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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Auditores-fiscais paralisam atividades após ministro fragilizar combate a trabalho escravo

 

Sergio Carvalho

Por Laura Scofield / apublica.org 

 Mais de 380 auditores fiscais do trabalho paralisaram suas atividades em protesto após ações do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, beneficiarem empregadores que foram flagrados pelos fiscais mantendo trabalhadores em condições análogas à escravidão. Os auditores consideram que o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) tem vivido sob um “regime administrativo de exceção” que fragiliza o combate à escravização e assedia moralmente os funcionários públicos.

No documento em que comunicam a paralisação, os auditores citam ao menos três interferências do ministro, chamadas avocações, em processos que haviam concluído pela inclusão de empregadores na Lista Suja do Trabalho Escravo. Entretanto, fontes ouvidas pela Agência Pública alertam que o número pode ser maior, já que o ministro colocou as decisões a respeito das avocações sob sigilo.

O caso mais conhecido envolve a JBS Aves, que foi retirada da lista após Marinho decidir pela reavaliação do processo que envolvia a empresa pela consultoria jurídica do ministério, o que não é parte do trâmite normal para inclusão de um empregador no cadastro. De acordo com os auditores, a ação do ministro é inédita e cria uma instância recursal administrativa extra e que não atende aos critérios técnicos de Inspeção ao Trabalho. Entre as justificativas para a avocação, um parecer da AGU (Advocacia-Geral da União) citou a “relevância econômica” da empresa envolvida. A Pública revelou que a ação fez com que todos os coordenadores estaduais de combate ao trabalho escravo deixassem seus postos. 

Na última terça-feira, 2 de dezembro, a Justiça do Trabalho determinou que a JBS Aves e as outras duas empresas sejam incluídas imediatamente na lista suja. A decisão argumentou que houve tentativa do governo federal de barrar a divulgação dos nomes por motivos políticos e econômicos, e não com base em critérios técnicos ou legais. O MTE afirmou que recorrerá da decisão.

No documento em que comunicam a paralisação, os auditores classificam as avocações como “indevidas” e criticam a declaração de sigilo em relação às análises do ministério. Os funcionários públicos também ressaltam que a “dispensa de publicidade” dos atos “é incompatível com o Estado Democrático de Direito”. 

Os auditores afirmam que não realizarão “novas operações de fiscalização de combate ao trabalho escravo em âmbito nacional e regional”, mas que as operações já iniciadas serão concluídas. Como condições para o retorno ao trabalho, eles pedem a anulação ou suspensão dos efeitos das avocações, a garantia formal de que nenhum auditor sofrerá retaliação e a abertura dos processos sigilosos para escrutínio público.

“Esse movimento é em resposta ao recrudescimento que está ocorrendo por parte do Ministro do Trabalho na autonomia da inspeção do trabalho e nas ações dos auditores fiscais do trabalho”, explicou à reportagem o auditor e membro da coordenação executiva nacional da Anafitra (Associação Nacional de Auditores Fiscais do Trabalho), Mário Diniz.

Interferência do ministro resultou em anulação e auditores denunciam assédio moral

Outra interferência de Marinho envolve a empresa baiana Santa Colomba, cujos seguranças privados algemaram, agrediram, e trancaram um trabalhador em um quarto, conforme revelado pelo Brasil de Fato. Como o processo está sob sigilo, não é possível acessar a conclusão da consultoria jurídica do ministério sobre o caso.

No caso que envolve a APAEB (Associação Comunitária de Produção e Comercialização) do SISAL, entretanto, um documento obtido pela Pública indica que a consultoria do MTE concluiu “nulidade absoluta” dos autos de infração que haviam baseado a inclusão da APAEB na Lista Suja do Trabalho Escravo ainda em 2024. Ou seja, após a avocação, o processo e a punição foram extintos. Na carta de informe do protesto, os auditores afirmam que, após a decisão, o caso foi enviado à Corregedoria, “configurando ameaça direta e criminalização da atividade técnica regular” dos fiscais.

“Os auditores estão em choque com essa atitude do ministro, que não aconteceu nem nos regimes de exceção, nem no governo anterior e nem no governo que se organizou depois da deposição da presidente [Dilma Rousseff]”, afirmou Diniz.

