Os textos deste blog estão sob licença

Creative Commons License
Mostrando postagens com marcador ditabranda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ditabranda. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de março de 2012

A Comissão da Verdade e os falsos mitos sobre a ditadura


Pais de Alexandre Vannucchi Leme, morto em decorrência de tortura
Poucos temas mobilizam uma reação tão enfática, na internet ou fora dela, quanto o debate sobre a necessidade de se lançar luzes sobre o passado ditatorial do país e de se proceder à atribuição de responsabilidades que tal ajuste de contas implica.

A metáfora não é gratuita: trata-se precisamente de um embate entre a necessidade cívica, jurídica e humanitária de iluminar um passado de trevas, tortura e arbítrio que forças do atraso insistem em manter num limbo, fora do alcance do ajuste histórico e legal.

Com a instalação da Comissão da Verdade na iminência de acontecer e com o STF prestes a votar, na próxima quinta-feira, um recurso da OAB questionando a validade e a abrangência da Lei da Anistia, o debate se acirra e as caixas de comentários dos grandes blogs e portais se enchem de mensagens de defensores do regime militar, as quais, pelo volume, similaridade de argumentação e estilo sugerem uma ação orquestrada, que recende ao odor acre dos coturnos manchados de sangue.


Revisionismo conservador
A mídia vem, há tempos, investindo em um esforço revisionista do período ditatorial – esforço para o qual têm se deixado cooptar desde professores universitários até cineastas, além de jornalistas diversos, e cujo ponto culminante, até o momento, é a adoção, pela Folha de S. Paulo, do neologismo “ditabranda” (e a honrosa exceção que confirma a regra é a matéria de Míriam Leitão sobre Rubens Paiva). Tal operação falseadora não é, como já dito, nova e não se dá unicamente em função da instalação da Comissão da Verdade: na verdade, desde que, durante o segundo governo Fernando Henrique Cardoso, o cientista político Carlos Nelson Coutinho cunhou a expressão “intelectuais à sombra do poder” para designar certos “experts” chapa-branca com acesso à mídia, tal fenômeno já era facilmente perceptível.

A tentativa de impor, no grito, uma visão deturpada e clamorosamente falsa do que foi o passado ditatorial no Brasil assenta-se sobre duas premissas centrais: a primeira sustenta que o golpe militar de 1964 se justificaria ante a iminência da implementação de um regime comunista no Brasil. Trata-se de uma hipótese tão apartada da realidade que nem os revisionistas a soldo das forças conservadoras – sejam eles historiadores travestidos de jornalistas ou jornalistas se passando por historiadores – ousaram sustentá-la nos caudalosos panfletos revisionistas que forjaram.

Pois João Goulart assomou ao poder democraticamente, como vice-presidente eleito, e os que, desde o momento em que a renúncia de Jânio Quadros o colocou no centro do poder, passaram a atentar contra a ordem democrática e a buscar meios para evitar sua posse são os mesmos – ou se equivalem aos - que hoje se esmeram em fazer valer a versão fantasiosa da ameaça comunista – algo a que o Brasil jamais esteve remotamente suscetível, como o comprovam tanto os informes da CIA quanto as informações advindas do PCB e do campo soviético. Mesmo os poucos dispositivos esquerdistas com potencial de mobilização armada - como as células apelidadas de Grupo dos 11, de Brizola - só foram arregimentadas como último recurso legalista em reação às movimentações golpistas da direita, ativas durante a presidência de Juscelino Kubitschek e incessantes desde a renúncia de Jânio.


Truque da Guerra Fria
Pode-se até colocar em questão a inabilidade de Goulart ao patrocinar a sublevação e quebra de hierarquia no interior do exército e mesmo reconhecer que o discurso inflamado na Central do Brasil foi dois tons acima do que se esperaria, naquela hora incerta, de um presidente com apoio oficial claudicante. Mas, em um país recém-industrializado e que sequer fizera a reforma agrária - de resto, inédita até nossos dias -, evocar o fantasma da ameaça comunista, como fizeram os golpistas (e hoje repetem seus defensores), não passou da repetição de um truque comum no Ocidente, à época.

Naquele tempo, podia até colar, a depender do público - e a imprensa colaborou intensamente para tal -, mas sabe-se hoje, com absoluta certeza, que se tratou de uma alegação que não se sustenta minimamente, desmentida por documentos históricos e que jamais efetivamente se constituiu em justificativa para rasgar a Constituição, derrubar um presidente eleito e, pela força das armas, encastelar-se no poder. (Onde, aliás, a permanência por longos 20 anos fornece a evidência maior de que nunca se tratou de combater uma imaginosa ameaça vermelha, mas de interesses outros.)

E a violação da ordem democrática pela força equivale a um salvo-conduto a legalizar a resistência e a luta contra os usurpadores da lei, pois não reagir contra quem tomou o poder ilegalmente é não apenas um ato covarde, mas civicamente desonroso.


A fantasia da lisura
A segunda litania bramida pelos defensores da ditadura nos fóruns democráticos sustenta que os anos em que os homens de farda estiveram - a ponta de baioneta e sem a legitimidade do voto - no poder foram caracterizados pela lisura administrativa, em contraposição a um presente em que o lulopetismo – e só ele – infectou o país com o vírus da corrupção sistêmica.

A ideia de que não havia corrupção ou de que esta fosse menor durante o governo militar é ilógica, irreal e risível. Pois pertence à lógica elementar, inteligível por qualquer ser humano de capacidade cognitiva próxima da mediana, a constatação de que um Estado autoritário onde vicejam a censura à imprensa e o controle dos órgãos de fiscalização pelas próprias forças ditatoriais no poder é incomparavelmente mais suscetível à corrupção do que qualquer governo eleito, sujeito aos mecanismos de controle e fiscalização republicanos e aos pesos e contrapesos entre poderes que a democracia impõe.

Mas não é preciso limitar-se ao terreno das suposições – ainda que óbvias - para fazer tal constatação: há fatos em abundância a sustentá-la, não obstante a amnésia seletiva e a premissa equivocada que marcam o debate. A amnésia diz respeito à sucessão de escândalos de corrupção, malversação de dinheiro público e conivência com atos fraudulentos que foram três dos traços distintivos do regime de arbítrio: os casos Globo-Time Warner, Luftalla, Eletrobrás, Transamazônica, Capemi, Brasilinvest, Calmon de Sá, Escândalo da mandioca, INAMPS, Coroa-Brastel, Proconsult, Ferrovia do Aço, entre tantos outros.

Isso para citar os que, ainda que de forma restrita e atrasada – e a despeito da censura - chegaram ao conhecimento público, pois a montanha de dinheiro gasta em obras faraônicas - como a usina de Itaipu e a ponte Rio-Niterói - e o aumento exponencial da dívida externa brasileira durante o regime constituíram duas das maiores fontes potenciais de enriquecimento ilícito dos usurpadores do poder - e dos tecnocratas que os serviram -, as quais jamais foram submetidas a uma auditoria externa independente que comprovasse ou desmentisse as graves suspeitas que sobre elas pairam.


Herança maldita
Para se ter apenas uma ideia do grau de corrupção do Estado no período ditatorial, um mero vislumbre da ponta do iceberg, basta atentarmos para o fato de que a maioria dos políticos e das oligarquias conservadoras que hoje, justa ou injustamente, têm seu nome comumente associado, na boca do povo, a mamatas, negociatas e corrupção germinaram sob as sombras silenciosas da ditadura.

Foi, ainda, durante o período ditatorial que o Maranhão se tornou uma espécie de capitania hereditária dos Sarney, a Bahia quase um feudo de Antônio Carlos Magalhães, Santa Catarina o burgo dos Bornhausen, e que São Paulo foi governado por Paulo Maluf, para ficarmos em quatro dos mais representativos exemplos de políticos regionais que angariaram, com a chancela militar, um poder desmedido em seus estados - o que, ao atentar contra o equilíbrio democrático, constitui um evidente obstáculo à transparência e à auditoria pública dos atos governamentais.

Essa autêntica “herança maldita” legada pela ditadura, na forma do poder excessivo angariado por tais oligarcas, acabou por impor, na prática, aos governos democráticos que a sucederam a aliança com tais forças regressivas como forma de garantir a governabilidade – processo, aliás, que tem lugar já no momento zero da redemocratização, com a colocação do ex-líder arenista José Sarney, então no recém-fundado PDS, como vice na chapa do candidato à Presidência Tancredo Neves, o de suspeitosíssima morte.


Assalto à moral
Isso tudo para ficarmos no âmbito da degeneração da ética administrativa e da corrupção enquanto apropriação indébita do bem público. Pois nada se compara, em termos de corrupção moral, com a prática de tortura contra pessoas indefesos – muitas vezes meros suspeitos -, rotineiramente praticada pelo Estado ditatorial e por um longo período de tempo. Trata-se de crime contra a humanidade e de terrorismo de Estado e, como tal, segundo o Direito Internacional, não prescreve nem está sujeito à anistia imposta pelo regime militar como condição sine qua non para efetivação da abertura política – que, ainda assim, foi extremamente lenta e eivada de arbitrariedade e truculência.

