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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Folha e o colunismo moleque

Por uma dessas estranhas coincidências da vida, comecei a ler o livro que reúne o melhor das colunas de Otto Lara Resende para a Folha de S. PauloBom dia para nascer (Companhia das Letras, 1994) - no mesmo dia em que o diário paulista anunciava Kim Kataguri como seu novo colunista.

Difícil imaginar um contraste mais pronunciado, que melhor explicite a epifania de decadência e perda de rumo por parte de um órgão de imprensa que, nos anos 80 e 90, fez muitos nutrirem esperanças de um salto de qualidade no jornalismo brasileiro.

A prosa de Otto é fluente, enxuta, perpassada por uma ironia tão sutil quanto inteligente, mineiríssima, e por um criticismo político que denota critério, evitando tanto generalizações quanto um certo niilismo negativista que há tempos se tornou corrente. Informada sem soar pedante, pontuada por referências e comparações históricas, sugere uma mente arejada, que surpreende o leitor ao abordar o noticiário com ângulos e associações inusitadas. Leveza, cultura, inteligência.



Abandono da ética
Desnecessário afirmar que nada remotamente similar a isso é oferecido pelo novo contratado da Barão de Limeira – um garoto com Ensino Médio que, já em sua coluna de estreia, maltrata a língua portuguesa e a verdade ao chamar de terroristas cidadãos que, exercendo um direito constitucional. protestaram contra o aumento do preço das passagens de ônibus, sendo por isso massacrados pela PM paulista.

O uso de força excessiva e gratuita por parte das forças policiais, bem como o recurso a uma tática repressiva internacionalmente reputada como desumana – o “caldeirão de Hamburgo”, em que os manifestantes são cercados de todos os lados, sem possibilidade de fuga, enquanto bombas lhes são atiradas –, se, com exceções como o brilhante artigo de Eliane Brum no El País, passou quase em branco na mídia nacional, chocou colunistas internacionais e vem repercutindo muito mal no exterior. Não será surpresa se, num futuro próximo, vier a gerar sanções contra o Brasil, como ocorreu com o tratamento que o governo Dilma dispensa à questão indígena.

Porém, o jornal dos Frias, que sempre se auto-outorgou o título de bastião avançado da ética e dos Direitos Humanos, confirma, com a contratação do agitador semiletrado, que hoje restringe tais temas à cosmética do marketing.

Trata-se, no caso, de uma escolha deliberada, que é mercadológica (mirando o leitorado jovem e o nicho do jornalismo neocon, fenômeno nos EUA, que no Brasil tem a Veja como combalido carro-chefe), mas sobretudo política (a aposta na retomada da mobilização popular pró-impeachment).



Binarismo e desvio de função
A contrapartida, além do agravamento da debandada dos assinantes antigos, é que fornece mais munição para a eterna choradeira do petismo contra a imprensa em geral e contra a Folha em particular – um lacrimário que é hoje o principal bode expiatório a desviar as atenções (e impedir a autocrítica) das responsabilidades dos governos petistas, após mais de 13 anos no poder, pelo deplorável estado de coisas no Brasil de hoje. E que se baseia em uma quimera, pois finge ignorar tanto a colaboração frequente de mandarins do neopetismo - como André Singer, Breser Pereira e Jessé de Souza – quanto a atuação de colunistas como Gregório Duvivier, Guilherme Boulos e de Janio de Freitas em seu outono chapa-branca.

De uma forma ou de outra, o jornal, em vez de aperfeiçoar sua atuação como divulgador de notícias e de análises que informem o leitor e melhor o capacitem para a formação de sua própria visão crítica, prefere investir no acirramento de uma luta político-ideológica binária, maniqueísta, em preto-e-branco sem contrastes, que já se desmontrou reiteradas vezes incapaz de fazer o país avançar.

Para além da intensificação de tal distorção da função da imprensa e da aposta em um beligerantismo ideológico primário, a nova contratação reduz, para além do suportável, o nível cultural, intelectual e de articulação de ideias que se espera do colunismo político.



Diagnóstico preciso
Trata-se de uma estratégia que, atendo-se às consequências propriamente jornalísticas, a professora e jornalista Sylvia Moretzsohn disseca com propriedade e contundência em carta à ombudskvinna em que comunica o cancelamento da assinatura do jornal:

“Várias vezes, antes desta, estive para tomar essa atitude. No momento em que se cunhou a expressão "ditabranda". No caso da ficha falsa da Dilma: não só pelo fato, mas pelos seus desdobramentos, a incapacidade de reconhecer o erro, a canhestra justificativa de que não se poderia afirmar que a ficha era verdadeira nem que era falsa (brilhante jornal que, na dúvida, publica...). Na decisão de contratar o Reinaldo Azevedo.

