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terça-feira, 27 de outubro de 2015

O escândalo do Enem

Se alguém ainda tinha dúvidas de que o Brasil e um país machista, as reações nas redes sociais e no Parlamento ante a escolha do tema "Violência contra a mulher" para a redação do Enem 2015 as dirimiram.

Tão logo a escolha do tema se tornou pública, figuras tragicômicas do conservadorismo brasileiro, como Bolsonaro e Feliciano acusaram o exame de “doutrinação” e de “marxismo do PT”, voltando suas baterias, ainda, a uma questão baseada no clássico feminista O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Para além da contradição irônica de um militar e um pastor reclamarem de catequização ideológica, trata-se de uma tripla bobagem.



Confusão deliberada
Primeiro, porque a violência contra a mulher é um tema que não se enquadra na divisão político-ideológica convencional entre direita e esquerda, pertencendo ao âmbito dos Direitos Humanos - que, como tais, ao menos na letra da lei, transcendem partidarismos.

Segundo, porque o PT nunca foi marxista, o que dizer após sua conversão a um modelo capitalista de desenvolvimento baseado no consumismo.

Terceiro, porque uma das mais recorrentes críticas a Marx é justamente de negligência para com as questões de gênero.




Analfabetismo político
Mas tal reação teve um aspecto pedagógico: a repercussão de tais criticas nas redes sociais, barulhenta e volumosa, forneceu uma amostra do quanto se encontra disseminado, sobretudo entre jovens, um conservadorismo preconceituoso e ignorante (embora se acredite ilustrado), neles instilado por velhas figuras paternais travestidas de intelectuais e ideologos.

Presos a uma visão política binária e excludente, com baixíssima formação cultural e política, são aliciados para um autoritarismo que “opera pelo discurso e pela prática sempre bem engrenadas que se organizam ao modo de uma grande falácia, ao modo de um imperativo de alto impacto performativo: o outro não existe e, se existe, deve ser eliminado”, como descreve a filósofa Márcia Tiburi em artigo na revista Cult. Para ela, esse neoconservadorismo, que se quer uma elite intelectual e se crê aideológico enquanto critica o que entende por ideologia (esquerdista) alheia, caracteriza-se por “autoafirmação de ignorância, assinatura de estupidez”.




Fahrenheit 451
O jornalista Mário Magalhães foi didático a tal respeito, ao apontar, em seu blog, que “O problema maior são as veleidades de censor, a proposta, escancarada ou envergonhada, de eliminar da história Simone de Beauvoir, seu pensamento e suas ações”.

Seja como for, em termos políticos é temeroso pensar o que esses jovens eleitores virão a fazer, nos próximos anos, com os seus votos.



Orgulho sem razão
O petismo, por sua vez, no estado extremo de carência em que se encontra, aproveitou o acerto na escolha do tema da redação como evidência, a um tempo, de seu esquerdismo e de que administra bem a Educação. Trata-se de uma dupla falácia, pois área educacional é a que mais sofre com o ajuste fiscal de inspiração neoliberal, com cortes na casa das dezenas de bilhões de reais.

Pior: no que diz respeito ao próprio tema da violência doméstica, embora o partido tenha o grande mérito de ter participado da elaboração e ajudado a aprovar no Congresso a “Lei Maria da Penha”, sancionada pelo presidente Lula, o governo Dilma, ao vetar a lei que determinava a igualdade de salários entre homens e mulheres, colaborou de maneira decisiva para perpetuar a assimetria econômica entre os sexos - que, por sua vez, está no cerne das relações de dependência financeira que dificultam tanto a denúncia da violência
quanto a obtenção de autonomia por parte de mulheres agredidas, muitas das quais acabam presas a uma relação abusiva.
.

Feminicidio e violência
Nunca é demais apontar que a violência contra a mulher é uma questão social urgente. Segundo dados oficiais, quase 50 mil brasileiras foram assassinadas entre 2001 e 2011, a maioria entre 15 e 24 anos. Foram feitas mais de 50.000 denúncias em 2014, sendo que 77% das mulheres que relatam viver em situação de violência são agredidas ao menos uma vez por semana, 48% delas em sua própria casa. Sendo que se teme que esses números sejam apenas a face visível de uma violência que muitas vezes sequer é registrada.

