica, já que quase nada de palpável fica das polémicas que se vão encenando de x em x tempos. Também não arrisca ou experimenta (será verdadeiramente livre? Claro que não, também não $ou ingénuo a e$$e ponto): por exemplo, os jornais, mesmo que sejam lidos maioritariamente na sua versão online, trabalham com formatos rígidos ultrapassados, esforçando-se pouco ou nada para reformular o medium do pensamento cinéfilo. 

Será que um dia será levada "à letra" a frase de Jonas Mekas no artigo «Notes on the  New American Cinema»: "film truth needs no words"? Talvez um dia, mas até lá, a crítica é escrita e é lida - a posição neste momento parece ser esta e deverá continuar a ser esta por muito tempo. No debate que referi atrás, fala-se do número 5 da revista Rouge, saído em 2004, em que se ensaia, de modo a meu ver muito interventivo, uma nova linguagem de análise e crítica do cinema, mais próxima aliás do filme de Godard do que dos proverbiais vídeo-ensaios. Nessa edição, como se lê na introdução, os redactores procuraram "pôr em cheque a linguagem [escrita]", privilegiando a imagem em detrimento do texto. O resultado, vários artigos de grandes figuras do mundo do cinema praticamente só com stills, é magnífico e desconcertante: sente-se, aqui, a formação de uma crítica de cinema que age sobre o leitor, provoca-o, não pelo "gosto" veiculado, nem mesmo por aquilo que diz (que, literalmente, é pouco ou nada), mas só e exclusivamente por aquilo que mostra. 

Ali, a crítica presentifica-se em imagens, mostra ou é mostrada (com uma legenda abaixo ou apenas um título "indicativo"). O exercício crítico é garantido pelo enquadramento geral - de revista de cinema - ou pela assinatura - de um crítico ou realizador conhecido. O resto é um trabalho sobre a imagem que se ABRE ao leitor, potenciando viagens inusitadas, algumas seguramente extrafílmicas, outras intensamente, agora sim, cinematográficas. O modelo "Histoire(s) du cinéma", filme realizado por um cineasta que foi dos mais inventivos críticos de cinema (recordo a célebre recensão a "The Wrong Man", com uma intensiva descrição plano a plano, que muito provavelmente hoje se faria, num blogue, só com stills), prova-se mais funcional que o já "excessivamente" academizado formato do vídeo-ensaio.

Ora, no debate da Cinemateca de Bolonha, o primeiro obstáculo levantado a estes modelos prende-se com a questão da protecção dos direitos de autor afectos às imagens dos filmes. Sem dúvida que é uma limitação, apesar de pessoalmente acreditar que certas limitações potenciam melhores soluções (é a minha costela rosselliniana). Na minha rubrica pansignificações (o nome vem de uma ideia de Barthes que transcrevi aqui), tenho proposto uma espécie de revisão puramente formal da política de autores, olhando para cada corpus a partir "de fora", mais especificamente, usando imagens que estão no domínio público para analisar e relacionar criticamente o cinema. A pansignificação mais popular, o torneio "A Angústia do Blogger Cinéfilo no Momento do Penalty", pode ser encarada como apenas uma "brincadeira infantil", mas, graças a ela, apercebi-me de uma coisa tão extraordinária quanto isto: é possível chegar-se a certos consensos quase puramente "filmológicos", utilizando uma linguagem, à partida, totalmente estranha à do cinema. 

Submetido a votação, ficou claro e inequívoco que se Bresson fosse jogador de futebol, jogaria à baliza. É de mim ou não será estrondoso que esta conclusão surja assim, tão indiscutível, depois de apenas uma "brincadeira inofensiva para cinéfilo ver"? Nas outras pansignificações, também me tenho apercebido da minha própria evolução, no sentido de encontrar aquilo que Goethe diria ser a imagem primordial ou a Ideia (sinopse) de determinado filme ou conjunto de filmes. Comparando Ford a HawksAkerman a Benning, Cassavetes aos irmãos Safdie ou "cozinhando" bolos de anos para cada cineasta, para cada cinema, ou ainda actualizando a imagem do monólito de "2001" ganhei a certeza de que, por muito longe que estivesse - e estou -, me ia aproximando de uma certa Essência, sendo que, para isso, usava imagens antes de palavras. Será uma linguagem pobre, com deficiências, mas não está tão longe quanto se possa pensar do decadente formato texto nessa grande Procura do tal "inner meaning", como lhe chama o recém-falecido Andrew Sarris na sua "auteur theory".

