Mostrar mensagens com a etiqueta PIDE. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta PIDE. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Portugal Abril de 1974


ENVIADO A PORTUGAL
Fotos de Henri Bureau
Texto de Luiz Carvalho
Expresso 24-04-2004


Um suposto membro da PIDE, sendo preso por soldados no Largo do Carmo.
Foto copiada do Expresso

Quando naquela manhã, pela fresquinha, os blindados do capitão Maia desceram de Santarém a Lisboa para mudarem a História, muita gente foi apanhada adormir. A música na rádio era outra, apesar de a senha para o início das hostilidades ter sido uma canção festivaleira, «E Depois do Adeus». A PIDE dormia, o regime ressonava, o reviralho tinha-se deitado tarde entre cervejas e policopiados de propaganda, mas a imprensa estrangeira já estava nas ruas de Lisboa testemunhando para o Mundo a mais pacífica das revoluções, chamada dos Cravos. Muitos dos fotojornalistas, a maioria franceses, que hoje trabalham em agências tão prestigiadas como a Magnum, a Sygma ou a Gamma e que são publicados nas mais destacadas revistas e jornais internacionais, estavam em Portugal no 25 de Abril, iniciando carreiras fulgurantes. O tempo de «quando o povo mais Ordenava»,como se uma bebedeira de liberdade tivesse transformado uma terra de fado numa nave De loucos, foi documentado por Salgado, Le Querrec, Gilles Peress ou Jean Gaumy. Eram muito jovens, ansiavam registar guerras e confusão, depararam com uma grande aventura jornalística a duas horas de casa. Um desses enviados foi Henri Bureau, co-fundador da agência Sygma, cujas fotos publicamos.
Henri Bureau ganhou um prémio World Press Photo com a fotografia de um pide cercado no Largo do Carmo. Por ironia, o homem de gabardina era tão-só um cromo de Setúbal que gostava de se fazer passar por agente da alta autoridade bufa. Michel Puech, fotojornalista, então com 26 anos e a trabalhar para odiário francês «Libération», comenta esta semana na Internet a sua experiência no 25 de Abril e refere, com especial amargura, o facto de ter estado ao lado de Henri Bureau e nem ter visto esta cena. Diz andar há 20 anos a lamentar-se por tal falhanço!

Rossio, em Lisboa. Uma multidão em fúria ataca um suspeito de pertencer à PIDE/DGS.
 Foto copiada do Expresso

O movimento dos capitães foi noticiado em França, na primeira hora, como um golpe militar, o que induziu muitas jornalistas a pensar em tratar-se de mais uma pinochetada, agora na Europa. Henri Bureau foi dos fotojornalistas mais marcantes dos anos 70 e Portugal foi um dos seus feitos.«Não dou tréguas em trabalho, mas em Portugal beijei um colega da Gamma por termos sido os únicos a fotografar a tempo a revolução».
Praça do Rossio, em Lisboa. Uma multidão em fúria ataca um suspeito de pertencer à PIDE/DGS. Os soldados tentam protegê-lo. O homem é arrastado até aos Restauradores, sempre injuriado. Henri Bureau segue de perto a aventura do refém da justiça popular. Ao lado de Bureau, um outro fotógrafo da Magnum, Gilles Peress, acabaria também por fotografar a cena. A «caça ao pide» era um dos passatempos preferidos daqueles dias de brasa. Muitas vezes, no meio de uma multidão concentrada em qualquer esquina para discutir acaloradamente um ponto revolucionário, ouvia-se: «Pide! O gajo é da pide!», e logo todos gritavam, avançando para o suspeito:«Morte à PIDE, o povo vencerá!» Seguia-se uma forte malha na vítima, com os soldados a tentarem acalmar os ânimos e os punhos. Cometeram-se injustiças e humilhações, e muitos verdadeiros pides acabaram por se safar pelas traseiras do exaltado povo. Menos os que foram apanhados com as calças na mão...

Soldados tomando posições nas ruas de Lisboa, dois dias depois do 25 de Abril.
 Foto copiada do Expresso

De Santarém a Lisboa, o caminho era longo para os blindados do capitão Salgueiro Maia. Só havia auto-estrada a partir do Carregado, as máquinas aqueciam, pouco habituadas a aventuras revolucionárias. Os soldados, acordados a meio da noite, viajaram meio estremunhados. A hora de ponta na altura, em Lisboa, era bem mais tranquila do que hoje. Ainda havia carroças a chegar com hortaliças à Praça da Ribeira, mesmo ao lado do cenário onde se desenrolou o encontro do oficial fiel ao regime caduco com o herói Maia. O semáforo caiu para vermelho no Marquês de Pombal e o soldado que conduzia o blindado da frente travou a fundo. O resto da coluna parou para deixar passar a tranquilidade cinzenta que ainda atravessava o país. A revolução começou por respeitar a prioridade e acabou por virar nos mais diversos sentidos, conforme os interesses, a força dos grupos, a vontade popular também. A calma do soldado que lê o jornal no Chaimite ou a alegria dos lisboetas, vestidos de calças largueironas e mini-saias atrevidas e gritando à democracia, são grandes momentos de glória.

 Soldado lendo o jornal dentro de uma Chaimite e populares 
no Marquês de Pombal, três dias depois do 25 de Abril.
Fotos copiadas do Expresso

Depois dos heróis, os protagonistas. Cunhal chega ao aeroporto da Portela e salta para um Chaimite, aclamado por camaradas e curiosos. Deverá ter sido dos poucos abraços que deu a Mário Soares, chegado na véspera a Lisboa, no comboio de Paris. Ao volante do Renault 16, que agora repousa na casa-museu de Cortes, João Soares conduz o pai Mário que salta da janela do carro, acenando aos populares. Os primeiros dias de festa estavam a chegar ao fim. Passado o mar de fé e gente que foi o 1º de Maio, tudo mudou. Os carros de Maia, e os seus homens, voltaram à caserna. Outros militares vieram para a ribalta fazendo de heróis. Cunhal e Soares viraram-se de costas. Foram meses de novas lutas até à implantação de uma democracia à europeia. Portugal voltou a ficar no seu canto, só, enquanto testemunhas como Henri Bureau partiam, levando fotografias que continuam a ser únicas.

Fotografias de Henri Bureau/Sygma/Corbis
Texto de Luiz Carvalho
24 Abril 2004
Expresso

«Cunhal chega ao aeroporto da Portela e salta para um Chaimite, aclamado por camaradas e curiosos.»
 Foto copiada do Expresso

 «João Soares conduz o pai Mário que salta da janela do carro, acenando aos populares.»
 Foto copiada do Expresso


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Salazar por Fernando Pessoa

"Politicamente, só existe aquilo que o público sabe que existe."
António de Oliveira Salazar na inauguração do S.N.I. em 1933.



Salazar, capa da TIME em 1946: «Após 20 anos de Salazar (o decano dos ditadores 
da Europa), Portugal é uma terra triste de pessoas pobres, confusas e assustadas...» In TIME.



