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quinta-feira, 17 de março de 2011

Bethânia põe a nu distorções e anacronismo da Lei Rouanet

Maria Bethânia é uma artista de primeira grandeza. Senhora de dois mundos, tornou-se referência cultural no Brasil e em Portugal, com sua capacidade de mesclar o literário e o musical e de tornar o popularesco sublime e o sublime, popular.

Com o tempo, à medida que seus longos cabelos cacheados tornaram-se brancos como um véu, tornou-se para muitos uma espécie de figura referencial (a la Fernanda Montenegro), repositório de sensatez e sensibilidade, com uma espiritualidade evidente em semi-contraste com a aura de diva que sua figura irradia.

Os que privilegiam a técnica interpretativa como principal quesito para avaliação do desempenho de cantoras tendem a eleger Elis Regina sua referência máxima; mas entre os que preferem a emoção interpretativa, Bethânia (ao lado de Nana Caymmi) reina soberana. Na modesta opinião deste blogueiro, ela divide com Aracy de Almeida a mais alta posição no pódio das cantoras brasileiras.


Vaias a granel
Mas ontem essa protagonista da história cultural brasileira durante quase meio século viveu seu dia de Judas em Sábado de Aleluia, despertando a fúria de internautas ao obter a liberação do MinC para captar 1,3mi através da Lei Rouanet. Pior: para montar um blog (os altos custos seriam causados pelo emprego de profissionais e equipamentos de ponta para gravações de videoclipes a serem diariamente postados).

Inútil argumentar que há tempos se tornou recorrente a captação de dinheiro público por artistas cujas fama e penetrabilidade midiática permitiriam prescindir do Estado para avançar sua carreira: trata-se de um fato, mas não de uma justificativa.

Assim, o imbroglio envolvendo a cantora baiana pôs a nu as vicissitudes da "Lei Rouanet", instrumento que, logo após ser criado, desempenhou papel fundamental na sobrevivência de determinados setores artísticos durante o outono neoliberal, mas que, como o episódio em questão evidencia, acabou por gerar graves distorções nas relações entre economia, ideologia e produção cultural.


Tábua de salvação
Elaborado especificamente para reerguer a produção cinematográfica nacional, destroçada após a extinção da Embrafilme por Collor em 1990, o modelo de financiamento trazido pela "Lei Rouanet" em concomitãncia à "Lei do Audiovisual”, baseado em renúncia fiscal de parte do imposto devido por empresas, transferiu para o setor privado – especificamente, para os diretores de marketing de tais firmas – a tarefa de selecionar projetos e determinar os rumos da produção de filmes no Brasil. Com dinheiro público, bem entendido.

Sob forte pressão de outros segmentos culturais – notadamente a classe teatral - e à medida que o cinema brasileiro passava a demonstrar vitalidade, a lei passou a atender demandas de diversas áreas, inclusive da MPB – que, por uma série de razões histórico-mercadológicas, sempre andou com as próprias pernas, ao menos no que concerne a artistas com algum apelo popular.


Lado B
Na gestão Gil/Juca Ferreira, não obstante os esforços de rediscussão da Lei Rouanet quando esta completou dezoito anos, a situação gerou disparates, com artistas do porte de Caetano Veloso captando altos volumes de recursos – os quais poderiam beneficiar uma dezena de artistas que realmente precisavam do apoio da lei – e o internacional Cirque du Soleil valendo-se de recursos do povo brasileiro mas oferecendo ingressos ao preço mínimo de R$300,00.

Para completar, a mais poderosa empresa de mídia corporativa do país – a Rede Globo – tornou-se líder de captação pela Lei Rouanet, deixando à míngua gerações de novos cineastas enquanto inunda o mercado com seus filmes-novelões-minisséries previsíveis.


A privatização da cultura
A Lei Rouanet cumpriu sua funcão de revitalizar a produção cultural brasileira em tempos de vacas magras. Mas mostra-se, há tempos, prenhe de distorções e promotora de mecanismos viciados de benefício de famosos e descolados e de marginalização do novo e do ousado, num processo entrópico que, analisado detidamente, acabará por revelar uma das grandes razões para o relativamente baixo nível de renovação do mercado cultural brasileiro – e, na média, da defasagem de qualidade entre os novos artistas e seus predecessores.

