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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Gjon Mili - Fotógrafo da LIFE


Woman's eye.  NY. 1945.


Gjon Mili, nascido em 1904 na Albânia, chegou aos Estados Unidos em 1923 e, sete anos mais tarde, através do seu trabalho com Harold Eugene Edgerton do MIT, fazia já várias experiências fotográficas na captura de sequências de acções através da utilização de um flash para imobilizar a cena. Foi dos primeiros a utilizar um flash electrónico e luz estroboscópica na criação de imagens que iam para além da mera utilidade científica. Até à sua morte, em 1984, foi fotógrafo da revista LIFE, onde as diversas reportagens o levaram a fotografar inúmeras personalidades. Em 45 anos de profissão, viajou por lugares do mundo inteiro retratando celebridades, artistas, desportos, shows, arte e arquitetura. 
(In, obviousmag.org e foto.espm.br)


Gjon Mili no seu estúdio em Nova York. 1983. 

 Salvador Dali e Gjon Mili no estúdio deste. 1952.

O pintor Raoul Dufy, em cadeira de rodas, olhando os cenários 
desenhados por ele para a produção da Broadway, "Cherie". NY. 1951.

Peter Lorre. 1944 e Ionesco. 1971.

Martha Graham. 1941?

Exposição múltipla de Alfred Hitchcock, durante as filmagens de "Shadow of a Doubt". 1942.

Henri Matisse pintando em sua casa em Nice. 1949

Edith Piaf. Paris, França. 1946

Vladimir Horowitz ao piano no seu apartamento em Nova York. NY. 1965.

Pablo Casals. França. 1966. 

Pablo Picasso. França. 1949.

 Igor Stravinsky. UK. 1957.

William Holden, na Dinamarca, durante as filmagens de O Falso Traidor 
(The Counterfeit Traitor, 1962) de George Seaton. Copenhaga. 1962.



Fotos da LIFE. Musica de Philip Glass - Methamorphosis pt. 2.
Carregado em 29/03/2010 por snakeBISHOP.




(Todas as fotos são de Gjon Mili e LIFE Archive)


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Federico e os outros


Federico García Lorca. Granada. 1919 e, Lorca junto a um vendedor de jornais. Cuba. 1930. 
Fotos de www.huertadesanvicente.com

por
Francisco Belard
Expresso, 28 Junho 1986
Coisas boas em jornais


Los cuatro muleros de Federico Garcia Lorca, versão cantada por Estrella Morente.


Pela sua morte trágica, «em consequência de feridas causadas por facto de guerra», Federico Garcia Lorca é sempre um dos lembrados, enquanto outros escritores são esquecidos. Mas Lorca, como Unamuno — morto também em 1936 — é um símbolo do drama das «duas Espanhas»

Federico García Lorca por Luís Buñuel, 1925.
Foto de carmenferreiroesteban.wordpress.com
O OUTONO em Nova Iorque é talvez a época mais bonita do ano, como em toda a parte».  Em Setembro de 1929, Federico Garcia Lorca mora num quarto da residência universitária John Jay. Da janela vê os edifícios da Universidade de Columbia, «o rio Hudson e um longínquo panorama de arranha-céus brancos e rosados» — escreve aos pais. «O céu é magnífico e a temperatura admirável». Satisfação idêntica transparece noutras cartas desse tempo norte-americano. Mas na que citamos há também esta frase sobre Espanha: «É  o único país forte e vivo que resta no mundo».
   É preferível lembrar Garcia Lorca nessa época feliz. Mas sempre que se fala deste poeta há uma outra data que domina: 19 de Agosto de 1936. E outro lugar: Granada. Lorca é assassinado, mas o horror ainda mal começou; a Espanha de 1936 e dos intermináveis anos seguintes é o regresso trágico e o mais feroz dos grandes cemitérios debaixo da lua. Para além dela, os sinos irão dobrar por toda a Europa. «Ninguém dorme no mundo» (cito a trad. de José Bento), mas não pelos motivos que poucos anos antes era possível imaginar na ponte de Brooklyn. Ou talvez, no fundo, no Poeta en Nueva York, com o seu poder de pressentir «as falsas taças», o sangue, as lágrimas e o veneno (longe do tom idílico das cartas), estivesse já o adivinho que costuma existir no seu ofício. Lorca sabe que  «a vida não  é sonho», tal como três séculos antes, em 1635, Pedro Calderón de la Barca sabia que  «a vida é sonho». Têm ambos razão, mesmo que a tragicomédia tenha de decompor-se em tragédia e em farsa.

