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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A campanha na lama

Há tempos tornou-se frequente, no jornalismo brasileiro, uma crítica generalista à internet, tida e descrita como “terra de ninguém”, meio de expressão de ódios represados e ataques pessoais. As caixas de comentário dos portais e dos jornais e a correspondência eletrônica endereçada aos jornalistas seriam a prova cabal do baixo nível.

O choque de Chico Buarque ao se defrontar, pela primeira vez, com a agressividade na rede tem sido citado de forma recorrente por profissionais de imprensa como exemplo de que estão certos: para muitos, durante um longo período, um ídolo quase unânime, exemplo de beleza, talento e combatividade, o compositor de “Apesar de você” descobriu que um número não desprezível de internautas o considera um velho caquético e merecedor das piores pragas e impropérios. Reagiu com humor.



Esvaziamento da política
Durante anos, enxerguei nessa crítica à internet um misto de parcialidade (pois só retrata o lado negativo da web), preguiça (de pesquisar, descobrir e valorizar suas fantásticas possibilidades, comparativamente maiores) e, sobretudo, orgulho ferido de jornalistas contra o meio que lançou a imprensa e a mídia, de modo geral, em uma dupla crise: comercial, graças à diversidade e ao volume de informação oferecida, muitas vezes gratuitamente; e de credibilidade, já que ficou muito mais fácil investigar e divulgar as omissões, armações e erros midiáticos, bem como desvendar os interesses que eventualmente os motiva.

Tais ressalvas continuam, em larga medida, a parecer-me válidas, mas ora mostram-se relativizadas pelo modo como a política vem sendo instrumentalizada pela internet nas eleições atuais, num processo em que ao esvaziamento da reflexão mais aprofundada corresponde a disseminação de um festival de ataques baixos e tentativas de desqualificação do opositor, transformado em inimigo a ser aniquilado.



O protagonismo das redes
As redes sociais têm tido um papel fundamental em tal processo. Seu poder mobilizador deriva do fato de, por um lado, inserirem-se como um elemento cotidiano na vida de muitos cidadãos e, por outro, retroalimentarem tanto os marqueteiros de campanha quanto a cobertura midiática. Isso se dá, em primeiro lugar, pela própria natureza das redes sociais, velozes, voláteis e baseadas em uma lógica de agrupamento de pessoas com ideias, gosto ou preferências afins, e com tendência a facilitar a criação de “ondas”, movimentos de manada intensos, porém breves.

A duração de tais movimentos, medidos em horas, no máximo dias, faz com que sirvam como uma luva, por um lado, para o marqueteiro político, ávido por um feedback diário para fazer correções pontuais no desempenho de seu candidato; e, por outro lado, para a imprensa, notadamente a diária, cuja periodicidade tende a combinar com a do ciclo de renovação dos temas nas redes, e a mídia, engessada pelas proibições da Justiça Eleitoral e necessitada de pautas que aliem o interesse do leitor/espectador e as eleições.



Egolatria
Pode-se argumentar, como contraponto, que as redes sociais fizeram com que aumentasse o interesse geral por política. Isso pode até ser verdade, porém a política nas redes sociais tende a ser presa de uma economia libidinal tipicamente pós-moderna, sendo submetida às recompensações egoicas do internauta, renovadas em intervalos de poucos segundos, a cada “curtir” no Facebook ou “RT” ou favoritada no Twitter. Trata-se de um processo que, do ponto de vista subjetivo, encerra-se em si mesmo, porém gerando graves consequências por ocupar sub-repticiamente o lugar – e, em determinado grau, dificultar o exercício – da reflexão e do debate aprofundado sobre questões políticas.

Temos, portanto, uma lógica alimentada pelo próprio modo de operação do usuário com a rede social, em que o espaço para a explanação de projetos políticos e para o debate e o embate de propostas é, em grande parte, ocupado em prol de uma espécie de jogo competitivo cujo objetivo varia entre uma mesquinha recompensa egoica e a questionável realização de marketing eleitoral de colocar um tema entre os mais debatidos do dia.



Mercenários virtuais
Esse cenário, por si só preocupante em uma democracia com tantas urgências e com tanta carência de propostas planejadas no médio e longo prazos, agrava-se com a ação de agentes contratados pelos partidos para, no mais das vezes sem identificarem-se como tal, agir nas redes sociais em prol de determinada(s) candidatura(s).

Fora do radar da Justiça Eleitoral, operando diuturnamente e sob a coordenação do marketing das campanhas, esses agentes, frequentemente com uma formação política precária ou quase nula, pouco colaboram para o debate ou para o aprofundamento desta ou daquela questão: sua função é martelar slogans, plantar suspeitas e desferir ataques que atendam aos objetivos traçados pela estratégia de marketing do partido.



Ataque deliberado
Mas o protagonismo das redes sociais e, nelas, a indistinção entre cidadãos engajados e mercenários não seriam suficientes para explicar o baixíssimo nível das eleições presidenciais deste ano – mesmo porque as redes sociais já eram atuantes em eleições anteriores e, embora partidários de um e de outro candidato se digladiassem entre si e um certo nível de baixaria sempre houvesse, jamais praticamente monopolizaram a campanha como ocorre agora.