Há um porém: o pano de fundo ideológico que “justifica” e sustenta até hoje a Lei Rouanet é a herança maldita que o neoliberalismo nos deixou, simbolizada na bem-sucedida operação de demonização do Estado como ente gestor de cultura e na transferência do poder decisório do setor para a iniciativa privada.

Na atual conjuntura política, não há indícios de que nos livraremos de tal entulho tão cedo, mesmo porque, sui generis, o modelo de privatização da cultura com dinheiro público interessa muito ao poder corporativo e ao grande capital.

Restam, como catarse dos auto-iludidos, a indignação neoudenista e a unção de Bethânia a Judas da vez. While the show goes on...


(Imagem returada daqui)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Crianças, adultos e uma imagem

O blog da deputada Manuela D’Ávila está de cara nova. Mas continuam os mesmos o endereço e os nomes – que são dois, ao gosto da freguesia: “Há uma menina...” (assim, com os três pontinhos ao final) ou “Bola de Meia, Bola de Gude”. Este último em referência à música de Milton Nascimento e Fernando Brandt cuja estrofe inicial diz:


"Há um menino, há um moleque,

morando sempre no meu coração,

toda vez que o adulto balança

ele vem pra me dar a mão".


Esses versos sempre me fazem lembrar da bela - e para mim tocante - dedicatória com que meu pai me presenteou, quando eu tinha 7 anos, o livro As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain:


“Ao meu filho Maurício,

Para que a criança de hoje

não se perca no adulto de amanhã”.


Às vezes, como nos últimos dias, tem sido muito difícil achar essa criança dentro de mim. E as forças para “firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura”, de que nos fala Mario Faustino, se dissipam em meio a mesquinharias minhas e alheias, um cansaço generalizado do mundo e trips egóticas fora de lugar. Hay dias que no se lo que me pasa.

Mas este não é um texto de lamentações pessoais: as mudanças do blog de Manuela – alguém que aliás, parece conduzir muito bem o tal “nobre pacto” -, embora para melhor, retiraram da diagramação visual um item central, que sempre capturava minha atenção por alguns instantes: a foto que encima este post.

Não sei quem é o fotógrafo por ela responsável, mas posso afirmar, sem dúvida, que é uma das minhas fotos preferidas.

O que salta à vista, em primeiro lugar, é a questão racial: a louríssima e branca Manuela em alegre e desibinida interação com uma criança negra, com a anuência entusiasmada da responsável por esta. Talvez isso não seja big deal em terras brasileiras, mas tenho certeza de que seria um exemplo maravilhoso em diversas partes do mundo.

Os contrastes no interior da imagem vão além da cor da pele: o nariz reto e um tanto pronunciado de Manuela - característica que eu acho muito atraente em algumas mulheres, talvez porque lhes confira mais personalidade -, sua altura consideravelmente maior do que a de seus interlocutores, e as posições por demais flexionadas e angulosas que assume - mais observáveis no braço e na boca bem aberta - fazem com que componha uma figura apolínea, em oposição ao jorro de felicidade relaxada e autenticamente dionisíaca que se depreende de mãe e filho, particularmente dos olhos da criança, que funciona como uma especie de centro irradiador de energia.

As roupas também nos dizem algo: enquanto o bebê, bem-penteado, ereto e vestido com uma camisa de gola, segura um papel na mão esquerda, Manuela, levemente encurvada e despojada, veste uma camisa de flanela em tom pastel - tão simbólica das gerações de jovens pós-68 -, com uma flor bordada como um adereço extra a dar-lhe, talvez, um toque meio hippie. Para os padrões convencionais, produz-se uma curiosa inversão: é como se o menino fosse o deputado e a jovem loira quem o assedia.

O nunca banal Roland Barthes, em A Câmara Clara – talvez o mais poético dos livros acadêmicos já escritos, no qual discorre sobre fotografia a partir dos poucos registros visuais de que dispõe supostamente relativos à sua mãe recém-falecida – sugere um sistema classificatório, no qual o punctum seria um dos principais elementos. Se bem me lembro, este designaria um detalhe, um ponto não central da imagem mas que, de acordo com um critério pessoal, desempenharia uma função denotativa relevante na foto.

