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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Muito além de um panelaço

O panelaço de ontem à noite foi o maior e mais amplo protesto do tipo já ocorrido no Brasil.

Mente quem continua a sustentar que se trata de um movimento restrito à zona sul de São Paulo ou do Rio. Relatos, a quente, dão conta de que ontem a manifestação foi intensa em todas as capitais do Sul e do Sudeste, no ABCD e no interior de São Paulo, em Goiânia e Brasília e até em capitais nordestinas (antes de predomínio petista) como Maceió, Natal e Recife.

O avanço do protesto para áreas menos abastadas foi, em São Paulo e no Rio, um fato. Tanto a área central dessas cidades quanto alguns dos bairros intermediários entre os de classe média e os mais periféricos tiveram inéditos panelaços que, durante os longos minutos de duração do programa eleitoral petista na TV,  produziram um barulho ensurdecedor, intensificado por buzinas e apitos e entrecortado por gritos de protesto.

Ficou mais uma vez claro que vivemos, hoje, em um país no qual a presidente não pode aparecer em público sem ser recebida por um coro de vaias e em que o partido vencedor das eleições presidenciais desperta panelaços quando é sua vez de veicular seu programa televisivo.



A desqualificação como tática
São fatos, ancorados na realidade, mas ainda assim continuam a ser negados pelos governistas, cuja reação ao panelaço foi a de sempre: desqualificá-lo. Até nisso os petistas estão cada vez mais parecidos com os neoconservadores: substituíram o diálogo pela desqualificação agressiva.

As reações de ontem corroboram tal premissa: “coxinhas” e “alienados”, dentre as denominações publicáveis, foram os adjetivos mais gentis endereçados a quem protestou batendo panela. Uma modalidade de protesto que, na visão dos governistas, vai do “não vale” ao “simplesmente ridícula”. Protesto válido, para eles, só os a favor.

Nesse esforço para desqualificar uma manifestação popular espontânea, com mais participação das classes médias, a pérola maior foi uma comparação. “Contra o massacre dos professores no Paraná ninguém bateu panela” e frases similares pipocaram nas redes sociais.

Trata-se de uma injustiça e de uma comparação despropositada.



Significados do panelaço
Em primeiro lugar, porque a reação ao massacre tucano contra os professores foi das mais expressivas, na internet e fora dela, chegando a gerar, na verdade, uma quase-unanimidade, o que fez com que até os fóruns dos grandes portais – lar por excelência do conservadorismo mais tacanho – coletassem milhares de opiniões condenando a brutalidade policial.

Em segundo lugar, por uma questão de afinidade entre a modalidade de protesto, aquilo contra qual se está protestando e a oportunidade do protesto. Ou seja, a forma de protesto panelaço, rara no Brasil, não foi escolhida à toa, assim como não é por acaso que foi deflagrada enquanto durou o programa eleitoral do PT.

Pois existem duas significações evidentes diretamente conectadas ao panelaço de ontem: a primeira é a tentativa de condenar publicamente o Partido dos Trabalhadores, com o barulho das panelas impondo-se, em volume e conotação , ao discurso marqueteiro do programa do partido, que o baticum denunciou como falso e artificioso. Eis o resultado da traição eleitoral de Dilma, que na campanha presidencial vendeu um país de comercial de margarina e agora corta na carne e nos direitos dos trabalhadores.

A segunda significação do panelaço vem da própria escolha de panelas como “instrumento de percussão” privilegiado do protesto, numa clara alusão à carestia e aos aumentos cumulativos da carne e dos demais itens alimentares básicos, cujo consumo a inflação real (muito mais alta do que a oficial, como constata qualquer pessoa que faça compras regularmente) ora impede ou diminui.



Despropósito e omissão
São essas as razões que tornam improcedente a cobrança por panelaço contra o massacre dos professores pela PM paranaense, sob o comando do governador tucano Beto Richa. Tal carnificina, por sua própria natureza, seu caráter único, inesperado, geograficamente localizado, protagonizado por forças estaduais, sem um referencial nacional que pudesse delimitar o horário e a duração da manifestação, demandou outras modalidades de protestos – que, se não foram suficientes (nunca seriam), não foram poucas nem restritas, mobilizando intensamente a blogosfera, as redes sociais, órgãos da sociedade civil organizada e, sobretudo, a efetiva solidariedade da população paranaense aos professores em greve.

Mas, se os governistas querem comparar protestos, seria mais justo que se valessem de  eventos similares, contrapondo o ocorrido no Paraná a, por exemplo, o espancamento de professores em greve pela Guarda Municipal de Goiânia, sob o comando do prefeito petista Paulo Garcia, ocorrido no último dia 24. Porém, quanto a esse ato de violência oficial, nos blogs e demais hordas petistas, reina o mais obsequioso silêncio.