O documento assinado pelos auditores que aderiram à paralisação concluiu que “a realidade apresentada, para além das flagrantes ilegalidades demonstradas, possui claros indícios de prática de assédio moral e institucional contra a categoria”.

Além de já terem apresentado uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental ao STF (Supremo Tribunal Federal), que aguarda análise do magistrado que substituirá o ex-ministro Luís Roberto Barroso, os auditores também pretendem levar o caso à OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Via https://protecao.com.br/


sábado, 28 de junho de 2025

Juliana e o vulcão, ou a erupção de nossa tragédia política

 


Sammis Reachers

Nesta semana este país gigante e ferido de patologias genéticas que lhe embotam o raciocínio e o convívio (escolha a sigla que lhe agradar) se viu mobilizado.

Juliana Marins, niteroiense como eu, foi vítima de uma tragédia.

Mas sua tragédia pessoal/familiar revelou outras em seu bojo. Logo o país ainda polarizado se viu num embate: Onde está o presidente Lula, o Lule de tantos, que não providenciou seja o resgate do corpo vivo, seja o translado do cadáver? Pior, enviou jatinho da FAB para resgatar antiga “comparsa de falcatruas” dos tempos do Mensalão...

A monstruosidade de muitos se mostrou não na empatia com a Juliana ou seus restos mortais, mas em usar um fato trágico como artefato político, granada de concussão para tentar atordoar o outro lado.

E a monstruosidade foi prontamente respondida com outra monstruosidade (é a guerra, baby): Lula, o Lule misógino, machista e racista das massas bichas e machas, aprovou o gasto com o translado de corpos de brasileiros.

Há praticamente CINCO MILHÕES DE BRASILEIROS RESIDINDO NO EXTERIOR.

CINCO MILHÕES.

Fora os turistas.

Não, eu não quero, não posso e nem preciso pagar essa conta. Nem o país que eles escolheram deixar para sempre ou por momento.

Mas Juliana era turista. Turista de AVENTURA, que é aquele que escolhe o risco, e extrai do perigo, prazer. Sim, mesmo sabendo dos riscos, mesmo apesar dos riscos. Mesmo apesar da família, seu receoso apoio ou constrangida oposição. Ficou claro o desenho? Turista de AVENTURA. Aventurou, aventurou e morreu. Uma tragédia. Pessoal e familiar. Arthur, filho de Campina Grande e garçon em Barcelona, acaba de morrer em terras espanholas. Embolia pulmonar. Agorinha. Sua morte nos comove? Adelaide, maquiadora de Nova Iguaçu, acaba de morrer em Berna, na Suíça. Caiu de uma escada de três míseros degraus, dentro de casa. Cabeça na quina da pia. Morreu assim como todos os CINCO MILHÕES de brasileiros no exterior irão morrer, antes, durante e após você e eu.

Tudo isso é para expor o ridículo de nossa situação. O país não tem que enviar jatos da FAB, esse elefante branco e voador, com seus orelhões de dumbo ou do diabo, para resgatar criminosos “perseguidos”. E nem cadáveres, seja de trabalhadores pátrios, seja principalmente de aventureiros.

Mas bom senso desertou de nós há uma década ou quase duas, e a situação da inocente Juliana só serve para expor com toques de filme splatter o horror de nossa película. Por sinal, já ouviu nossa trilha sonora? Somos o país de Poze e Oruam, de Gusttavo Lima e de Enrique & Juliano...

Além da guerra, a política é a única ocupação onde um porco pode entregar o máximo de sua porquidão. Uma arena onde ele pode ofertar o seu pior para o cosmos.

