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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Vergonhosa agressão aos médicos cubanos


O colunista Janio de Freitas fez mais uma vez jus ao papel de decano e foi premonitório. Em coluna escrita ontem (26/08), prognosticou:

Dos argumentos polêmicos contra a vinda de médicos do exterior, dirigentes corporativos da classe médica brasileira passaram a um histerismo gaiato e primário e já estão em atitudes fronteiriças de crimes, com a incitação aos médicos a "não socorrerem erros" que, imaginam, os estrangeiros cometerão.

As reações corporativas dos médicos, se a princípio compreensíveis ou mesmo eventualmente justificadas, logo adotaram uma agressividade acima do tom, aproximaram-se da insensibilidade social, e agora, com o ódio de classe à flor da pele e o racismo indisfarçado, situam-se perigosamente para algo entre o grotesco e o ilegal.

Pois o que se viu nas últimas 24 horas, no aeroporto de Fortaleza e nas redes sociais, foi uma escalada de falta de bom senso e de civilidade, com a insanidade e o descontrole dando vazão a ódios de classe e de raça, dirigidos de forma equivocada a alvos inocentes, em um episódio constrangedor para a imagem do país e que certamente envergonharia a maioria dos brasileiros.

Quem acompanha este blog sabe das críticas que faço ao modo como o governo Dilma implementou o programa Mais Médicos, não só valendo-se da costumeira ausência de diálogo, mas de despistes, recuos e desmentidos de última hora – enfim, com procedimentos pouco transparentes que estão longe de ser o que se espera de uma coalizão de centro-esquerda em uma democracia que se quer consolidada. Portanto – e na contramão da maior parte dos blogueiros e colunistas - tenho claro que parte do ônus pelo clima bélico que se seguiu à chegada dos médicos cubanos deve ser atribuída ao governo federal. Isso posto, nada justifica a agressão direta e preconceituosa contra profissionais estrangeiros que vêm ao nosso país exercer seu nobre métier. Os médicos brasileiros justa ou injustamente indignados têm todo o direito de protestar, mas na Justiça, nas mobilizações pacíficas e nas urnas, jamais com um violento ataque à honra pessoal e coletiva de seus pares cubanos, como visto no lamentável episódio cearense [foto] e na página pessoal no Facebook de uma jornalista preconceituosa, que não acredita que gente, segundo ela, "com cara de empregada" possa exercer a medicina.

Com os protestantes tachando os cubanos de "escravos" e declarando não acreditar que eles, "com cara de empregada doméstica", sejam capaz de exercer a medicina, cai por terra, uma vez mais, o mito do pais cordial e sem racismo – e antes que venham falar que isso se deve a uma manifestação restrita a uma elite, lamento informar que as elites também são parte do país.

Para Renato Rovai, colunista e editor da Fórum, o episódio do ataque aos médicos cubanos em Fortaleza transcende o seu sentido imediato e insere no âmbito de uma discussão maior. Referind0-se à mesma foto que encima este post e lembando que os médicos que protestam e suas associações não são apenas contra a vinda dos médicos cubanos, mas contra a criação de novos cursos superiores de medicina, ele observa:

Ou seja, a foto que está ilustrando este post é significativa para pensar o país que queremos. Se queremos um Brasil da inclusão, onde seja algo normal ser atendido por médicos negros que não sejam cubanos. Se queremos um Brasil onde estrangeiros sejam recebidos com respeito. Se queremos um Brasil onde saúde seja um direito de todos. Ou se preferimos viver num país de brancos de jalecos brancos que exigem ser chamado de doutores exatamente porque se acham acima daqueles que deveriam tratar com respeito e dignidade.

Seja como for, após esses lamentáveis episódios com tonalidades racistas e classistas, a razão que eventualmente a categoria dos médicos poderia ter vai para segundo plano, ante os danos irremediáveis que tais episódios causam para sua imagem pública. No xadrez do marketing público, o jogo mudou: ou os médicos e suas associações vêm a público condenar tais agressões e desautorizá-las, desvencilhando-as de suas táticas e lutas e atribuindo a uma iniciativa isolada, ou será praticamente impossível livrarem-se da pecha de classistas e racistas que já lhes vinha sido atribuída e que os ataques aos médicos cubanos corroboram.

