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29/12/2010

"Als ich kann (Como eu posso)?"

"Mulher com guarda-sol", de Claude Monet.
***

"Cada um guarda no fundo de si mesmo uma espécie de pequeno cemitério, onde jazem as pessoas que amou. Aí dormem elas, durante anos, sem que nada as desperte. Mas, chega o dia - sabe-se bem - em que a cova se abre. Os mortos erguem-se do túmulo e sorriem ao amante, ao amado, em cujo seio a sua recordação repousa , tal qual a criança que dorme nas entranhas maternas.

[...] A gente não faz o que quer. Querer e viver são duas coisas diferentes. É preciso conformar-nos. O essencial é não cansar de querer e viver. O resto não depende de nós.

Als ich kann (Como eu posso)?"




("Jean-Christophe ", de Romain Rolland, vol I, págs. 354, 412 e 413)

29/06/2009


"Possuía a qualidade mais preciosa da vida: uma curiosidade juvenil, que os anos não alteravam, e que renascia todas as manhãs. Não tinha talento bastante para utilizar esse dom, mas quanta gente de talento o teria invejado! A maioria dos homens morre dos vinte aos trinta anos; decorrido esse período, nada mais são do que um reflexo de si mesmos; passam o resto da vida a macaquearem a si próprios, a repetirem de modo cada vez mais mecânico e caricatural, o que disseram, fizeram, pensaram, amaram, no tempo em que eram."

ROLLAND, Romain. Jean-Christophe. Rio de Janeiro: Globo, 5ª edição, p.266.

22/05/2009

"Havia, porém, momentos de inefável poesia, que explodiam subitamente nos dias pálidos, tais como um raio de sol através do nevoeiro. Era um olhar, um gesto, uma palavra que nada significava... Descobriram o encanto das coisas. A primavera sorria com doçura maravilhosa. O céu deslumbrava; no ar, havia uma ternura que ele não conheciam... nem uma nuvem no céu...
Nada há de comum entre a vida e os seus sonhos...
Conheceu então pela primeira vez a terrível tristeza da ausência. Tormento intolerável para todos os corações amantes. O mundo é vazio, a vida é vazia, tudo é vazio. Não se pode mais respirar, vive-se numa angústia mortal. Sobretudo quando persistem em torno de nós os traços materiais da passagem da pessoa amada, quando os objetos que nos cercam a evocam constantemente, quando permanece no cenário familiar, onde se viveu juntos, quando teimamos em continuar revivendo nos mesmos lugares a felicidade desaparecida."
"Jean-Christophe", vol. I, de Romain Rolland.

05/04/2009

Sê piedoso...

“Sê piedoso ante o dia que surge. Não penses no que será dentro de um ano, de dez anos. Pensa no dia de hoje. Deixa de parte as teorias. Todas as teorias, mesmo as da virtude, são ruins, são tolas, fazem mal. Não violentes a vida. Vive a hora presente. Crê em cada dia. Ama-o, respeita-o, sobretudo não o macules, não o impeças de florescer. Ama-o, mesmo quando ele for cinzento e triste, como o de hoje. Não te preocupes. Vê. É inverno agora. Tudo dorme. A terra boa despertará. Devemos ser como uma terra boa e pacientes como ela. Sê piedoso. Espera. Por que te entristeceres pelo que não podes fazer?”
(Do personagem Gottfried para Jean-Christophe, no livro Jean-Christophe, vol I, do autor Romain Rolland
)