Lula, como antes fez Bolsonaro, se mostra fraco ou porco demais: Os ventos do populismo – leia-se, desejo de reeleição, essa monstruosidade que não deveria existir – o faz lançar âncora onde quer que possa conseguir mais votos, de um bolsa-luz (na verdade, luz elétrica de graça para quem consome pouco), CNH gratuita para o pobre que pode comprar carro, mas não pagar por uma carteira (?), ao translado de corpos de aventureiros. Amanhã tem Flamengo, time de meu coração e de um terço da pátria aurirrubra: Eu e você pagamos a conta para que um fique deitado em sua casa ou casebre assistindo a Copa do Mundo de Clubes, luz e bolsas em dia, enquanto eu não posso, pois estou dando expediente no trabalho. E do trabalho, na hora apertada do almoço, assisto à comoção sobre outro aventureiro que curte a vida adoidado, não compartilhando seu prazer (justo, pois é particular), mas compartilhando sua desdita, pois pago os custos finais de sua aventura.

Esse desejo lulista de perpetuar-se no poder, pondo em risco a economia do país, é tão deletério quanto os arroubos golpistas e provincianos do idiota da aldeia Bolsonaro, outro que se revelou populista, mas tarde e sem talento, que talento no que seja sempre lhe faltou na vida.

Contra essa dualidade demoníaca de Lule x Bozo, quem se apresenta? A direita como a tupiniquim carrega em si o vírus totalitário; a esquerda outra que não a lulista é ainda mais perniciosa; os liberalóides passam do ponto: propondo Estado mínimo, querem mesmo é Estado nenhum. Marina se aquietou e aniquilou, conformada, um dos casos mais sinistros de implosão-política-sem-escândalos da história pátria. Ciro Gomes, o eterno injustiçado, não consegue falar a língua de nosso povo e até de nossas "elites", feridos todos de analfabetismo funcional (o "mal do século" brasileiro).

Primeira, segunda e terceira vias assoreadas, interditadas por lama perfumada. Precisamos de uma quarta, quinta, sexta vias. Mas de que bueiro emergiriam?

Estamos todos futricados, como diria meu pai.


*****


Sammis Reachers é escritor e editor. Paga suas contas como professor de Geografia. É licenciado também em História e em Artes Plásticas, e graduado em Biblioteconomia.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

FNW – Fake News Wars e o Bolsolulismo

 



FNW – Fake News Wars. No futuro, quem sabe este período histórico que sofremos seja assim conhecido e estudado?

Nos EUA, poucos anos atrás, a ajuda russa ao alaranjado Trump e sua equipe redundou na derrota da Hilary. O exemplo estava dado. Aqui, o turbilhão em que o país se encontrava em virtude do desmonte do maquinário Petista/Peemedebista e associados, pegos de certa forma com as calças arriadas em seu processo de vampirização do maquinário estatal para fins e$cuso$, criou a condição ideal para, seguindo uma maré que se levantava em outros países, a ascensão de forças de direita - ou qualquer um que gritasse alto. Moro excedeu-se? Muito provavelmente. Americanos lucraram no lombo mirrado de seus primos morenos, mas precisaram trabalhar (no pain no gain) nas sombras para isso? Claro! Para isso vivem, como a Pérfida Álbion (você deve conhecê-la como Inglaterra) os ensinou um dia. Mas, para fúria e lágrimas de muitos, nada disso muda o fato de que as treta$ eram realmente de enfartar o coração de qualquer pátria. Porta destrancada, até bêbado chuta e diz que arrombou...

Mas nossa direita era capitaneada por gente que chama o defunto astrólogo/ex-muçulmano-reprodutor Olavo de Carvalho de filósofo e de patriota um empresário que tem a Estátua da Liberdade como símbolo de seu negócio: à primeira vista, ainda que o edifício petista apodrecesse e ruísse, o braço mirrado dessa gente seria impotente para assumir o poder.

Aqui entraram as fake news. Capitaneado por seus filhos, numa sinistra inversão hierárquica, o capitão casamenteiro arrebanhou ofendidos de primeira hora e viu serem fabricados os que faltavam pelo maquinário das fake news. Um recurso que sempre existiu, a chamada contrainformação usada por Estados e direitistas e esquerdistas, foi elevado em ambientes virtuais ao status de arte sombria.

