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terça-feira, 17 de março de 2020

Reflexão: O Coronavírus e seu poder de nos despir



Uma nova epidemia, seja de doença rediviva ou “inédita” tem o benefício, se é que esse termo pode ser utilizado sem dolo, de redimensionar o homem à sua estatura de apenas criatura: reles (embora solar), mortal (embora com a ânsia de eternidade ardendo em seu peito). Essa pausa para o recesso existencial, essa reflexão forçada sobre nossa fragilidade em tempos de corona vírus assume tons diferentes em cada coração: a uns causa angústia; noutros, revolta; noutros, um inescapável esforço de alheamento, de não pensar nisso, de refugiar-se numa fantasia qualquer. A maioria fica mesmo com sua dose, sua raçãozinha de medo.

A Bíblia, dentre seus muitos livros, possui um que, pelo caráter límpido de suas assertivas, poderia ser distribuído sem dolo ou ofensa entre os maiores céticos da Terra: o livro de Provérbios. Ao lado deste e na mesma linha, há um outro livro cuja sabedoria é mais elaborada, um livro “existencialista” que prenuncia, com quase 2.500 anos de antecedência, muitos dos temas filosóficos dos sécs. XX/XXI: O Eclesiastes. Dos seus muitos conselhos, um cabal é o que diz que “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Ec 7.2). Pensar na morte, vejam só!, faz bem à vida. Esse é mesmo um dos princípios do pensamento filosófico.

A doença equaliza as coisas: reduz o rico, que é vítima e também transmissor preferencial nesses inícios de epidemia, a seu desconfortável lugar de apenas mais um, a seu insuportável-para-ele lugar de ser um qualquer, “agraciado” pela sorte ou meritocracia com a única especialidade de... poder morrer primeiro. Ela põe cada centavo que ele amealhou, por vezes à custa de sangue e suor alheio, em xeque.

E mais: a doença global, totalitária em seu ímpeto globalista, expõe a fragilidade do global sistema: As duas maiores potências mundiais prostram-se em quarentenas e bilionários protocolos emergenciais em sujeição a um vírus. A Europa, pretensa/ruinosa trincheira do que é humano, para e contempla a limpidez do vácuo que a epidemia inoculou. A ONU é figura da paisagem; os grandes laboratórios farmacêuticos, cuja receita supera o PIB de muitos países, por ora são apenas amontoados de maquinários e cérebros curtidos em formol; os líderes políticos, ah, esses são um capítulo à parte.

Nosso espaço é curto; foquemos então em nosso mestre de fanfarras, nosso tocador e fabricante de berrantes, nosso “mito”: Num dia, bestificado pelas cansativas falácias da extrema-direita norte-americana (leia-se também e sempre: olavete) contra a imprensa, as vacinas e outras pautas alucinadas, vocifera que “o vírus é uma fantasia da grande mídia”. Horas depois, aparece em rede nacional vestindo uma máscara, e tendo um de seus homens próximos infectado com esse vírus.  Nesse episódio tétrico, podemos ouvir a própria deusa Realidade arrotando nos ouvidos dos celerados: “Ei, moleques, então quer dizer que eu não existo?!! Pois desculpem-me pelo improviso.”

Ecumênico, o vírus Covid 19 é como um tarado que encontrou nosso fanfarrão já com as calças arriadas. Assim, fica fácil para o vírus. E terrível para nós.


