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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Santos Manuel - Eu não queria ser Actor


Santos Manuel e Mário Viegas em 1993, na peça "Enquanto se está à espera de Godot" de Samuel Beckett, com encenação de Mário Viegas na Companhia Teatral do Chiado.
Foto encontrada em lauroantonioapresenta.blogspot.pt



Estava ontem a terminar um post e já a pensar noutro, e lembrei-me do Santos Manuel e de um episódio que revela bem o distraído que era fora dos palcos, e fiquei pensando se escreveria aqui o que se passou. E, hoje compro o jornal e dou com a noticia da sua morte. Embora não privasse com o Santos Manuel, achava que era uma pessoa tímida e discreta (como eu aprecio), e de quem eu gostava muito e sinto bastante a sua morte, mas fica a memória dos tempos que trabalhámos juntos. Deixo mais abaixo um texto do Santos Manuel, coisa rara.
A historia com o Santos Manuel, foi a seguinte: eu namorava já há uns meses com uma actriz, quando o Santos Manuel virou-se para o Mário Viegas e diz-lhe; «Tenho a impressão que qualquer dia vamos ter um caso do Chico com a “Maria”. E responde o Mário; «Ó Santos, então tu não sabes que eles já vivem juntos.», e ele; «Não tinha dado por nada».



DEPOIMENTO DO ACTOR SANTOS MANUEL, ESCRITO PARA O ESPECTÁCULO, “O ENSAIO DE UM SONHO”, BASEADO EM TEXTOS DE INGMAR BERGMAN E AUGUST STRINDBERG EM MARÇO DE 1994.


Em 1961 entrei para a Casa da Comédia. Lá encontrei o Dr. Fernando Amado, o meu querido, primeiro e saudoso Mestre. Lá encontrei Manuela de Freitas, Maria do Céu Guerra, Fernanda Lapa, Zita Duarte, Glória de Matos, Norberto Barroca e tantos outros. Lá estava o Palco, a Luz, os Actores, a Música, o Silêncio, a Magia, o Cenário, os Adereços, o "Sonho", e o meu "Sonho" de ser Cenógrafo. Eu não queria ser Actor.

"Deseja-se Mulher" de Almada Negreiros, tinha marcado um encontro com o meu destino e assim me estreei como Actor. Estive ligado à Casa da Comédia até 1965. No mesmo ano fui para o Teatro Experimental de Cascais, como Actor. No T.E.C. fui ficando, fui trabalhando, fui criticado, fui louvado, fui premiado, “e eu não queria ser Actor”.

Fui curioso demais e aceitei a experiência como uma forma de realização pessoal, até chegar às margens da angústia. Continuo insatisfeito. Nunca me consegui libertar do receio de o meu trabalho ser julgado pelos Outros.

Sei que sou frágil e não suporto agressões. Vou flutuando na corrente da vida como um aventureiro receoso, mas determinado.

Às vezes sou derrotado, outras vezes ferido, mas vou aprendendo. As minhas experiências ainda não foram fatais.

Vou prosseguindo com os meus humildes esforços de criação, eles defendem-se em grande medida daquilo que eu ainda não sei e daquilo que eu ainda não fiz.

Aprendi a respirar o pó dos Palcos com Fernando Amado, Carlos Avilez, Artur Ramos, Hélder Costa. Neste momento como Encenador e amigo tenho Mário Viegas. Já vencemos uma batalha. “Enquanto Se Está à Espera de Godot”. Com certeza que ainda vamos vencer outras.

Trabalhar com Manuela de Freitas em “O Ensaio de um Sonho”, é um grande prazer. Será que ela é um Mal Necessário para o meu aperfeiçoamento e auto-correcção? O tempo o dirá. Se eu puder penetrar no seu Universo Interior já me poderei sentir recompensado. Ela é a Actriz.
Talvez um dia eu queira e deseje ser Actor.

As minhas experiências não estão cristalizadas.

A Vida, o que tem de melhor, é o “Sonho” que se altera constantemente.

Esta é a verdadeira Liberdade.


Texto transcrito do programa da peça "O Ensaio de um Sonho", 1994.


Manuela de Freitas e Santos Manuel em "O Ensaio de um Sonho", encenação de Mário Viegas. 
Foto copiada do programa da peça "O Ensaio de um Sonho".

Mario Viegas e Santos Manuel em "A Grande Magia", 1994. 
Foto copiada de jornal.
Mario Viegas e Santos Manuel em "A Grande Magia", 1994.


domingo, 22 de abril de 2012

À memória de Ruy Belo

«Consola-me ao menos a ideia de te haverem deixado em paz na morte; ninguém na assembleia da república fingiu que te lera os versos, ninguém, cheio de piedade por si próprio, propôs funerais nacionais ou, a título póstumo, te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador, qualquer coisa assim para estrumar os campos. Eles não deram por ti, e a culpa é tua, foste sempre discreto (até mesmo na morte), não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro, não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira, e foste a enterrar numa aldeia que não sei onde fica, mas seja onde for será a tua.» (Eugénio de Andrade)



Ruy Belo, em 1976. Foto de Teresa Belo.
"Um dia, reencontrámo-nos no meio da rua, falámos muito e à despedida perguntou-me “Eu vinha dali ou ia para ali?”. Passou, depois, por alguns dos meus serões já diferentes onde, uma noite, leu sem parar a Margem da Alegria, que tinha acabado de escrever. Quando em Agosto de 78 chegou a notícia de que o Rui tinha morrido, achei que estava certo e que só podia ser em Agosto, para não ser a custo. 
Em tempos de impossível alegria, quando no meu país não acontece nada e tanta gente em vão requer curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia, é bom lembrar Ruy Belo, um dos nossos maiores poetas, e ouvi-lo dizer que vivemos, convivemos, resistimos, que somos mal feitos, pronto, mas que tudo é apenas o que é e que nada se perde por mais que aconteça. É bom encontramos na sua poesia um sítio onde se nega que se morre, uma vida - luminosa luz como ferro em fusão - para que não nos detenhamos nos umbrais das trevas e recordemos, vagueando pelos trilhos dos seus versos, o sinal desse silêncio que não permite desistir." (Manuela de Freitas, 07-06-2009)  Ler Tudo Aqui



Portugal Futuro 

O portugal futuro é um país 
aonde o puro pássaro é possível 
e sobre o leito negro do asfalto da estrada 
as profundas crianças desenharão a giz 
esse peixe da infância que vem na enxurrada 
e me parece que se chama sável 
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país 
e lhe chamem elas o que lhe chamarem 
portugal será e lá serei feliz 
Poderá ser pequeno como este 
ter a oeste o mar e a espanha a leste 
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão 
e na avenida que houver à beira-mar 
pode o tempo mudar será verão 
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz 
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro 
in “Homem de Palavra(s)”, 1969, de Ruy Belo



Portugal Futuro, de Ruy Belo, dito por Mário Viegas em Poemas de Bibe.