Não é, aliás, 100% correcto da minha parte afirmar que a crítica oficial não usa imagens, sobretudo se nos lembrarmos desse dispositivo, tão recorrente e banalizado, que são "as estrelinhas e a bolinha preta". A maioria dos leitores terá bem presente a quantidade de informação que podemos extrair olhando apenas para uma dessas imagens tão rudimentares quando atribuídas por determinado crítico (a bola, uma estrela, duas, três, quatro, cinco!). Elas apenas assinalam um valor quantitativo, mas imagine que seja possível elaborar criticamente a partir dessa imagem, juntando outros elementos visuais "estranhos" ao universo imediato do filme... Impossível? Não sei.

Venho, portanto, declarar uma posição que é também um apelo a todos os que não querem ser "agentes passivos" neste mundo em rápida mutação que é, pois acreditem que é, o cinema. Defendo que pela imagem, parada ou em movimento, still, stolen ou found: se salvará e se potenciará, como nunca antes, a crítica de cinema; se constituirá, finalmente, uma crítica cinematográfica, promoção da divisão substantiva a uma conjunção adjectiva, infintamente mais maleável, logo, adaptada à realidade líquida da nossa era digital; a crítica será, também diria "finalmente", um exercício de pensamento com as imagens e não "a favor ou contra" determinadas imagens "tornadas objecto" no texto; a função-crítica dará as mãos à função-cinema, tréguas enfim para a crescente indefinição de fronteiras entre as duas....

No fundo, sugiro que se vá despindo a crítica de palavras gastas e infrutíferas, vestindo-a, ao mesmo tempo, com imagens-ideia significativas; sugiro que se experimente, se arrisque, se erre, se erre de novo e se erre melhor (como diria Beckett) para estabilizar uma nova linguagem crítica sobre o cinema - e que, no processo, se vá produzindo reflexão e se vá discutindo colectivamente cada avanço.

(E contra mim falei, ou não gastei eu palavras e mais palavras para dizer que se calhar estas "estão a mais" e são "demais"? E não irei eu continuar a gastá-las, apesar de tudo? Espero um dia poder combater mais assertivamente esta instalada tendência da crítica fílmica.)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pensar a crítica e a cinefilia hoje (I)

Still de "Histoire(s) du cinéma" (1997-1998) de Jean-Luc Godard

É minha convicção que nunca foi mais decisivo e pertinente todo o pensamento que se possa produzir em torno não só da função mas, antes de tudo, da "forma" da crítica de cinema - ia escrever "crítica cinematográfica", mas receio que a maioria não mereça o elogioso adjectivo e se calhar o problema começa aí... Se nos anos 40-60 a crítica de cinema viveu um período de vitalidade que, nalguns momentos, parecia estar até a jusante do cinema que se fazia então, nos dias de hoje a crítica perdeu influência, mas mais do que isso, muito mais do que isso, perdeu quase por completo a chama criadora.

Na realidade, o episódio recente em torno do texto de Luís Miguel Oliveira sobre o último Batman de Nolan revela que, nesta era de massificação da opinião, o espectador/leitor nunca foi tão intolerante à opinião "profissional" do crítico de cinema. Por outro lado, a tolerância em relação a analistas "amadores" pode  ser significativamente superior - mesmo se, no geral, ambos se encontrem nas suas opiniões. (Comparem, ressalvando as devidas proporções, as reacções ao texto do Luís Miguel Oliveira com as reacções, no site ou no Facebook, a este texto do João Lameira.)

Isto não seria sintomático de grande coisa se eu não sentisse que a crítica de cinema PRECISA destas polémicas de vão-de-escada, do estardalhaço nas caixas de comentário, para, deste modo, ir marcando (corporativamente) o seu território.... O facto do Ípsilon ter começado por publicar, com um dia de antecedência, a crítica de Luís Miguel Oliveira (não a de Jorge Mourinha, por exemplo) ao "nulo" filme do Batman e ter publicitado a mesma na sua página do Facebook em jeito de "isco para as massas" (paradoxo: tratamento de excepção para filme tido como vulgar) significa que, muito provavelmente, a crítica necessita destes embates para justificar a sua existência, "ameaçada" que vai sendo pelo fenómeno da tal multiplicação descontrolada de "fazedores de opinião" na Internet (nas redes sociais, blogues, sites amadores, etc.).