Na minha opinião, o punctum da foto acima não está nem em Manuela nem no bebê, mas na mãe deste, mais exatamente no modo como esta france o cenho, embevecida pelo sorriso do que presumimos ser seu filho (o sorriso, aliás, é um ponto de identificação entre ela e Manuela, ambas com dentes bem brancos e alinhados, enquanto mal despontam no bebê seus primeiros dentes-de-leite frontais inferiores). É, em última análise, a reação da suposta mãe que confere autenticidade, corrobora e multiplica os sentidos epifânicos atribuíveis ao ato de interação social pela cãmera flagrado.

O resultado é uma foto tão boa que nos faz esquecer que se trata, afinal, de uma situação recorrente, e que, por botar, literalmente, o candidato bem na foto, tornou-se banalizada nos eventos políticos públicos: o afago em bebês alheios. Entretanto, a interação genuína ente Manuela e a criança, a espontaneidade alegre desta e o júbilo de sua presumível mãe nos faz relevar ou mesmo não se aperceber do clichê.

Deputada Manuela, o link pra o seu blog vai continuar ali embaixo, à direita, destacado no blogroll do Cinema&OutrasArtes. Mas não sem a certeza de que cada vez que acessá-lo sentirei falta de uma das imagens mais fascinantes e “do bem” da blogosfera. O que nos leva a constatar que certas mudanças são perfeitamente evitáveis, ao contrário do tornar-se adulto.

domingo, 7 de março de 2010

Aniversário e convescote

Hoje faz um ano que este blog está no ar. Ele surgiu, como uma imposição íntima, em decorrência direta do protesto organizado por Eduardo Guimarães contra a Folha de S. Paulo e sua “ditabranda”, em um momento em que as recorrentes violações éticas da mídia ultrapassaram todos os limites.

Ele comemora seu primeiro ano de vida quando essa mesma mídia corporativa à qual a Folha pertence acaba de se juntar em um evento tão cômico quanto ameaçador. A máfia ítalo-americana costumava reunir-se em Cuba, em meio a daiquiris e praias tropicais, para tramar suas jogadas mais sujas e ousadas. A mídia brasileira, ainda mais jeca e alérgica a tudo o que seja tropical, prefere convescostes a R$500 a cabeça (não se assuste: só otários pagam, a maioria entra na faixa) em hotéis metidos a besta. Lá articula – em público, pela primeira desde 1964, como aponta o jornalista Gilberto Maringoni em artigo intitulado “O rosnar golpista do Instituto Millenium” – uma reação conjunta contra uma das candidaturas presidenciais – no caso, a de Dilma Rousseff (PT).

Isso não quer dizer, no entanto, que eles assumirão em seus veículos “jornalísticos”, de forma clara e transparente, a posição que fazem questão de ostentar através do convescote: a Folha continuará a se autodefinir como “Um jornal a serviço do Brasil”, a Veja como a principal e mais vendida publicação brasileira graças ao alegado alto nível profissional de seus colaboradores, e o/a Globo, assim como alega jamais ter deixado de cobrir as Diretas Já ou manipulado o debate entre Collor e Lula em 1989, continuará exaltando a imparcialidade inerente ao tal Padrão Globo de Qualidade. Não seria muito mais honesto se fizessem como alguns bons jornais norte-americanos e assumissem suas preferências eleitorais junto ao eleitor/telespectador? Esta é, aliás, uma das sugestões saídas do evento, mas quantos acreditam que será mesmo seguida?

No evento, ao menos dois dos palestrantes do evento – os inacreditáveis Demétrio Magnolli e Denis Rosenfied – fizeram acusações diretas ao PT relativas a seu suposto totalitarismo. Para o primeiro, que parece ignorar a revolução silenciosa que ora ocorre na internet, na difusão das pequenas e médias publicações no interior do país e nos Pontos de Cultura espalhados de forma capilar pelo território nacional, o partido “dá marcha a ré em todos os assuntos que se referem à democracia”. Já para o filósofo gaúcho, “"O PT é um partido contra a liberdade de expressão. Não há dúvidas em relação a isso” – o eminente masturbador mental não se preocupa em oferecer exemplos que permitam que sua afirmação peremptória soe como algo além de mero devaneio pessoal emitido por um ator político folclorizado pelo conservadorismo anacrônico de suas posições.