Fernando Pessoa - António de Oliveira Salazar
s.d., em Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa.
1ª publ. in Diário Popular, Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974


António de Oliveira Salazar
Bernard Hoffman veio a Portugal em Julho de 1940, fazer uma reportagem para a LIFE.
A Exposição do Mundo Português tinha sido inaugurada (em plena 2ª Guerra Mundial)
 um mês antes. Hoffman não tirou qualquer foto dela (pelo menos eu não encontrei).
Pode ver as fotos dessa reportagem da LIFE, neste post mais antigo carregando aqui.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
Água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu...
Em 04 de Julho de 1937, Salazar escapou por um triz (infelizmente) a um atentado
organizado por um grupo de anarquistas. Revista Ilustração 16-07-1937.

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas afinal é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
 1938, um ano antes de começar a guerra, Salazar organiza uma caçada em
Mafra para membros do Corpo Diplomático. Revista Ilustração 16-07-1937
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.




SIM, É O ESTADO NOVO

Sim, é o Estado Novo, e o povo
Ouviu, leu e assentiu.
Sim, isto é um Estado Novo
Pois é um estado de coisas
Que nunca antes se viu.
Em tudo paira a alegria
E, de tão íntima que é,
Como Deus na Teologia
Ela existe em toda a parte
E em parte alguma se vê.
Há estradas, e a grande Estrada
Que a tradição ao porvir
Salazar, anos 50.  Foto de Rosa Casaco, um Pide. Encontrada na net.
Liga, branca e orçamentada,
E vai de onde ninguém parte
Para onde ninguém quer ir.
Há portos, e o porto-maca
Onde vem doente o cais.
Sim, mas nunca ali atraca
O Paquete "Portugal"
Pois tem calado de mais.
Há esquadra... Só um tolo o cala,
Que a inteligência, propícia
A achar, sabe que, se fala,
Desde logo encontra a esquadra:
É uma esquadra de polícia.
Visão grande! Ódio à minúscula!
Nem para prová-la tal
Tem alguém que ficar triste:
União Nacional existe
Mas não união nacional.
E o Império? Vasto caminho
Onde os que o poder despeja
Conduzirão com carinho
A civilização cristã,
Que ninguém sabe o que seja.
Com directrizes à arte
Reata-se a tradição,
E juntam-se Apolo e Marte
No Teatro Nacional
Que é onde era a inquisição.
E a fé dos nossos maiores?
Forma-a impoluta o consórcio
Entre os padres e os doutores.
Casados o Erro e a Fraude
Já não pode haver divórcio.
Que a fé seja sempre viva.
Porque a esperança não é vã!
A fome corporativa
É derrotismo. Alegria!
Hoje o almoço é amanhã.
s.d.


Salazar - Um cadáver emotivo


Salazar
Um cadáver emotivo, artificialmente galvanizado por uma propaganda...
Duas qualidades lhe faltam — a imaginação e o entusiasmo. Para ele o país não é a gente que nele vive, mas a estatística d'essa gente.
Soma, e não segue.
1932?
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa.
(Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes)
Lisboa: Livros Horizonte, 1993.  - 221.


D. Maria chorando no velório de Salazar. 1970. Foto da net.



“passou a época da desordem e da má administração; temos boa administração e ordem. E não há nenhum de nós que não tenha saudade da desordem e da má administração.”

(Fernando Pessoa, 1935)


Fernando Pessoa (1888-1935)




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Lisboa ao sabor da memória


Um pequeno "retrato" da vida boemia em Lisboa nos 60 e 70

Texto de Margarida Bom de  Sousa

Títulos, legendas e fotos copiados do

Expresso,  Sábado, 27 Agosto 1983


Coisas boas em jornais

Nos últimos cinquenta anos Lisboa sofreu uma transformação radical nos seus hábitos, na sua vivência e também na sua aparência externa: perdeu o seu carácter de "aldeia à medida do homem" para se transformar num conjunto de várias aldeias que aspiram, talvez em vão, a ser um dia cidade.

«Chiado: a vida de rua,  dos cafés ou das noitadas é hoje apenas uma ténue recordação». 
Foto Rui Ochôa, copiada do Expresso.


PARECE inevitável — escreve David Mourão Ferreira no prefácio de um livro intitulado "Saudades de Lisboa" — não só da parte dos lisboetas mas também dos habitantes de Lisboa, ao chegarem a certa idade, terem saudades da Lisboa que conheceram na sua juventude, e de considerarem que a Lisboa em que vivem já na maturidade não passa de uma triste degradação da outra".
"É possível — acrescenta — que haja aqui um erro de perspectiva pois, como disse um escritor belga — Alexis Curvers —, ‘a beleza para qualquer homem é aquilo que ele amou durante a mocidade’".
Contudo, é um facto que Lisboa sofreu nos últimos cinquenta anos uma transformação radical nos seus hábitos, na sua vivência e também na sua aparência externa. Perdeu o seu carácter de cidade serena, imperturbável e silenciosa como em 1867 a definia Eça de Queirós — para, no entanto, continua a não criar, a nada iniciar, deixando-se ir ao sabor das correntes e do improviso, do "laissez faire, laissez passer", colmatando aqui e ali as brechas que se foram abrindo, indiferente à sua beleza, como uma mulher gorda que há muito deixou de se preocupar consigo mesma.
E se muitos continuam a amá-la, a gostar de viver nela e a defendê-la contra tudo e todos, o certo é que, na intimidade, a criticam arduamente, nostálgicos de uma época passada que teima em não regressar, esquecidos de que a mudança passa por cada um de nós.

A Lisboa dos cafés

Uma das coisas que sem dúvida alguma, mais se modificou em Lisboa nos últimos cinquenta anos foi a forma das pessoas conviverem. A vida de rua, de cafés, de grandes noitadas em casas de fados ou discotecas, restringiu-se, pouco a pouco, às reuniões em casa de particulares, dando origem à formação de pequenos grupos fechados, que deixaram de comunicar entre si.
Com efeito, nos anos 40 e 50 - e até mesmo muito antes disso, no princípio do século —, a "educação" de um lisboeta não podia considerar--se completa sem que tivesse transposto, ao menos algumas vezes, a porta de um café. Grande parte da vida das pessoas passava-se nesses locais, que se agrupavam por "especialidades": havia os cafés políticos, os literários, os boémios, os desportivos, os tauromáquicos, e ainda outros, ilustres - sobretudo pela "maledicência".


 «Se muitos continuam a amar Lisboa, a gostar de viver nela e a defendê-la contra tudo e todos, o certo é que na intimidade, a criticam, nostálgicos de uma época há muito perdida». 
Copiadas do Expresso.