Sammis Reachers

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Pecado Social



Pecado Social

por Ronald J. Sider

É possível fazer com que a opressão se torne algo legalizado. Os legisladores elaboram leis injustas e os burocratas implementam a injustiça. Deus expressa o seu divino desgosto contra os governantes que usam seus cargos oficiais para elaborar leis injustas e tomar decisões legais que levam à desigualdade. A opressão legalizada é uma abominação para o nosso Deus. Por causa disso, Deus exorta o seu povo a opor-se às estruturas políticas que perpetuam a injustiça.
Há uma longa tradição de pessoas do povo de Deus que desafiaram as estruturas políticas da sua época. Moisés, por exemplo, foi falar com o Faraó, Ester foi falar com o rei persa, William Wilberforce ajudou a erradicar o tráfico transatlântico de escravos e o Dr. Martin Luther King teve um papel importante no movimento dos direitos civis nos EUA. Nos dias de hoje, os cristãos também se manifestam contra a corrupção e as políticas que perpetuam a injustiça. No entanto, o negligenciamento do ensino bíblico sobre a injustiça estrutural ou sobre o mal institucionalizado é uma das mais mortíferas omissões em muitas partes da igreja nos dias de hoje. Os cristãos frequentemente restringem a ética à uma estreita classe de pecados “pessoais”, tais como o abuso de drogas e a má conduta sexual, mas ignoram os pecados do racismo institucionalizado e das estruturas econômicas injustas que também destroem um número parecido de pessoas.
Há uma diferença importante entre os atos individuais conscientemente voluntários (tais como mentir para um amigo ou cometer um ato de adultério) e a participação em estruturas sociais malignas. A escravidão é um exemplo deste segundo caso, assim como também o sistema adotado pelas fábricas na era vitoriana na Inglaterra, as quais usavam crianças de dez anos de idade para trabalhar de doze a dezesseis horas por dia. Tanto a escravidão como o trabalho infantil eram legalizados, mas destruíram milhões de pessoas. Eles eram males institucionalizados ou estruturais.
Deus odeia as estruturas econômicas malignas e os sistemas jurídicos injustos porque eles destroem centenas, milhares e milhões de pessoas. Podemos ter certeza de que o justo Senhor do universo destruirá os governantes perversos e as instituições sociais injustas (leia 1 Reis 21).
Há um outro aspecto do mal institucionalizado que o torna especialmente pernicioso. O mal estrutural é tão sutil que nos enredamos nele sem compreendê-lo plenamente. Deus inspirou o profeta Amós a proferir algumas das palavras mais ásperas que encontramos nas escrituras, contra as mulheres cultas da classe alta da sua época: “Ouçam esta palavra, vocês, vacas de Basã...que oprimem os pobres e esmagam os necessitados e dizem aos senhores deles: ‘Tragam bebidas e vamos beber!’ O Senhor Soberano jurou pela sua santidade que certamente vai chegar o tempo em que serão levados com ganchos, e os últimos de vocês com anzóis” (4:1-2).
As mulheres em questão podem ter tido pouco contato direto com os camponeses pobres. Talvez elas nunca tenham percebido completamente que só podiam ter belos tecidos e festas animadas, em parte, por causa do suor e das lágrimas dos pobres. Talvez elas tenham até sido bondosas, em certas ocasiões, com algumas das pessoas oprimidas. Deus chamou essas mulheres privilegiadas de “vacas” porque elas participavam de um mal estrutural, ou seja, suas vidas eram sustentadas pela opressão alheia. Diante de Deus, elas eram pessoalmente e individualmente culpadas.
Se fizermos parte de um grupo privilegiado que se beneficia do mal estrutural, ou cujas vidas são sustentadas pela opressão alheia, e se tivermos pelo menos alguma compreensão do mal e não conseguirmos fazer o que Deus quer que façamos para mudar a situação, seremos culpados diante de Deus.
Sistemas injustos e estruturas opressoras representam uma abominação para Deus, e “pecado social” é a frase certa para categorizá-los. Além disso, ao entendermos o mal que eles fazem, temos a obrigação moral de fazer tudo o que Deus quer que façamos para mudá-los. Se não o fizermos, estaremos pecando. Essa é a implicação clara do ataque severo de Amós às mulheres ricas da sua época. É também a implicação clara de Tiago 4:17: “Pensem nisto, pois: Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado”.
No Novo Testamento, a palavra cosmo (mundo) muitas vezes transmite a ideia de mal estrutural. No pensamento grego, a palavra cosmo referia-se às estruturas da vida civilizada, especialmente aos padrões da cidade-estado na Grécia Antiga que eram considerados essencialmente bons. No entanto, os escritores bíblicos sabiam que o pecado tinha invadido e distorcido as estruturas e os valores da sociedade. Frequentemente, o Novo Testamento usa a palavra cosmo para referir-se, nas palavras de C. H. Dodd, “à sociedade humana, tendo em conta que ela está organizada de acordo com princípios errados”. “Quando Paulo falava sobre ‘o mundo’ em um sentido moral, ele estava pensando na totalidade das pessoas, dos sistemas sociais, dos valores e das tradições em termos da sua oposição a Deus e aos seus propósitos redentores”.
O Papa João Paulo II insistiu acertadamente em dizer que as estruturas sociais malignas estão “enraizadas no pecado pessoal”. O mal social resulta da nossa rebelião contra Deus e do nosso consequente egoísmo para com o nosso próximo. Porém, a acumulação e concentração de muitos pecados pessoais criam “estruturas de pecado” opressivas e “difíceis de serem removidas”. Não veremos sistemas transformados simplesmente convertendo diretores executivos, funcionários de corporações multinacionais e congressistas. Veremos a transformação ao pregarmos o evangelho e ao desmantelarmos as estruturas e os sistemas injustos através de um trabalho eficaz de defesa de direitos, da oração convicta e de uma vida justa.

