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sábado, 14 de novembro de 2015

Eleições argentinas: entre o medo e o humor

Quando eu era criança, nos anos 80, havia um comercial de vodca em que a qualidade do produto era ressaltada por alegadamente não causar ressaca: - “Eu sou você amanhã”, explicava um bem-disposto sósia de um sujeito sentado à mesa de um bar, antes de pedir ao garçom que substituísse o pedido que este acabara de fazer por uma dose da marca anunciada [assista aqui].

O slogan pegou e foi apropriado pelo jornalismo político em forma de um conceito (“efeito Orloff”) que se tornou corrente para fazer prognósticos e traçar analogias entre o Brasil e a Argentina: hiperinflação, escândalos de corrupção, a gangorra do dólar, planos econômicos mirabolantes – ao menos até a importação do receituário neoliberal, com Collor aqui e Menem lá, no início dos anos 90, ora um, ora outro, o que primeiro acontecia em um país acabava, de alguma maneira e guardadas as devidas proporções, por se reproduzir no outro.



Reversão de expectativas
A lembrança dessa anedota avivou-se por conta da repercussão, na imprensa argentina, do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, entre o até então favorito Daniel Scioli, da “Frente para a vitória”, apoiada pelo governo de Cristina Kirchner, e Mauricio Macri, herdeiro do menemismo e até há pouco prefeito de Buenos Aires, da aliança conservadora “Mudemos”.

Até as proximidades das eleições, a expectativa era de que Scioli seria eleito já no primeiro turno ou, na pior das hipóteses, iria com folga para o segundo. Após um atraso de horas na divulgação do resultado (não justificável apenas pela votação ainda ser feita na base de papel e caneta), que intrigou parte da mídia mundial e gerou boatos na internet, anunciou-se a vitória apertada do candidato governista: 36,86% versus 34,33% de Macri. Sendo que as pesquisas agora colocam o candidato da “Mudemos” como favorito.

Além da reviravolta na eleição presidencial, o peronismo perdeu dois de seus mais tradicionais feudos: as províncias (o equivalente a estados) de Jujuy e, pela primeira vez em 32 anos, de Buenos Aires, a mais industrializada e povoada do país, até recentemente governada por Scioli.

O jornalismo político falhou em antecipar o tamanho do prejuízo para o kirchneirismo.



Em busca de explicações
Passada a surpresa e, como de praxe, sem redimir-se de sua pontaria, os analistas começaram a produzir explicações para o fenômeno. No cada vez mais governista Página 12, em um artigo significativamente intitulado “A vingança dos portenhos”, o colunista Luis Bruschtein formulou uma tese que se tornaria corrente entre os partidários de Scioli:

Uma força política de portenhos de classe alta se impôs ao peronismo de trabalhadores e classe média baixa na província de Buenos Aires e conseguiu uma marca invejável em nível nacional. (...)

Houve nesta eleição um voto conservador que proveio de setores populares que ganharam em qualidade de vida durante esses anos, [voto] que também saiu de minorias sexuais ou de gênero que foram beneficiados por este governo, um voto que seduziu a grande quantidade de comerciantes e empresários que prosperaram de forma considerável nestes doze anos. Camadas médias que foram resgatadas da extinção por esse governo se voltaram para esse discurso que esconde as velhas politicas que as levaram à beira do precipício. Há um gesto de autoflagelação nesses setores seduzidos por um flautista de Hamelin que disse na campanha que estava de acordo com todas as medidas que votou contra.”

Como Bruschtein não explica por que razões a classe trabalhadora e as camadas médias se deixariam conduzir pela elite portenha, fica, além da concepção destas como politicamente acéfalas, incapazes de pensar e decidir por si próprias - e, portanto, à mercê do cabresto dos poderosos -, a impressão de que a explicação não passa de wishful thinking do jornalista. Agrava tal sensação a atenção nula que ele presta à hipótese, mais provável e passível de ser comprovada em dados oficiais, de que o agravamento da crise econômica durante o segundo governo de Cristina Kirchner teria afetado sobremaneira tais estratos sociais, corroendo, ao menos em parte, as melhorias que o próprio kirchnerismo anteriormente lhes proporcionara.



Fantasmas do passado
Na batalha entre as duas campanhas, ora intensa, chama a atenção, na estratégia do candidato do governo, o misto de artificialismo da polarização e ausência de relativização temporal: por um lado, fazendo uso de um “esquecimento do presente”, procura-se abstrair tanto a crise do país sob o kirchenirsmo, eternizado como benéfico e provedor, quanto o perfil intelectualmente deficitário e consideravelmente conservador de Scioli (candidato que, como reconhece o mais midiático dos historiadores argentinos, o kirchnerista Felipe Pigna, “está mais para a centro-direita dentro do peronismo”).

Por outro, a estratégia que vem sendo aplicada para criticar o candidato conservador não deixa de mostrar-se problemática: “Macri é a cara remoçada do menemismo”, define a crítica literária Adriana Persico, aludindo à combinação de insensibilidade social neoliberal e corrupção desmedida que caracterizou o período em que Carlos Saúl Menem habitou a Casa Rosada (1989-1999). “Cada cidadão tem a obrigação e a enorme responsabilidade de colocar sua memória a funcionar e decidir se quer voltar a esses terríveis velhos tempos”, prossegue ela.