Ao contrário do que possa parecer até aqui neste texto, não pretendo de maneira nenhuma desacreditar ou desvalorizar o papel da crítica de cinema; quero, antes, convidar o leitor à reflexão sobre eventuais "estratégias de sobrevivência editoriais" que estarão a ser activadas ante o crescente fenómeno de proliferação digital da opinião e informação sobre o cinema. Opinião e informação produzidas por amadores, cidadãos que, fora de qualquer tecto institucional ou empresarial, dizem de sua justiça sobre os mais variados temas ligados à Sétima Arte. Dada a delicadeza do assunto, teremos de ir por partes, mas atrevo-me a avançar já com um palpite meu: se calhar, sublinho o se calhar, ao contrário do que podemos pensar, o problema principal da crítica de cinema não está, hoje, no conteúdo...

O Carlos Natálio publicou no seu blogue um vídeo com uma conferência sobre todos estes assuntos, que teve lugar na Cinemateca de Bolonha, no dia 24 de Junho 2012. O painel, constituído por Miguel Marias, Jonathan Rosenbaum e Girish Shambu, discutiu as antigas, algumas extintas, e as novas, algumas emergentes, formas de "cinefiliação". A certa altura, os três críticos e estudiosos do cinema encaram de frente, como ainda não vi ser feito por cá, o "grande elefante na sala": é ou não é verdade que a linguagem da crítica de cinema enfrenta hoje, em tempos de intensíssimo trânsito (multi)mediático, uma complexa crise de identidade? Se sim, temos pensado sobre ela e nos modos de a superar?

Os conferencistas partem dos particulares - ou nem tanto, alega Rosenbaum - anos 50-60, e do seu efervescente ambiente intelectual, e aterram neste presente de rápidas mutações, para constatarem, entre outras coisas, que "Histoire(s) du cinéma" será o emblema, espécie de padrão-ouro, de todos os vídeo-ensaios cinéfilos, formato que, ainda que timidamente é verdade, vai pondo em dúvida o "grau de legibilidade" da tradicional actividade escritural, mais ou menos verborreica, de praticamente toda a crítica, seja ela oficial ou não-oficial...

Esta simples "viagem temporal", bastante (auto-)crítica, sugere a ideia alarmante de que ou algo muda agora ou a crítica se poderá perder para sempre nestes tempos de indefinição (também mas não só, indefinição dos formatos, entre eles, a própria alta-definição que mostra tudo e não deixa nada "por ver"), de volatibilidade (o que está na moda agora está já a seguir, porque o disse, o escrevi, o esgotei..., fora de moda), de instantaneidade (Rosenbaum recorda um tempo em que, depois de ter visto um filme, tinha de esperar meses ou anos para falar com alguém que também o viu, hoje, o problema é quase inverso, face a tanta poluição e omnisciência informativas) e, tudo somado, de instrumentalização do pensamento fílmico (usar e deitar fora, sem esforço, isto é, idealmente quase sem cliques, quase sem scroll, quase sem ler, porque isso mata o tempo e fere os olhos...).

(continua)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Os dez melhores de sempre

Inspirado pela lista, recém publicada pela revista inglesa Sight & Sound, com os "melhores filmes de sempre" (que comentei aqui) e pelo desafio que o Samuel do Keyzer Soze's Place colocou aos seus leitores, elaborei um top 10 da minha autoria, onde constam, posso dizê-lo, os dez filmes que moldaram a minha cinefilia. O problema com as listas é o de termos de conviver com as ausências imperdoáveis, no caso, o critério foi muito pessoal, quase autobiográfico.

1. "2001: A Space Odyssey" (1969) de Stanley Kubrick


Aqui aprendi a pensar com imagens e percebi que, no cinema (como na vida), o mistério pode nunca acabar (= a minha primeira grande noção de infinito).

2. "Citizen Kane" (1941) de Orson Welles


Aqui percebi o que podia ser a grandeza do classicismo norte-americano e, logo a seguir, a loucura de um génio que o celebrou ao mesmo tempo que o dinamitou por dentro.

3. "North by Northwest" (1959) de Alfred Hitchcock


Aqui deixei-me levar pela aventura de um "homem errado" e desejei que esta nunca acabasse.

4. "Raging Bull" (1980) de Martin Scorsese


Aqui aprendi a ver tragédia e bailado a partir de um palco só: um ringue de boxe, mais especificamente.

5. "Monsieur Verdoux" (1947) de Charles Chaplin


Aqui percebi que há mais vida para lá dos clássicos maiores de Chaplin; logo, aprendi a amar a descoberta cinéfila.