Convém ressaltar que a esquerda brasileira não só nunca recorreu ao crime bárbaro da tortura como exibe , há tempos, certo pudor em se valer da denúncia explícita da violência das torturas para angariar apoios. Trata-se, no meu entender, de um erro de estratégia. É preciso que o cidadão comum, os homens e mulheres que não acompanham política, e as gerações que, quase 30 anos após o fim da ditadura e da publicação do livro  Brasil, Nunca Mais não têm noção histórica precisa de quais eram os métodos do aparelho de repressão – contingente que alguns estimam em 75% da população - sejam informados acerca do grau de violência física e tentativa de anulação psicológica que foi impingido por forças oficiais a suspeitos rendidos.

A Comissão da Verdade tem por fim precípuo impedir a prorrogação da tortura, tanto na forma de método policial investigativo por excelência- sobretudo quando o suspeito é pobre -, quanto na forma que, desde a ditadura, vem incidindo nas  famílias dos "desaparecidos", às quais é negado o direito de saber do paradeiro de seus entes queridos, o que impede que pais e mães exerçam o direito sagrado de velar condignamente filhos cujo "crime" foi ousar lutar contra um regime ilegitimo. 


Questão de tempo
O acerto de contas com o passado ditatorial do país é, por fim, uma tarefa imprescindível para as próprias forças institucionais militares, para que o Exército, a Marinha e a Aeronáutica tenham a oportunidade de redimir-se pelo passado de arbitrariedades, mostrarem-se engajados na defesa dos valores democráticos e estabelecerem um novo padrão de relacionamento com a opinião pública – como o lúcido grupo de oficiais que, ao contrário de seus pares nos clubes militares, divulgou um manifesto apoiando a Comissão de Verdade dá mostras de reconhecer. Nesse sentido, o que a Comissão da Verdade proporciona é o avesso do revanchismo.

Tudo somado, esses defensores da ditadura que ora proliferam nos fóruns midiáticos não têm, portanto, credenciais morais para acusar quem quer que seja de corrupção nem, muito menos, razão a sustentar a imaginosa superioridade moral que atribuem ao regime de exceção em relação àquele em que os governantes são escolhidos diretamente pelo voto popular.

Podem espernear à vontade, mas o ajuste de contas com o passado ditatorial é inevitável: pode ocorrer em breve, se o STF honrar a lei, a história e o povo a que serve e se o governo sair de sua pasmaceira e nomear, o quanto antes, os membros da Comissão da Verdade; pode vir a demorar ainda mais. Mas, como ocorreu nos países vizinhos, será efetivo e civicamente histórico.


(Foto retirada daqui) 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Três anos de Cinema & Outras Artes


Hoje o blog faz três anos. A pretexto de celebrar a data, este post traz uma reflexão sobre a blogosfera e a atividade política nas redes sociais nesse período.

O Cinema & Outras Artes nasceu no bojo das manifestações contra a Folha de S. Paulo por ter empregado o neologismo “ditabranda” para se referir ao período militar e, em seguida, agredido covarde e seguidamente os professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, que ousaram protestar em cartas ao jornal.

O episódio acabou por constituir um momento marcante, um ponto de inflexão das relações entre público e imprensa no país. Pois até ali, malgrado o peso determinante que os interesses empresariais e políticos sempre exerceram na atuação e na orientação editorial das publicações brasileiras, algumas destas – a Folha, notadamente – ainda vinham sendo relativamente bem-sucedidas em vender uma imagem de pluralismo e de ao menos um esforço de imparcialidade.

Depois da “ditabranda”. da publicação de uma ficha policial falsa da candidata Dilma na capa de uma edição dominical e de demais episódios eticamente deploráveis – as acusações alopradas de um Cesinha, o factoide Lina Vieira, entre outros - a máscara caiu de vez. Houve uma debandada de assinantes, a imagem do jornal ficou seriamente arranhada, vozes informadas de ex-leitores – entre eles vários antigos colaboradores - passaram a criticá-lo reiteradamente e aquela aura que a Folha cultivara desde as reformas implementadas por Claudio Abramo nos anos 70 – e que atingiu o ápice nas campanhas pelas Diretas Já - se desfez.


Política versus Cinema
Foi justamente após voltar do protesto organizado por Eduardo Guimarães em frente ao prédio do jornal, na alameda Barão de Limeira, que a decisão de fazer o blog foi concretizada. Procurando por imagens do evento, deparei-me com o também recém-criado O Descurvo, de Hugo Albuquerque (que, creio, foi o primeiro leitor do Cinema & Outras Artes – e primeiro comentarista assíduo). Logo no início, quando mais um blog perdido na imensidão da blogosfera parecia fadado a ser completamente ignorado, ele desempenhou o papel de um grande incentivador e deu dicas preciosas ao neófito inseguro ante o indecifrável “informatiquês”.

A intenção sempre foi a de que fosse um blog com conteúdo original, principalmente análises com algum grau de profundidade – o que certamente restringiria o público, mais acostumado, à época, de modo geral, a blogs com textos curtos, muitas vezes com humor ou relatos pessoais. Como o próprio título evidencia, cinema deveria ser o assunto principal. A política já estava entre os interesses secundários (como se pode ver no cabeçalho do blog, que é o mesmo desde aquela época), mas acabou predominando – um pouco porque a feitura do blog coincidiu com um período profissional em que me afastei do cinema e me reaproximei do jornalismo e das salas de aula; outro tanto porque acabei embarcando nos embates políticos que tiveram lugar na internet, no bojo da campanha presidencial, e tomei gosto pela coisa.

Ao completar três anos e fazer este balanço, chego à conclusão de que, no Brasil, em relação à blogosfera, houve avanços, digamos, institucionais, mas estes têm tido um ritmo bem menor do que inicialmente eu supunha. Por exemplo, nos primeiros meses, enquanto começava a fazer este blog, era também colaborador do Observatório da Imprensa. No veículo criado por Alberto Dines - em que a maior parte dos artigos versava, naturalmente, sobre a mídia convencional - eu tinha a preocupação de chamar a atenção dos leitores para a diversidade, a qualidade e a importância que a blogosfera e as redes sociais vinham adquirindo em relação ao jornalismo. Isso acabou por me obrigar a olhar a blogosfera “de fora”, de uma maneira mais ampla e mais crítica.


Avanços necessários
Estimulado por essas reflexões, publiquei alguns textos em que argumentava, por exemplo, a favor da urgente constituição de uma rede de advogados para proteger os blogueiros de processos oportunistas (uma tática coercitiva que vem sendo empregada, de forma pontual, em alguns estados brasileiros – e que é uma ameaça concreta em cada período eleitoral), ou ressaltando a necessidade de a blogosfera superar a crítica de mídia e investir na produção de material jornalístico original – sobretudo reportagens (uma necessidade que é reconhecida há tempos por alguns dos principais blogueiros, mas, com a alegação de dificuldades operacionais, dificilmente levada a cabo, mesmo porque remete a - e deriva de - um problema recorrente nas redes sociais, que é a excessiva dependência da TV. O Twitter, por exemplo, tem, eventualmente, pautado a mídia. Mas há muitos dias ali que a impressão que fica é de que se trata de uma aplicação para comentários televisivos e não de uma tremenda ferramenta comunicacional, particularmente revelante para o jornalismo).

Outra questão premente diz respeito à sustentabilidade econômica dos blogs, pois, desculpe informar, leitor(a), mas esse papo da direitona – e agora também  de uma certa dita esquerda – de que o governo nos sustenta é mentira. A blogosfera pode até continuar forte e com algum grau de renovação por muito tempo devido ao voluntarismo de cidadãos e cidadãs motivados, mas, do ponto de vista estrutural, o que asseguraria prosseguimento e estimularia melhoria de qualidade da atividade blogueira seria a obtenção de meios para que ao menos um bom número de blogueiros pudesse se sustentar através de tal atividade.

Trata-se de questões que vêm sendo encaminhadas, é certo – e o fato de fóruns como o #blogprog servirem para articular e fazer andar tais discussões é um dos motivos que me levam a vê-lo sob uma luz positiva -, mas não tratadas com a velocidade, a efetividade e a divulgação necessárias.


Via de duas mãos
Uma outra questão que, na minha opinião e na de vários blogueiros que conheço, precisa ser urgentemente atacada é a hegemonia excessiva de blogs consagrados e a manutenção, numa zona de sombra, de uma série de blogs que têm, há tempos, se esforçado para produzir com regularidade material original e crítico. Chega a ser enjoativo o quanto se vê sempre os mesmos blogueiros sendo convidados para eventos e para representar a “classe”. É preciso renovar.

