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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Carlos Nelson Coutinho na Globo News

A entrevista com o intelectual marxista Carlos Nelson Coutinho na Globo News torna evidente o quanto o virtual monópólio do canal por representantes do "pensamento único" mercadista tem negligenciado aos espectadores, a um tempo, o contato sistemático com visões alternativas de mundo e com alguns dos mais brilhantes intelectuais em atividade.

Coutinho é um pensador com "P" maiúsculo, capaz de transitar por áreas diversas com notável desenvoltura, destacadamente na Ciência Política, na Filosofia e na Crítica Literária (em que eu destacaria o ensaio clássico "O significado de Lima Barreto na literatura brasileira"); tem sido, desde a juventude, um talentoso comentador cultural, com uma visão abrangente e incisiva das relações entre ideologia, economia e cultura (os exemplos são vários, mas meu favorito continua sendo o artigo mimeografado "Cultura política no Brasil contemporâneo" escrito em plena ditadura, sob o pseudônimo de Guilherme Marques e no qual disseca o pós-tropicalismo); marxista especializado em Gramsci e em Lukács, defende a atualidade do método teórico de Marx, mas não se prende a dogmas e não se furta a criticar aspectos datados ou falhos da obra do filósofo econômico alemão, como fica evidente na entrevista ao programa "Milênio" e em trechos desta conferência sobre cidadania e modernidade.

Sua obra escrita o coloca tranquilamente como um dos nomes mais importantes do pensamento intelectual brasileiro contemporâneo. No entanto, eu jamais o vira falar ao público, e a impressão que tive foi das melhores: extremamente articulado, com uma rapidez de raciocínio que por vezes "atropela" a própria entrevistadora, uma oratória clara e fluente, além de uma boa presença cênica, Coutinho reúne as qualidades necessárias para brilhar no meio televisivo como um comentador de primeira linha, se em méritos se baseasse a escolha de nossos mal chamados "formadores de opinião".

Não se deve, no entanto, alimentar ilusões: a presença, no canal noticioso a cabo das Organizações Globo, de um pensador com o seu perfil e com sua visão crítica das relações entre mídia e sociedade (que você pode ler aqui, em entrevista concedida a meu querido mestre Dênis de Moraes) é uma exceção, uma concessão pontual e controlada de espaço ao contraditório, que a jornalista Elizabeth Carvalho tem usado para entrevistar luminares intelectuais da esquerda que comumente não têm espaço na mídia, como Coutinho e Leandro Konder.

Nos telejornais da emissora, no entanto, segue-se ouvindo quase que exclusivamente as "forças do mercado", não obstante elas terem sido não só incapazes de prever a grave crise da economia mundial que ora atravessamos, mas sua principal causadora.