6. "El espíritu de la colmena" (1973) de Victor Erice


Aqui voltei a ouvir e a ver como uma criança e apercebi-me do papel que o silêncio e a paisagem podem desempenhar sobre as imagens. 

7. "Assault on Precinct 13" (1976) de John Carpenter


Aqui aprendi a relacionar e a ler cinema, para descobrir, por exemplo, que por trás de uma coisa (o thriller urbano de cerco) pode estar outra (um western de cerco hawskiano).

8. "Bringing Up Baby" (1938) de Howard Hawks


Aqui desfiz um preconceito que me perseguia: é que a comédia não é mesmo nada um "género menor".

9. "Mon Oncle" (1958) de Jacques Tati


Aqui encontrei as figuras, os ritmos e as distracções que, ainda hoje, alimentam o meu (resistente!) imaginário de infância (uma infância idealizada, claro está).

10. "Ivan, o Terrível Parte I e II" (1944-1958) de Serguei M. Eisenstein


Aqui sim, verdadeiramente, percebi como se pode "escrever História com luz" (a frase é de Woodrow Wilson a propósito do moralmente deplorável "The Birth of a Nation" de D.W. Griffith).


Reendereço o desafio a todos os bloggers de cinema (e não só!) que passem por este cantinho.

sábado, 19 de maio de 2012

Por uma contra-crítica

Still de "Kapò" (1960) de Gillo Pontecorvo

Admito que já tinha tirado a ideia deste post de um texto do Rancière ("O Espectador Emancipado"), mas leio agora outra obra sua, "O Mestre Ignorante", e apanho exactamente aquilo em que acredito, nomeadamente, no âmbito da crítica de cinema. "A inteligência não é potência de compreensão, que se encarregaria ela própria de comparar o seu saber em relação aos seus objectos. A inteligência é potência de se fazer compreender, que passa pela verificação do outro".

Penso que este é o papel essencial da crítica: não o de nos dizer o que devemos ou não ver, o que ela compreende ou não no embate com a obra, o que ela considera boa ou má obra, mas o de nos iluminar a capacidade que temos de nos fazermos compreender, isto é, iluminar a capacidade que temos de articular as formas da nossa incompreensão.  É que nunca se compreende o cinema, ele é sempre indiscutivelmente incompreensível - João Salaviza transmitia um pouco isto recentemente, em entrevista muito interessante que deu no programa Bairro Alto. Por tudo isto é que é perfeitamente possível haver uma instrutiva conversa de cinema sobre um filme que não gostámos ou, no limite, que nem vimos... (Daney fez isso em "Travelling de Kapo", numa espécie de diálogo com um texto de Rivette.) E daqui até à ideia de que todos os filmes são bons, ou inocentes, como diz Mekas; de que todo o cinema está em todos os filmes, "tudo em tudo", como diz Rancière, vai necessariamente um passo.

Mas esse passo pouca crítica o tem querido dar, não por ignorância, mas talvez, bem pelo contrário, por excesso de "mestria", tique de uma função tornada métier que dita coisas definitivas (os "thumbs up" ou os "thumbs down" ou as manifestações de "políticas de gosto" elitistas*) mas que produz pouca ou nenhuma fantasia verdadeiramente livre (já ninguém viaja, linhas atrás de linhas, por planos imaginados, na sala escura, que estavam, ou não, no filme... lembram-se dos "acrescentos" deliciosos nas folhas de Bénard da Costa? Dir-se-iam plenos desta ignorância fértil, magistral, mas não "mestra", que falta a demasiados críticos e que é desprezada por muita gente que faz cinema).

De qualquer modo, não é coisa pouca esta função da, perdão, esta função que é a crítica de cinema: nas suas mãos parece estar "o mote" para a emancipação do pensamento fílmico, na presença ou na ausência do objecto: os filmes, que, vistos ou não vistos, bem vistos ou mal vistos, são sempre os primeiros a ganhar com tudo isto.

