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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Pacote de Dilma espelha vícios de seu governo

O pacote de medidas da presidente Dilma para economizar R$30 bilhões, garantir um alto superávit primário e, assim, segundo ela, tirar o Brasil da crise profunda em que se encontra repete três dos mais graves vícios que caracterizam sua gestão: o autoritarismo, o elitismo e a mitomania.

O primeiro se evidencia pela falta de diálogo com a sociedade acerca das medidas, tomadas a portas fechadas em reuniões palacianas, com cuidados extras quanto ao sigilo, o que suprime do público até mesmo o direito de ser informado acerca dos debates e dilemas internos ao governo que elegeu e sustenta.



Alto grau de cinismo
Já a insensibilidade social é explicitada na sem-cerimônia com que Dilma mostra-se disposta a fazer com que trabalhadores e desempregados paguem o ônus da crise, através de um plano que preseva intocados as grandes fortunas, os “tubarões” (na confissão do próprio ministro Levy, em surpreendente acesso de sinceridade) e o rentismo do mercado financeiro. Não é por outra razão que a mídia, outrora tão reticente, mal disfarça a euforia com as medidas.

Quanto à mitomania presidencial, ela é expressada, em primeiro lugar, na adoção de medidas que são o exato oposto daquelas com as quais Dilma se comprometera na campanha eleitoral – e as mesmíssimas que jurava que seus adversários tomariam. Alimenta-se também da manutenção da fantasia de que seguir o dogma fiscal neoliberal signifique não só algo mais do que satisfazer a sanha da banca, mas a própria solução da crise. Por fim, atinge o paroxismo do cinismo quando alega que medidas que diminuem empregos, vagas em concursos, poder de compra e capital circulante, enquanto aumentam impostos e a recessão, visem justamente preservar conquistas sociais e baixos índices de desemprego (os quais ora já pertencem ao passaado).




Corte de perspectivas
É particularmente cuel, no pacote, a suspensão de concursos públicos,  ainda mais por somar-se ao corte anterior de 75% das bolsas de pós-graduação. Interdita, assim, uma das poucas vias que restam aos brasileiros de ascender a um emprego estável e com salário razoável, de forma honesta, sem apadrinhaento e após um justo processo competitivo (exceção feita aos vergonhosamente viciados concursos para professor das universidades, palco de conluio entre professores corruptos).

Trata-se de um dupla crueldade, porque, por um lado, em um cenário de escasssez acelerada de vagas, tira de uma enorme legião de desempregados e concurseiros o direito de ao menos sonhar com um bom emprego – alento que, na mente autodepreciada de um cidadão desprovido da estima que o trabalho propicia, pode fazer a diferença entre a depressão e disposição à luta - e, no limite, entre a vida e a morte.



Privilégios intocados
Por outro, por se tratar de uma falsa solução, já que, como todos os estudos demonstram, não é o funcionalismo de grau médio e efetivamente trabalhador o problema, e sim os supersalários e as inconcebiveis mordomias de uma elite de funcionários públicos que, nos Três Poderes, parasita e subverte o sistema, ao desrespeitar de forma flagrante os limites salariais e de acúmulo de cargos determinados pela lei.

Em seu eterno horror ao conflito, nem em plena crise fiscal o governo petista ousa mover uma palha para mudar tal estado de coisas e, além de manter a malta de altos cargos comissionados, prefere sacrificar ainda mais os servidores federais de baixo e médio escalão – grupo mais atingido pelas medidas – e, de forma geral, os desempregados e trabalhadores que já arcam com o ônus da crise através da inflação, da escassez de crédito, dos juros exorbitantes e dos aumentos desproporcionais da energia elétrica que o populismo eleitoreiro de Dilma Rousseff legou às famílias.



Presa do capital
Mais do que nunca, Dilma está de joelhos, completamente rendida, disposta a satisfazer todas as exigências do capital. “-Faremos tudo para impedir o golpe”, declarou ontem, como se, por um lado, a disposição a que alude fosse um ato de resistência político-social e não, como tem efetivamente sido, de rendição aos ditames do mercado financeiro e das forças políticas que o representam em troca da manutenção apenas nominal do poder, traficando o sacrificio – inclusive de direitos adquiridos - da classe trabalhadora.

