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terça-feira, 16 de junho de 2009

Cinesul 2009 traz o melhor do cinema latinoamericano

(cena de Postales de Leningrado)

Começa hoje (1606), no Rio de Janeiro, o Cinesul 2009, que oferece uma rara oportunidade de tomar contato com a produção cinematográfica latinoamericana – que devido a um misto de ingerência externa, fatores geopolíticos, a questão do idioma e a decorrente ausência de hábito cultural tem sido historicamente negligenciada no país.

O festival – que traz ainda filmes de Portugal e da Espanha (incluindo Ilhas Canárias) – oferece mais de 300 filmes entre curtas e longas metragens. Há 3 mostras competitivas e 7 mostras paralelas, com nomes autoexplicativos: Programa Foco Espanha, Bossas Musicais, Palcos e Telas, Cinesul Animado, Brasil Real, Cinema de Fé e Cinema Ambiental. Haverá ainda uma oficina de produção audiovisual para celulares, a cargo de Marco Altberg.

O Cinesul deste ano homenageia o cineasta Carlos Hugo Christensen (1914-1999), que após fazer filmes na Argentina (onde nasceu), no Chile, no Peru e na Venezuela, se radicaria no Brasil, onde expandiria para mais de uma dezena de títulos sua filmografia, incluindo o belo Crõnica da Cidade Amada (1964). A trajetória de Christensen, que morreu antes de completar o que seria o primeiro filme produzido pelo Mercosul – Casa de Açúcar (1996) -, o qualifica como um dos cineastas que melhor representa o panamericalatinismo.

Merece destaque, ainda, uma mostra em comemoração dos 50 anos do ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográficos), criado três meses depois da vitória em Sierra Maestra, pelo primeiro decreto do Governo Revolucionário concernendo assuntos culturais. A despeito de sua função de instrumento de difusão ideológico do regime, o ICAIC acabou por produzir algumas das mais críticas visões do período castrista, notadamente nos filmes de Tomás Gutiérrez Alea. A mostra privilegia o trabalho de Pavel Giroud, que prima pela combinação de refinado apuro estético e senso de observação social e do excepcionalmente prolífico documentarista Santiago Álvarez (que realizou mais de 200 filmes, entre curtas, médias e longas metragens).

Eu recomendaria enfaticamente o filme venezuelano Postales de Leningrado (2007), dirigido por Mariana Rondón e que conta, a partir de jogos imaginativos de duas crianças, que atuam como narradoras, a atuação do grupo guerrilheiro FALN nos anos 60. O roteiro de Rondón é extremamente inventivo e, através de múltiplos níveis de narração e da utilização de recursos visuais diversos, consegue dar um tratamento lúdico e involvente a uma temática pesada, que inclui abandono, perseguições e tortura. Com excelência nos quesitos técnicos – merecendo destaque a trilha sonora e direção de fotografia (Micaela Cajahuaringa) -, Postales..., em parte devido à sensibilidade feminina que transpira, é um dos melhores filmes produzidos na região nos últimos anos.

Aos que apreciam curtas metragens, não percam o hilário Tira os Óculos e Recolhe o Homem, baseado na música homônima de Jards Macalé e Moreira da Silva, dirigido pelo talentoso André Sampaio.

O Cinesul este ano acontece apenas no Rio de Janeiro, de 16 a 28 de junho, com as sessões começando às 17:30 durante a semana e ao meio-dia aos sábados e domingos. A maioria dos eventos tem lugar no CCBB (rua Primeiro de Março, 66) e no Centro Cultural dos Correios (rua Visconde de Itaboraí, 20), ambos no belo centro antigo do Rio, mas há também projeções no MAM, no Jardim Botânico e no Teatro Tim Lopes, em Nilópolis. Programação e mais informações aqui.

O melhor fica para o final: o ingresso é gratuito, devendo ser retirado uma hora antes do evento.