* - Lamento desiludi-lo, mas não precisa de Godard para pensar o cinema. Não precisa de Godard tanto quanto não precisa de Michael Bay... Um pode-me ajudar a pensar mais do que outro, mas o que interessa é a minha vontade de o ver, ou melhor, o exercício de liberdade intrínseco à escolha de o ver. Pergunto: será que nesse exercício poderei, como que por acidente, des-cobrir os "ensinamentos" de um num filme de outro? Caro crítico e, já agora, caro académico, tente responder seriamente a esta questão.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Canal Hollywood e o programa Estreia da Semana: a indigência mental televisiveira


Até fico arrependido de já ter escrito algumas coisas, mas não posso. Por quê? Porque estou inocente: a mediocridade e a mais obtusa inanidade não me vão pôr aqui a engolir uma única palavra que escrevi sobre este ou aquele indivíduo, sobre esta ou aquela estação. Se já falei aqui no "grau zero" da apresentação ou divulgação do cinema em televisão, tenho então de inspirar bem fundo e dizer que a pobreza intelectual do que li neste post de João Lopes e depois na notícia do Diário de Notícias sobre o novo magazine (des)personalizado do canal Hollywood ultrapassa os limites da minha tolerância.

Quem me conhece minimamente sabe que não coloco, à partida, reservas à existência de programas da TV privada com maior ou menor número de junkets ou que façam gala de passar trailers de filmes distribuídos pela Lusomundo. Já realizei uma conferência onde fiz questão de fazer representar no painel alguém ligado a esta vertente pipoqueira do jornalismo cultural televisivo. Diga-se que essa "alguém" foi Mário Augusto, pessoa que, nesta área, conseguia dar várias lições de seriedade e profissionalismo a qualquer uma destas novas caras do canal Hollywood.

Mas, recuemos: muita coisa me deixa incrédulo. Primeiro, tal como João Lopes, considero, no mínimo, desconcertante a ligeireza com que uma ex-apresentadora do "5 para a Meia-Noite", voluntaria ou involuntariamente, reduz ao mais embaraçoso vazio intelectual o trabalho que deve envolver qualquer espaço concebido para in-formar, pensar e dar a pensar o cinema. Se a rapariga, coitadita, não tem tempo para ver os filmes, a solução - segundo a mesma publicita às escancaras, sem pingo de pudor... - está encontrada: ver trailers e making ofs no YouTube, fazendo depois uma espécie de "share" no programa em questão... O leitor menos atento a estas coisas até poderá pensar que, se calhar, porque o trabalho parece tão ao alcance de qualquer pessoa da geração da apresentadora, esta só lá está ou porque tem uma cara bonita ou porque, tendo uma cara bonita, já apresentou outro programa do género.

Que a Luísa Barbosa, por ser da escola "5 para a Meia-Noite", jóia da coroa da televisão "de serviço público" RTP2, constitui uma mais-valia para programas deste género num canal que é uma playlist aleatória de filmes, não me surpreende, mas que revele "de onde vem" de forma tão pornográfica na sua primeira intervenção pública enquanto apresentadora do "Estreia da Semana", isso já me deixa bem mais preocupado. Estaremos todos assim tão insensíveis à irresponsabilidade e desonestidade intelectual das pessoas que fazem a nossa televisão? Haverá "crítica" capaz de despertar a consciência do espectador para este tipo de abusos discursivos?

É que a rapariga não está só nesta cena degradante. "Estreia da Semana" terá 4 apresentadores, cada com uma exigente pasta em mãos. Bernardo Mendonça tem a seu cargo os filmes de ação e guerra, Luísa Barbosa dedica-se às comédias e aos romances, a Maria de Vasconcelos competem os filmes de animação e infantis e Bruno Pereira está encarregue dos thriller e dos dramas. O objetivo é fornecerem um olhar personalizado sobre o filme em questão. Aguardamos impacientes pelo estilo "personalizado" que esta malta que nem se dá ao trabalho de ver os filmes irá investir nas suas análises aos seus filmes devidamente pré-etiquetados de "guerra" ou "infantil". Mais um contributo para o "engavetamento" - desta feita, "personalizado" - do cinema no espaço mediático.

Enfim, escusado será dizer que, mesmo antes da estreia - a deles no canal... -, este grupo de apresentadores já deu provas de ser um desastroso erro de casting mediático. Mas o que dizer de quem - no caso, alguém chamado Bruno Pereira - se orgulha de escrever os seus próprios textos, de não ser um "papagaio"? Então, não vai o Bruno Pereira papaguear nos seus textos, seguramente, muito "personalizados", as coisas que ele, a Luísa e companhia "apanham" na Internet? O que dirão os outros colegas do Bruno Pereira, os das outras estações, que, no fundo, são, numa frase, enfiados no saco dos "papagaios" da Sétima Arte? O que deve o leitor retirar disto tudo?

