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domingo, 24 de junho de 2012

O golpe asséptico e suas ameaças

O golpe de Estado contra o presidente eleito do Paraguai, para além dos graves danos que causa à evolução da incipiente democracia do país – que até 1989 esteve sob a ditadura de Stroessner e desde então só elegera mandatários do partido de centro-direita Colorado, com exceção de Lugo -, abre um precedente perigoso e potencialmente ameaçador à normalidade democrática na América do Sul.

Tal constatação é corroborada por três fatores principais: o primeiro é a natureza cosmética da deposição de Lugo, um golpe de Estado travestido de impeachment, não obstante tratar-se de mera pantomima jurídica, com o raio de ação e o tempo disponível à defesa do acusado drasticamente limitados e armado com acusações baseadas em platitudes sem definição legal ou critérios objetivos de averiguação, tais como “mau exercício do governo”.


Guess who's coming to dinner?
A velocidade recorde com que os Estados Unidos, confirmando sua autoatribuída vocação de país defensor da democracia, reconheceram o novo governo de um golpista que atende pela sugestiva alcunha de Franco é um segundo elemento a caracterizar a quartelada civil paraguaia como ameaçadora à soberania sul-americana. O reativamento da Quarta Frota, as evocações cada vez mais frequentes à Doutrina Monroe e a tentativa recente - e malsucedida – de fincar uma base militar no Equador são representativas da atenção e das intenções do país mais bélico do mundo para com a região (leia texto de Azenha sobre interesses dos EUA no golpe).

Tanto mais pelo crescimento que ora se verifica, no subcontinente, no número de regimes, democraticamente eleitos, alinhados à centro-esquerda ou à esquerda bolivariana, ambos patrocinadores, em maior ou menor grau, de projetos políticos que implicam tanto na recusa à ALCA quanto ao fim do alinhamento automático e preferencial com os EUA. 

A tal configuração, que forma o último item de nossa lista tríplice, a quartelada que depôs Lugo (foto) se contrapõe como sugestão às forças conservadoras sul-americanas ora na oposição – e a seus parceiros transnacionais – de uma promissora novidade: a armação de cenários golpistas aparentemente assépticos, sem tanques na rua, a partir do conluio entre oligarquia, parlamentares e mídia.


Reações
Ante tal quadro, duas medidas se impõem como mais do que urgentes, necessárias: a reação ao golpe paraguaio, como forma de revertê-lo, restituindo a ordem constitucional; e a tomada das devidas precauções para impedir que conspirações similares tenham lugar nos demais países da América Latina.

Quanto à reação, é forçoso constatar que a janela de reversão imediata do golpe estreita-se à medida que o tempo passa, sobretudo se se leva em conta a rapidez com que ditas potências imperialistas do hemisfério norte vêm reconhecendo o novo regime. Mesmo com a reação enfática de Argentina, Venezuela e Equador – e com nota oficial firme e ponderada do governo brasileiro – a possibilidade de ver Lugo reempossado já nos próximos dias depende agora de uma combinação extraordinária de sucessos.

De qualquer forma, hoje ou em um futuro próximo, a reversão do quadro dependerá de uma ação coordenada entre os países com governos progressistas na região e as forças legalistas paraguaias visando, a um tempo, esvaziar a autoridade dos golpistas e construir meios de recondução e bases institucionais de sustentação a Lugo. Além do enfrentamento com os próprios golpistas e com a elite paraguaia, tal operação implica numa batalha surda com os EUA e em deparar-se com delicadas e potencialmente explosivas questões - inclusive algumas diretamente relativas ao Brasil, como no caso dos brasiguaios e dos “sacoleiros” - derivadas da permeabilidade das fronteiras paraguaias e do protagonismo da questão agrária no país, tema este analisado por Chico Bicudo.


Medidas preventivas 
Já em relação a medidas preventivas contra esse tipo de golpe low profile, afiguram-se urgentes ações em três frentes: no âmbito sul-americano, numa interação coordenada entre os governos progressistas da região no sentido de, com ações de inteligência, antecipá-las e as neutralizar e de, se mesmo assim efetivadas, agir pronta e conjuntamente para esvaziá-las e as reverter.