Mas tudo tem limite.

Não se trata, obviamente, da minha rejeição a posições de direita. Eu sempre achei que um jornal deve buscar a pluralidade. Mas é preciso buscar também a substância. Como disse uma colega, também professora e jornalista, colunista não é o sujeito que simplesmente vai lá e dá uma opinião: é alguém que traz informação original e qualificada. Definitivamente, não é o caso desse rapaz, que não tem condições de estar em nenhum jornal que se leve a sério.

Todo jornal faz suas escolhas. Ao acolher certos colaboradores, escolhe também o público que quer preservar e, consequentemente, o que pode dispensar.”


(Foto de Otto Lara Resende retirada daqui)

domingo, 15 de julho de 2012

Os bárbaros de mira torta


A comemoração dos 80 anos de Janio de Freitas acabou por gerar subsídios para uma reflexão mais profunda acerca do futuro do jornalismo e de suas relações com o público e com a internet, seja pela reação emocionada do homenageado, seja pelas reações agressivamente desqualificadoras de comentaristas virtuais.

Com uma trajetória que se confunde com a modernização da imprensa brasileira, “tido e havido como o maior mito vivo do jornalismo”, como o caracteriza Claudio Julio Tognolli, Janio de Freitas pertenceu, com destaque, a três redações míticas: na do Diário Carioca comandado por Pompeu de Sousa, a qual Matias M. Molina descreve como alegre e franca, foi diagramador e repórter; em meados dos anos 50, como redator-chefe, acompanharia de perto e protagonizaria a modernização da revista Manchete; e, em seu momento profissional mais celebrado, comandaria a reforma gráfica e editorial que transformaria o seboso Jornal do Brasil no arejado e inteligente JB dos anos 60 e 70 – lido e cultuado por gregos e troianos e, na opinião de muitos, o melhor diário já disponível por estas plagas.


Um modernizador
Nas últimas três décadas, o carioca Janio manteve, na Folha de S. Paulo, uma coluna política que inicialmente se destacou por antecipar, de forma espetacular, a corrupção em concorrências públicas, feito que lhe valeu os principais prêmios jornalísticos do país. Caracterizado pela independência e pelo destemor com que emite opiniões, não raro na contramão das tendências dominantes - seja a respeito do partido a ou b ou mesmo contra o comportamento da imprensa, inclusive do veículo no qual trabalha -, seu espaço no jornal acabou por constituir uma espécie de oásis de sensatez e senso crítico em meio ao rancor antipetista que os Frias impuseram à linha editorial na última década.

Pois bem, em matéria sobre seus 80 anos, esse profissional, que tem opiniões com as quais se pode concordar ou não, mas cujas contribuições para elevar o nível da análise política e para estimular um desenvolvimento mais aguçado do senso crítico não podem ser negligenciadas, foi equiparado por comentaristas a “viúvas chorosas da ditadura”, classificado como pertencente à “direita conservadora” e chamado de “fariseu”, “mentiroso”, “vendido” e, é claro, a serviço do "PIG".


Mídia em seu pior momento
Há, de fato, razões de sobra para o descrédito e mesmo para o rancor que a ação da imprensa (e da mídia corporativa, de forma geral), no Brasil, provoca. Se, em termos mundiais, a crise financeira e de credibilidade vivenciadas pela imprensa na última década vêm afetando, com raras diferenças de monta, a quase totalidade dos países democráticos, em parte por conta da competição com a internet – como aponta o próprio Jânio na matéria citada -, em nosso país a situação se agrava consideravelmente devido à atuação marcadamente partidária, aos preconceitos de classe e aos interesses econômicos e políticos que opõem a plutocracia midiática ao governo federal petista.

Exemplos a ilustrar tal distorção, altamente prejudicial ao exercício do jornalismo, não faltam: a revista Veja, que já era um caso caricatural de antipetismo, com seus “blogueiros” que latem e suas dezenas de capas com denúncias mirabolantes, foi flagrada sendo pautada por ninguém menos que Carlos Cachoeira; a Folha de S. Paulo considera que tivemos uma ditabranda no país, publicou ficha policial falsa da candidata Dilma Rousseff na capa de uma edição dominical e deu espaço para um lunático em crise de abstinência acusar o presidante da República de estupro; e a Rede Globo a cada eleição participa de uma grande armação, da edição do debate Lula x Collor aos sequestradores de Abílio Diniz com camiseta do PT; do caso Proconsult à bolinha de papel na careca do Serra.


