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terça-feira, 27 de outubro de 2015

O escândalo do Enem

Se alguém ainda tinha dúvidas de que o Brasil e um país machista, as reações nas redes sociais e no Parlamento ante a escolha do tema "Violência contra a mulher" para a redação do Enem 2015 as dirimiram.

Tão logo a escolha do tema se tornou pública, figuras tragicômicas do conservadorismo brasileiro, como Bolsonaro e Feliciano acusaram o exame de “doutrinação” e de “marxismo do PT”, voltando suas baterias, ainda, a uma questão baseada no clássico feminista O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Para além da contradição irônica de um militar e um pastor reclamarem de catequização ideológica, trata-se de uma tripla bobagem.



Confusão deliberada
Primeiro, porque a violência contra a mulher é um tema que não se enquadra na divisão político-ideológica convencional entre direita e esquerda, pertencendo ao âmbito dos Direitos Humanos - que, como tais, ao menos na letra da lei, transcendem partidarismos.

Segundo, porque o PT nunca foi marxista, o que dizer após sua conversão a um modelo capitalista de desenvolvimento baseado no consumismo.

Terceiro, porque uma das mais recorrentes críticas a Marx é justamente de negligência para com as questões de gênero.




Analfabetismo político
Mas tal reação teve um aspecto pedagógico: a repercussão de tais criticas nas redes sociais, barulhenta e volumosa, forneceu uma amostra do quanto se encontra disseminado, sobretudo entre jovens, um conservadorismo preconceituoso e ignorante (embora se acredite ilustrado), neles instilado por velhas figuras paternais travestidas de intelectuais e ideologos.

Presos a uma visão política binária e excludente, com baixíssima formação cultural e política, são aliciados para um autoritarismo que “opera pelo discurso e pela prática sempre bem engrenadas que se organizam ao modo de uma grande falácia, ao modo de um imperativo de alto impacto performativo: o outro não existe e, se existe, deve ser eliminado”, como descreve a filósofa Márcia Tiburi em artigo na revista Cult. Para ela, esse neoconservadorismo, que se quer uma elite intelectual e se crê aideológico enquanto critica o que entende por ideologia (esquerdista) alheia, caracteriza-se por “autoafirmação de ignorância, assinatura de estupidez”.




Fahrenheit 451
O jornalista Mário Magalhães foi didático a tal respeito, ao apontar, em seu blog, que “O problema maior são as veleidades de censor, a proposta, escancarada ou envergonhada, de eliminar da história Simone de Beauvoir, seu pensamento e suas ações”.

Seja como for, em termos políticos é temeroso pensar o que esses jovens eleitores virão a fazer, nos próximos anos, com os seus votos.



Orgulho sem razão
O petismo, por sua vez, no estado extremo de carência em que se encontra, aproveitou o acerto na escolha do tema da redação como evidência, a um tempo, de seu esquerdismo e de que administra bem a Educação. Trata-se de uma dupla falácia, pois área educacional é a que mais sofre com o ajuste fiscal de inspiração neoliberal, com cortes na casa das dezenas de bilhões de reais.

Pior: no que diz respeito ao próprio tema da violência doméstica, embora o partido tenha o grande mérito de ter participado da elaboração e ajudado a aprovar no Congresso a “Lei Maria da Penha”, sancionada pelo presidente Lula, o governo Dilma, ao vetar a lei que determinava a igualdade de salários entre homens e mulheres, colaborou de maneira decisiva para perpetuar a assimetria econômica entre os sexos - que, por sua vez, está no cerne das relações de dependência financeira que dificultam tanto a denúncia da violência
quanto a obtenção de autonomia por parte de mulheres agredidas, muitas das quais acabam presas a uma relação abusiva.
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Feminicidio e violência
Nunca é demais apontar que a violência contra a mulher é uma questão social urgente. Segundo dados oficiais, quase 50 mil brasileiras foram assassinadas entre 2001 e 2011, a maioria entre 15 e 24 anos. Foram feitas mais de 50.000 denúncias em 2014, sendo que 77% das mulheres que relatam viver em situação de violência são agredidas ao menos uma vez por semana, 48% delas em sua própria casa. Sendo que se teme que esses números sejam apenas a face visível de uma violência que muitas vezes sequer é registrada.

