O filme, dirigido por Ron Howard (Uma Mente Brilhante; Cocoon), recria com alguma minúcia e alguma fantasia a mais célebre entrevista de Nixon - em que ele, a princípio implacável em suas respostas, esgrimindo as perguntas com a experiência de décadas como político e advogado, vê-se subitamente acuado, acabando por confessar que sua atuação no "caso watergate" violara a lei. Num close dramático que dura intermináveis seis segundos, o ex-presidente, visivelmente abatido, pede desculpas ao povo americano. Trata-se de um momento icônico do jornalismo e de uma façanha histórica do jornalismo televisivo.
Fantasia e distorção
Porém, ao menos dois dos elementos fantasiosos da trama distorcem por demais a realidade, dando uma idéia falsa do que ocorreu: David Frost não era uma espécie de Gugu Liberato da TV australiana que eventualmente emplacava algum programa nas grades de programação britânica e norte-americana, como o filme sugere – mas um jornalista e apresentador experiente, com um currículo respeitável de entrevistas com personalidades famosas nos três países e com políticos de destaque mundial. A distorção mais grave, porém, não só por falsear a realidade mas por permitir uma caracterização menos crítica de Nixon, é sugerir que a entrevista terminou na confissão do ex-presidente, omitindo que, na parte final, ele volta ao ataque e tenta novamente jogar a culpa pela transgressão da lei nos assessores.
Não deixa deixa de ser compreensível que o filme prefira enfatizar, por propósitos dramáticos, a confissão, privilegiando o momento da entrevista que a definiu, popularizou e eternizou, com graves consequências para a carreira do entrevistado. Pois se Nixon concordou em conceder a entrevista, como o filme e, com mais ênfase, os relatos históricos sugerem, com o objetivo último de pavimentar o caminho para seu retorno à política, ela acabou por significar, ao contrário, a pá de cal em qualquer pretensão eleitoral.
Paralelos óbvios
O sentido de um filme e as ilações que a partir dele são feitas dependem, é claro, não apenas das disposições subjetivas de cada espectador, mas da conjuntura sócio-cultural em que é exibido. Assitir a Frost/Nixon no atual contexto brasileiro trouxe - não apenas este blogueiro, mas um grupo de respeitados jornalistas - a evocação de um espectro político do passado que voltou recentemente a assombrar a política nacional, levando-os a traçar um paralelo analítico entre as consequências da entrevista do ex-presidente americano Richard Nixon e a inexistência sequer de uma entrevista, quanto mais de uma satisfação à opinião pública ou declaração de arrependimento do ex-presidente brasileiro Fernando Collor, entre o momento de sua renúncia ao cargo para escapar do impeachment e o momento de sua volta trinfal ao poder (clique aqui para ler a opinião do blogueiro sobre esse retorno). Não se trata, no entanto, de dar vazão a comparações simplistas entre uma e outra realidade, nem ao tão difundido entre nós “complexo de colonizado” - na forma de idealização do binômio "democracia avançada/imprensa livre" que caracterizaria os EUA - , até porque este blogueiro conhece suficientemente bem a sociedade norte-americana para não alimentar nenhuma ilusão quanto a tais mitos. Ainda assim, o paralelo entre os dois casos, sugerido a partir dos fatos dramatizados no filme Frost/Nixon, não deixa de ser rico em temas para o desenvolvimento de uma reflexão sobre a relação entre política, mídia e opinião pública no Brasil, como forma de fazer avançar a democracia no país.