Em um post no qual faz balanço e prognósticos do “fator Marina”, Idelber Avelar propõe, para fins analíticos, uma divisão esquemática dos votos recebidos pela candidata verde: 1) o voto estritamente marinista, verde, ecológico; 2) o voto "ético"-jovem-universitário-profissional-liberal-urbano, uma parte dele (a maior, me parece) composta por desiludidos com erros ou presepadas do PT, e a outra parte (menor, me parece) composta por eleitores movidos pelo episódio Erenice; 3) o voto evangélico.
Essa divisão é o aspecto que mais me atrai no artigo, que de resto soa a mim quase como uma peça oficial da intelectualidade petista – se esta tivesse intelectuais públicos do quilate, da projeção e da capacidade de produção de Idelber Avelar -, que estrategicamente sobrevaloriza Marina por conta da necessidade de conquistar parte de seu espólio eleitoral.
De qualquer modo, na tal tríplice divisão, a “novidade” Marina advém dos dois últimos estratos, que, no último mês, tiraram a candidata verde dos quase 10% em que se manteve por 13 meses e levaram a eleição para o segundo turno, ressuscitando José Serra.
Voto estético
Dos três estratos marinistas, o voto “ético”-classe média me parece o mais refratário tanto a uma cooptação por parte de José Serra quanto, em maior grau, por Dilma Rousseff: é um voto estético, na acepção pobre do termo - um voto “fashion, descolado” como apontou Hildegard Angel no imediato pós-apuração; um voto Caetano Veloso, diria eu.
É, portanto e ainda, um voto reativo, anti-establishment político, de cidadãos e cidadãs particularmente suscetíveis ao discurso neoudenista, que tanto interessa à direita. Para os que o proclamam, Marina representa uma outsider, ainda não corrompida pela “sujeira” da política oficial. Nesse sentido, por paradoxal que pareça, a figura com a qual ela mais se aproxima, na história das eleições presidenciais brasileiras, é com Fernando Collor: só que o que antes era um playboy nordestino com “aquilo roxo” e à caça de marajás hoje é uma cabocla amazonense, nos trajes étnicos do multiculturalismo e cheirando a Natura.
Corroboram as impressões elencadas nos dois últimos parágrafos o fato de que todas as pessoas que conheço pessoalmente e que se encaixam nesse voto o proclamam da mesma maneira: salientando, a um tempo, a “independência” da candidata Marina e, com um tom de picardia que traz implícito a crítica à política convencional – leia-se PT versus PSDB -, a “elegância”, o “charme”, a unicidade da “figura fina” encarnada pela senadora acreana.
Esse estrato tende a dispersar-se ou diminuir tremendamente sua fidelidade a Marina à medida em que ficar evidente que o PV – de Zequinha Sarney, de empresários duvidosos radicados em Londres, e manietado por José Serra – é, para usar a linguagem que tanto os mobiliza, um partido tão corrompido como outro qualquer, a chafurdar na lama da política nacional.
A cartada religiosa
Já o voto religioso – que não é apenas em “evangélico”, haja vista a virulência com que os boatos anti-Dilma circularam e foram difundidos pela direita católica – obedece a outra dinâmica. Trata-se, essencialmente, o voto do medo, emprenhado pelas entranhas do conservadorismo brasileiro, se valendo, sem o mínimo pudor, da ignorância e da manipulação (se você assitiu a Terra em Transe, de Glauber Rocha, pense no personagem de Paulo Autran).
No que concerne a tal estratégia, é preciso reconhecer o drible que o serrismo deu na militância petista: enquanto esta, entrincheirada na blogosfera, aguardava uma “bala de prata” anunciada por dez entre dez “blogueiros sujos”, as igrejas e casas de culto dos subúrbios e das periferias eram literalmente tomadas por boatos - uma tática que, tanto na desfaçatez com que joga a incendiária carta da manipulação política da religião quanto na forma sorrateira de agir, sugere o modus operandi serrista, mesmo porque o PV não tem estrutura ou traquejo para empreender uma operação tão capilar.