Fonte: Viva com Justiça: Global, de Tearfund e Desafio Miquéias EUA

quarta-feira, 15 de março de 2017

Lista suja do trabalho escravo aponta 250 empregadores


Relação não era divulgada pelo governo desde 2014 e foi obtida pela ONG Repórter Brasil, por meio da Lei de Acesso à Informação.

Confira a lista completa aqui.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A escravidão não acabou


Trabalho escravo no Brasil entre 2003 e 2016, em porcentagem

349 empregadores ainda submetem os contratados a condições degradantes e subumanas
Com um adiantamento que podia chegar a cerca de 60 reais, dezenas de trabalhadores rurais foram seduzidos na década de 1990 para capinar juquira na Fazenda Brasil Verde, no Sul do Pará. Essa espécie de mato, conhecida por incomodar fazendeiros na criação de gado, foi a principal razão para um dos casos mais simbólicos de flagrante de trabalho escravo na história do País. No último mês de dezembro, enfim, a consequência: o Brasil foi a primeira nação a ser condenada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por não prevenir a prática de trabalho escravo moderno e de tráfico de pessoas.
Sobraram evidências para a responsabilização do Estado brasileiro no caso. Além de serem ameaçados caso abandonassem o emprego, os trabalhadores resgatados nesse local dormiam em barracões cobertos de plásticos e palha, sem proteção lateral, o que permitia a entrada de chuva e ventos durante a noite. Também não havia cama, o “alojamento” era de redes.
E a água, imprópria para consumo, assim como a alimentação oferecida. Isso não impedia que os trabalhadores rurais tivessem essas “despesas” descontadas de seus vencimentos, que nunca chegavam a ser pagos de fato. Ao todo, somente nessa fazenda, mais de 300 trabalhadores foram resgatados, entre 1989 e 2002.
Foi para combater situações como essa que o Brasil começou a publicar, em 2003, o “Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à de escravo”, mais conhecida como a Lista Suja do Trabalho Escravo, que reúne nomes de empresas ou pessoas que colocaram trabalhadores em situações degradantes ou forçadas de trabalho. Essa importante ferramenta, reconhecida internacionalmente, não foi publicada, no entanto, pelo governo Michel Temer no último ano, o que pode sinalizar um retrocesso maior a caminho.
A gestão peemedebista aproveitou-se de uma decisão judicial já revista para, simplesmente, ignorar a existência desse cadastro. Isso porque em dezembro de 2014, durante o recesso de fim de ano, o ministro Ricardo Lewandowski, então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu liminarmente e de forma monocrática o pedido da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) para suspender a publicação. A Abrainc representa as principais construtoras do País e está sob comando, atualmente, da MRV Engenharia.
A medida cautelar foi cassada, entretanto, pela ministra Cármen Lúcia, em maio de 2016 e o Ministério do Trabalho foi liberado para voltar a divulgar o cadastro há mais de oito meses. Mas nenhuma lista foi oficialmente divulgada até agora. A decisão do Supremo levou em conta uma nova portaria interministerial, publicada no apagar das luzes do governo Dilma Rousseff, para driblar o impasse.