"Era até certo ponto o caso do café Portugal — conta David Mourão Ferreira — onde se reuniam escritores ligados ao movimento neo-realista e outros adversários da 'situação', e que foi, numa dada altura, conhecido por Portugal a Cantar — designação de um espectáculo célebre da época. Tratava-se de um modo bastante ameno de exprimir a existência de um Portugal que fingia cantar mas que gemia, ou uivava, contra a situação vigente".
"Outro café também notório pela `maledicência' política — continua o escritor — era, ao lado do Portugal, a Brasileira do Rossio, essencialmente frequentada por republicanos e democratas, ou seja, aquilo a que se chamava 'a gente do `reviralho'. Ali ocorriam de vez em quando irrupções da PIDE (antes PVDE Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e, antes disso ainda, Polícia de Informação). Foi lá que conheci, por exemplo, entre várias outras figuras pitorescas, um simpático surdo-mudo que foi preso três vezes por ser boateiro: é que ele divulgava efectivamente boatos de revoluções, de conspirações, de escândalos... através de gestos! Muito expressivos, aliás".
A Leitaria do Chiado, ao lado da Brasileira, foi também  a segunda casa de muitos lisboetas, sobretudo daqueles que passaram pela Escola de Belas Artes.
João, que a começou a frequentar assiduamente aos quinze anos, recorda os anos de 56 e 57 "quando começaram a aparecer os existencialistas, de longas barbas, grandes camisolas e ar pensativo, causando grande impacto nos chamados `burgueses' - os empregados das lojas, que os miravam como se fossem autênticos bichos. Outra das coisas que gostava de observar na leitaria era a diversidade de pessoas que a frequentava, desde os jovens, com os seus modos um tanto especiais, aos homens que iam para as obras e paravam para tomar o pequeno-almoço, aos advogados que tinham o cartório próximo ou, durante a tarde, às senhoras que iam às compras".
"E havia o Acácioprossegue; rindo um contínuo da Escola completamente doido que passou a frequentar a Leitaria depois de se reformar e que a maior parte do dia estava calado, mergulhado nos seus pensamentos. Mas, de vez em quando, lá quebrava o seu mutismo, e punha-se assim a falar para o primeiro que lhe aparecesse à frente: `Olha, pá! Tu põe-te a pau. Porque o Estado resolveu fazer duas estradas de Setúbal a Nápoles, paralelas uma à outra, só que uma é toda de ferro e a outra de chocolate. E olha - e o Acácio apontava o dedo, ameaçador - morreu um coelhinho branco como tu, que ia num espadalhão a uma alta velocidade, porque escorregou na estrada de chocolate. E tu — virava-se para outro de nós — podes passar ali pelo Poço do Bispo que há lá uma árvore que dá maços de Camel. Já sabes, podes tirar um ou dois que os saloios não se importam. E também podes tirar duzentos ou trezentos quilos, que eles às vezes dão, outras vendem'.
"Mas ele falava com um ar tão sério que quem não o conhecia quase acreditava. E quando era preciso interná-lo no Júlio de Matos? Bastava dizermos-lhe assim: `Oh Acácio, é só para ires ali prestar umas declarações à Pide', que ele lá ia, feliz e contente, dentro da ambulância."


Café Vá-Vá em 2009 é um restaurante e pazzaria. Foto Google view.


Os tempos do Vává

Fernando Lopes, António-Pedro de Vasconcelos, Paulo Rocha, César Monteiro, Seixas Santos, Manuel Costa e Silva, António Escudeiro — naquela época eram ainda um punhado de idealistas que se reuniam diariamente à volta de uma mesa do Vává, lutando por uma carreira que, se hoje é difícil, na altura era uma verdadeira loucura, vivendo à base de pequenos expedientes e de algumas idas ao “prego”.
No seu gabinete da RTP, na Cinco, de Outubro um gabinete austero onde apenas sobressaem alguns cartazes de filmes como o da "Canção de Lisboa, primeiro filme feito por portugueses" — Fernando Lopes fala, durante mais de duas horas, de um tempo em que havia mais solidariedade entre as pessoas, em que as barreiras sociais não eram tão evidentes, onde a comunicação se estabelecia com maior facilidade.
"As pessoas tendiam a reunir-se fora das suas casas e faziam-no; essencialmente, por grupos de interesses. No que diz respeito ao cinema, já tinha havido nos anos 40, um grande café, o Paladium, onde se reuniam os cineastas, técnicos e autores de uma época que, em termos de filmes, se pode definir como a que vai do `Pai Tirano' ao `Pátio das cantigas'. Depois, e durante os anos 50, houve como que um desaparecimento da tertúlia de cinema, que se refez, posteriormente, à volta do Parque Mayer, no Riba D'Ouro, numa tentativa de conciliar gente de uma época anterior com gente mais nova que começava a aparecer".
"Mais tarde — continua enquanto acende um cigarro que parece fazer parte integrante dele — acabámos por ter o nosso próprio sítio, o Vává, que se encontrava numa posição estratégica quer em relação aos laboratórios de cinema existentes (a Odisseia Filmes e a Tóbis), quer em relação às nossas próprias casas".


«Lisboa, 1983, entre hábitos e paisagens diversas: indiferente à sua beleza». Copiada do Expresso.


Um café situado numa nova Lisboa — a Avenida de Roma e Alvalade, zona onde começava a surgir uma outra maneira de viver, mais livre e mais ousada — e pelo qual passavam, igualmente, muitos estudantes da Universidade, nesses anos 60 um verdadeiro foco de agitação política e cultural.
Assim, acabou por se tornar num ponto de encontro de gente de cinema, da universidade e da música — particularmente os defensores da nova música anglo-saxónica, como os Shadows, e de intervenção, como Adriano Correia de Oliveira — entre a qual se estabeleceu uma grande solidariedade, cimentada por uma resistência comum ao fascismo.
"Dado que a sociedade não compartilhava as ideias destes grupos, — prossegue Fernando Lopes — eles tiveram de se defender, criando os seus próprios códigos e valores que, mais tarde, acabaram por ter um certo sentido, penso que de liderança em relação à mudança".
Com efeito, muitas das pessoas que então frequentavam o Vává começavam a ser conhecidas publicamente. Medeiros Ferreira, Jaime Gama, Alfredo Barroso e Jorge Sampaio, entre outros, faziam também parte do grupo, "um grupo que, ao manter um certo tipo de intervenção política e cultural, tendeu para a abertura de novos espaços de convívio, revalorizando o que a moral pequeno-burguesa transformara em qualquer coisa de pecaminoso: o gosto da festa e do prazer”.
"Também as relações afectivas e sexuais, se alteraram completamente a partir destes locais — adianta Fernando Lopes — tornando-se muito mais livres e muito menos hipócritas".
Mas a vida no Vává caracterizava-se ainda por um outro aspecto relacionado directamente com a própria subsistência dos seus frequentadores, e que consistia na existência de uma "banca privada", em que o próprio dono do café participava, através da qual os mais necessitados conseguiam chegar ao fim do mês, tornando a vida relativamente mais fácil.
"Havia também, e em última análise, uma instituição, fabulosa em Lisboa, que tende cada vez mais a desaparecer, chamada `prego', e que fazia com que cada um de nós pudesse pedir em casa, à tia, à avó ou à mãe, um relógio ou outra coisa qualquer susceptível de se poder transformar em dinheiro, o qual, depois, claro, era repartido por todos".


«Havia uma instituição fabulosa chama prego». Foto Hermínio Clemente copiada do Expresso.