Uma renovação seria benéfica a todos e fortaleceria a blogosfera como um todo. Os encontros de blogueiros (e, nestes, a composição das mesas) são um dos meios para levar a cabo tal tarefa, mas é preciso que mais blogueiros de renome sigam o exemplo dos seus pares que abrem espaço e republicam (ou divulgam nas redes sociais) posts de autores menos conhecidos, pois há uma queixa crescente – e a meu ver justificada - contra blogueiros de ponta que, embora sejam, há tempos, exaustivamente citados, jamais lincam ou indicam posts que não sejam de sua própria autoria,.


Mudanças bruscas
Nesses três anos, o cenário da blogosfera mudou muito. Duas mudanças foram (ou têm sido) marcantes. A primeira é a diminuição brusca do número de comentários que passou a acontecer tão logo as redes sociais (o Facebook e o Twitter, notadamente) se firmaram como o local de debate por excelência. Por mais que um post seja nelas debatido, a escassez de comentários teve - e tem - uma ação psicológica desestimulante em mim. Como disse alguém, o comentário é o alimento do blogueiro.

A segunda mudança, mais recente e muito mais relevante, deriva da própria relação entre blogosfera e política: finda a eleição presidencial, a ação conjunta empreendida pela maior parte dos blogs de esquerda (mesmo dos que não apoiaram no primeiro turno a candidatura petista) se desfez. Deu lugar, inicialmente, ao questionamento dos rumos do governo Dilma (questionamento o qual, aqui neste blog, começou cedo, no segundo mês de governo, quanto publiquei um post intitulado “Primavera digital chega ao fim”, que acabou republicado em diversos outros locais e gerou bastante polêmica). Nele manifestava minha frustração ao constatar que o o governo Dilma não só não aprofundaria o modelo neo-keynesiano adotado por Lula dois anos e meio antes, mas promoveria um retorno a parâmetros neoliberais – o que, infelizmente, se confirmou indubitavelmente nos meses seguintes, com a obsessão com o déficit nominal zero, a privatização dos aeroportos e, mais grave, da aposentadoria dos servidores públicos. Agora cogita-se o impensável: a alteração das leis trabalhistas.

A união verificada durante os embates eleitorais estava, é certo, fadada a se esvair – e, de certa maneira, é positivo que tal tenha ocorrido, permitindo um debate mais nuançado e diversificado. Em relação ao Cinema & Outras Artes, isso permitiu – para decepção de uns e contentamento de outros – deixar claro que não se tratava de um órgão político petista, como a alguns por momentos pareceu (o que me levaria a rir muito quando tomei ciência disso), mas de um blog de jornalismo que defende certas princípios de esquerda, não abdicando, no entanto, de criticar – ou mesmo de renegar, a depender dos desdobramentos futuros – o governo o qual pareceu melhor representar tais princípios.


Tríplice fronteira
Embora, a rigor, alguma gradação possa ser observada, poderíamos, a título de esquematização e inevitavelmente recorrendo a generalizações, dividir a blogosfera de esquerda, hoje, em três grandes grupos. Um, já citado através da menção ao próprio Cinema..., é o dos blogs que mantêm um apoio crítico à aliança e ao governo comandados pelo PT.

Outro, mais homogêneo, é formado por blogs que continuaram a apoiar incondicionalmente o governo Dilma, faça o que ele fizer – o que, como já coloquei em um post recente, acaba, na minha opinião, por enfraquecer o poder da blogosfera de pressioná-lo a honrar os compromissos assumidos nas eleições e faz coincidir as posições de tais blogueiros com as da grande mídia no que tange ao apoio à primazia que o governo concede ao mercado e à adoção de algumas das principais premissas neoliberais.

Um terceiro e último grupo seria formado por blogueiros de esquerda que, por convicção anterior ou decepção posterior, recusam e combatem a aliança petista. É, talvez, o mais heterogêneo dos grupos, reunindo apoiadores dos pequenos partidos, entusiastas da figura de Marina Silva, ecologistas decepcionados com o modelo de desenvolvimento e com Belo Monte, além de críticos avulsos.

Penso que a interlocução seria mais fluida e a própria ação política bem mais proveitosa se não se tivesse formado esse quadro quase estanque e essas “igrejinhas” fechadas em si mesmas. Mas não chega a causar estranheza e não é, de forma alguma, um fenômeno circunscrito à blogosfera brasileira – ele diz respeito, um tanto, à própria natureza humana, e, muito, à atual conformação do campo político no país.

O que extrapola o campo do polemismo civilizado é um coletivo que se diz de esquerda publicar um texto apócrifo com graves e não comprovadas acusações pessoais e ilustrá-lo com a foto de uma blogueira cujo principal capital é a credibilidade que levou anos para construir. Se essa tal esquerda se satisfaz com argumentações a la Augusto Nunes e táticas pessoais desqualificadoras à moda de Veja, problema dela. Mas com acusações sem prova em textos não assinados ela sai do campo do debate democrático para o da calúnia anônima.


Por que blogar?
Durante todo esse tempo, uma questão tem aparecido, intermitente: por que manter um blog? Por que dedicar tempo, pesquisar, lutar com as palavras (“a luta mais vã”, segundo Drummond), revisar, se irritar com a tecnologia e seu instável humor, monitorar e responder os comentários? O que nos move a fazer tudo isso, sem receber um mísero real em troca? Nunca consegui responder satisfatoriamente essa questão. Atualmente, a resposta, além do compromisso com os leitores e leitoras que seguem o blog, une uma mistura de desejo de incentivar o debate e de exercer, de alguma forma, a participação política para além do momento de digitar o voto na urna. Mas ela varia de tempos em tempos.

Por fim, há a questão do estímulo e da perda de estímulo. Competindo com outras tarefas, em sua maioria remuneradas, e com os prazos sempre curtos por estas determinados, o blog acaba ficando meio de lado em épocas em que se acumulam muitos trabalhos (como no segundo semestre do ano passado). Mais relevante do que isso, há o fator psicológico, que é recorrente: há, de tempos em tempos, períodos de profundo desânimo, em que postar parece uma atividade banal e em que a pouca repercussão soa como um sinal a mais a confirmar a inutilidade do blog. Nessas épocas é sempre custoso escrever, não se acha assunto, o texto não avança ou só o faz penosamente. Isso ocorreu, uma vez mais, há uns dois meses. E eu estive a ponto de parar.

Daí, de repente, vem uma vontade de escrever, os assuntos brotam, o texto flui de um modo tal que é preciso refreá-lo no córtex cerebral para que as ideias não escapem. Até quando esse estímulo súbito vencerá o desânimo? Sinceramente não sei, mas acredito que é justamente do produto da mediação entre a ânsia pela escrita e a satisfação de ver o texto pronto – e, assim, tomar parte, mínima que seja, no ente comunicacional publicamente efetivo que é hoje a blogosfera brasileira – que é gerado o impulso que toca o blog para frente. Aos que embarcaram na viagem comigo, muito obrigado.



(Imagem retirada daqui)

domingo, 7 de março de 2010

Aniversário e convescote

Hoje faz um ano que este blog está no ar. Ele surgiu, como uma imposição íntima, em decorrência direta do protesto organizado por Eduardo Guimarães contra a Folha de S. Paulo e sua “ditabranda”, em um momento em que as recorrentes violações éticas da mídia ultrapassaram todos os limites.

Ele comemora seu primeiro ano de vida quando essa mesma mídia corporativa à qual a Folha pertence acaba de se juntar em um evento tão cômico quanto ameaçador. A máfia ítalo-americana costumava reunir-se em Cuba, em meio a daiquiris e praias tropicais, para tramar suas jogadas mais sujas e ousadas. A mídia brasileira, ainda mais jeca e alérgica a tudo o que seja tropical, prefere convescostes a R$500 a cabeça (não se assuste: só otários pagam, a maioria entra na faixa) em hotéis metidos a besta. Lá articula – em público, pela primeira desde 1964, como aponta o jornalista Gilberto Maringoni em artigo intitulado “O rosnar golpista do Instituto Millenium” – uma reação conjunta contra uma das candidaturas presidenciais – no caso, a de Dilma Rousseff (PT).

Isso não quer dizer, no entanto, que eles assumirão em seus veículos “jornalísticos”, de forma clara e transparente, a posição que fazem questão de ostentar através do convescote: a Folha continuará a se autodefinir como “Um jornal a serviço do Brasil”, a Veja como a principal e mais vendida publicação brasileira graças ao alegado alto nível profissional de seus colaboradores, e o/a Globo, assim como alega jamais ter deixado de cobrir as Diretas Já ou manipulado o debate entre Collor e Lula em 1989, continuará exaltando a imparcialidade inerente ao tal Padrão Globo de Qualidade. Não seria muito mais honesto se fizessem como alguns bons jornais norte-americanos e assumissem suas preferências eleitorais junto ao eleitor/telespectador? Esta é, aliás, uma das sugestões saídas do evento, mas quantos acreditam que será mesmo seguida?

