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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Olhos e corações voltados à Grécia

À medida que as eleições gregas entram em sua reta final, os olhos do mundo se voltam ao berço da democracia para acompanhar o que promete ser um dos mais emocionantes pleitos dos últimos tempos - e dos poucos a incluir a possibilidade concreta de eleger uma força política cuja plataforma inclui o rompimento com o programa de austeridade ditado pela Troika.

Pois, a nove dias das eleições, a Syriza (Coligação da Esquerda Radical) lidera, com 31% - e na condição de grande e entusiasmante novidade -, as projeções de votos, seguida pelos 25% da centro-direita (Nova Democracia) e pelos socialistas (só de nome) do PASOK, com 14%.

A confirmação da vitória da Syriza no próximo dia 17 seria uma enfática tradução político-eleitoral da derrota do receituário neoliberal anti-crise que a "comunidade europeia" lhe determinou, e cujo fracasso, do ponto de vista social, tem sido dramática e cotidianamente constatado pela população grega, que convive com índices de desemprego da ordem de 35% e com mais da metade dos jovens sem trabalho. 


Economicismo desumano
A receita ditada pela Troika, além de coagir e humilhar a autonomia da democracia grega, impôs um brutal corte de salários, pensões e investimentos estatais, com alta redução do raio de ação do Estado e nenhuma preocupação com as graves consequências sociais decorrentes. A aplicação de tais medidas, caracterizadas por um neoliberalismo desabrido, tem envenenado ainda mais o tecido socioeconômico de uma nação empobrecida e aprofundado a crise. Para muito além das planilhas sobre dados macroeconômicos, a Grécia é hoje um país cuja classe média vem sendo dizimada e cujos pobres, sujeitos a fome e desnutrição, encontram-se entregues à própria sorte.

O mundo social do trabalho se esfacela, com sindicatos extramente enfraquecidos, a proliferação de “contratos informais” e o calote salarial institucionalizado (500 mil trabalhadores não estariam recebendo seus pagamentos). O cenário se deteriora: há falta de medicamentos para doenças graves e empresas farmacêuticas relutam cada vez mais a vender a prazo, segundo relata o The Guardian de hoje (08/06); nas cidades, proliferam mendigos e meninos de rua; grassam a fome e a desnutrição: “o país já se encontra em ruínas”, definiu o ativista Yorgos Mitralias, segundo relato de Mauricio Haschizume em matéria da Carta Maior.


Assimetria de tratamentos
Um caso dramático se tornou o símbolo das medidas desumanas a que está sendo submetido o povo grego: o músico Antonios Perris, de 60 anos, se suicidou após ver-se na miséria e não conseguir que nenhum asilo aceitasse a mãe, que sofre de Alzheimer e esquizofrenia e pulou com ele do quinto andar de um prédio. Perris (foto abaixo) deixou uma carta, largamente negligenciada pela mídia corporativa, em que apela aos poderosos pelos pobres e para que os bancos cessem os despejos.
Enquanto, num flagrante desrespeito aos direitos humanos, o povo grego é pauperizado dessa maneira em nome da austeridade, o Banco Central Europeu injeta nada menos do que 1 trilhão de euros (R$ 2.532.000.000.000,00) em bancos do continente, cuja ação irresponsável no período imediatamente anterior à crise, “alavancando” empréstimos sem lastros, é uma das principais causas da débâcle financeira.


Mídia versus renovação
Não obstante tais discrepâncias, será instrutivo acompanhar, nessa reta final das eleições gregas, o esforço que os porta-vozes do mercado encrustados na mídia e por ela designados como “jornalistas especializados” farão para alardear, com um palavrório que, sob verniz técnico, mistura wishful thinking, lugares-comuns da Economia e não tão veladas ameaças, o caos e a expulsão do paraíso que fatalmente, segundo eles, incidirão sobre a Grécia caso a Syriza – caracterizada como o ninho do pior e mais irresponsável radicalismo - assome ao poder.