García Lorca e Luis Buñuel nas Festas de Santo Antonio de la Florida. Madrid. 1923. 
Foto de news.bbc.co.uk


«Facto de guerra»

   Se percorrermos os nomes que por volta de 1930 formam, no dizer de Octavio Paz,  «o grupo de poetas mais rico e singular da Espanha desde o século XVII: Jorge Guillén, Federico Garcia Lorca, Rafael Alberti, Luís Cernuda, Aleixandre...», torna-se difícil não pensar que a fama desigual por eles adquirida foi alheia a factos que nada acrescentam nem retiram aos respecticos génios poéticos (em Portugal, onde esse «grupo», divulgado em 1930 pela antologia de Gerardo Diego, está hoje ainda tão pouco editado, a disparidade da fortuna é particularmente óbvia). Na entre nós tardia difusão de Vicente Aleixandre pesou a atribuição do Nobel. No caso de Garcia Lorca valeu universalmente a morte «em consequência de feridas produzidas por facto de guerra» — como se lê numa certidão de óbito passada em 1940 em Granada, lugar do crime.
   Granada estava separada da zona republicana. Num livro sobre a repressão nacionalista em Granada e a morte de Lorca, Ian Gibson nota que as primeiras notícias do assassínio foram dadas pela Imprensa republicana. Somente passados dias ou semanas os jornais da zona rebelde começaram a noticiar o caso, imputando-o aos «marxistas». A 10-9-36, o jornal de Huelva usou a seguinte linguagem: «Para escapar à fúria vermelha o autor do Romanceiro Gitano não ganhou nada em ser 'correligionário' de Azana em política, em literatura, e em... como dizê-lo? — em sexualidade vacilante».  No dia 14 de Outubro, o diário republicano «El Sol» divulgava o telegrama enviado por H. G. Wells, presidente do Pen Club de Londres, ao coronel governador de Granada, e a resposta lacónica deste: «Ignoro lugar hállase D. Federico Garcia Lorca».

Federico e sua irmã Isabel Garcia Lorca, Granada. 1914 
e, com seu irmão Francisco Garcia Lorca. Granada. 1918. 
Fotos de www.huertadesanvicente.com


«Viva  la muerte»

Unamuno lendo uma obra teatral a um
 grupo de actores. Copiado do Expresso.
   Numa história da guerra civil espanhola em publicação por «El País», escreve Juan Marichal: «Todo o exílio revela sempre a densidade cultural de um país (...) a de Espanha em 1936 era a mais alta de toda a sua história». Mas não foi apenas o exílio, estrangeiro ou «interno», que cortou brutalmente a cultura liberal em Espanha. Houve casos em que coube à morte física assinalar o final de um mundo. A par da de Lorca, uma outra morte pode servir de símbolo às batalhas perdidas pelo pensamento dos que mais tarde perderiam a própria guerra: a de Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, catedrático de Grego e escritor de livros como  O sentimento trágico da vida nos homens e nos povos. O  fim amargurado de Unamuno foi precedido por um incidente que ficou célebre e ganhou um carácter emblemático. Na abertura do ano lectivo de 1936-37, Unamuno (que semanas antes fizera, numa entrevista, referência favorável à sublevação militar como defensora «da civilização ocidental»)  clamou contra os rebeldes «nacionais». «Vencereis, mas não convencereis». Milián Astray,  general  mutilado — outro símbolo — das guerras norte-africanas, replicou-lhe: «Morra a inteligência!» E terá acrescentado um «viva a morte»  que deu brado.