No evento, ao menos dois dos palestrantes do evento – os inacreditáveis Demétrio Magnolli e Denis Rosenfied – fizeram acusações diretas ao PT relativas a seu suposto totalitarismo. Para o primeiro, que parece ignorar a revolução silenciosa que ora ocorre na internet, na difusão das pequenas e médias publicações no interior do país e nos Pontos de Cultura espalhados de forma capilar pelo território nacional, o partido “dá marcha a ré em todos os assuntos que se referem à democracia”. Já para o filósofo gaúcho, “"O PT é um partido contra a liberdade de expressão. Não há dúvidas em relação a isso” – o eminente masturbador mental não se preocupa em oferecer exemplos que permitam que sua afirmação peremptória soe como algo além de mero devaneio pessoal emitido por um ator político folclorizado pelo conservadorismo anacrônico de suas posições.

Não deixa de ser irônico que, como seus dois acólitos o demonstram, um dos sucessos da mídia brasileira em seu penoso estágio atual tenha sido, em conluio com o demotucanato, atribuir ao lulopetismo pendores autoritários – aos quais costumam se referir com a acusação genérica e conceitualmente imprecisa de “stalinismo”. Mas a verdade largamente comprovada por fatos históricos é que o PT nunca foi stalinista – muito pelo contrário, surgiu sindicalista e em oposição às linhagens soviéticas em confonto no interior do PCB, evoluindo, a partir dos anos 90, para uma espécie de social-democracia de resultados.

Também desconhece-se qualquer medida efetiva de cerceamento da liberdade de expressão durante a Presidência de Luís Inácio Lula da Silva. O único momento da história mais ou menos recente do pais em que houve, de fato, de forma inegável, censura institucional e sistemática – a ponto de destruir carreiras artísticas – foi durante a ditadura militar, notadamente no pós-AI-5. E quem apoiava tal regime? A maioria dos grupos de mídia presentes ao convescote – alguns inclusive com a cessão de carros para transporte de presos para a tortura - e os mesmos políticos do DEM (então Arena, depois PDS) que hoje berram ante qualquer proposta de regulação da atividade midiática. Será que não é evidente a contradição aqui, a sustentar o truque de acusar em outrem aquilo que o próprio acusador pratica?

Um dos recorrentes prolemas com o lulopetismo, em parte devido à concentração da mídia corporativa em mãos inimigas, em parte à crônica incompetência comunicacional própria, é a baixa capacidade de reação ante acusações e campanhas difamatórias. Cola-se com extrema facilidade no PT, em Lula e em membros do governo acusações que são claramente falsas. O exemplo acima é eloquente, com uma gritaria anti-autoritarismo petista ocultando, como tão bem diagnostica Luiz Egypto, a luta por manter a mídia acima da lei, livre para praticar um "jornalismo" que não atende nem à demanda pública nem à busca pela fidelidade aos fatos, mas tão-somente à satisfação de seus próprios interesses corporativos.

Assim foi também com o factóide desta semana - provavelmente o primeiro de uma escalada - , segundo o qual Lula licenciar-se-ia por 2 meses, sendo substituído durante tal período por Sarney. Desde o primeiro momento esteve clafro, para mim, tratar-se de um absurdo total, ao qual Lula, por consciência dos danos que tal ato poderia trazer a si e à sua candidata, jamais recorreria. Mas a “notícia” espalhou-se como rastilho: da coluna de O Globo para os blogs corporativos da empresa – que, numa clara orquestração, incluiu até os que cobrem segurança pública e cultura – e daí para os tuiteiros tucanos, os simpatizantes e os indecisos, todos a difundir freneticamente o que não passava de uma especulação sem valor jornalístico algum. E na sequência, como a corroborar a ideia de uma articulação conjunta, vem à tona a manchete de anos atrás requentada por Veja – que, de novo, tem feito muita gente boa cair como patinho.

Portanto, o segundo ano do blog começa com a perspectiva de uma disputa de baixíssimo nível à frente. Mas nossa intenção é de continuar, defendendo os valores que julgamos importantes - notadamente a ética no jornalismo e a prioridade ao social na política. E, quem sabe, como era a ideia inicial, inserir mais cinema, mais música e mais literatura nos posts, para a brincadeira ficar mais gostosa. Aos seguidores e seguidoras, agradeço pelo estímulo e reitero o convite ao diálogo.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Desalento: a "hibernação" d'O Biscoito Fino

A “hibernação” do blog O Biscoito Fino e a Massa, sem previsão de retorno, foi anunciada ontem por Idelber Avelar e provocou comoção em muitos, inclusive em mim.

Instalaram-se um vazio e um senso de desorientação. A tarde ficou triste, melancólica, como aquela do poema que Vinicius fez a Rubem Braga. Fez-me lembrar outra tarde, distante, em que eu almoçava com minha amiga Glauce Passeri e ouvimos no rádio do restaurante que Cazuza morrera. Não se trata, evidentemente, de algo tão trágico e irreversível, mas a ligação se faz, para mim, porque os dois eventos significam, de certa forma, o fim da culminância de uma era em que o novo se impôs.

Pois, ao criar e manter, por cinco anos, um blog independente - visceral em suas posições, na crítica à mídia, na defesa lúcida dos pontos de vista da esquerda - e fazer dele uma referência política e cultural para milhares de pessoas, Idelber provou que uma nova mídia, não-corporativa, democrática, feita com parcos recursos mas com inteligência é possível.

Relutei muito em escrever este post. Havia decidido não fazê-lo. Mas, de madrugada, após um dia marcado pela tristeza e pelo pasmo, ele se impôs quase que como uma forma de desabafo, de exorcismo emocional. Não quero, de forma alguma, dar a impressão de estar sendo oportunista. Sou o primeiro a reconhecer que há muitas outras pessoas com um contato muito mais longo e intenso com Idelber do que eu. Uma dessa pessoas, o Alexandre Nodari, escreveu um belíssimo post a respeito, no qual o qualifica, com a precisão de um antropólogo, como “o primeiro intelectual público brasileiro da internet”.

Eu sequer o conheço pessoalmente, e meu contato com ele se resume a comentários – eventualmente respondidos - em seu blog, em esparsos e breves diálogos twitados e nas poucas mas para mim importantes vezes em que, graças à sua generosidade, ele citou a meu blog ou a mim no Biscoito ou nos RTs do Tweeter.

Lembro-me bem das primeiras vezes que acessei O Biscoito. Faz uns 3 anos, 3 anos e meio. Eu morava nos EUA e acompanhava obsessivamente a mídia brasileira pela internet. O blog do Nassif foi, para mim, uma novidade redentora. Mas demorei a assimilar o de Idelber, não apenas porque seus textos pareciam-me muito densos (numa épóca em os blogs ainda eram mais associados a humor, a diários adolescentes ou, de qualquer forma, a textos curtos) mas por motivos correlatos que hoje me fazem rir: seu nome, Idelber Avelar, me sugeria, sei lá o por quê (as xícaras de chá?) , um senhor de uns 50, 60 anos que, sendo professor universitário e escrevendo aqueles textos analíticos compridos, devia ser seríisimo e sisudo (rs.). Levou um bom tempo para que essa impressão se dissipasse.

Só passei a frequentar o blog diariamente há 1 ano 9 meses, creio eu, quando já estava para voltar ao Brasil. Daí em diante ele se tornou meu principal ponto de referência na internet brasileira. Durante todo esse período espantava-me a frequência com que as idéias dele expressavam exatamente o que eu pensava, notadamente em termos políticos. Alguns momentos memoráveis, para mim, foram as últimas eleições para prefeito e, sobretudo, o episódio da “ditabranda” e do ataque aos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides pela Folha de S. Paulo. Daí nasceu o Cinema e Outras Artes: motivado pela leitura, n’O Biscoito, da cobertura da passeata promovida pelo Movimento dos Sem Mídia (da qual participei) em frente à sede do jornal.

Só me lembro de ter discordado total e frontalmente de Idelber em uma ocasião, mais pela forma como ele defendeu uma idéia - e pelas consequências políticas que aquela defesa poderia gerar - do que pela idéia em si (embora desta também discordasse). Mas não seria correto abordar o tema aqui, já que ele não estará disponível para eventualmente contestar.

“A hibernação do Biscoito deixa um vácuo considerável na blogosfera brasileira”, aponta Hugo Albuquerque. Além da perda do referencial periódico que as atualizações d’O Biscoito traziam e do fim do espaço de discussão cultural de alto nível, o que mais lamento na decisão de Idelber é, ao que tudo indica, a sua ausência nos debates que serão suscitados pela próxima eleição. Será, com certeza, uma guerra, e não tenho dúvidas de que ele seria – como já vinha sendo – um dos principais faróis para a militância de esquerda e no contra-ataque a uma mídia que insiste em agir como partido. Caberá a todos nós segurar essa peteca.