"À memória de Ruy Belo" 
de Eugénio de Andrade

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis de um império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.
in "Epitáfios", 1978, de Eugénio de Andrade)




"À memória de Ruy Belo", de Eugénio de Andrade por Mário Viegas.



(fotos encontradas na net)




quarta-feira, 14 de março de 2012

Levante-se o réu, diz o juiz


Levanta-te tu meu filho da puta! 

responde João de Deus no filme A Comédia de Deus de João César Monteiro (1995).



João de Deus sentado no banco dos réus.


Discurso de João de Deus 
em  A Comédia de Deus de João César Monteiro 

«Minhas Senhoras e meus Senhores, poupar-vos-ei o relato atribulado em que, por circunstâncias meramente furtuitas e inesperadas, me tornei geladeiro e, pouco a pouco, me fui devotando ao meu ofício. Sou um homem de paz. Podia, quem sabe, ser um criminoso, um proscrito, em permanente rebelião contra uma lei social cega e aberrante. Não sei. Sei que nunca poderia ser político, engrossar o cortejo dessa corja que põe e dispõe do ser humano, guiando-o para um devir cada vez mais favorável à condição de rastejante. "- És réptil e em réptil te tornarás" é a lógica que forma incansavelmente a nossa vergonhosa degradação enquanto indivíduos, enquanto espécie. Contra a trapaça universal os gelados enregelados, o meu gelado, que leva em si toda a energia calórica do mundo, uma palavra amiga, uma prova de amor. Rigor e fantasia. O último luxo soberano de um homem livre que teve a suprema ousadia de, no país dos gatos pingados, exaltar a vida. Não tenho receitas, fórmulas mágicas. Cada gelado que fabrico tem um perfume que lhe é próprio - o seu perfume. Nunca é semelhante ao anterior, nunca será igual ao que lhe sucede. Cada um tem, no entanto, algo para recordar: uma viagem, um passeio, um encontro, um ente querido, a mulher amada... O meu sonho, talvez irrealizável, é fabricar um perfume que concentre em si todos os perfumes, harmoniozamente chegar-me a Deus, à quintessência dos perfumes. Não atraiçoem nunca os sonhos da vossa infância. Se abrirdes os vossos corações talvez possamos provar o glorioso gelado final.»



 
João de Deus discursa na cerimónia de apresentação de um novo "perfume", tendo em vista a sua exportação.


A COMÉDIA DE DEUS 
DE JOÃO CÉSAR MONTEIRO

«A Comédia de Deus é um filme «florentino». Não só porque nele se vislumbram as qualidades raras de um artesanato infinitamente experiente e sagaz, que se mantêm ainda como a única forma de descoberta (a indústria não descobre nada, limita-se a produzir e a reproduzir); não só pelas criaturas que o habitam — condottieres e suas damas, arrebatados por amores dilacerantes, onde a pura abjecção serve para sublimar uma refinadíssima sensibilidade platónica —, mas também porque A Comédia de Deus possui a coerência de uma visão do mundo que não se esgota na vertigem episódica das vidas de João de Deus, a personagem criada por César Monteiro no anterior Recordações da Casa Amarela e que ressurge aqui (renasce) como hábil e misterioso misturador de aromas na gelataria O Paraíso das Avenidas Novas. Como outrora na pintura florentina (como no sorriso da Gioconda que é, talvez, o signo que maximamente a define), A Comédia de Deus (alente-se na evidente ambiguidade do título) é um filme onde a anedota é sempre o desdobramento figurativo, e não metafórico, de uma cena muito mais complexa e terrível. Desde Silvestre (1981) que o cinema de João César Monteiro nos andava a prometer isto. E o isto, que era então uma promessa (ainda enclausurada, por exemplo, no pequeno teorema figurativo do final de À  Flor do Mar), chegou por fim, e é formidável, claro, porque tem o tamanho exacto das suas ambições.
Face a A Comédia de Deus — à justeza e frontalidade do seu radicalismo —, não será difícil imaginar o silêncio embaraçado de todos quantos têm defendido (de forma mais ou menos pública, aliás) milagrosas soluções para a conformação do cinema português e que quase sempre acabam por invocar, afinal, modelos decalcados de um triste folclore nacional - cançonetista (um bom «ritmo», uma boa «rima», feita de palavras que «todos percebam»). Sem querer transformar este filme naquilo que ele não é e que tão obviamente recusa, um objecto corporativo, «espelho» das virtudes do cinema português, e, no entanto, inegável que A Comédia de Deus — até por via do seu sucesso internacional — mostra claramente quais as «paradas» em que o cinema se mexe hoje, mundo fora, e que pouco se compadecem de uma estética «pimba», feita à medida do umbigo português (que, já agora, tem fama de pequeno e ingrato). Rodeado pelas suas Rosarinhos e Joaninhas, obcecado pela higiene da gelataria, o fausto solitário e libertino de João de Deus é um momento importante de resistência do cinema moderno em face de uma morte anunciada pela banalidade da televisão e de todos os produtos em forma de filme que a procuram converter em modelo. Mais do que um filme moral, A Comédia de Deus é um objecto de fé. E por isso o título, que não podia assentar-lhe melhor.»
(João Mário Grilo, Publicado na revista Visão a 25 Janeiro 1996)





sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ruy Belo: “Nada se perde por mais que aconteça”


Ter tido o privilégio de privar com um grande poeta foi ter podido ver acontecer a sua poesia. Nela continua vivo. 

Por Manuela de Freitas


A certa altura da minha adolescência, conheci um colega do meu irmão Carlos, da Faculdade de Direito, com um ar muito sério e respeitável (apesar de só ter vinte e dois anos), que constava ser da Opus Dei. Era o Ruy Belo. Davam grandes passeios pela praia e falavam, falavam, a olhar para o mar, até nele entrarem. E tinham de os ir buscar, enregelados e exaustos, envoltos em cobertores, a beber um cálice de brandy para recuperarem do susto dos outros, porque neles havia só prazer calmo, como um segredo cumprido. Havia conversas até às tantas. Com o culto da alegria como um dever sem tréguas e a cumplicidade numa rebeldia sem limites.