Talvez o grande paradoxo que marca o presente momento político resida aí: que a manutenção de Dilma no poder, de importância prioritária para o petismo, venha tendo por preço o atendimento inconteste a todas as demandas do alto capital, mesmo que estas afetem negativamente a vida dos trabalhadores, aposentados e desempregados. Nesta operação, o petismo sacrifica sua própria identidade, tornando-se a cada dia mais indistinguível de um partido de direita neoliberal. Além disso, dá mostras incontestes de que prioriza os interesses do partido aos do povo e do país, os quais não hesita em sacrificar.




Despreparo e egolatria
Assim, não é mera coincidência que a defesa que os mais renitentes petistas ainda fazem do partido quase nunca se refira à sua atuação no presente (ou mesmo dos últimos dois anos), e sim, repetidamente, a feitos do governo Lula ou, com mais raridade, do início do governo Dilma - quando não comparando-os, como de uma coisa só se tratasse, ao governo FHC, de duas décadas atrás.

Pois liderada, na vida real, por políticos incomparavelmente menores do que fundadores como Florestan Fernandes, Mário Pedrosa e Carlito Maia e, na internet, por ideólogos cuja escassa formação teórica e política é inversamente proporcional à necessidade de protagonismo e satisfação egóica, resta a essa cada vez mais alienada militância, que parece desconhecer os benefícios da honesta autocrítica, gritar contra o que chamam de golpismo (como se impeachment a este equivalesse e não fosse uma possibilidade processual legal, prevista na Constituição, e inclusive já aplicada um Presidente anterior – hoje aliado de Dilma -, com apoio entusiasmado do próprio PT).



Dilma não é Jango
Desse esfoço desesperado de uma militância em crise decorre, num esfoço para colocar Dilma na condição de vítima de golpismo, a comparação entre 2015 a 1964. A improcedência da contraposição entre a atual mandatária – que, tendo recebido de Lula um país em boas condições, o levou o à grave crise atual após guinar ainda mais à direita – e o presidente João Goulart, este sim deposto de forma golpista, à ponta de baioneta, é assinalada com primor pelo jornalista Laerte Braga, no Facebook:

Há uma diferença sem tamanho entre Dilma Roussef e João Goulart. Tentar comparar os dois é um erro crasso. Jango, como era conhecido o presidente, enfrentou as elites, tinha apoio popular, foi deposto num golpe tramado em Washington e com apoio das elites paulistas. Não sacrificou seus princípios e em toda a História do Brasil, teve ministérios ocupados por ministros que deixaram lições de grandeza. Hermes Lima, Evandro Lins e Silva, Hélio de Almeida, Ulisses Guimarães, o jurista Roberto Lira, Celso Furtado e vai por aí afora. E Dilma? Se enrola na teia de Renan, de Cunha, de Kátia Abreu, de Aluísio Mercadante e nessa versão século XXI de Drácula, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Só a FEBRABAN, entidade dos bancos, apoiou o pacote anunciado ontem. Um desastre total. Jango era grande, Dilma é pequena. Brizola tinha razão sobre a presidente."


Direitos na mira
Dilma tem, evidentemente, todo o direito de lutar contra o impeachment. Mais do que isso: tendo sido democraticamente eleita, tem a obrigação de fazê-lo. Entretanto, posar de vítima de golpismo, recusar-se a se desculpar pela campanha eleitoral imunda e mentirosa e insistir em um discurso de preservação de empregos e de defesa dos mais pobres quando, na verdade e de forma efetiva, toma medidas que jogam o custo da crise nestes, poupam elites e só beneficiam os bancos e demais entes do rentismo é insistir na mitomania que levou à crise e na crença de que os brasileiros se deixarão enganar, mais uma vez, pela retórica vitimizante, desqualificadora e dissimuladora que oculta e às vezes subverte os fatos.

Já passou o tempo de o PT ficar fazendo o jogo da direita enquanto posa de paladino dos pobres e trabalhadores. O truque não convence mais. Como está, a dúvida é se Dilma vai sangrar mais um pouco, sacrificando mais direitos sociais, até o impeachment, ou se será uma longa hemorragia, até o final do governo, quando sabe-se lá o que restará dos direitos trabalhistas e de seus beneficiários.