Não obstante a justeza do alerta, a evocação dos fantasmas do passado, numa campanha conflagrada ao extremo, tem com frequência caracterizado Macri como uma retomada ipsis litteris do menemismo, Menem redivivo. Nesse sentido, Pigna é taxativo: para ele, o candidato representa “uma volta aos anos 90”, ideia que vem sendo martelada à exaustão pela campanha governista, sem qualquer ponderação ou relativização. Soa, assim, como se tal força política se tivesse mantido intacta por 16 anos, sem modificações ou nuances; a Argentina e o mundo dos anos 90 fossem idênticos aos de hoje, e a eleição do candidato da “Mudemos” significasse tão somente um resgate das políticas que Menem adotou durante seus dois mandatos, legando aos argentinos anos de caos econômico e debacle social.



Profetas do caos
Configura-se, desse modo, um cenário radicalizado, que o jornalista Juan Pablo Csipka, após elencar graves problemas tanto da administração Macri quanto do governo Scioli, declarar voto em branco e criticar a “demonização total e absoluta” contra Macri, assim resume:

Por um lado, a extrema idealização, se não de Scioli, ao menos do kirchnerismo. Por outro, uma vertente, vamos chamá-la de nacional e popular, de certo gosto amargo característico dos anos de fúria do menemismo (por exemplo, a campanha de 1995): “Somos nós ou o caos”. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: nem Scioli nem o kirchnerismo são, a esta altura, alternativas antagônicas ao que pode fazer Macri [no poder]."
Ao final trata-se, em um e outro caso, de “Disseminar medo massivo porque oh, existe a possibilidade de alternância de poder”, ironiza, no Facebook, a escritora argentina Pola Olixarac, autora do celebrado “As teorias selvagens” (Benvirá, 2011).



Déja vu
Nós, brasileiros, já vimos esse filme. A referida tentativa de tornar indistinguíveis Macri e Menem, por exemplo, guarda evidente similaridade com os esforços do marketing governista para tornar indistintos Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso, como se, 20 anos depois, o primeiro fosse reeditar o mesmíssimo governo do segundo – e com a mesma tragédia social resultante. A candidatura Dilma, por sua vez, à semelhança do que hoje a campanha de Scioli faz em relação ao kirchnerismo, dissimulou a crise que os economistas já então diagnosticavam encarnando uma versão idealizada do petismo no poder - reforçada por comerciais que vendiam um país paradisíaco, de comercial de margarina -, valendo-se assim, como no caso argentino, de um discurso do tipo “nós ou o caos”. Tática que serviu tanto para reverter a ascensão de Marina Silva e – ao bradar que ela tiraria comida da mesa do trabalhador para aumentar os lucros do Itaú - tirá-la do primeiro turno, quanto para fixar a ideia de que o candidato tucano promoveria um ajuste fiscal de inspiração neoliberal.

Dilma vitoriosa, o resultado, é forçoso notar, é que o tal ajuste ortodoxo, agora a cargo de Levy, tem imposto cortes profundos no Orçamento do país, com graves consequências para Educação e Saúde; e que o Itaú (assim como o Bradesco do conselheiro Trabuco) tem anunciado recordes sucessivos de lucro enquanto o desemprego atinge mais de um milhão de trabalhadores desde o início do ano. Pesquisas indicam que essa distância entre o prometido e o cumprido – que alguns chamam de estelionato eleitoral - está no cerne da perda de confiança popular no governo Dilma, expressada nos 70% que, segundo o Ibope, hoje consideram seu governo ruim ou péssimo. Se o efeito Orloff ainda vigora, fica o alerta aos candidatos argentinos.


Tática do espantalho
Tudo somado, tanto o desencanto popular com o governo Dilma quanto a reviravolta nas eleições argentinas parecem apontar para “a falência de um modelo de campanha eleitoral, extensamente usado pelo governismo brasileiro também: a política do "boogeyman" , do "cuco", como dizemos em espanhol ou, em bom português, a política do espantalho”, aponta Idelber Avelar, professor do Stone Center for Latin American Studies da Tulane University (EUA). “É a política limitada à demonização do adversário”, critica, arriscando um prognóstico: “Deu certo por pouco, muito pouco no Brasil 2014, graças à campanha mais suja da História. Não deu certo no primeiro turno argentino de 2015 e, pelo jeito, não dará certo no segundo. Não dará certo no Brasil-2018”.
 
Um grande diferencial em relação às tensas eleições brasileiras de 2014 está sendo o uso inovador do humor, através da "Campaña Bú - Con miedo votas mejor". Nela, a candidatura de oposição se reapropria do discurso kirchnerista que apregoa o caos se Macri vier a vencer, exagerando-o: ""Se Macri ganha, a mãe de McFly se casa com Biff"; "Se Macri ganha, Roberto Carlos não vai querer ter um milhão de amigos".