Portanto, carimbar tal tema de propaganda esquerdista revela um misto de ignorância e má-fé, pois faz todo o sentido (cívico, educacional, preventivo) instigar jovens vestibulandos a sobre ele refletirem. A escolha dos examinadores foi mais do que acertada.




Jogo de aparências
Mas, levando em consideração o todo da prova, isso não anula algumas das críticas que são feitas ao Enem (não obstante o avanço que este representa em relação ao vestibular convencional). Dentre elas destacam-se o desprezo pelas diferentes realidades educacionais regionais, a não-explicitação dos propósitos e da competência de área de cada questão, e um modelo de prova que, se inova na escolha das questões, tratando temas sociais atuais, não deixa de repetir uma fórmula esquemática de exame que favorece as escolas cujo planejamento de aulas se dá com vistas ao exame (à maneira dos antigos cursinhos), prejudicando aquelas que cobrem o currículo sem direcioná-lo para tal.

Tais vícios têm tido como distorção mais palpável a hegemonia nacional, nos cursos mais disputados, de estudantes advindos das escolas de elite do Sudeste, os quais, além da ampla supremacia em sua própria região, têm ocupado muitas das vagas no restante do país, notadamente no Nordeste. Para um exame que foi anunciado como um substituto democratizante e socialmente includente ao velho modelo de seleção, trata-se de um problema gravíssimo.



Sem cura
Ainda mais grave é o fato de que, publicizado como uma falsa panaceia includente, o Enem, na verdade, nada altera em termos da qualidade do ensino oferecido. Como resume com propriedade Alcides Villaça:

Em vez de uma educação pública de bom nível, elaborar a cada ano uma cada vez melhor prova de avaliação do ensino deficitário. Um estranho termômetro, planejado para dissimular a febre”.




Mais de uma década de paliativos
Nesse sentido, o Enem repete o que se tornou um padrão nos 13 anos de petismo no poder: a opção por medidas de baixo ou nenhum custo, vendidas como panaceias, no lugar de ações planejadas e estruturadas de melhoria da Saúde e da Educação - como, respectivamente, o Mais Médicos, em vez de uma reestruturação da saúde pública no país; e a adoção de (bem-vindas) cotas, mas desacompanhadas de uma reforma educacional que estimulasse, em parceria com os estados, um salto qualitativo na área.

Destarte, aliviam-se alguns problemas e corrigem-se algumas distorções, mas sem mexer na estrutura que os causa.




A questão do contraditório
Tampouco se pode negar que, apesar da louvável escolha do tema, a correção da redação trará armadilhas potenciais. Pois, por um lado, parecem consideráveis as chances de que vestibulandos machistas e que foram previamente orientados a fazer ponderações e atentar ao contraditório em suas redações venham com argumentações do tipo "a mulher tem de se preservar", que indiretamente a culpam pela violência sofrida, chancelando-a.

Se, como tem sido nos últimos anos, a correção da redação der prioridade a estrutura, correção gramatical e construção de sentido, em detrimento da coesão ideológica, aumentam as chances de que redações tais como as descritas no parágrafo anterior venham a obter notas altas – quiçá máximas.



Escândalos
Por outro lado, se a correção se ativer com o devido rigor aos preceitos éticos e só der notas altas a redações que condenem sem subterfúgios a violência contra a mulher, isso pode vir a ser interpretado como um endosso à crítica (que não veio só do conservadorismo) de que, apesar de sua inegável importância, o tema, tal como proposto, não comporta o contraditório e impõe, na prática, uma – e apenas uma - posição ideológica ao vestibulando.

De um modo ou de outro, a tendência é que a questão da escolha do tema volte a produzir escândalos na mídia tão logo a correção e as notas das redações sejam divulgadas.