O Rui saiu da Opus Dei e, já formado em Direito, entrou para a Faculdade de Letras. Arranjou uma namorada e, como se o Verão tivesse chegado, o sorriso de criança, de nariz arrebitado, foi-se tornando cada vez mais aberto, mais arriscado, mais livre. E o riso claro da Maria Teresa começou também a fazer parte dos nossos serões nas noites desmedidas de novembro, das castanhas assadas compradas depois da tourada, onde íamos ver o João, irmão do Rui que era forcado [pegador de toiros a pé, nas corridas de toiros à portuguesa]. Crianças feitas para grandes férias, tudo era possível, era só querer. E o ritual dos dias e das noites era importante como uma novidade.

O meu irmão morreu em Janeiro de 1965, com vinte seis anos. Houve passos apressados pela casa que ficaram na Boca Bilingue, à memória do Carlos, o melhor dos amigos e o Rui continuou nos nossos serões com a permanente dívida à alegria porque era preciso era que não doesse muito, já que a morte não é coisa para os homens.

Começou a aparecer cada vez menos, cada vez mais perturbado, prostrado, a comprar o sono em tubos de comprimidos. Teve três filhos da Maria Teresa, sua única viúva, e foi para Madrid onde se apaixonou pela Muriel. Um dia, reencontrámo-nos no meio da rua, falámos muito e à despedida perguntou-me “Eu vinha dali ou ia para ali?”. Passou, depois, por alguns dos meus serões já diferentes onde, uma noite, leu sem parar a Margem da Alegria, que tinha acabado de escrever. Quando em Agosto de 78 chegou a notícia de que o Rui tinha morrido, achei que estava certo e que só podia ser em Agosto, para não ser a custo. 

Em tempos de impossível alegria, quando no meu país não acontece nada e tanta gente em vão requer curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia, é bom lembrar Ruy Belo, um dos nossos maiores poetas, e ouvi-lo dizer que vivemos, convivemos, resistimos, que somos mal feitos, pronto, mas que tudo é apenas o que é e que nada se perde por mais que aconteça. É bom encontramos na sua poesia um sítio onde se nega que se morre, uma vida - luminosa luz como ferro em fusão - para que não nos detenhamos nos umbrais das trevas e recordemos, vagueando pelos trilhos dos seus versos, o sinal desse silêncio que não permite desistir. 

(Manuela de Freitas in, passapalavra.info, 07 de Junho de 2009)



Ruy Belo, foto em casoseacasosdavida.blogspot.com.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

As Campanhas de Dinamização Cultural

 (1974-75)

Há muitas ideias feitas, espalhadas e arreigadas sobre estas campanhas. 
A quem as viveu, cabe tão só testemunhar o que se passou. 
Por Manuela de Freitas


Nem tudo o que luz é oiro. Mas só com luz se pode distinguir.


Saíam de Lisboa, em carros do exército, os militares do MFA [Movimento das Forças Armadas] e os actores. Chegavam à cidade e instalavam-se todos no quartel, onde ficavam durante uma a duas semanas. Dali partiam diariamente para as várias vilas e aldeias da zona onde se realizavam as sessões. Montavam o palco e preparavam a sala. Depois iam pelo povoado, chamando as pessoas, com quem, no café, nas ruas, conversavam e as convidavam para o encontro dessa noite. Não se sabia quais as vedetas que mais atraíam a atenção das populações: se os protagonistas do teatro, se os protagonistas da Revolução dos Cravos.


João Abel Manta, “Muito prazer em conhecer vocelências”. M.F.A. Campanha de dinamização cultural, 1974

Quando a peça acabava, estabelecia-se o debate. O público começava por falar com os actores sobre o espectáculo e, a propósito dele, os militares explicavam quem eram e o que estavam ali a fazer: depois de terem libertado Portugal do fascismo, queriam saber o que era preciso fazer para reconstruir o país e melhorar a vida das pessoas. E ali ficavam a responder a perguntas, a tomar notas, a ouvir as queixas, as esperanças, as dúvidas, os medos: “Construam-nos um cemitério porque o mais perto é a 20 quilómetros e, no inverno, quando levamos um de nós a enterrar, morrem mais dois ou três pelo caminho”. “Precisamos de uma ponte”. “Uma estrada dava muito jeito”. “Façam escolas para podermos aprender a ler”. “O que é que vão fazer aos patrões?”. “Limparam mesmo os fascistas todos?”. “E vocês, que ainda por cima têm armas, como é que nos garantem que não vão fazer pior?”.

Cartaz do MFA.
Altas horas voltavam, actores e militares, para o quartel. E, no dia seguinte, iam fazer o mesmo noutra vila ou aldeia próxima.
Assim foi na primeira campanha (Beira Alta), na segunda (Douro) e na terceira (Trás-os-Montes) ao longo de 1974 e nos princípios de 1975.
Os MFAs fizeram o cemitério, a estrada, a ponte. Mas, a pouco e pouco - confrontados com a pesada herança de 48 anos de fascismo, com o atraso, as carências, a situação social, o caciquismo – esvaía-se-lhes o ânimo voluntarista e emergia uma frustrante consciência da sua total ausência de preparação política. A generosa energia dos “salvadores” dava lugar à apreensão e ao pessimismo dos “responsáveis pelo cumprimento das promessas de Abril”. Confessavam começar a perceber que só com espingardas não conseguiriam levar a bom termo a difícil tarefa – que o povo deles esperava porque a ela se tinham comprometido – de construir um país novo. Seria, por isso, necessário apoiarem-se em quem tinha competência e experiência dessas coisas. Embora com algumas reservas, só o PCP [Partido Comunista Português] lhes parecia estar em condições de os ajudar, porque era a única força de esquerda com uma poderosa organização e uma sólida formação política.
E assim, progressivamente, se assistiu à invasão e ao controle, pelo PCP, da 5ª Divisão (instância das Forças Armadas encarregue das Campanhas de Dinamização Cultural).
Aquele grupo de actores começou a tornar-se incómodo e desajustado às circunstâncias. Porque não aceitou que lhe censurassem os textos do programa; porque se recusou a fazer o espectáculo em condições que considerava atentatórias da qualidade e da boa recepção por parte do público; porque, nos debates, assumiu posições contrárias aos agora mentores do povo e porque, obviamente, não simpatizava com o PCP… voltou para Lisboa a meio da quarta campanha (Minho). E nunca mais foi solicitado para participar em nenhuma, se é que as houve.

Beira Alta. Conselho de Castro Daire. Vila de Parada de Ester. Vacinação de animais. Campanha de Dinamização Cultural , Maio 1975. Fotos de Guy Le Querrec da Magnum Photos.


