Tinha ouvido muitos elogios ao filme de Allen, de quem sou fã de carteirinha, e as altas expectativas que alimentava em relação a Whatever Works podem ter contribuído para a leve decepção que tive.
Há, sem dúvida, algo do frescor e o tipo único de experimentalismo formal dos woodies dos anos 70 (época em que o roteiro foi escrito), aí incluído o modo ostensivo como é violada a regra de que os atores não devem jamais olhar diretamente à câmeraa (ou seja, ao espectador). Tal estratagema pareceu-me um dos escassos atrativos do filme, ao lado da deliciosa ninfeta burra encarnada por Evan Rachel Wood – uma southern belle em crise, com o inacreditável nome de Melodie St. Ann Celestine, um sotaque hilário e uma voluptuosa obsessão pela culinária cajun.
Mas não basta: Tudo Pode Dar Certo, por mais que Allen se esforce para mitigar – inclusive fazendo referência explícia, em forma de blague, à fonte inspiradora – não passa de mais uma versão do Pigmaleão de Bernard Shaw, com polos adjacentes um pouco mais desenvolvidos e trama ambientada em upper Manhattan.
Ressenti-me, em primeiro lugar, da escolha do ás da comédia Larry David como o desencantado e frankfurteanamente pessimista protagonista (em papel na verdade concebido para Zero Mostel, com quem Allen atuou em Testa de Ferro por Acaso e que viria a falecer em 1977). São compreensíveis as razões dramatúrgicas da escolha, mas eu as preferia negligenciadas em prol do prazer de ver – e rir com – o próprio Woody Allen como o cáustico Boris Yellnikoff, gênio da Física e ex-professor da Columbia ora dedicado a gritar ofensas à inteligência dos pirralhos aos quais ensina xadrez.
Mais grave do que o miscasting, porém, pareceu-me o esquematismo fácil que toma conta do roteiro à medida em que se forma o insólito par romãntico e as tramas paralelas começam a se desenvolver. Isso acontece sobretudo após a repentina chegada da mãe de Melodie (Patrícia Clarkson, que quase rouba o filme): de religiosa fanática, esposa traída e alcoólatra ela logo passa a artista de vanguarda, expondo fotos de nus nas galerias do Soho e co-habitando com dois homens em um prazeiroso menage à trois.
Porém esgota-se aí o verdadeiro centro de interesse do filme. Os quiprocós de seu desenlace, a despeito do esforço por soarem subversivos – ou por isso mesmo – resultam não apenas previsíveis mas algo datados. Afinal, o que poderia soar transgressor em matéria de sexualidade e religião (ou ausência desta) há 30 anos hoje é moeda corrente das microguerrilhas culturais.
Além de tudo isso, a trilha sonora, sempre um quesito em destaque nos filmes do diretor, é, com a exceção do uso de Beethoven para uma boa gag sonora, das menos sedutoras de sua filmografia. E para, literalmente, completar, o happy end, além de abrupto, deixa uma indelével sensação de déjà vu. Allen já fez melhor – muito melhor.
O "nosso cinemão"
Já com o filme sobre Chico Xavier aconteceu comigo o que de ordinário ocorre quando vejo as produções da Globo Filmes: nada. Não sei se é a narrativa extremamente convencional, ou talvez a mesmice de um alto nível técnico que se evidencia apenas como protocolo e jamais como ousadia, mas vi-me, uma vez mais, tomado de uma mornice tão amorfa que sequer chega a entendiar.
E olha que tenho um fascínio pela figura do biografado, notadamente após assitir à íntegra do Pinga-Fogo por ele protagonizado – que tem trechos reproduzidos ao final do filme -, que me surpreendeu como há muito um produto audiovisual não o fazia.
Acho lamentável que uma linhagem de filmes tão convencionais como os da Globo Filmes esteja ocupando, no setor de exibição, o lugar das produções mais inventivas do cinema brasileiro - além de parcela do “cinema de arte” internacional –, ao invés de avançar sobre um espaço indevidamente preenchido pelas sobras deploráveis de Hollywood, impingidas junto com os blockbusters.
Mas isso é um problema de mercado de distribuição/exibição e não invalida o mérito de termos um cinema industrial, o qual sempre defendi. Pois, de qualquer forma, e por mais que isso talvez soe excessivamente nacionalista, parece-me, via de regra, mais condizente que os brasileiros vejamos filmes que têm como tema Chico Xavier, Lula ou A Guerra de Canudos do que aqueles que enfocam a ação de marines, os jogos de baseball ou o patrotismo norte-americano.
Agora, que pitadas de ousadia formal não lhe fariam mal nenhum – nem, creio, afugentariam o público -, é uma constatação inevitável.
Na falta dessas, destaca-se no mecanicismo de Chico Xavier pouco mais do que a mediúnica atuação de Nelson Xavier e, acima de tudo, a trilha sonora de Egberto Gismonti, belíssima como um pôr-de-sol nas serras mineiras. O cinema comercial brasileiro também já fez melhor - muito melhor.