(Imagem da Mafalda de Quino retirada daqui

 

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Falácias alimentam tolerância à corrupção

O escândalo de corrupção da Petrobras toma proporções cada vez mais graves à medida que o teor das delações premiadas começa a vir à tona, revelando uma teia de envolvidos e um modus operandi que, com pequenas ressalvas, sugerem um novo “Mensalão”, mais descarado e em maior escala.

Com o depoimento da ex-gerente Verina Velosa, as acusações chegam à alta cúpula da estatal, atingindo diretamente a presidente Graça Foster, a qual Dilma Rousseff teima em manter no cargo, a despeito do enorme desgaste para a imagem e o desempenho mercadológico da empresa.



Liberou geral
Além de ativar contra Verina a máquina de desconstrução do partido, tão atuante nas últimas eleições, a resposta-padrão do petismo, repetida por blogueiros “progressistas” e por Carta Capital - que cada vez mais se assemelha a uma Veja chapa-branca - tem sido que o escândalo envolve políticos de todos os partidos. Trata-de de meia verdade, a serviço de uma empulhação completa.

Meia verdade porque, dos 28 nomes elencados pela delação de Paulo Roberto Costa, só um não pertence à base aliada (Sérgio Guerra, do PSDB; o ex-governador Eduardo Campos, à época das denúncias, ainda pertencia). O tucano, tudo indica, é a exceção que confirma a regra, pois o PT e o PMDB têm, cada um, oito nomes citados e o PP do aliado Maluf, 10. Mais: não há menção a nenhum político do PSOL ou dos demais partidos à esquerda.

E se trata de empulhação integral porque a (falsa) premissa implícita em tal resposta-padrão é: se todos roubam, então o PT e seus aliados não podem ser punidos. Locupletemo-nos todos e viva a impunidade!



Cadeia de comando
Tal presunção não se sustenta nem ante a Justiça nem ante a Ética – as quais pressupõem que todos os envolvidos em corrupção têm de responder por suas trangressões legais. Pior: ignora o fato de que a responsabilidade pela administação da Petrobras, estatal nacional de economia mista, cabe sobretudo ao governo federal, acinista majoritário, ao qual a empresa está subordinada e que é o responsável pela nomeação de presidente e diretores e por assegurar que as linhas-mestras ditadas para as áreas de biocombustível e tecnologia sejam por eles cumpridas a contento e com lisura.

E o governo federal está, há mais de uma década, a cargo de uma aliança capitaneada pelo Partido dos Trabalhadores – tempo mais do que suficente para conhecer bem sua maior e principal empresa e identificar os desvios milionários causados por um esquema de grandes dimensões, envolvendo planejamento, maquiagem de contas e dezenas de políticos próximos, em um verdadeiro achaque contra os cofres públicos.

Ao invés disso, prefere, a despeito dos vários alertas enviados à presidência da estatal denunciando o golpe, simular total desconhecimento, sustentando uma pouco crível argumentação segundo a qual um esquema que teria beneficiado 27 membros do alto escalão da base aliada fosse desconhecido pela presidente da empresa, pela cúpula dos partidos envolvidos e pela presidente da República, cuja familiariedade com meandros da administração petrolífera inclui não apenas seus dois anos e meio à frente do ministério das Minas e Energia, mas a chefia do conselho da Petrobras até 2006.



Bode expiatório
Outro estratagema petista para tentar desqualificar as denúncias do Petrolão é alegar que a mídia as destaca com furor, enquanto pouco ou nada fala dos escândalos protagonizados pelo PSDB, notadamente o maior deles, o “Metrolão” paulista, envolvendo 18 empresas e contratos suspeitos que somam mais de R$ 400 milhões.

Trata-se, de modo geral, de uma crítica procedente, que se refere a um grave problema da mídia brasileira. Mas mesmo em relação a isso o PT tem sua parcela de responsabilidade, pois, se não tivesse se acovardado e recuado de seu projeto de constituir um novo marco regulatório para a mídia, talvez a questão estivesse encaminhada. Mas não: parece ser cômodo para o partido que a militância berre histericamente contra o “PIG”, enquanto os cofres da Secom acariciam os bolsos dos magnatas das comunicações e Dilma faz omelete com Ana Maria Braga.

