Os textos deste blog estão sob licença

Creative Commons License
Mostrando postagens com marcador Itália. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Itália. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de julho de 2010

A crise econômica na Europa e no Brasil

Quando a goiana Luzete Nascimento deixou o Brasil rumo a Portugal o Euro valia R$3,87. Após conseguir entrar na França clandestinamente, desembarcando no Charles de Gaulle mas deixando de pegar a conexão que a levaria a Lisboa, ela perambulou nas sombras, evitando autoridades e temendo a Imigração, cruzando fronteiras até chegar em terras lusas, onde reencontrou seus dois filhos, já não mais adolescentes.

Os primeiros tempos foram duros. De início, como fazia no Brasil, sobreviveu como faxineira – porém melhor remunerada. Depois foi camelô, enrabichou-se com um português com o qual aprendeu artes da cozinha e agruras do fogão; casou, descasou. Aos 42 anos passou a conseguir, pela primeira vez na vida, chegar ao final do mês no azul: abrira uma loja de lingerie, que prosperou ao mesmo tempo em que Portugal, ingressando na Comunidade Econômica Europeia, assistia ao maior e mais veloz crescimento econômico de sua história.

Há dois anos, porém, sobreveio a grave crise mundial trazida no bojo do estouro da bolha de hipotecas nos EUA. No início ela tentou resistir, tentou diversificar o mostruário, crente de que o mau momento se devia à concorrência com os chineses – que, segundo ela, vendem lingerie de péssima qualidade a 1 euro a peça.

Em vão. Cortou despesas, dispensou funcionários. As últimas esperanças, depositadas nas vendas de fim de ano, não lograram: estava pagando para trabalhar. Em fevereiro deste ano ela fechou as portas. Agora reveza-se entre as casas dos filhos, esperando a poeira baixar para começar de novo.


Cenário desolador
A história de Luzete é, com uma ou outra variação, recorrente em Portugal. Em Lisboa, as zonas comerciais ao longo da Beira-mar ostentam um número impressionante de portas cerradas em pleno dia, que conferem uma atmosfera um tanto lúgubre à bela capital, como se de um eterno pesar fúnebre se tratasse.

No Porto, ouvidos 17 comerciantes e prestadores de serviços da zona comercial do Bolhão, a estimativa média é de uma queda de mais de 30% nas vendas em relação a dois anos atrás – e isso em uma cidade que previa um crescimento substancial no afluxo de turistas, tanto pela posição estratégica que agora seu aeroporto possui – como uma das bases da companhia aérea de baixo custo Ryanair – quanto pelos investimentos maciços do Estado em publicidade dirigida a turistas da Europa setentrional.

Esses relatos, somados, entre outros tantos fatores, às violentas manifestações na Grécia e ao acirramento das greves na França e na Itália (onde cartazes de protesto como os que encimam ente post estão em toda a parte), evidenciam que a crise mundial, que se prolonga no tempo e, em diversos países, se aprofunda, está tendo para as populações desses países consequências de monta. Tanto mais porque redução de salários (como anunciava o jornal português Diário Econômico a semana passada), quebra dos contratos de aposentadoria, redução da seguridade social – enfim, o agravamento da ortodoxia neoliberal – são, até agora, o remédio anunciado. Algo como receitar morfina para desintoxicar um viciado.


Brasil: só marolinha
Enquanto isso, no Brasil, as elites, a mídia que as vocaliza e um grupo de velhinhas de Taubaté e preconceituosos que não engolem Lula nem com desemprego a 7% fingem não se dar conta de que a ousadia de sua política econômica anti-recessiva e includente poupou o país das desventuras ora vividas nos EUA e no velho continente.

Estivéssemos sob o PSDB e sua obsessão pelo Estado mínimo, com cortes de gastos públicos e o que chamam pomposamente de “desinchaço da máquina governamental”, estaríamos agora repetindo o velho ritual de nos agachar, pires à mão, ante o FMI, recolhendo algumas esmolas salvadoras em troca do sacrifício dos estratos mais pobres da população.

Por isso é necessário refletir, para além das picuinhas e factóides da mídia, sobre qual é, de fato, o o fator essencial dessas eleições a oposição entre neoliberalismo e políticas econômicas includentes, entre recessão e desenvolvimentismo, entre o retorno a um modelo que faliu seguidas vezes o Brasil e outro que nos levou e nos têm mantido atrelados a uma fase de ouro de nossa economia.


(Foto tirada em uma rua do bairro de Aventino, em Roma)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

6 aforismos sobre o caso Battisti

Mentem vergonhosamente os que afirmam que vigorava o Estado Democrático de Direito na Itália dos anos 70. Como atesta a Anistia Internacional, o Estado de Exceção que vigorou no país naquele período instituiu práticas equivalentes às da ditadura no Brasil, como tortura a granel e julgamentos baseados em ritos sumários – além de ter sido instrumentalizado politicamente como meio de perseguição a dezenas de milhares de cidadãos cujo único crime era ser de oposição. Mas quem quer continuar a acreditar que um Estado cujas leis autorizavam um limite para a prisão preventiva de 12 anos era democrático, fique à vontade. A auto-ilusão, esta sim, é democrática.


-X-


O comportamento da mídia brasileira no caso Battisti é particularmente suspeito. Poucas vezes se mentiu tanto – reafirmando tais mentiras para que em verdade se tornassem, como apregoou um certo demiurgo nazista. A histeria anti-Battisti atingiu um ponto tal que até blogueiros que militam pela não-extradição foram silenciados por hackers. É importante que todos saibam o porquê desse fanatismo da mídia – Veja à frente – e exatamente quais interesses eles satisfazem.


-X-


Caso Lula não impeça a extradição de Battisti para a Itália estará colaborando para a consumação de um perigoso precedente, pois a reabertura da temporada de caça às bruxas dos anos 70 pelo governo do bufão Silvio Berlusconi pode vir a ser imitada por outros governantes, e se alastrar no bojo de uma eventual “onda eleitoral direitista” – que é uma possibilidade potencial na Europa atual, mas da qual o Brasil não está livre.


-X-

A eventual deportação de Battisti produziria também uma mácula nos Direitos Humanos em âmbito transnacional, pois claro está que a prisão perpétua é praticamente certa, e indisfarçadamente em condições psicológicas ameaçadoras – incluindo tortura e ameaça de morte. Isso em pleno século XXI.


-X-

Os danos à imagem do Brasil no exterior não se restringirão a um abalo no arquétipo de terra acolhedora de estrangeiros e propícia à boa convivência, nem aos efeitos de declarações compreensivelmente ressentidas de intelectuais de peso – como Antonio Negri. O desrespeito à dignidade humana que a possível deportação implica depõe contra o estágio da Justiça do Brasil, num momento de projeção e afirmação do país em âmbito global.


-X-


Há uma contradição evidente – mas que não se dá a ver à primeira vista – entre o fato de a esquerda brasileira querer, com razão, a punição aos torturadores do regime militar mas pouco se mobilizar quando um preso político de outro país está prestes a ser torturado por um delito cometido em nome da luta política. Não se trata de comportamento inusual: essa mesma esquerda se mobilizou em peso para denunciar a tortura quando aplicada a presos políticos; mas agora, quando tais "métodos investigativos" continuam sendo rotineiramente utillizados contra presos comuns, excetuando ações pontuais como a do grupo Tortura Nunca Mais, se cala.