Até o momento, porém, o que as pesquisas de intenção de voto sugerem é que os eleitores têm se dado conta de que o paraíso neoliberal da Europa mal tem lugar para a plutocracia grega, quanto mais para os estratos médios e baixos, atirados à própria sorte. O jovem candidato a primeiro-ministro pela Syriza, Alexis Tsipras (37, foto acima), já alertou que se a Europa cortar os fundos adicionais pré-acordados, a Grécia, sob seu comando, para de pagar a dívida.  Mesmo caso a coligação não venha a ganhar as eleições (toc, toc, toc...), deve se constituir como uma nova força na arena grega - e, de qualquer maneira, já goza do mérito de ter trazido uma lufada de ar fresco a renovar o pensamento político no velho continente.


Novos rumos para a esquerda
Muito haveria para se dizer sobre a relação entre a paradoxal vigência do neoliberalismo como alegada panaceia para a Europa atual, a crise grega e a saudável novidade representada pela Syriza. Mas a sensacional intervenção de Slavoj Žižek no comício da coligação, disponível ao final do texto (com legendas em português lusitano), aborda essas e outras questões - como os impasses no interior da esquerda ou a recusa à passividade que as reações dos gregos à crise denotam - com tamanho brilhantismo, eloquência e originalidade que o melhor é encerrar por aqui, recomendando, com ênfase, que assistam ao vídeo.

Pois, falando para um público naturalmente entusiasmado, certamente grato por seu apoio e que compartilha muitos de seus ideais, o filósofo esloveno mostra-se particularmente inspirado, seja pela consistência de sua crítica ou pela intensidade de sua performance, com seu blending único de psicanálise e marxismo, seu inglês com sotaque caricatural, suas metáforas e comparações inusitadas e desconcertantes - tecidas muitas vezes a partir de filmes, canções e demais produtos culturais de massa (como a alusão a Coca-Cola e Pepsi para ilustrar a diferença entre Nova Democracia e PASOK) -, além de seus conceitos personalíssimos e desconcertantes - como, no caso, o de “democracia descafeinada”. Vale a pena ver o vídeo até o final.



(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali e dacolá)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Crise na Europa: alerta para Dilma

A expansão e o agravamento da crise econômica na Europa, com desemprego galopante, recrudescimento da xenofobia e perspectiva de caos social ante os efeitos do receituário neoliberal deveriam servir, no Brasil, como um alerta aos rumos do governo Dilma Rousseff.


Capitalismo midiático
A mídia corporativa permanece atrelada ao projeto neoliberal ao qual aderiu desde que o muro de Berlim ruiu, numa aliança que transcende qualquer fervor ideológico e encontra sua justificativa no fato de o receituário derivado do Consenso de Washington priorizar a multiplicação do capital em detrimento do atendimento a demandas sociais. E mídia e capital, nos dias de hoje, fazem parte de uma simbiose cuja finalidade principal é o acúmulo de poder e de divisas.

Esse posicionamento da mídia gera vicissitudes significativas, impeditivas do exercício do bom jornalismo: em termos de cobertura internacional, significa uma chancela ao receituário recessivo, defensor do Estado mínimo, forjado pelo neoliberalismo, bem como o esforço para desqualificar entes políticos que neste não se enquadrem ou a ele se oponham.


Vozes do mercado
A cobertura que a Rede Globo tem fornecido em relação à crise na Grécia é altamente ilustrativa a esse respeito: o povo, a protestar violentamente nas ruas contra o que entende como uma afronta a seus direitos, é tratado como um ingênuo: "Será que eles sabem o que vai acontecer se a Grécia der o calote?", pergunta Leilane Neubarth, antes de um daqueles seres engravatados e seriíssimos que personificam o mercado assegurar que, independentemente da decisão do parlamento grego (que a semana passada aprovou o tal plano econômico) os bancos e o FMI já haviam se decidido a "ajudar a Grécia". Trata-se de uma "ajuda" que reduz em dois terços as aposentadorias e viola direitos constitucionais, mas isso não é mencionado.