Na prática, a portaria flexibiliza as regras de manutenção do cadastro de empregados. Por essa mudança, as empresas flagradas com trabalhadores em condições análogas à escravidão passam a figurar em uma nova lista se firmarem um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) ou acordo judicial com a União. Isso significa que, desde então, o governo poderia publicar duas listas: uma com empresas que se comprometeram a solucionar o problema e outra com as que não mostraram intenção de tomar providência alguma.
Ainda assim, desde que assumiu, o governo Michel Temer ignora essa possibilidade. A omissão deliberada fez com que o Ministério Público do Trabalho ajuizasse uma ação civil pública para obrigar o governo federal a voltar a atualizar o cadastro de empregadores envolvidos com escravidão. No dia 19 de dezembro, o juiz Rubens Curado Silveira, da 11ª Vara do Trabalho de Brasília, reconheceu a importância do tema e determinou que uma nova lista fosse publicada em até 30 dias, a partir do momento em que o governo fosse notificado da decisão.
Na decisão, Silveira lembrou justamente o caso da Fazenda Brasil Verde. “Esse foi o primeiro caso decidido pela CIDH [Corte Interamericana] sobre escravidão e tráfico de pessoas, o que acabou por colocar a República Federativa do Brasil no 'banco dos réus' do plano internacional", observa o magistrado.
"Nesse cenário, revela-se ainda mais preocupante a omissão atacada, pois sinaliza um retrocesso injustificado no trato do tema em uma quadra da história em que o Estado brasileiro deveria, em resposta à condenação que lhe foi imposta, redobrar os esforços em busca da extinção definitiva do trabalho escravo em seu território”.
Para Tiago Muniz Cavalcanti, procurador do Trabalho e um dos autores da ação, essa postura marca o retrocesso de políticas públicas até então elogiadas por órgãos como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). “A publicação da Lista Suja é uma política de Estado e não uma política de governo. O combate ao trabalho escravo tem de continuar”, critica. “Essa postura omissiva vem desde maio para cá e não existe justificativa para isso.”
Além de uma ferramenta de defesa dos direitos humanos, a Lista Suja também era uma referência para o mercado e bancos na hora de conceder financiamentos ou fazer negócios com determinadas empresas. Mesmo instituições privadas utilizavam o cadastro feito pelo Ministério do Trabalho antes de concluir operações de crédito para companhias. A decisão do governo federal de impedir o acesso a essa lista coloca todas as empresas no mesmo patamar.
“Para além dos direitos humanos e da questão de acesso à informação e liberdade de imprensa há a questão muito clara de mercado (para a publicação da lista). É por isso que as empresas sérias querem essa informação, é uma questão de risco. O mercado brasileiro aprendeu que só tem a ganhar ao gerenciar esse risco, não é fazer com que as empresas percam negócios”, alerta o jornalista e presidente da ONG Repórter Brasil, Leonardo Sakamato.
Atualmente, é a ONG presidida por ele que tem conseguido obter e divulgar a Lista Suja com a ajuda da Lei de Acesso à Informação. A última foi obtida em junho do ano passado e apresenta 349 nomes de empregadores.
Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a postura do governo federal não encontra respaldo nem mesmo entre a classe empresarial do País. “Existe um grupo majoritário que não quer ser confundido com os escravagistas, porque isso pode fechar o acesso de um produto a determinado país vizinho ou cadeia produtiva no exterior”, enfatiza o Frei Xavier Plassat, coordenador da Campanha contra o Trabalho Escravo da CPT.
