Os textos deste blog estão sob licença

Creative Commons License
Mostrando postagens com marcador Jornal Nacional. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jornal Nacional. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Energia elétrica: mídia espalha o pânico, governo não se faz ouvir

Tanto a mídia corporativa fez, que conseguiu: a possibilidade de racionamento de energia elétrica é hoje um tema na ordem do dia nos redutos da classe média, nas redes sociais, nas conversas ao acaso com pessoas das mais diversas origens e tendências políticas – ou de nenhuma.

E, embora a administração federal garanta reiteradamente e com todas as letras que não há a menor possibilidade de que o racionamento venha a se efetivar, estamos diante de uma situação na qual fica evidente que o poder de comunicação do governo Dilma não é páreo para o dos conglomerados midiáticos, que já há tempos vêm trabalhando de forma orquestrada, com um discurso previamente combinado.

Na Folha de S. Paulo que chegou às bancas ontem de manhã, a inacreditável Eliane Cantanhêde teve o desplante de transformar uma reunião rotineira, agendada há meses, em reunião de emergência para discutir medidas ante a escassez de recursos energéticos – nominalmente, o racionamento. À noite, o Jornal Nacional mostrou cenas gravadas em dois reservatórios com volumes bem baixos de água e ouviu – adivinhem – um especialista que corroborou a ameaça de racionamento. Não dimensionou, no entanto, o "peso" proporcional dos dois reservatórios em relação ao total de energia produzida no país, não deu dados precisos sobre a situação do sistema como um todo, nem identificou as credenciais ideológicas do indefectível expert – entidade que, no jornalismo brasileiro, é como prostituta: fala o que o contratante quer ouvir. É bem provável, porém que, dado o poder imanente às imagens e à narrativa jornalística, contrapostos ao baixo nível de formação cultural da maioria da população, tal matéria venha a convencer os incautos.


Interesses contrariados
É sabido que Dilma Rousseff cutucou a onça com vara curta ao insistir na redução do preço final da energia elétrica, uma medida salutar ao bolso dos cidadãos e como forma de incentivo à economia produtiva. Aos dissabores provocados por tal insistência, manifestados por porta-vozes de empresas do sistema elétrico ligadas ao tucanato e que incluíram ameaças não muito veladas de boicote e sabotagem, somam-se contrariedades anteriores de setores da elite nacional advindas da redução expressiva da taxa SELIC e da primazia que o governo tem concedido aos investimentos diretos em produção em detrimento da atenção de décadas ao capital financeiro especulativo. Não se promove tais mudanças impunemente.

Ocorre, porém, que, prenunciada por suspeitíssimos e frequentes blackouts regionais, a campanha insidiosa e ininterrupta da mídia corporativa acerca da questão energética e da ameaça de racionamento, mesmo que a rigor falsa, começa a gerar consequências potencialmente perigosas ao país – pois pode funcionar como um fator a mais de precaução por parte dos empresários interessados em investir no Brasil – e à imagem de Dilma Rousseff, a quem procura-se pespegar o rótulo de incompetente e teimosa por insistir no barateamento da energia elétrica em um cenário de alegada crise energética - que tal medida, carimbada de populista pelo conservadorismo, tenderia a agravar ainda mais.

O fato de o noticiário alarmista ocupar um espaço e gozar de um alcance desproporcionalmente maiores, se comparados aos disponíveis para a resposta governamental, além de evidenciar, uma vez mais, a gravidade da crise ética da mídia brasileira – que não só se abstém de cumprir seu papel de reprodutora dos fatos, mas mostra-se engajada em uma campanha difamatória descolada da realidade -, deixa claro o absurdo de o governo continuar a sustentar, com verbas publicitárias, uma tal forma de mau jornalismo, contrário aos próprios interesses públicos que deveria representar.

