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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Aos 50 anos, sonho de Martin Luther King permanece


No dia de hoje o mais famoso discurso do movimento negro mundial completa 50 anos. Ponto culminante da Marcha sobre Washington, que reuniu ao menos 250 mil pessoas vindas dos mais diversos cantos dos Estados Unidos, incertas quanto ao grau de violência racial ou mesmo oficial que poderiam enfrentar, para protestar contra a segregação racial e demandar liberdade e justiça social.

"I have a dream" ("Eu tenho um sonho"), o mote repetido diversas vezes ao longo dos pouco mais de seis minutos de pungente discurso, mais que um emblema da luta pelos direitos civis em uma sociedade em que o racismo era institucionalizado, tornou-se um mantra pop político, à maneira do "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás" de Che Guevara. Alguns anos depois, John Lennon nele se inspiraria para compor o clássico "Imagine".


Discurso de mestre
Ao proferir o discurso, Martin Luther King, que já era o mais respeitado líder do movimento pelas liberdades civis – o Dr. King, como o reverenciavam seus seguidores - soube aproveitar-se de um momento de alta exposição midiática para lançar uma mensagem que, enfatizando o pacifismo e projetando para as tensas relações raciais os princípios cristãos da comunhão e do perdão, foi capaz de, no clima favorável do nascedouro da contracultura, angariar apoio entre setores hesitantes da juventude e da classe média brancas, convencendo-as a fiar-se à possibilidade de "transformar as estridentes discórdias de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade".

Como se pode ver no vídeo legendado em português ao final do post, King, com raro senso de estratégia, substitui as costumeiras mensagens dirigidas aos próprios afro-americanos no sentido de instigá-los a se orgulharem de suas origens (na linha "say I'm black and I'm proud" ["diga: sou negro e me orgulho disso"]) por uma fala para todos, que não distingue público. E profere o discurso com um profundo domínio da técnica, em um crescendo contínuo feito de exaltações eventuais, culminando com o grand finale, e com um misto de confissão e exortação que, se não disfarçam sua formação como pastor e advogado, vêm imbuídos de um tal grau de verdade e comprometimento que acabam por se impor afetivamente.


Persistência e vitória
Nutro desde sempre uma profunda admiração pela figura de Martin Luther King e pela luta pelas liberdades civis, deflagrada em um país que, ao contrário de hoje em dia, ainda não havia se conspurcado com o sangue de tantas guerras injustas sob motivos vis. Assim, a luta contra o racismo afigurou-se uma luta épica e necessária, em oposição a um passado cruel – do qual Strange Fruit, com a interpretação sublime de Billie Holiday descrevendo as "frutas estranhas que pendem das árvores do Sul, sangue nas folhas e sangue nas raízes" é o retrato torturado - e ante um sem-número de batalhas, muitas das quais fragorosamente perdidas para o racismo institucional, antes que a tenacidade e a resilência dos afro-americanos vencesse.

Décadas depois desse período heroico, tive oportunidade de vivenciar in loco a persistência e a força remanescente dos símbolos da luta pelos direitos civis. Eu estava nos EUA, cursando pós-graduação, quando Rosa Parks (foto) morreu, e para mim foi uma experiência muito emocionante acompanhar de perto o respeito – ou mesmo devoção - que pessoas de todas as idades e "raças" demonstravam ter por essa ex-costureira do Alabama que, em 1955, ao se recusar a se levantar do assento de um ônibus para que um branco se sentasse lançou, a partir do boicote aos ônibus de Montgomery, Alabama, a fagulha que acendeu a chama de um movimento que mudaria a história do país, com repercussões em boa parte do mundo (em última análise, não teríamos política de cotas no Brasil hoje não fossem os processos decorridos desses gestos iniciais).


Exemplo atual
A luta pelo direitos civis nos EUA, para além de seus méritos (e, problemas e contradições) intrínsecos, constitui, ainda hoje, um exemplo a ser estudado pelas esquerdas, sobretudo por tratar-se, na maior parte do tempo, de uma luta essencialmente reformista, vencida após sucessivas batalhas no interior dos sistemas políticos e jurídicos de uma democracia liberal. Num mundo como o atual, em que a perspectiva revolucionária strictu sensu, rarefeita, encontra-se em profunda crise, afigura-se essencial a compreensão de como lutar e vencer batalhas nos interstícios do próprio sistema democrático. Que tal sucesso tenha se dado sob forte oposição, sob uma ordenação jurídica e institucional desfavorável e eivada de vícios, e através de alianças táticas que efetivamente resultaram em ganhos para ambas as partes é uma constatação das mais relevantes para as atuais batalhas por hegemonia particularmente no que concerne a temas ligados à biopolítica – tais como aborto, direitos matrimoniais dos gays, legalização da maconha -, que têm sido negociado com o conservadorismo na bacia das almas pelo ultrapragmatismo de nossa autointitulada centro-esquerda.

