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quinta-feira, 24 de maio de 2012

A greve do metrô e os discursos falaciosos

A forma como o governo peessedebista de São Paulo e seu braço ideológico-comunicacional - a mídia corporativa – reagiram à greve dos metroviários evidencia, uma vez mais, a intolerância para com as manifestações reivindicatórias trabalhistas e o caráter profundamente repressor das relações entre poder, comunicação e demandas sociais no estado.

Tendo rejeitado a oportunidade, oferecida pelo sindicato da categoria, de manter o metrô funcionando, com catracas livres, enquanto se desenrolavam as negociações, o governador Geraldo Alckmin preferiu privar a população de usar tal meio de transporte, sob o pretexto de “endurecer” as tratativas, confiante de que a mídia amiga colaboraria na responsabilização dos grevistas pelos transtornos que fatalmente decorreriam de tal decisão.


Pânico em SP
O resultado foi um dia de caos na cidade, cujo trânsito simplesmente travou em diversas regiões, com o recorde de 231 quilômetros de congestionamento impedindo trabalhadores de chegarem a seus empregos, prejudicando o transporte de bens e a oferta de serviços e gerando toda sorte de atrasos e desconforto à população. Para completar, a CET, numa decisão tão precipitada quanto pouco inteligente, suspendeu o rodízio, atulhando as ruas com um acréscimo médio de 20% de carros circulantes justamente num dia em que muitos trocariam o transporte público por veículos próprios.

Como se vê, mesmo se não levarmos em conta sua responsabilidade na penosa situação trabalhista que levou os metroviários à greve, o governo é, em larga medida, responsável pela caótica situação imposta à capital paulista. Porém, logo de manhã o governador Alckmin deu o tom do que seria o discurso das autoridades: jogar a população contra os grevistas, atacá-los pesadamente, promover a velha tática peessedebista da desqualificação das forças que se lhe opõem (chamando, no caso, os grevistas de “grupelho radical”), procurar caracterizar a greve como política e eleitoreira (no que contou com os backing vocais de José Serra, logo ecoados pelas folhas amigas).


Regredimos
Ora, toda greve é política, e é preciso ser ou um completo ignorante em teoria política ou um manipulador mal-intencionado para fingir desconhecer tal obviedade. De modo similar, sendo as eleições um marco cronológico central da agenda política, seria de se esperar uma sua instrumentalização a favor da efetividade dos movimentos reivindicatórios grevistas. Assim é no mundo todo, há tempos. Portanto, nem o fato óbvio de serem as greves políticas, nem a decorrência lógica de apresentarem correlação com as eleições as torna menos legítimas – pelo contrário: sua maior legitimidade justifica-se justamente pelo aumento da possibilidade de seu grau de eficácia. Afinal, como afirma Walter Benjamin, “Se a justiça é o critério dos fins, a legitimidade é o critério dos meios”.

Porém, na anacrônica São Paulo da segunda década do século XIX – digo, XXI -, o discurso de tonalidades fascistoides proferido pelo governador ecoou durante todo o dia, repetido à exaustão nas rádios e TVs, pelo próprio e por seus ventríloquos na mídia, no partido e na militância: a culpa pelo caos na cidade era de grevistas fora da lei, manipulados por pequenos partidos de esquerda que, por sua vez [e contrariando sua atuação efetiva nas casas legislativas] estavam a serviço, naturalmente, do PT. 


Jornais que ladrem
Enquanto nas ruas, nos lares e nas redes sociais mitômanos tucanos praticavam tais modalidades de escapismo, a mídia corporativa se esmerava em produzir uma narrativa jornalística cujo fim precípuo era atacar ou criminalizar o movimento trabalhista, incluindo manchetes como “Metroviários cobram de barriga cheia” e o grande destaque dado à fala do eterno candidato Serra segundo quem "Metrô e CPTM sofrem com sabotagens" (afirmação com a qual se pode eventualmente até concordar, a depender de a quem se atribui a sabotagem, se aos governantes ou a outrem). 