Mais do que claro está, porém, que o goveno Dilma Rousseff não está disposto a comprar essa briga. A milionária bolsa-mídia continuará a encher os bolsos da plutocracia midiática, mesmo que esta insista em promover campanhas difamatórias mentirosas no lugar do que deveria ser uma atividade jornalística de valores republicanos, que respeitasse o público que a sustenta através dos impostos que paga. Dentre os louváveis avanços sociais que as três administrações federais comandadas pelo PT certamente legarão ao país não se encontrará, infelizmente, a democratização dos meios de comunicação.


Por uma nova imprensa
Ainda assim, e face a mais este grave episódio de desinformação e de manipulação da percepção do público acerca de tema de suma importância para a economia, em diversos níveis, e para a população, em seu dia a dia, não parece despropositado questionar se, ante a inação do governo na área comunicacional, não seria o caso de o próprio PT mobilizar-se junto ao empresariado que hoje apoia o partido e convencê-lo da necessidade da criação de um órgão de imprensa de alcance nacional, com uma redação pequena mas com profissionais gabaritados e blogueiros de talento, que oferecesse nem mais, nem menos do que um jornalismo profissional, interessado em apurar os fatos e difundi-los, em entrevistar os dois ou demais lados de cada questão e reproduzir-lhes as vozes, em opinar de forma ponderada e racional, liberta de compromissos partidários evidentes. 

Um Última Hora, de Samuel Wainer, sem a participação direta do governo, que se mantivesse com a venda avulsa, as assinaturas, os patrocínios estatais que angariasse, sua parte nas verbas publicitárias que o governo rateia.  Ainda que um eventual prejízo fosse inevitável, um rateio de quando em quando para minimizá-lo seria um preço aceitável a se pagar pela manutenção de um jornal diário digno do nome.

Trata-se de uma demanda urgente, que certamente teria acolhida entre um número enorme de potenciais leitores que simplesmente perderam a fé na mídia que o Brasil tem hoje e anseiam por um jornal que possa ser apreciado sem que o leitor sinta-se constantemente espancado no fígado, tratado como um idiota e insultado como cidadão. 


(Imagem retirada daqui

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Serra no Jornal Nacional

A entrevista do Jornal Nacional com José Serra, ontem, embora menos leniente do que a realizada no primeiro turno, tornou evidente, uma vez mais, algumas das deficiências técnicas do jornalismo brasileiro.

Pois se há, em graus variados - e ora em profusão -, manipulações e práticas inaceitáveis no jornalismo nacional decorrentes dos interesses das corporações midiáticas, não deixa também de haver outras que derivam de vícios profissionais e de defasagem técnica - se comparadas aos padrões do jornalismo de ponta internacional.

É exemplar nesse sentido o suadouro que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tomou em programas de entrevista anglo-americanos, notadamente no Hard Talk: desacostumado às perguntas frontais e em ser corrigido pelo repórter – este de posse de dados atualizados -, o ex-presidente, habituado a ser tratado como um príncipe pelos jornalistas durante seus dois mandatos, mostrava-se estupefato.

Em entrevistas, duas das habilidades que mais faltam ao jornalismo nativo são:
1) o recurso a dados e fatos como forma de contradizer conteúdos comprovadamente inverídicos da fala do entrevistado;

2)A capacidade de intervir – de forma polida, mas efetiva – na fala do entrevistado de modo a evitar que ele introduza novos temas e descarte o assunto polêmico.

São habilidades que exigem uma equipe profissional e treinada – o que o JN certamente tem – e jornalistas com destreza e genuíno interesse investigativo – o que não é exatamente o caso do casal Bonner ou do jornalismo global de modo geral, manietado que é por uma política editorial tendenciosa.

Apesar de tais limites, a entrevista com o candidato José Serra ontem poderia ter sido um evento jornalístico de alto nível se não acontecessem alguns disparates, tais como deixar de refutar, com dados e fatos, a resposta em que Serra se desvencilha da acusação de ter trazido a questão do aborto à campanha, afirmando que quem o fez foi Dilma (como se esta tivesse algum interesse em levantar o tema).