Constatações desagradáveis
Ainda assim, e na iminência de se completar uma década de intensa crítica de mídia via blogosfera - e, mais recentemente, redes sociais -, é forçoso reconhecer que a imprensa brasileira não se desacreditou de todo, já que não deixou de exercer, com algum grau de efetividade, o seu papel de fonte de informação para dezenas de milhares de pessoas e que mesmo alguns dos principais blogs não corporativos – como, por exemplo, o de Luis Nassif ou o Conversa Afiada de Paulo Henrique Amorim –, não obstante sua visão crítica à mídia, continuam a ter a imprensa convencional como principal fonte, transformando diariamente em posts e submetendo aos comentários matérias dos principais jornais. O blogueiro progressista Eduardo Guimarães, em post recente, chegou a identificar episódios em que colunistas consagrados claramente desguiaram-se da linha editorial do jornal.

Tais fatos demonstram, entre outras coisas desagradáveis, que, no momento, não passa de miragem a premissa de que os blogs estariam substituindo a imprensa – e não só devido à constatação de que a produção de material jornalístico original – como reportagens ou entrevistas – é ainda por demais incipiente na blogosfera, mas - o que é muito mais grave - que, em uma medida não desprezível, a imprensa ainda pauta parte considerável da blogosfera, incluindo alguns dos blogs de maior audiência.


Nem sempre  tudo é PIG
É preciso, portanto, para o bem da análise, interrogar de forma mais complexa e sistemática a relação entre política e jornalismo – vale dizer, entre fato político e interpretação ideológica via editoração – no país. Isso inclui, necessariamente, a adoção de uma visão mais matizada e criteriosa sobre a ação da mídia corporativa, que permita colocar em perspectiva e explicitar não apenas seu tendenciosismo e sua ação manipuladora - como a de um partido político disfarçado, como frequentemente é o caso no Brasil -, mas suas contradições e estratégias de compensação que, apesar de tudo, continuam a assegurar-lhe penetrabilidade e algum grau de confiabilidade - ainda que em menor escala, se comparado ao de um passado já não tão recente.

A recorrência com que o termo PIG é assacado pode ser compreendida a partir de sua pregnância e da crítica mordaz que de imediato faz, sobretudo no ambiente veloz e informalmente dialógico das redes sociais, mas sua transformação em um diagnóstico definitivo, imutável e sempre válido sobre a imprensa e a mídia pode eventualmente ser, como mostram os fatores acima aludidos, não apenas questionáveis, mas improcedentes.



Jogo de interesses
Assim, sua consumada transformação em uma arma multiuso, bradada contra toda e qualquer acusação feita contra o governo petista, pode revelar-se nem sempre justificada e eventualmente perigosa, pois tende a negligenciar a autocrítica em favor da instauração de um processo vicioso de atribuição de culpa ao mensageiro. Há algo de profundamente totalitário nessa atitude.

Tal processo – e as distorções decorrentes - é facilmente observável nas ultimamente não tão raras questões em que os interesses do governo e da plutocracia midiática são coincidentes, como, por exemplo, na alteração, para menos, da aposentadoria dos servidores públicos ou na privatização dos aeroportos. Nesses casos, não só os ataques da imprensa se transformam em elogios, mas estes são reproduzidos nos blogs e nas redes sociais, gerando, por vezes, situações curiosas, como, por exemplo, um perfil que vive xingando o PIG retuitar um editorial elogioso d'O Globo.

Ante essa lógica malandra, que reduz a imprensa a PIG quando é contra o partido do sujeito, mas a prestigia quando ela é elogiosa, dá vontade de perguntar: afinal, é PIG ou não é?


Discursos totalitários
Não obstante a gravidade da questão midiática no Brasil – tantas vezes abordada neste blog -, o uso genérico e descriterioso do termo PIG traduz uma sobreposição, na arena virtual, de determinados interesses político-partidários ao resultado de análises ponderadas, caso a caso, mais rigorosas e embasadas, resultando, por sua repetição ad nauseum, numa grave distorção.

Tão grave quanto negar ao octogenário Janio de Freitas o reconhecimento pelo grande jornalista que ele é e foi.



(Fotografia de Jorge Araújo/Folhapress, retirada daqui)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Novo Dicionário da Imprensa Brasileira (2a ed.)


Blogs – São sujos.

Censura – Refere-se a toda e qualquer regulação que afete o sagrado direito da imprensa de difamar, mentir e agir como partido político.

Checagem de informação – Hábito dispendioso e supérfluo. Pode perfeitamente ser substituído pela publicação da seguinte nota: “Não foi possível confirmar a informação, tampouco desmenti-la”.

Conjunções adversativas – Devem ser utilizadas sempre que for inevitável divulgar algum fato positivo referente ao governo ao qual a imprensa corporativa se opõe. Por exemplo: “Desemprego no Brasil é o menor da história, MAS quilo da banha aumenta 0,34%”.

Diploma de Jornalista – Papel pintado e sem valor. Deveria ser vendido em papelarias.