As vozes pela atualização da lista não vêm apenas de organizações de combate ao trabalho escravo e do Ministério Público, a ONU também fez a mesma recomendação ao Brasil. No ano passado, o órgão lançou um artigo técnico de posicionamento sobre o tema, em antecipação às comemorações do Dia do Trabalho. Para evitar retrocessos nas conquistas alcançadas pelo Brasil, o documento da ONU faz uma série de recomendações, entre elas a reativação da chamada "Lista Suja" e a manutenção do conceito atual de “trabalho escravo”, previsto no Código Penal Brasileiro.
"Nota-se uma crescente tendência de retrocesso [no Brasil] em relação a outras iniciativas fundamentais ao enfrentamento do trabalho escravo, como por exemplo, o Cadastro de Empregadores flagrados explorando mão de obra escrava, comumente reconhecido por 'Lista Suja', que foi suspenso no final de 2014", registra a organização.
Nada disso comove o ministro Ronaldo Nogueira, do Trabalho, mal assumiu a pasta, avisou a interlocutores que não iria publicar a lista. A secretária Especial dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania, Flávia Piovesan, que tem capitaneado todas as ações sobre o assunto, em novembro anunciou a coordenação de um Pacto Federativo para Erradicação do Trabalho Escravo com o estado do Pará, a unidade da Federação com o maior número de casos. Nogueira enviou seu secretário-executivo, Antonio Correia de Almeida, para a cerimônia, mas a assessoria de comunicação do ministério mal registrou o fato em seu site.
Não está claro se a postura decorre de uma decisão particular do ministro, ou se há algum tipo de orientação vinda do ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha. Em dezembro, uma operação das polícias Militar, Civil e Ambiental de Mato Grosso, que investiga desmatamento ilegal, encontrou em péssimas condições as acomodações de empregados em uma fazenda de Padilha, em Mato Grosso, e encaminhou as imagens ao Ministério Público do Trabalho, diante da suspeita de trabalho análogo à escravidão.
Pressões de empresas do setor da construção civil, de parlamentares ou até mesmo de ministros por conta da repercussão negativa da Lista Suja do Trabalho Escravo não são novidades no País. Esse tipo de relato também era comum nas gestões petistas e encontrava conivência, inclusive, entre parlamentares do PT e integrantes do governo Dilma. No entanto, a postura da gestão Temer, mesmo com vozes dissonantes como a de Flávia Piovesan, pode sinalizar mudanças mais preocupantes. 
Há algum tempo que integrantes da bancada ruralista tentam abrandar no Congresso a definição de trabalho escravo, com o objetivo de impedir que flagrantes de trabalho em condições desumanas seja enquadrado nessa prática. Um dos patrocinadores desse ponto de vista é justamente o líder do governo no Congresso, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), que foi ministro de Temer. 
Em 2014, quando os congressistas discutiam a PEC do Trabalho Escravo, Jucá tentou emplacar sua tese sob o argumento de que os termos utilizados para a identificação de trabalho escravo eram “genéricos”. “O que é sumamente revoltante para alguns pode não o ser para outros”, amenizava no texto de seu projeto. “Principalmente porque as condições de trabalho em geral não são lá essa maravilha nos campos distantes, nas minas, nas florestas e nas fábricas de fundo de quintal.”