Neste momento de acirramento dos ódios classistas e de reavaliação compulsória do mito segundo o qual o Brasil não seria um país racista, a luta pelos direitos civis comandada por King deveria, ainda, servir de exemplo e de inspiração tanto para os ativistas do movimento negro em particular como, de forma geral, para aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e sem discriminação racial. 


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui e dali)


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Vergonhosa agressão aos médicos cubanos


O colunista Janio de Freitas fez mais uma vez jus ao papel de decano e foi premonitório. Em coluna escrita ontem (26/08), prognosticou:

Dos argumentos polêmicos contra a vinda de médicos do exterior, dirigentes corporativos da classe médica brasileira passaram a um histerismo gaiato e primário e já estão em atitudes fronteiriças de crimes, com a incitação aos médicos a "não socorrerem erros" que, imaginam, os estrangeiros cometerão.

As reações corporativas dos médicos, se a princípio compreensíveis ou mesmo eventualmente justificadas, logo adotaram uma agressividade acima do tom, aproximaram-se da insensibilidade social, e agora, com o ódio de classe à flor da pele e o racismo indisfarçado, situam-se perigosamente para algo entre o grotesco e o ilegal.

Pois o que se viu nas últimas 24 horas, no aeroporto de Fortaleza e nas redes sociais, foi uma escalada de falta de bom senso e de civilidade, com a insanidade e o descontrole dando vazão a ódios de classe e de raça, dirigidos de forma equivocada a alvos inocentes, em um episódio constrangedor para a imagem do país e que certamente envergonharia a maioria dos brasileiros.

Quem acompanha este blog sabe das críticas que faço ao modo como o governo Dilma implementou o programa Mais Médicos, não só valendo-se da costumeira ausência de diálogo, mas de despistes, recuos e desmentidos de última hora – enfim, com procedimentos pouco transparentes que estão longe de ser o que se espera de uma coalizão de centro-esquerda em uma democracia que se quer consolidada. Portanto – e na contramão da maior parte dos blogueiros e colunistas - tenho claro que parte do ônus pelo clima bélico que se seguiu à chegada dos médicos cubanos deve ser atribuída ao governo federal. Isso posto, nada justifica a agressão direta e preconceituosa contra profissionais estrangeiros que vêm ao nosso país exercer seu nobre métier. Os médicos brasileiros justa ou injustamente indignados têm todo o direito de protestar, mas na Justiça, nas mobilizações pacíficas e nas urnas, jamais com um violento ataque à honra pessoal e coletiva de seus pares cubanos, como visto no lamentável episódio cearense [foto] e na página pessoal no Facebook de uma jornalista preconceituosa, que não acredita que gente, segundo ela, "com cara de empregada" possa exercer a medicina.

Com os protestantes tachando os cubanos de "escravos" e declarando não acreditar que eles, "com cara de empregada doméstica", sejam capaz de exercer a medicina, cai por terra, uma vez mais, o mito do pais cordial e sem racismo – e antes que venham falar que isso se deve a uma manifestação restrita a uma elite, lamento informar que as elites também são parte do país.

Para Renato Rovai, colunista e editor da Fórum, o episódio do ataque aos médicos cubanos em Fortaleza transcende o seu sentido imediato e insere no âmbito de uma discussão maior. Referind0-se à mesma foto que encima este post e lembando que os médicos que protestam e suas associações não são apenas contra a vinda dos médicos cubanos, mas contra a criação de novos cursos superiores de medicina, ele observa:

Ou seja, a foto que está ilustrando este post é significativa para pensar o país que queremos. Se queremos um Brasil da inclusão, onde seja algo normal ser atendido por médicos negros que não sejam cubanos. Se queremos um Brasil onde estrangeiros sejam recebidos com respeito. Se queremos um Brasil onde saúde seja um direito de todos. Ou se preferimos viver num país de brancos de jalecos brancos que exigem ser chamado de doutores exatamente porque se acham acima daqueles que deveriam tratar com respeito e dignidade.

Seja como for, após esses lamentáveis episódios com tonalidades racistas e classistas, a razão que eventualmente a categoria dos médicos poderia ter vai para segundo plano, ante os danos irremediáveis que tais episódios causam para sua imagem pública. No xadrez do marketing público, o jogo mudou: ou os médicos e suas associações vêm a público condenar tais agressões e desautorizá-las, desvencilhando-as de suas táticas e lutas e atribuindo a uma iniciativa isolada, ou será praticamente impossível livrarem-se da pecha de classistas e racistas que já lhes vinha sido atribuída e que os ataques aos médicos cubanos corroboram.