Direito à informação - Direito assegurado ao público de receber as versões dos fatos tais como auferidas, editadas e formatadas pela imprensa de modo a moldá-las aos interesses desta.

Direito de Resposta – Extinto pelo venerando Gilmar Mendes após o fim da famigerada “Lei de Imprensa”, foi substituído pelo direito da mídia de continuar reiteradamente produzindo acusações, mesmo sem provas (ver verbete Presunção de Culpa).

Ditador – Modo obrigatório de se referir a mandatários, eleitos ou não, que não se aliam aos EUA e, portanto, contrariam a visão de mundo da imprensa. Já ditadores de fato, mesmo se há 30 anos no poder (como, por exemplo, o presidente do Egito, Hosni Mubarak), sendo aliados dos EUA, devem ser tratados como “Presidente”.

Expert – Como a etimologia do termo sugere, aquele que se destaca por ser especialista em sua área. Ou seja, especialista em justificar ou defender, em linguajar a um tempo acessível (para se fazer entender) e pseudo-técnico (para simular conhecimentos superiores, inacessíveis aos demais mortais) políticas econômicas, administrativas e fiscais que interessem à corporação midiática para a qual trabalha.

Feminismo – Tema exótico, a ser tratado, com leveza e feminilidade, nas seções de variedades dedicadas às mulheres.

Hipótese – O mesmo que fato.

Imparcialidade – Diz-se da capacidade de um órgão de imprensa (e, em decorrência, de seus jornalistas) de apoiar determinado candidato ou partido político sem assumir publicamente tal apoio.

Investimento público – Despesa abominável e desnecessária, pois o Estado deve deixar que o mercado regule a economia. As únicas exceções são a verba publicitária do governo, o investimento em infra-estrutura de comunicação e o dinheiro doado a fundações dos grandes grupos de mídia.

Jornalista profissional – Serviçal mal remunerado, cuja função é repercutir os interesses da empresa em que trabalha. Servilismo, capacidade de bajulação, pouca bagagem cultural e ausência de espírito crítico são suas principais qualidades. A falta de caráter é altamente desejável.

Liberdade de expressão – Diz-se do direito da imprensa de publicar o que quiser e como quiser, de acordo ou não com parâmetros éticos e deontológicos consagrados. Inclui o direito de omitir, reduzir a trecho(s) ou editar de forma manipulatória - inclusive para produzir sentido contrário ao que foi dito ou constatado - relato de atos, fatos, discursos e falas de terceiros.

Liberdade de imprensa – Segundo tese defendida publicamente pelo ministro do STF Carlos Ayres Britto, sumarizada em artigo de Eugênio Bucci, “A liberdade de imprensa deve ser entendida como um direito não limitado por outros direitos. Ela é um direito absoluto.” Estando acima da lei, a imprensa está, portanto, livre para publicar o que lhe der na telha, mesmo se mentiroso, difamante, criminoso ou racista. Não deve satisfações a ninguém.

Manchete – Enunciado que deve divulgar, de forma sucinta e em letras garrafais (para ser lido até por quem não vai comprar jornais, só espiá-los nas bancas), fatos reais ou inventados contra as forças políticas às quais a empresa jornalística se opõe. Não é necessário que o texto ao qual a manchete se refere a corrobore.

Militante – Diz-se daquele que, nas caixas de comentário, defende ideias contrárias às da imprensa.

Nacionalismo – Quase sempre deve ser denunciado como uma aberração inominável, coisa de um povo jeca e inculto. A exceção é quando serve para denegrir as forças políticas às quais o jornal se opõe (por exemplo, criticando a presidente Dilma Rousseff por participar de evento com as Mães da Praça de Maio, na Argentina, sem que ela tenha se reunido antes com os movimentos brasileiros de recuperação da memória da ditadura).

Pesquisa eleitoral – Se feita por instituto correlato à empresa de comunicação, trata-se de evidência inquestionável do que acontecerá nas eleições. Se efetuado por terceiros, trata-se de uma simulação não confiável e tendenciosa, que deve ser posta sob suspeita e questionada judicialmente.

Populista - Designação de qualquer governante que priorizar o bem geral do povo em detrimento das demandas do mercado.

Presunção de Culpa – Inovação cívica trazida pela mídia ao anacrônico modelo jurídico do país. Ao invés de seguir o artigo 5º., inciso VLII da Constituição (“ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”), a imprensa, como Primeiro Poder que é, se dá ao direito de exigir que o acusado prove que não é culpado. Foi identificada pelo professor da UnB e crítico de mídia Venício A. de Lima.

Racismo – Não somos um país racista, portanto a imprensa não pode tratar de um não-assunto.