Já em termos nacionais, a mais efetiva medida contra anomalias golpistas é o reforço das instituições democráticas, notadamente assegurar-se de dar à Justiça, ao Legislativo e ao Executivo não apenas as melhores condições para o exercício de suas funções – e isso inclui a adoção dos métodos mais democráticos para eleição ou seleção dos cidadãos e cidadãs melhor capacitados a desempenhar tais funções -, mas a preservação do equilíbrio de relações o mais harmoniosas entre os três poderes.

Ademais -e ainda no âmbito das medidas institucionais anti-golpismo - a implementação do que Norberto Bobbio denominou Direitos Humanos de quarta geração acaba por implicar, além de numa vacina anti-golpismo (não fosse este, por definição, um ato múltiplo de violação de DHs), na necessidade de efetivação do esforço de superação positiva dos meios de participação popular na democracia representativa convencional, com o recurso a uma interação maior, mais frequente e mais efetiva dos cidadãos com os poderes constituídos, para além do momento de eleição.

Por fim, a terceira frente de ação preventiva diz respeito à mídia – talvez o mais urgente e danoso dos elementos potencialmente golpistas do cenário brasileiro, hoje.


O fator mídia
O comportamento da mídia brasileira quanto ao golpe em Assunção, em sua quase totalidade, veio a corroborar sua posição de defensora dos interesses das forças conservadoras, obedientes às regras democráticas ou não. As falas de personagens como Arnaldo Jabor ou Merval Pereira no sentido de, mais do que legitimar, enaltecer o golpe acabam, por sua falta de coerência e excesso de parcialidade, a deixar ainda mais evidente que eles – como tantos de seus colegas com assento na mídia corporativa - não passam de ventríloquos travestidos de jornalistas, a vocalizar um texto ditado pelo mercado e pela corporação que lhes paga o salário. E, assim, o apreço que tais corporações nutrem pela democracia se torna evidente.

Por outro lado, como demonstrado com o brilho costumeiro e de forma cabal por Dênis de Moraes no último encontro nacional de blogueiros, o Brasil encontra-se em um estágio consideravelmente mais atrasado do que vizinhos como Venezuela, Equador e Argentina no que concerne à regulamentação e à decorrente diversificação político-ideológica da mídia [em breve farei um post específico sobre sua apresentação no evento.] É preciso muita indulgência para não reconhecer que os governos Lula, com sua resistência passiva, e Dilma, com seus esforços de cooptação, se esforçaram pouco e avançaram menos ainda na democratização e na defesa da regulamentação da mídia.

Portanto, a questão midiática certamente se mostraria problemática na eventualidade agourenta de um dia sofrermos uma tentativa de golpe aos moldes em questão – dados o grau de penetrabilidade capilar interna de parte mídia brasileira e sua conformação como corporação transnacional, com um peso e um potencial danoso exponencialmente maiores do que ora se verifica no golpe no Paraguai. Desnecessário assinalar que este forma mais uma entre tantas razões a evidenciar a urgência e a centralidade da questão midiática no Brasil, e o quanto esta demanda uma imediata e condizente atenção.



Diferença de escala
Embora seja prudente tomar todas as medidas preventivas contra a disseminação de tal espécie de golpe, é preciso ter claro, no que nos tange diretamente enquanto nação, que o Brasil não é o Paraguai.

Pois uma análise sem preconceitos mas também sem ilusões mostra-nos, de forma clara, que, comparativamente, a situação institucional é bem mais frágil no país vizinho, devido a fatores diversos - em algum grau passíveis de serem atribuídas a uma herança histórica para a qual o próprio Brasil contribuiu, quase exterminando, com sangue escravo e a soldo da Inglaterra, a população masculina adulta paraguaia, num genocídio que muito deveria nos envergonhar (e que, por isso mesmo, alguns revisionistas tentam a todo custo desmentir). 

De qualquer maneira, o fato é que a fragilidade comparativa do país vizinho é hoje gritante no tamanho da economia e na decorrente volubilidade econômica; na cultura política construída num contexto de redemocratização tardia e precária, virtualmente monopolizada pela centro-direita e marcada por episódios golpistas mais ou menos recentes - além, sobretudo, da pobreza e da miséria brutais as quais está submetida, sem colchões assistenciais efetivos, a grande maioria da população paraguaia. 