Destacou-se, particularmente, pela agressividade inaudita com que atacou os grevistas, o Jornal da Globo, que tem se constituído, cada vez mais, em exemplo de jornalismo sacrificado em prol do faccionismo político-partidário, constituindo-se, assim, em matriz do conservadorismo mais tacanho na programação “noticiosa” da TV aberta. Lugar-comum a virtualmente todas as coberturas, é "a greve" quem teria provocado o caos, e nunca a incompetência dos governantes para bem administrar os transportes, evitando-a.

Não é preciso evocar a imaginação para projetarmos como seria a reação dessa mesma mídia se se tratasse de um governante petista, ao invés de um tucano, a enfrentar paralisações reivindicatórias no setor de transportes: com efeito, conserva-se fresca na memória da democracia brasileira a forma implacavelmente acusatória como as ex-prefeitas Luiza Erundina e Marta Suplicy foram responsabilizadas pelos locautes patronais que deixaram milhões de paulistanos sem transporte, quando o que estava em jogo era tão-somente o aumento dos lucros já exorbitantes proporcionados pela exploração, nas condições sabidas, do transporte público na cidade - e não o aumento do salário-base de trabalhadores, de aviltantes R$ 1.154 para insuficientes R$1.225, como na greve de ontem.


Gás, bomba
Para completar o cenário protofascista da São Paulo de nossos dias não poderia faltar a violência policial, praxe de qualquer manifestação realmente popular no estado – o que exclui, evidentemente, “cansados” e neoudenistas de escol. Ontem, só para variar, manifestantes, grevistas e hordas de trabalhadores foram reprimidos com bombas de efeito moral e balas de borracha em pelo menos dois pontos da cidade (Largo Treze de Maio, em Santo Amaro e nas imediações da estação Corinthians-Itaquera do metrô).

Graças a tal quadro, o clima que se respira hoje na maior cidade do país, no campus da Cidade Universitária ou em qualquer espaço público em que se concentrem grupos de populares – seja para reivindicações, protestos ou lazer – se assemelha demais e perigosamente àquele dos anos de ditadura, com a presença ostensiva de forças policiais e a possibilidade iminente de repressão violenta, mesmo quando o processo é pacífico e a legalidade de sua realização assegurada por decisão judicial, como se viu recentemente. Nas manifestações de ontem, uma mulher foi presa acusada de incitar o depredamento de estação e de desacato. A pergunta que fica é: não haveria outro modo de uma força policial com dezenas de profissionais lidar com uma só protestante mais exaltada?


Mediadora propôs aumento maior
Enquanto isso, o mandatário de voz mansa e mão pesada sussurrava para a mídia que "A greve é cruel", como se se referisse a um ente autônomo que, para existir ou deixar de acontecer, não dependesse das ações que ele próprio, como governador, decidisse tomar ou deixar de tomar.

Ao final do dia, evidenciando, uma vez mais, que todo o transtorno imposto à população poderia ter sido evitado com um mínimo de responsabilidade administrativa, respeito aos paulistanos e melhor equacionamento de despesas governamentais (cortando, por exemplo, os milhões que gasta comprando, sem licitação, a revista Veja ou a Folha de S. Paulo), o governo aumentou sua oferta de aumento salarial para 6,17% e de correção percentual de benefícios em índices bem menores do que os reivindicados. Mesmo estando abaixo dos 6,45% propostos, em audiência conciliatória, pela desembargadora Anélia Li Chum e muito aquém dos 14,99% de aumento real reivindicado pelos metroviários, estes, deixando claro que não são os intransigentes nem os vilões da história, fecharam um acordo e voltaram aos trabalhos. 

Aguardarão agora, como não poderia deixar de ser na São Paulo atual, pelas investigações que nada menos do que três promotorias, designadas pelo Ministério Público, farão sobre a greve de um dia.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Metrô tucano põe população em risco


 O Metrô de São Paulo foi, durante anos, modelo de transporte urbano na América do Sul. Tenho um tio que desempenhou um papel de alguma importância na concepção e implementação da primeira linha, inaugurada em 1972, e, embora eu fosse muito pequeno para lembrar, sei que ele viajara anos antes ao México para estudar o metrô da capital daquele país, que teria sido a principal referência para seu similar paulistano.