Seguiu-se uma afincada e habilmente programada descredibilização, política e cultural, do que tinham sido as Campanhas de Dinamização: “os militares do MFA andaram pelo país a catequizar o povo, a colonizá-lo politicamente, acolitados por um grupelho de Lisboa que, em total desrespeito pela identidade cultural própria das comunidades, lhes impingia produtos artisticos que elas recusavam porque lhes eram totalmente alheios”. Esta versão dos acontecimentos foi sendo repetida ao longo dos anos pelos militantes do PCP, em toda a parte e por todas as formas, ora com argumentos culturais ora com argumentos políticos, conforme a quem se dirigiam. E assim - encontrando na má-fé, no sectarismo, na inveja ou na simples ignorância, o terreno propício para criar raízes - esta foi a verdade sobre as campanhas que ficou para a história.

Francisco Martins Rodrigues

É dificil encontrar quem não a repita ainda hoje. Francisco Martins Rodrigues (um dos mais prestigiados e influentes mentores da esquerda), na pág. 23 do seu livro O Comunismo que aí vem (Abrente Editora, 2004), escreve: «Na realidade, as comissões do “poder popular” que mais tarde vieram a reunir sob a presidência benévola dos oficiais, vinham na linha de continuidade das campanhas de “dinamização cultural”, que tinham percorrido a província, a explicar às populações o que era bom para elas. Eram uma reminiscência sublimada da “acção psico-social” em África.» [artigo que fora antes publicado no nº 1 da revista Política Operária, Setembro-Outubro de 1985].


Se, nos bastidores daquela experência, havia intenções e vontades ocultas e o que se passou no terreno foi afinal um desvio indesejado que escapou ao controle dos seus promotores, espera-se que historiadores credíveis o revelem, documentadamente.


Se, apesar das boas intenções dos intervenientes, aquela não foi a melhor forma político-cultural de fazer as coisas, espera-se que políticos e ideólogos credíveis a critiquem e, analisando-a, tirem conclusões para o futuro.
A quem a viveu, cabe tão-só testemunhar o que se passou.

(Manuela de Freitas, 24 de Abril de 2009, in passapalavra.info)   



(Fotos da Magnum Photos; desenhos de João Abel Manta e foto de Francisco Martins Rodrigues á solta na net)




sábado, 11 de fevereiro de 2012

A estatueta perdida


A história do prémio de interpretação no filme
O Passado e o Presente de Manoel de Oliveira


A Estatueta.
Há uns tempos atrás (Junho de 2010 ?), a Rita Lello telefonou-me a ver se eu lhe arranjava um bilhete para o filho ir ao Festival Sumol. Disse-lhe  que ia ver e consegui arranjar dois bilhetes. Telefonei de volta e ela ficou de passar por minha casa para os ir buscar, quando chegou estivemos a falar de estás bom?, estás boa? etc e tal quando ela diz; tenho uma coisa para ti, espera um pouco que vou buscar ao carro. Fiquei a fazer sala com o seu filho e passado um pouco, ela chegou com uma estatueta de bronze numa base de mármore com uma placa, e disse que a encontrou no atelier do Mário Alberto no Parque Mayer, quando lá foi arrumar as coisas do Mário Alberto com seu irmão Mário. A estatueta era o prémio de interpretação feminina ganho pela Manuela de Freitas, pelo filme de Manoel de Oliveira: O Passado e o Presente em 1972. Estivemos um bocado a especular de como poderia o prémio estar com o Mário Alberto e chegámos á conclusão de que talvez ele estivesse presente na cerimónia da Secretaria de Estado da Informação e Turismo que era a entidade que dava aqueles prémios antes do 25 de Abril. A Rita pediu-me para o dar á Manuela; eu disse é claro que dou; embora já soubesse que a Manuela não queria aquilo para nada. De qualquer forma, disse á Manuela que tinha a estatueta, ela respondeu como eu já sabia que responderia, mas, contei-lhe a história e a verdade é que sabíamos que a Manuela tinha sido distinguida com um prémio (vem nas "biografias", do filme e dela), mas eu não sabia mais nada. Fui á procura de noticias em jornais antigos e lá consegui encontrar uma. Mas sobre a entrega dos prémios propriamente ditos não encontrei nada. A estatueta ainda continua em minha casa. O que fazer com ela? Quando souber que o Museu-Casa Manoel de Oliveira no Porto está a funcionar, entrarei em contacto para o oferecer, porque creio que é o sitio mais indicado para a estatueta ficar.

Noticia no jornal A Capital em 1972.

Manuela de Freitas em O Passado e o Presente. Linda de morrer.



O Passado e o Presente - 1972
de Manoel de Oliveira

"Em mais de um sentido, a casa, em «O Passado e o Presente», era uma casa de alienados, tão mais alienados quanto todos se comportavam como se fossem ou estivessem alheios à sua alienação. E, embora do principio ao fim, se não largassem, formando um grupo omnipresente em toda a espécie de rituais, cada um deles era inteiramente solitário. Devoravam-se uns aos outros, mas não se tocavam. Como o décor os devorava a eles, sem nunca os tocar e sem nunca ser tocado por eles. E os múltiplos jarros com flores eram tanto sinal de vida (de casa habitada) como sinal de morte (flores para os mortos." 
(João Bénard da Costa, excerto de "Pedra de Toque",
O dito Eterno Feminino na Obra de Manoel de Oliveira.
In, Revista Camões nº12/13 - 2001)

Cena de O Passado e o Presente de Manoel de Oliveira, 1972.

O Passado e o Presente para além de marcar o regresso de Oliveira que desde 1965 não apresentava nada em público, assinala por outro lado, os chamados «anos Gulbenkian». Assim, ficou conhecido o apoio que esta instituição privada concedeu ao cinema português. Neste período alguns dos melhores realizadores tiveram a oportunidade de verem os seus filmes realizados, pois quem financiava era a Gulbenkian em vez de ser o Estado como anteriormente acontecia. Por causa de um desentendimento que houve entre a instituição e o Estado, a Fundação Calouste Gulbenkian deixou de fazer o mecenato ao Centro de Cinema, assumindo ela própria esse papel do Estado. Este filme foi premiado pela Casa da Imprensa com o prémio de Melhor Realização e Melhor Fotografia. Por seu lado a Secretaria de Estado da Informação e Turismo considerou Manuela de Freitas a melhor Actriz, pelo papel desempenhado neste filme, fazendo de "Noémia".
(Luís de Pina, in História do cinema português).


(fotos encontradas na net)


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Um Fado nas bocas do Povo


Caso Arrumado

Letra de Manuela de Freitas

Música de Pedro Rodrigues


Fado feito para Ana Moura e que anda nas bocas do povo.