Pois o que nós estamos assistindo, não raro enojados, é fruto de estratégia deliberada de marqueteiros, ciente das características pouco aprofundadoras das redes sociais e do estado de “eterno presente” em que tendem a manter o internauta, engajado como que num videogame em que batalha por seu candidato.

Sabem que esse formato competitivo, baseado na recompensa egoica pessoal e na identificação de grupo, sob o comando de suas diretrizes, tem como consequências óbvias o primado dos ataques estereotipados, pespegados através de slogans martelados ad infinitum, em detrimento das nuances, ponderações e do aprofundamento necessários a um debate efetivo de projetos políticos. Assim, serve, ainda, como uma forma de acobertar a ausência de um programa de governo detalhado por parte de algumas forças políticas, desviando a atenção dos eleitores para questões incomparavelmente menos importantes, como quantas curtidas recebeu seu post no Facebook ou qual a tag que terminou o dia em primeiro lugar nos trending topics do Twitter, se a dos apoiadores de Dilma, de Marina ou de Aécio.




Estratégia da desqualificação
Nenhuma dessas três candidaturas mais competitivas está, evidentemente, isenta de um certo grau de agressividade nas redes socais – o que, de certa forma, vem a corroborar o que foi dito sobre a natureza de tal meio virtual. A rigor, seria, porém, injusto dizer que tais manifestações violentas se equivalem ou que são meramente reativas. A estratégia traçada pelos marqueteiros das campanhas acaba por influenciar de forma determinante o grau de agressividade nas redes e, desse modo, o PT assumiu, nestas eleições presidenciais, o papel que tradicionalmente era atribuído ao PSDB de José Serra, como o partido cujos militantes virtuais têm feito um uso mais agressivo da rede e sobre o qual recai o maior número de suspeitas quanto à ação de agentes pagos.

E como Marina Silva é, até o momento, a candidata que efetivamente ameaça a continuação do projeto petista de poder, a campanha contra ela, ininterrupta desde o final do velório de Eduardo Campos, atingiu um grau de agressividade que talvez só a de Fernando Collor contra Lula, em 1989, tenha logrado igualar.

Em mais uma prova de que história só se repete como farsa, o PT reedita, neste momento, contra Marina Silva, a campanha do medo da qual foi alvo em 2002. Desta feita, porém, com a própria presidente Dilma Rousseff encarnando a Regina Duarte da vez, numa tática ofensiva ao passado político do PT, à candidata petista e à liturgia da Presidência.



Enfraquecimento da democracia
Assiste-se, assim, a um verdadeiro festival de baixarias, em que o trato civilizado entre ex-aliados, hoje em oposição, dá lugar a uma catarse em que o ódio serve de alimento às agressões pessoais. Para além de seu significado em termos propriamente partidários, trata-se de um retrocesso lamentável para a ainda jovem democracia brasileira.

Pois, fenômeno global, o aspecto por demais cosmético do marketing político na atualidade, por mim abordado em outro artigo), introduz por si uma transformação – da política em objeto de consumo – altamente negativa para o avanço democrático.

A corrente despolitização das eleições, transformadas num jogo de difusão de boatos, meias verdades e tentativas incessantes de desqualificação pessoal do adversário vai além: desqualifica a própria democracia, enfraquecendo-a, num gesto irresponsável e temerário para o futuro politico do país.



Reação institucional
Urge, porém, que os setores democráticos da sociedade brasileira se unam para que medidas sejam tomadas no sentido de impedir que os ataques baixos e o esvaziamento dos debates dominem as futuras eleições no Brasil.

Há de se aprimorar a legislação eleitoral, adaptando-a a tempos cibernéticos, e de se estabelecer uma ação mais efetiva da Justiça Eleitoral: a exigência de que todos os partidos apresentem programas de governo detalhados, com indicativo da fonte de receitas e adequação a normas preestabelecidas, um maior espaço para o debate de política na mídia e nos meios educacionais, além de punições efetivas e rigorosas no sentido de coibir as campanhas difamatórias e o jogo baixo seriam medidas bem-vindas no curto prazo.

Faz-se necessário, o quanto antes, que mídia e sociedade organizada trabalhem no sentido de diminuir o peso do marketing político e das táticas de desqualificação e enfrentamento através do incentivo constante ao diálogo com o poder e ao debate de programas partidários e demandas sociais antes e durante as eleições, no sentido de resgatar, também na política, o “tempo da delicadeza” de que, em uma de suas mais belas canções, nos fala Chico Buarque.


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Publicado originalmente no Observatório da Imprensa. Foram feitas pequenas alterações.






domingo, 1 de novembro de 2009

Para onde vai Fernando Henrique Cardoso?

De ex-presidentes é esperado um comportamento discreto, respeitoso para com seus sucessores, que paire acima dos ódios políticos e colabore para o avanço do país. Se um deles eventualmente discordar do modo como o país é conduzido e não consegue ou não quer guardar para si tal discordância, deve manifestá-la de forma polida, racional, colaborativa, sem qualquer laivo de agressividade ou ataque pessoal.