 Tais constatações, não obstante lamentáveis, se contrapostas às mostras de resilência da democracia brasileira nas últimas décadas permitem, mesmo reconhecendo que esta está longe de poder ser considerada avançada, identificar diferenças de escala entre um e outro modelo político-institucional e de estágio entre graus de evolução democrática..


No pasarán
Esta é uma razão a mais para que, embora, como já dito, devamos estar atentos para evitar ao máximo a possibilidade de que algo similar ao golpe paraguaio tenha lugar aqui, o novo modelo de insurgência das elites não possa servir para a defesa de uma postura ainda mais cordata e indulgente da esquerda em relação às forças conservadoras nacionais, impulsionada por tais temores golpistas.

Seria, na democracia, o pior dos cenários: na já excessivamente contemporizadora e, no sentido buarqueano do termo, cordial política brasileira, a inoculação do medo – e, pior, do medo golpista – como forma de impor alianças mais dilatadas entre progressistas e conservadores. Tal feito significaria não apenas a sujeição ainda maior a demandas regressivas, mas, assim, a promoção espontânea de um processo de indistinção entre esquerda e direita que só tende a beneficiar esta, enquanto descaracteriza aquela. (Não é mera coincidência que o golpe no Paraguai venha sendo utilizado nas redes sócias para justificar aliança do PT de São Paulo com Paulo Maluf, o que é o cúmulo do oportunismo – e não só porque o político em questão é, ele mesmo, produto de uma ditadura militar.)


(Imagens retiradas, respectivamente: daqui, dali, de lá e dacolá)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dilma e o Irã

O país que Dilma Rousseff assumirá em 1º. de janeiro ocupa uma posição no mundo e tem uma relevância estratégica para a geopolítica global muito diferentes das que ostentava quando o atual presidente tomou posse, oito anos atrás.

Fatores externos - como a intensidade de uma crise financeira gerada no coração do “mundo desenvolvido” – e internos – como a descoberta de enormes reservas de petróleo em solo brasileiro – contribuem para essa nova configuração, mas o fator ativo que a moldou foi a corajosa política externa do governo Lula. Embora caracteristicamente positiva, ela trará em seu bojo grandes desafios para a presidenta eleita.


O legado de Lula
Como reconhecem as principais publicações e autoridades internacionais, uma das principais novidades trazidas pela Presidência de Lula deu-se no âmbito das relações exteriores. Tentativas tímidas de diversificar a política internacional do país para além da órbita norte-americana haviam sido feitas, amiúde, anteriormente – como na aproximação do governo Getúlio Vargas com o nazifascismo ítalo-germânico nos anos 30 ou no acordo nuclear com a Alemanha promovido por Geisel quatro décadas depois -, mas, além de episódicas e pouco efetivas, não se comparam à verdadeira reestruturação estratégica da diplomacia promovida pelo governo que ora se encerra.

Pois, ao recusar o Alca e suas condicionantes limitadoras e reforçar tanto a orientação Sul-Sul das alianças internacionais do país quanto a aproximação com a China e com a Rússia, o atual governo, além de resguardar o Brasil das piores conseqüências da crise econômica originada nos EUA (as quais o México ora amarga com graves efeitos sociais), estabeleceu um parâmetro e um norte para a ação diplomática, os quais, tudo indica, devem ser seguidos e aprofundados pela presidência Dilma.


Tricky questions
A atual configuração, embora mais condizente com um quadro internacional no qual novos atores assomam à cena principal, fazendo com que os EUA percam o protagonismo exclusivo (o que não significa necessariamente o fim do império norte-americano, como alguns precipitadamente apregoam), não deixa de apresentar contradições e situações complicadas, tricky, que não se resolvem através de binarismos definitivos, apoiar ou rejeitar, aliado ou inimigo.

O fato de não restarem dúvidas de que nossa velha mídia adota, rotineiramente, dois pesos e duas medidas para examinar tais contradições – enfatizando o desrespeito pelos direitos humanos no Irã mas fechando os olhos para o massacre israelense contra os palestinos, ou denunciando as prisões arbitrárias promovidas pelo regime cubano enquanto finge esquecer de Guantánamo -, embora reprovável como prática jornalística, não torna o cenário menos contraditório ou os problemas menos reais.