O bichinho da boémia

"Eu já trazia de Lourenço Marques o bichinho da boémia, onde todos os bons espíritos se encontram".
Maluda, que pintava de dia e vivia de noite, chegou a Lisboa em 59, com vinte e quatro anos de idade, para imediatamente e "inevitavelmente", como ela diz com certo gozo, cair na vida nocturna. Numa vida feita de personagens sistemáticos — os errantes da noite — que se concentravam especialmente nas casas de fado, nalguns bares e, esporadicamente, em "boites", como a Tágide ou o Embaixador.
"Uma das casas de fado que normalmente antecedia a concentração era a Adega da Lucília do Carmo, onde actuava quase sempre o Alfredo Marceneiro. Do grupo faziam parte o Zé Casimiro, o Zé Maria Santos, o Fernando Pinto Coelho, que muitas vezes tocava guitarra, o visconde Passos de Nespereira, que só vivia de noite, o Raul Solnado, o actual rei de Espanha, o Fernando Figueirinhas, o duque de Lafões, os Sabrosas, o Manuel Gomes e o Sebastião Pombal, que por vezes preenchiam as faltas dos guitarristas e isto para só falar de alguns. Outro dos locais preferidos era a Toca, do Carlos Ramos, onde o António de Bragança e a Maria Teresa de Noronha cantavam às vezes, e onde estavam quase sempre as tias, Tarouca — D. Anica e mana Margarida — duas encantadoras velhinhas".            
Um ambiente de boémia que nascia ao cair do dia, no qual se encontravam os amantes da noite, do fado, e da conversa em redor de uma mesa cheia de copos.
"Porque estas coisas de que eu lhe falo — Maluda não fala, ri — não aconteciam uma ou duas vezes por semana, mas sim todos os dias, pela noite fora, até às seis e sete da manhã. Eram madrugadas feitas de conversa e laracha onde eventualmente o fado acontecia, como quando a Amélia começava a cantar, já depois das três da manhã, na Taberna do Embuçado, do João Pereira Rosa, só para meia dúzia de amigos.
“E antes de irmos tomar o pequeno-almoço à Ribeira ou a casa de um de nós, porque àquela hora já apetecia tomar um café, ainda dávamos um pulo à Cova do Galo, onde actuavam o Pepe e o Sivuca.
"Mais tarde — recorda Maluda — e com características diferentes, surgiu o Botequim da Natália Correia, com toda aquela `entourage' de poetas e gente ligada à literatura, com a Maria Paula a cantar versos que faziam a caricatura, sempre actualizada, dos acontecimentos políticos."
Contudo, a vida nocturna não se limitava a estes locais. Abertos até tarde e muito mais acessíveis, os cafés também faziam parte da noite, abrigando um outro tipo de gente ao qual, a partir de uma certa hora, se juntavam os espectadores do teatro de Revista ou do S. Carlos, ávidos de uma boa ceia. Havia mesmo alguns cafés que só fechavam das cinco às seis da manhã "para limpeza deles e dos  clientes".


Mercado da Ribeira - Mercado 24 de Julho. 1936. Eduardo Portugal. Foto do Arquivo Fotográfico da CML.

Interior do Mercado da Ribeira - Mercado 24 de Julho na actualidade. Foto encontrada em www.ezimut.com


O fim dos cafés

A partir de certa altura a manutenção dos grandes cafés — como era o caso do Chave de Ouro, no Rossio, que ocupava a totalidade de um prédio de cinco andares — começou a tornar-se insustentável. Por um lado, devido ao aumento das matérias-primas e da mão-de-obra, bem como do valor económico dos próprios espaços em causa. Por outro, devido ao desenvolvimento dessa onda de especulação desenfreada que assolou Lisboa a partir dos finais dos anos 50, com a proliferação de bancos e suas filiais, transformando aqueles cafés em alvos privilegiados para a abertura de novas sedes e dependências bancárias.
"Aliás, hoje — constata David Mourão Ferreira — e apesar da nacionalização da banca, devemos continuar a ser um dos países do mundo em que tais `beneméritas' instituições ocupam, proporcionalmente, áreas mais amplas e mais luxuosas. A não ser que as contínuas desvalorizações do escudo exijam cada vez maiores espaços para armazenar cada vez maiores quantidades de papel que não valem nada...”
Mas não foram os bancos os únicos responsáveis pelo fim destas "instituições". A própria vida das pessoas alterou-se profundamente, sobretudo depois da mudança de regime. Divergências até aí imperceptíveis, pela existência de um inimigo comum bem definido — o fascismo — começaram a surgir e, gradualmente, os grupos começaram a desfazer-se. A faceta de praça pública que caracterizava a vida nos cafés, fazendo com que as diferenças sociais quase não se notassem e proporcionando simultaneamente um convívio fácil, mesmo entre desconhecidos, foi desaparecendo para surgir no seu lugar um outro tipo de convivência social, mais voltado para o interior das casas e compartilhado apenas por meia dúzia de amigos.
"Evidentemente que agora, em 83, isso é muito mais sensível — considera por seu turno Fernando Lopes — porque de certa forma se está a sentir o refluxo de toda a actividade que ocorreu em Portugal entre 74 e 76. E o que mais se nota é que existe muito menos comunicação. Nesse aspecto estamos a ficar iguais a qualquer grande cidade em que cada um vive na sua pequena ilha".
Todavia, Maluda observa que já em 67 esta mudança de hábitos dos lisboetas se começava a fazer sentir:
"Quando regressei definitivamente, depois de ter trabalhado em Paris — lembra com uma ponta de tristeza na voz — toda a efervescência que caracterizava a vida boémia da cidade tinha desaparecido. Uns atribuíam o facto a uma certa contracção devido à guerra colonial. Outros à decadência das casas de fado que entretanto tinham aberto as suas portas aos turistas, perdendo com isso qualidade, pois qualquer fadista 'ad-hoc' servia... O que certo é que qualquer coisa mudara. Hoje, existe uma plêiade de gente que enche, de facto, as `boites' e os bares mas que parece muito mais interessada em dançar e em encharcar-se em copos do que em divertir-se como nós o fazíamos, à base da laracha, da caturrice, da graça, da improvisação."
"Por outro lado — continua — a gente nova interessa-se agora por coisas que nada diziam à minha geração, como sejam as exposições, os concertos... No fundo, acho que os novos de agora têm uma vida interior mais rica do que a que nós tivemos, mas a sua forma de participar nas coisas públicas é que me parece superficial em relação ao nosso conceito de boémia. Como se os componentes da noite andassem dispersos..."


«Bairros antigos: as antigas comunidades de vizinhos têm sido desfeitas ao longo dos anos». Copiadas do Expresso.


E a Lisboa de amanhã?