Se, ao contrário, o clima mantiver a fervura e as agressões persistirem, é quase certo que o caso exacerbará os limites dos embates públicos e adentrará na seara policial, o que seria um preocupante indício da falta de preparo para o exercício da democracia, mesmo no seio de uma classe profissional supostamente bem educada.


(Foto retirada daqui e editada)

domingo, 27 de dezembro de 2009

Ciro Gomes, presente e passado

A eventual candidatura de Ciro Gomes a governador de São Paulo tem alimentado as esperanças de boa parte da centro-esquerda. O nome do ex-governador cearense credencia-se, para tais setores, como uma das únicas alternativas capazes de pôr fim à hegemonia do conluio PSDB/DEM no Estado, que já dura 16 anos (ou 24, se considerarmos que os peemedebistas Orestes Quércia e seu pupilo Luiz Fernando “Matança do Carandiru” Fleury Filho professavam avant la lettre a mesma cartilha direitista que os demotucanos tornaram norma).

Uma das razões primordiais do entusiasmo que Ciro Gomes desperta na esquerda é seu destemor verbal, seja “falando umas verdades” sobre a mídia para os velhinhos do Canal Livre ou ligando a metralhadora giratória em qualquer ocasião pública em que o nome de Serra é ventilado. Ao contrário de Lula – que, goste-se ou não, só quebrou a resistência de setores da sociedade a seu nome ao adotar a estratégia “paz e amor” para ele forjada por Duda Mendonça em 2002 (e desde então evita a todo custo conflitos públicos) – Ciro não tem papas na língua. Como naqueles filmes estrelados por Charles Bronson ou Steven Seagal, ele é o vingador que desrespeita as convenções – no caso, políticas – e compraz os espíritos injustiçados pela mídia serrista, que tudo distorce.

Isso que muitos veem como uma qualidade, eu interpreto como um grande defeito. Primeiro porque, no passado, a boca grande e o pavio curto de Ciro já o tiraram do páreo eleitoral; não há garantias de que isso não venha a se repetir.

Segundo, porque o duplo desafio de Ciro é hercúleo: ele tem, primeiro, de convencer os ultra-bairristas paulistas a dar um voto a um candidato que sempre foi identificado com o Ceará e, embora tenha nascido na mesma Pindamonhangaba de Alckimin, sempre foi visto como um nordestino, grupo-alvo preferencial do preconceito paulista. Por mais que sejamos otimistas e consideremos que o mundo evolui e os costumes mudam, é preciso desconhecer a mentalidade do interior paulista para apostar que Ciro seja totalmente bem-sucedido na empreitada.

Além disso, ele tem também de convencer o eleitorado mais conservador do país – que nunca deu vitória a Lula nas eleições presidenciais, nem contra Serra em 2002, nem contra Alckimin em 2006 – a deixar de votar no conluio PSDB/DEM e adotar um candidato que se diz de esquerda, apoiado por Lula. Achar que com manifestações de destempero verbal e enfrentamentos públicos ele vai levar a cabo tais tarefas, convencer as hordas de velhinhas de Taubaté, e atingir tais objetivos é de uma ingenuidade de constranger Pollyanna.


Trajetória gera questionamentos

Mas há muito mais a interrogar em relação a Ciro Gomes. Sua projeção nacional, nas asas de Tasso Jereissati, deveu-se, inicialmente, à alegada modernização de Fortaleza – onde fora prefeito de 1988 a 1990 - e ao “choque de gestão” que, seguindo a linha determinada por seu padrinho político, aplicara na administração do Ceará, como governador, de 1991 a 1994. A utilização do vocabulário tucano ("choque de gestão") não é vã: Ciro foi o primeiro político do PSDB a eleger-se governador (atualmente, quem governa o Estado é seu irmão Cid Gomes (PSB-CE)).

Desde então, projetou-se nacionalmente uma imagem de Fortaleza duplamente positiva: ao paraíso do sol, com boa estrutura turística e níveis de segurança relativamente mais baixos do que outros destinos do Nordeste veio a se somar, nas duas últimas décadas, os efeitos dessa alegada eficiência administrativa que teria “modernizado” a cidade.