Quando, em entrevista a um candidato à Presidência, o jornalista se cala ante uma resposta que contraria um fato notório, facilmente atestável pela consulta aos arquivos da emissora, mostra-se leniente, deixando de cumprir sua função precípua de informar a população.

Pois, em tal momento da entrevista, o que um jornalista profissional de alto nível faria seria interromper a fala leviana de Serra e objetar, exibindo nas mãos as fontes da informação: “Mas candidato, nós temos aqui a prova que o senhor foi o primeiro a abordar o tema no dia X, no lugar tal, como o comprovam N registros”.

Mas nem a técnica defasada, nem os interesses corporativos do jornalismo nacional nos permitem desfrutar de um tal profissionalismo.

Resta-nos o padrão Globo de qualidade.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

As entrevistas dos candidatos no Jornal Nacional

Para fazer uma análise justa das entrevistas do Jornal Nacional com os candidatos à Presidência pareceu-me necessário aguardar que a última delas fosse ao ar e a série se encerrasse. Cri que só assim, ciente do tratamento dispensado a cada um dos candidatos, poderia formular, de forma condizente, juízos de valor acerca do evento.

Entrevistas televisivas em série, cada dia com o candidato de uma coligação - como as que o telejornal se propôs -, demandam, necessariamente, a adoção de um mesmo e pré-determinado padrão de conduta por parte dos entrevistadores, seja qual for o entrevistado.

Ainda que, de acordo com o perfil, as alianças e a história de cada candidato, o feixe de perguntas necessariamente varie, a postura dos entrevistadores em relação aos inquiridos, o modo como formulam as perguntas e seu grau de incisividade devem apresentar a menor variação possível, sob pena de suscitar acusações de tendenciosismo, favorecimento e discriminação, as quais minam o alegado esforço para inteirar a massa de espectadores sobre as candidaturas presidenciais que se apresentam ao país.

É fato que cada entrevista tem uma dinâmica própria, mas, se o entrevistado não tergiversa nas respostas ou não agride o perguntador, a obediência a um padrão minimamente igualitário de tratamento aos diferentes candidatos é condição sine qua non para assegurar confiabilidade. Quem assistiu às três entrevistas conduzidas por Fátima Bernardes e William Bonner com, respectivamente, os candidatos Dilma Rousseff (PT/RS), Marina Silva (PV/AC) e José Serra (PSDB/SP) sabe que tais regras básicas de conduta jornalística foram largamente negligenciadas.


Dilma e a entrevista-inquérito
Senão, vejamos: Dilma Rousseff, que inaugurou a série, foi submetida a algo mais parecido com um inquérito policial, durante o qual mal começava a formular um raciocínio já era cortada pelos entrevistados, um dos quais chegou às raias da grosseria, a ponto de ser interpelado por sua parceira de trabalho e esposa. Isso gerou um grave problema técnico para a entrevista, identificável por qualquer estudante de Jornalismo: interrupções excessivas que não deixavam a entrevistada se expressar e aproximavam a duração de suas falas da duração das perguntas dos jornalistas.

Em termos temáticos, a entrevista com a petista denotou menos o interesse em informar o espectador e mais a tentativa de pespegar em Dilma o rótulo de “autoritária” e de dependente de Lula. Tratou-se, assim, tanto em termos jornalísticos quanto eleitorais, de uma entrevista duplamente mal-sucedida. Em primeiro lugar porque os Bonner poderiam perfeitamente – na verdade, deveriam – mostrar-se incisivos, perscrutórios, mas sem abrir mão da educação e da polidez no trato.

Em segundo, porque perderam uma ótima chance de inquirir a candidata acerca dos projetos através dos quais pretende dar continuidade a uma administração que, embora apoiada pela maioria da população, não é desprovida de problemas. Ao final, o espectador terminou desinformado sobre o que realmente importa, administrativa e eleitoralmente.


