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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Digressões sobre os anos 80


O fascínio em moda pelos anos 80, vigente já há uns 3, 4 anos e observável na profusão de festas temáticas e no sucesso de filmes como Meu nome não é Johnny, embora compreensível e não de todo injustificado, é seletivo: esquece o que a década teve de desolador e depressivo, de vitória do establishment e do yuppismo contra o que restara da contracultura pós-1968.

O que esse culto aos anos 80 procura resgatar é, na verdade, a atmosfera do período inicial da década – uma fase particularmente rica em diversidade musical, com uma profusão de bandas de alto nível e com uma estética multicolorida e inventiva no cinema e na moda, em que mesmo o clima soturno de certos grupos pós-punk e de alguns cineastas de vanguarda era cultuado com enlevo.

Essa “Primavera de Praga” transnacional foi abruptamente interrompida.

Pois a coincidência, num mesmo momento, do surgimento da AIDS e do estabelecimento do neoliberalismo como ideologia e prática política hegemônica representou um duríssimo golpe para o exercício pleno da sociabilidade humana nos âmbitos afetivo e material. Este é um tema que está longe de ser satisfatoriamente debatido e a memória do que era a dinâmica social do sexo antes da AIDS continua, com raríssimas exceções, praticamente restrita à história oral. Eis um desafio aos historiadores.

A queda do Muro de Berlim, que ora faz 20 anos, lançou as esquerdas numa crise de rumos que se arrastaria por décadas, e, além dos efeitos já citados, a expansão da AIDS representou, no momento em que foi vivida como trauma, um duro golpe às lutas das minorias e à liberdade sexual plena, favorecendo o discurso moralista e os embustes religiosos; a ecologia, que anos antes parecia caminhar rumo ao status de política prioritária, dada sua importância para a sobrevida da raça humana, viu-se relegada pelos governos e confinada pela mídia, sob o rótulo de causa política de chatos. No Brasil, o governo Sarney havia tornado a corrupção endêmica aos olhos de todos (na ditadura, sob censura, só o era aos olhos de poucos). Enquanto o yuppismo alçava o sucesso material como meta máxima da existência humana, as crianças brasileiras aprendiam com Xuxa como é importante ser linda, magra e loira, competir e vencer sempre, e ter toda a linha de produtos da apresentadora.

A ascensão de Fernando Collor à Presidência, no bojo da onda direitista latinoamericana, representou a inserção do Brasil nessa nova ordem mundial . Nosso jovem, “elegante” (sic) e yuppie presidente, eleito, iria caçar marajás, acabar com a corrupção e, como se dizia, levar o país ao Primeiro Mundo. No primeiro dia lançou um plano econômico inédito nos anais da história econômica mundial, confiscando patrimônio privado no varejo. No segundo acabou com o cinema nacional. No terceiro...

Um filme que captura de forma magnífica esse estágio crepuscular do que restava de rebelde e de contestador em meio à ganância individualista que tomaria forma final nos anos 90 é Os Renegados, ou Sans toi ni loi (Sem teto nem lei, em tradução literal), dirigido em 1985 - ou seja, no momento mesmo da ruptura conservadora - pela primeira-dama do cinema francês Agnès Varda. Não é minha intenção discorrer aqui sobre esse que é um dos filmes que mais amo na história do cinema, considerado por Susan Flitterman-Lewis o “Cidadão Kane feminista”. Talvez eu o faça um dia - por enquanto, leia o belo texto de Rafaela Camelo sobre Agnés e Sans toi ni loi. De qualquer modo, fica a dica: a história da garota mochileira (encarnada com garra por Sandrine Bonnaire, no papel de sua vida), contada em flashback a partir do momento em que seu corpo, morto pelo frio, é achado em um vinhedo, é, a um tempo, um libelo e um epitáfio a 1968 e aos que, em qualquer época, ousaram tentar transformar seus sonhos de liberdade em realidade.

Um feito que, em meio ao individualismo materialista predominante, as festas temáticas sequer conseguem invocar.

(Imagem de Sandrine Bonnaire como Mona retirada daqui)