A coisa já não está no segredo dos deuses. Grita-se na bicha do autocarro, discute-se durante os almoços rápidos demais, murmura-se dentro dos partidos, canta-se na rádio. Isto vai mal. Mesmo muito mal. Evidentemente que não é só em Lisboa, nem é só em Portugal, o que deveria servir-nos de consolação. Mas não serve. Por outro lado, ainda não conseguimos criar aquela indiferença necessária para suportar estoicamente o facto de o nosso dinheiro cada vez valer menos, de ser mais fácil encontrar uma agulha num palheiro que uma casa, de haver sempre alguém com uma cunha maior que a nossa quando tentamos arranjar emprego, de perdermos o avião porque uma cimenteira teimosa resolveu passar por uma rua demasiado estreita, interrompendo o trânsito durante mais de uma hora. Pequenos contratempos que fazem parte do quotidiano dos lisboetas.
Para já não falar da incógnita que rodeia os abastecimentos à cidade, transformando cada ida ao supermercado num milagre da substituição, o sumo em vez do leite, o mel pela manteiga, a massa quando se pensou em batatas. Como também é reconfortante sentir a segurança com que as pessoas se movem na rua, perfeitamente cientes de que à mínima tentativa de assalto serão imediatamente socorridas por um agente ou, no mínimo, quando este não se encontra por perto, pelos outros transeuntes. Ou ainda observar o frenético vaivém dos reboques da PSP, ávidos de automóveis estacionados nas paragens de autocarros onde estes aliás não param, sem todavia conseguirem evitar os sucessivos discursos para disciplinar o trânsito.
"Tentando ser objectivo — David Mourão Ferreira fala da Lisboa actual pensando na outra, na que conheceu na sua juventude — creio que se tem verificado uma real degradação de Lisboa, sob variadíssimos aspectos e a diferentíssimos níveis, a qual tem a ver com um desenvolvimento, perfeitamente irracional do tecido urbano e das próprias expressões arquitectónicas e também com uma pastosa intensificação do trânsito que acaba por ser paralisante.
"Degradação que tem igualmente a ver com a falta de cuidado que as entidades autárquicas têm manifestado em criar algo de novo no espaço urbano de Lisboa e em conservar o que devia ser conservado. E na chamada conservação do Património — acrescenta — passa-se exactamente o mesmo que se verifica no `conservadorismo' em políticas 'o que tem arruinado os conservadores', disse-o Paul Valéry, `é a má escolha das coisas a conservar'."
Esta degradação, segundo o escritor, está também ligada à falta de uma profunda reforma das mentalidades, acompanhada de uma não menos profunda reforma social:
"António Sérgio chamou várias vezes a atenção para a necessidade de as duas reformas irem de par uma com a outra. E claro que não basta que haja medidas de carácter urbanístico, arquitectónico e social, até cultural no mais vasto sentido. É necessário que isso seja, simultânea ou previamente, acompanhado da reforma das mentalidades e que tal reforma se verifique nos estabelecimentos de ensino, nos lares, nos meios de comunicação, nomeadamente nos meios audiovisuais. E enquanto não houver essa reforma simultânea e de raiz, Lisboa, como todo o resto do território português, a maior ou menor prazo, degradar-se-á irremediavelmente".


«Uma velha "aldeia" à procura de ser a cidade que nunca foi». Foto Rui Ochôa, copiada do Expresso.


Um caso exemplar  

Mas, e enquanto não surge a reforma, existe outro tipo de problemas, mais concretos, que parecem preocupar grandemente os lisboetas. Um deles prende-se com o desenvolvimento físico da cidade, com o seu crescimento desordenado, o que deve ou não ser conservado, onde e como construir:
O Gabinete de Ordenamento Urbano, criado durante o executivo de Aquilino Ribeiro, tinha exactamente como objectivo apoiar a CML a resolver este tipo de problemas.
"Não era propriamente um gabinete de planeamento — diz-nos a arquitecta Luz Valente Pereira que participou no projecto — mas antes um gabinete de apoio técnico ao executivo camarário para a resolução de problemas concretos que fossem surgindo e que o referido executivo nos apresentava. No entanto, teve uma vida curta e difícil, quer pelo desinteresse do próprio executivo que o criou, quer ainda pela dificuldade de acesso à informação viva sobre a cidade, nomeadamente a que estava de posse da própria Câmara. Isto para já não falar da desactualização cartográfica e, de uma maneira geral, da má qualidade e incompatibilidade da informação recolhida sobre a cidade nos diferentes serviços públicos. Conseguimos, no entanto, fazer alguns trabalhos, como o da zona Ribeirinha ou da Ameixoeira; que acabaram por não passar de simples opiniões num papel".
No entanto, outras cidades europeias, nomeadamente Paris, debateram-se com problemas semelhantes ao nosso e, ao que parece, conseguiram encontrar soluções satisfatórias. Também do outro lado do Atlântico, em S. Francisco da Califórnia, cidade que muitos comparam a Lisboa, se conseguiu conter o crescimento caótico da cidade.
"Uma das coisas que mais me interessou ao estudar o planeamento daquela cidade — prossegue Luz Valente Pereira — foi a luta do município para criar meios de conservação da cidade e das suas características, apesar de apostado no desenvolvimento, da existência da propriedade privada do solo e da actuação de interesses especulativos de poderosos promotores. A progressiva, mobilização do interesse da população na defesa da sua cidade, considerada a mais bela `habitável' dos EUA, mobilização essa que o município nunca deixou de promover, tem tido como consequência o apoio à aplicação da legislação municipal para controlo da transformação da cidade pela própria opinião pública. E é curioso verificar que as sentenças proferidas pelos tribunais relativas a pleitos entre promotores e o município de S. Francisco têm sido progressivamente favoráveis a este."
E planear e desenvolver uma cidade não será exactamente isto? Ir de encontro, aos objectivos dos seus habitantes, tornando a cidade agradável a todos de forma a que cada um a sinta como algo de "familiar"?
"Ora nós não sabemos — prossegue Luz Valente Pereira —, concreta e localizadamente, o que os habitantes de cada bairro, de cada rua, consideram de interesse fazer ou não para melhorarem as suas condições de vida. A discussão sobre ‘que cidade é e que cidade deveria ser Lisboa’ não está feita, não se debate publicamente a cidade que somos, o nosso futuro, e daí que nos sintamos todos, técnicos e não técnicos, muito desamparados para ter uma opinião consistente sobre a cidade, para além dos aspectos estruturais e dos grandes princípios organizativos e de conservação da sua imagem.
"E dramática a renovação que se processa na mira de lucros imediatos para alguns, escavacando, lote a lote, edifícios de óptima construção e substituindo-os por outros de qualidade muitas vezes inferior, cada qual de seu feitio. E, além deste aspecto, o facto de os anteriores habitantes serem muitas vezes obrigados a irem viver para zonas periféricas cada vez mais longínquas, desfazendo-se, assim, comunidades de vizinhança existentes para, no seu lugar, surgirem vastas zonas de serviços que vão sucessivamente estrangulando a cidade".
Lisboa, uma cidade cada vez mais caótica, que, como David Mourão Ferreira diz, perdeu o seu carácter de "aldeia, de aldeia grande, à medida do homem" para se transformar num conjunto de várias aldeias à procura da cidade que nunca foi, que ainda não é, que não sabemos se jamais será.


Texto de Margarida Bom de  Sousa
Títulos, legendas e fotos copiados do
Expresso,  Sábado, 27 Agosto 1983






terça-feira, 1 de maio de 2012

Memórias dos Cabos Ávila

Dedicado a 
Manuel Grave e Aurélio Grave
e a todos os que passaram por lá.


A recta dos Cabos Ávila em 1961. Arnaldo Madureira. Foto do Arquivo Fotográfico da CML.