Vazio programático
Seja como for - e ressalvadas as notórias diferenças entre os governos Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, muito menos contemporizador -, não apenas salta aos olhos a similaridade entre as práticas político-eleitorais nos dois países, mas entre a atitude, a estratégia e a argumentação dos setores midiáticos governistas brasileiros e argentinos em relação às respectivas eleições. A leitura, por exemplo, da cobertura que o outrora modelar Página 12 faz do pleito – escamoteando os graves defeitos do atual governo enquanto supervaloriza o tendenciosismo e a força da mídia e demoniza a classe média – parece demais, a um tempo, um déja vu e uma antecipação, respectivamente, dos diagnósticos e desculpas que os blogs e publicações petistas vêm fabulando sobre a presente crise do governo Dilma, e do tipo de argumentação a que certamente viriam a recorrer numa eventual derrota da candidatura Lula em 2018.

Trinta anos depois daquele icônico comercial de vodca, Argentina e Brasil bisam a dinâmica do “Eu sou você amanhã” através da substituição da autocrítica, do debate franco e da apresentação de programas e propostas de ação, em prol do marketing político mais cosmético e da mera desqualificação do opositor, transformado em inimigo – e os eleitores deste em acéfalos e ingratos. Evidência de que, se os dois países evoluíram ao superar o jugo ditatorial, ainda estão muito aquém do nível de práticas, propostas e comprometimento que a verdadeira evolução democrática demanda.


Versão ampliada de texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa.
(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O pior dos mundos

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do fim da gratuidade obrigatória nos cursos de pos-graduação das instituições estatais representa a mais grave ameaça, até hoje, à universidade pública gratuita, autônoma e republicana.

Constitui, assim, mais um exemplo cabal do grau de ameaça a conquistas sociais de longa data que a crise do petismo no poder ora suscita, com uma presidente enfraquecida e acuada, disposta a tudo ceder para não ser destituída.

As pós-graduações federais já haviam sofrido um duro golpe com o corte de 75% das bolsas de estudo, que se seguiu ao anúncio das medidas fiscalistas da política econômica de Dilma, a cargo do tesoureiro Levy. Corte que, em efeito cascata, serve agora de pretexto para Alckmin suprimir R$13 milhões das pós-graduações paulistas (USP, Unesp e Unicamp), no que será certamente seguido por outros governadores.



Exclusão educacional
A diminuição no volume de bolsas, agora agravada pela possibilidade de cobrança dos cursos, tem efeito social nocivo, pois impede que estudantes oriundos das classes baixa e média se mantenham financeiramente durante os seis ou sete anos necessários para obtenção do mestrado e doutorado (titulos que hoje são imprescindíveis, por exemplo, para o ingresso no magistério público superior).

Trata-se de uma ameaça concreta a um sistema que vinha funcionando bem há décadas, e que tinha a vantagem adicional de fornecer um meio de subsistência – mesmo precário –, o qual permitia a um contingente expressivo de recém-formados trocar as fileiras dos desempregados pela oportunidade de se qualificar enquanto faziam – ou se preparavam para fazer - a transição do âmbito da universidade para o do mercado do trabalho

Nem Fernando Henrique Cardoso foi tão longe a ponto de instaurar tal dispositivo elitista e de exclusão social, que na prática bloqueia o acesso dos não-ricos às pós-graduações. Apesar de todas as dificuldades impostas na era tucana, as bolsas foram mantidas e, ao contrário do que hoje acontece, havia verbas para viagens e congressos.



Ameaça concreta
Além da ameaça per se à pesquisa inerente aos cortes de verbas, ao elitismo e exclusão social que traz à pós-graduação, e ao agravamento do já alto desemprego de recém-formados, a aprovação do fim da gratuidade constitui um passo concreto em direção à privatização da universidade pública, velho sonho do conservadorismo brasileiro.

A intensificação do sucateamento das graduações, a extensão do fim da gratuidade para tal faixa de ensino e a flexibilização de contratos de trabalho de professores são os próximos passos. Até que desapareça a divisão entre universidades públicas e privadas, o nível de ensino se nivele por baixo – como hoje ocorre no setor privado - e aos professores sejam oferecidos salários (ainda mais) humilhantes (como os R$500 mensais que as corporações de ensino superior hoje pagam a iniciantes).



Jogo duplo
O petismo e seus porta-vozes irão, como de praxe, tentar colocar a culpa por mais esse retrocesso no conservadorismo do atual Congresso – como se tal tendência fosse a antítese do partido e não, em larga medida, um fruto da realpolitik lulista e da busca deliberada de hegemonia à direita empreendida por Dilma em seu primeiro mandato, com suas alianças aprogramáticas, ditadas únicamente por interesses e sua subserviência ao conservadorismo religioso, que hoje cobra um preço tão alto.

Mas os fatos estão documentados: enquanto PSOL, Rede e PCdoB votaram contra o projeto, o PT liberou bancada, mantendo a estratégia de não contrariar as demandas dos partidos conservadores, pois precisará de seus votos na votação do impeachment. Depois com a desfaçatez costumeira,vem posar de defensor da universidade pública - e tem gente que ainda cai nessa.