As duas Espanhas

   No «único país forte e vivo», então, só a morte parece sobreviver. Por entre atrocidades de ambos os lados, ela é um instrumento sinistramente igualitário.  «E como iguala a morte/os vermelhos e os azuis!» — escreve o nacionalista José Maria Pemán. Em tudo o mais, a Espanha está dilacerada; há «duas Espanhas» (como  no conhecido verso de António Machado) e raros acreditam já numa terceira. Quem, nessa altura, tivesse profetizado uma Espanha como a de 1986 seria considerado louco ou visionário. Da «consciência democrática autenticamente liberal» que Unamuno desejara, do «liberalismo e modernidade»  a que Ortega y Gasset aspirara, restavam escombros. Exilado nos EUA depois da guerra, Américo Castro perguntará:  «Como e porquê chegou a ser tão dura e tão áspera a convivência entre espanhóis? Qual o motivo por que se tornou endémica entre nós a necessidade de expulsar do país ou de exterminar quem divergia do que os mais poderosos criam e queriam?»

Benjamin Jarnes, Humberto Perez Ossa, Luis Buñuel, Rafael Barradas e Federico García Lorca. 
Madrid?, 1927. e Lorca «com duas crianças americanas na época de "Poeta  em Nova  Iorque"».
 Foto (esq.) de 50watts.tumblr.com  e a outra foi copiada do Expresso.


   As duas Espanhas matam-se na «arena ibérica». Bernard Shaw, num cartão enviado a Marichal, diz:  «O que sei da Espanha e da guerra civil, sei-o pelo meu amigo Salvador de Madariaga, que me contava que tanto os fascistas como os vermelhos eram uns bandidos».  Depois de 1936, a Espanha é um campo de extermínio. Seria a guerra civil uma fatalidade nacional, a expressão trágica de um «carácter espanhol» que desde o século XVI  trazia a violência e a intolerância inscritas no seu código genético?  Não entraremos na longa discussão — em que um dos eixos é a polémica entre Américo Castro e Claudio Sanchez Albornoz — sobre a essência do «espanhol», a «identidade» ou sequer a «dualidade» espanhola. Em boa parte, como nota Juan Marichal, a guerra era  «a manifestação em Espanha da tragédia europeia».  Era corno se o conflito interno fosse o preço, póstumo e antecipado, de não participar nas duas guerras mundiais.

«Miguel de Unamuno, recorriendo el claustro de su querida Universidad de Salamanca» 1936? 
Foto encontrada em www.almargen.com.ar


   Uma visão do drama intelectual desse período poderia ser dada a partir das revistas. Entre outras, Cruz y Raya, de José Bergamín (católico favorável à República), Hora de Espana (onde, na Valência de 1937,  escrevem António Machado, Bergamín, Maria Zambrano e Gil-Albert) e Escorial, onde intelectuais do lado franquista (como Ridruejo e Laín Entralgo) procuram cicatrizar feridas e restabelecer — com o apoio de nomes como Menendez Pidal, que entretanto regressara ao país — a comunicação entre as duas Espanhas. Mas é também o tempo do exílio, que em muitos casos torna o caminho do México ou da Argentina. Podemos generalizar aquilo que José Bento diz sobre os poetas do grupo de 1927: «A Guerra Civil destroçou o grupo. O assassínio de Lorca ficou a simbolizar o golpe que a guerra vibrou nesse conjunto admirável».
   Nos campos desolados pela chacina, só resta ver a Espanha do lado de fora — por estrangeiros que nela situam os seus escritos de combate (seja este a guerra, o amor ou a tauromaquia...) ou nela imobilizam o olhar para o instante da morte (como na fotografia de Robert Capa que tantas vezes foi o ícone de um episódio sangrento), mas também por espanhóis exilados, como José Ferrater Mora. Para este pensador, já não se trata de recomeçar tudo, de retomar a busca da «terceira Espanha» com a função de medianeira entre os irmãos inimigos, mas sim de permitir que haja muitas Espanhas e de ultrapassar a menoridade culpada, a tortura de supor que um país é intrinsecamente cruel. Ferrater recorda, por outras palavras, que um país  como  a Suécia — o mais bem comportado deste século — teve, no passado, lutas internas sanguinárias.