Não é de bom tom, entre setores da esquerda e da militância virtual, lembrar isso, mas a verdade se impõe - e o fato de o Irã, com sua milenar e exuberante herança estético-cultural de ex-Império da Pérsia, ter se tornado presa do autoritarismo religioso mais retrógrado em grande parte graças às barbeiragens interesseiras dos EUA via CIA (notadamente desde a deposição de Mossadegh em 1953), não obstante lamentável, não torna o atual regime dos aiatolás mais palatável.

Pois é simplesmente inaceitável que, em pleno século XXI, mulheres e homossexuais sejam não só são tratados como cidadãos de segunda classe, mas eventualmente submetidos a castigos e penas bárbaros – incluindo chicotadas e morte por apedrejamento. Os Direitos Humanos, os quais a humanidade levou séculos para consagrar na letra da lei, se sobrepõem, axiologicamente, a interesses político-ideológicos e ao anti-americanismo.


Nova diplomacia
A presidenta Dilma já deixou claro, em entrevista ao Washington Post, ser enfaticamente contra as formas repressivas adotadas atualmente no Irã:

“Eu não endosso o apedrejamento. Eu não concordo com práticas que possuem características medievais [quando se trata de] mulheres. Não há nuances; não faço concessões nesse assunto”.
Embora ressaltando a importância de atuar para a construção da paz no Oriente Médio (e criticando abertamente o belicismo norte-americano), Dilma foi além, divergindo do atual governo em relação ao Irã e demonstrando que atuará de outra forma:

“Eu me sentiria desconfortável, como mulher eleita Presidente, não dizendo nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu assumir o cargo. Eu não concordo com a forma em que o Brasil votou [se abstendo de condenar o Irã na ONU, por violação dos direitos humanos]”.
Ainda assim, e levando em conta outras declarações da presidenta eleita em relação ao tema, não parece crível – nem desejável – que a posição de Dilma resulte em uma reorientação substancial dos rumos da política externa no atual governo, mas em um ajuste fino de sintonia, o qual, se bem executado, tende a consolidar a autonomia das relações exteriores do país em relação aos EUA e a melhorar ainda mais a imagem internacional do governo brasileiro – notadamente em influentes setores do ativismo europeu -, recolocando no âmago da discussão a centralidade da questão de gêneros e do respeito aos Direitos Humanos no mundo contemporâneo.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali e dacolá)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Serra e Ahmadinejad

No dia da visita de Ahmadinejad ao Brasil, a Folha de São Paulo exibe chamada de capa para um artigo do governador de São Paulo, José Serra, atacando pesadamente o presidente Luís Inácio Lula da Silva por recepcionar o presidente iraniano.

Não há dúvidas de que Ahmadinejad representa posições inaceitáveis no mundo atual: repressão e condenação a homossexuais, opressão às mulheres e ao feminismo, supremacia do poder religioso sobre a esfera leiga; sob seu governo, a censura, que esteve ativa desde a Revolução Islâmica, tornou-se ainda mais intransigente, levando até cineastas consagrados à prisão.

Mas, por paradoxal que pareça, é justamente para não acirrar tais posições que a recepção que o Brasil proporciona ao presidente iraniano é importante. Pois isolá-lo, na atual conformação internacional, significa colaborar para levar o Irã a um duplo radicalismo: o da extremamente conservadora teocracia panárabe; e, como líder-mártir que ousou confrontar o Império norteamericano e como uma das principais forças políticas contrárias a Israel, ao do terrorismo internacional patrocinado pela Al-Qaeda.

É precisamente contra esse duplo perigo que se insere a estratégia da diplomacia brasileira, que de quebra ganha a simpatia de importantes setores do Oriente Médio e da Liga Árabe para postular uma vaga no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O que está em jogo, portanto, é mais um passo no realinhamento da posição do Brasil no mundo, de forma particular em relação aos Estados Unidos, país que, por razões diversas – notadamente suas relações com o grande capital judaico, neste momento delicado da economia norteamericana - não pode e não quer adotar publicamente uma política soft power em relação ao Irã.