Não deixa de ser irônico que, como seus dois acólitos o demonstram, um dos sucessos da mídia brasileira em seu penoso estágio atual tenha sido, em conluio com o demotucanato, atribuir ao lulopetismo pendores autoritários – aos quais costumam se referir com a acusação genérica e conceitualmente imprecisa de “stalinismo”. Mas a verdade largamente comprovada por fatos históricos é que o PT nunca foi stalinista – muito pelo contrário, surgiu sindicalista e em oposição às linhagens soviéticas em confonto no interior do PCB, evoluindo, a partir dos anos 90, para uma espécie de social-democracia de resultados.

Também desconhece-se qualquer medida efetiva de cerceamento da liberdade de expressão durante a Presidência de Luís Inácio Lula da Silva. O único momento da história mais ou menos recente do pais em que houve, de fato, de forma inegável, censura institucional e sistemática – a ponto de destruir carreiras artísticas – foi durante a ditadura militar, notadamente no pós-AI-5. E quem apoiava tal regime? A maioria dos grupos de mídia presentes ao convescote – alguns inclusive com a cessão de carros para transporte de presos para a tortura - e os mesmos políticos do DEM (então Arena, depois PDS) que hoje berram ante qualquer proposta de regulação da atividade midiática. Será que não é evidente a contradição aqui, a sustentar o truque de acusar em outrem aquilo que o próprio acusador pratica?

Um dos recorrentes prolemas com o lulopetismo, em parte devido à concentração da mídia corporativa em mãos inimigas, em parte à crônica incompetência comunicacional própria, é a baixa capacidade de reação ante acusações e campanhas difamatórias. Cola-se com extrema facilidade no PT, em Lula e em membros do governo acusações que são claramente falsas. O exemplo acima é eloquente, com uma gritaria anti-autoritarismo petista ocultando, como tão bem diagnostica Luiz Egypto, a luta por manter a mídia acima da lei, livre para praticar um "jornalismo" que não atende nem à demanda pública nem à busca pela fidelidade aos fatos, mas tão-somente à satisfação de seus próprios interesses corporativos.

Assim foi também com o factóide desta semana - provavelmente o primeiro de uma escalada - , segundo o qual Lula licenciar-se-ia por 2 meses, sendo substituído durante tal período por Sarney. Desde o primeiro momento esteve clafro, para mim, tratar-se de um absurdo total, ao qual Lula, por consciência dos danos que tal ato poderia trazer a si e à sua candidata, jamais recorreria. Mas a “notícia” espalhou-se como rastilho: da coluna de O Globo para os blogs corporativos da empresa – que, numa clara orquestração, incluiu até os que cobrem segurança pública e cultura – e daí para os tuiteiros tucanos, os simpatizantes e os indecisos, todos a difundir freneticamente o que não passava de uma especulação sem valor jornalístico algum. E na sequência, como a corroborar a ideia de uma articulação conjunta, vem à tona a manchete de anos atrás requentada por Veja – que, de novo, tem feito muita gente boa cair como patinho.

Portanto, o segundo ano do blog começa com a perspectiva de uma disputa de baixíssimo nível à frente. Mas nossa intenção é de continuar, defendendo os valores que julgamos importantes - notadamente a ética no jornalismo e a prioridade ao social na política. E, quem sabe, como era a ideia inicial, inserir mais cinema, mais música e mais literatura nos posts, para a brincadeira ficar mais gostosa. Aos seguidores e seguidoras, agradeço pelo estímulo e reitero o convite ao diálogo.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Desalento: a "hibernação" d'O Biscoito Fino

A “hibernação” do blog O Biscoito Fino e a Massa, sem previsão de retorno, foi anunciada ontem por Idelber Avelar e provocou comoção em muitos, inclusive em mim.

Instalaram-se um vazio e um senso de desorientação. A tarde ficou triste, melancólica, como aquela do poema que Vinicius fez a Rubem Braga. Fez-me lembrar outra tarde, distante, em que eu almoçava com minha amiga Glauce Passeri e ouvimos no rádio do restaurante que Cazuza morrera. Não se trata, evidentemente, de algo tão trágico e irreversível, mas a ligação se faz, para mim, porque os dois eventos significam, de certa forma, o fim da culminância de uma era em que o novo se impôs.