Os EUA têm dado, ao menos nesse quesito, uma demonstração de civilidade democrática. Em sua grande maioria, seus ex-presidentes mantêm uma postura respeitosa para com os chefes de estado que os sucedem. Alguns, como Jimmy Carter e Bill Clinton, continuam servindo ao país em fóruns internacionais mesmo quando este é governado pela oposiç.ão. Até na fase terminal, lame duck,  do pior mandatário da história norteamericana, George W. Bush, quando as críticas se fizeram inevitáveis, elas não deixaram de obedecer, no mais das vezes, a certos protocolos e de manter o respeito pela Presidência enquanto instituição.

Tais digressões vêm à tona no contexto da repercussão do artigo “Para onde vamos?”, escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e publicado neste domingo pelos jornais O Globo, O Estado de São Paulo e Zero Hora, entre outros, e reproduzido em diversos blogs, a começar do de Luís Nassif, que lembra:

“Quando os novos governadores tucanos foram eleitos, alertei: tomem o PSDB de FHC; exercitem a retórica da negociação, da civilidade. FHC só terá a oferecer a retórica vazia da guerra. Eis aí um caso clássico da miséria do discurso”.

Eu recomendaria ao leitor que ainda não leu o hidrófobo artigo do ex-presidente, que o fizesse no blog O Hermenauta, que oferece uma leitura crítica contrapondo as acusações do peessedebista a Lula aos atos pregressos do próprio governo chefiado por FHC.  

Confesso que tive dificuldades para levar a sério a argumentação crítica do ex-presidente, primeiro porque a acusação difusa e imprecisa de autoritarismo que perpassa o artigo nãoé sustentada por nenhum ato institucional ou prova material produzidos pelo governo de turno, constituindo, portanto, mera estratégia retórica de choque empregada pelo dublê de articulista. “Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária”, escreve FHC, como a sugerir, numa lógica torta, que só os governos sob vaias seriam democráticos. 

Ora, conquista hegemônica de poder, respeitadas as regras democráticas institucionais – e FHC não fornece evidência alguma de que estas não estejam sendo seguidas -, é o jogo jogado. A leitura de seus arrazoados acaba por dar a impressão de que a ambição – no caso, da aliança liderada por PT e PMDB – de continuar no poder tem algo de intrinsicamente autoritário. Mas não foi Sérgio Motta quem anunciava aos quatro ventos que o projeto do PSDB era de 20 anos na Presidência? Dois pesos e duas medidas?

Segundo porque parece-me indisfarçável que o que move o peessedebista não é, de forma alguma, a razão e as alegadas preocupações com o presente estado e o futuro do país, mas os humanos, demasiadamente humanos sentimentos figadais da inveja, do ciúme, do despeito e do orgulho ferido.

Bastariam para atiçar tais rancores o sucesso da política econômica – com o Brasil sendo o primeiro país a sair da crise mundial -, das políticas sociais que tiraram mais de 30 milhões de pessoas da pobreza, da diplomacia que colocou o Brasil efetivamente como player mundial (um feito que FHC se esforçou por lograr e não conseguiu) e, talvez acima de tudo, a projeção internacional de Lula, reconhecida tanto pelos principais órgãos da mídia mundial como por governantes de modo geral, Barack Obama à frente.

Mas há mais: FHC começa, finalmente, a ser preterido e renegado por seu próprio partido, o qual tenta manter sob seu controle desde que deixou a Presidência. Vinha sendo bem sucedido até então, apesar do ônus que impôs, respectivamente,  a José Serra e a Geraldo Alkimin nas eleições presidenciais em que, pesando como uma pedra no lombo dos candidatos peesedebistas, colaborou sobremaneira para o duplo naufrágio. Nesta semana, porém, o PPS impôs como condição ao apoio a Serra na próxima corrida ao Planalto que o PSDB se desvencilhe do fardo FHC. Ele acusou o golpe.

Se se tratasse do grande intelectual e da personalidade política que seus acólitos e a mídia de forma geral apregoam, FHC poderia ter evitado se prestar a esse papel constrangedor, que será julgado pela História. Tivesse mantido uma postura serena e madura – ainda que eventual e respeitosamente crítica -, o tempo encarregar-se-ia de envolver em um véu de esquecimento sua Presidência de raros acertos e colossais erros, entre eles os que levaram o país à insolvência três vezes e legaram um índice altíssimo de desemprego, que ora atinge seu menor nível histórico.  

Substituindo os ataques pessoais e a manifestação histérica de sentimentos à rés do chão por uma atitude urbana, civilizada, condizente com a de um ex-mandatário máximo do país, conseguiria, com o apoio das forças comunicacionais das quais dispõe, preservar sua própria imagem através dos tempos.

Para assim agir, no entanto, é necessário ser um estadista. Coisa que Fernando Henrique Cardoso já deu mostras evidentes de que não é.