Desde logo, eu, enquanto espectador, retiro que o canal Hollywood só pode ser pessimamente gerido. Já pressentia isso face à progressiva redução de qualidade da sua programação estilo "playlist", mas depois desta amostragem fico mais do que convencido. Aliás, registo com quase igual estupefacção a intervenção do director de programação do canal, que diz que não passará - e não passa - cinema português porque o canal se chama Holywood. Faz sentido, é verdade, mas o mesmo canal passou durante anos e até há bem pouco tempo vários grandes clássicos do cinema mundial, como "Ran", "Fahrenheit 451" ou "A Noite Americana". Mas, se fazia algum sentido o que disse no início, Paulo Guedes - é o nome do senhor - apressa-se a concorrer em matéria de indigência mental com os seus pupilos: Temos espaço para outros produtos. Só em termos de filmes é que não podemos apostar tanto nos portugueses. O canal chama-se Hollywood... fará sentido um filme português se for mais comercial, com grande sucesso das salas portuguesas.

Não vou sequer entrar na discussão do quão relativo pode ser o critério "grande sucesso nas salas portuguesas", porque o disparate está no facto de só fazer sentido passar cinema português num canal chamado Hollywood se este se sair bem nas salas... Primeiro, não faz sentido: se é para não passar cinema não-americano, não passe, mas enganar o leitor e o espectador com retórica televiseira mal amanhada, isso é mais uma machadada na credibilidade de quem dirige o canal. Por outro lado, com essa observação ilógica e desonesta, o senhor director mostra ter a visão mais redutora e ignorante que podia haver da história do cinema nascido em Hollywood - para Paulo Guedes, Hollywood será sinónimo de blockbusters, é isso? - e, segundo, é a visão mais estreita e potencialmente desastrosa para um canal inserido num mercado, cada vez mais, de oferta única. Quer o canal oferecer o que os outros oferecem? Sucessos nas salas, sucessos nos outros canais. Estes são, como o director lhe chama, qual bom tecnocrata televisiveiro, os bons "produtos" do canal Hollywood.

O canal Hollywood não quer oferecer qualquer alternativa mas, muito pelo contrário, oferece a confirmação de todos os preconceitos televisivos em relação aos modos de ver e dar a ver o cinema, pensar e dar a pensar as suas imagens... Esta estação, com este discurso assassino do cinema, profundamente anti-pedagógico e insultuoso, nomeadamente, para o espectador, revela o paradoxo em que está caída: um canal de cinema que quer oferecer "produtos", americanos ou americanizados, que já toda a gente conhece e que quer veicular informação papagueada do YouTube e outros sites da Internet gaba-se da originalidade da sua política de aposta no que é nacional, no que "é nosso". Na parvoíce e na chico-espertice, originalidade não lhe falta.

(Na sequência desta asquerosa peça jornalística, decidi suspender por tempo indeterminado a recomendação de filmes do canal Hollywood na Newsletter do CINEdrio, bem como retirei o meu like da página facebook do canal. O canal Hollywood é uma estação privada de televisão, tem o direito de dar os pontapés que quiser em todos aqueles que trabalham séria e dignamente no, sobre e com o cinema, mas, felizmente, eu também tenho cá em casa um televisor e um computador que são propriedade privada... Enquanto espectador e utilizador da Internet farei o que estiver ao meu alcance para dignificar a pedagogia audiovisual, que tanta falta faz neste país.)

terça-feira, 20 de março de 2012

Contra o efeito facebook: pela preservação do melhor lado da blogosfera


Há mais de uma semana decidi deixar de publicitar - como publicitava - os posts do meu blogue na minha página do facebook. Considero que a intoxicação entre a reflexão que ainda se faz na blogosfera e a instantaneidade da comunicação tipo chat do facebook não é em nada benéfica à primeira, na realidade, tende a sobrepor-se àquela. Faço isto ciente de que perderei umas quantas visitas (de circunstância) ao meu espaço, mas convicto de que se tem de começar por algum lado para preservar espaços mais estáveis de reflexão na Internet.

Por tudo isto, deixo o repto aos meus outros colegas bloggers a fazerem o mesmo. Dir-me-ão que só usam o facebook como plataforma intermédia de publicitação dos vossos posts, mas, cá para mim, o que era medium está a transformar-se num fim em si mesmo e, com isso, perdemos na fidelização aos espaços e perdemos na coerência do discurso que neles vamos, post a post, desenvolvendo. A ditadura do "like" também limita a troca de impressões na caixa de comentários. Mais um gimmick do facebook que só esvazia os espaços organizados e não descartáveis de reflexão.

Se concorda, partilhe, em blogue ou página do facebook, a imagem deste post.

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