Não há como entender o fenômeno iraniano sem recapitular as relações que os EUA mantiveram com o país. Ao patrocinar, via agentes infiltrados da CIA, a derrubada do moderado primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, em 1953 – naquele que é considerado por muitos analistas internacionais como o maior erro na história da política externa norteamericana – o, com o perdão da ironia, país-líder do “mundo livre” acirrou ódios maniqueístas no Oriente Médio, reforçando sem querer a radicalização de uma posição pró-Palestina, ao mesmo passo em que ajudou a colocar no comando do Irã a ditadura do xá Reza Pahlavi, cuja brutalidade agravou-se a partir dos anos 70, com milhares de mortos, torturados e mutilados pelo regime.

É do esgotamento desse modelo ditatorial – durante o qual o povo iraniano foi levado a aderir maciçamente a credos religiosos, pois, entre outras razões, eram essas das poucas manifestações populares então permitidas no país - que brota a Revolução Islâmica levada a cabo pelo Ayatolah Khomeini, em 1979. Caracterizada não apenas pela forma aberta com que se opôs aos EUA (em que pese o caso Irã-Contras) mas pela progressiva radicalização do conservadorismo religioso, a Revolução está nas raízes tanto do extremo conservadorismo de Ahmadinejad quanto do terrorismo de bin Laden (pois foi como forma de combatê-la que os EUA deram armas e poder a Sadam Hussein, decisão cuja consequência última foi a criação de um exército-reserva para o terrorismo).

Portanto, a diatribe eleitoreira de José Serra – a quem Luis Nassif acusa de, com o artigo em questão, ter aderido ao jornalismo neocon – é não apenas descontextualizada em termos históricos como ignorante das sutis dinâmicas da política internacional. Além de hipócrita para um governante que recebeu líderes sionistas acusados de assassinato, revela o despreparo do mandatário paulista para lidar com o sofisticado universo das relações exteriores.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 4 de outubro de 2009

Um momento histórico

Muito mais do que uma importante conquista para o esporte brasileiro, a escolha do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olímpicos de 2016 representa, a um tempo, o reconhecimento do trabalho, da estratégia e da excelência da política externa do atual governo e, se dúvidas ainda restassem, do Brasil como potência emergente no cenário mundial.

Os despeitados, invejosos e os esquerdistas de meia tigela que, como ratos, saltaram do barco à primeira tempestade – perdendo a chance de integrar um governo que tirou mais de 30 milhões de pessoas da pobreza e obrigando-o a alianças com os setores mais fisiológicos da política nacional – insistem num exercício pessimista de futurologia, nas piadas preconceituosas sobre o Rio e os cariocas, no ato ignominioso de torcer para que dê errado.

Ato este compartilhado por uma mídia que abandonou qualquer pudor e age descaradamente como um partido político – aquele que tem uma ave como símbolo e que alimenta o mesmo sentimento anti-Brasil e o deslumbre colonizado com o que vem de fora tão característico de nossa imprensa, morrendo de vergonha do que somos: um país miscigenado, preto e mulato em sua maioria, com um povo de ordinário festivo e espontâneo, de uma alegria corpórea e sexualizada. Um país de contrastes, cosmopolita e provinciano, caipira e urbano, simples e sofisticado - mas com um dom natural para o convívio com o outro, com o diferente, para o exercício do multiculturalismo de fato.

Mas não vale mais a pena, neste momento de felicidade coletiva e de reconhecimento histórico do Brasil como nação, gastar tinta com um ente comunicacional em franca decadência, apartado dos anseios do povo, o qual não o respeita nem é por ele respeitado. Para um exame das questões essenciais a respeito do momento histórico da mídia brasileira basta ler este brilhante texto de Venício A. de Lima. O ostracismo da mídia é o ocaso da tendência política que representa, que ficou sem discurso.

De qualquer modo, o fato consumado é que o profissionalismo do Itamaraty e – como vários jornais europeus reconheceram – a atuação obstinada de Lula trouxeram para a América do Sul, para o Brasil e parao Rio de Janeiro o evento máximo do esporte mundial, que move fortunas, cria milhares de empregos e pode vir a estabelecer um novo patamar de turismo para a Cidade Maravilhosa – que, como diz a música de Gilberto Gil, continua linda –, com reflexos na atividade turística no país.

