O processo do
"mensalão" chega à fase de prisão dos réus condenados,
provocando regojizo de uns e revolta e frustração de outros, mas
sem resultar no que seria mais benéfico à democracia brasileira e
ao avanço das esquerdas: uma reflexão sobre ética na política e o
papel que desempenharam no processo práticas que o PT sempre
condenara enquanto oposição. Ao invés de uma imprescindível
autocrítica, os governistas dão vazão a um processo massivo de
negação e de transferência de culpa, para o STF e para a mídia.
Sem dúvida, é
legítimo que tanto a conduta do tribunal – notadamente do relator
Joaquim Barbosa, com seu comportamento irascível, inadequado ao
cargo que ocupa – quanto da mídia sejam questionados. Não é
possível, porém, ignorar que a grande maioria dos juízes do STF
foi escolhida pelos próprios presidentes petistas, entre a elite
judiciária. Nem que Lula e Dilma não só não moveram uma palha
contra a mídia corporativa nos 11 anos em que o PT está no poder
como continuaram a sustentá-la com os cofres públicos, com ainda
mais desfaçatez na atual gestão presidencial, em cujo mandato a
Secom asfixia as pequenas publicações independentes enquanto enche
ainda mais as burras das corporações - as mesmas acusadas de
interferência no julgamento, ao transformá-lo em espetáculo de
linchamento (com o histórico que têm, achar que não agiriam assim é abusar da ingenuidade).
Pois a mídia
corporativa, no Brasil, tem sido, de fato, pródiga em parcialidade
política, em condutas eticamente inaceitáveis e contrárias à
própria deontologia do jornalismo, em distorções e manipulações
constantes. Assim, necessária e cívica, a crítica de mídia
deveria servir de subsídio a governos comprometidos com o avanço
democrático da comunicação no país, ajudando a identificar
desvios de conduta e problemas estruturais. Há, porém, uma grande
diferença entre o exercício legítimo da crítica de mídia –
mesmo se cotidiano e implacável – e a desqualificação
intransigente de toda e qualquer notícia ou análise advinda da
mídia (desde que não sejam positivas para o governo, é claro), com a tipificação a priori e
invariável desta com o rótulo totalitário de "PIG"
(Partido da Imprensa Golpista), bode expiatório multiuso nas hostes
governistas.
Para além do
Fla-Flu
Em
um processo em que os próprios advogados dos réus admitem o recurso
ao caixa dois, outrora repudiado pelo PT, e em que condenações por
crimes diversos atingem dezenas de réus, a tentativa de negar tudo e
transferir culpas à mídia e ao STF, além de inútil, tira
definitivamente do petismo a aura diferencial da defesa da ética na
política – a qual, justificada ou não, o acompanhou desde a
fundação do partido - e, mais grave, torna
indistinguível, em termos morais, o comportamento da autodenominada
esquerda em relação aos partidos conservadores.
Ao recusar um processo de autocrítica sobre os desvios do PT em sua
fase pragmática de tomada e manutenção do poder, o partido, seus
militantes e parte de seus apoiadores, um pouco por opção
voluntária, outro tanto por perderem autoridade para tal, se
descredenciam para liderar um processo de revisão da consciência
crítica na política e de renovação da ética orientadora das
práticas públicas no país.
Pois
o que o raciocínio simplista que se limita a contrapor o desempenho
das gestões petistas ao das gestões tucanas finge ignorar é que o
voto no PT representou uma aposta na proposta transformadora
encarnada pelo partido, e não uma mera troca de seis por meia-dúzia
para ver quem gerencia melhor. Estava incluída no contrato
eleitoral, ainda que de forma implícita, a premissa de que o PT
poria em debate e estimularia a revisão das práticas ilegais ou
moralmente duvidosas encrustadas na vida pública do país, as quais
criticara sistematicamente em seus então vinte e dois anos de
existência.
O nocaute
autoinfligido
A
recusa ao debate sobre ética na política e a reação
diversionista, com a matilha chapa-branca atiçada contra a mídia e
o STF, significam não somente a renúncia a tal processo renovador de
práticas políticas, mas a uma revisão urgente e necessária sobre
a questão da corrupção no país. É não só o universo da politica
strictu sensu que
está, assim, sendo prejudicado. Diversos áreas do país têm, hoje
– como tinham antes de o PT chegar ao poder -, a corrupção como
norma, com uma súcia de fiscais e intermediários se interpondo, em
beneficio próprio, entre os por si parcos recursos públicos e as
demandas populares por saúde, edução, transporte, etc.
Mais
grave: há áreas em que o grau de corrupção, hoje, é certamente
ainda maior do que antes da ascensão do PT no poder. É o caso,
notadamente, dos concursos para professor nas universidades federais,
agora em maior número e em que a regra, sob a desculpa de uma
questionável "autonomia universitária", é a proliferação
dos conchavos, dos editais viciados, das avaliações protegidas por
um sigilo que encobre a manipulação descriteriosa dos critérios.
Trata-se de uma questão menor, residual, se comparada aos graves
problemas de má gestão de bens públicos? Talvez. Mas, numa era em
que os concursos são a maior esperança de emprego para muitos e em que
as pós-graduações proliferam no país, fazer vistas grossas a um
processo em que milhares de pessoas, em sua maioria desempregadas
após anos de mestrado e doutorado, arcam com altos custos de viagem,
hospedagem e estudos para servir de "laranjas" a um
processo viciado não é algo a ser tolerado por um governo que afirma não só
zelar pela ética, mas priorizar a educação.
Esse governo, no
entanto, encontra-se eticamente nocauteado – e não por méritos do adversário, mas por preferir
acovardar-se a se empenhar no bom combate. Cada vez mais similar, em
termos administrativos, ao conservadorismo ao qual um dia se opôs –
como exemplificam de forma cabal as privatizações a granel -, a
este também ora se iguala em termos éticos, ou à falta destes. É, neste momento, um eunuco moral.
A escolha por negar o inegável, transferir culpas de forma genérica e deixar de promover a necessária autocrítica ora o esvazia de autoridade para promover uma elevação dos parâmetros éticos na vida pública do país, como o PT sempre prometera fazer. Isto é, se o interesse por tais "temas menores" tivesse resistido ao ultrapragmatismo que rege a manutenção do poder pelo partido, custe (literalmente) o que custar.
A escolha por negar o inegável, transferir culpas de forma genérica e deixar de promover a necessária autocrítica ora o esvazia de autoridade para promover uma elevação dos parâmetros éticos na vida pública do país, como o PT sempre prometera fazer. Isto é, se o interesse por tais "temas menores" tivesse resistido ao ultrapragmatismo que rege a manutenção do poder pelo partido, custe (literalmente) o que custar.