É estranho, eu sei, mas, a rigor, a primeira década do século XXI só acaba quando 2010 acabar (afinal, não houve um ano zero...). Mas como poucos prestam atenção a isso, me sinto livre para lançar, agora, minha lista dos melhores filmes brasileiros da década.
Embora o clima predominante entre o pessoal de cinema tenha sido de algum pessimismo - causado, sobretudo, pelo estrangulamento do espaço para o filme nacional "independente" ou de baixo orçamento provocado pela entrada definitiva da Globo Filmes, em aliança com
majors norte-americanas, no setor - a década, vista em retrospecto, foi muito boa para nosso cinema.
Ao menos foi essa a impressão que tive, após promover uma verdadeira maratona de filmes brasileiros para elaborar esta lista. Muita coisa ficou de fora e, certamente, muitos vão discordar das escolhas, mas é esta uma das funções primordiais das listas: provocar debates.
Há sempre muito de subjetivo nas escolhas, embora eu tenha tentado combinar preferências pessoais a alguns critérios objetivos - como talvez os comentários evidenciem. Eis a lista:
1º. -
Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho, 2001) – Uma obra-prima do cinema mundial e uma das melhores adaptações literárias da história do cinema - ao lado de, entre outros,
Os Vivos e os Mortos (
The Dead, John Huston, EUA/ING/IRL, 1987, baseado em conto de James Joyce). Experiência cinematográfica única, baseada no clássico homônimo de Raduan Nassar,
Lavoura Arcaica promove uma viagem subjetivo-cinematográfica, repleta de imagens inesquecíveis, pelas temáticas da memória, dos afetos, da repressão e do tempo, além de enfocar o próprio ato de narrar.
Link para uma sequência do filme.
2º. -
Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) –

A odisseia da exclusão e marginalidade que teve como legado o predomínio do tráfico nas favelas cariocas é vista de forma épica, mas a partir da perspectiva de um garoto. Causador de polêmicas várias, acusado de abusar da violência e de uma alegada "linguagem publicitária",
Cidade de Deus é talvez mais apreciado no exterior do que aqui. Mas o filme recolocou definitivamente o Brasil no mapa do cinema mundial.
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3º. -
Cabra-Cega (Toni Ventura, 2004) – O mais dilacerante retrato da luta armada no Brasil, reencenada a partir do cotidiano restrito de um militante - quase sempre enclausurado em um “aparelho”, em luta para não “cair”. A grande atuação de Leonardo Medeiros como o protagonista e a releitura impressionista de Chico Buarque por Fernanda Porto na trilha sonora valorizam uma
mise en scéne plena de epifania.
Link para o trailer4º. -
Linha de Passe (Walter Salles e Daniela Thomas, 2008) – A re-

constituição, de um realismo atroz e desprovida de maniqueísmo, do cotidiano de cada um dos membros de uma família da periferia de São Paulo promove, a um tempo, um retrato do caos na cidade e dos labirintos e becos sem saída vivenciado por diferentes gerações de pobres que nela habitam. Ao lado de
São Paulo, Sociedade Anônima (Luís Sérgio Person, 1965), é um dos melhores filmes já feitos sobre a cidade - e o que capta de forma mais fiel sua estética fria e agressiva.
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5º. –
O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006) – Um mergulho no "Brasil profundo" contemporâneo, numa versão atualizada - e a partir de uma perspectiva feminina - do drama da migração.
Mise en scéne, fotografia e direção de arte primorosas, em planos extremamente bem-cuidados, mas em que a excelência estética nunca se sobrepõe à função narrativa. A sequência em que a protagonista - encarnada com garra por Hermila Guedes - e o
motoboy João (o ótimo João Miguel, de
Estômago) discutem enquanto caminham em direção à câmera, em
steadycam, entra para a antologia do cinema brasileiro. Final primoroso.
Link para o trailer6º -
Nome Próprio (Murilo Salles, 2008) – Um filme duplamen-