Portanto, carimbar tal tema de propaganda esquerdista revela um misto de ignorância e má-fé, pois faz todo o sentido (cívico, educacional, preventivo) instigar jovens vestibulandos a sobre ele refletirem. A escolha dos examinadores foi mais do que acertada.




Jogo de aparências
Mas, levando em consideração o todo da prova, isso não anula algumas das críticas que são feitas ao Enem (não obstante o avanço que este representa em relação ao vestibular convencional). Dentre elas destacam-se o desprezo pelas diferentes realidades educacionais regionais, a não-explicitação dos propósitos e da competência de área de cada questão, e um modelo de prova que, se inova na escolha das questões, tratando temas sociais atuais, não deixa de repetir uma fórmula esquemática de exame que favorece as escolas cujo planejamento de aulas se dá com vistas ao exame (à maneira dos antigos cursinhos), prejudicando aquelas que cobrem o currículo sem direcioná-lo para tal.

Tais vícios têm tido como distorção mais palpável a hegemonia nacional, nos cursos mais disputados, de estudantes advindos das escolas de elite do Sudeste, os quais, além da ampla supremacia em sua própria região, têm ocupado muitas das vagas no restante do país, notadamente no Nordeste. Para um exame que foi anunciado como um substituto democratizante e socialmente includente ao velho modelo de seleção, trata-se de um problema gravíssimo.



Sem cura
Ainda mais grave é o fato de que, publicizado como uma falsa panaceia includente, o Enem, na verdade, nada altera em termos da qualidade do ensino oferecido. Como resume com propriedade Alcides Villaça:

Em vez de uma educação pública de bom nível, elaborar a cada ano uma cada vez melhor prova de avaliação do ensino deficitário. Um estranho termômetro, planejado para dissimular a febre”.




Mais de uma década de paliativos
Nesse sentido, o Enem repete o que se tornou um padrão nos 13 anos de petismo no poder: a opção por medidas de baixo ou nenhum custo, vendidas como panaceias, no lugar de ações planejadas e estruturadas de melhoria da Saúde e da Educação - como, respectivamente, o Mais Médicos, em vez de uma reestruturação da saúde pública no país; e a adoção de (bem-vindas) cotas, mas desacompanhadas de uma reforma educacional que estimulasse, em parceria com os estados, um salto qualitativo na área.

Destarte, aliviam-se alguns problemas e corrigem-se algumas distorções, mas sem mexer na estrutura que os causa.




A questão do contraditório
Tampouco se pode negar que, apesar da louvável escolha do tema, a correção da redação trará armadilhas potenciais. Pois, por um lado, parecem consideráveis as chances de que vestibulandos machistas e que foram previamente orientados a fazer ponderações e atentar ao contraditório em suas redações venham com argumentações do tipo "a mulher tem de se preservar", que indiretamente a culpam pela violência sofrida, chancelando-a.

Se, como tem sido nos últimos anos, a correção da redação der prioridade a estrutura, correção gramatical e construção de sentido, em detrimento da coesão ideológica, aumentam as chances de que redações tais como as descritas no parágrafo anterior venham a obter notas altas – quiçá máximas.



Escândalos
Por outro lado, se a correção se ativer com o devido rigor aos preceitos éticos e só der notas altas a redações que condenem sem subterfúgios a violência contra a mulher, isso pode vir a ser interpretado como um endosso à crítica (que não veio só do conservadorismo) de que, apesar de sua inegável importância, o tema, tal como proposto, não comporta o contraditório e impõe, na prática, uma – e apenas uma - posição ideológica ao vestibulando.

De um modo ou de outro, a tendência é que a questão da escolha do tema volte a produzir escândalos na mídia tão logo a correção e as notas das redações sejam divulgadas.


(Imagem da Mafalda de Quino retirada daqui

 

 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O que penso sobre o caso Enem

A polêmica sobre o Enem, deflagrada no último final de semana, tem acirrado ânimos de uma forma tal que, seja entre seus críticos ou entre seus defensores, a razão e o bom senso têm sido as principais vítimas.

Um dos argumentos mais repetidos ao longo da polêmica é que, por se tratar de um problema que só teria afetado uma ínfima parcela percentual dos que prestaram o Enem - de 0,04 a 0,06%, a depender da fonte consultada -, a falha seria pouco significante. Trata-se de um argumento tão lógico quanto falacioso. Pois, evidentemente, só é possivel aferir a gravidade de um fato a partir de dados percentuais se se leva em conta a dimensão numérica da amostra. Ou seja, numa classe de aula com 40 alunos, por exemplo, é absolutamente insignificante algo que incida sobre 0,05% da amostra; mas se pensarmos num desastre natural - digamos, um tsunami - que atingisse fatalmente 0,05% da população brasileira, constataríamos que quase 100 mil pessoas morreriam - o que seria, sob qualquer critério, um desastre de enormes proporções, com manchetes no mundo todo.