A questão é que as eleições foram vencidas; inocentes úteis, pessoas com razão em sua revolta e indecisos cooptados pela manada e até uma inesperada (?) malta de maus-caráteres uniram-se e instalaram no poder uma colcha de retalhos marotos composta de meia dúzia (oi? Tantos?) de elementos sérios (logo logo despachados) e um panteão galáctico de caricatos personagens, aloprados sob a (in)gerência de um sargentão em ceroulas, mamador de leite condensado, vício herdado das frias madrugadas na caserna (deixe logo esclarecer que sobrei por excesso de contingente).

As fake news não se resumem a detonar as biografias dos adversários, inflar a relevância de eventos, esvaziar a de outros, e atribuir a A o feito por B. Elas se manifestam, por exemplo, a nível de ideário na apropriação indébita da mensagem cristã (e idealizadamente da correção ética) feita por indivíduos defensores da tortura e do extermínio. Até hoje muita gente acha que o católico nominal (ou seja: não-praticante) Bolsonaro é um evangélico de facto. Um case de fake news de sucesso, hum? Cristãos sinceros, goste você ou não, foram cooptados pela mensagem viralizada, afogados no imenso ruído comunicativo deflagrado pela realidade da corrupção + fake news. Vencidos foram muitos incautos por esta prática vil, mas fundamental nos procederes dos agentes das FNW, e que podemos chamar de sequestro de capitais simbólicos: Nossa bandeira e suas cores, a defesa de valores basilares (comuns à maioria das pessoas, seja qual for sua inclinação política/religiosa), a pátria, o cristianismo: Tudo isso é deles e de mais ninguém.

A incapacidade do PT de realmente governar para todos, subestimando a imensa população evangélica, força proativa e ordeira a serviço da nação, vista então como reles minoria inoportuna ou manobrável, “cidadãos de segunda categoria”, finalmente cobrava seu preço. E um teatro do absurdo se instalou em Pindorama, polarizada a níveis jamais vistos. Pois o golpe de mestre dessas FNW foi esse: pessoas real ou pretensamente “de bem” se alistaram numa guerra que lhes foi vendida como ética, mas era tão-somente uma guerra ideológica e uma manobra da plutocracia da casa grande em busca de retomar o trono, com uma ajudinha do diabo ianque. E muitos não podem voltar atrás: a narrativa odienta de seus captores-cooptores os contaminou e às suas biografias. Não muito "bem" restou.

Falando na polarização, um fenômeno que já é tema de estudos e seguirá, se não apresentou-se com o vestido do ineditismo - pois os partidários aloucados (hoje mesmo há um aí perto de você!) de Hitler ou Stálin provam que ele sempre existiu - ao menos ficou nu como o rei da legenda: O Bolsolulismo, a conflagração desses dois extremos odiosos e odiosamente siameses. Para os poucos ainda afeitos ao somatório das ideias, livre de dogmatismos e cartilhas ideologicamente pré-concebidas, ficou explícita a periculosidade para o bem público de qualquer extremismo. Mas infelizmente somos tropa assimétrica e acuada, engolfados de roldão no turbilhão putrefato desta guerra que não pudemos impedir.

A alternância de poder é benéfica à democracia. A derrota de forças superiores por players aparentemente impotentes dá uma lição de fogo a gregos e troianos, obesos de fartar-se do poder. Mas a assimilação e reprodução cultural da mentira, sua industrialização midiática, o envenenamento da opinião pública, isso precisa ser combatido antes que solape o que nos restou de democracia.

2022 chegou com a pandemia, multifacetária, estendendo-se por aí, embaralhando as coisas, expondo-encobrindo os desmandos do atual governo. Tudo leva a crer que a aventura bolsonarista cairá por terra, mas não sem um duríssimo combate, que jamais cessou desde 2018 e atualmente está em pleno vigor – de lado a lado, é bom frisar – como a CPI da Covid e a CPI fail do voto impresso, ambas inócuas, deixaram claro.

Mesmo findo este primeiro ciclo das fake news wars, suas lições e as máculas que deitou no couro da nação arderão por bom tempo ainda – e será lento nosso processo de desintoxicação cultural, se é que nos desintoxicaremos algum dia.


