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terça-feira, 15 de setembro de 2020

Como quem guarda uma cidadela - Um conto sobre mães de desaparecidos



Fiz o bolo preferido dele, chocolate com recheio de chantilly. Todo ano eu faço seu bolo. Meu bebê. Que Deus cuide de você, meu anjinho!

Acordei cedo pra limpar o quarto dele. Avisei à dona Eurásia que não trabalharia; ela, cada vez mais velhinha e dependente, me pareceu entristecida ao telefone, mas entendeu. Sempre entende, desde o primeiro ano. Troquei a roupa de cama, passei pano no chão. Peguei pra lavar o velho boné da Porto da Pedra, onde ele era ritmista. Não era muito do samba, mas dizia que participava em memória do pai, um dos fundadores da escola, com quem só conviveu até os sete anos, que a cachaça o levou.

Hoje é o Dia Onze de Agosto, o principal dia da vida, o principal dia desse mundo morno. O dia do meu meninão. São oito anos que choro este dia, comemoro, me esparramo por dentro. Há oito anos que meu único filho, Godrigo, saiu de casa para se divertir. Iria a um baile funk, uma desgraça de baile funk, mas ele gostava. O baile era do outro lado da Baía de Guanabara, no bairro carioca de Vila Kennedy. Tanto baile aqui nos bairros de São Gonçalo, na Covanca, no Salgueiro... Foi sozinho, que meu menino era assim, tinha seus defeitos, mas não era de andar de patota.

Todos os anos, em janeiro e setembro, vou até a 34ª Delegacia Policial, em Bangu. Nunca há informações sobre o caso; mas não desisto, sou mãe, sou a persistência. Um dia o caso se esclarecerá... Ser mãe é não ter opção.

Na delegacia os policiais mudam, mas não o destrato. Devem aprender na academia, se é que isso existe. Ou desaparecidos há muitos, e eles já não se importam. Quem sabe é a velha norma pátria, a reação à cor de nossas peles, que define a saudação, seja sorriso, seja disparo, que se colhe?

Nos olhares arredios, de desinteressados a cínicos, percebo que querem, anseiam por dizer, ainda que num jato de vômito: “Seu filho está morto, dona. Pare de nos aporrinhar”. Mas não dizem. E que diferença faria? Sem corpo não há evidências, e eu mantenho minha esperança como quem zela pela própria honra, como quem guarda uma cidadela.

Quando faço café pela manhã, oito anos, meu Deus!, ainda me pego distraída, colocando pó suficiente para dois cafés. Um dia talvez ele entrará por aquela porta, e poderá estar sujo, fedido, esfarrapado; pode vir sozinho ou já com uma família, com um neto. Eu vou esperar. Um dia depois do outro.

Num sábado em maio, na véspera do Dia das Mães, fui a uma reunião de mães de desaparecidos. Lá ganhei um livrete de informações sobre a Ong que promovia o encontro, e no livrinho havia muitas frases sobre o que é ser mãe. Muitas delas tão bonitas que cheguei a decorar, e vou bordar num pano de prato para deixar na cozinha.

Em meio a tantas frases bonitas, uma ali me perturbou. Achei triste, mas depois entendi, alguma coisa em mim entendeu. E aquilo foi estranho, aquela frase me deu força, me amamentou. A frase é de uma pessoa chamada Maeterlink, não sei se homem ou mulher pois dela nunca ouvi falar: “As mulheres jamais se cansam de ser mães: embalariam até a Morte, se ela viesse dormir em seus joelhos.”

É difícil de entender. E ao mesmo tempo é isso.

Com o tempo uma mãe sozinha como eu, “viúva de pai e filho”, a quem o mundo lá fora tanto fez para apequenar, sem perceber vai ficando tão maior que a morte que quando dá por si já não a teme; vai cabendo nela que a morte não pode lhe arrancar o estado de mãe. Mesmo doído, o coração se agiganta, passa por sobre a morte e suas aparências como um trator.

Vivo ou morto, meu filho é eterno. Tudo se resume a uma medida de distância.