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Por que a América Latina é a região onde mais cresce o consumo de cocaína no mundo


CocaínaImage copyrightTHINKSTOCK
Image captionO consumo de cocaína no Cone Sul disparou mais do que em qualquer outra parte do mundo

Boris Miranda - @ivanbor
http://www.bbc.com/portuguese

Antes considerada uma droga para ricos, a cocaína hoje é usada em favelas de São Paulo, bares de Montevidéu ou universidades de Bogotá.
A droga e seus derivados estão em setores de baixo nível socioeconômico, classes médias, entre jovens e adultos, universitários e homens de negócios.
O consumo de cocaína na América do Sul supera em quatro vezes a média mundial.
E não fica só nisso. O Cone Sul desbancou a Europa como a segunda região com mais usuários, atrás apenas da América do Norte.
Os dados aparecem em relatório divulgado nesta semana pelo UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime).

cocaína

O mesmo relatório aponta que o consumo de cocaína no Cone Sul disparou mais do que em qualquer outra parte do mundo entre 2009 e 2015, e que sua porcentagem de usuários se aproxima cada vez mais do índice dos Estados Unidos.
A América do Sul não é mais a região que apenas abastece os mercados de cocaína de América do Norte, Europa e Ásia. Tem seu próprio mercado e o número de consumidores avança rapidamente.
E de modo mais veloz do que o resto do mundo, aponta o informe do UNODC.

cocaínaImage copyrightREUTERS
Image captionO mercado da cocaína na América do Sul avança de forma rápida, com consequências na segurança pública

Dimensão do crescimento

Enquanto 1,6% da população da América do Norte experimentou ou usou cocaína no último ano, o índice chegou a 1,5% na América do Sul.
A média mundial é 0,4%.
Consumo de cocaína na América do Sul
PaísPorcentagem de uso na população
Uruguai1,8%
Brasil1,75%
Chile1,73%
Argentina0,73%
Colômbia0,70%
Peru0,69%
Venezuela0,64%
Bolívia0,36%
Paraguai0,25%
Equador0,08%
Média1,5%
Fonte: Relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC)
Segundo Angela Me, chefe de investigações e análise de tendências do UNODC e principal autora do estudo, diferentes fatores explicam a alta no uso de cocaína na América do Sul.
"Além do aumento na renda em toda a região, a cocaína agora tem um mercado maior. A cocaína costumava ser uma droga para gente rica, mas agora temos países como o Brasil onde a droga se usa em outras camadas da sociedade",disse a pesquisadora à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Outro elemento, diz Angela Me, é o aumento no número de consumidores esporádicos, que não usam a droga regularmente.
"Por isso há um incremento na quantidade de consumidores, mas não tanto no volume de cocaína usada", diz.
Há bares em todas as camadas da sociedade onde sempre há traficantes. É muito provável que um usuário de drogas tenha um telefone do vendedor ou de algum amigo dele."
Guillermo Garat, autor de "Maconha e outras ervas: proibição, regulação e uso de drogas no Uruguai".
Na avaliação do pesquisador Ricardo Soberón, ex-chefe antidrogas do Peru, o relatório mostra como a produção da folha de coca e da cocaína cresceram na esteira do aparecimento de novos mercados.
"Isso está levando a um problema complexo de ordem global", afirmou Soberón.

Por que tantos novos consumidores?

O Uruguai encabeça a lista de países sul-americanos com maior número de consumidores.
Sua porcentagem (1,8%) supera a da América do Norte (México, Canadá e EUA, 1,6%), embora ainda esteja abaixo da dos EUA (2,1%).

Cocaína apreendida na BolíviaImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionApreensão de cocaína na Bolívia: mercado sul-americano se multiplicou e produção circula mais entre países da região

O jornalista Guillermo Garat, autor do livro "Maconha e outras ervas: proibição, regulação e uso de drogas no Uruguai", ressalta, sobre o líder de consumo na região, que o Uruguai tem renda per capita alta em comparação com outros países do continente.
"A cocaína é muito barata (de US$ 11 a US$ 15 o grama) e praticamente não mudou de preço desde o ano 2000", diz Garat.
O jornalista lembra ainda que na região a cocaína costuma estar "disponível 24 horas, mediante apenas uma chamada telefônica".
"A cocaína também está territorializada. Há bares em todas as camadas da sociedade onde sempre há traficantes. É muito provável que um usuário de drogas ou um amigo tenha o telefone de um traficante".
Segundo Angela Me, o relatório mostra que o consumo de drogas cresceu em geral no Uruguai, e não se trata apenas de cocaína.
Sobre o Brasil, a pesquisadora diz que é preciso considerar o índice alto de consumo de derivados da cocaína de baixa qualidade, como o crack e outras substâncias feitas a partir de resíduos da pasta-base.
Situação semelhante ocorre na Argentina e no Chile.
Com a disponibilidade de substâncias de baixa qualidade e preço, o número de consumidores e de viciados sobe.