Sammis Reachers


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Crônica: Vossa Excelência, o Lembrador-Geral da Nação

Cartaz do "filme" sobre a CPI instalada e depois desinstalada na Câmara durante o governo Nanci/Arte: Helcio Albano, inspirado em película de José Mujica Martins, o Zé do Caixão

Somos um país sem memória.” A frase, já quase um chavão, deu início a inúmeras crônicas, artigos e notícias ao longo de nossa malbaratada história.


Pindorama, nome que os nativos tupis davam ao Brasil, sofre desse mal que, sim, não é apenas nosso.


Mas aqui em nosso Brasil continental há uma espécie de celebração do olvido, do lapso de memória. Como se estivéssemos sempre – sejamos do time dos foliões ou dos anti-carnavalescos – em pós-carnaval, ávidos por esquecer nossos pecadilhos.


Os esquecimentos ocorrem, por um lado, ao sabor do acaso, quando o ante-ontem é engolido pelo ontem, e este pelo hoje; os acontecidos de agora há pouco são atropelados pelas subsequentes lides do dia-a-dia, os fatos e dores que se avolumam a cada nascer do astro-rei. E essa naturalidade dos esquecimentos foi dinamizada por mil com as redes sociais, a web-aldeia eletrônica e seu tsunami de informações que não passam pelo filtro do limite ou pela peneira da verdade.

Mas esquecimentos também se dão ao sabor da perniciosa, quase pornográfica seletividade dos “senhores da história”. Sim, os donos da narrativa, que fabricam a sua versão e a repetem tanto que chegam a nela acreditar: seja seu Antônio do bar da esquina, “que estava vivo naquele tempo e nunca viu a Ditadura incomodar trabalhador”; seja o Ali Kamel, chefe de jornalismo da Globo, Globo que (ainda) elege e derruba reis e rainhas; o padre que diz que o fiel não pode interpretar a Bíblia sem o intermédio/filtro da Santa Madre Igreja... E tem cereja no bolo: o professor de história que parece tem um bonequinho vodu do Stálin no lugar do coração, e marcha amargurado, crente (opa!) que há acerto em seu desconcerto dialético.


Esse problema crônico de nossa cronicidade memorial pátria me levou a fantasiar dia desses um novo personagem, uma figura tão necessária que deveria, já em seu nascimento o conjuro (pois coisa-ruim nem é parida, é conjurada), ser alçada a ministro de Estado, com direito a corte e entourage, meritocráticos profissionais de carreira e mamadores indicados (“cargo de confiança”), como compete a qualquer ministério ou puxadinho estatal. Trata-se de Vossa Excelência o Lembrador-Geral da Nação.

Dentre as atribuições múltiplas deste memorioso, deste cabeção, deste mestre-alcagueta, ombudsman da vida pública, todas se bifurcariam num mesmo e pacífico ponto: Lembrar-se. Lembrar principalmente o que o acaso ou as $eletividades eletiva$ parecem que nos forçam a esquecer.


Os três meninos pretos de Belford Roxo, desaparecidos há 113 (CENTO E TREZE) dias, lembra?, poderiam figurar na agenda inaugural. Agenda que, de tão abarrotada, haveria de ser decomposta em sub-pastas: Lembranças do “Descobrimento”; Lembranças da Ditadura; Lembranças dos Escravos de Zumbi (queridos, até aqui, numa hipotética primeira semana de trabalhos, já deu pra perceber que vai sobrar pra gregos e troianos, hum? Pois será exatamente esta a função ideal do Lembrador-Geral: Rememorar, rememorar o que foi pisoteado na lama do deixa-disso, desentocar as simonias dos pretensos santos, desconstruir os pilares da acomodação geral dos fatos que em muitos currículos é chamada de História).

Uma luta inglória digna de Sísifo – ou Hércules, aquele que sacaneou o sogro de Sísifo, o titã Atlas, lembra? Tá vendo, é disso que falo: Nós nos esquecemos, e nem nos sentimos culpados. Daí a urgência de ministério que nos socorra.