Pois o desenvolvimento de sua carreira acadêmica, incompatível com a intensa atividade blogueira, se impôs e novos frutos devem vir, não mais em doses fugazes e quase diárias, mas a longo prazo, na forma duradoura e intelecualmente mais complexa de livros. Toda a sorte e inspiração do mundo a ele, que a tantos inspirou!



(Ilustração: "Melancolia", por Edward Munch, 1891 - retirada daqui)

domingo, 5 de abril de 2009

Mídia x Dilma: o tiro pela culatra, uma vez mais

Manchete da Folha de São Paulo de domingo: "Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto" [grifos deles]. A matéria é o que se pode esperar de um jornal que se contentou em ser uma sub-Veja de tiragem diária: hipóteses sem sustentação, tentativas de escandalizar as velhinhas de Taubaté da classe média paulista, completo desrespeito pelo contexto histórico (tenta-se culpar a Dilma de hoje – ministra de um governo duas vezes eleito - pelo que a guerrilheira de 19 anos teria feito num momento de enfrentamento com uma ditadura que usurpou o poder democrático). Pinta-se uma Dilma a um tempo fútil, irresponsável e, acreditem, pusilânime (acusa-se sem provas a então militante de ter "dedurado" companheiros sob tortura, como se isso fosse demeritório). Uma longa matéria com parca sustentação, incluindo teses desenvolvidas a partir de depoimentos de militares de pijamas - que, é claro, AMAM a candidata - e de ex-militantes que carecem de credibilidade (um deles chega a assumir que sua memória não é confiável, como decorrência das torturas que sofreu. Nem isso freia o jornal de demonstrar algum pudor e deixar de utilizar seu depoimento).

Mas as aparências precisam ser mantidas e, para o bem ou para o mal, há ainda, no diário da Barão de Limeira, um manual de redação que determina procedimentos básicos a seguir, como ouvir o “outro lado”. É aí que o caldo da manipulação entorna: a ministra Dilma Roussef simplesmente “engole” a esforçada e arisca repórter Fernanda Odilla, revertendo as acusações a seu favor: o idealismo generoso dos jovens de 19, 20 anos em luta contra o totalitarismo; a negação de ter participado de ações armadas, tal como vem sendo difundido via internet por setores da direita; a desconstrução tranquila da tentativa de acusá-la de mercenária e ingrata com os companheiros de luta; a brutalidade da tortura: “Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado. Porque essa quantidade de líquidos que nós temos, o sangue, a urina e as fezes aparecem na sua forma mais humana. Não dá para chamar isso de ditabranda, não”; o puxão de orelhas explícito na Folha de São Paulo: “Além da tortura, você tira a honra da pessoa. Acho que fizeram muito isso no Brasil. Por isso, minha filha, esse seu jornal não pode chamar a ditadura de ditabranda, viu? Não pode, não”

O que era para ser um duro golpe na desconstrução da candidata transmuta-se, a contragosto, em palanque eleitoral a evidenciar sua sagacidade, retidão de caráter e personalidade.

Assim, a entrevista acaba por demonstrar que o enfrentamento com o senador Agripino Maia (que a acusou de mentir para os torturadores, dando margem a ser desancado por uma resposta devastadora) não foi casual. Dilma é uma pessoa muito inteligente, preparada, hábil, com a malícia necessária para lidar com a imprensa brasileira em seu deplorável estágio atual (reparem no modo como ela, através do tratamento interpessoal íntimo, neutraliza e utiliza a seu favor a interlocução agressiva da entrevistadora) . Tenho para mim que quanto mais Dilma for atacada com estratagemas a um tempo covardes e historicamente insustentáveis como os de Maia ou da Folha, mais tende a crescer. Ou mudam o disco ou, uma vez mais, pela terceira vez consecutiva em eleições presidenciais, a irrelevância da "grande imprensa" ficará evidente.

Em tempo: a matéria da Folha tem como principal fonte o ex-militante Antônio Roberto Espinosa, que numa carta aberta enviada ao jornal e a diversos blogs tenta se eximir de responsabilidades, culpa a répórter e o jornal e aponta distorções na matéria. Quanto a esta, já dei minha opinião; já em relação às acusações de Espinosa, tendo a ser reticente. Do ponto de vista jornalístico, não há nada de errado em utilizar email e telefone para entrevistar fontes, ainda mais num caso em que a entrevista durou cerca de três horas. Ademais, acho simplemente inacreditável que um ex-ativista político, jornalista, professor de Política Internacional e doutorando em Ciência Política possa ser tão ingênuo no trato com um veículo da grande imprensa com o histórico de colaboracionismo com a ditadura e de aversão ao governo Lula como o foi com a Folha de São Paulo. Assinar um termo autorizando a repórter a investigar arquivos do STM acreditando que ela se limitaria à sua pessoa, num momento de pré-eleição presidencial, e supor que a longa entrevista que concedeu não seria editada com as piores intenções possíveis são indícios ou de má-fé ou de uma ingenuidade à toda prova.

Confira abaixo a entrevista:

FOLHA - A sra. se lembra dos planos para sequestrar Delfim e montar fábrica de explosivos?
DILMA ROUSSEFF - Ah, pelo amor de Deus. Nenhuma das duas eu lembro. Nunca ninguém do Exército, da Marinha e da Aeronáutica me perguntou isso. Não sabia disso. Acho que não era o que a gente [queria], não era essa a posição da VAR.

FOLHA - A sra. logo percebeu que a clandestinidade seria o caminho natural?
DILMA - Percebi. Todo mundo achava que podia haver no Brasil algo muito terrível. O receio de que um dia eles amanheceriam e começariam a matar era muito forte. Sou bem velha, comecei em 1964. Com o passar do tempo, o Brasil foi se fechando, as coisas foram ficando cada vez mais qualificadas como subversivas. Era subversivo até uma música, uma peça de teatro, qualquer manifestação de rua. Discutir reforma universitária era subversivíssimo. Coisas absolutamente triviais hoje eram muito subversivas.

FOLHA - Foi escolha da sra. o trabalho no setor de mobilização urbana?
DILMA - Qual era a outra alternativa?

FOLHA - Havia a expropriação.
DILMA - Disso eu nunca quis ser. Nós não achávamos isso grande coisa. A partir de um determinado momento houve uma visão crítica disso, do que a gente chamava militarismo. É muito difícil falar isso porque as pessoas ficam achando que a gente está limpando a barra. Não me interessa ficar falando nisso, é da época e deu. Eu sei que havia uma tensão eterna. Nunca concordávamos uns com os outros porque pensávamos diferente. Bota todo mundo junto, você imagina. Não posso dizer o que aconteceu dentro da direção.

FOLHA - No Rio, a sra. acompanhou a fusão e acompanhou o racha [da VAR] em Teresópolis.
DILMA - Na minha cabeça, eu só lembro que a gente conversava e discutia muito, debatia. Tinha uma infraestrutura complexa porque a gente não saía de lá, não podia aparecer. Bom não era. Mas, naquela época, você achava que estava fazendo tudo pelo bem da humanidade. Nunca se esqueça que a gente achava que estava salvando o mundo de um jeito que só acha aos 19, 20 anos. Sem nenhum ceticismo, com uma grande generosidade. Tudo fica mais fácil. Tudo fica mais justificado, todas as dificuldades. Você não ter roupa não tem problema. Às vezes, andava com uma calça xadrez e uma blusa xadrez.

FOLHA - A sra. faz algum mea-culpa pela opção pela guerrilha?
DILMA - Não. Por quê? Isso não é ato de confissão, não é religioso. Eu mudei. Não tenho a mesma cabeça que tinha. Seria estranho que tivesse a mesma cabeça. Seria até caso patológico. As pessoas mudam na vida, todos nós. Não mudei de lado não, isso é um orgulho. Mudei de métodos, de visão. Inclusive, por causa daquilo, eu entendi muito mais coisas.

FOLHA - Como o quê?
DILMA - O valor da democracia, por exemplo. Por causa daquilo, eu entendi os processos absolutamente perversos. A tortura é um ato perverso. Tem um componente da tortura que é o que fizeram com aqueles meninos, os arrependidos, que iam para a televisão. Além da tortura, você tira a honra da pessoa. Acho que fizeram muito isso no Brasil. Por isso, minha filha, esse seu jornal não pode chamar a ditadura de ditabranda, viu? Não pode, não. Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado. Porque essa quantidade de líquidos que nós temos, o sangue, a urina e as fezes aparecem na sua forma mais humana. Não dá para chamar isso de ditabranda, não.