De qualquer modo, efetiva, a assimetria de tratamento que a mídia dispensa aos escândalos de um e de outro partido deve como tal ser denunciada e combatida. Mas ela não constitui, de modo algum, uma justificativa para que os escândalos de corrupção petistas deixem de ser investigados, como insinuam parte dos militantes. Pelo contrário: o que ela evidencia é a necessidade de isonomia de tratamento para a corrupção, provenha de onde provier, e de atenção a casos que recebem menos atenção da mídia, sem prejuízo do rigor para com qualquer caso de corrupção. O contrário disso é leniência e omissão – práticas tornadas lugar comum no governo Dilma, que ainda por cima, em relação ao Petrolão, quer faturar como seus os louros da investigação conduzida, por iniciativa própria, pelo Ministério Público e pela Polícia Federal.



Corrupções várias
O tempo talvez tenha embotado a memória de muitos, mas, há doze anos, a promessa de renovação que alçou o PT ao poder incluía não apenas um novo pacto social - com combate à pobreza via programas governamentais e inclusão de minorias via sistema de cotas -, mas um compromisso de lisura ética no trato da coisa pública, em consonância com o papel que o partido desempenhara junto ao Ministério Público e nas denúncias dos casos de corrupção dos governos Sarney, Collor e Fernando Henrique.

A Carta ao Povo Brasileiro, assinada pelo candidato Lula na reta final da campanha de 2002, serviu para tranquilizar o mercado e frear os ânimos anticapitalistas que até então moviam parcelas do petismo, mas, como demonstrou com propriedade o economista José Paulo Kupfer, ela se limita a firmar um compromisso de respeito às regras gerais de funcionamento do mercado. No entanto, nem mesmo nas entrelinhas, permite que se confunda a concordância com tais normas com renúncia a aperfeiçoá-las, a manipulá-las a fim de se alcançar objetivos políticos sem transgredi-las ou a combater seus efeitos colaterais – dos quais a corrupção é o mais evidente.

No governo, o modo de operar foi bem outro, e à realpolitik por demais elástica dos primeiros tempos chegamos, através da nomeação de Joaquim Levy ao ministério da Fazenda, à rendição ao mercadismo mais abjeto, tão criticado na recente campanha eleitoral, que o petismo, em sua ânsia irrefreada pelo poder a qualquer custo, transformou na mais suja da história do país. Se o golpe na mais simbólica e historicamente mais relevante empresa do Brasil – hoje reduzida, na melhor das hipóteses, à metade de seu valor de quatro anos atrás, num caso claro de ma gestão – marca o ápice da corrupção na era petista, a nomeação de Levy e, a confirmar, a de Kátia Abreu, são a expressão do grau de corrupção moral da aliança governista, descomprometida com qualquer coerência ideológica ou programática.



Exercicio mental
Isso posto, para encerrar, convido o leitor ou a leitora a fazer um exercício de projeção: imagine que um político tucano estivesse há 12 anos na Presidência e, além de não ter o mínimo pudor de trair os compromissos de campanha, fosse descoberto, durante seuu governo, um enorme caso de corrupção numa estatal, em que tivesem sido surrupiados no mínimo R$30 bilhões do povo brasileiro em prol dos bolsos dos aliados do poder. Qual seria a reação do petismo?



(Imagem retirada daqui)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Caso Sarney: Tríplice Tragédia

(imagem retirada daqui)

O nome José Sarney está associado a práticas políticas retrógradas e a uma trajetória pública questionável, a começar do apoio dado à ditadura militar. Tornado presidente por mero acaso, seu governo foi marcado pela corrupção, com a relação do Planalto com o Congresso sendo chamada de “balcão de negócios”; pelo populismo econômico do “Plano Cruzado”, que levou a classe média ao paraíso enquanto o truque durou, para em seguida remetê-la a uma longa temporada no inferno; e pela pior das muitas crises inflacionárias do país, em que os índices mensais chegaram à casa das centenas. A crônica musical do período – no Brasil quase sempre o melhor termômetro do humor popular -, a cargo do grupo Exporta Samba, resume a bandalheira (“Se gritar pega ladrão/Não fica um, meu irmão”).