Como o universo total de prestadores do Enem é da ordem de 10 milhões de jovens, portanto, a priori, não se pode descartar o problema ocorrido no exame apenas com base em dados percentuais.


Insegurança geral
Outro dado importante a se levar em conta é que o dano sequer se limita ao universo de 4,5 mil alunos diretamente prejudicados - pois, como os problemas ocorreram no sábado, primeiro de dois dias de exame, a divulgação de sua ocorrência instaurou um processo de insegurança psicológica que certamente afetou um contingente bem maior de alunos - o que persiste agora, com a incerteza jurídica a respeito de sua validade.

Esses são problemas reais, efetivos e de grande dimensão. Fechar os olhos para isso, atribuindo a reação tão-somente à oposição intransigente e ao PIG malvado, como tantos vêm fazendo na internet, equivale a adotar a tática-avestruz, enterrando a cabeça na terra para não ver nada.

Mesmo porque,em qualquer lugar do mundo, a imprensa "cairia matando" - e com razão - contra um ministério que, pelo segundo ano consecutivo, prejudica milhares de estudantes no momento crucial de se qualificarem para entrar na universidade. Que, no Brasil, a mídia que se confunde com a oposição alcance os trinados de histeria golpísta em relação ao tema é algo a denunciar e refutar, mas não surpreende nem, de modo algum, torna o caso menos grave.


Enem contraria interesses
Por outro lado, é evidente que, como Stanley Burburinho e outros vêm seguidamente argumentando na tuitosfera, é do interesse de diversos setores da elite boicotar e se possível provocar o fim de um exame que reconhecidamente aumentou o grau de democratização do acesso ao ensino superor, convertendo-se em meio de ingresso à universidade para segmentos historicamente segregados. Não se pode, portanto, descartar a hipótese de sabotagem proposital contra o exame - assim, as investigações devem contemplar todas as hipóteses, ainda mais por se tratar de problema reincidente (embora não exatamente da mesma natureza do havido o ano passado).

Ocorre, porém, que justamente pelo montante de interesses contrários que o exame desperta - e por tal possibilidade de sabotagem estar há mais de um ano no horizonte -, o Ministério da Educação tinha por obrigação redobrar a vigilância e assegurar a excelência do Enem. Ao, na prática, não fazê-lo, parece inevitável que o ônus por tal falha recaia sobre o ministro Fernando Haddad.


Questiúncula eleitoral
Chegamos, assim, ao mencionar o nome do até então possivel candidato petista à Prefeitura de São Paulo em 2012, a uma razão agravante não só para a virulência da mídia partidária - em seu eterno jogo de derruba-candidato-lulista -, mas da reação dos setores esquerdistas na internet e fora dela, os quais reavivem o irrespirável clima das eleições presidenciais.

Ora, é preciso uma boa-fé de Pollyanna para acreditar que o caso não provocará efeitos danosos à candidatura do ministro. Quer queira, quer não, mídia, oposição e amplos setores da população do mais conservador estado da federação vão cobrá-lo incessantemente por conta de uma falha reincidente que afeta milhares de alunos - e não serão tags de apoio no Twitter que vão redimi-lo.


Enem sim, incompetência não
Ademais, com exceção do papel eleitoral da imprensa - que deve ser sempre denunciado e combatido -, não se trata de algo que surpreenda: o mesmo se daria, em qualquer país do mundo, com um ministro-candidato que, por dois anos seguidos, se mostrasse incapaz de gerir com competência um exame destinado a selecionar, entre 10 milhões de jovens, aqueles que ingressarão no ensino superior.

Mas a ilusão, esse veneno eleitoral, consome quem quer ser consumido. Como o compromisso desse blog é com o jornalismo e com políticas progressistas - e não com um partido ou com a campanha do candidato x ou y - preferimos manter a cabeça acima da terra: a luta para a manutenção do Enem é primordial e necessária, mas transcende e não deveria se confundir com questiúnculas partidárias nem abrir mão de critérios de excelência na aplicação do exame.