O Rio de Janeiro merece as Olimpíadas. O povo carioca, de maneira geral, andava com a auto-estima lá embaixo e, os mais pessimistas, cabisbaixos mesmo – o que vai contra sua essência solar e alegre. Como o próprio Lula citou, indo lá longe no tempo, a perda da aura de sede do Vice-Reino, a transferência da capital pra Brasília, o fim da Guanabara e a decorrente decadência econômica estão entre os fatores que ajudam a explicar tamanha tristeza.

Mas o presidente, diplomático como sempre, esqueceu de citar um outro fator primordial: a cruel campanha midiática que o oligopólio de comunicação que domina o estado, para manutenção de seu próprio poder, promove, desde a democratização do país, contra a cidade. Através dessa autêntica operação difamatória, quer fazer crer que o Rio é uma cidade sitiada pela violência. Trata-se, simplesmente, de uma mentira. Como todos os estudos acadêmicos e dos institutos de criminologia mostram, há menos probabilidade de morte violenta em Copacabana e em Ipanema do que em Paris ou em Nova Iorque. O que infla substancialmente os números da violência no Rio – que, ainda assim, não está entre as três cidades mais violentas do Brasil - é o combate ao tráfico nos morros e favelas cariocas, obediente à estratégia norteamericana de “guerra às drogas” – cujos resultados são a manutenção do lucro das fábricas de armamentos dos EUA e a criminalização dos pobres e dos traficantes pés-de-chinelo (pois os tubarões, preservados, estão no asfalto). Se uma forma mais inteligente e menos “enxuga-gelo” de enfrentar a questão fosse adotada, os índices de violência cairiam bruscamente. No momento, intereses políticos impedem a adoção de tal alternativa.

Pode-se acusar Lula de muitas coisas. Mas jamais de não lutar pelos interesses nacionais, como até alguns tucanos empedernidos reconhecem. Enquanto a mídia e a elite jeca brasileira acham uma graça enorme em ridicularizar o ex-operário por suas metáforas futebolísticas, por não falar inglês e por suas derrapadas gramaticais, internacionalmente ele é cada vez mais reconhecido pelas qualidades que realmente importam em um presidente da república: ser um líder carismático e um político hábil, com visão estratégica e comprometido com questões sociais. Enquanto seu antecessor, com aquela empáfia toda, viajou o mundo para se autopromover, com pouquíssimos resultados efetivos para o país, Lula o fez para redesenhar a política externa brasileira para além do eixo Sul-Norte (leia-se EUA), trazendo investimentos e levando-os aos países mais pobres.

As Olimpíadas coroam esse trabalho, ao mesmo passo em que revelam ao mundo um político que põe, de fato, os interesses do país acima de suas vaidades pessoais, tendo, como aponta Leandro Fortes em mais um belo texto, a nobreza de abraçar a candidatura de uma cidade na qual foi duramente apupado pela vaia espessa e covarde do fascismo orquestrado. E, para além dessa espécime rara de político – o estadista - , revela um ser humano que não se furta a expressar em lágrimas abundantes o amor pelo país que governa. Afinal, homem que é homem não tem receio de chorar em público.

domingo, 19 de julho de 2009

Adivinhe quem vem pra jantar?

Chega amanhã ao Brasil o ministro das relações exteriores de Israel, Avigdor Lieberman. A pátria amada, mãe gentil é a primeira etapa de uma viagem de 10 dias à América do Sul. Oficialmente, ele quer "diminuir a influência do Irã" na região e discutir com autoridades argentinas os rumos da investigação recém-reaberta sobre o atentado à AMIA (Asociación Mutual Israelita Argentina), que ontem completou 15 anos e foi objeto de boa matéria no El País. Extra-oficialmente, haverá tratativas com a Colômbia no sentido de reforçar o papel de base militar estratégica para o conservadorismo imperialista no continente ao qual o país dos inolvidáveis Higuita e Valderrama tem-se prestado.

Lieberman é um judeu nascido na Moldávia soviética, que na juventude trabalhou como leão-de-chácara e flertou com grupos sionistas radicais. Agora, pragmático, "refinou" suas posições: apregoa que sejam assassinados os congressistas árabes do Parlamento de Israel que se encontraram com o Hamás e afogados no Mar Morto os prisioneiros palestinos (cavalheiro como ele só, ofereceu ônibus para transportâ-los aos navios).

