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domingo, 1 de novembro de 2009

Para onde vai Fernando Henrique Cardoso?

De ex-presidentes é esperado um comportamento discreto, respeitoso para com seus sucessores, que paire acima dos ódios políticos e colabore para o avanço do país. Se um deles eventualmente discordar do modo como o país é conduzido e não consegue ou não quer guardar para si tal discordância, deve manifestá-la de forma polida, racional, colaborativa, sem qualquer laivo de agressividade ou ataque pessoal.

Os EUA têm dado, ao menos nesse quesito, uma demonstração de civilidade democrática. Em sua grande maioria, seus ex-presidentes mantêm uma postura respeitosa para com os chefes de estado que os sucedem. Alguns, como Jimmy Carter e Bill Clinton, continuam servindo ao país em fóruns internacionais mesmo quando este é governado pela oposiç.ão. Até na fase terminal, lame duck,  do pior mandatário da história norteamericana, George W. Bush, quando as críticas se fizeram inevitáveis, elas não deixaram de obedecer, no mais das vezes, a certos protocolos e de manter o respeito pela Presidência enquanto instituição.

Tais digressões vêm à tona no contexto da repercussão do artigo “Para onde vamos?”, escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e publicado neste domingo pelos jornais O Globo, O Estado de São Paulo e Zero Hora, entre outros, e reproduzido em diversos blogs, a começar do de Luís Nassif, que lembra:

“Quando os novos governadores tucanos foram eleitos, alertei: tomem o PSDB de FHC; exercitem a retórica da negociação, da civilidade. FHC só terá a oferecer a retórica vazia da guerra. Eis aí um caso clássico da miséria do discurso”.

Eu recomendaria ao leitor que ainda não leu o hidrófobo artigo do ex-presidente, que o fizesse no blog O Hermenauta, que oferece uma leitura crítica contrapondo as acusações do peessedebista a Lula aos atos pregressos do próprio governo chefiado por FHC.  

Confesso que tive dificuldades para levar a sério a argumentação crítica do ex-presidente, primeiro porque a acusação difusa e imprecisa de autoritarismo que perpassa o artigo nãoé sustentada por nenhum ato institucional ou prova material produzidos pelo governo de turno, constituindo, portanto, mera estratégia retórica de choque empregada pelo dublê de articulista. “Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária”, escreve FHC, como a sugerir, numa lógica torta, que só os governos sob vaias seriam democráticos. 

Ora, conquista hegemônica de poder, respeitadas as regras democráticas institucionais – e FHC não fornece evidência alguma de que estas não estejam sendo seguidas -, é o jogo jogado. A leitura de seus arrazoados acaba por dar a impressão de que a ambição – no caso, da aliança liderada por PT e PMDB – de continuar no poder tem algo de intrinsicamente autoritário. Mas não foi Sérgio Motta quem anunciava aos quatro ventos que o projeto do PSDB era de 20 anos na Presidência? Dois pesos e duas medidas?

Segundo porque parece-me indisfarçável que o que move o peessedebista não é, de forma alguma, a razão e as alegadas preocupações com o presente estado e o futuro do país, mas os humanos, demasiadamente humanos sentimentos figadais da inveja, do ciúme, do despeito e do orgulho ferido.

Bastariam para atiçar tais rancores o sucesso da política econômica – com o Brasil sendo o primeiro país a sair da crise mundial -, das políticas sociais que tiraram mais de 30 milhões de pessoas da pobreza, da diplomacia que colocou o Brasil efetivamente como player mundial (um feito que FHC se esforçou por lograr e não conseguiu) e, talvez acima de tudo, a projeção internacional de Lula, reconhecida tanto pelos principais órgãos da mídia mundial como por governantes de modo geral, Barack Obama à frente.

Mas há mais: FHC começa, finalmente, a ser preterido e renegado por seu próprio partido, o qual tenta manter sob seu controle desde que deixou a Presidência. Vinha sendo bem sucedido até então, apesar do ônus que impôs, respectivamente,  a José Serra e a Geraldo Alkimin nas eleições presidenciais em que, pesando como uma pedra no lombo dos candidatos peesedebistas, colaborou sobremaneira para o duplo naufrágio. Nesta semana, porém, o PPS impôs como condição ao apoio a Serra na próxima corrida ao Planalto que o PSDB se desvencilhe do fardo FHC. Ele acusou o golpe.

Se se tratasse do grande intelectual e da personalidade política que seus acólitos e a mídia de forma geral apregoam, FHC poderia ter evitado se prestar a esse papel constrangedor, que será julgado pela História. Tivesse mantido uma postura serena e madura – ainda que eventual e respeitosamente crítica -, o tempo encarregar-se-ia de envolver em um véu de esquecimento sua Presidência de raros acertos e colossais erros, entre eles os que levaram o país à insolvência três vezes e legaram um índice altíssimo de desemprego, que ora atinge seu menor nível histórico.  

Substituindo os ataques pessoais e a manifestação histérica de sentimentos à rés do chão por uma atitude urbana, civilizada, condizente com a de um ex-mandatário máximo do país, conseguiria, com o apoio das forças comunicacionais das quais dispõe, preservar sua própria imagem através dos tempos.

Para assim agir, no entanto, é necessário ser um estadista. Coisa que Fernando Henrique Cardoso já deu mostras evidentes de que não é.