Uma mãe é tão maior que a morte que chego a sentir verdadeira piedade dos que não me entendem, dos que meneiam a cabeça quando me veem passar; sinto mesmo uma profunda pena desses que sentem essa tão rasa pena de mim.


Sammis Reachers


 


Este conto faz parte do livro Fabulário Índigo. Disponível em formato impresso (aqui) e e-book (pela Amazon, aqui).

sábado, 7 de maio de 2011

MÃE!


Nem mesmo o código misterioso da comunicação foi capaz de rimar este nome perfeito: Mãe! Foi preciso traduzi-lo em versos, flores, abraços e homenagens: o afeto singular - Mãe!
Os símbolos se juntaram para indicar o verdadeiro lema desse amor tão puro e o som perfeito produziu o verso da canção: Mãe!
Não é necessário o discurso inflamado, a palavra bonita, a inspiração. Em qualquer berço, a proteção, o calor e a sinceridade dessa figura inigualável insinuam a presença forte: Mãe!
A aproximação do DIA DAS MÃES ameniza a aridez espiritual dessa humanidade, na sua maioria órfã. E chega o momento da reflexão, quando o amor é avaliado. Mereço ser mãe?
Ter um filho significa o compromisso de coautoria da vida com Deus - Autor da vida. É contrato infinito, cuja cláusula única se resume no amor. Amor que se esforça o tempo todo para se aproximar do verdadeiro Amor e, quando se imagina sublime e forte, o vendaval da despedida o inunda de lágrimas. Ele se fortalece na dor.

Ø      Mãe - resposta do questionário dos deveres de casa.
Ø      Mãe - palavra chave das lições iniciais de cada dia.
Ø      Mãe - cada instante soletrado na cartilha da vida vai alfabetizando o amor. Na última série de todos os graus, o amor torna-se adulto, ajuizado:Mãe-avó.
Ø      Mãe - enciclopédia dos sinônimos do amor.

Hoje, no DIA DAS MÃES, oramos por você, Mãe anônima, que luta sem manchete nos jornais.
Oramos por você, Mãe, que vê ao redor seus filhos: Mãe idosa.
Oramos por você, Mãe, na saudade e na solidão: Mãe sozinha.
Oramos pela Mãe, cujo filho estagiou somente no coração: MÃE ADOTIVA.
Oramos pelas MÃES do mundo inteiro e, ao redor do planeta, juntam-se mãos e dobram-se joelhos, numa prece sincera ao Supremo Criador do Universo: Deus a abençoe, Mamãe.

Extraído do livro Escola Comunitária – 4ª edição
     Ivone Boechat

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Conheça as Mães Sociais

 *
Um projeto que nasceu na Áustria  após  Segunda Guerra Mundial para cuidar das crianças órfãs. Mães voluntárias cuidaram dos órfãos até a idade adulta. O projeto cresceu e espalhou-se pelo mundo todo.
Partiu de uma idéia simples de que uma criança criada com apoio familiar tem mais recursos para superar as dificuldades futuras. Assim surgiram as Aldeias.
As mães que no início eram voluntárias foram se profissionalizando. Hoje Mãe Social é uma profissão reconhecida. Têm apoio de psicólogos, pedagogos e vários outros profissionais.
No Brasil já são 15 Aldeias.
Uma Aldeia é formada por um grupo de casas e alguns prédios de apoio. 
As casas abrigam uma família que tem como base uma mãe social e seus filhos sociais.



As crianças, normalmente, são encaminhadas para as aldeias por estarem em situação de risco social. Chegam muitas vezes bebês e ficam até os 18 anos. Os irmãos biológicos, muitas vezes,  ficam juntos na mesma casa, fortalecendo assim os laços familiares. Os parentes biológicos também são incentivados a conviver com as crianças.
Muitas das mães e parentes  biológicos são apoiados por um Centro Social que é ligado às Aldeias. Fortalecer o entorno também faz parte das metas de uma Aldeia.
As aldeias são abertas e as crianças são criadas como se fosse uma pequena comunidade. A mãe social decide como administrar as contas da casa e a educação dos filhos.
Tem dado muito certo. Eu visitei a aldeia de Interlagos e as crianças pareceram muito felizes em um ambiente muito acolhedor. Cheio de árvores, brinquedos, cachorros e gatos.