Marina e as reticências
O tom dos apresentadores já era outro no dia seguinte, na entrevista com a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Enquanto Fátima, aparentando menos nervosismo, mantinha a postura entre firme e ponderada, Bonner, bem mais educado do que no dia anterior, já em sua primeira pergunta pediu perdão à candidata por inquirir sobre a falta de apoio de outros partidos que não o PV. Ainda assim, Marina, talvez receosa de se ver seguidamente cortada por ele sem poder formular seu raciocínio - como o fora Dilma -, passou a insistir em responder, ignorando os apartes do jornalista e cobrindo sua voz. Por conta disso, teve lugar uma espécie de jogo de disputa de palavras entre os dois.

Do ponto de vista técnico, os Bonner subestimaram a um tempo a atual dinâmica de financiamento de campanhas e a urgência da agenda ambiental ao perguntar como a candidata faria para “convencer o eleitor de que a sua candidatura é para valer” e não apenas "para marcar posição nessa questão do meio ambiente?”. Tal impressão foi reforçada pelo dissimulado espanto de Fátima ante a descrição das graves consequências, para a sociedade brasileira, do aumento da temperatura da Terra, segundo Marina. Reforçou-se, assim, traços de uma postura do casal de jornalistas em relação à candidata do PV que eu descreveria como "reticente-leniente".

Além disso, ao invés de aprofundar a discussão dos abundantes temas espinhosos para a candidatura verde, os jornalistas perderam vários minutos discutindo o ex-partido de Marina, de forma particular o indevidamente chamado “mensalão do PT” – tema, aliás, recorrente nas três entrevistas. Ao final, não restaram dúvidas de que a postura e o grau de incisividade do casal para com a entrevistada fora outro, em relação ao do dia anterior.


Serra e a subserviência global
Mas foi a entrevista com Serra que evidenciou, de maneira clara, o descritério “três pesos, três medidas” que o jornalismo global reservou aos candidatos. O ex-governador foi poupado não apenas de quase todos os temas espinhosos suscitados por sua péssima gestão, mas de sua polêmica passagem pelo Ministério da Saúde.

Na entrevista, enquanto Fátima fingia desempenhar, de forma tíbia e elegante, o papel de bad cop (mas “esquecendo” o quase-vice Arruda e o mensalão tucano de Eduardo Azeredo), Bonner substituia a grosseria de segunda-feira por uma amabilidade tão exagerada quanto imprópria.

Os cortes bruscos e ríspidos com que ele seguidas vezes interrompeu a fala de Dilma deram lugar a intervenções em voz de travesseiro, incluindo um “o senhor me permita” quase ganido. Ao final, quando Serra, mesmo ciente há dias de que disporia de 30 segundos para se despedir, “estourou’ o tempo, a subserviência atingiu seu grau máximo, com o apresentador-galã se desmanchando em desculpas pela interrupção: “Me perdoe... me perdoe”. Patético.


Vitrine para seu candidato
A assimetria de tratamentos verificada no trato com os candidatos na série de entrevistas do JN é particularmente grave por se dar no telejornal de maior audiência do país, em uma TV aberta – ou seja, que opera graças a concessão pública de um bem pertencente ao povo brasileiro. Claro está que isso não é o bastante para frear o ímpeto da Globo de manipular o jornalismo e tentar “vender” seu candidato, utilizando como vitrine para tal o principal programa jornalístico da emissora.

O cúmulo da cara-de-pau, na verdade, é que a Vênus Platinada segue alegando isenção e qualidade, como se os brasileiros fossem trouxas. E daqui a alguns anos, quando o esperneio dos críticos contra tal assimetria tiver passado, a emissora reescreverá o seu passado - como fez com as Diretas-Já -, editando uma fala ou outra da "série de entrevistas que contribuiu para a democracia brasileira". E comemorará, em grande estilo, os 75 anos do padrão Globo de qualidade.