Tinha 14 anos quando entrei para a fábrica dos Cabos Ávila. Tinha sido despedido de uma loja de tecidos na rua da Prata (a Pereira, Gonçalves e Xavier) por responder a um dos patrões e como se calhar já andava a dar problemas em casa, o meu pai tratou de arranjar maneira de eu ir para os Cabos Ávila para me ter sob controle. Trabalhei lá durante dois anos e meio até ser despedido por responder (que chatice) torto ao chefe dos guardas; Quando tocava a sirene a anunciar  o fim do dia de trabalho, os operários tinham 15 minutos para saírem da fábrica, Um dia resolvi tomar banho porque estava mais sujo do que o habitual e demorei uma meia hora e o chefe dos guardas desatou aos gritos comigo eu respondi com toda a delicadeza «vá gritar com a puta que o pariu» ou outra coisa do género e tratei de fugir rapidamente e esqueci o assunto e passados um mês ou dois ouvi  nos altifalantes «o operário numero tal é favor dirigir-se á secção de pessoal», quando lá cheguei disseram-me «pode ir vestir-se, está despedido». Tive alguma satisfação anos depois, quando o meu pai me disse que esse chefe dos guardas foi o primeiro a ser saneado a seguir ao 25 de Abril, era informador da PIDE. 

O meu tio Aurélio e o seu irmão Manuel (meu pai) já reformados e "livres" das 
máquinas infernais dos Cabos Ávila, onde passaram metade das suas vidas.


Eu com 15 anos em 1969, nesta altura
trabalhava nos Cabos Ávila. Aqui estou
com o meu sobrinho Paulo ao colo.
Tenho algumas memórias dos Cabos Ávila que duraram todos estes anos porque de certeza que têm a ver com o facto do meu pai contar em casa muitas coisas do que lá se passava. O meu pai, Manuel Fernandes Grave era Trefilador nos Cabos Ávila e trabalhou lá metade da sua vida (cerca de 40 anos) e recordo que o local da Trefilagem era á esquerda de quem entrava na nave principal. Sei que já velhote chegou a ser da comissão de trabalhadores e que teve um processo contra a administração dos Cabos Ávila, anos e anos nos tribunais e que acabou por ganhar. Lá também trabalhava o meu Tio Aurélio, irmão do meu pai e sei que trabalhavam por turnos que mudavam semanalmente (não tenho a certeza se era á semana ou quinzenalmente); era uma vida muito dura, aguentavam aquele ritmo á custa de muitos litros de vinho e tenho a certeza que com a grande maioria dos outros operários acontecia o mesmo. O meu tio Aurélio era mais implicado politicamente que o meu pai (penso que já naquele tempo era militante do PCP). O meu pai nunca foi militante mas tinha muitas simpatias, lembro-me de discussões da minha mãe com o meu pai por causa de ele querer ouvir a rádio Moscovo, nessa altura ninguém podia fazer barulho em casa já que o meu pai, Manuel Fernandes ouvia a rádio muito baixinho por causa de quem pudesse ouvir, já que na quinta da calçada ouvia-se tudo de umas casa para as outras. 

Noticias no jornal A Capital no ano de 1968, referentes á fábrica dos Cabos Ávila: A instalação de uma máquina gigante e uma festa de natal; tenho vagas memórias, da máquina recordo que ficou instalada na nave 2 e da festa de natal creio que foi no Cinema Lido da Amadora. Estas festas faziam parte da politica do estado salazarista, quase todas as grandes empresas faziam estas festas.


Nos Cabos Ávila assisti á primeira greve da minha vida (só tive consciência disso, anos mais tarde) e recordo perfeitamente essa paragem que não sei se durou mais que um dia; os operários parados ao lado das máquinas e do silencio geral. Recordo-me de o meu chefe me mandar fazer recados a várias partes da fábrica com recados absurdos do género «quantos parafusos havia de determinado tamanho» ou «quantas ferramentas havia em determinada secção» se «faltavam ferramentas», só muitos anos depois tive consciência de que me utilizavam (a mim e a outros) para saber os números da adesão á greve.  Recordo das andanças pela fábrica de um monte de homens de gabardina e estranhos à fábrica  (devia ser a PIDE) juntos com o chefe do pessoal e outros chefes de bata branca que eram os engenheiros (na altura chamavam-se: agentes técnicos?); não me recordo se estava lá o patrão mais odiado (Manuel de Ávila) que aliás só vi uma vez em dois anos e meio. Geralmente o meu pai referia-se ao Manuel Ávila como "Esse Bandido" e do outro patrão Jorge Ávila nunca o ouvi dizer nenhuma "bojarda", nem do pai deles Diogo Ávila, presumo que fossem, umas pessoas mais cordatas no trato com os operários. Deixo a seguir umas palavras de uma operária referente a essa greve, que trabalhou nos Cabos Ávila mais de 30 anos:

«Recordo-me que houve, em 1969, uma greve de três dias por aumentos. A empresa tinha muito mais mulheres que homens. Encheram a fábrica de pides, armados, para nos intimidar. Ao segundo dia, deram os aumentos às mulheres, pensando que assim acabavam com a greve. Mas a greve manteve-se, até haver aumentos também para os homens e até voltarem para a fábrica os trabalhadores que tinham sido postos na rua durante a luta. Nessas lutas houve despedimentos, houve comunistas e outros trabalhadores que foram presos, passámos muitos sacrifícios, mas resistimos.» 
(Rosa Faria, operária fabril, in, jornal Avante, Nº 1284 - 9.Julho.98)


Levantava-me muito cedo talvez seis e meia da manhã, tomava o pequeno almoço e apanhava o autocarro 50, que fazia a carreira Poço do Bispo até Algés, por volta das sete horas na segunda circular. Naquele tempo (1968/70), o 50 chegava de meia em meia hora (quando chegava) e ia pela segunda circular virava para Benfica ia até á estação de comboios, passava por baixo da linha férrea e ia até Pina Manique depois subia até aos Montes Claros no cimo do Monsanto, descia para a Estrada de Queluz e virava á esquerda para Algés. Aí era onde eu descia e ia a pé até á fábrica dos Cabos Ávila. Muitas vezes os atrasos do 50, faziam com que a carreira terminasse em Pina Manique e então tinha de ir a pé pelo Bairro da Boavista e atravessava as barracas do lado direito da estrada da Circunvalação e apanhava uma azinhaga ou estrada velha que ia dar á  Estrada Nacional 117 e á parte de cima da fábrica Cabos Ávila. No inverno era uma odisseia ir por esse caminho de terra porque desde grandes poças de águas a lama por todos os sítios era impossível chegarmos limpos á fábrica. Mas era o que fazíamos (havia muita gente do Bairro da Boavista que trabalha na fábrica) para não termos de dar uma grande volta; percorrer a estrada da Circunvalação passando a curva do parque de campismo até chegarmos ao cruzamento e subirmos até aos cabos Ávila passando pelos Laboratórios Azevedo.

Laboratórios, Torre e Escritórios. Maqueta do Arquitecto Edmundo Tavares 
e camião de transporte, parado perto dos laboratórios e torre dos Cabos Ávila. 
Fotos sem data, de IPPAR, e inoxnet.com.