A voz das panelas
Voltando ao panelaço de ontem, é preciso atentar para uma terceira significação, das mais urgentes: o fato de se dar no momento em que o PT, após semanas questionando o ajuste fiscal brutal que o governo Dilma enviou à Câmara, parou de fazer teatrinho e admitiu que vai votar a favor. Trata-se da consumação da traição eleitoral de um partido dito dos trabalhadores, mas que vai ser cúmplice em um enorme sacrifício de direitos, empregos e renda, através de uma medida que penaliza desempregados, viúvas de inválidos e trabalhadores de baixa renda, enquanto conserva intactos as grandes fortunas e os lucros pornográficos dos bancos e das teles.

E tudo isso para quê? Unicamente para satisfazer aos caprichos do mercado financeiro, cumprindo uma meta irreal de superávit primário, ou seja, de dinheiro que deixa de ser investido no país e é entregue aos bancos para fazer caixa, provando que o governo consegue poupar.

O resultado já se faz sentir, no crescimento dos índices de pobreza, na expulsão da classe C do paraíso da classe média, nos cortes do financiamento estudantil (FIES) (em mais uma evidência de que a alegada prioridade à Educação não passa de discurso de campanha). Um quadro que, segundo especialistas dos mais variados matizes, tende a se agravar ao menos até o final do ano que vem.



Mundo da fantasia
É evidente que essa administração irresponsável dos bens públicos, impondo um retrocesso econômico duríssimo ao país, nada tem de esquerda. Trata-se de uma medida que em nada difere daquelas adotadas quando da vigência do neoliberalismo ortodoxo do período FHC.

A claque petista na internet, no entanto, liderada pelos blogueiros “progressistas” (sic), continua em estado de negação e, enquanto se empenha na desqualificação de tudos e de todos que não aceitam passivamente a traição eleitoral perpetuada por Dilma e pelo partdo, apoia cegamente a transformação do PT em força-auxiliar do neoliberalismo.

Mas começa-se a se quebrar, felizmente, o cordão de silêncio, inação e temor em relação ao estalinismo tacanho dos governistas. Esta semana o jornalista Celso Lungaretti publicou um corajoso artigo no qual critica os “blogueiros amestrados (…) que em todos os assuntos se posicionam levando em conta unicamente conveniências palacianas.”. Que mais vozes se somem à denúncia desse conluio de fanáticos, que promovem de bom grado a negação da realidade em nome do engajamento partidário.



Crepúsculo de um partido
Passa da hora de Dilma e o PT assumirem o ônus de sua traição – que não se limita ao estelionato eleitoral praticado na última eleição, dizendo, na verdade, respeito a todo um processo de aproximação e mimetismo com a pior direita - e, concomitantemente, de cooptação e enfraquecimento da esquerda, que hoje, aliada ou não ao petismo e ainda que de forma injusta, improcedente e inadvertida, paga o preço das imposturas petistas.

Há alternativas à redenção total ao mercado, mas para isso seria preciso, além de decência e compromisso com o povo, vontade política – itens que o petismo, em conluio com o mercado e presa do marketing político aético de João Santana, não tem mais capacidade ou interesse de oferecer.

E um número cada vez maior de cidadãos e cidadãs sabe disso – e, por ora, enquanto as eleições não chegam, manifesta sua indignação e revolta batendo panelas.




(Foto retirada daqui)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O massacre contra os professores

Mais um espetáculo de covardia e desrespeito ao ser humano, desta vez protagonizado pela PM do Paraná, agredindo com extrema violência professores desarmados.

As imagens mostram dezenas de homens e mulheres banhados em sangue, com hematomas pelo corpo, alguns com feridas abertas, outros desmaiados.
O pior é que isso está longe de configurar novidade: nos últimos anos - um período de plena democracia, reza a lenda - tornou-se rotina a repressão violenta e desproporcional contra manifestantes pacíficos, que exerciam o direito constitucional ao protesto.
E por que os professores paranaenses apanham? Por se manifestarem contra a tentativa do governo de Beto Richa (PSDB) de usar a previdência dos aposentados com mais de 73 anos para pagar a dívida pública, em mais um caso flagrante de violação de direitos.

Antes que os fanáticos de lado a lado tentem partidarizar a violência, convém lembrar que, se um governo tucano é o carrasco de hoje, na semana passada esse papel foi do prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT/GO), e sua Guarda Municipal- e em 2011 a (ir)responsabilidade foi de DIlma, no espancamento dos profesores ocorrido em frente ao MEC.


Além disso, nos últimos anos, no histórico do uso da violência contra manifestantes pacíficos, aparecem vários governantes desses dois partidos cada vez mais indistinguíveis entre si, farinha do mesmo saco.


Pátria Educadora?
Políticos só exaltam a Educação no momento de pedir votos. No resto do tempo, os professores são desprezados pelo poder, humilhados e mal pagos.

Agora, querem calá-los a ponta de baioneta. Haverá um limite para o autoritarismo e a falta de sensibilidade social dos atuais governantes brasileiros?