A mais bela do Fado cantando "Caso Arrumado".


Judite Maria no Solar do Santos 29-01-2012.



Teresa em noite de fados na freguesia da Serreta (Terceira) em 15-09-11.


Caso Arrumado 07-10-2011 Linda a Velha. Não existe mais nenhuma descrição.


Carregado por Paulateixeirafado em 08/11/2011. Não existe mais nenhuma descrição.


Ana Marisa na Central do Bairro.


Carregado por pol4329 em 05/07/2010. Não existe mais nenhuma descrição.


Caso Arrumado à capela por Deena Gui. 

Este video é o mais comovente, agora deixo aqui a letra do fado Caso Arrumado.


Não te via há quase um mês
Chegaste e mais uma vez
Vinhas bem acompanhado
Sentaste-te à minha mesa
Como quem tem a certeza
Que somos caso arrumado

Ela não me queria ouvir
Mas tu pediste a sorrir
O nosso fado preferido
Fiz-te a vontade, cantei
E quando à mesa voltei
Ela já tinha saído

Não é a primeira vez
Que começamos a três
Eu vou cantar e depois
O nosso fado que eu canto
É sempre remédio santo
Acabamos só nós dois

Eu sei que tu vais voltar
P'ra de novo eu te livrar
De um caso sem solução
Vou cantar o nosso fado
Fica o teu caso arrumado
O nosso caso é que não


Manuela de Freitas (Letra) 
Pedro Rodrigues (Música) 







sábado, 21 de janeiro de 2012

O teatro e a televisão


A telenovela estraga os actores e o público. Com maus actores e mau público não há teatro. Sem teatro, a comunidade vê-se privada de um poderoso instrumento de confronto, reflexão e transformação. 

Por Manuela de Freitas


Cada sociedade tem o teatro que merece.
Federico Garcia Lorca

O actor é o membro da comunidade que, partilhando as suas inquietações e paixões, tem como profissão contar histórias que interessam a todos, comovendo-os, divertindo-os, inquietando-os e confrontando-os. Para as contar bem, aprende técnicas, como qualquer profissional. Exercita o corpo e a voz, para que se oiça e se perceba o que diz; para que se apreenda todo o sentido do que diz; para incorporar os textos e não os papaguear (etimologicamente, decorar significa “aprender com o coração”); para poder gritar e não ficar rouco, atirar-se pelo ar e não se magoar, correr e não cair do palco abaixo, agredir e ser agredido sem ferir nem se ferir.

Helene Weigel nas duas fotos, em A Mãe de Bertolt Brecht.

Para que o público receba com a inteligência, os sentidos e a emoção o que o actor lhe propõe, este vai buscar às outras artes, às ciências, às filosofias, aos rituais religiosos e a todas as formas de cultura, as técnicas que o ajudam a conhecer-se melhor e a melhor utilizar o seu pensamento, os seus sentidos e emoções, fazendo deles matéria de criação. Vivendo e convivendo com o que é, o que recusa, o que teme, o que deseja, é atento como uma antena e nada lhe é estranho ou alheio. Confronta-se com as suas capacidades e incapacidades, vícios e virtudes e torna-se uma espécie de base de dados a que vai buscar tudo o que serve para dar vida a cada nova personagem. Do seu encontro com ela o actor cria uma terceira entidade, única e irrepetível. Procurando o que a personagem tem de essencial, quais os mais significativos e universais vectores de humanidade que nela se manifestam, é sempre também ele e não outro, com o seu corpo, emoções, inteligência, memórias, experiências e opções. Não se esconde nem imita ninguém. Vive até às últimas consequências a parte de si que dá forma à personagem e os conflitos em que ela se inscreve. Não aceitando como a “sua verdadeira personalidade” a imagem estereotipada que a sociedade criou para ele, ou que ele criou, consciente ou inconscientemente, para funcionar na sociedade, passa por toda a espécie de experiências físicas, mentais e emocionais para, em cada dia, poder estar à frente do público, inteiro e em carne viva. Tão humano e ao mesmo tempo tão fora do quotidiano, do “real” estereotipado, que se torna arquetípico representante da humanidade que com ele se identifica e se põe em causa.

Se tudo isto implica uma permanente vigilância e disponibilidade, um estar sempre a começar do princípio, a percorrer caminhos desconhecidos de autoconhecimento, de relacionamento e de expressão, implica também uma ética. Matéria-prima de criação artística, instrumentista virtuoso cujo instrumento é ele próprio, o actor sabe que tem de se enriquecer como ser humano, tem de fazer escolhas e de se exprimir cada vez melhor. Para ter coisas importantes a dizer aos outros e dizê-las bem para que eles as aceitem e as utilizem. Para contar tão verdadeira e profundamente uma história que a torne universal. Para “acontecer” - estar presente inteiramente num espaço e num tempo – e saber levar o público a “acontecer”, não assistindo, passivo, a uma exibição, mas sendo co-criador de um acto de vida único e irrepetível. Vendo, ouvindo, sentindo e pensando o que lhe diz respeito e, assim, aprendendo, tomando partido, transformando-se.


Manuela de Freitas em Final de Becket, encenação de Mário Viegas. (foto francisco grave)


O teatro, como qualquer forma de Arte, não é uma cópia da vida. É uma transposição poética da realidade, condensando-a e permitindo que se veja para além da pequena história que se conta. Mergulhando a fundo na representação do real, desmascara as aparências que o falseiam e faz com que cada um que assiste possa pensar: “Isto tem a ver comigo. Perante isto, a minha posição é esta”. A força do teatro reside no facto de tornar presentes as misérias e as grandezas dos seres humanos e os consequentes conflitos que originam, levando o público a tomar partido.

Pelo contrário, a telenovela, pretendendo ser uma cópia fiel da vida, na sua forma redutora de a representar utiliza códigos de identificação política, cultural e moral que fazem dela uma eficaz máquina de propaganda de uma determinada visão do mundo. Com o ar inocente de mero entretenimento, instila-a num público que passivamente a digere e inconscientemente a assimila.

Mas não é só essa a sua função perniciosa. E voltamos aos actores.

As telenovelas utilizam modelos e apresentadores que se querem exibir e promover; velhos comediantes medíocres que, em vez de estarem asilados ou a passar fome, assim se divertem e vivem um pouco melhor; pessoas que querem aparecer na televisão para serem conhecidas na rua; jovens que querem sair nas revistas, ganhar dinheiro, sentir-se alguém. E também utilizam crianças, que são mão-de-obra barata. Quando abrem concursos de casting, vão lá pais com crianças de um ano, de seis, de dez, e escrevem nas fichas “livre a qualquer hora do dia ou da noite”. Porque o filho pode render algum dinheiro ou até ser artista, ter alguma hipótese de futuro e sair da cepa-torta. Muitos destes miúdos deixam a escola ou não conseguem estudar porque as filmagens começam de manhã e acabam à noite. Há muitos a recorrer a psiquiatras e já houve casos de suicídio porque não se conseguiram reintegrar na escola ou porque concorreram e não foram aceites.