Radical – Modo como deve ser designado qualquer agente político que não defenda o neoliberalismo.

Tendências – Quesito particularmente importante na área econômica e em pesquisas eleitorais, deve ser auferido através da consulta a fontes, porta-vozes do mercado e eleitores em potencial que tenham em comum o fato de vocalizarem as tendências que o órgão de imprensa quer ver divulgadas em prol de seu próprio interesse.

Tragédia – Se ocorrer em estados administrados pelas forças políticas apoiadas pela imprensa, deve-se responsabilizar a fúria da natureza, os pobres e o governo federal; se ocorrer em estados a cargo das forças que a imprensa combate deve-se culpar o prefeito, o governador, os pobres e o governo federal. De qualquer modo, a cobertura deve sempre explorar ao máximo, sem nenhum pudor, a dor das vítimas e o sentimento sadomasoquista do espectador.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 16 de janeiro de 2011

A Globo e o El País: jornalismo em xeque

Em termos de comunicação, a estratégia que garantiu ao ex-presidente Lula se reeleger e terminar seu segundo mandato com 87% de aprovação popular - a despeito de oito anos de oposição cerrada da mídia, incluindo espasmos golpistas - concentrou-se no seguinte tripé:

  1. Diversificação do investimento da verba publicitária federal, espraiada em pequenas e médias publicações e emissoras de rádio;
  2. Internet (notadamente blogosfera e redes sociais);
  3. Marketing político de primeiro nível, não restrito a campanhas eleitorais.

Mídia internacional
Além desses fatores, a cobertura que grandes veículos da imprensa internacional fizeram da personalidade política de Lula e de seu governo, contraposta à má-vontade e às distorções preconceituosas da mídia nativa, não só tornou evidente o quanto esta oferecia uma visão falsa dos fatos, como forneceu – à história, ao público internacional e a estratos mais antenados no próprio Brasil - um atestado da eficiência da gestão presidencial.

Tal atestado, por sua vez, contradiz as acusações de populismo que, através de ilações entre altas taxas de aprovação e programas de inclusão social como o Bolsa-Família, a mídia corporativa esforçava-se por pespegar em Lula, adotando-as como a explicação virtualmente exclusiva para o sucesso de sua gestão.


Rancor dos derrotados
A vitória eleitoral de Dilma Rousseff representou a derrota do projeto político abraçado pela mídia corporativa nativa. Pois, como escrevi no início da campanha eleitoral, em artigo no Observatório da Imprensa, as eleições de 2010, de caráter eminentemente plebiscitário, não oporiam apenas o projeto de inclusão social em bases pós-keynesianas encarnado pelo lulopetismo e o retorno à ortodoxia neoliberal tucana, mas a efetividade da influência eleitoral da mídia corporativa versus a diversificação desconcentrada e contra-discursiva da internet e dos pequenos media.

Derrotada uma vez mais, resta à velha mídia procurar minar qualquer estratégia comunicacional que contrarie seu projeto político. Na internet, a briga é por uma regularização draconiana, representada pelo projeto do senador Eduardo Azeredo (acusado de ser o principal nome do mensalão tucano e réu em denúncia criminal aceita pelo STF). Já em relação à desconcentração das verbas publicitárias federais, pouco pode fazer, no curto prazo, para revertê-la novamente ao modelo concentrador de que sempre se beneficiou.


Fontes não confiáveis
No entanto, credenciar-se novamente como fonte da imprensa anglo-européia poderia significar a chance tanto de impedir que Dilma, por seus próprios méritos, se beneficie da cobertura jornalística desta (como ocorreu com Lula) quanto de, assim, criar um fator de chantagem, digo, de pressão para demandar maiores verbas federais para suas publicações.

Por tais razões é importante a reação sistemática dos brasileiros contra matéria publicada hoje pelo usualmente sóbrio El País, da Espanha, ecoando uma edição de imagens claramente mal intencionada e JORNALISTICAMENTE CRIMINOSA da Rede Globo – na qual altera flagrantes de momentos de descontração durante a primeira reunião ministerial, em Brasília, com imagens da tragédia das enchentes. Ou seja, que conecta artificialmente dois eventos espacialmente apartados e de diferentes naturezas de modo a, por interesses políticos, manipular emocionalmente os espectadores, num ato de incrível baixeza e falta de profissionalismo.

No texto, o correspondente de longa data Juan Arias – um especialista em Vaticano e escritor de livros com temática espiritual, incluindo um sobre Paulo Coelho – se diz impressionado e indignado pelas imagens. Um jornal do prestígio internacional do El País não pode manter em um país com a atual importância estratégica do Brasil um correspondente que não só se mostra incapaz de identificar o viés fortemente tendencioso da imprensa, mas compra como legítima – e se deixa impressionar por – uma montagem descontextualizada e artificial de imagens que a ética jornalística condena.