Prioridade à Educação?
Pior: um governo que se vale do slogan “Pátria Educadora” e cuja mandatária foi eleita jurando priorizar a Educação não mexeu uma palha para se contrapor ao projeto do deputado Alex Canzani (PTB/PR), cuja “justificação” para o fim da gratuidade na pós-graduação chega a ser ofensiva de tão mal informada:

"Embora sejam, em última instância, atividades de ensino, geralmente se dirigem a públicos restritos, quase sempre profissionais e empregados de grandes empresas, constituindo importante fonte de receita própria das instituições oficiais". [aqui, a íntegra da PEC 395.]

Como um projeto com uma visão tão tacanha do que seja a pós-graduação pôde transitar e ser aprovado na Câmara? Cadê os quadros qualificados do MEC para explicarem a esses senhores o papel da pós-graduação nas sociedades contemporâneas, e a exclusão social e educacional que tal medida significa em um país em desenvolvimento como o Brasil? A última – e ínfima - esperança reside agora na reação dos senadores ao projeto.



O coletivo pelo pessoal
O absoluto desinteresse do governo tem, como já apontado, uma razão de ser, ainda que esta diga respeito exclusivamente à manutenção do poder presidencial, não importa a que custo em termos de ameaça às conquistas sociais. Em nome de tal meta pessoal-partidária, Dilma sacrifica direitos trabalhistas, boicota desempregados, desterritoraliza os indios, patrocina o retrocesso na pauta biopolítica – e agora tira a pós-graduação do alcance dos estratos baixos e medianos. E o resultado de tanto conservadorismo tem sido nulo.

Restam a Dilma três alternativas: uma guinada à esquerda, renegando a insensibilidade social neoliberal e comprometendo-se, de fato, com as demandas populares, o impeachment ou a renúncia.



Sinuca de bico
A primeira alternativa é uma impossibilidade, por conta do grau de comprometimento do petismo com alianças espúrias e com um modelo de desenvolvimento tão arcaico quanto perverso, ora em plena crise (a não ser para o Bradesco e o Itaú, que continuam batendo recordes de lucro).

A segunda parece cada vez mais distante, não só como resultado do comércio de balcão do governo com seus algozes, mas por efetivamente não haver, até o momento, prova de crime de responsabilidade cometido no presente mandato (como já tive oportunidade de assinalar em outra ocasião, incompetência e mesmo estelionato eleitoral depõem contra Dilma, mas não justificam legalmente o seu impeachment).

Por fim, a terceira não passa de uma quimera, pois demanda uma estadista, que se interesse mais pelo futuro do povo e do país do que pela manutenção apenas nominal, cosmética, do próprio poder.



O país aguentará?
Assim sendo, restará ao país continuar a sangrando por mais três anos, dois meses e nove dias, com Dilma dando seus dedos aos conservadores - muitos dos quais, como o hoje vilão Eduardo Cunha, cresceram à sombra das alianças aéticas do petismo -, desde que lhe deixem os aneis.

Enquanto isso a crise se adensa, o número de desempregados se multiplica, os estabelecimentos fechados se proliferam ao longo dos quarteirões, os salários compram cada vez menos, os relatos sobre o sucateamento da saúde e da Educação se avolumam, e mais índios são mortos ou se suicidam enquanto suas terras são invadidas por ruralistas, sob o olhar complacente da primeira-amiga Kátia Abreu.

E a ansiedade e a estupefação ante a deteriorização do país do futuro assombram cada vez mais cidadãos e cidadãs, que se perguntam: “- Até quando?”.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 6 de setembro de 2015

Falsas soluções para a crise e a falácia do Estado mínimo

A traição eleitoral perpetrada por Dilma Rousseff, que na campanha vendeu um pais de comercial de margarina, assegurando ser a única candidatura capaz de preservar a economia e os empregos, e agora submete a população a um duríssimo choque neoliberal, produz danos que não se limitam à crise recessiva e ao desemprego a caminho dos dois dígitos.

Pois tal choque, para além dos cada vez mais graves efeitos na economia do país e no cotidiano dos cidadãos, equivale, em termos ideológicos, a uma hecatombe, com consequências de monta para o debate e os termos da disputa politica nos próximos anos. O elasticismo aético da realpolitik petista, com suas alianças amorais, seu vale-tudo em nome da tal governabilidade e o decorrente desprezo por coesão ideológica e programática cobra, enfim, com juros, o seu preço.


Economia sacrificial
Para piorar, sob o pretexto do ajuste fiscal e da alegada necessidade de se obter um alto superávit primário – ou seja, de dar prova, para o mercado, de que o país é capaz de pagar os juros da dívida pública e ainda economizar um tanto –, ganha força, cada vez mais, um velho discurso de demonização dos gastos públicos e de defesa de um estado mínimo. Vários países já viram esse filme – inclusive o Brasil - e seu final é péssimo.

O corte de 75% das bolsas de pós-graduação, o adiamento ad eternum da compra de 22 milhões de livros pra as bibliotecas públicas, universidades com instalações em penúria,  sem verba para pagar sequer limpeza e energia elétriva, a estagnação salarial de professores - isto tudo que ora ocorre, não obstante sua gravidade, não passa de uma prévia do que seria, apenas na área da Educação (que o governo Dilma alega ser prioritária), o país sob um Estado minimo.