Agora é Portugal quem tem seus títulos da dívida pública rebaixados, por uma agência de classificação de risco, para a categoria “junk” – ou seja, lixo, na tradução sem hipocrisia de Rodrigo Viana. Embora noticie com gravidade tal rebaixamento, a mídia corporativa, uma vez mais, deixa de fazer sua obrigação e “se esquece” de questionar o porquê dessas mesmas agências não terem previsto a crise das hipotecas nos EUA, que levou tantos investidores à bancarrota e está no cerne da presente crise econômica mundial, e nem porque os próprios EUA, que há dezenas de meses não conseguem sair do buraco em que se meteram, a despeito de um estrilho teatral, continuam a receber bons graus de investimento.

A mídia não o faz, desnecessário dizer, porque tanto quanto tais agências de classificação de risco são uma criação do próprio mercado financeiro - em aliança com os países ricos -, para imposição de seus próprios ditames, os meios de comunicação se transformaram, nas últimas décadas, em correia de transmissão do financismo internacional, instrumentalizado para, como observa Muniz Sodré, naturalizar, difundir e assegurar a hegemonia da economia neoliberal de mercado.


Outro mundo é possível?
Enfrentar os grandes grupos de mídia e buscar soluções que preservem direitos humanitários para a crise de endividamento de economias nacionais, contrapondo-se assim à ditadura do pensamento único que as corporações financeiro-midiáticas tentam impingir, são, portanto, medidas imprescindíveis na agenda da esquerda mundial.

É preciso levar em conta tais fatores para contextualizar corretamente a decepção que o governo Dilma vem causando a setores cada vez mais volumosos da esquerda brasileira. Pois, herdeira e continuação de um governo que, em plena crise econômica mundial, ousou ir na contramão e postar na expansão do crédito, na ampliação dos programas sociais e no fortalecimento do Estado, esperava-se da mandatária que comandasse, tanto no contexto nacional quanto no âmbito de sua liderança internacional, o aprofundamento de um modelo alternativo ao neoliberalismo.


Promessas ao léu
Trata-se de uma possibilidade perdida, pois o que se vê, de fato, é uma inação condescendente aos desígnios do mercado, traduzida em uma série significativa de incompatibilidades entre promessas e ação:

  1. Ao contrário do que foi prometido em campanha, sacrifícios no orçamento para atingir superávits tão volumosos quanto desnecessários;
  2. Ao contrário do que foi prometido em campanha, a volta das privatizações, agora acompanhada da moda – estranhíssima em uma democracia – dos contratos sigilosos;
  3. Ao contrário de uma campanha que prometia prioridade à educação, a contenção de despesas relativas às novas universidades federais, abastecidas de professores temporários com salários de substitutos e direitos trabalhistas precários, ao invés dos mestres e doutores que estudaram anos e anos para cumprir tal função;
  4. Diferentemente do prometido em campanha (e exaustivamente repetido pelo ministro Paulo Bernardo), um PNBL fajuto, feito com internet móvel “onde não for possível instalar internet fixa” e sem possibilidade efetiva de controle (e punição em caso de não-cumprimento do previsto) por conta do governo. Ou seja, perfeitamente de acordo com as premissas que os neoliberais adoram: tudo na mão da iniciativa privada e sem possibilidade de intervenção do Estado.

Governo de centro-esquerda?

Nesse cenário, Dilma Rousseff permanece impassível enquanto a oposição e os setores mais conservadores da mídia praticam o costumeiro jogo de derruba-ministros. O que muitos vêem de forma positiva, como uma postura cool e finamente discreta da presidente, tem, na verdade, gerado um vácuo e um silêncio que vêm sendo espertamente ocupados por vozes do mercado financeiro, que voltaram a ter, hoje em dia, o protagonismo midiático do qual desfrutaram até o final do primeiro governo Lula.

Ou seja, a hegemonia discursiva já está de novo na mão do neoliberalismo - resta saber, levando em conta que setores crescentes do funcionalismo público acenam com protestos e greves, se e o que Dilma vai fazer quando a insatisfação crescente dos que a apoiaram vier à tona: se dizer a que, enfim, o seu governo alegadamente de centro-esquerda veio, ou fechar com o conservadorismo velho de guerra que deu o tom de seu primeiro e decepcionante semestre à frente do país.