Helicóptero patrulhaImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionControles se intensificaram nos últimos dois anos na selva peruana para coibir os chamados "narcovoos" ao Brasil

Nos últimos dois anos, países como Bolívia e Peru redobraram esforços para conter o corredor aéreo de tráfico de cocaína que conecta seus países ao Brasil, maior mercado da região.
Autoridades bolivianas e peruanas chegaram a apontar que até 20 aviões de pequeno porte por dia realizavam os chamados "narcovoos" ao Brasil.

Alternativas

O UNODC defende a necessidade de novas políticas públicas para enfrentar esse aumento no número de usuários de cocaína na região.
"O primeiro a se fazer é prevenção. Trabalhar com famílias e nas escolas. Criar programas específicos focados na população jovem para prevenir o consumo de drogas", diz Angela Me.
A integrante do UNODC diz ainda que os países precisam pensar políticas para os consumidores de drogas, com ações de tratamento para conter consequências pessoais e sociais do uso.

Consumidores de crack en Sao PauloImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionAs "cracolândias" espalhadas pelo Brasil são exemplo do avanço do consumo de derivados da cocaína no país

Contudo, os próprios países sul-americanos questionam a baixa efetividade da comunidade internacional para mudar as políticas públicas nessa área.
Governos de países como Bolívia, México, Uruguai e Guatemala apresentaram posicionamentos críticos na última sessão especial da ONU sobre drogas, em abril.
Disseram considerar, por exemplo, que declarações da ONU não avançam de fato rumo a uma mudança real de paradigma na luta contra as drogas, e propuseram novas medidas em relação á regulação e legalização de substâncias controladas.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sobre o caso Ítalo: Um poema (e uma oração) de Pedro Marcos Pereira Lima



DUAS VIDAS

caminho                                                                              sozinho        
procurando                                                                         ando
um caminho                                                                       sem caminho

caminho                                                                             em descaminho
à sombra                                                                            o escuro arromba
tantos sóis                                                                          olhos ilusórios        

caminho                                                                             menino
sem direção                                                                       na direção
de um veículo                                                                    sem destino

caminho                                                                             um pensamento
em rasto solto                                                                    descalço
enquanto bate o vento                                                      no asfalto 

caminho                                                                                     quase vida
 a idade da infância                                                                  perdida
o velho caminhar                                                                     da criança

caminho                                                                                     com meus manos        
travessia de tantos                                                                  humanos
caminhos                                                                                   ó Deus! Caminho!         

caminho                                                                                    sem balas
no bolso                                                                                    dos sonhos
do calção                                                                                  com balas no coração

caminho                                                                                    em busca
de heróis                                                                                   que combatam o crime
não me firam                                                                            não me matem

caminho onde                                                                          não passo
o Super-Homem                                                                      Pato Donald  Pateta Mickey
corta o espaço                                                                         Cascão Mônica Cebolinha

caminhos                                                                                  que desconheço
uma história                                                                             em quadrinhos
que nunca vi                                                                            aqui onde morri



*   *   *

Pai
renova o silêncio
dessa voz
que procura seu dizer

em meio a escritura
dessas ruas
de tantas vozes naufragas

vozes por cantar
o infinito
resgatado do grito
chamando por Vê-lo

trace sua palavra
em cada letra desse céu
pendente na densidade
de um pesadelo

restaure o sonho
dessa conversa
como um verso

onde cada pessoa
dessa cidade
soe como uma palavra sua
nesse verbo
que se fez carne

uma obra de arte
nas mãos da criança
cria da esperança

que outro caminho
se abra para a infância
caminhante

de alegria
de brinquedos
sem medos


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