Sim, pois nossa raça tem o traço da bovinidade, da pacatitude – das quais o esquecimento é uma das armas ou muletas fundamentais. E a função deste antitético ministro seria ir de encontro a nosso marasmo, nossa celebração das desimportâncias – marasmo que, por esse sim!, estamos dispostos a combater com unhas e dentes. Ou você já se esqueceu o que foi feito quando certa passagem de ônibus foi aumentada em 0,20 centavos? Pois o ministro, que ainda nem ecxiste, guarda viva a memória daqueles dias. E de seus revoltosos, hoje desaparecidos...


Perto das eleições presidenciais, V. Ex.ª o ministro Lembrador, como compete a qualquer empregado, acorreria aos currais Brasil afora em busca de votos para o mandatário da vez, fosse Bozo, Lula ou um Itamar redivivo (lembra do Itamar, não é?). Quem sabe daria com os olhos inquiridores em nossa São Gonçalo, a de tantos eleitores? Eita ferro, que aqui tem pepino! Bora ver?


O morro localmente chamado de Bolo da Noiva, divisa entre Tribobó e Maria Paula, durante toda a década de oitenta foi utilizado como local de extermínio e desova. Pode computar aí humílimos 100 mortos ali jogados, só pra inícios de trabalho. Cortesia dos grupos de extermínio e meganhas daqueles idos. Nos anos 90 foi descoberto um cemitério clandestino (sim, muitos não eram apenas jogados, mas desfrutavam da ‘civilidade’ de um enterro). Num único trecho foram encontrados 29 cadáveres. VINTE E NOVE. Você, gonçalense, está lembrado?


E aí? Descobriram-se as identidades daquele amontoado de anônimos? As mães que esperaram por anos seus desaparecidos, foram avisadas? Os mesmos de sempre, responsáveis por tantos cadáveres, foram investigados? Como, se as $eletividades forçam tudo ao esquecimento? Alguns dos responsáveis ainda andam por aí, com seus cabelos agora brancos, mas ainda senhores da narrativa, ainda fazendo valer sua versão.


Falando em cemitérios: E aquele fuzuê dos cambalachos supostamente descobertos na administração das necrópoles municipais, durante a governança pregressa? Alguém se lembra? Uhh, lembrou dessa, hein, gonçalense?! Muito bem! Mas, e essa lembrança, deu nalguma consequência?


Ah, ministro! O Brasil precisa de você!
Sammis ReachersPublicada originalmente no Jornal Daki.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Eleições 2018, cenário sombrio para a Igreja: Daciolo nos representa?