Esses estratos religiosos são, no momento, as áreas potencialmente mais perigosas para a candidatura Dilma. Ela precisa reagir, não se deixar acuar pela histeria anti-aborto e, ao mesmo tempo em que repõe tal discussão em um âmbito institucional, não dogmático, que leve em conta posições religosas sem abrir mão do viés laico e relcionado a saúde pública, aproximar-se de forma coordenada das lideranças evangélicas e católicas, procurando ainda se dirigir, nos programas eleitorais, diretamente aos fiéis religiosos, de maneira franca e clara.
Aqui me parece necessário, uma vez mais, para evitar novas auto-lusões, salientar os malefícios do efeito-manada que o formato de militância virtual atual, açulada pelo twitter, tem provocado: ninguém, absolutamente ninguém foi capaz de detectar o enorme crescimento de Marina nos dois segmentos eleitorais que dobraram seus votos e levaram Serra – a maior ameaça pós-ditadura ao aprimoramento da democracia brasileira – ao segundo turno.
Batalha feroz
Enquanto uma Dilma surpreendida e um Serra rejuvenescido – e, como sempre, vitaminado pela mídia amiga – se digladiam, o foco se volta para Marina Silva, possível fiel da balança.
Se firmar aliança com José Serra, Marina vai valer o equivalente a uma nota de três reais no dia seguinte a sua eventual vitória: em primeiro lugar, porque Serra não cumpre acordos; em segundo, porque, cooptada pelo sistema político oficial, a candidata verde, sem o auxílio da manipulação religiosa, perde a aura de outsider.
Tal aura igualmente se desfaz se preferir se aliar a Dilma – a diferença é que a chance de que os acordos sejam cumpridos é maior.
A Marina interessa, portanto, manter-se alheia à disputa, preservando seu volúvel mas ora efetivo capital eleitoral – e, sobretudo, a aura de sua figura púbica, dividendo fundamental numa democracia tão afeita à pessoalidade e ao carisma quanto a brasileira.
O problema é que a opção por tal eqüidistância é pouco efetiva em termos partidários, já que Serra controla o PV, como, a despeito das ilusões marinistas, demonstrou de forma cabal ao levar uma eleição perdida ao segundo turno.
Agora ou a sabedoria política de Lula e a capacidade de mobilização da militância petista se manifestam ou o legado de desenvolvimento e inclusão da melhor Presidência que o país já teve pode cair no colo do neoliberalismo privatista.
Blog sobre cinema, jornalismo, política e música, com críticas, análises e perfis.
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Desalento: a "hibernação" d'O Biscoito Fino
A “hibernação” do blog O Biscoito Fino e a Massa, sem previsão de retorno, foi anunciada ontem por Idelber Avelar e provocou comoção em muitos, inclusive em mim.
Instalaram-se um vazio e um senso de desorientação. A tarde ficou triste, melancólica, como aquela do poema que Vinicius fez a Rubem Braga. Fez-me lembrar outra tarde, distante, em que eu almoçava com minha amiga Glauce Passeri e ouvimos no rádio do restaurante que Cazuza morrera. Não se trata, evidentemente, de algo tão trágico e irreversível, mas a ligação se faz, para mim, porque os dois eventos significam, de certa forma, o fim da culminância de uma era em que o novo se impôs.
Pois, ao criar e manter, por cinco anos, um blog independente - visceral em suas posições, na crítica à mídia, na defesa lúcida dos pontos de vista da esquerda - e fazer dele uma referência política e cultural para milhares de pessoas, Idelber provou que uma nova mídia, não-corporativa, democrática, feita com parcos recursos mas com inteligência é possível.
Relutei muito em escrever este post. Havia decidido não fazê-lo. Mas, de madrugada, após um dia marcado pela tristeza e pelo pasmo, ele se impôs quase que como uma forma de desabafo, de exorcismo emocional. Não quero, de forma alguma, dar a impressão de estar sendo oportunista. Sou o primeiro a reconhecer que há muitas outras pessoas com um contato muito mais longo e intenso com Idelber do que eu. Uma dessa pessoas, o Alexandre Nodari, escreveu um belíssimo post a respeito, no qual o qualifica, com a precisão de um antropólogo, como “o primeiro intelectual público brasileiro da internet”.