Omissão e confusão
O discurso de viés liberal que o defende baseia-se em uma omissão gritante e em uma confusão deliberada. A primeira diz respeito ao peso, no balanço contábil federal, do pagamento dos juros da dívida púbica. Os npumeros são eloquentes: no ano passado, o governo gastou R$ 978 bilhões só com pagamento de juros e amortizações da dívida, montante que corresponde a quase a metade (45,11%) do total de gastos orçamentários anuais. 

Não é preciso ser nenhum gênio da economia para constatar que esse gasto, que não gera nada para o país - seja força de trabalho, melhoria de serviços ou produção de bem material - é muito mais nocivo do que os eventuais desperdícios e distorções causados pelo gasto da outra metade do orçamento, da qual uma parte sustenta quase oito milhões de famílias, em que ao menos um membro é funcionário público.


Questão de prioridades
Não se pretende, com isso, desmerecer a necessidade de uma maior racionalidade administrativa. Qualquer pessoa sensata há de reconhecer que é um despropósito o Brasil ter 36 ministérios e que o desperdício pode ser contido e que os supersalários têm de ser revistos (embora seja necessário ter claro que estes constituem exceção, a regra do funcionalismo federal sendo salários de medianos pra baixo). Não se pode, no entanto, superestimar o efeito de cortes em desesas públicas se o pagamento de juros permanecer intacto, nem, muito menos, confundir racionalidade administrativa com demonização do funcionalismo público e defesa do Estado mínimo.

Ademais, ainda que o governo Dilma, com sua guinada à direita, não o reconheça, o verdadeiro dilema da crise não é à custa de que sacrifícios será feito o ajuste fiscal, e sim por que direitos trabalhistas, empregos e a qualidade de vida do povo têm de ser sacrificados para que o lucro dos bancos com juros pornograficamente altos siga intacto?. Por que um pequeno grupo de bilionários tem preferência ante as demandas, muitas vezes urgentes, de milhões de cidadãos e cidadãs?

Não da para discutir seriamente a questão fiscal brasileira omitindo tais fatores.


Tudo pelo poder
Já a confusão deliberada parágrafos acima aludida recai sobre quais outras despesas, além do pagamento de juros extorsivos, foram, ou têm sido, responsáveis pela sinuca de bico em que o goveno Dilma por sua própria incompetência se meteu.

Ao contrário do que o discurso ofical quer fazer crer, com a narrativa fictícia do agravamento de uma crise mundial que já é passado para os EUA e maior parte dos países da Europa e mesmo da América do Sul, o fato é que três fatores foram os determinantes para que o endividamento do Estado brasileiro subisse a ponto de deflagrar a acrise atual: a construção de megaobras como Belo Monte e Tapajós, as despesas diretas e inditretamente ligadas à Copa do Mundo e a campanha eleitoral mais cara da história da Humanidade.


Ouvidos moucos
Ou seja, se o governo petista tivesse tido a humildade de ouvir o alerta de especialistas e corrigido as diretrizes do investimento, deixaria de alocar montanhas de dinheiro público em megaobras de grande impacto ambiental e social, as quais visam prioritariamente fornecer energia para abastecer o mercado chinês de bauxita, commodities e derivados. Diminiuiria, assim, o hoje temível grau de dependência da economia brasileira em relação à chinesa, que ora se retrai.

Teria, ainda, evitado os sucessivos aumentos no preço da energia elétrica e do gás, que ora sufocam os orçamentos das famílias e agravam a questão inflacionária. Pois, se ouvisse os jornalistas e especialistas que prefere desqualificar com grosserias, o petismo não teria mantido os preços da energia elétrica congelados por um longo período, numa típica medida eleitoreira, nem (por conta do aumento de consumo da energia artificialmente barata) teria sido obrigado a recorrer com frequência às caríssimas termoelétricas, gerando o caro caos econômico-energético atual. Mas não: do alto de sua arrogância, Dilma, a “gerentona”, preferiu afirmar sua expertise no setor. Deu no que deu – e quem paga a conta é o povo.


Mentiras e violências
A presidente Dilma não tem como alegar que desconhecia a gravidade da crise, como fez recentemente. Primeiro, porque quem ocupa tal cargo tem a obrigação de manter-se permanentemente atualizado em relação à situação e aos rumos da economia do país. Segundo, porque, ao menos desde 2013, mesmo na “imprensa amiga”, diversas matérias alertavam para a iminente piora do cenário econômico, com a confluência maléfica de aumento substancial da dívida pública, dos juros e da pressão inflacionária. Exemplo disto é esta coluna de Jaciara Itaim, publicada em 26 de novembro de 2013 por Carta Maior.

Ela sabia. E a opção por um modelo arcaico de desenvolvimento, à la Brasil Grande, baseado no estímulo ao consumo e infeso a qualquer questão ecológica ou ao respeito às comunidades afetadas, indígenas ou não, foi deliberada. Assim como o foi a repressão aos protestos contra a Copa do Mundo, que variaram da tentativa descarada de acobertar o montante de público gasto na preparação do evento à violência oficial brutal - não só cedendo recursos materiais às PMs, mas com o Exercito e a Força Nacional – contra manifestantes que exerciam o seu direito constitucional ao protesto público.