E claro que também utilizam actores profissionais. Hoje, a profissão de actor já não existe fora da televisão. Quer como carreira, quer como meio de subsistência. Na televisão, um actor ganha, em média, 6.000 euros mensais (a mim ofereceram-me 10.000 há oito anos), com a garantia de trabalho pelo menos durante 6 a 8 meses. No teatro, quando é pago, o actor recebe em média entre 1.000 e 1.500 euros mensais, durante um máximo de 3 meses. Vai fazer a primeira novela pensando: “Vou só lá fazer isto porque preciso agora de algum dinheiro”. Ganha muito bem durante 6 a 8 meses, tem de largar o emprego que tinha porque tem filmagens todo o dia, paga a entrada e as primeiras prestações de uma casa, compra carro, muda os filhos de escola e, quando acaba a novela, fica sem nada, com a casa e o carro para pagar, a escola dos filhos mais cara. Agora está nas mãos da televisão. Faz a segunda novela, a terceira, aceita tudo o que lhe oferecem, por qualquer preço e em quaisquer condições, das novelas às dobragens, dos sketches à publicidade.

E assim, ao longo dos anos, vamos assistindo à destruição dos actores, alguns de grande qualidade e talento. Porque, se o actor é o instrumento de si próprio, tem de ter os cuidados que um violinista tem com o seu violino. Com um instrumento em más condições, desafinado, nem o melhor executante consegue tocar boa música. A repetição daqueles clichés, o primarismo daquelas personagens e a industrialização da produção destroem-nos a pouco e pouco. Representam muitas vezes a olhar para os diálogos escritos pelas paredes porque não tiveram tempo para os decorar. Porque aquelas histórias são muito fracas, tudo muito pobre e muito parecido, vão-se transformando nos estereótipos que criam para funcionar naquelas situações. Defendem-se do vazio gesticulando, sentando-se e levantando-se, cruzando e descruzando os braços, passando as mãos pelos móveis ou pelos cabelos – para parecerem “muito expressivos”. E já não sabem fazer-se ouvir numa sala de teatro sem microfones, porque se habituaram ao linguajar naturalista e sussurrante da novela em que o que se diz não tem qualquer sentido nem importância, a não ser causar a impressão de que é igual à vida quotidiana. Ao contrário do teatro – em que as palavras têm todas um peso e um significado, são matéria com carne, emoção e pensamento –, na novela o texto é apenas pretexto e as palavras tanto podem ser aquelas como outras. E os actores vão perdendo a noção do sentido das palavras por causa da “naturalidade” e da vulgaridade com que se habituam a falar sem dizer nada. Apanhados nas armadilhas do cliché, procuram ser “verdadeiros” e desaprendem (e os mais jovens nem chegam a aprender, porque os cursos de formação de actores já só visam essa única saída profissional: a televisão) o que qualquer artista sabe: a força da obra de arte é a capacidade de dizer, condensando num gesto, num traço, num som, numa palavra, o que nem todas as cópias da realidade conseguem dizer. Nem juntando todas as fotografias saídas nos jornais e todas as reportagens televisivas conseguiríamos apreender tanto sobre a guerra civil de Espanha como vendo a Guernica de Picasso que, para além disso, nos confronta ainda com as consequências de todas as guerras acontecidas e por acontecer.


Guernica de Pablo Picasso.

E assiste-se também à destruição do público. Habituado a ouvir contar histórias que não lhe exigem reflexão nem o confrontam com nada de importante, de uma forma que não lhe reclama concentração, nem tempo, nem atenção, o público não aguenta um teatro que não seja apenas entretenimento superficial e fácil, onde vai para fazer a digestão ou para apreciar ao vivo as vedetas da novela.

Com maus actores e mau público, não pode haver teatro. Nas salas aveludadas, vão-se exibindo espectáculos desfrutados apenas por uma elite intelectual que “deixa a novela para a plebe” e que, sem inquietação, se compraz com formalismos esteticistas decadentes ou com experimentalismos pós-modernos que também não são teatro. Porque o teatro, como qualquer arte, se não se compadece com a vulgaridade, também não se compadece com o efeito por mais bem elaborado que seja, ou com o enfeite por mais bom gosto que exiba. Não é um passatempo nem um luxo para servir a convidados.

Cartaz de A Mãe de A Comuna.
Estará então a televisão a acabar com o teatro? Nos seus muitos séculos de história, o teatro tem sido alvo dos mais variados atentados: tirando-o da praça pública e restringindo-o aos salões aristocráticos, ou às salas burguesas “à italiana” que separam o público dos actores e transformam o acto teatral numa exibição pseudo-mágica que leva à passividade do público; confinando-o em contextos que seleccionam a assistência segundo as classes sociais; utilizando-o como instrumento de propaganda populista e imediatista, tanto à direita como à esquerda.

E a estes como a outros atentados o teatro tem sempre sobrevivido. É cíclico. Persistem pequenos focos de resistência marginais que não se deixam subjugar e que ciclicamente emergem, restituindo ao teatro o seu lugar na comunidade. Há sempre quem não aceite a privação, entre outras coisas, deste poderoso instrumento milenar de enriquecimento e de libertação.

 (Manuela de Freitas, 20-02-09, em passapalavra.info)   

(fotos encontradas na net)





quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Mário Alberto (1925-2011)


Só hoje soube que o Mário Alberto faleceu. Há 3 ou 4 dias atrás encontrei a Céu Guerra num café e falamos dele. Conheci-o na montagem da peça «Liberdade em Bremen» na Barraca e voltei a trabalhar com ele na peça «O Fidalgo Aprendiz» no Teatro do Século ou foi ao contrario, já não me lembro, e estive com ele mais alguma vezes, jantares, teatros, com o filho, etc; tínhamos simpatizado um com o outro mas nunca fomos muito chegados, conversávamos sobre tudo e mais alguma coisa, mas no PC não se podia tocar. Deixa-me saudades. Um grande abraço para o Changuito.


Em 94, o Mário Alberto foi ver a peça A Grande Magia com o Mário Viegas e a Manuela 
de Freitas, depois fez este desenho e ofereceu-o ao Viegas que mais tarde me ofereceu.