O Maranhão, que ele governa há quase meio século (in persona ou por prepostos), com um poder que se estende ao Judiciário e depõe governadores eleitos, é hoje, a despeito de seu tamanho e abundância de riquezas naturais, a mais miserável das unidades federativas do país. Num acinte à ética eleitoral, candidatou-se pelo Amapá quando viu que seria rejeitado pelo voto na sua capitania hereditária maranhense. Morto ACM, Sarney é hoje a imagem escarrada do coronelismo. Eis a tragédia número um.

Dada a folha corrida do autor de Marimbondos de Fogo, é de causar espanto que, de repente e só a partir do momento em que Sarney assume a presidência do Senado, a mídia e a oposição – que no Brasil atual por vezes se confundem - passem a associá-lo, diariamente, a uma sequência aparentemente interminável de falcatruas. A mais escandalosa delas – os inacreditáveis “atos secretos” do Senado, que distribuíram cargos a granel sem notificar a sociedade de tal decisão – vem, como até o jornal O Globo de hoje reconhece, ocorrendo há anos e, no entanto, não se tem a oportunidade de ver congressistas demo-tucanos ou jornalistas acusando presidentes anteriores da casa, mesmo porque alguns deles eram da oposição.

Oposição esta que, representada por figuras que a cada dia se tornam mais fanfarrônicas – como Arthur Virgílio, Álvaro Dias e Raul Jungman – não demonstra o mínimo pudor em adotar um moralismo raso e falso, pois aplicável apenas às forças políticas às quais se opõem, nunca às condutas dos membros dos partidos que, para desalento da sociedade, representam.

Nem a velhinha de Taubaté acreditaria que tais figuras ajam por amor à ética, mas sim pela mais cruenta guerra política. Aliás, um dado essencial do caso ao qual não tem sido dada a devida atenção é que a eventual remoção de Sarney da presidência do Senado poria esta no colo de Marconi Perillo, membro do coronelato peessedebista goiano e inimigo do Planalto. Por todas essas razões, eis porque, apesar da gravidade das denúncias, se trata, de fato, de denuncismo. Essa atuação do conluio mídia-oposição compõe a segunda parte da tragédia.

Para completar a ópera-bufa, o presidente Lula, sempre tão cioso em conservar a blindagem pessoal e manter-se afastado dos membros de sua aliança acusados de corrupção, vem a público afirmar que “Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”. E eu que pensava que, segundo a Constituição do país que Lula governa, todos os cidadãos fossem iguais perante a lei...

O blog do Mello aventa a possibilidade de José Serra estar por trás da perseguição denuncista a Sarney. Afinal, costuma-se debitar na conta do governador paulista a operação da Polícia Federal que, em 2001, retirou a filha do senador, a então candidata presidencial Roseana Sarney (atual governadora não-eleita do Maranhão) do páreo. Ora, mas o presidente Lula, com toda sua louvada sapiência política, ao firmar aliança com a ala do PMDB comandada por Sarney, não sabia dos humores figadais que opõem o truculento bandeirante e o coronel maranhense? Exímio enxadrista que já demonstrou ser, não foi capaz de prever desenrolar tão evidente do jogo político?

Esse é o tipo de episódio em que nenhum lado tem razão, a despeito dos esforços argumentativos dos detratores do governo Lula e de seus apoiadores - alguns dos quais teimam na tática eticamente inaceitável de minimizar atos de corrupção. Sarney, pelas práticas a ele associadas, por tudo o que representa e, sobretudo, pela insensibilidade em não perceber que pertence ao passado e que está manchando de forma indelével sua própria biografia; a oposição e a mídia por apostarem, uma vez mais, num denuncismo histérico e “fulanizado” como forma de luta política, sem atacar as razões estruturais da corrupção; e, pairando acima de todos, o presidente Lula, não só pela realpolitik por demais elástica que pratica – e que junta no mesmo saco Sarney, Collor de Mello e Geddel Vieira Lima, entre outros -, mas por não preservar a Presidência, posando como defensor de práticas e figuras políticas que não coadunam com um regime verdadeiramente democrático nem com seu passado político. Esta, a terceira e última parte da tragédia.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Passagens aéreas e falso moralismo