Eu sequer o conheço pessoalmente, e meu contato com ele se resume a comentários – eventualmente respondidos - em seu blog, em esparsos e breves diálogos twitados e nas poucas mas para mim importantes vezes em que, graças à sua generosidade, ele citou a meu blog ou a mim no Biscoito ou nos RTs do Tweeter.
Lembro-me bem das primeiras vezes que acessei O Biscoito. Faz uns 3 anos, 3 anos e meio. Eu morava nos EUA e acompanhava obsessivamente a mídia brasileira pela internet. O blog do Nassif foi, para mim, uma novidade redentora. Mas demorei a assimilar o de Idelber, não apenas porque seus textos pareciam-me muito densos (numa épóca em os blogs ainda eram mais associados a humor, a diários adolescentes ou, de qualquer forma, a textos curtos) mas por motivos correlatos que hoje me fazem rir: seu nome, Idelber Avelar, me sugeria, sei lá o por quê (as xícaras de chá?) , um senhor de uns 50, 60 anos que, sendo professor universitário e escrevendo aqueles textos analíticos compridos, devia ser seríisimo e sisudo (rs.). Levou um bom tempo para que essa impressão se dissipasse.
Só passei a frequentar o blog diariamente há 1 ano 9 meses, creio eu, quando já estava para voltar ao Brasil. Daí em diante ele se tornou meu principal ponto de referência na internet brasileira. Durante todo esse período espantava-me a frequência com que as idéias dele expressavam exatamente o que eu pensava, notadamente em termos políticos. Alguns momentos memoráveis, para mim, foram as últimas eleições para prefeito e, sobretudo, o episódio da “ditabranda” e do ataque aos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides pela Folha de S. Paulo. Daí nasceu o Cinema e Outras Artes: motivado pela leitura, n’O Biscoito, da cobertura da passeata promovida pelo Movimento dos Sem Mídia (da qual participei) em frente à sede do jornal.
Só me lembro de ter discordado total e frontalmente de Idelber em uma ocasião, mais pela forma como ele defendeu uma idéia - e pelas consequências políticas que aquela defesa poderia gerar - do que pela idéia em si (embora desta também discordasse). Mas não seria correto abordar o tema aqui, já que ele não estará disponível para eventualmente contestar.
“A hibernação do Biscoito deixa um vácuo considerável na blogosfera brasileira”, aponta Hugo Albuquerque. Além da perda do referencial periódico que as atualizações d’O Biscoito traziam e do fim do espaço de discussão cultural de alto nível, o que mais lamento na decisão de Idelber é, ao que tudo indica, a sua ausência nos debates que serão suscitados pela próxima eleição. Será, com certeza, uma guerra, e não tenho dúvidas de que ele seria – como já vinha sendo – um dos principais faróis para a militância de esquerda e no contra-ataque a uma mídia que insiste em agir como partido. Caberá a todos nós segurar essa peteca.
Pois o desenvolvimento de sua carreira acadêmica, incompatível com a intensa atividade blogueira, se impôs e novos frutos devem vir, não mais em doses fugazes e quase diárias, mas a longo prazo, na forma duradoura e intelecualmente mais complexa de livros. Toda a sorte e inspiração do mundo a ele, que a tantos inspirou!
Instalaram-se um vazio e um senso de desorientação. A tarde ficou triste, melancólica, como aquela do poema que Vinicius fez a Rubem Braga. Fez-me lembrar outra tarde, distante, em que eu almoçava com minha amiga Glauce Passeri e ouvimos no rádio do restaurante que Cazuza morrera. Não se trata, evidentemente, de algo tão trágico e irreversível, mas a ligação se faz, para mim, porque os dois eventos significam, de certa forma, o fim da culminância de uma era em que o novo se impôs.