FOLHA - Quando a sra. foi presa, foram apreendidos documentos falsos, desenho da VAR e um bilhete de amor com as iniciais TG. Era do Cláudio Galeno Linhares?
DILMA - Não, era do Carlos Araújo. Era apelido dele. Se você quiser me mandar, eu agradeço. Onde que está isso, hein?

FOLHA - No inquérito arquivado no STM. O bilhete está assim: "Nêga querida, infelizmente não poderei estar aí [no Natal]. Verás na prática, prometo-te..."
DILMA - Essa quantidade de te, você acha que é de mineiro, pô? Isso é de gaúcho. Tudo no te... Não falei do Carlos no depoimento. Eles acreditavam que era o Galeno. Carlos era da direção, eu não podia abrir a boca. Depois eles descobriram.

FOLHA - Como foi, durante os dias de Oban, para conseguir proteger a direção? Pelo que vi, alguns nomes não foi possível proteger como Maria Joana Telles, Ruaro, Vicente...
DILMA - Eles sabiam deles porque tinha caído outra pessoa que era da direção. Foi por isso que caí. Eu caí porque caiu outra pessoa.

FOLHA - Era com quem a sra. teria um encontro. O José Olavo?
DILMA - Essas coisas eu não quero falar, minha filha. Não quero dar responsabilidade para ninguém. Estou muito velha para fazer isso.

FOLHA - No depoimento da Justiça, a sra. cita os quatro como tendo caído em consequência
direta de sua queda. A sra. dá os quatro nomes?
DILMA - É. Caíram, ponto.

FOLHA - Eu conversei com o hoje coronel, antigo capitão Maurício...
DILMA - Ele existe ainda? Ele já não batia bem da bola. Ele continua sem bater?

FOLHA - Eu perguntei se ele votaria na sra. para presidente. Primeiro, disse não. Depois, pediu para retificar dizendo que "depende com quem vai concorrer".
DILMA - Minha querida, pelo amor de Deus. A vida é um pouquinho mais complicada que isso. Mas respeito o que ele falou.

FOLHA - Ele participava das sessões [de tortura]?
DILMA - Ele era da equipe de busca, nunca participou. Mérito dele. Pelo menos enquanto estive na Oban. Não posso dizer depois. Você tinha aquele negócio de dar ponto para parar de apanhar, e ele levava as pessoas. Ele fez a busca em toda a minha casa. Pegava minhas coisas e perguntava sobre elas.

FOLHA - No depoimento à Justiça, a sra. cita ele como responsável pelas sessões de torturas.
DILMA - Que ele torturava pessoalmente, nunca vi. A mim não foi. Que ele entrava na sala e via tortura, tenho certeza. Qualquer um entrava. Te torturavam com a porta aberta.

FOLHA - Li uma entrevista em que a sra. diz que fez treinamento no exterior, mas não consegui encontrar o período em que isso pode ter acontecido. Deu tempo de sair do Brasil para treinar?DILMA - Acho engraçadíssimo porque quando me perguntaram isso, eu neguei que tivesse feito. É que nem aquela lista que sai aí dizendo que eu fiz dez assaltos armados. Nunca fiz uma ação armada. Se tivesse feito, eu estaria condenada por isso. É a mesma coisa essa história do treinamento. Nunca fiz nem treinamento no exterior nem ação armada. É só perguntar para as pessoas.

FOLHA - Incomoda a sra. atribuírem essas ações a seu nome?
DILMA - É chato. Não sou supermulher para dizer que não me incomoda. Agora não perco a cabeça por isso. Estão mentindo, têm segunda intenção.

FOLHA - Não teve treinamento no exterior, mas o básico todo mundo sabia como montar e desmontar uma arma. Era questão de segurança do dia a dia?
DILMA - Sempre fui muito dedicada, mas não achava isso grande coisa. Nunca fiquei avaliando se devia fazer isso ou aquilo. Não se colocava assim para nós. Falavam assim: "Vai ali e aprende a montar e desmontar a arma". Você ia e aprendia. "Vai ali e escreve um documento." Você também ia.

FOLHA - Como era o dia a dia da prisão? Algumas companheiras de cela dizem que a sra. dava aula de macroeconomia, mas não gostava muito dos trabalhos manuais de tricô e crochê...
DILMA - Aprendi bem. Sei fazer tricô e crochê. Você sabe que faço tapete? Mas não aprendi tapete lá, não. Fazia muito bem crochê. Podem falar que eu não fazia... (risos) No fim, gostava de fazer crochê. A gente lia muito, escutava muita música, conversava muito, jogava vôlei. [As aulas] estão fantasiando...

FOLHA - A sra. tinha consciência que continuava na mira da polícia mesmo depois da prisão?DILMA - Tinha. Não podia fazer aniversário que ficavam pendurados nas árvores, olhando.

FOLHA - Quando tem o racha, quem assume a VAR?
DILMA - Não me lembro. Se o Espinosa tá dizendo que eu estava... Não sei se fui, se não fui [do comando]. É um período muito pequeno até a queda. Fui uma das primeiras a cair. Eu lembro que eu fui em outubro para São Paulo e nunca mais voltei [ao Rio]. Fiquei lá junto com todo mundo que dirigia a VAR na época. Só me lembro do José Olavo e de mais um. Tinha mais. Tinha quatro.

FOLHA - Muita gente dizia que a sra. era a responsável pelo dinheiro da organização. A sra. era o caixa de São Paulo, para manter militantes, aparelhos?
DILMA - Também não me lembro disso, não, que eu era do dinheiro. Se eu fosse do dinheiro, eles tinham me matado a pau. Tudo o que eles queriam era o dinheiro. Não lembro isso, não. Não me lembro de ter caído com um tostão. Se eu tivesse dinheiro, ia ser um festival.

FOLHA - O delegado ficou bem impressionado com a sra. depois do interrogatório. A ponto de defini-la como uma pessoa com dotação intelectual apreciável.
DILMA - Interessante... Da onde ele tirou isso, né? Nem me lembro dele. A gente não dava importância para o delegado do Dops, só para a Oban. Deve ter vindo da Oban. Tinha um juiz auditor louco (risos). Ele fez uma denúncia dizendo que eu era a Joana d'Arc do terror. Era ridículo. Ele era dado a essas...

FOLHA - É muito divertido o perfil que o delegado traça.
DILMA - Essa parte não era pública, essa parte do delegado. Você conseguiu um documento único. A Oban classificava a gente pelo nível de perigo. O major Linguinha [Waldir Coelho] só interrogava quem ele achava que era direção. Ele falava comigo sempre.

FOLHA - A sra. não pegou o delegado Sérgio Fleury no Dops?
DILMA - Quando entrei no Dops, o Fleury estava em viagem. Passei quase um mês na Oban e um mês no Dops. Eu custei a ir embora da Oban. Achava estranho eu não ir embora. Todo mundo ia, e eu ficava. Eu não lembro a data. Vai ficando muito obscuro, como foi e como é que não foi.

FOLHA - Vocês passavam por um treinamento intensivo para deletar as coisas. Tinha que esquecer para não contar?
DILMA - Uma parte você tentava esquecer. Sabe que teve uma época em que eu falei uma coisa que eu achava que era verdade e não era. Era mentira que eu tinha contado e aí depois eu descobri que era mentira. Você conta e se convence.

FOLHA - Informação obtida sob tortura é de responsabilidade de quem tortura e não de quem fala? Dá para culpar a pessoa que falou?
DILMA - Não dá mesmo. Até porque ali, naquela hora, tinha uma coisa muito engraçada que eu vi. Aconteceu com muita gente, não foi só comigo. É por isso que aquela pergunta é absurda, a do senador [Agripino Maia, do DEM]. A mentira é uma imensa vitória e a verdade é a derrota. Na chegada do presídio [Tiradentes], estava escrito "Feliz do povo que não tem heróis", que era uma frase do Brecht que tem um sentido amplo. Esse fato de não precisar de heróis mostra uma grande civilidade. É preciso que cada um tenha um pouco de heroísmo.

FOLHA - Quando a sra. chegou à Oban, houve muitos gritos?
DILMA - Teve. Fazia parte do script. É uma luta eterna entre a sua autodestruição e sua luta para ficar inteiro psicologicamente. A palavra correta é uma disputa moral no sentido amplo da palavra moral. É uma disputa entre éticas diferentes, entre princípios diferentes. Uma pessoa que se dispõe a fazer a outra ter dor tem um processo de difícil identificação. Fico imaginando o que foi Abu Ghraib, porque bota de um lado americanos e de outro lado um outro mundo. Você tem de ser desqualificado como ser humano para ser torturado, santa, senão você não é.

FOLHA - E a família da sra., como reagiu a isso tudo?
DILMA - Minha mãe foi absolutamente fantástica. Eles tinham horror de mãe.