Comodismo
Como sempre, as forças do medo - que, no petismo, venceram as da esperamça - alegam que não ha outro jeito. Mas há, sempre há. E a saída que resta è à esquerda, com a convocação de uma auditoria da dívida, rompimento com as metas de superávit determinadas pelo mercado e um governo orientado à melhoria da vida dos cidadõas, priorizando os direitos dos pobres, desempregados e trabalhadores - que, aliás, historicamente apoiaram o PT. Mas isso implica em conflitos diversos e em enfrentamento com o mercado, coisas que o partido jamais fez desde que assomou ao poder federal.

Não há, portanto, razões para supor que Dilma e o PT sejam agora capazes de arriscar perder as migalhas de poder que ora detém ao tomar uma atitude que demanda coragem e civismo – itens escassos no neopetismo.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 13 de setembro de 2015

A crise nas ruas

Nos bares, nos pontos de ônibus, nos corredores das escolas, nos almoços familiares, o tema do momento é “o que vai ser do governo Dilma?”. Há quem torça contra, há quem torça a favor, mas poucos conseguem ficar indiferentes, pois a pergunta relaciona-se diretamente a uma questão de suma importância para a vida de todos: “o que vai ser do Brasil?”.

O clima dominante é de estupefação: “Ela tem um plano B?”; “Você acha que ela cai?”; “Como vamos sair dessa crise?”; "Por que Dilma fez de tudo pra vencer as eleições, apelando pro jogo sujo, se era pra fazer o que tá fazendo?”, perguntam, atônitos.

São pessoas de diversas classes e áreas: a dentista que viu sua clínica na periferia esvaziar à medida que o desemprego ao redor tornava-se endêmico; a cozinheira de um restaurante por quilo que funcionou por 14 anos, até que a combinação de inflação e crise o obrigou a fechar as portas; o advogado com um escritório no centro de São Paulo cujo lucro caiu da casa dos oito dígitos para um montante com o qual não dá pra sustentar a família, recém-aumentada; a faxineira cujo marido diabético e amputado sofre no corpo, a cada ida ao posto ou hospital, os efeitos dos cortes na Saúde; a agente de turismo que só conseguiu manter o emprego dobrando o serviço, mas sem aumento de salário; o jornalista com doutorado no exterior que está desempregado e vê a tesoura de Levy podar até os concursos que poderiam levá-lo à sonhada carreira como professor universitário.

Enquanto isso, em seu universo paralelo - a Petelândia -, a militância do partido que está há mais de 13 anos no poder continua a dar mostras de grave alienação da realidade, utilizando-se de exceções e de exemplos estapafúrdios para negar a crise e repetindo o mantra do golpismo, da velha e pra lá de datada comparação com FHC, e da recusa a qualquer forma de autocrítica (incluindo a negação do estelionato eleitoral praticado por Dilma).

Porém, no mundo real, a crise – que a maioria dos economistas jura que irá se agravar em 2016 – é bem concreta e diariamente vivenciada por um número crescente de desempregados, de pequenos comerciantes exasperados ante o iminente fechamento de sua fonte de sustento, de pais e mães tornados incapazes de prover seus filhos.

São pessoas cuja tensão constante e cujas aflições diárias são gatilhos para o “surto” de depressão e de demais patologias psicossociais que ora acomete nossa sociedade, pois o efeito do desemprego, da falência e da carestia não é apenas econômico, mas psicológico. Liga-se diretamente ao que Vivianne Forrester, no clássico O Horror Econômico, classifica como o “o drama das identidades precárias ou anuladas”, devido “à perda muitas vezes de um teto, à perda de toda consideração social e até mesmo de autoconsideração” (1997, p. 10).

É muito fácil ver a crise a partir do sofá da sala, de forma indireta, refletida na frieza dos números e das estísticas, que quase sempre se prestam a uma manipulação argumentativa. Mas é através do contato com seus efeitos em pessoas de diferentes formações, ofícios e classes sociais que não só ela se evidencia, mas revela sua capilaridade e seu grau de perversidade.

Enquanto a sociedade sofre e debate, ansiosa, a presidente e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy estão, neste exato momento, determinando cortes ainda mais profundos, que vão assumidamente incidir sobre áreas sociais - inclusive Educação e Saúde, as mais sacrificadas até agora. Além disso, confirmam um aumento generalizado de impostos que, uma vez mais, poupa os bancos, o mercado financeiro e o rentismo, as entidades religiosas 
e as grandes fortunas, penalizando sobretudo os trabalhadores. 

Resta saber se o governo vai enxugar as suas próprias gorduras, os inacreditáveis 38 ministérios, as verbas publicitárias de R$ 2,5 bi ao ano, as viagens a granel ou o quarto de bilhão gasto em garfos para o Palácio do Planalto. 