Idealmente, os princípios e a conduta de um homem público devem balizar-se pelos mais elevados padrões éticos da sociedade em que vive, em consonância com os ditames de sua consciência, mantendo, com correções pontuais, consistência ao longo do tempo e recusando-se a variar súbita e frequentemente de acordo com as circunstâncias e o julgamento do meio externo – do contrário, estamos diante de um canastrão, que se utiliza de um discurso ético como meio de promoção pessoal mas não se importa verdadeiramente em segui-lo.

Essa é uma das razões que fazem com que a reação "pró-ativa" do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), revelando, antes que a imprensa o descobrisse, que cedera passagens de sua cota congressual para parentes viajarem ao exterior, para então ter a desfaçatez de, após ter avisado a mídia, repisar o discurso ético que o consagrou nos últimos anos, seja muito mais hipócrita - e desmistificadora de sua pantomina pública - do que a de outros parlamentares, até mesmo do cambiante Michel Temer.

Famoso pela hábito de apontar o dedo inquisidor contra seus pares e por uma trajetória caracterizada por mudanças extremas – da guerrilha ao desbunde, do discurso libertário ao moralismo tacanho, da esquerda petista à direita peessedebista, da beatitude dos puros à burla dos malandros -, Gabeira não é nenhum ingênuo e é muito bem preparado intelectualmente. Quem é há tempos familiarizado com seus escritos sabe que ele é capaz de analisar em profundidade as implicações éticas de uma situação e tem uma visão extremamente crítica da mídia. Se se deixou ser alçado por uma certa imprensa ao posto de Moralista-Geral da República foi porque o quis; se prefere manter o circo em movimento, fazendo questão de agendar com antecedência mais um número de moralismo na Câmara, logo após seu ato imoral tornar-se público, é porque quer extrair dividendos políticos do picadeiro. Como diz o belo samba de Nelson Sargento, não passa de um falso moralista.

Imprensa leviana não torna escândalo menos sério
Discordo dos que, como Luís Nassif, consideram a festa com as passagens aéreas um pecadilho menor, “festival de irrelevâncias”. O fato de o escândalo ser incomparavelmente menos danoso aos cofres públicos e ao bom funcionamento da democracia do que os megaesquemas de corrupção e “o lobby descarado no meio parlamentar” não o torna inócuo. Tampouco a circunstância de estar sendo explorado pela “grande imprensa” o transforma em irrelevante, como quer fazer crer Nassif, no que interpreto como efeito colateral de sua heróica porém desgastante batalha com a Veja.

Instrumentalizados para fins escusos, os clamores éticos deixam de sê-lo e em seu contrário se transformam. Esse truísmo pede que se filtre com olho crítico toda e qualquer acusação de corrupção – particularmente aquelas que têm como origem as corporações de mídia, pois comprometidas com o grande capital. Isso posto, é preciso ter claro que a idéia de que, por conta de distorções e exageros no comportamento da imprensa, devamos ser tolerantes com desvio sistemático e mal uso de dinheiro público é um pressuposto sem sentido e uma distorção axiológica inaceitável, que vão contra o aprimoramento da democracia no país.

É fato que setores da “grande imprensa” tornaram-se useiros e vezeiros em explorar a mais improvável suspeita de corrupção, não raro de forma leviana e quase sempre com um moralismo simplista, neoudenista, que cala nos estratos médios mais suscetíveis à mídia corporativa; é fato também que esta tem se mostrado francamente tendenciosa, com grande interesse pelo governo Lula e pouquíssimo ou nenhum pelas administrações peessedebistas do Sul/Sudeste (Serra, nessas reportagens, só como sinônimo de montanha).