 
Uma criança criada com amor certamente é o melhor investimento que uma sociedade pode fazer.
E os ex-moradores tornam-se adultos e passam a ser apoiadores das Aldeias.  É mais um lugar que mostra que o Brasil tem jeito. É bem fácil tornar-se um amigo do projeto.

Visite: www.aldeiasinfantis.org.br 

Fonte: http://blogdoduilio.folha.blog.uol.com.br/temjeito/

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Mais sobre o Dia das Mães
Em homenagem ao Dia das Mães, publiquei diversos textos relacionados à data, em alguns dos blogs que edito, ou onde colaboro. Dê uma olhada:

No Poesia Evangélica: Dois poemas de Norma Penido sobre as Mães
No Veredas Missionárias: Simplesmente Márcia (o tocante testemunho sobre a mãe do Pr.Joed Venturini) 
 No Azul Caudal: A mãe que teve mais filhos até hoje...
No Bradante: A figura materna no pincel de grandes pintores
No Imagens Cristãs: Imagens sobre Mães, de uso livre não-comercial para seu blog ou site

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Mãe, profissional gabaritada

Fernando Pessoa

Uma mulher chamada Anne foi renovar a sua carteira de motorista. Pediram-lhe para informar qual era a sua profissão. Ela hesitou, sem saber bem como se classificar.

- "O que eu pergunto é se tem um trabalho", insistiu o funcionário.
- Claro que tenho um trabalho, exclamou Anne. "Sou mãe".
- "Nós não consideramos 'mãe' um trabalho. Vou colocar Dona de casa", disse o funcionário friamente.

Não voltei a lembrar-me desta história até o dia em que me encontrei em situação idêntica... A pessoa que me atendeu era obviamente uma funcionária de carreira, segura, eficiente, dona de um título sonante.

- "Qual é a sua ocupação?" Perguntou.

Não sei o que me fez dizer isto; as palavras simplesmente saltaram-me da boca para fora:

- "Sou Doutora em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas".

A funcionária fez uma pausa, a caneta de tinta permanente a apontar para o ar, e olhou-me como quem diz que não ouviu bem... Eu repeti pausadamente, enfatizando as palavras mais significativas. Então reparei, maravilhada, como ela ia escrevendo, com tinta preta, no questionário oficial.

- Posso perguntar – disse-me ela com novo interesse – o que faz exatamente? Calmamente, sem qualquer traço de agitação na voz, ouvi-me responder:

- "Desenvolvo um programa a longo prazo (qualquer mãe faz isso), em laboratório e no campo experimental (normalmente eu teria dito dentro e fora de casa). Sou responsável por uma equipe (minha família), e já recebi quatro projetos (todas meninas). Trabalho em regime de dedicação exclusiva (alguma mulher discorda???), o grau de exigência é em nível de 14 horas por dia (para não dizer 24 horas)".

Houve um crescente tom de respeito na voz da funcionária que acabou de preencher o formulário, se levantou, e pessoalmente me abriu a porta. Quando cheguei em casa, com o título da minha carreira erguido, fui recebida pela minha equipe: - uma com 13 anos, outra com 7 e outra com 3. Do andar de cima, pude ouvir o meu novo experimento (um bebê de seis meses), testando uma nova tonalidade de voz. Senti-me triunfante. Maternidade... Que carreira gloriosa!

Assim, as avós deviam ser chamadas "Doutora-Sênior em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas". As bisavós: "Doutora- Executiva- Sênior". E as tias: "Doutora - Assistente".

Mande isto às mães, avós, bisavós e tias que conheças. Uma homenagem carinhosa a todas as mulheres, mães, esposas, amigas, companheiras. Doutoras na Arte de fazer a vida melhor!

"Somos do tamanho dos nossos sonhos".


Fonte: Jornal Urro do Leão

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