FOLHA - Só para deixar claro, a sra. não se recorda desse plano para sequestrar o Delfim?DILMA - Não. Acho que o Espinosa fantasiou essa. Sei lá o que ele fez, eu não me lembro disso. E acho que não compadece com a época, entendeu? Nós acabamos de rachar com um grupo, houve um racha contra a ação armada e vai sequestrar o Delfim? Tem dó de mim. Alguém da VAR que você entrevistou lembrava-se disso? Isso é por conta do Espinosa, santa. Ao meu conhecimento jamais chegou. Não me lembro disso, minha filha. E duvido que alguém lembre. Não acredito que tenha existido isso, dessa forma. Isso está no grande grupo de ações que me atribuem. Antes era o negócio do cofre do Adhemar, agora vem o Delfim. Ah, tem dó. Todos os dias arranjam uma ação para mim. Agora é o sequestro do Delfim? Ele vai morrer de rir.

FOLHA - De qualquer forma, obrigada por tocar nesse assunto delicado...
DILMA - Eu estou te fazendo uma negativa peremptória. Para mim, não disseram. Tá?

domingo, 15 de março de 2009

Caso "ditabranda" - A Violação ética do Direito de Resposta

Em mais um desdobramento do “caso ditabranda”, os professores Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato requereram à Folha de São Paulo, através de seus advogados, direito de resposta a renovadas acusações do diretor de redação Otávio Frias Filho, proferidas em 8 de março. Na ocasião, em resposta ao protesto contra o jornal organizado pelo Movimento dos Sem Mídia, a Folha retratou-se, não sem dubiedade, do emprego do termo “ditabranda” para referir-se à ditadura militar brasileira, mas, no mesmo texto, o publishing voltou a acusar os intelectuais supracitados, dessa feita de “democratas de fachada” por alegadamente não repudiarem “os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam”.

A afirmação mostrou-se falsa, pois entre os vários textos e declarações que a contradizem inclui-se correspondência publicada pela própria Folha de São Paulo, em 2004, em que Comparato critica o regime cubano, como demonstrou em 11/03, alertado por um leitor, o jornalista Rodrigo Vianna. Nem mesmo tal evidência, reconhecida quatro dias depois como “erro factual” pelo Ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva, fez Frias Filho dignar-se a se retratar com o acadêmico.

A publicação do direito de resposta
Na resposta dos professores, publicada em 14/03, eles põem sob suspeita o respeito da Folha pela ética do jornalismo durante o episódio, afirmando que “Sempre sustentamos, sem precisar receber lições de ninguém, que as vítimas de regimes arbitrários, aqui e alhures, merecem igual proteção e respeito, sem desvios ideológicos ou idiossincrasias pessoais”. É lícito questionar se a escolha dos signitários em produzir uma resposta simplesmente reativa aos termos ditados pelas acusações de Frias Filho foi a melhor opção, sobretudo em uma polêmica tão rica em material analítico. Porém os procedimentos adotados pelo jornal em relação à publicação do direito de resposta foram tão estapafúrdios que questões mais urgentes se impuseram.

Surpreendentemente, logo abaixo do texto dos professores é publicada uma nota da redação, substancialmente maior (736 caracteres, contra 470 do direito de resposta), saudando como “exemplo de transparência editorial” da própria Folha a retratação dúbia feita anteriormente pelo emprego da palavra “ditabranda” e afirmando que, assim, “Imaginava-se encerrado o episódio, mas os professores Comparato e Benevides estão empenhados em extrair dele o máximo rendimento possível. As opiniões de ambos sempre foram transmitidas pelo jornal, por meio de numerosos artigos, sem a necessidade de advogados. A “resposta” acima é publicada com base na Lei 5.250/67, editada pela ditadura militar, a fim de que vítimas de regimes cautelosamente chamados de “arbitrários” e vagamente situados “alhures” também se sintam destinatários dessa solidariedade envergonhada.”

É fato que, ao publicar o exíguo texto do direito de resposta seguido de uma palavrosa nota da redação em que as acusações que o motivaram são reiteradas, de modo ainda mais ferino e insidioso, a Folha não transgride nenhuma lei; viola, porém, de forma flagrante, princípios elementares da ética jornalística e do debate democrático.

Pois quaisquer que fossem os termos da nota do diretor de redação, sua simples publicação, logo abaixo do texto relativo ao direito de resposta, atenta contra a lógica e os preceitos éticos que regem tal instituto, cujo objetivo é dar voz a quem, previamente ofendido pela publicação, não teve o devido espaço para se defender - e não servir de ocasião para mais um round de um embate entre forças desiguais e no qual o jornal tem sempre a palavra final, como o exemplo em questão demonstra de forma didática.

Ofensas e insinuações
Porém, como fica claro através de sua leitura, não se limita à violação de princípios elementares da ética jornalística a nota do publishing da Folha: além da indulgência risível da auto-congratulação, o texto insiste na tentativa de desmoralização dos dois intelectuais com ofensas e insinuações de uma baixeza inconcebível numa publicação séria, quanto mais em um jornal que se pretende pluralista. Não cabe aqui discutir a insistência do diretor de redação, no texto cifrado que encerra a nota, para que os professores – que em sua resposta, vale frisar, condenam indistintamente regimes autoritários, "sem desvios ideológicos" - citem nominalmente Cuba, e como regime ditatorial de esquerda (só "autoritário" não serve para Otavinho). As implicações políticas da tentativa arbitrária de determinar os termos do debate público, restringindo-o - que também caracterizara as intervenções anteriores de Frias Filho no caso -, já foram examinados em detalhe em artigo deste blogueiro, publicado a semana passada no Observatório da Imprensa n°528, que oferece vários textos dedicados ao “caso ditabranda”.

A acusação de oportunismo contra os dois professores - que estariam, sempre segundo o jornal, tentando tirar proveito máximo do episódio - volta-se, com sentido invertido, contra o acusador: quem parece, de forma contraproducente e portanto, pouco inteligente (pois voltada contra os interesses do jornal), prorrogar ao máximo o episódio é o próprio publishing da Folha, com sua incontinência verbal que denota descontrole, e não os professores, que simplesmente estão a fazer valer seus direitos. Tivesse simplemente publicado a nota, o assunto tenderia a ser paulatinamente esquecido; como resposta aos novos impropérios proferidos por Frias Filho, a polêmica se reacende.

Da mesma forma, soa pueril a insinuação embutida na afirmação de que “As opiniões de ambos [Benevides e Comparato] sempre foram transmitidas pelo jornal, por meio de numerosos artigos, sem a necessidade de advogados”. Ora, é direito básico de todo cidadão fazer-se valer de meios legais para ressarcir-se de dolo ou prejuízo. A despeito de colaborações pregressas sobre assuntos outros que os dois tenham publicado na Folha, os proeminentes acadêmicos sofreram tentativa de desmoralização pública por parte do jornal, foram duramente atingidos em sua honra - inclusive através de acusação que se revelou falsa -, e têm todo o direito de buscar ressarcimento da forma que melhor lhes apetecer, sem ter de passar pelo constrangimento de contatar quem os ofende para solicitar espaço para suas respostas.

Ainda mais insidiosa é a tentativa de acusar os professores de autoritarismo por recorrerem a uma lei “editada pela ditadura militar”. A respeito desse instrumento legal, a professora de Jornalismo Sylvia Moretzsohn, em comentário no Observatório da Imprensa, observou que “Como o jurista Nilo Batista escreveu há mais de 20 anos, a Lei de Imprensa combinava elementos absurdamente antijurídicos com outros profundamente democráticos, entre os quais, justamente, o direito de resposta." Não obstante, a mania de procurar desqualificar o instituto do direito de resposta, internacionalmente reconhecido, associando-o, no Brasil, ao período ditatorial (o mesmo que o jornal considerara brando) é prática usual entre os barões da imprensa. A insustentabilidade da insinuação de Frias Filho porém, não se deve somente à sua generalização tão desmedida quanto maniqueísta, nem ao fato de que muitas das leis ainda em vigor no país foram criadas no decorrer dos mais de vinte anos de arbítrio e, goste-se ou não, continuam sendo rotineiramente utilizadas. A análise das razões que desautorizam a acusação do publishing acaba por revelar, na verdade, o alto grau de cinismo que ela embute - pois, como demonstrado pela última vez no início do primeiro mandato do presidente Lula, quem periodicamente impede o país de se livrar de tal entulho do período militar e ter uma lei de imprensa moderna, editada sob os auspícios da democracia, é precisamente a plutocracia midiática à qual Frias Filho pertence, para quem qualquer tentativa de regulamentação da atividade jornalística é autoritária e anti-democrática ("stalinista" é o termo acusatório que costumam bradar, não sem histerismo).