Mário Alberto foi cenógrafo, pintor, figurinista, profissional de teatro, cinema e televisão. Co-fundou duas companhias de teatro, Adoque e A Barraca, e é tido como um dos responsáveis pela renovação do teatro de revista. Comunista e anti-monárquico, todos o descrevem como um homem de paixões. Para além do trabalho de cenografia, mais efémero, deixa a pintura, que tem um traço muito distintivo. Um quadro de Mário Alberto não pode ser de mais ninguém. 
(In, jornal O Público, 05-10-11)


Mário Alberto junto aos portões do seu habitat natural, O Parque Mayer.
(foto encontrada na net) 


Mário Alberto, cenógrafo e figurinista, no teatro A Barraca, em Lisboa.
(foto encontrada na net) 



Mário Alberto, Pintor e Cenógrafo
Tinha 48 anos em 25 de Abril de 1974 e vivia em Lisboa

Texto transcrito com a devida vénia de :
http://www.viriatoteles.net/pt/mario-alberto
(clique aí para ler tudo)




O que se segue é uma conversa ao sabor da brisa da noite, numa esplanada de Lisboa, em que o mote abrilista acabou por ser apenas o ponto de partida para uma pequena acção guerrilheira. Uma punitiva, das antigas, que o Mário Alberto não pede licença a ninguém para dizer o que lhe vai na alma, e não é um homem fácil: fala em tons fortes e não teme ser excessivo como os personagens dos seus quadros. Exagera? Talvez, mas o exagero não é senão uma forma eficaz de realçar a verdade, que é o alimento e a essência da sátira – como explica outro grande mestre do humor, José Vilhena. Não se espantem, pois, com as respostas eventualmente chocantes da cavaqueira que se segue. À cautela, e para evitar eventuais danos pelos quais o autor não se responsabiliza, os mais respeitadores da moral de Abril e dos bons costumes de Novembro deverão passar adiante e fazer de conta que não está aqui ninguém...