É preciso protestar
Ainda antes antes de saber que Eduardo Guimarães publicara um post conclamando seus leitores a escreverem ao jornal espanhol protestando, enviei ao El País um comentário (que foi publicado). Eis a tradução:

“Não é necessário ser um gênio para perceber que não é honesto confundir a atmosfera particular de uma reunião ministerial com a reação de um presidente ante o sofrimento humano causado pelas enchentes. Além disso, o fato é que a reação efetiva de Dilma Rousseff para amenizar os efeitos da tragédia foi rápida e objetiva, visitando as zonas afetadas e autorizando a liberação do equivalente a U$450 milhões. A imprensa brasileira, desde a eleição de Lula da Silva em 2002, atua como um partido político e não pode ser levada a sério. Sinto muito que um jornal supostamente sério como o El País “compre” a campanha infame que os meios corporativos brasileiros movem contra Rousseff. Reproduzir suas mentiras significa enganar os leitores do jornal – como o correspondente Juan Arias, se realmente tem consciência do que ora acontece no Brasil, deveria saber”.
Gostaria de reforçar o apelo de Eduardo e convidar mais pessoas a protestarem. Ressalvo, no entanto, a importância de ser educado e argumentativo, ao invés de se utilizar da agressividade xenófoba que se lê em alguns comentários. Agredir os espanhóis pelo erro do jornal não é inteligente nem adequado (pense: você acharia justo ser ofendido pelo que a mídia brasileira publica?). Não dominando o idioma, talvez seja conveniente valer-se de um tradutor na internet (não são perfeitos mas ajudam), de maneira a fazer com que os leitores espanhóis entendam nossas razões e eventualmente apóiem nosso protesto. O importante é fazer, através do volume de cartas e da sensatez das argumentações, o editor do El País convencer-se de que erraram - e feio.


("Relatividade" (M. C. Escher, 1953) retirado daqui)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O velho jornaleiro

Um dia desses, ao voltar a São Paulo para visitar meus pais, descendo a principal rua do bairro onde morei dos três anos ao final da adolescência – um enclave português no subúrbio –, tomei um susto ao notar que a banca de jornais de “seu” Ari transformara-se em um ponto comercial vulgar, de venda de acessórios para motos.

“Seu” Ari era um nissei muito franzino, de uma educação e de uma dignidade evidentes por trás dos óculos de aros finos e dos cabelos precocemente grisalhos. As primeiras vezes que fui à sua banca – na verdade, uma portinha de um metro de largura, dando em um fundo corredor ladeado por dezenas de revistas - ele devia ter uns 40 e poucos anos e já tinha essa aparência, enquanto eu começava a sair da infância rumo à puberdade.

Foi quando comecei a ler com regularidade jornais e revistas. O Jornal do Brasil já deixara de ser o mítico JB, a grande referência na imprensa brasileira dos anos 60/70, e a Veja era ainda uma revista bem-escrita e com atraente projeto gráfico, e, embora ligeira, às vezes leviana e sempre de má vontade com a cultura nacional, a anos-luz do panfleto obscurantista que ora se tornou.


Aparências mantidas
O grande jornal brasileiro era a Folha de S. Paulo, ainda beneficiário das reformas promovidas por Claudio Abramo e de uma alardeada obsessão pelo profissionalismo que ao menos mantinha as aparências. Nessa época meu interesse por política era superficial, eu tendia a pular os cadernos iniciais e devorar a Ilustrada, que, a cargo de jovens jornalistas – com o reforço de pesos-pesados como Sergio Augusto e, para o bem ou para o mal, Paulo Francis -, modernizava a crítica cultural e, abrindo-se ao universo pop-rock mais atual, ajudava a tornar respirável a lentíssima abertura política que marcou os estertores da ditadura.

Logo, a Folha ganharia ainda mais cacife, ao se transformar no principal porta-voz das Diretas-Já na imprensa.


Tempos idos
Lembro claramente de chegar algumas vezes da balada e, resistindo ao sono e à tentação de afanar um exemplar da pilha que ficava em plena calçada, ao relento, ficar esperando “seu” Ari abrir a banca. Ele aparecia pontualmente às 05h (e ia embora às 19h), e na eventualidade de eu, "durango", ter gastado todo o meu dinheiro na noite, deixava que eu “pendurasse” – e ainda trocava algumas palavras gentis com o pirralho impertinente. Um gentleman.