A Folha de São Paulo parece não se cansar de decepcionar aqueles que, um dia, acreditaram ao menos no seu respeito por princípios elementares do debate democrático.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O caso "ditabranda" e a tentativa de cercear o debate

A ênfase em condenar a inaceitável distorção histórica e axiológica representada pelo emprego do termo “ditabranda” em um editorial do jornal Folha de São Paulo, embora plenamente justificada, acabou por relegar a um plano inferior outro aspecto fundamental do caso em questão: a tentativa de restringir o debate público implícita nos termos da resposta de Octávio Frias Filho aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato.

Com efeito, a gravidade do problema não se restringe ao fato de o diretor de redação de um jornal invadir inadvertidamente uma seção intitulada Painel do Leitor para tentar desautorizar a opinião de dois signatários – embora tal ato já viole a ética das relações entre jornal e leitor -, e nem mesmo por fazê-lo de modo agressivo e, portanto, desrespeitoso. Essas são práticas condenáveis, mas o que torna a questão ainda mais espinhosa são os termos da resposta em si: é na afirmação de que os protestos dos dois professores contra o tratamento dispensado à ditadura militar brasileira não seriam válidos por não terem os signatários presumivelmente jamais condenado regimes totalitários de esquerda que reside o aspecto mais grave do caso, pois representa uma tentativa de regulamentar arbitrariamente o debate público, cerceando-o e atentando contra a própria liberdade de expressão.

Manifestada de modo intimidatório, essa tentativa de instituir a obrigatoriedade de se referir a um evento histórico “x” (no caso, o regime cubano) para que se possa tornar procedente a crítica a um episódio “y” que ocupa um lugar simetricamente oposto àquele no espectro político-ideológico (no caso,a ditadura militar brasileira) desrespeita a autonomia da livre manifestação intelectual e significa o estreitamento do debate, restringindo-o a termos que interessam ao jornal, mas não à livre circulação de idéias. Insere-se em tal lógica o fato de, mesmo após o jornal retratar-se (ainda que de forma dúbia) pelo emprego do termo “ditabranda’, Frias Filho continuar insistindo na crítica a Benevides e à Victoria e, mantendo a mesma linha de raciocínio – e o tom truculento –, chamá-los de “democratas de fachada”. Trata-se não apenas de uma acusação despropositada, mas – o que é mais grave, sobretudo para um órgão de imprensa - falsa, como o demonstra a longa folha corrida de serviços prestados pelos missivistas à causa dos direitos humanos e ao aprimoramento da democracia, sobretudo no período ditatorial. A Folha, portanto, não se limita à agressão e à tentativa de restringir, de forma truculenta, o debate (numa espécie de “dirigismo cultural de direita”?), mas o faz repetindo uma mentira (procedimento que, segundo um célebre publicista alemão, faz com que ela em verdade se torne). Por outro lado, não deixa de ser significativo, até mesmo em termos psicanalíticos, que os termos da acusação brandida pelo publishing da Folha contra os que ousaram criticar o jornal sejam essencialmente os mesmos das acusações que se avolumam e multiplicam pela blogosfera contra os Frias e seus produtos midiáticos.

Não é vão tal comportamento: obedece a um estratagema de desqualificação do discurso das esquerdas, assim como a tentativa de relativizar o arbítrio faz parte da dupla estratégia de, por um lado, num momento de crise comercial profunda da imprensa escrita, angariar leitores entre a direita mais abastada e conservadora, leitora de Veja e, por outro lado, tornando “branda” a ditadura, diminuir a importância da militância anti-arbítrio exercida pela candidata à Presidência Dilma Rousef.

Frias Filho, assim como seus colegas da plutocracia midiática, sabe que, somada ao monopólio da comunicação nas mãos de um punhado de grupos conservadores, a conjuminação de desideologização do debate público, queda vertiginosa do nível cultural da população e disseminação do discurso politicamente correto à americana - fenômenos das últimas décadas -, tornou o terreno fértil para simplificações fáceis e falaciosas do embate político, que desprezam a especifidade dos processos políticos nacionais e da interação destes com a ordem econômica mundial (é precisamente o caso da tentativa de igualar a ditadura brasileira e o regime cubano), acabando por beneficiar tremendamente a difusão do discurso hegemônico controlado pelas forças do mercado e difundido pelas grandes corporações de mídia.

A tentativa de desmoralizar e desautorizar Benevides e Victoria não é, portanto, um episódio isolado. Ela traz embutida o germe de uma estratégia de calar a esquerda, submetendo seu discurso – e, portanto, o debate político - aos filtros valorativos forjados pelas forças conservadoras durante o período de hegemonia neoliberal.

domingo, 8 de março de 2009

Grandes Figuras Contemporâneas - O Tavinho


O Tavinho era um menino triste e vesgo. Então seu pai, o Tavão, lhe deu um jornal de presente. Mas, cônscio da importância da educação, o Tavão, um çábio que não saía do edifício do jornal com medo de que os terríveis terroristas lhe explodissem os cornos, exigiu que o menino primeiro estudasse, para depois brincar de dono de jornal: mandou-o pra USP, onde o Tavinho conheceu outros filhinhos de papai como ele, só que ainda mais treinados na arte de afetar princípios democráticos para dissimular objetivos autocráticos. Esse bando de garotos logo cresceria e fundaria, sempre com o apoio de o Tavinho, um partido cujo símbolo é um gavião (ou algo assim).

O Tavinho enfim cresceu e pode usufruir de seu brinquedinho. A marca do jovem administrador se fez sentir em duas características que distinguem a TFP, digo FSP, dos demais jornais: a incrível brancura da pele de seus jornalistas, avessos ao sol e a tudo que os faça lembrar que moram em um país tropical, e a excelência de seus colunistas: Gróvis “Pitbull” Rosi, Heliana “Febre Amarela” Cantanrêde, Fermando “depois de gagá virei tucano” Gameira, Silberto “O Samaritano” Gimenstein, e a notável dupla formada pelo escrivão da corte (e amigo do Rei) Hélio Cáspari e por seu fiel cão, digo escudeiro, o acadêmico interiorano Júlio César Vila. Os dois desenvolvem atualmente um ambicioso projeto de reescrever a história do Brasil adotando a mitologia bíblica, com a ditadura correspondendo ao Paraíso, o período de redemocratização ao Purgatório, e o presente sob Lula ao Inferno. A esse imparcial e destemido escrete do jornalismo – só comparável à redação do JB em sua fase áurea – somam-se colaboradores que formam a nata do pensamento progressista nativo: Jozé “Não Largo o Osso” Zarnei, Luis Carloz "No Limite da Irresponsabilidade" de Marros, e o bisneto do grande dramaturgo alemão e proba figura de intelectual Hermínio o der Brecht. Como evidencia a diversidade ideológica dos nomes acima elencados, o desinteressado Eugênio Bucci está certo ao afirmar, n’Observatório da Imprensa, que a Falha não pode ser considerado um jornal de direita, pois publica textos de todas as tendências políticas.



Cansado de seu brinquedinho, o Tavinho resolveu experimentar novas diversões: assinou colunas políticas muito bem-escritas (se você considera uma sucessão de obviedades liberais alinhadas em um estilo pseudo-proustiano algo bem-escrito, é claro), tornou-se autor teatral prestigiado pela elite paulista (precisa comentar?) e experimentou o sexo antes dos 40 (!), namorando uma beldade global. Homem de idéias sempre à frente de seu tempo, o Tavinho descobriu recentemente, enquanto os mercados mundiais ruíam, o trabalho do guru do neoliberalismo José Guilherme Melquior, morto na década anterior, e o elegeu seu mentor intelectual. Eis porque nosso herói é um formador de opinião inato.

O Tavinho coroou sua carreira de homem de empresa, digo imprensa, cometendo um editorial em que classifica, corretamente, o período militar brasileiro de ditabranda. Afinal, a intensidade de uma ditadura restringe-se a uma questão matemática, não é mesmo? Portanto, basta comparar com as ditamenosbrandas de nuestros hermanitos... O Tavinho, aliás, entende do assunto, pois, segundo Beatriz Kushner, autora do livro "Os Cães de Guarda" (Boitempo Editorial), as kombis do jornal que o dândi da Barão de Limeira dirige eram emprestadas aos militares para transportar os perigosíssimos elementos de esquerda para o Doi-Codi, um dos centros de tortura da ditabranda (estarei enganado ou há uma terrível contradição entre estes dois termos?). Deve ser por essas e por outras que a FSP diz ser “um jornal a serviço do Brasil”.

Revoltado com a reação despropositada ao editorial, levada a cabo por um bando de leitores mal educados, aí incluídos dois intelectuais uspianos – ô, raça! –, o Tavinho, demonstrando equilíbrio, serenidade e espírito democrático, desceu-lhes o sarrafo numa seção apropriadamente intitulada "Painel do Leitor", decretando que, de agora em diante, fica proibido criticar a ditadura brasileira sem condenar a ditadura cubana. Isso é que é liberdade de expressão. Dá-lhe, o Tavinho!