Agosto de 2018: As eleições estão já às portas, e o cenário que se vislumbra é deveras sombrio, embora muitos pensem o contrário.
Comecemos pelos da "casa" de "Deus": Marina, vítima de alianças, vítima do tempo, vítima do PT, a quem ela permitiu desconstruí-la nas últimas eleições - permitiu, sem falar um "ai" sobre a corrupção do PT, que ela como ex-ministra deveria saber - e o pior, talvez não tenha se omitido por rabo preso, pois ela realmente aparenta inocência(s), mas POR RESPEITO ao Lula. O tempo, como dito, e o convívio com a nata da liberalidade (moral) acabaram por fragmentar seu discurso cristão, e hoje ela é apontada como favorável aos LGTBs, e propõe um plebiscito para a questão do aborto, que deveria ser tema intocável para um cristão, seja de qualquer vertente.
Temos o louco do Boulos, que tinha muito para apresentar-se mais inteligentemente, mas excede no radicalismo e sabota suas próprias perspectivas de (alguns) votos. Ainda na esquerda, Ciro, ás das palavras, mas que, contraditória ou paradoxalmente, costuma dizer uma asneira num vídeo e, ao contrário de Bolsonaro, que tenta mal e porcamente explicar-se, simplesmente desmente o registrado, e diz que jamais falou tal coisa. Assim, com a maior das caras lavadas. Assim fica fácil prometer mundos e fundos, como ele logra fazer. Isso não é papel de homem, e ele próprio já se desqualifica a priori como homem para chefiar uma nação.
Os demais são mais do mesmo: Alckmin, Meireles, Amoedo, raposas purpurinadas do neoliberalismo. Nada temos a dizer: suas biografias falam ou arrotam por si.
E temos Bolsonaro. De quem não vou citar os pontos positivos, alguns, pois há milhões que, sinistramente zumbificados, o fazem pela segurança das redes sociais. Bolsonaro é o que a Bíblia chama fundamentalmente de levantador de contendas. Um Ninrod, um valente que, dizendo trazer  solução e a reforma moral, é apenas mais do mesmo, o que se vê em seus muitos anos de vida pública e suas nulas realizações. É a opção cristã mais razoável - sim - mais razoável PARA O SEGUNDO TURNO. Suas continências à bandeira americana e durante eventos maçônicos dizem mais sobre ele do que seus defensores estão dispostos a engolir - e no entanto engolem. Mas, concordo com eles, há males piores.
Para o primeiro turno, acreditamos num elemento já um tanto folclórico - um homem que fala sobre a algo fantasiosa Nova Ordem Mundial, mas também sobre a muito real e operante Maçonaria - isso em cadeia nacional. E, ainda em cadeia nacional, abre uma Bíblia (alô Marina, alô Bolsonaro, alô Mangueira, aquele abraço!), e lê um versículo para a nação. Se sua pouca experiência depõe contra ele, ela mesma deixa transparecer que o nosso homem possui algum talento, muita coragem, e apresenta-se como cristão que não se envergonha da Palavra da Verdade, colocando-a (ao menos em tese, e isso é muito mais do que os demais) acima de tudo. Estamos falando, claro, de Daciolo.
Claro está que ele não representa perigo para os principais concorrentes - e por isso mesmo merece nosso voto. Nosso voto de protesto, nosso voto de cristãos, nosso voto de demonstração de força. Ele precisa de força para conquistar visibilidade, palanque, projeção - para que continue a voar e a bradar, com a coragem que falta a todos os demais. Cientes estamos de suas incongruências, algumas divertidas: mania de perseguição, algum exagero nas citações e apelos de seu incansável jargão evangélico, confissão (exageradamente?) positiva - mas isso, o tempo apaziguará. Precisamos dele como precisamos um dia de Enéas, que deixou este país antes do tempo, com funestas consequências para a nação.
Para o segundo turno, decidamos entre Bolsonaro e um outro - mas neste primeiro turno eu lhe convido a votar com ousadia, com coragem, com protesto contra o marasmo de lama em que estes que aí estão nadam há décadas, sem cansarem-se ou se afogarem. 

Sammis Reachers

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Temer e a liberação da escravidão, ou: por um #2018SemPMDB



Nesta semana assistimos a talvez o maior disparate, e sabemos que é grande a disputa, já perpetrado pelo malfadado governo Temer. Para manter o apoio da bancada ruralista (em torno de duzentos bois, perdão, almas), Temer muda as leis de caracterização do trabalho escravo, prejudicando, naquilo que há de mais torpe e humilhante, a milhares de vidas. Apenas para manter seu governo. Vende vidas para manter seu governo. Vende almas, vende a alma. Um homem tão torpe, que tantos de vocês apoiaram sem pesar, e nem sabem o que dizer. Aniquilando o país dia após dia, pelo seu governo, pelo seu partido, por uma classe de príncipes empresários, 60 ou 70 almas ou bois que tudo têm em seu poder. 
Não são alvos de tiros, bombas, pancadas; seus filhos não são expostos a bulliyng ou socos nas escolas chiques e faculdades públicas ou na PUC de padre$ e vadio$. Suas esposas, cúmplices de bolsinhas Versace, não são apontadas, que dirá expulsas, nos restaurantes ou salões. Incólumes em suas peles brancas, cada um deles. Blindados pelo nosso medo; sim, NÓS lhes providenciamos a couraça. Até quando?

Uma resposta pacífica, pois sei que vocês são pacíficos, e eu tento, é não votarmos em nenhum candidato do PMDB nas próximas e vindouras eleições. Para nenhum cargo. #2018SemPMDB .
E pensar que julgávamos salvar o país, ao removermos o PT. Miseráveis que somos...
Vamos lá, vamos alavancar essa campanha. Esse partido de cafetinas precisa ser excretado de nossa política, antes que nos destrua em nome de meia dúzia de bois ou almas.
Sammis Reachers

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