No entanto, o absurdo do "três pesos, três medidas" não se limita a interesses de fundo eleitoral e corporativo. Há também marcados traços ideológico-culturais a estimulá-lo. Numa campanha em que duas mulheres estão entre os três primeiros colocados nas pesquisas, as entrevistas do JN, através dos diferentes tratamentos dispensados aos candidatos, evidenciaram, uma vez mais, a premência da questão de gêneros e a persistência dos “valores” machistas em nossa - com o perdão do oximoro - cultura jornalística.


Machismo e questão de gêneros
Pois se a insistência do bad cop Bonner quanto ao alegado autoritarismo de Dilma trouxe, latente, o culto ao estereótipo de que mulheres, mesmo no comando, devem ser “femininas” e “delicadas” – como se isso tivesse alguma importância no exercício de cargos administrativos - e a feminilidade delicada de Marina acabou por lhe render um tratamento que não poucas vezes soou paternal e leniente – como se de um ser essencialmente frágil e, fica implícito, medianamente competente se tratasse -, Serra, por outro lado, foi tratado como um autêntico patriarca.

A interação do casal de entrevistadores com ele – da qual o tímido o “ senhor me permita”, vocalizado por Bonner, é expressão cabal de subserviência - claramente reverenciou “o político experiente”, “o administrador”, “o realizador”, encarnações do poder fálico decidido e destemido, o qual, ao contrário do que ocorre, na visão do JN, com as candidatas mulheres, não precisa mostrar a que veio.

Se isso não é uma demonstração cabal de ideário machista, a se somar a interesses classistas e empresariais, eu sou o Pato Donald.

domingo, 13 de junho de 2010

A Globo e o cheiro de golpismo no ar (atualizado após cobertura de lançamento de candidatura Dilma no Fantástico)

Os sete minutos que o Jornal Nacional dedicou ao lançamento da candidatura José Serra no sábado (12/06), comparados aos menos de 20 segundos dedicados a Dilma Rousseff elevam a um novo patamar o grau de preocupação quanto ao comportamento da mídia nestas eleições.

Há um cheiro de golpismo no ar, exalado pelas declarações de mais de um membro do Judiciário quanto à possibilidade de cassação da candidatura Dilma em seu nascedouro, e incensado nos vapores das sucessivas multas aplicadas pelo sistema eleitoral ao lulopetismo por campanha antecipada, sem que sejam estas acompanhadas de punição similar ao DEM e ao PPS por seus programas televisivos, em que generosa e explicitamente promoveram a candidatura de José Serra – que aliás fez, impunemente, propaganda da Sabesp até no Acre.

O telejornalismo global pode, potencialmente, se seguir com essa cobertura escandalosamente assimétrica, vir a inflamar tal atmosfera golpista.

A mídia impressa não tem mais poder de mobilização popular. Avançamos: longe se vai o tempo em que a Folha de S. Paulo burilava sua imagem às expensas das Diretas Já ou do Fora Collor. Mas é uma incógnita o que pode acontecer se a Rede Globo decidir mesmo partir para o tudo ou nada. Em 2006, mesmo com os factóides do “escândalo do mensalão” transmitidos diuturnamente pela Globo News e chegando a ocupar 2/3 da grade do Jornal Nacional, não funcionou. Mas é arriscado demais fiar-se apenas nesse caso isolado para afirmar que no pasarán.


O fator blogosfera
Parece inegável que a blogosfera – com a Carta Capital e um ou outro veículo menor - tem exercido um papel preponderante na resistência à atuação orquestrada da mídia que se seguiu ao convescote no Millenium, desmontando factóides e produzindo contra-discursos que, se não atingem milhões, chegam a muitos – incluindo uma minoria em posições-chave no jornalismo e na política.