Essa é, convém reforçar, a imagem de Fortaleza – construída, sobretudo, pela mídia. A realidade é bem outra. Enquanto outros estados do norte/nordeste – a Bahia, destacadamente – promoveram, com a ajuda do governo federal, programas contínuos e efetivos de combate à prostituição infantil, em Fortaleza tal atividade é praticada às claras, nas ruas, nas casas de shows, nos bares (mesmo em alguns dos mais finos. Num destes, na última vez que estive na cidade, uma mulher que se passava por mãe de uma menina de uns 13 anos, me abordou e “ofereceu” a filha). Em logradouros turísticos como Meirelles, “meninos de rua” notadamente “chapados” abordam turistas de forma incessante e agressiva, nas barbas da polícia local. É como a Salvador de vinte anos atrás.

A pobreza campeia, não apenas nas violentas periferias que cercam a capital cearense – em que gangues de traficantes se digladiam, com mortes diárias - mas mesmo nos arredores e meios-fios de áreas turísticas. Artigo de professora da Universidade Federal do Ceará ilustra o estado de tensão vivenciada pelos pobres obrigados a morar nos cinturões periféricos.

Os números oficiais não são esses, mas duas fontes das mais confiáveis – o diretor de uma ONG mundialmente respeitada e um jornalista especializado de um dos principais órgãos de imprensa da região – me asseguram que o número de favelas no entorno de Fortaleza chega a 800 e que mais de 1200 assassinatos ocorreram na cidade até outubro deste ano. O truque para manter os índices de violência da cidade relativamente baixos seria registrar crimes cometidos na periferia em delegacias de municípios vizinhos, como se lá tivessem ocorrido.

Para completar, duas das principais praias urbanas da cidade (e as mais próximas da rede hoteleira), Iracema e Meirelles, degradaram-se a tal ponto nas últimas décadas que com regularidade já não apresentam condições de balneabilidade. Trata-se de exemplo cabal de turismo predatório

Perguntas:

1) Que paraíso é esse, que privilegia apenas o grande capital, enquanto as maiores cidades do Nordeste vêm conseguindo combinar crescimento, inclusão social e combate sistematizado à prostituição infantil?

2) Por que tamanha discrepância entre imagem projetada e realidade constatada?

A resposta é simples: o neocoronelato Jeraissati/Gomes, que nos últimos 22 anos domina o Estado, sempre recebeu, por parte da “grande mídia”, o mesmo tratamento privilegiado que seus pares paulistas. O mesmo trololó sobre “choque de gestão” e “modernização” é a fachada midiática para um projeto de privatização do Estado e de seu aparelhamento para fins partidários. Aqui, pedágios e mega-obras; lá, indústria turística.


Inconstância e ligações com a direita

Esboçadas as razões que ligam Ciro, por um lado, ao modo de ser peessedebista e, por outro, ao neocoronelismo, há, por fim, uma última questão a ser debatida em relação ao atual xodó da centro-esquerda paulista: sua impressionante volubilidade político-partidária. Durante esse tempo todo, Ciro trocou de partido como quem troca de roupa. Começou no PDS (que está para Arena, partido de apoio ao regime militar, assim como o DEM está para o PFL – ou seja, só muda a marca de fantasia). Pelo partido elegeu-se deputado estadual em 1982, época em que o general Figueiredo – aquele que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro do povo – mandava no país. Ciro tentou negar que tivesse apoiado a ditadura, mas os fatos são os fatos.

Em 1983, foi para o PMDB, reelegendo-se deputado estadual três anos depois – mas, de novo na metade do mandato, trocou a agremiação pelo PSDB, partido no qual ficaria mais tempo (impressionantes 8 anos!). Do partido hoje comandado por seu inimigo público José Serra saltou para o PPS do camaleônico Roberto Freire, com quem brigou (Ciro queria que o partido apoiasse o governo Lula, mas o esquerdista convicto Freire preferia outras companhias - mais à direita, é claro). Assim, ingressa em 2003 no PSB, onde permanecerá sabe-se lá até quando.

Causa espanto o entusiasmo que um personagem político ideologicamente tão inconsistente e tão volúvel em termos de compromissos político-partidários tem despertado na centro-esquerda. Como confiar em tal candidato? Que garantias ele é capaz de fornecer à centro-esquerda? É possível esperar consistência e compromissos a longo prazo de um político com tal trajetória? Parece-me muito difícil responder afirmativamente a tais questões.

Colabora sobremaneira para o entusiasmo a meu ver excessivo com Ciro Gomes a alegada escassez de candidatos petistas competitivos - e há muito a debater sobre as razões e desrazões por trás de tal premissa. Mas isso será tema para outro post...


(Imagem retirada daqui e tratada digitalmente)