Comecei a trabalhar na serralharia (como aprendiz), que era um barracão de madeira e onde fazia um frio dos diabos no inverno, tínhamos de fazer uma fogueira dentro de um bidão do óleo dos grandes para ficarmos com brasas para nos aquecer. Tenho uma cicatriz desses tempos e várias recordações daqueles 2 anos e meio que trabalhei nos Cabos Ávila (entre 1968 e 1970): Lembro-me da construção da Nave 2, porque alguns dos trabalhos foram feitos pela serralharia da fábrica, lembro dos vestiários com cacifos para cada operário (?), de lavatórios gigantes, como se fossem uns alguidares em metal para 6 a 8 pessoas (posso estar a inventar um pouco), dos chuveiros e de que havia água quente, uma coisa do outro mundo para quem só tomava um banho quente uma vez por semana. Havia uma biblioteca onde li muitos clássicos, que se podia levar para casa, havia um grupo desportivo, uma enfermaria com médico que creio era permanente; lembro-me da zona das oficinas por detrás da torre, onde havia uma rua que passava por baixo do edifício dos laboratórios ao lado da torre, da chaminé que ficava perto da carpintaria. 

Noticia no jornal A Capital em 1970, referente a um incêndio na zona da carpintaria. Disto não 
tenho qualquer memória e devia ter porque ainda lá trabalhava. Talvez estivesse doente nesta altura.


A nave principal era uma coisa gigante (para um miúdo) cheia de máquinas e com um barulho infernal, ainda agora parece que estou a ver o meu tio Aurélio a trabalhar junto de uma máquina no centro da nave. Do que não me recordo é de quanto ganhava mas devia ser uma miséria porque era uma miséria o que pagavam a homens e mulheres com filhos. Sei que comecei por receber á quinzena mas depois passou a mensal e quando o dia de pagamento calhava ás sextas feiras o Ávila só pagava na segunda feira seguinte dizia-se que era para ficar a ganhar juros nos bancos. Desta parte nunca me esqueci. A entrada para trabalhar era ás 8 da manhã e quem se atrasasse 5 minutos só entrava meia hora depois e era descontado no ordenado. A saída era, se bem me lembro ás 17,30h e tinha que se carregar num botão que dava verde ou vermelho, se desse vermelho éramos revistados tantos homens como mulheres.

Eram assim os Cabos Ávila por volta de 1970, trabalho "escolar" feito por mim, a partir das memórias desse tempo. É possível que tenha alguns erros mas nada de significativo. A recta dos Cabos Ávila não era tão larga, isto foi feito a partir de uma foto aérea do Google Earth de 2011.


Estas memórias estão muito misturadas já não sei onde começou uma e acabou outra; como já disse, comecei com aprendiz de serralheiro mas como tinha já alguma experiência, porque tinha trabalhado na Ferraria Franco no Campo Grande quase dois anos em 1965/66, rapidamente passei para ajudante do serralheiro mecânico principal da fábrica, que creio, se chamava Joaquim e acho que morava na Damaia. Assim deixei o barracão e passei a ajudar na reparação das máquinas e a trabalhar principalmente nas grandes naves 1 e 2 onde estavam quase todas as máquinas, este trabalho era muito melhor do que na serralharia, menos duro, menos sujo e só tinha um chefe e oficial a quem obedecer. Recordo a montagem de uma máquina gigante na nave 2 (ver a noticia de A Capital) que creio, era para fazer os cabos submarinos e de um acidente que não presenciei; De um operário que ficou sem os dois braços nos rolos metálicos das máquinas que amassavam o plástico para revistir os cabos, mas o meu chefe não me deixou ir ver. 


Estas fotos estavam lá para casa nas coisas de meu pai. Creio que se referem ao famoso "Um dia de trabalho para a Nação".  Isto ocorreu em 06 de outubro de 1974 e nas fotos estão o ministro do trabalho Costa Martins, a cumprimentar o Manuel Ávila que parece estar a dar-lhe a receita desse domingo. As fotos devem de ser de uma data posterior (pouco) e talvez se tenha organizado uma cerimónia. O que posso dizer é que o meu pai que está em todas as fotos não está nada satisfeito, assim como a maioria dos operários que assistem. E parece haver também algum incómodo na cara do ministro face ao ar satisfeito "desse bandido" Manuel Ávila, como dizia o meu pai.

«"Um dia de trabalho para a Nação" proposto pelo Primeiro Ministro Vasco Gonçalves. Um domingo é transformado em dia útil de trabalho oferecido gratuitamente pelos trabalhadores ao país. A adesão é significativa e o resultado financeiro desta campanha será dias mais tarde estimado pelas entidades oficiais competentes em cerca de 13000 contos.» (In, www1.ci.uc.pt)

Edifício dos Laboratórios e Torre dos Cabos Ávila, na foto da direita, vê-se mais em pormenor 
o que ficou de toda a fábrica. É considerado património industrial sem protecção?. Foto do IPPAR.


A Fábrica de Cabos Eléctricos Diogo d’Ávila instalou-se por volta de 1952, numa área industrial da Amadora, Alfragide. A sua implantação, nesta zona, foi estratégica de modo a tirar partido das vias de comunicação que a ligavam a Lisboa. O seu projecto arquitectónico é da autoria do arquitecto Edmundo Tavares, destacando-se de todo o edifício, de características marcadamente industriais, a torre do relógio, cuja função era suspender os cabos eléctricos, para a sua experimentação. Cessou a sua laboração em 1997, ficando o edifício devoluto, desde então, tendo sido parcialmente demolido em 2004. Neste momento para além de parte do edifício principal, também se mantém ainda erguida uma chaminé com cerca de 30 metros de altura.
(In, www.geocaching.com)


Recordo que foi aqui que comecei a aprender truques para quando fosse preciso ir para o médico e descansar uns dias em casa (mas esses não vos conto) com os outros ajudantes e aprendizes que eram tudo putos do Bairro da Boavista e do Bairro de Santas Martas em Algés, havia na altura bastantes putos a começarem a vida de trabalho. Foi nos Cabos Ávila que foi feita a minha primeira inscrição na segurança social e há uns meses fui verificar os meus descontos e constatei que a inscrição fora feita mas parece que o dinheiro dos descontos não chegou a sair dos cofres dos Ávila. E com todas estas memórias não vos cheguei a falar da Srª Teresa Ávila (de quem o meu pai me contou imensas coisas) que veio substituir o seu pai Manuel Ávila á frente da administração dos Cabos Ávila e que se revelou uma santa. É tão santa que só lhe desejo que vá para Serpa quando estiver 45 graus como preparação para o Inferno (escrevi isto antes de ver as fotos dela vestida de freira).

1978 - Lutas e negócios nos Cabos Ávila.

1981, Policias Paralelas - Noticia sobre a utilização de "comandos" nos Cabos Ávila como seguranças  
para intimidação dos trabalhadores. E duas fotos encontradas na net sobre o que resta dos Cabos Ávila.

2004, Cabo dos Trabalhos. Artigo da Visão. "Entre guerras de família, a administração 
da Cabos Ávila está a negociar a venda da maioria da empresa a investidores franceses".


1998 - Aspecto da concentração de trabalhadores da Cabos Ávila no refeitório da empresa por ocasião da passagem 
do 1º aniversário da entrada da fabrica em situação económica difícil. Foto António Cotrim, Lusa encontrada na net.