Ao menos até agora não pudemos, infelizmente, contar, nessas eleições, com o blog de Idelber Avelar – cuja lacuna como centro plural de debates permanece impreenchida. Mas, graças a esse fenômeno de renovação autóctone da internet, além da continuidade da atuação aguerrida de Nassif, Azenha, PHA, Vianna, Guimarães e outros mais, tanto o veterano Altamiro Borges, em excelente fase, como o renovado blog de Maria Frô e o Tijolaço, do novato Brizola Neto – que herdou o destemor e a coerência do avô - têm desempenhado um papel destacado de contra-resistência midiática.

A questão, entretanto, é qual o real poder de fogo desse setores da blogosfera brasileira ante um eventual bombardeio global às hostes lulopetistas? Seja qual for a resposta a essa pergunta, a euforia que, ante a subida de Dilma nas pesquisas eleitorais, ora nutre tanto tais novos comunicadores quanto entusiastas da candidata, pode não apenas resultar infundada como contraproducente. Grandes pensadores políticos como Lênin e Gramsci alertaram que subestimar a capacidade do inimigo é um erro ainda mais grave do que superestimar a própria capacidade.

Portanto, a se confirmar a radicalização anti-Dilma na Rede Globo, com o abandono de parâmetros éticos mínimos e de uma postura que ao menos simule imparcialidade em prol de uma campanha aberta e massificada pró-Serra não restará caminho outro que a constituição de um movimento cívico que de fato mobilize a sociedade brasileira para a defesa da democracia.


Globo versus sociedade civil
A emissora em questão tem um histórico que depõe contra si. Cresceu sob a ditadura, a qual apoiou intensamente e, para ficar só nos dois episódios de maior gravidade, como analisa com o brilho costumeiro Venício A. de Lima no ótimo livro Mídia – crise política e poder no Brasil (Perseu Abramo, 2006), a Globo, em consonância com a Proconsult, tentou fraudar as eleições para governador do Rio de Janeiro em 1982, surrupiando votos de Leonel Brizola; e, ao contrário do que tenta hoje, à custa de edições posteriores, provar, negligenciou a cobertura das Diretas-Já em 1984 (e eu não precisaria ler o livro para me dar conta disso, pois lembro-me perfeitamente do fato e do momento histórico, o qual, aos 16 anos, vivi intensamente, como relato aqui - "0 povo não é bobo/abaixo a Rede Globo" era o slogan berrado a plenos pulmões contra a indiferença da emissora para com a luta pela democracia).

Convém lembrar, uma vez mais, que a TV Globo opera graças a uma concessão pública para exploração de sinal de teledifusão, concessão essa regulada pela Constituição Federal e que inclui – ou deveria incluir - não apenas a obediência à legislação eleitoral mas à deontologia, internacionalmente consagrada, do telejornalismo em relação a coberturas de eleições majoritárias.

O engajamento explícito da emissora na candidatura serrista é, portanto, uma questão que transcende os interesses político-partidários das agremiações A, B ou C e se apresenta como grave transgressão aos pilares básicos do exercício da política em uma sociedade democrática. Se tal desatino vier de fato a se concretizar nos dias que virão, será necessário uma reação à altura da sociedade civil organizada.


ATUALIZAÇÃO (14/06):
Após os 5 minutos dispensados à cobertura do lançamento da candidatura de Dilma no Fantástico, interlocutores questionaram a validade do post, e ao menos um acusou o blogueiro de leviano.

Reconheço que é auspicioso constatar que há, na Vênus Platinada, ao menos a intenção de soar equânime, ainda que tal comportamento continue aquém dos padrões que se espera de um jornalismo de alto nível, que deve de fato ao menos buscar a inatingível imparcialidade.