– Ainda te lembras do 25 de Abril?
– Então não lembro? Foi o dia mais feliz da minha vida!
– E de que é que te lembras mais?
– Eh pá!, tenho saudades daquelas coisas todas com que nós sonhamos, e que se frustaram...
– O que é que foi o 25 de Abril para ti?
– Foi uma grande esperança, um grande triunfo da esquerda, dos gajos como nós, que sempre estivemos na oposição. Mas agora o 25 de Abril é uma coisa amorfa, uma tristeza...
– E por onde é que ele anda?
– Eu acho que está na gaveta, segundo a versão de um político do PS, que foi Presidente da República...
– Esse foi o dr. Mário Soares e o que ele meteu na gaveta foi o socialismo...
– Meteu o socialismo e o 25 de Abril. Era uma época diferente, havia o Carlucci, um revolucionário americano que estava aqui exilado. Ri-te, ri-te...
– Isto está a dar para o torto, já percebi...
– Eu acho que isto está a dar para o direito. Isto é muito engraçado: o professor Freitas do Amaral, correlegionário do Dr. Oliveira Salazar, hoje é um tipo da extrema-esquerda. Isto é o país real, pá! O 25 de Abril... Eu digo-te, agora acho graça. Eu acreditei, e fui um privilegiado. Apareceu o 25 de Abril e gozei, uns dias... Mas agora...
– Foi um sonho lindo que acabou?
– Exactamente. Foi um sonho lindo, como dizia o meu admirado José Mário Branco, homem de grande talento. O Zeca Afonso, hoje, se fosse vivo também estava muito triste. Quem mais é que podia ficar triste? A Natália não, isso era uma burlona, uma aldrabona... Depois diziam que era poetisa. Uma aldrabona, pronto. Poeta era o patrício dela, lá o açoriano, das palavras, o professor...
– Vitorino Nemésio...
– Sim. Era um homem que ninguém sabia se era católico, se era de esquerda... Católico parece que sim. Agora isto está uma pouca-vergonha. Oh, Viriato!, isto agora só lá vai agora com banhos de semicúpios... Ou com pachos de borato de sódio nos colhões: colhão da esquerda, colhão da direita, vira para a esquerda, vira para a direita... Eh, pá!, isto é a realidade política!
– Isso quer dizer que estás desencantado?
– Porra, se estou! Isto foi muito grave, o que se passou! A gente estava à espera, e depois o Otelo... O grande gajo da revolução – chamemos-lhe revolução – foi o Salgueiro Maia, o outro é um charlatão, fez-se prender para ser herói, estás a perceber? Isto está muito mau, acredita! Tu és muito novo, não te dou conselhos, mas hás-de chegar a uma conclusão, daqui por mais dez anos que isto foi uma grande vigarice, o 25 de Abril foi uma grande burla. Olha, tem uma coisa boa: o restaurante lá em cima, no Bairro Alto, a Associação 25 de Abril...
– Quando tu dizes que o 25 de Abril foi uma burla, vamos lá a ver: o 25 de Abril foi um movimento de libertação...
– Eh pá!, de libertação relativa… Acabaram as guerras coloniais, isso tudo. Mas depois… Isto fez jeito à América, ao Salazar...
– O Salazar já tinha morrido...
– Pois, é defunto, mas o espírito dele ainda anda por aqui. Pergunta ao Marcelo Rebelo de Sousa se não anda. O rival do Santana Lopes. Comentaristas...
– Comentaristas sérios, não é?
– Patuscos...
– No 25 de Abril, tu ainda não tinhas cinquenta anos...
– Sim, para aí...
– E entretanto viveste mais trinta, como todos nós. Disso tudo, o que é que ficou?
– Pouca coisa. Vou-te explicar: ficou o triunfo do futebol, dos treinadores, dos balúrdios. O que é que ficou mais? A censura já existe outra vez na imprensa... O que é que ficou mais? Um parlamento amorfo... Olha, é um parlamento que o Camilo Castelo Branco chegava lá e desancava aquilo tudo à paulada! O que é que ficou? Pouca coisa, pá...
– Mas houve uma mudança de mentalidades, apesar de tudo, ou não?
– Havia mentalidades que eram de direita e de repente diziam-se da esquerda...
– Tu foste sempre um libertário, um tipo fora das normas instituídas.
– Procurei estar sempre.
– E, naturalmente, isso reflectiu-se na tua vida pessoal...
– Em relação ao trabalho, por exemplo: eu abandonei o teatro com fortes razões. Evidentemente que o 25 de Abril acabou com a censura, já foi uma grande benesse. Eu tive quadros em revistas do Parque Mayer – não fiz só Parque Mayer, fiz teatro universitário, fiz teatro amador – e a censura cortava, por dá cá aquela palha cortava. Portanto, claro que ganhámos uma liberdade, mas também ganhámos muita estupidez, sabes o que é? Eu vou dar-te um exemplo, deixa-me pensar para não dizer disparates. A televisão, no estado em que está não é melhor nem pior do que a que havia. Uns concursos miseráveis, os mesmos gajos que manobram os concursos, aquela mulher – esqueço-me do nome dela – que faz interrogatórios aos presos que saem da prisão, deves saber como se chama: teve um programa em que entrevistava os presos, tratam-na também por doutora...
– A Júlia Pinheiro?
– Essa, a Júlia Pinheiro. O 25 de Abril também dá Julias Pinheiros, dá Teresas Guilhermes, quem mais?
– Mas também há coisas positivas, ou não?
– Há, isso há. Olha, há um gajo bom, que escreve bem, é um cronista notável... Um gajo que é do Porto, e «doente» do Futebol Clube do Porto...
– O Miguel Sousa Tavares?
– Sim. É um gajo bom, a gente vê o que ele escreve, vale a pena ler. A sério, é um tipo com tomates. Depois, o que é que há mais? O Partido Comunista, que eu apoio – não sou militante, mas apoio – está muito amorfo. Quer dizer, não é carne nem é peixe, estão para ali...
– Queres tu dizer na tua que o país ficou cinzento…
– Cinzento escuro. Muito escuro!
– E pode mudar de cor?
– Acho muito difícil, a América não o deixa mudar de cor. Tu vês as cores que há na América Latina, os americanos é que mudaram a cor àquilo, eles põem a cor que querem, são uns cabrões! Tu sabes o que é ferrar vacas e bois? Eles põem as estrelinhas da Cat'rina, e está tudo fodido! É verdade! O que se tinha que fazer aqui era, primeiro que tudo, acabar com a América. Não é a América dos índios, percebes tu?, não é a América do partido comunista americano, que existe. Mas a América à maneira do Carlucci, do chewing-gum, das Madonnas... A América ia p'rò caralho, toda! Um tremor de terra na América...
– Mesmo depois do 11 de Setembro?
– O 11 de Setembro foi uma brincadeira... Eu estava na Figueira da Foz, com um amigo meu e teu, o António Macêdo. Estávamos em casa do Lucas Serra, um apartamento que ele nos cedeu, e estávamos ali a preparar um almoço, uns carapaus de escabeche. E o filho do Macêdo telefonou, «pai, pai, liga a televisão». Ainda vimos aqueles bombardeamentos, foi uma alegria! Mas foi pouco. Eu acho que a América devia ser toda bombardeada de baixo para cima, de cima para baixo... Norte, Sul, Este e Oeste, tudo!
– Mas, coitados, os americanos não têm culpa...
– Têm. Têm culpa porque são americanos. E só é americano quem quer. Eu sou de Angola. Tu és americano?
– Não...
– Tu és de Ílhavo, a terra do Castrim. Porra!, e eu sou de Angola, eu nunca quis ser americano. Só é americano quem quer.
– Achas que os americanos querem ser americanos?
– Querem. Eles são doidos, têm borbulhas na cara... Casam virgens, aqueles filhos-da-puta, estás a perceber? É um país idiota, analfabeto. Ora, quem tens tu de jeito na América? Os não americanos. Os grandes realizadores de cinema não eram americanos. Americano, naturalizado, foi aquele filho-de-puta, o Elia Kazan, que denunciou a esquerda americana, lembras-te? Eu acho que a América era para experiências nucleares. Com crianças e tudo. E tu dirás: ah, mas se há guerra as crianças morrem. Pois, mas então não se fazem guerras. Eu acho que se fazem as guerras até para matar crianças...
– Aliás, estão a morrer no Iraque...
– Aí é que já fico muito perturbado... Quem está a matar as crianças no Iraque é o sacana do imperialismo americano. Isso é que já me faz dor de dentes...
– Voltemos ao nosso 25 de Abril: o que é que faltou?
– Faltou um acordo, penso eu. O Partido Socialista foi inventado à pressão pelo Willy Brandt e pelo Mário Soares, que ficaram impressionados pela única força concorrente e organizada, que era o Partido Comunista Português... Faltou uma unidade que não houve. Depois seguimos os piores exemplos, até nos slogans – «El pueblo unido jamas será vencido» – de revoluções falhadas, como a do Chile. E havia aí uns gajos que em vez de gritarem «unidade, unidade», diziam «humidade, humidade»... Tu, que és um tipo muito mais novo do que eu, deves ficar um bocado desiludido com estas minhas atitudes. Mas isto é verdade. E mais tarde chegas lá, tu és um gajo duma esquerda progressista...
– Mas, vamos lá a ver, nem tudo é assim tão mau...
– Não, há gente que eu admiro muito: olha, ao nível do cancioneiro, por exemplo, gosto muito do Fausto, do Zé Mário Branco, do Sérgio... Do Zeca então nem se fala.
– Mas há mais...
– Deixa cá ver... Depois, de mulheres, já viste?, é só merda! Há aí uma Não-sei-quê Veiga, uma gaja roufenha, que não sabe cantar, é uma desgraça! Olha, pronto, é o país real... Eu acho que este país está a precisar de uma chuva de merda, mas não é merda raleira, é uma coisa que rompesse guarda-chuvas, volumétrica...
– Isso é uma grande merda!
– Tu brincas, Viriato, porque ainda és um optimista. Tens fé, esperança e caridade, mas eu não.
– Não estás optimista...
– Não. Só à bomba! Até o Alentejo está morto. Está podre como as espigas de trigo, as papoilas saltitantes que o Piçarra cantava, foi o hino do Glorioso. O que é que a gente há-de dizer mais disto? Isto é um país que só lá vai à pedrada!
– Em todo o caso estás disponível para outro 25 de Abril?
– Ah! Mas desta vez era a sério. Eu juro-te uma coisa: eu não sei nada de armas, mas agora, se me dessem uma, ia logo à caça dos malandros. Palavra de honra! Ia à caça desses gajos, pá! E ainda pode haver um outro 25 de Abril...
– Achas que sim?
– Começa a haver fome, não há habitação, o serviço hospitalar é uma merda, como tu sabes. Se amanhã tens uma gripe, vais ao hospital e dão-te uma aspirina; mas depois apanhas uma pneumonia e estás fodido, já tens que ir aos tubarões! Uma cáfila! Salazaristas. O que é que a gente pode dizer mais deste país?

In Contas à Vida de Viriato Teles - Ed. Sete Caminhos | 2005