Desse cadinho de mau jornalismo, escândalo fácil e interesses corporativos tomou forma a onda de neomoralismo da qual Gabeira, em nova versão de si mesmo, despontou como estrela. Apagou o baseado, vestiu um terno por cima da famosa tanga e, remodelado segundo o figurino peessedebista, trocou Ipanema por Irajá. No caminho, enquanto fingia não ver o valerioduto e os desmandos do governador paulista, ia bradando impropérios contra a corrupção no governo federal. O sucesso foi tanto que, após enfrentar Severino Cavalcanti, veio a glória: tornou-se capa da Veja, que o alçou ao posto de grilo falante da moralidade nacional (clique aqui para ler a carta aberta deste blogueiro a Gabeira e aproveite para espiar a medonha capa citada).

Reações não se limitam à hipocrisia
Atitude mais digna do que Gabeira & os Falsos Moralistas teve a senadora Luciana Genro (PSOL-RS), que, arguida quanto às passagens de sua cota cedidas ao delegado Protógenes Queiroz – que fora protagonizar um debate numa universidade do Sul -, defendeu o que fez, argumentando que o uso da cota para fins políticos estava previsto no regimento. Confesso que, na hora, me decepcionei com sua resposta, pois considerei (e ainda considero) que traduz uma profunda incompreensão do sentimento popular em relação às benesses usufruídas pelos membros do Congresso, comparadas à dureza da vida cotidiana da grande maioria dos brasileiros. Mas, ante o festival de hipocrisia e falta de caráter que se seguiu, vejo-me obrigado a reconhecer que declaração de Genro é um oásis de coerência.

A senadora gaúcha se diferencia de Gabeira, em relação a esse episódio, em dois aspectos: primeiro, porque, ao invés de desrespeitar o regimento e simplemente surrupiar suas cotas para o turismo familiar, utilizou-as de acordo com as normas internas, alegando que se não fizesse uso das passagens que têm direito para fins políticos e os outros senadores não fizessem o mesmo estaria criada uma assimetria prejudicial ao seu partido; segundo e mais importante, porque, ao contrário de Gabeira, recusou-se a adotar uma ética dupla, que passa a considerar o uso das passagens errado somente a partir do momento em que a mídia o descobre (ou está claramente na iminência de fazê-lo).

Caso é ultrajante e pede soluções
O que é ultrajante nesse caso das passagens aéreas é que elas são claramente um supérfluo, um mimo percebido pela opinião pública como algo desnecessário, dado o fato de que os parlamentares a distribuem, a rodo e sem respeitar os preceitos regimentais, a terceiros (e ora confirmam-se as suspeitas de que vários parlamentares as comercializam com agências de viagens).

Considero Eliane Cantanhêde uma das mais tendenciosas e frequentemente equivocadas colunistas em atividade. No entanto, em relação a esse caso, concordo com a jornalista da Folha de São Paulo: é preferível discutir o aumento de salários dos congressistas (que, pelo princípio da isonomia entre os três poderes, equiparia seus vencimentos aos dos ministros do STF), desde que sejam cortados TODOS os demais benefícios. Mas é claro que a maioria dos parlamentares, cientes da leniência na fiscalização, descarta o desgaste que tal discussão provocaria e prefere continuar chafurdando no pântano do mau uso do erário, encobertos pelo cipoal de verbas diversas.

De Ética e de Política
“Política não se limita à Ética, mas também não prescinde dela”. Foi meditando sobre essa frase, que eu lera horas antes no blog O Descurvo, que me dispus a escrever este artigo. O sentido que ela tem no texto de Hugo Albuquerque, ao menos como eu a compreendi, prioriza a interpetação de que há aspectos da política que transcendem a ética, mas que esta não deve jamais ser negligenciada.

No entanto, Gabeira, com seu moralismo espalhafatoso e interesseiro, permite ler a frase de outro modo: que fazer política não se restringe a explorar a ética (como um cafetão explora uma prostituta), pois, inerente à Política, a verdadeira Ética, como o oprimido de que nos fala Freud, retorna para deixar o hipócrita nu em praça pública.

(Originalmente publicado no Observatório da Imprensa em 23/04/2009. Fiz ligeiras modificações).