Pois, ao criar e manter, por cinco anos, um blog independente - visceral em suas posições, na crítica à mídia, na defesa lúcida dos pontos de vista da esquerda - e fazer dele uma referência política e cultural para milhares de pessoas, Idelber provou que uma nova mídia, não-corporativa, democrática, feita com parcos recursos mas com inteligência é possível.
Relutei muito em escrever este post. Havia decidido não fazê-lo. Mas, de madrugada, após um dia marcado pela tristeza e pelo pasmo, ele se impôs quase que como uma forma de desabafo, de exorcismo emocional. Não quero, de forma alguma, dar a impressão de estar sendo oportunista. Sou o primeiro a reconhecer que há muitas outras pessoas com um contato muito mais longo e intenso com Idelber do que eu. Uma dessa pessoas, o Alexandre Nodari, escreveu um belíssimo post a respeito, no qual o qualifica, com a precisão de um antropólogo, como “o primeiro intelectual público brasileiro da internet”.
Eu sequer o conheço pessoalmente, e meu contato com ele se resume a comentários – eventualmente respondidos - em seu blog, em esparsos e breves diálogos twitados e nas poucas mas para mim importantes vezes em que, graças à sua generosidade, ele citou a meu blog ou a mim no Biscoito ou nos RTs do Tweeter.
Lembro-me bem das primeiras vezes que acessei O Biscoito. Faz uns 3 anos, 3 anos e meio. Eu morava nos EUA e acompanhava obsessivamente a mídia brasileira pela internet. O blog do Nassif foi, para mim, uma novidade redentora. Mas demorei a assimilar o de Idelber, não apenas porque seus textos pareciam-me muito densos (numa épóca em os blogs ainda eram mais associados a humor, a diários adolescentes ou, de qualquer forma, a textos curtos) mas por motivos correlatos que hoje me fazem rir: seu nome, Idelber Avelar, me sugeria, sei lá o por quê (as xícaras de chá?) , um senhor de uns 50, 60 anos que, sendo professor universitário e escrevendo aqueles textos analíticos compridos, devia ser seríisimo e sisudo (rs.). Levou um bom tempo para que essa impressão se dissipasse.
Só passei a frequentar o blog diariamente há 1 ano 9 meses, creio eu, quando já estava para voltar ao Brasil. Daí em diante ele se tornou meu principal ponto de referência na internet brasileira. Durante todo esse período espantava-me a frequência com que as idéias dele expressavam exatamente o que eu pensava, notadamente em termos políticos. Alguns momentos memoráveis, para mim, foram as últimas eleições para prefeito e, sobretudo, o episódio da “ditabranda” e do ataque aos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides pela Folha de S. Paulo. Daí nasceu o Cinema e Outras Artes: motivado pela leitura, n’O Biscoito, da cobertura da passeata promovida pelo Movimento dos Sem Mídia (da qual participei) em frente à sede do jornal.
Só me lembro de ter discordado total e frontalmente de Idelber em uma ocasião, mais pela forma como ele defendeu uma idéia - e pelas consequências políticas que aquela defesa poderia gerar - do que pela idéia em si (embora desta também discordasse). Mas não seria correto abordar o tema aqui, já que ele não estará disponível para eventualmente contestar.
“A hibernação do Biscoito deixa um vácuo considerável na blogosfera brasileira”, aponta Hugo Albuquerque. Além da perda do referencial periódico que as atualizações d’O Biscoito traziam e do fim do espaço de discussão cultural de alto nível, o que mais lamento na decisão de Idelber é, ao que tudo indica, a sua ausência nos debates que serão suscitados pela próxima eleição. Será, com certeza, uma guerra, e não tenho dúvidas de que ele seria – como já vinha sendo – um dos principais faróis para a militância de esquerda e no contra-ataque a uma mídia que insiste em agir como partido. Caberá a todos nós segurar essa peteca.
Pois o desenvolvimento de sua carreira acadêmica, incompatível com a intensa atividade blogueira, se impôs e novos frutos devem vir, não mais em doses fugazes e quase diárias, mas a longo prazo, na forma duradoura e intelecualmente mais complexa de livros. Toda a sorte e inspiração do mundo a ele, que a tantos inspirou!