Perguntas sem resposta
Tudo isso para quê? De que valeu a vitória nas eleições, se o resultado é o neoliberalismo ortodoxo, de estirpe tucana, no comando da economia? Para que tanto empenho em vencer? Para gerar um país rachado, binário, com avalances de ódio? Para macular por décadas a esquerda (como se de esquerda o petismo se tratasse), com o fortalecimento de um ideário neoliberal de demonização do funcionalismo público e do papel do Estado? Pelo poder pelo poder? Para quê?


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Os frutos do conservadorismo

A aprovação do governo Dilma cai ao seu menor nível, atingindo 13% no Datafolha, 12% no Ibope e, segundo informações confirmadas por fontes palacianas, menos de um dígito em pesquisa interna do governo - conforme relata, entre outros, o colunista Gerson Camarotti.

Um índice tão ínfimo indica que não se trata mais, apenas, de reações gerais ao desempenho do governo em tópicos como economia, ética ou Educação. Tamanho recuo vem sendo acompanhado de um processo de desencanto até de petistas e simpatizantes para com o petismo, perceptível tanto entre [ex]petistas históricos quanto em eleitores mais recentes, que deram em 2014 seu voto a Dilma.

Parece que finalmente a ficha caiu quanto à irreversibilidade da guinada conservadora empreendida pelo petismo e quanto à consumação do estelionato eleitoral tornado efetivo na escolha deliberada de Kátia Abreu e de Levy no ministério e na adoção de um choque anticíclico tipicamente neoliberal - por meio do qual o povo, com seus empregos e carestias, arca com ônus da crise, enquanto a elite continua a se locupletar, sem que sequer as grandes fortunas sejam taxadas.

Mais do que de uma radiografia do momento, talvez estejamos diante de um fenômeno cada vez mais recorrente e abrangente: a constatação (tardia mas generalizada) de que o alegado esquerdismo que o PT um dia simbolizou acabou por transmutar-se, após mais de doze anos no poder, em uma hegemonia conservadora inédita em períodos não ditatoriais. E que, ao contrário do que se poderia supor, a esquerda se encontra hoje imobilizada, presa a um vácuo de poder.

Não se trata, de forma alguma, de uma novidade para os que há mais de uma década vêm acompanhando política brasileira sem a vista distorcida pelo veneno do fanatismo político-partidário. Porém, para os que se deixaram inebriar pelo ufanismo mitômano reinante no periodo, açulado noite e dia por arrobas militantes, pagas ou não, a volta à realidade pode se mostrar brutal. Mais alto o coqueiro, maior é o tombo, diz o samba.

Com efeito, o que alguns analistas teimam em nomear como uma guinada súbita à direita tem sido, clara e tão somente, o agravamento, o ápice de um processo inerente à história da relação entre o petismo e o poder.

A bem da verdade, a “guinada à direita” começou lá atrás, nos pactos entre José Dirceu e o mercado financeiro e na transformação do Lula agressivo e desgrenhado no Lulinha Paz e Amor, criatura que o marketing de Duda Mendonça tornou palatável a setores da classe média.

A esses estratagemas iniciais – que muitos julgaram tratar-se de meros truques para tomar o poder para, aí sim, impulsionar uma agenda de esquerda, seguiram-se muitos outros, que acabaram por sepultar qualquer ímpeto reformista e solidificar o poder dos setores que o petismo afirmava querer combater. Entre tais estratagemas, destacam-se:

      1. A rendição preliminar ao mercado financeiro simbolizada na Carta ao Povo Brasileiro (publicado pela candidatura Lula em 2002);
      1. O elasticismo aético de sucessivas alianças ditadas por uma realpolitik forte em pragmatismo, mas rasa em compatibilidade ideológico-programática;
      1. A opção pela inclusão social via aumento do consumo (e, como bem assinalou Frei Betto, de consumo individualista de bens materiais, não no aumento qualitativo do capital social em Saúde e Educação);
      1. O genocídio dos povos indígenas, vítimas diretas de tal modelo de desenvolvimento;
      1. A repressão brutal, via Força Nacional - e o endosso à ação violenta, através da concessão de armamentos e know-how militar aos estados - contra cidadãos e cidadãs que ousaram exercer seu direito constitucional ao protesto público. O resutado: presos políticos em (alegada) plena democracia;

      2. A substituição, no interior do PT, da democracia partidária pelo dedazo e do debate e construção social de um projeto de país pela adesão ao marketing político tão milionário e pragmático quanto falso e inescrupuloso;
      1. O sacrifíco de qualquer compromisso, de qualquer ideologia, de qualquer escrúpulo, da própria política, em nome do poder a qualquer custo;
      1. A renúncia sucessiva a bandeiras históricas da esquerda e do próprio PT, tais como reforma agrária, regulamentação da mídia, questionamento da dívida externa, recusa ao neoliberalismo e combate à privatização.
Cabe ressaltar que essa lista é apenas um apanhado geral, a título de exemplo, de práticas políticas claramente caracterizadas como retrógradas e incompatíveis com um ideário de esquerda. Não foi incluída uma vírgula sobre temas de suma importância eem relação aos quais há graves problemas, como a corrupção ou a situação do combate à miséria e à fome, a grande bandeira petista que ora vivencia um retrocesso, pois a inflação e adiminuição da atividade econômica têm feito com que milhares de famílias estejam voltando a ocupar os estratos mais desfavorecidos da pirâmide social brasileira – um fenômeno que tende a se agravar muito com os efeitos do corte no Orçamento.