Eram outros tempos. Hoje sabemos que o outrora promissor jornal tornou-se uma publicação mesquinha, apequenada por um diretor de redação aloprado, que não hesita em publicar fichas policiais falsas na capa, em atacar grosseiramente respeitados professores universitários, em valer-se de um militante desequilibrado para difamar com leviandade o mais popular presidente do país - cujos méritos se recusa a reconhecer - , em criar factóide atrás de factóide no afã de fazer valer seus interesses político-econômicos, dando uma banana para o leitor, cujas opiniões menospreza.

Ou seja, a partir de um certo momento, instaura-se uma incompatibilidade evidente entre uma publicação tão negligente para com a ética profissional e a dignidade civilizada de alguém como “seu” Ari.


Cai o pano

A última vez que o vi, em uma visita anterior a São Paulo, fiquei impressionado ao constatar o quanto envelhecera: os cabelos, agora ralos, tornaram-se todos brancos; estava encurvado, alquebrado pelo peso dos anos, e, por trás dos óculos agora mais grossos, sua fronte se tornara um feixe flácido de rugas. Só restava, no fundo dos olhos, um brilho agudo de sabedoria - e, intacta, sua dignidade.

Não obstante tal constatação, já nessa ocasião a metáfora contrapondo a débâcle física do jornaleiro e a decadência dos jornais e revistas que comercializava impôs-se, epifânica.

A transformação, em um ponto comercial vulgar, da banca de jornais da qual “seu” Ari retirou, por uma vida, seu sustento, forma, assim, uma alegoria - e um presságio – para o destino da grande imprensa brasileira. A qual, ao renunciar ao jornalismo em prol da defesa de interesses corporativos,atentando contra sua função institucional, republicana, e desrespeitando o leitor, só restará cumprir sua sina. E o fará sem um pingo da dignidade do velho jornaleiro.


(Foto retirada daqui)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A volta do "jornalismo do mas"

Ultimamente, parcela da mídia corporativa brasileira, um pouco por começar a inalar o incenso da falência, um pouco para fingir, aos ainda incautos, que pratica jornalismo equilibrado, tem procurado dissimular o ódio a Lula e a Dilma e o apoio ao tucanato e a seu candidato.

Assim, nas últimas semanas têm aparecido em setores da imprensa, com uma freqüência inaudita, artigos aparentemente justos com os fatos, e que insinuam, enfim, reconhecer méritos – esporádicos e mínimos que sejam – em uma administração federal apoiada, segundo as pesquisas, por cerca de 73% da população, em média.

O aparente equilíbrio jornalístico, porém, não resiste a um ou dois parágrafos, pois logo tem lugar o chamado “jornalismo do mas”, em que à mera menção do que possa ser positivo no governo Lula dá lugar a uma avalanche de conjunções adversativas – mas, porém, contudo, todavia, e por aí vai – que introduzem arrazoados sem razão e diabólicas diatribes na tentativa de convencer o leitor de que não é bom o país crescer, que essa história de deixar de obedecer cegamente aos EUA não vai dar certo e que o Bolsa-Família sustenta vagabundos.

Para completar, quando o jornal em questão é a Folha de S. Paulo, ao lado de uma matéria desse tipo há um box, intitulado “outro lado”, que, democraticamente, se dedica a ouvir... o mesmo lado, ou seja, os tucanos, demos e psolentos encarregados de entoar a cantilena dominante no artigo.

Na Folha, aliás, o tal “jornalismo do mas” não é novidade. Só que, no longo período em que o jornal parecia prestes a se tornar uma Veja diária – com direito a ficha falsa na capa, ataque de Frias a professores renomados, "denúncias" de Cesinha e anomalias do tipo -, essa exótica modalidade de jornalismo era de uso prioritário de seus colunistas – os quais, premidos pela necessidade de aparentar isenção, se viam, de quando em quando, obrigados a reconhecer um avanço ou outro, para logo em seguida sapecar um "no entanto" e começar a artilharia anti-Lula.

Por isso, a primeira vez que me apercebi do “jornalismo do mas” foi num artigo sobre Clóvis Rossi que escrevi para o Observatório da Imprensa e depois republiquei, com alterações, no blog. De lá para cá, tornou-se recorrente tal modalidade de apelação pseudo-jornalista, que não se restringe mais ao casmurro colunista e seus colegas que desempenham a mesma função no diário dos Frias.

Aliás, a Folha é, sem dúvida, o órgão que com mais frequência e da maneira mais deslavada tem recorrido a esse estratagema dissimulador, até para tentar convencer que à reforma gráfica recente do jornal, que tornou os infográficos ainda mais coloridos e pululantes, correspondeu uma revisão – com sinal progressista - de sua linha editorial. O que acontece, a bem da verdade, é exatamente o contrário, com colunistas mais liberais – como Paulo Nogueira Batista Jr. – tendo sido defenestrados, substituídos por imberbes colunistas de formação neocon.