Pois, ao criar e manter, por cinco anos, um blog independente - visceral em suas posições, na crítica à mídia, na defesa lúcida dos pontos de vista da esquerda - e fazer dele uma referência política e cultural para milhares de pessoas, Idelber provou que uma nova mídia, não-corporativa, democrática, feita com parcos recursos mas com inteligência é possível.

Relutei muito em escrever este post. Havia decidido não fazê-lo. Mas, de madrugada, após um dia marcado pela tristeza e pelo pasmo, ele se impôs quase que como uma forma de desabafo, de exorcismo emocional. Não quero, de forma alguma, dar a impressão de estar sendo oportunista. Sou o primeiro a reconhecer que há muitas outras pessoas com um contato muito mais longo e intenso com Idelber do que eu. Uma dessa pessoas, o Alexandre Nodari, escreveu um belíssimo post a respeito, no qual o qualifica, com a precisão de um antropólogo, como “o primeiro intelectual público brasileiro da internet”.

Eu sequer o conheço pessoalmente, e meu contato com ele se resume a comentários – eventualmente respondidos - em seu blog, em esparsos e breves diálogos twitados e nas poucas mas para mim importantes vezes em que, graças à sua generosidade, ele citou a meu blog ou a mim no Biscoito ou nos RTs do Tweeter.

Lembro-me bem das primeiras vezes que acessei O Biscoito. Faz uns 3 anos, 3 anos e meio. Eu morava nos EUA e acompanhava obsessivamente a mídia brasileira pela internet. O blog do Nassif foi, para mim, uma novidade redentora. Mas demorei a assimilar o de Idelber, não apenas porque seus textos pareciam-me muito densos (numa épóca em os blogs ainda eram mais associados a humor, a diários adolescentes ou, de qualquer forma, a textos curtos) mas por motivos correlatos que hoje me fazem rir: seu nome, Idelber Avelar, me sugeria, sei lá o por quê (as xícaras de chá?) , um senhor de uns 50, 60 anos que, sendo professor universitário e escrevendo aqueles textos analíticos compridos, devia ser seríisimo e sisudo (rs.). Levou um bom tempo para que essa impressão se dissipasse.

Só passei a frequentar o blog diariamente há 1 ano 9 meses, creio eu, quando já estava para voltar ao Brasil. Daí em diante ele se tornou meu principal ponto de referência na internet brasileira. Durante todo esse período espantava-me a frequência com que as idéias dele expressavam exatamente o que eu pensava, notadamente em termos políticos. Alguns momentos memoráveis, para mim, foram as últimas eleições para prefeito e, sobretudo, o episódio da “ditabranda” e do ataque aos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides pela Folha de S. Paulo. Daí nasceu o Cinema e Outras Artes: motivado pela leitura, n’O Biscoito, da cobertura da passeata promovida pelo Movimento dos Sem Mídia (da qual participei) em frente à sede do jornal.

Só me lembro de ter discordado total e frontalmente de Idelber em uma ocasião, mais pela forma como ele defendeu uma idéia - e pelas consequências políticas que aquela defesa poderia gerar - do que pela idéia em si (embora desta também discordasse). Mas não seria correto abordar o tema aqui, já que ele não estará disponível para eventualmente contestar.

“A hibernação do Biscoito deixa um vácuo considerável na blogosfera brasileira”, aponta Hugo Albuquerque. Além da perda do referencial periódico que as atualizações d’O Biscoito traziam e do fim do espaço de discussão cultural de alto nível, o que mais lamento na decisão de Idelber é, ao que tudo indica, a sua ausência nos debates que serão suscitados pela próxima eleição. Será, com certeza, uma guerra, e não tenho dúvidas de que ele seria – como já vinha sendo – um dos principais faróis para a militância de esquerda e no contra-ataque a uma mídia que insiste em agir como partido. Caberá a todos nós segurar essa peteca.

Pois o desenvolvimento de sua carreira acadêmica, incompatível com a intensa atividade blogueira, se impôs e novos frutos devem vir, não mais em doses fugazes e quase diárias, mas a longo prazo, na forma duradoura e intelecualmente mais complexa de livros. Toda a sorte e inspiração do mundo a ele, que a tantos inspirou!



(Ilustração: "Melancolia", por Edward Munch, 1891 - retirada daqui)