Se, ao contrário, o clima mantiver a fervura e as agressões persistirem, é quase certo que o caso exacerbará os limites dos embates públicos e adentrará na seara policial, o que seria um preocupante indício da falta de preparo para o exercício da democracia, mesmo no seio de uma classe profissional supostamente bem educada.


(Foto retirada daqui e editada)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O galã Lázaro Ramos e o debate sobre racismo

A elevação de Lázaro Ramos ao posto de galã da principal telenovela global tem gerado controvérsias. Pulula nos blogs e redes sociais um burburinho: alguns questionam a beleza física do ator (que não satisfaria os padrões vigentes), outros apontam inverosimilhança; muitos simplesmente dão vazão a seu abjeto ódio racial.

Graças a estes últimos, não restam dúvidas de que há um forte componente racista em muitos dos questionamentos feitos ao galã negro. Isso é inegável. Mas seria essa a única ou mesmo a principal razão para a polêmica?

Sem que permita qualquer relativização do racismo de muitas das manifestações – e do quanto este é abominável -, a possibilidade de que a má recepção inicial ao conquistador personificado por Lázaro se deva a razões objetivas, não concernentes à cor da pele, traz à tona e evidencia ambivalências e paradoxos recorrentes e aparentemente insolúveis que perpassam muitas das discussões sobre temáticas raciais.



Protagonismo
Lázaro Ramos é um grande ator. Ao lado do conterrâneo e companheiro de geração Wagner Moura – com o qual contracenou em alto estilo no shakesperiano Cidade Baixa – tem se mostrado, muito provavelmente, o maior talento dramático masculino surgido nos últimos 15 anos.

Mas seria realmente um homem muito bonito, que chama a atenção, como se espera que um galã de novela o faça? Trata-se de uma pergunta desagradável e fútil, mas inescapável.

Mais: no formato estafante de gravações imposto pelas telenovelas atuais e numa trama tão rocambolesca que, logo no início, um casal flerta enquanto um avião cai (!), conseguiria Lázaro manter um alto padrão de atuação ou resvalaria para a canastrice?


Conflito de imagem
Outra questão, talvez mais importante, diz respeito à imagem que o ator projetou de si mesmo na televisão. Embora tenha participado, em papéis dramáticos, de filmes nacionais altamente elaborados - com destaque para Madame Satã, de Karim Ainouz (foto acima) - na telinha sua figura está muito associada a tipos cômicos, graças a novelas e à série Ó, Pai, Ó.



Uma amiga do blog resume os efeitos dos fatores acima na má recepção do galã de Insensato Coração:


“O biotipo dele cola como galã engraçado, entende? Não para galã lindo tipo Denzel Washington... falta pegada”... "E me parece que ele ainda não achou o tom do personagem”.

É apenas uma opinião pessoal, mas com fundamentação argumentativa. Pode-se concordar ou não com ela, mas não simplesmente descartá-la como racista, sob o risco de incorrer em injustiça e truculência, tal como fazem os que atacam Lázaro movidos pelo ódio racial.


Perfil discreto
Uma terceira questão diz respeito ao modo como Lázaro administra sua figura pública. Ao contrário do protagonista de Tropa de Elite, falastrão e de uma ingenuidade política a toda prova, Lázaro faz questão de manter um certo low profile.

E talvez até aí seu modo franco de ser trabalhe contra seu personagem Don Juan. Sobre este, que vive cercado de ao menos duas loiras, ele afirmou recentemente, com modéstia peculiar: “Uma mulher já dá muito trabalho. Imagine duas?”. Convenhamos, na era das façanhas sexuais publicizadas, não é o que se costuma ouvir da boca de um galã global...


Racismo impregnado
Como já dito, não restam dúvidas de que há muito de racismo nas reações – algumas extremamente agressivas – contra o conquistador personificado por Lázaro. Mas são manifestações que certamente aconteceriam se o personagem estivesse na pele de outro ator negro, pois o objeto de sua ira é a possibilidade de um galã com tal perfil étnico-racial.

Muito provavelmente há, nessas reações, um forte componente reativo contra a ameaça suscitada pelo mito do homem negro sexualmente insaciável e bem-dotado - não obstante o fato que, como o demonstram os estudos raciais, essa própria caracterização acaba por constituir-se em mais um fator de racismo, ao circunscrever os negros a um determinado estereótipo sexual fetichizado.

É possível, por outro lado, que muitos dos que rejeitam, com argumentação coerente, a performance de Lázaro Ramos como galã estejam sob influência inconsciente de um racismo pervasivo.

Ainda assim, a hipótese de que Lázaro não esteja mesmo bem no papel não pode ser descartada – até porque recusar, devido exclusivamente à cor de sua pele, a possibilidade de que um ator esteja atuando mal seria incorrer no mais contumaz racismo.


(Fotos tiradas, respectivamente, daqui, dali e dacolá)