Isso posto, é preciso levar em conta que a cobertura do Fantástico dispensou dois minutos a menos à candidatura Dilma (tempo que é uma enormidade na TV); que no mesmo programa voltou a enfocar Serra por um tempo bem mais generoso do que os 18 segundos concedidos à petista no dia anterior; que o Fantástico não tem o "peso jornalístico" do Jornal Nacional - e, acima de tudo, que a reportagem sobre Dilma foi ao ar uma hora mais tarde e num domingo - com índices de audiência lá embaixo. Sem esquecer que o Fantástico não endossou didaticamente o programa de governo de Dilma como o JN fez com o candidato peessedebista no dia anterior.

Ademais, deve-se enfatizar que, como o bom leitor certamente se apercebeu, o post acima foi todo escrito no condicional. Faz conjecturas, ante o impacto de inéditos 7 minutos dedicados ao lançamento de uma candidatura que já está na praça há tempos e com base no retrospecto profundamente manipulador da emissora em eleições passadas. Fica no ar a questão sobre se os para alguns suficientes 5 minutos dedicados a Dilma no domingo deveu-se ou não, e em que medida, à pressão exercida em decorrência da cobertura espantosamente generosa dedicada ao tucano no dia anterior.

No final, o mais importante é não perder de vista que, somados o sábado e o domingo, o tempo dedicado à candidatura Serra (cerca de 8 minutos) foi mais de 50% maior do que o dedicado a Dilma (pouco mais de 5 minutos). E isso continua sendo, na minha opinião, uma grave distorção.

Quanto ao título infeliz, reconheço, errei. Por isso retitulei.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

MST e laranjas

O MST é detestado por todos: da direita ruralista à esquerda chavista, passando por tucanos, petistas, psolentos, verdes, azuis e amarelos. Mesmo os que fingem apoiar o MST o detestam.

Isso porque há uma antipatia ancestral e inata contra o MST, esse arquétipo de nosso inconsciente coletivo, esse cancro irremovível que insiste em nos lembrar, mesmo nos períodos de bonança, que fomos o último país do mundo a abolir a escravidão e continuamos sendo uma porcaria de nação que jamais fez a reforma agrária.

O MST é o espelho que reflete o que não queremos ver.

Há duas questões, na vida nacional, que contradizem qualquer discurso político da boca pra fora e revelam qual é, mesmo, de verdade, a tendência ideologica de cada um de nós, brasileiros: a violência urbana e o MST. Diante deles, aqueles que até ontem pareciam ser os mais democráticos e politicamente esclarecidos passam a defender que se toque fogo nas favelas, que se mate de vez esse bando de baderneiros do campo, PORRA, CARAJO, MIERDA, MALDITOS DIREITOS HUMANOS!

O MST nos faz atentar para o fato de que em cada um de nós há um Esteban de A Casa dos Espíritos; há o ditador, cuja existência atravessa os séculos, de que nos fala Gabriel García Márquez em O Outono do Patriarca; há os traços irremovíveis de nossa patriarcalidade latinoamericana, que indistingue sexo, raça, faixa etária ou classe social:

O MST é o negro amarrado no tronco, que chicoteamos com prazer e volúpia.

O MST é Canudos redivivo e atomizado em pleno século XXI.

O MST é a Geni da música do Chico Buarque - boa pra apanhar, feita pra cuspir – com a diferença de que, para frustração de nossa maledicência, jamais se deita com o comandante do zeppelin gigante.

E, acima de tudo, O MST é um assassino de laranjas!

E ainda que as laranjas fossem transgênicas, corporativas, grilheiras, estivessem podres, com fungos, corrimento, caspa e mau hálito, eles têm de pagar pela chacina cítrica! Chega de impunidade! Como o João Dória Jr., cansei!


Jornalismo pungente
Afinal, foi tudo registrado em imagens – e imagens, como sabemos, não mentem. Estas, por sua vez, foram exibidas numa reportagem pungente do Jornal Nacional - mais um grande momento da mídia brasileira -, merecedora, no mínimo, do prêmio Pulitzer. Categoria: manipulação jornalística. Fátima Bernardes fez aquela cara de dominatrix indignada; seu marido soergueu uma das sobrancelhas por sob a mecha branca e, além dos litros de secreção vaginal a inundar calcinhas em pleno sofá da sala, o gesto trouxe à tona a verdade inextricável: os “agentes“ do MST são um bando de bárbaros.