O problema é que, longe dos círculos mais informados e da blogosfera de esquerda, há quem se deixe enganar pelo truque. Para meu espanto e decepção, tenho presenciado in loco tal fenômeno.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Serra como o "pós-Lula", ou o cinismo como marketing eleitoral

A tentativa de José Serra de “vender-se” como o pós-Lula, elogiando publicamente e com frequência o atual presidente, embora não deixe de apresentar aspectos risíveis, põe em prática uma das operações de marketing político mais cínicas da história das eleições brasileiras.

Ofensiva ao eleitorado brasileiro - ao qual trata como um ignorante político e um desmemoriado - o oportunismo de Serra no episódio, demeritório para si próprio e para seu passado, equivale a uma desautorização pública de seu partido - que vive, há 8 anos, às turras com Lula.

Se tivéssemos uma imprensa de fato, com um mínimo de vergonha na cara, ela estaria hoje desmascarando essa farsa, com a arma do sarcasmo que tal fanfarrice demanda e com o amplo apoio dos arquivos e dos fatos, sejam estes bem recentes (quando o candidado tucano era governador de São Paulo) ou distantes (referentes ao longo antagonismo não só entre PT e PSDB, mas, incluindo embates eleitorais, entre as figuras de Lula e de Serra).

Porém, em relação a tamanha hipocrisia, os colunistas de política da “grande imprensa”, sempre tão moralistas, fiscalizadores das mínimas derrapadas verbais dos políticos com os quais seus patrões antipatizam – notadamente o presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff -, ostentam um silêncio tão sepulcral quanto epifânico.


Dois pesos, duas medidas
Compara-se a reação desses mercenários do jornalismo com a que tiveram quando o PT passou a flexibilizar suas alianças e orientação política - rumo a um neoliberalismo menos ortodoxo do que o então praticado pelo PSDB – para se ter uma idéia dos reais valores (ou dos valores em reais, como queiram) que regem suas opiniões. Não que a “lulização de Serra” e a “neoliberalização do PT” sejam equivalentes: esta, sem deixar de ser eventualmente criticável, representa um processo de correção de rumo face às condições históricas vivenciado por um número significativo de partidos políticos (como as sociais-democracias européias e o trabalhismo inglês, para ficar em dois exemplos óbvios), enquanto a metamorfose de Serra em admirador de Lula pertence a outra ordem de coisas: a das farsas grotescas.

E não basta invocar a estratégia “Lulinha paz e amor”, proposta por Duda Mendonça e posta em prática pelo candidato petista em 2002, para autorizar a estratégia serrista de marketing, não só porque até tal estratagema o candidato tucano copia – por meio da tal campanha da “meiguice” -, mas porque suavizar o discurso, como o hoje presidente fez, é bem diferente de negar não apenas o próprio passado mas o do partido ao qual é filiado, e passar a forçar a barra para uma identificação com o líder do partido opositor. Seria como se Lula tentasse fingir concordar com Fernando Henrique Cardoso em 2002 – o que nunca fez, até porque, com a popularidade que o ex-presidente tinha, seria um péssimo negócio.


"Última esperança branca"
Se quer ganhar a eleição, Serra não tem mesmo outra alternativa: identificar-se como o tucano que é significa evidenciar sua filiação ao legado de FHC, a quem o povo brasileiro detesta, por conta de seu governo anti-povo, privatista, recessivo, no qual o desemprego bateu recordes (atualmente continua a batê-los, mas em sentido inverso: o de março foi o menor da história desde que o índice começou a ser medido).

Não ter alternativas não é, no entanto, justificativa para a manutenção dessa pantomima ofensiva à democracia. A decência pede, com mais ênfase aos homens públicos, que assumam o seu passado e suas posições político-ideológicas, mesmo que à custa de eventuais sacrifícios eleitorais.


Olho vivo
Denunciar a farsa grotesca do Serra lulista - e enfatizar seus laços com FHC e com o neoliberalismo ortodoxo, inclusive no passado recente como governador paulista - deve ser a prioridade número um da candidatura de Dilma. Isso se também esta não se vir vítima do “tapetão” judiciário ao qual o PSDB tem sistematicamente apelado – e o qual pede redobrada atenção da sociedade civil quanto aos procedimentos da Justiça Eleitoral.

Pois, segundo os jornais de hoje, o programa de TV do PT pode, se o TSE acatar o entendimento da procuradora Sandra Cureau, não ir ao ar devido às acusações que fez ao governo FHC de “só ter governado para os ricos” (ué, cadê os defensores histéricos da liberdade de imprensa agora? sumiram?). Ora, se isso for suficiente para vetar o horário petista, a transformação de Serra em lulista desde criancinha serve com folga ao impedimento do horário tucano. Basta acessar os arquivos e rodar o VT.