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domingo, 19 de julho de 2009

Adivinhe quem vem pra jantar?

Chega amanhã ao Brasil o ministro das relações exteriores de Israel, Avigdor Lieberman. A pátria amada, mãe gentil é a primeira etapa de uma viagem de 10 dias à América do Sul. Oficialmente, ele quer "diminuir a influência do Irã" na região e discutir com autoridades argentinas os rumos da investigação recém-reaberta sobre o atentado à AMIA (Asociación Mutual Israelita Argentina), que ontem completou 15 anos e foi objeto de boa matéria no El País. Extra-oficialmente, haverá tratativas com a Colômbia no sentido de reforçar o papel de base militar estratégica para o conservadorismo imperialista no continente ao qual o país dos inolvidáveis Higuita e Valderrama tem-se prestado.

Lieberman é um judeu nascido na Moldávia soviética, que na juventude trabalhou como leão-de-chácara e flertou com grupos sionistas radicais. Agora, pragmático, "refinou" suas posições: apregoa que sejam assassinados os congressistas árabes do Parlamento de Israel que se encontraram com o Hamás e afogados no Mar Morto os prisioneiros palestinos (cavalheiro como ele só, ofereceu ônibus para transportâ-los aos navios).

Quando o troglodita dá lugar ao demagogo, avultam suas ideias mais comedidas. Estas dizem respeito ao remodelamento da fronteira entre Israel e Palestina de forma a permitir ao país que ele representa instalar enormes assentamentos árabes-judeus na área. Ele defende também que tanto árabes que moram nos assentamentos quanto até mesmo judeus devem assinar um juramento de lealdade a Israel ou perder o direito a voto. Um democrata inato, como se vê.

Abaixo, algumas das pérolas do pensamento progressista de nosso próximo visitante internacional, citadas pelo maldoso Argemiro Ferreira:

- Em 1998, defende a inundação do Egito através do bombardeio da Represa de Assuã;

- Em 2002, declara aos palestinos: "Às 8 da manhã nós vamos bombardear todos os seus centros comerciais, à meia-noite as estações de gás, e às duas horas vamos bombardear seus bancos”;

- Em dezembro de 2008, defende o uso de armas químicas e nucleares contra a Faixa de Gaza, afirmando que seria “perda de tempo usar armas convencionais. Devemos jogar uma bomba atômica em Gaza para reduzir o tempo de conflito, assim como os EUA atacaram em Hiroshima na Segunda Guerra”.

Pausa para respirar.

Como (não) se sabe, a população palestina vem sendo oprimida de forma (ainda mais) intensa desde janeiro de 2006, com a vitória do Hamás nas eleições parlamentares - eleições estas consideradas honestas por observadores internacionais, incluindo o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter. Trata-se do cúmulo do cinismo e da perversidade: assassina-se Yasser Arafat e assenta-se as bases para eleições na Palestina. Porém, o resultado, embora obtido através dos métodos democráticos que os EUA alegam seguir e defender, desagrada a Bush e Israel. Segue-se um dos piores boicotes aos palestinos em sua história plena de opressão e sangue, com fechamento de fronteiras, racionamento de petróleo e de água potável e cerceamento de socorro médico a feridos e a pacientes necessitados de atendimento de urgência - o horror em pleno século XXI.

Como consequência dessa barbárie - que dá, mais uma vez, razão ao título que o jornalista Fausto Wolff deu ao seu pequeno grande livro sobre a questão, "Palestinos, os judeus da III Guerra Mundial" - gerações de palestinos estão sendo esmagadas. Os reflexos dessa barbárie continuada e "naturalizada" mostram-se cruéis até para a psique de inocentes crianças, como texto traduzido por Cesar Schirmer aborda com contudência, ao relatar o pânico que lhes provoca a idéia de viajar de avião, por associarem o engenho a bombardeios e sofrimento e não a facilidades de transporte.

Inútil gastar palavras repisando que a cobertura da mídia - internacional ou nacional, no Brasil ou fora dele - omite-se de forma criminosa em relação ao que se passa na Palestina e quanto ao terrorismo de Estado praticado por Israel. Trata-se de um fato, há anos imutável, cujas razões - por economia de espaço e por economia emocional - não pretendo aqui examinar.

Mas quem sabe ainda valha a pena assinalar ao menos a lógica do "dois pesos, duas medidas" que rege a cobertura que a imprensa nacional destina a assuntos internos referentes ao Oriente Médio. Pois, como aponta Ferreira, "Nos meses de abril e maio passado, a mídia hegemônica fez um baita escândalo contra a visita ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que estava agendada há meses para assinar vários acordos comerciais de interesse dos dois países". A visita, como se sabe, não aconteceu (segundo o governo israelense, em decorrência de sua influência), embora tenha sido tema das mais prestigiosas colunas da imprensa nativa, invariavelmente expressando a ira santa dos respectivos jornalistas contra o lunático iraniano.

Agora, um silêncio bovino de nossa "grande mídia" antecede a iminente chegada de Lieberman, uma excrescência fora de seu tempo, um açougueiro brincando de chanceler; um político que, em caricaturas que proliferam na internet, é reiteradamente comparado a Hitler. Um pouco de exagero, convenhamos. Um pouco. O brigadeiro Burnier, do caso Para-SAR, talvez fosse um modelo (sic) de comparação mais apropriado.

P.S. Para não dizer que a apatia é total, há pequenas manifestações contra Lieberman planejadas para acontecer nos próximos dias - como esta, em Curitiba.

(Fotografia retirada daqui)