Note-se que também não foi sequer citada a relação de negligência sistemática entre o PT no poder e as pautas da biopolítica – relação esta sempre mediada, nos últimos 12 anos e meio, pelos interesses da bancada religiosa da aliança governista.

É mister, ainda, constatar que um olhar mais detalhado em torno de temas como Educação e Saúde haveria de constatar a prioridade ao lucro privado em detrimento do bem público, além da eterna supremacia do improviso sobre o planejamento estratégico, característica marcante da ação política no Brasil, da qual o PT não conseguiu distinguir-se, muito pelo contrário.

Tudo somado, a necessidade de se repensar criticamente o legado petista, sem os subterfúgios do fanatismo autêntico ou patrocinado, se impõe como necessária tanto para a retomada da capacidade de ação do poder público enquanto ente de transformação social quanto para a recosntrução programática das esquerdas.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Guia Militonto para Desqualificar Protestos

Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas protestando contra o governo que você venera?


Não se aflija, aqui damos todas as dicas para você reagir do modo mais democrático: desqualificando os protestos e os manifestantes:


1) Culpe a mídia.


2) Diga que só teve classe média coxinha e demais não-cidadãos.


3) Escolha os cartazes mais absurdos, classistas, retrógrados e sem noção e associe toda a multidão à ideologia que apregoam.


4) Use um critério racial diferenciado: quem não for retinto, é branco. E rico.


5) Lembre-se: um bom Photoshop vale mais que mil palavras: faça desaparecer os cartazes sensatos, dê uma embranqueçada geral nas pessoas, coloque drinks com guarda-chuvinha na mão delas; desenhe bigodes de Hitler nos rapazes e polvilhe uns símbolos proibidos aqui e ali.


6) Culpe a mídia (mas não mencione a Secom, porque alguém pode divulgar a fortuna que o governo repassa às empresas de comunicação e pegar mal).


7) Minta sobre o tamanho da Paulista. Se alguém falar em 2,8 Km solte um “QUE ISSO!?” indignado e, de bate-pronto: “Nem a metade disso!”, emendando com um marketing básico: “E a parte central tá toda em obras: o Haddad vai implementar as ciclovias. Coisa de primeiro mundo!"


8) Cite o menor público possível, mesmo se o único instituto que o afiancie seja ligado àquele jornal da ditabranda e tenha, sempre, chutado pra baixo o número de participantes dos movimentos da esquerda.


9) Faça um vídeo: entreviste só a Opus Dei, populares com aparência de psicopata, defensores do golpe militar, gente que leva o Aécio a sério. Edite de modo a dar impressão que os outros 99,8% dos participantes são assim. Ah, e coloque ao fundo uns efeitos sonoros de comício nazista.


10) Faça como o grande lider deputado Sabá: atribue tudo a armação da CIA: IANQUES, GO HOME!


11) Classifique os protestantes com rótulos pregnantes: “Coxinha”, “Bebedor de Black Label”, “Patricinha com faixinha”, “Playboy indignado”, “Frequentador de sanduicheria”, "Sommelier de ceviche", “Ruralista escravocrata” (não, pera...).


12) Denuncie todo o tempo o GOLPE iminente, dizendo coisas como “isso sempre acontece quando o povo está no poder”.


13) Minta que você fez uma pesquisa entre os manifestantes e deu: Melhor Artista: Lobão; Melhor grupo: Engenheiros do Hawaii; Melhor cantor: Agnaldo Timóteo; Menção honrosa: Dom e Ravel.


14) Indigne-se com a indignação coletiva contra o Petrolão, bradando: “E sobre a água, nada?”, “Me engana que são todos honestos...”, “Quando vão protestar contra os trens do Alckmin?”


15) Culpe a mídia (mas não dê um pio sobre sua regulamentação, porque alguém pode lembrar que o PT dá no poder há mais de 12 anos e nunca mexeu uma palha nesse sentido). 

16) Tenha semprem em mente a lição do marqueteiro oficial: debate civilizado é para os fracos; o negócio, na democracia, é desqualificar. 

P.S. "A pedidos", incluo mais um item: Frisar que SÓ NESSES PROTESTOS se vê socialites com peitos turbinados de fora, coisa raríssima no Brasil.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Casos Ipea e Bradesco marcam o pós-eleição

Na ressaca de uma campanha eleitoral marcada por ataques baixos, o governo Dilma, enquanto fala em diálogo e união, esforça-se para construir uma narrativa segundo a qual a oposição, em sua “belicosidade”, estaria dando mostras de ser uma “má perdedora”.

Enquanto isso, a mandatária reserva a si e aos seus a imagem magnâmina dos que “sabem ganhar”, ou seja, sem revanchismo ou tripudiação. Como se, no quadro atual,  repleto de adversidades, tivessem condições políticas para agir de outro modo...