 Federico García Lorca. Sem data. 
Foto encontrada em www.orartswatch.org


Tirar o luto

   Talvez agora possamos tirar o luto e imaginar Federico feliz, no tempo em que ainda não se sabe como se vai morrer, ou até que se vai morrer, em Nova Iorque ou em Granada: «en abril de mi infancia yo cantaba». Embora saibamos, como Aleixandre, que a sua atitude profunda, «como a de todo o grande poeta, não era a da alegria». Embora saibamos que Jorge Guillén se enganou ao dizer ao pai do poeta:  «Em caso de revolta, se houver um só espanhol que se salve, será Federico». Embora, ainda, saibamos que outros poetas, como Larrea ou Cernuda, mereciam ser lidos entre nós. E que outros centenários ou cinquentenários, como o de Castelao, o de Valle Inclán e o de Unamuno (deste, vejam-se os escritos sobre Portugal, no excelente estudo e recolha que em 1985 publicou Angel Marcos de Dios, ed. Gulbenkian, Paris; e esperemos a edição da sua correspondência com Pascoaes, na Assírio e Alvim), se propõem este ano à atenção pública. Lorca, em Portugal, teve a felicidade póstuma de magníficas traduções por Eugenio de Andrade. Essa felicidade, que é a da escrita, ninguém pode tirar-lha. Em vida, como disse Guillén, parecia que nenhum obstáculo poderia detê-lo: «Apenas tinha de lutar contra as dificuldades que toda a escrita tem». Em poesia fez esta «despedida»:  «Si  muero, dejad el balcón abierto».


Francisco Belard
Texto e títulos em
Expresso, 28 Junho 1986



García Lorca e Salvador Dali. 1925. Cadaqués, Catalunha 
e, Lorca com Pedro Salinas e Rafael Alberti. Madrid. 1927
Fotos de www.huertadesanvicente.com


Aurora de Nueva York, poema de Garcia Lorca. Impressionado pelo contacto com Nova York em 1929-30. Aqui é cantado por Chico Buarque e Raimundo Fagner no CD (1986) de homenagem a Lorca "Poetas en Nueva York", em que participam, interpretando os seus poemas, entre outros; Patxi Andion, Paco e Pepe De Lucía, Lluis Llach, Leonard Cohen, Víctor Manuel, George Moustaki e Mikis Theodorakis.


“Canto a España y la siento hasta la médula, pero antes que esto soy hombre del mundo y hermano de todos. Desde luego no creo en la frontera política.”
Federico García Lorca




domingo, 23 de dezembro de 2012

LUIS BUÑUEL SURREALISTA E SANTO

 por

Mário Cesariny

Jornal A Capital 22 Abril 1970

Luis Buñuel, carregando a cruz durante a rodagem do filme A Via Láctea. 1970.
Foto encontrada em www.dga.org


«Detesto o pedantismo e o jargão. Já me aconteceu rir até às lágrimas ao ler alguns artigos dos Cahiers du Cinéma. Na Cidade do México, tendo sido nomeado presidente honorário do Centro de Capitacion Cinematográfica pela Escola Superior de Cinema, um dia fui convidado a visitar as suas instalações. Apresentam-me quatro ou cinco professores. Um deles é um jovem bem vestido, corando de timidez. Pergunto-lhe que disciplina ensina. Ele responde: " A semiologia da imagem clónica." Apeteceu-me assassiná-lo.» Luis Buñuel em O Meu Último Suspiro.

Coisas boas em jornais

     Há muitos anos já foi-me perguntado, passavam uma cópia ultradeficiente, não haveria outra, de Las Hurdes — Tierra Sin Pan, de Buñuel, se achava este filme mais ou menos surrealista do que Un  Chien Andalou, fita cujo guião teve, como é sabido, a colaboração de Salvador Dali. Pela maneira como perguntava (José Ernesto de Sousa) ouvi que era a uma escolha que se incitava, que era para se escolher entre o que todo o mundo admitia como um clássico surrealista (Un Chien Andalou) e um clássico também «ista» mas talvez não surreal, considerada, embora com alguma dificuldade, a qualidade documental de Las Hurdes. A pergunta viciosa, resposta viciada: respondi que no meu entender este último era um filme muito mais surrealista do que Un Chien Andalou e, mesmo, do que L'Age d'Or, e o dilema ficou em suspenso na tábua liceal em que fora posto. Aliás, era impossível responder a direito: era a segunda vez que via em Lisboa essa cópia infernalmente deteriorada do documentário de Buñuel, e creio que pode dizer-se de ambas as passagens o que uma vez dizia Lopes Graça depois de ouvida em S. Carlos uma versão nacional da 9.ª Sinfonia de Beethoven: «Eles (referia-se ao público aplaudidor) julgam que ouviram a 9.ª Sinfonia de Beethoven»... Bastos anos depois vi realmente pela primeira vez Las Hurdes, seguidas e antecedidas de L'Age  d'Or e de Un Chien Andalou, também em cópias novas, e não pude deixar de lembrar-me da  pequena sala cheia da  S. N. B. A., da pergunta de Ernesto de Sousa, da resposta evasiva e da qualidade nula da cópia em julgado.


