Retuitado pelo prezado jornalista @Amauri, o texto me deu uma saudade danada do lugar – que eu, apesar de ser paulistano, também tive em minha vida.
Passei a frequentá-lo quando o novo samba carioca apenas começava a revitalizar a Lapa, tornada ainda mais decadente após a decisão do prefeito recém-eleito Luiz Paulo Conde de fechar o Circo Voador, por lá ter sido vaiado e “saudado” com latas de cerveja ao subir no palco, para comemorar a vitória, em pleno show da banda punk Ratos de Porão. (O que será que o sem-noção esperava? Talco no bumbum?)
Vi as primeiras apresentações de Teresa Cristina no Semente, na esquina sob os arcos, de frente para o boteco de paredes laranjas. “Vi” é maneira de dizer. Éramos universitários, durangos, e ficávamos na calçada, tomando cerveja y otras cositas más, conversando, namorando e espiando pela janela aquela cantora de voz forte e repertório “de raiz”, que parecia uma Clara Nunes rediviva.
Só uma vez, no dia do meu aniversário, eu e um grupo reduzido entramos no Semente e vimos o espetáculo comme Il faut. Dei sorte: foi uma noite deliciosa, com vários convidados especiais dando canja - o show nesse dia atravessou madrugada, com Teresa Cristina voltando várias vezes ao palco. Nunca reconheci, nos (bons) discos que ela viria a gravar posteriormente, a intérprete vibrante e natural, de alto calibre, desses dias “heróicos”.
Desse modo, embora o bairro, com casas caindo aos pedaços e dominado pelo baixo meretrício (e “travestício”, sobretudo), estivesse num de seus piores momentos quando me mudei para o Rio, ainda assim algo ali me pareceu atraente, talvez por remeter às fantasias do submundo
Das noites seminais (êpa) ouvindo Teresa Cristina no Semente até meados de 2001 – quando novas casas de show, bares e demais espaços culturais já marcavam presença e o samba ressurgia como fenômeno urbano-cultural - eu ia todos os finais de semana à Lapa, e às vezes várias vezes numa mesma semana. Era uma espécie de ponto de encontro da galera que fazia cinema. Tenho histórias hilárias – a maioria impublicável – dessa época, em que não poucas vezes varávamos a noite, indo para casa no domingo de manhã. Lembro também de um carnaval memorável lá, de virar noite e dia ininterruptamente, celebrando até a quarta-feira de cinzas.
Mas a partir de uma certa época a Lapa começou a ficar muito lotada, a abrir muitas biroscas duvidáveis e a gerar muita briga entre os pit boys (essa praga carioca) e o pessoal mais barra-pesada do bairro. Chegou uma hora que eu e a maioria dos meus amigos e amigas passamos a frequentá-lo de forma mais espaçada – até que deixou de ser um ponto de encontro e passou a ser uma opção a mais, e das menos prestigiadas porque muito crowd.
O lado bom foi que com o passar do tempo fui deixando de ser o universitário durango e pude enfim conhecer e incorporar, como ritual boêmio para ocasiões especiais, os prazeres etílico-gastronômicos da Lapa, que atualmente eu resumiria ao Bacalhau à Espanhola do Cosmopolita, ao Patê de Fígado com pão preto ou ao Presunto Parma do Bar Brasil e, entre várias outras boas opções, ao Leitão (ou ao Cabrito com Arroz de Brócolis) do Nova Capela. Sendo que todos esses estabelecimentos – o Bar Brasil, sobretudo – oferecem um ótimo chopp Brahma, entre os melhores da cidade. Até 2005, quando me mudei do Rio, esses bares estiveram entre os meus favoritos.
Uma noite que lembro com particular carinho foi quando, após ter levado minha irmã mais nova,
Aliás, um passeio que eu recomendo com louvor é, num fim de tarde ensolarado, pegar o bondinho no ponto inicial, passar por cima dos arcos se deslumbrando com a paisagem, descer em Santa Teresa, flanar pelas galerias e ateliês do bairro, petiscar um pouco por lá e descer para a Lapa a pé pelas ladeiras, para curtir a noite.
Apesar dos problemas que o excesso de exploração comercial legou, fico feliz que a Lapa seja de novo o centro nevrálgico da vida boêmia carioca (ainda que alguns tijucanos xiitas torçam o nariz). É um bairro que tem história e atmosfera e é autenticamente popular. Sempre vale uma visita.