1997 - Excerto de uma reportagem sobre mulheres empresárias em que a própria Teresa Ávila diz que o pai Manuel Ávila «...havia assinado um documento que me proibia assumir a gestão de pessoal da empresa...». O que curioso é que nesta reportagem havia várias mulheres a serem entrevistadas e com fotos excepto Teresa Ávila. Eu já tinha feito uma busca exaustiva para arranjar uma foto de Teresa Ávila e não tinha conseguido nada. Foi então que lendo um "Avante" antigo que referia uma luta dos trabalhadores dos Cabos Ávila, e onde se falava numa reportagem do jornal Tal & Qual (de que falo adiante) e de onde fiz esta ampliação desta foto de Teresa Ávila com o pai Manuel Ávila. Duas prendas que ficam em foto para memórias futuras.


1997/1998 - Noticias sobre as Lutas nos Cabos Ávila


A responsável pela gerência da empresa Cabos Ávila, cujos trabalhadores estão desde final de Novembro em luta pelo pagamento de salários e pela garantia de viabilização da empresa, mandou anteontem encerrar os portões da fábrica.
Os trabalhadores decidiram paralisar desde 28 de Novembro, por não terem sido pagos os ordenados desse mês e parte do mês de Outubro. Desde essa sexta-feira a gerência não voltou a comparecer na empresa, fazendo Teresa de Ávila a ligação às hierarquias apenas por telefone, a partir do escritório da sua empresa Cablexport (também de cabos eléctricos, mas onde não se verifica a participação de outros herdeiros, como na Cabos Ávila).
A insistência de Teresa de Ávila em ocupar a cadeira da administração é o principal impedimento a que a empresa retome a laboração e comece a cumprir os seus compromissos para com os trabalhadores, os fornecedores e o Estado, que é o principal credor da fábrica de cabos eléctricos.
(...) nas instalações de Alfragide mantinha-se a situação que tem sido tratada como braço-de-ferro entre aquela gerente e os trabalhadores dos Cabos Ávila, que ainda não receberam os salários de Novembro e Dezembro e o subsídio de Natal, bem como retroactivos de Janeiro, Fevereiro e Março do ano passado. Alguns também não receberam parte do subsídio de férias e do salário de Outubro. O valor médio da dívida é estimado em 350 contos por trabalhador.
Apesar de desautorizada pela demissão da gerente principal, Ana de Ávila, e pela oposição dos restantes familiares-herdeiros, Teresa de Ávila continuava barricada nas salas da administração. Os trabalhadores, em horário normal e em piquete durante a noite, também não estão dispostos a abandonar a fábrica. Nas instalações mantém-se igualmente um elevado número de homens do Corpo de Intervenção da PSP. 
(In, «Avante!» Nº 1254 - 11.Dezembro.97)


O Natal das bandeiras negras


Noutras ocasiões os trabalhadores dos Cabos Ávila foram forçados a recorrer a formas de luta, para exigirem o respeito pelos seus legítimos direitos e para garantirem o futuro da empresa e dos postos de trabalho. Desta vez, com uma pronta intervenção do Governo, poderia ter-se evitado que este fosse o Natal mais amargo dos que trabalham nos Cabos Ávila.
(...) A preocupação marcou o mês de Dezembro e ensombrou o Natal dos trabalhadores, situação denunciada com faixas e bandeiras negras a quem passava na «recta dos Cabos Ávila» naqueles dias.
No início do novo ano foi retomada a luta dos trabalhadores, que a 6 de Janeiro se deslocaram à residência do primeiro-ministro, para novamente reclamar do Governo uma intervenção que pusesse cobro aos desmandos de Teresa de Ávila. Na manhã seguinte, os primeiros operários a chegar aos portões da fábrica impediram a saída de uma viatura carregada por um grupo a mando da auto-administradora. Mais tarde, quando também os familiares de Teresa de Ávila foram por ela impedidos de entrar nas instalações, os trabalhadores forçaram a passagem e foram com aqueles até junto da misteriosa carga... que, como logo se descobriu, estava pronta para sair em tais condições que os herdeiros avançaram com uma participação por furto. 
(In, «Avante!» Nº 1259 - 15.Janeiro.98 )

A Fábrica dos Cabos Ávila em 2009. Foto de ruinarte.blogspot.pt


"Manuel d'Ávila deixou marcas na história da empresa, pela frieza com que despedia, pelos baixos salários que sempre fez pagar e pelo recrutamento de mulheres porque lhes podia pagar ainda menos que aos homens. Rosa Faria (delegada sindical e membro da Comissão de Trabalhadores, operária fabril há 30 anos no Ávila) e Aida Catarino (delegada sindical, há 35 anos na empresa, empregada de escritório), ao recordarem esse passado, lembram também que, não por acaso, as primeiras reivindicações após o 25 de Abril foram de aumentos salariais e de acabar com os despedimentos à maneira de Manuel d'Ávila.
(...) Teresa é uma das filhas deste patrão, cuja biografia os nossos entrevistados remetem para notícias já publicadas (designadamente no «Tal e Qual», no início deste ano, 1998). Lembram, contudo, que teve uma tempestuosa passagem pela empresa, como administradora social. Recusou-se a negociar o acordo de empresa, mesmo depois de uma greve de 14 dias, e mais tarde mandou colocar 50 trabalhadores na «sala amarela», mantendo-os desocupados durante um ano, e passou toda a gente para o regime de turno fixo. Também tem no seu palmarés o fim da creche que funcionava na fábrica. Chegou a despedir a própria irmã, ao saber que esta engravidara.
(...) a entrada de Teresa d'Ávila na fábrica foi feita numa altura de reestruturação e acompanhada da admissão, para cargos de chefia, de uma série de oficiais dos comandos, que «pisavam tudo e todos» para fazerem valer as suas razões. «Os trabalhadores encolheram-se um bocado, e começou aí o declínio dos Cabos d'Ávila», lamenta, recordando que naquela altura os processos de despedimento surgiam diariamente, «até no meio judicial se comentava».
Teresa Ávila, foi suspensa das suas funções na sequência de uma decisão do tribunal, que considerou procedente uma providência cautelar interposta por uma tia gerente. 
Uma suspensão face à qual tentou introduzir na empresa pessoas da sua confiança, para assegurar o seu poder, o que os trabalhadores decidiram impedir, mantendo-se nas instalações. 
(In, «Avante!» Nº 1267 - 12.Março.1998)

UMA FREIRA DOS DIABOS, 19 Janeiro 1998. Aqui está o "célebre" trabalho jornalistico do «Tal e Qual», onde vem duas fotos de Teresa de Ávila vestida de freira (isto parece um filme). Quando eu vi a referencia a esta noticia num jornal Avante antigo, tratei logo de encomendar á Hemeroteca a fotocópia e ei-la aqui; para ficar na história da fábrica dos Cabos Ávila.

2008 - Noticia sobre o lançamento de um livro que denunciava as empresas que entravam com dinheiro para a PIDE, como dizia o outro isto anda tudo ligado; empresas,freiras, pides e etc.

Os negócios que se preparam ?



Fotos de um projecto para a zona da Fábrica dos Cabos Ávila. Não consegui 
saber mais informações sobre este projecto. Ponto final sobre os Cabos Ávila. 
Fonte imagens: www.skyscrapercity.com.