Os primeiros filmes de Buñuel: Um Cão Andaluz (1929), A Idade do Ouro (1930) e Las Hurdes (1933) 
Fotos encontradas na net.


     Um dos grandes méritos da biografia crítica de Buñuel agora publicada por Francisco Aranda (1) é precisamente a arrumação definitiva deste tipo de questão. Em páginas revistas pelo próprio Buñuel, revela-se-nos um surrealismo espanhol tão forte e independente do parisino que se afirma antes e prossegue depois. Também a este propósito será bom notar e fazer  notar que já em 1950 Breton publicava considerar aberrante a própria noção de Grupo Surrealista (2). São verdadeiramente notáveis, no poder  objectivo da sua agressividade, os poemas e textos inéditos ou esparsos agora reunidos por Francisco Aranda, alguns dos quais antecedem a actividade cinematografica e realmente a anunciam, como o poema em prosa «Palácio de Gelo», publicado em Madrid em 1924, ou o versi-poema «O Arco-Íris e a  Cataplasma», parte de um livro inédito que tem o significativo título de «Cão Andaluz»,  como notáveis são os apontamentos críticos e as respostas a tempo na série de entrevistas e de conversações insertas num tipo de sequência que tem muito a ver com o sistema da colagem surrealista, ou com a possível rodagem de um filme que se chamaria Luís Buñuel... A mais, porém, que estas meras questões de anterioridade original com relação ao surrealismo parisino, o trabalho de F. Aranda permite-nos ver com que actualidade máxima Buñuel pertence a esse surrealismo espanhol profundamente caracterizado, no passado, pela heterodoxia de um Abade Marchena, pela arte militante de um Goya e de um Gaudi, ou, entre os contemporâneos, pela órbita original em que circulam diversos um J. V. Foix, que em 1918 escreve algures dos primeiros textos oníricos surrealistas, um Juan Larrea, um Luís Cernuda; um Rafael Alberti, um José  Maria  de Hinojosa, para nos determos na geração de 27. 


Luis Buñuel durante a rodagem de Tristana, Toledo, Espanha. Foto de Mary Ellen Mark, 1969.


Realmente, se existe complexo cultural que grite desde há séculos e desde as próprias entranhas o conflito desgarrador de Eros é a morte da Vénus Celeste e a de exasperação dos sentidos, é este que bem poderia  ter nas suas fronteiras como  sentença dantesca o lema do «Amor Doido»,  de André Breton: «A beleza convulsiva será erótica-velada, explosiva-fixa, mágica-circunstancial, ou perecerá.» Nos heterodoxos e nos heréticos espanhóis não haverá porém a doce alternativa que apesar de tudo Breton oferece à revolução da vida. A beleza convulsiva será tudo isso e mais ainda, aterradora e embriagadora, mas conhecerá o destino de todas as coisas, que é perecer, e esta visão materialista não destrói, antes aumenta, à maneira dos primitivos, a disponibilidade poética. Buñuel: «Há pessoas muito inteligentes que acreditam em Deus. Porque não, no fim de tudo?  É da natureza humana a procura de uma esperança. Quanto a mim, não  posso deixar de ser como sou. Não recebi a Graça que dá a fé. Interessa-me uma vida com ambiguidades e contradições. O mistério é belo. Morrer e desaparecer definitivamente não me parece horrível, parece-me perfeito. Em contrapartida, a possibilidade de eternidade aterra-me. Escuta: se o meu  melhor amigo tivesse morrido liá muito e me aparecesse, me tocasse numa 'orelha e lhe pegasse fogo instantaneamente e eu não pensaria que ele tivesse saído do inferno. Nem por isso acreditaria em Deus, nem na Imaculada Conceição, nem que a Virgem me pudesse ajudar nos exames. Pensaria sómente: Luís, aqui tens outro mistério que também não entendes» (3)