(Ilustração: "Melancolia", por Edward Munch, 1891 - retirada daqui)
terça-feira, 19 de maio de 2009
Lula, o pusilânime, e a CPI
Está mais do que provado que o modo lulista de fazer política inclui não apenas uma visão por demais elástica dos limites da realpolitik, a ponto de incluir alianças com figuras como Romero Jucá, José Sarney e até mesmo Fernando Collor de Mello, mas também, o que é mais grave, a inapetência para cobrar dos membros de tais alianças o apoio que lhe devem como ressarcimento pela parte que lhes cabe no butim do estado brasileiro.
Que, durante a era Lula, o fazer política continue a se basear em tais práticas mercantilistas – que vão contra tudo o que Lula e o PT historicamente defenderam – é algo deplorável, ainda mais porque os cerca de 80% de aprovação média do presidente permitiriam almejar maior coerência entre passado e presente, fosse esta a intenção do mandatário. A realidade, infelizmente, não é assim e todos parecem resignados com isso. Mas o cenário é ainda pior, pois mesmo submetendo-se ao jogo de interesses que sempre criticou, Lula, a despeito de seu prestígio e aprovação popular, não consegue mover as peças, vive encurralado por velhos caciques do mundo político. E quem paga por isso é o país.
Eduardo Guimarães, em seu blog, diagnostica com precisão cirúrgica o modus operandi de Lula, versão paz e amor: “O presidente não briga, porém. Politicamente, como ele afirmou, não é recomendável. O país perde, claro, mas não foi ele que o sabotou. Foram os tucanos, ora. Foi Serra, no fim das contas (...) Contudo, o país perde. E é uma depois da outra. Temos que pagar pela irresponsabilidade da oposição, mas também pela do governo. Aquela porque sabota o país e este porque não a denuncia, não reage à altura, não briga por nós, pois sabe que perderia eleitoralmente”.
Assim, por ocasião da votação da CPI da Petrobrás - cuja aprovação, ressalte-se, seria potencialmente desastrosa não apenas à empresa ou às ambições eleitorais do grupo governista, mas aos interesses do país -, o presidente não se prestou sequer a fazer valer sua autoridade para que os acordos com o PMDB fossem cumpridos, o que beira a irresponsabilidade administrativa. Sim, pois bastaria que o PMDB fosse enquadrado e cumprisse seus acordos com o governo para que a CPI da Petrobrás não fosse aprovada, já que se deve aos votos dos peemedebistas Geraldo Mesquita (AC), Mão Santa (PI), e dos santos do pau oco Jarbas Vasconcelos (PE) e Pedro Simon (RS), todos do partido da suposta base de apoio a Lula, a derrota do governo.
Por um lado, isso não se quer dizer, de forma alguma, que a oposição deva ser inocentada no episódio, nem mesmo sob o argumento – ao meu ver correto – de que o PT faria o mesmo se estivesse na oposição. Janio de Freitas, de volta à grande forma, observa que “Se o PSDB que agora clama pela CPI em defesa da ‘Petrobras que é um patrimônio do Brasil’. tivesse, de fato, dedicação perceptível à coisa pública, seus congressistas não chegariam a condutas até sórdidas para impedir CPIs no governo Fernando Henrique. Nem as ostensivas prevaricações na privatização da telefonia os sensibilizaram".
Por outro lado, o fato de a leniência acomodada de Lula ser prejudicial ao país - nesse episódio talvez como em nenhum outro - não iguala o seu governo ao de seus predecessores. Como aponta Idelber Avelar, “há um conjunto de forças políticas que trabalharam e trabalham pela privatização do patrimônio público. E há um outro conjunto que, com todos os problemas, têm mantido e ampliado esse patrimônio”. Embora trate-se de uma diferença essencial entre dois projetos de país, essa é apenas uma entre várias outras possíveis nas quais o governo Lula sai bem melhor na foto, em comparação com os tucanos. Mas não é este o momento de fazer um balanço da atual administração. Pelo contrário. É momento de cobrar uma atuação mais firme e corajosa do presidente Lula em sua relação com seus supostos aliados.
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