te corajoso, por adotar como tema a subjetividade, e feminina. Para encenar a trajetória pessoal da blogueira Clara Averbuck, resolve de forma criativa e visualmente atrativa o dilema recorrente de como filmar o universo virtual, promovendo um mergulho abissal em temas como solidão, sexualidade, estados psicológicos, universos mentais. As noites urbanas, com sua impessoalidade, seus encontros e desencontros, é pano de fundo para o retrato de uma geração - e, nela, de um gênero sexual -, valorizado pelo desempenho visceral de Leandra Leal, que mereceu todos os prêmios que recebeu. Se os critérios desta lista fossem exclusivamente afetivos, este seria o meu filme #1.
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7º. –
Falsa Loura (Carlos Reichenbach, 2007) – Um filme atípico, que não pode nem deve ser julgado pelos critérios convencionais: Reichenbach, de novo às voltas com o universo feminino suburbano, recusa o caminho fácil e promove uma incursão (meta)cinematográfica plena de referências à história do cinema e à sua própria obra pessoal. Arrebatadora, a Silmara de Rosane Mulholland entra definitivamente na galeria das grandes personagens femininas do cinema brasileiro, restituindo, ainda, uma prerrogativa das divas do cinema italiano: fazer com que o espectador deixe a sala de exibição completamente apaixonado pela estrela do filme. Um soco no estômago, o final de
Falsa Loura pode ser lido como uma espécie de versão jovem e feminina do
La Dolce Vita de Fellini.
Link para trailer8º. -
Santiago (João Moreira Salles, 2007) – A pretexto de realizar um

documentário sobre o ex-mordomo de sua família, João Moreira Salles inova o gênero e faz grande cinema, num filme que perfaz uma incursão memorialística, sentimental, e incita reflexões existenciais e cinematográficas, com uma pungente incursão final na temática das relações de poder. A conjunção entre narração e imagens poucas vezes atingiu um nível tão alto no cinema brasileiro.
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9º. –
O Auto da Compadecida (Guel Arraes, 2000) - Ariano Suassuna fomenta ódios e paixões, mas não pode-se negar-lhe o talento nem a primazia de sua produção, que combina temas universais a uma estética de raízes regionais - a qual Guel Arraes, em
O Auto da Compadecida, submete a um
aggiornamento vídeo-cinematográfico que acaba por evidenciar a força da peça original, ao invés de descaracterizá-la. Não bastasse o desempenho fantástico do elenco liderado por Matheus Nachtergaele, Selton Mello e Marco Nanini, há Fernanda Montenegro, sublime, de Nossa Senhora.
Link para trailer10º.-
O Invasor (Beto Brant, 2002) - A temática da luta de clas-

ses no Brasil atual é enfocada a partir de uma abordagem "fulanizada", de um estudo de caso que perfaz um inventário da corrupção e das traições que mediam a relação entre mundo corporativo e esfera pública no país. Embora sem inovar do ponto de vista formal, Beto Brant dota seu melhor filme de uma narrativa tensa, que prende a atenção do espectador. Mariana Ximenes arrasa num papel atípico e a atuação hipernaturalista de Paulo Miklos coloca seu personagem na galeria dos tipos inesquecíveis do cinema brasileiro.
Link para sequência do filme, com participação do
rapper Sabotage.

11º. -
Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006) - O
enfant terrible do udigrudi Andrea Tonacci volta do longo "exílio" com uma obra grandiosa, que mistura ficção e documentário e reencena, literalmente e de forma épica, o absurdo da questão amazônica. De quebra, dialoga com o presente e com o passado da política e do cinema brasileiros. Como realização, sei que o filme merecia ocupar uma posição no topo da lista, mas não conseguiu conquistar-me afetivamente como espectador.
Link para o trailer12º. -
Meninas (Sandra Werneck, 2006) – O cotidiano de quatr

o meninas pobres, grávidas na puberdade, é acompanhado de forma despojada e direta, mas com fôlego para dar conta, sem
parti pris ideológico e sem falsos moralismos, dos aspectos existenciais, familiares, econômicos e sentimentais conectados a essa urgente questão social, de educação e de saúde pública - com efeitos de longa duração - que é a gravidez na adolescência.
Link para o trailerNão consegui ver a elogiada estreia em longa metragem de meu querido amigo Bruno Safadi (que não vejo há anos),
Meu Nome é Dindi (2007).
Do que vi e ficou de fora, gostaria de ter incluído Bicho de Sete Cabeças (2001), de Laís Bodanzky, Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho, Não por Acaso (2007), de Phillipe Barcinski e, sobretudo, Cão sem dono (2007), de Beto Brant e Renato Ciasca, que, de certo modo, pode ser lido como uma versão masculina e minimalista de Nome Próprio.
A não-inclusão do gênio eremita que o mundo desconhece Julio Bressane e de Brasília 18% (2006), do mestre descolonizador Nelson Pereira dos Santos, deve-se ao fato de que eu os considero hors concours.
(Imagens retiradas, em ordem respectiva, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12)