Luis Buñuel tocando tambor em Calanda, Espanha.
Foto encontrada em flickr.com


     Neste contexto também me parece importante saber, na bela introdução ao conflito geral colocada nas páginas iniciais do livro, que os vinte e dois anos de exílio de Buñuel, e quiçá não apenas eles, moveram a mãe do realizador, fautora primordial da rodagem de Un Chien Andalou, a promover o filho ã categoria de santo, colocando-lhe  o retrato no oratório da casa, ao lado das imagens dos patronos milagreiros e das fotografias do Papa. De maneira nenhuma um intento de recuperação, explicável em força de amor materno, mas a razão outra e louca que pode caracterizar o complexo hispânico. O que assusta em Buñuel, é sua modernidade integral, é a coisificação que em tantos dos seus filmes  sofre o aparato católico. Tal herança chega ao  plateau em estado de madeira, pedra, sombra ou luz, coisas de que se fazem fotografias. Raramente haverá ironia, teria de apoiar-se num significado, num mobiliário útil, e Buñuel «realista» revela-nos um mundo de onde o verbo se ausentou há muito, onde os próprios actores, os personagens, são isentos de significação, movem-se a custo através de sistemas que já não coincidem com o mundo humano. Todo o lirismo foi cuidadosamente estirpado, e, como o tempo vai longe da epopeia, a imagem natural é fornecida pelo escorpião. No que tem eminentes precursores. Não é o poder erótico e blasfematório, transplantado para o «naturalismo» Buñuelesco, de um António Gavin, que surge em tantas cenas de  Viridiana, de L'Age d'Or,  de O Anjo Exterminador? A cinco séculos de vista, não será A Celestina,  de Fernando de Rojas, um primeiro argumento de  Belle de Jour? (4).
     Uma filmografia exaustiva, de 1926 a «Tristana», que ia sendo rodada em Portugal nestes últimos meses, faz-nos saber que Buñuel, nascido com o princípio do século, realizou ou foi co-realizador de cerca de quarenta filmes, dos quais apenas quatro, ao que recordo (Un Chien Andalou, Las Hurdes, O Monte dos Vendavais, La Mort dans Ce Jardin) surgiram em Portugal. Deixo às gentes de cinema, de distribuição de cinema, de técnica de cinema, de crítica de cinema, de gosto pelo cinema, a possível avaliação de causas e efeitos de tal catástrofe.

(1)  «Luís  Bunuel,  Biografia Crítica». por  J.  Francisco Aranda, Editorial Lumen. Barcelona, 1970.
(2) «Entretiens». com  ,André Parinaud. Ed. Gallimard. Paris.  1952.
(3) «Conversações com  Francisco  Aranda». pág. 255.  da Biografia citada.
(4) Ver  no  ensaio  de Xavier Domingo, «Erotique de L'Espagne», Ed. J. J. Pauvert, Paes.  1967

Mário Cesariny
Jornal A Capital 22 Abril 1970


Mário Cesariny no dia 25 de Abril de 1974. Foto de Ana Hatherly.
Fotod o Arquivo Fotográfico da CML.




domingo, 23 de outubro de 2011

Verdadeiros Artistas

"aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando"
Camões


Oscar Niemeyer no barracão que ele usou para escritório, enquanto se construía a capital do Brasil: Brasilia, 1960. Frank Scherschel. Foto da direita: Oscar Niemeyer na sua casa projectada por ele mesmo, 1959. Dmitri Kessel.


Busby Berkeley revendo o argumento há cabeceira da actriz infantil Quintanille 
durante as filmagens de Forty Little Mothers, 1940 (Eddie Cantor, Ama Seca). ?? 


Dizzy Gillespie, mostrando a seu amigo Benny Carter, 
como fazer um aperto de mão especial. 1948. Allan Grant. 


Frank Gehry saltando sobre uma mesa no seu escritório. 1972. Ralph Morse. 


Henry Miller em Paris. 1969. Carlo Bavagnoli. 


Jackson Pollock trabalhando em seu estúdio, de cigarro na boca. 1949. Martha Holmes. 


Le Corbusier trabalhando num projecto para a reconstrução de Paris, no seu atelier. 1946. Nina Leen. 


Marc Chagall trabalhando em um vitral. 1960. Loomis Dean. 


Salvador Dali numa sessão com Phillipe Halsman. 1954. Yale Joel. 



(foto da LIFE Archive)