Piora sensível
No decorrer de pelo menos duas décadas, “pegar o metrô” em São Paulo era não apenas usufruir de um meio de transporte rápido e eficiente, mas vivenciar uma experiência urbana que tinha até um certo charme, advindo do ar futurista do trem e das estações, da atmosfera clean, da sensação de frescor proporcionada pelo sistema de ventilação, da civilidade de quase sempre viajar sentado, lendo um livro ou vendo as moças, sem qualquer preocupação com acidentes ou assaltos.

O tom saudosista do parágrafo acima não é gratuito. O caráter idílico-modernista das viagens de metrô pertence a um passado distante, e há tempos que fazer uso de tal meio de transporte corresponde, na mais das vezes, a vivenciar uma experiência que oscila do penoso ao insuportável.


Denúncias e mortes
A passagem de um passado modelar para um presente infernal é reflexo direto do descaso com que os governos peessedebistas – no poder há mais de 17 anos – vêm tratando os serviços essenciais à população, seja no transporte, na saúde ou na educação.

No caso do Metrô, a situação se agrava a partir da primeira eleição de Geraldo Alkmin para governador, seguida da temerária gestão Serra. No período, iniciam uma queda de braço com o sindicato e com a Justiça por quererem impor um modelo de privatização do tipo UPP em que o Estado não só garante um faturamento mínimo (e o cobre, com dinheiro do contribuinte, se não alcançado), como ainda investe cerca de 73% do custo das obras, mais melhorias eventuais.

O resultado não demora a aparecer: em meio a denúncias acerca da qualidade do material empregado na construção e das condições de insegurança dos trabalhadores, em janeiro de 2007 ocorre um desabamento de grandes proporções em um dos canteiros de obra da Via Amarela, na Marginal Pinheiros, gerando uma cratera enorme (foto), no maior acidente em obras de transporte da história da cidade, que matou sete pessoas, interditou 55 casas, sete das quais tiveram de ser demolidas. Blindado pela mídia, como de costume, a reação de Serra foi se esconder e fingir que não era com ele. O caso dorme na letárgica Justiça paulista.


Lata de sardinha
A partir daí, o sucateamento do metrô é cada dia mais visível, até chegar ao caos de nosso dias: há uma redução drástica de bilheterias abertas, provocando enormes filas; todas as linhas pioram, particularmente a linha Vermelha (Leste-Oeste), que atinge um ponto de saturação, fazendo com que viajar em seus trens entre as seis e as nove da manhã e entre as  17 e 20 horas, em vagões muito mais lotados do que o humanamente tolerável, signifique enfrentar um desconforto extremo, correndo risco de asfixia, torções e fraturas.

Em épocas eleitorais, o governo inaugura, com muito marketing e carnaval da mídia amiga, um par de estações, enquanto achata os salários dos trabalhadores (do que foi, um dia, um setor trabalhista cobiçado pelo funcionalismo estadual). Fora isso, a única coisa que tem avançado no metrô paulistano é o preço da passagem, que há anos não conta mais com os bilhetes múltiplos que aliviavam o bolso dos usuários. Na outra ponta, o sindicato vem há tempos fazendo alertas a repeito de sobrecarga de trabalho, pessoal insuficiente e riscos iminentes.


Crônica de uma tragédia anunciada
O acidente de hoje, que feriu 107 pessoas, era, portanto, uma possibilidade no ar, perceptível por qualquer pessoa com senso de atenção, e prenunciado repetidas vezes por sindicalistas, experts e por aqueles minimamente familiarizados com a derrocada do metrô. E é importante ter-se claro que a batida entre os trens só não resultou em uma tragédia de proporções maiores graças à destreza de um dos condutores, que acionou o modo manual a tempo de frear (quando o sistema automático dera um comando para o trem acelerar em direção a outro parado à sua frente).

Porém, que sirva como um alerta: se nada de realmente efetivo, para além das maquiagens, panaceias e truques eleitorais, for feito, se o porquê de não ter sido verificada a denúncia sobre falhas que o diretor do sindicato alega ter recebido, o risco de tragédia continua, infelizmente, iminente.


(Imagens retiradas daqui e dali)