Cobrindo ou não o rombo governamental, uma coisa é certa: os cortes anunciados e o aumento de impostos vão refrear ainda mais a atividade econômica, agravando a recessão e piorando a perspectiva de desempregados e de pequenos comerciantes.

São, assim, medidas que reforçam o caráter elitista do governo petista, sua insensibilidade social e seu desprezo pela esquerda, evidenciado na predileção recorrente pela adoção do receituário neoliberal. Fica claro que Dilma e o PT não têm a compreensão das dimensões da crise e da gravidade de seus efeitos na vida dos cidadãos.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 9 de junho de 2013

A queda de Dilma

Os índices de aprovação da presidente Dilma Rousseff caíram pela primeira vez desde a posse, assegura o Instituto Datafolha, cujo passado demanda cautela. Não obstante o ineditismo, foi uma queda expressiva: dos 65 pontos em março, Dilma despencou oito e agora 57% dos entrevistados avaliam seu governo como "ótimo" ou "bom" – um tombo percentual de 12,3%, ou seja, em três meses perdeu quase um oitavo dos antigos apoiadores.

O resultado, que deveria acender a luz de alerta no QG governista, foi recebido nas redes sociais com o misto de transferência de culpa (acusando o "PIG" ou a Secom que o sustenta) e tentativas diversionistas (como destacar que "Aécio só cresceu 4%") que já se tornou rotina entre a militância virtual. Trata-se de um tipo de reação que cria um círculo vicioso o qual superdimensiona o poder da mídia, bloqueia a autocrítica e, assim, tende a retardar ou dificultar que o governo detecte e quiçá corrija seus erros - em um processo que pode vir a ser particularmente danoso em uma batalha eleitoral intensa como a que o país está prestes a assistir.



Reversão de expectativas
Ainda segundo o Datafolha, no centro dos motivos para a queda de Dilma estão as expectativas quanto à economia – notadamente inflação e desemprego -, as quais refletem que parcelas do eleitorado tornaram-se menos otimistas ou mesmo receosas.

A resposta-padrão para tal questão provavelmente será que não há razões para pessimismo, já que tanto o desemprego quanto a inflação se encontram dentro das metas estabelecidas pelo governo. Ainda que eventualmente correta, não é, como demonstra a pesquisa, uma resposta que satisfaça a todos. Em relação ao desemprego isso se dá - entre outros fatores que abordarei em um post futuro sobre o tema - pelo fato de que há uma enorme discrepância entre o "pleno emprego" que a atual taxa de 5,7% sugere e o número real de pessoas desempregadas no Brasil, distorção esta causada por uma fórmula de cálculo oficial que privilegia a relação entre a população economicamente ativa e a população em idade ativa e, assim, acaba por negligenciar uma série de fatores educacionais, sazonais, etários e mercadológicos que, se devidamente computados, aumentariam exponencialmente a porcentagem real de desempregados do país.

Ignorante ou indiferente à frieza otimista dos números, mas sentindo de perto e ao redor os humores do mercado de trabalho, parte do eleitorado já percebeu - no aumento expressivo de pontos comerciais fechados porque os alugueis subiram a um ponto intolerável, na quantidade de conhecidos desempregados ou subempregados, no aumento de notícias sobre desemprego em sincronia com a diminuição dos anúncios de novas vagas - que os ventos do mercado de trabalho já não sopram como antes ou como apregoam os meteorologistas governamentais.



Feels like...
Quanto à inflação, é preciso ter claro que, para além de fenômeno econômico strictu sensu, ela não se limita ao que dizem os índices oficiais – antes se constituindo através de uma percepção social algo difusa. Assim, por mais bem-sucedido que o governo Dilma esteja sendo em seu esforço pra reduzir os índices oficiais de inflação - através de estratégias como isenção ou desoneração fiscal de itens que influenciam o cálculo do índice – e que estes sejam os números que serão brandidos na campanha eleitoral, a percepção de muitos brasileiros quanto ao aumento dos preços, neste momento, não corresponde à estabilidade fria das estatísticas.