Quando o troglodita dá lugar ao demagogo, avultam suas ideias mais comedidas. Estas dizem respeito ao remodelamento da fronteira entre Israel e Palestina de forma a permitir ao país que ele representa instalar enormes assentamentos árabes-judeus na área. Ele defende também que tanto árabes que moram nos assentamentos quanto até mesmo judeus devem assinar um juramento de lealdade a Israel ou perder o direito a voto. Um democrata inato, como se vê.

Abaixo, algumas das pérolas do pensamento progressista de nosso próximo visitante internacional, citadas pelo maldoso Argemiro Ferreira:

- Em 1998, defende a inundação do Egito através do bombardeio da Represa de Assuã;

- Em 2002, declara aos palestinos: "Às 8 da manhã nós vamos bombardear todos os seus centros comerciais, à meia-noite as estações de gás, e às duas horas vamos bombardear seus bancos”;

- Em dezembro de 2008, defende o uso de armas químicas e nucleares contra a Faixa de Gaza, afirmando que seria “perda de tempo usar armas convencionais. Devemos jogar uma bomba atômica em Gaza para reduzir o tempo de conflito, assim como os EUA atacaram em Hiroshima na Segunda Guerra”.

Pausa para respirar.

Como (não) se sabe, a população palestina vem sendo oprimida de forma (ainda mais) intensa desde janeiro de 2006, com a vitória do Hamás nas eleições parlamentares - eleições estas consideradas honestas por observadores internacionais, incluindo o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter. Trata-se do cúmulo do cinismo e da perversidade: assassina-se Yasser Arafat e assenta-se as bases para eleições na Palestina. Porém, o resultado, embora obtido através dos métodos democráticos que os EUA alegam seguir e defender, desagrada a Bush e Israel. Segue-se um dos piores boicotes aos palestinos em sua história plena de opressão e sangue, com fechamento de fronteiras, racionamento de petróleo e de água potável e cerceamento de socorro médico a feridos e a pacientes necessitados de atendimento de urgência - o horror em pleno século XXI.

Como consequência dessa barbárie - que dá, mais uma vez, razão ao título que o jornalista Fausto Wolff deu ao seu pequeno grande livro sobre a questão, "Palestinos, os judeus da III Guerra Mundial" - gerações de palestinos estão sendo esmagadas. Os reflexos dessa barbárie continuada e "naturalizada" mostram-se cruéis até para a psique de inocentes crianças, como texto traduzido por Cesar Schirmer aborda com contudência, ao relatar o pânico que lhes provoca a idéia de viajar de avião, por associarem o engenho a bombardeios e sofrimento e não a facilidades de transporte.

Inútil gastar palavras repisando que a cobertura da mídia - internacional ou nacional, no Brasil ou fora dele - omite-se de forma criminosa em relação ao que se passa na Palestina e quanto ao terrorismo de Estado praticado por Israel. Trata-se de um fato, há anos imutável, cujas razões - por economia de espaço e por economia emocional - não pretendo aqui examinar.

Mas quem sabe ainda valha a pena assinalar ao menos a lógica do "dois pesos, duas medidas" que rege a cobertura que a imprensa nacional destina a assuntos internos referentes ao Oriente Médio. Pois, como aponta Ferreira, "Nos meses de abril e maio passado, a mídia hegemônica fez um baita escândalo contra a visita ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que estava agendada há meses para assinar vários acordos comerciais de interesse dos dois países". A visita, como se sabe, não aconteceu (segundo o governo israelense, em decorrência de sua influência), embora tenha sido tema das mais prestigiosas colunas da imprensa nativa, invariavelmente expressando a ira santa dos respectivos jornalistas contra o lunático iraniano.

Agora, um silêncio bovino de nossa "grande mídia" antecede a iminente chegada de Lieberman, uma excrescência fora de seu tempo, um açougueiro brincando de chanceler; um político que, em caricaturas que proliferam na internet, é reiteradamente comparado a Hitler. Um pouco de exagero, convenhamos. Um pouco. O brigadeiro Burnier, do caso Para-SAR, talvez fosse um modelo (sic) de comparação mais apropriado.

P.S. Para não dizer que a apatia é total, há pequenas manifestações contra Lieberman planejadas para acontecer nos próximos dias - como esta, em Curitiba.

(Fotografia retirada daqui)