(Para quem não viu a reportagem, informo,a bem da verdade, que ela cumpriu à risca as regras do bom jornalismo: após uns dez minutos de imagens e depoimentos acusando o MST, Fátima leu, com cara de quem comeu jiló com banana verde, uma nota de 10 segundos do MST. Isso se chama, em globalês, ouvir o outro lado.)

Desde então, setores da própria esquerda cobram do MST sensatez, inteligência, que não dirija seu exército nuclear assassino contra os pobres pés de laranja indefesos justo agora, que os ruralistas tentam instalar, pela 3ª vez, como se as leis fossem uma questão de tanto bate até que fura, uma CPI contra o movimento (afinal, é preciso investigar porque o governo “dá” R$155 milhões a “entidades ligadas ao MST”, mesmo que ninguém nunca venha a público esclarecer como obteve tal informação, como chegou a esse número, que entidades são essas nem qual o grau de sua ligação com o MST: O Incra, por exemplo, está nessa lista como ligado ao MST?).


A insensatez dos miseráveis
Ora, o MST é um movimento social nascido da miséria, da necessidade e do desespero. Eles estão em plena luta contra uma estrutura agrária arcaica e concentradora. Não se pode esperar sensatez de movimentos sociais da base da pirâmide social, que lutam por um direito básico do ser humano. Pelo contrário: é justamente a insensatez, a ousadia, a coragem de desafiar convenções que faz do MST um dos únicos movimentos sociais de fato transgressores na história brasileira. Pois quem só protesta de acordo com os termos determinados pelo Poder não está protestando de fato, mas sendo manipulado. Se os perigosos agentes vermelhos do MST tivessem sensatez, vestiriam um terno e iriam para o Congresso fazer conchavos, não ficariam duelando com moinhos de vento, digo, pés de laranja.

Mas é justamente por isso que o MST incomoda a tantos: ele, ao contrário de nós, ousa desafiar as convenções: ele é o membro rebelde de nossa sociedade que transgride o tabu e destroi o totem. Portanto, para restituição da ordem capitalista/patriarcal e para aplacar nossa inveja reprimida, ele tem de ser punido. Ele é o outro.Quantos de nós já se perguntaram como é viver sob lonas e gravetos – em condições piores do que nas piores favelas -, à beira das estradas, em lugares ermos e remotos, sujeito a ataques noturnos repentinos dos tanto que os detestam? Quantos já permaneceram num acampamento do MST por mais do que um dia, observando o que comem (e, sobretudo, o que deixam de comer), o que lhes falta, como são suas condições de vida?

Poucos, muito poucos, não é mesmo? Até porque nem a sobrancelha erótica do Bonner nem o olhar-chicote da Fátima jamais se interessaram pelo desespero das mães procurando, aos gritos, pelos filhos enquanto o acampamento arde em fogo às 3 da madrugada, nem pelas crianças de 3,4 anos que amanhecem coberta de hematomas dos chutes desferidos pelos jagunços invasores, ao lado do corpo de seus pais, assassinados covardemente pelas costas e cujo sangue avermelha o rio.

Para estes, resta, desde sempre, a mesma cova ancestral, com palmos medidas, como a parte que lhes cabe neste latifúndio.

Para a mídia, pés de laranja valem mais do que a vida humana, quero dizer, a vida subumana de um miserável que cometeu a ousadia suprema de lutar para reverter sua situação.

Mas os bárbaros, claro está, são o MST.

Por isso, haja o que houver, o MST é o culpado.


(Foto dos marginais-mirins do MST, por Sebastião Salgado, retirada daqui; foto das mansões dos assassinos de laranja retiradas daqui)