Pode-se arguir que parte dessa percepção popular de que os preços estariam aumentando muito advém, justamente, de uma intensa campanha midiática no sentido de propagar a volta da inflação, campanha esta simbolizada no tomate – que atingiu picos de preço antes de regredir a um valor mais baixo. Penso que em alguma medida a campanha midiática possa estar surtindo efeitos, mas resisto a atribuir-lhe o ônus pela queda de Dilma, e por três motivos: o primeiro é que, como as três últimas eleições presidenciais demonstraram, o povo não parece estar dando muita bola para as campanhas da mídia, sejam estas factoides ou não. O segundo é que a mídia não criou do nada uma campanha negativa, e sim baseou-se em um fato: a ocorrência de uma percepção generalizada de aumento de preços (eu mesmo cheguei a ver o quilo do tomate sendo vendido a R$10,00 numa feira livre em São Paulo), a qual certamente procurou amplificar.



A gente não quer só comida
Mas é o terceiro fato que, feitas as reservas de praxe, reforça a possível acurácia da pesquisa Datafolha: a percepção, pessoal e de praticamente todas as pessoas com quem convivo em diversos ambientes, socioeconomicamente heterogêneos - colegas, amigos, familiares -, de que houve uma brutal escalada de preços entre o fim do ano passado e o momento atual. Alguém pode argumentar que esta percepção, além de intrinsecamente subjetiva, não é corroborada pelos índices oficiais, o que é verdade. Mas isto se dá porque, por um lado, como já explicado, houve manipulação dos impostos referentes aos produtos de maior "peso" no cálculo do índice, de modo a reduzi-lo; e, por outro lado, porque foi o preço de uma série de produtos supérfluos que pouco ou nada influenciam na constituição do índice o que subiu consideravelmente.

Os exemplos são vários e vão de chocolates a iogurtes, de cerveja a refrigerantes e sucos, de comida congelada a biscoitos, de diárias de hotéis a menus de bares e restaurantes. Em relação a tais produtos, os preços muitas vezes dispararam nos últimos meses – e a grande maioria das pessoas que sustenta uma casa pode facilmente constatar isso. Eu não estranharia se, em acordo com a atual moda de malhar a classe média - particularmente ativa entre a brigada governista -, alguém argumentasse que são todos produtos supérfluos e não gêneros de primeira necessidade. De fato. Mas uma das mais alardeadas conquistas da Era Lula/Dilma tem sido justamente a ascensão da classe D, inúmeras vezes representada pela alusão ao fato de que agora estavam, pela primeira vez, consumindo iogurte e refrigerantes, fazendo viagens aéreas e turismo, indo a restaurantes.

Negligenciar o sentimento difuso de que as classes médias, hoje, sentem-se premidas a apertar o cinto e temem perder acesso a esse admirável (ainda que modesto) mundo novo do consumo, temor este refletido na queda de popularidade de Dilma, e trocá-lo pela frieza dos números arranjados ou pela atribuição de culpa ao tal de "PIG", corresponderia a submergir numa bruma de autoilusão que pode ser danosa às pretensões eleitorais da aliança petista.



Cenário eleitoral
Na projeção que o Datafolha faz para as eleições, Dilma Rousseff teria hoje 51% dos votos (há três meses tinha 57), contra 16% de Marina Silva (estável desde março) e 14% de Aécio Neves (que cresceu quatro pontos no período, durante o qual gozou de destaque na mídia). Tais índices, como se vê, asseguram uma liderança folgada a Dilma, mas é importante observar que a erosão, em apenas três meses, de quase 1/8 de seus eleitores ante uma crise econômica que sequer entrou nos radares oficiais, situando-se por enquanto no âmbito da percepção popular, deixa claro o quanto tal eleitorado é volúvel em relação à economia, na qual o governo Dilma fez todas as suas apostas, aderindo às privatizações que tanto criticou no período eleitoral e apostando em um modelo de desenvolvimento a qualquer custo, opções que têm afugentado setores da esquerda antes simpatizantes do governo petista

A pesquisa delineia a hipótese,  que vem sendo há tempos aventada por este blog, de que uma eventual piora na saúde da economia possa afugentar o eleitorado dilmista de ocasião (conquistado nos últimos dois anos), em um cenário em que parcelas da esquerda que  apoiaram a aliança petista que elegeu Lula e Dilma já se encontrassem descontentes pela truculência, vazio ideológico e economicismo "de Brasil-Grande" que caracterizam a administração Dilma. Haverá tempo e disposição autocrítica para um rearranjo? Parece improvável.



(Foto de autoria de Beto Barata retirada daqui)