Trata-se de mais um round da velha e imutável tática petista de culpar sempre os outros, recusando-se a admitir seus próprios erros, bem como qualquer atitude que recenda a autocrítica.



Cenário adverso
Para piorar a situação da nova velha presidente, sua vitória, embora legítima, não só foi muito apertada mas, somados os votos dos eleitores que anularam em protesto contra tudo que aí está, inclusive seu governo – entre os quais se encontra este blogueiro -, deu-se em um contexto em que a votação contra si supera os votos a favor.

Tal fato não torna o segundo governo Dilma menos legítimo, nem justifica os tragicômicos apelos por impeachment ou intervenção militar. Mas desenha, para a mandatária e seu partido, um cenário bem mais adverso que o do primeiro mandato, colocando um desafio concreto à frente.

Ainda mais porque, diretamente ligada à configuração pós-eleitoral, há uma conjunção de desafios para Dilma: baixo crescimento econômico e ameaça inflacionária, com aumentos de preços até então represados; a rebelião no aliado PMDB; a presença (inédita para o PT) de uma oposição motivada e de peso em Brasília, liderada pelo próprio Aécio, desejoso de vingança, e pelo sempre ardiloso Serra.



Ecos do massacre
Além disso, como analistas políticos e setores da oposição têm enfatizado, permanece fresca na memória de muitos o uso pelo PT da desqualificação enquanto método eleitoral, em detrimento a apresentação e defesa de programa de governo.

Com efeito, seria mera ilusão, ou erro de cálculo político, achar que uma campanha suja como a empreendida pelo PT contra Marina Silva (e Aécio Neves, que revidou) passaria impune, ou estaria destinada a empoeirar nas estantes da história até ser revirada por um pesquisador bisbilhoteiro, ao qual a máquina petista logo trataria de trucidar, como fez com a candidata do PSB.

Mas nem só as feridas mal cicatrizadas do passado recente dificultam à pacificação dos ânimos. Novidades ainda quentes também impedem que viremos a folha do livro das eleições e vivamos nosso radioso presente.




Incoerências impunes
Primeiro foi o convite a megabanqueiros para que assumissem o ministério da Fazenda, cargo comumente referido como o de “czar da economia”, tamanho o seu poder decisório. Depois de ter martelado uma campanha difamatória contra Neca Setúbal, educadora reconhecida e sócia minoritária do Itaú, soa a escárnio o convite de Dilma para que o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, assuma tal cargo. Ante a humilhante negativa deste, cogita-se Henrique Meirelles, o ex-presidente internacional do Bank of Boston que chefiou o BC nos governos Lula.

Ora, o cidadão, eleitor do PT ou não, tem todo o direito de cobrar coerência por parte dos governantes. É ofensivo à ética pública e à cidadania que candidatos a cargos eletivos critiquem com veemência determinados comportamentos quando estão em campanha e os repitam, de forma ainda mais grave, quando assumem o poder.

Há um perigoso parentesco entre tal comportamento e o estelionato eleitoral, e se o eleitor não se dá conta ou logo perdoa ou esquece, o próprio partido faz vista grossa e recusa a autocritica, cabe, por um lado, à Justiça eleitoral e, por outro, às oposições cobrarem coerência e denunciarem o uso de uma moral dupla.



Aparelhamento flagrante
Mas os atualíssimos esqueletos das eleições não se restringem a tal descaramento. Ontem mesmo, com a divulgação de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre miséria e pobreza, corroborou-se o que no período eleitoral era mero boato: o outrora respeitado órgão, sob forte pressão palaciana, teria atrasado a publicação de informações oficiais que poderiam afetar a candidatura Dilma.

Trata-se de um fato duplamente grave: em primeiro lugar, pelo próprio conteúdo dos dados, dando conta de que mais de 370 mil brasileiros voltaram à condição de miseráveis. Em segundo, por evidenciar, de forma clara, o aparelhamento do Estado pelo PT e suas graves consequências, já que a atenção ao social e a redução da miséria e da pobreza estiveram entre as principais alegações para o voto em Dilma.

O Ipea é um órgão do Estado brasileiro, e a este deve se reportar e servir. Sua instrumentalização por um partido ou um mandatário – no caso, para fins eleitorais – constitui uma ameaça ao republicanismo que deve governar as relações entre entes governamentais e cidadão. Em última análise, acaba por afetar o pleno funcionamento da democracia – como o truque sujo do adiamento de dados ruins em período eleitoral evidencia de forma clara.




Provas à  mancheia
Faz mal à vida política do país que comportamentos como a hiperagressividade na campanha eleitoral, a ausência de programa de governo, a adoção de medidas ferozmente criticadas em campanha e o aparelhamento de estatais para fins eleitorais sejam tolerados por eleitores, oposição e Justiça e sigam impunes.

Aì está um material documentado que representa algo de concreto a ser cobrado de Dilma Rousseff. No primeiro mandato, ela mentiu que não privatizaria o Pré-Sal, mas privatizou sem sequer enrubecer e ficou por isso mesmo. Espera-se que as parcelas da sociedade que não estão alienadas pela hipnose petista ajam e façam valer seus direitos.



(Foto de Dilma e Temer por Valter Campanato)