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sábado, 23 de março de 2013

O militante do cinema


Manuel Cintra Ferreira 
(1942−2010)

Coisas boas em jornais

Cineastas favoritos: John Ford, John Ford e John Ford. Filme preferido: «A Desaparecida» que, reza a lenda terá visto mais de uma centena de vezes. Duvida-se que acredite já saber o filme de cor. Actor de eleição: John Wayne. Local de férias habitual: Campo de Ourique. Há aqui uma soberana harmonia que diz muito bem da pessoa que assim se passa para a prosa, nada turva, homericamente simples, porque quem sabe, sabe e não precisa de florear sobre o vazio. É muito fácil adivinhar de quem assim se fala. Manuel Cintra Ferreira, o crítico mais carismático da «praça» também por todas estas idiossincrasias, conhecido como possuidor de uma memória assombrosa e uma capacidade de trabalho verdadeiramente extraordinária.

Manuel Cintra Ferreira na antiga sala da Cinemateca. 1991. 
Foto Carlos Didelet, copiada do Jornal Se7e.

Segundo ele (porque eu acredito que se trata de um daqueles casos nascidos já com um gene estranho qualquer inatamente adaptado à coisa cinema), segundo ele, o vírus começou aos seis anos e foi o «coup de foudre». O filme era o «José do Telhado». As luzes, o movimento, tudo aquilo me apaixonou imediatamente. A partir daí sempre que podia estava lá caído.  Depois, foi como sempre é: aquilo que nos interessa passa doravante a ser objecto de um esquadrinhar sem tréguas até que o coração nos doa, e tem que ser muito. Primeiro os actores, que são para o garoto a parte mais real, estão ali, mexem-se. A seguir comecei a querer saber quem é que fazia, como é que se fazia, porque é que se fazia. Lia tudo o que havia. Não é muito dificil imaginá-lo tardes esquecidas na Biblioteca Nacional, quando esta era ainda sita no largo do mesmo nome, embrenhado em alfarrábios possantes, jornais e revistas (O «Diário de Noticias», o «Século»),  até chegar à fase de começar a elaborar fichas para nunca mais perder a mania.
A primeira prosa aconteceu de maneira curiosa e pela mão de Luís de Pina.  Pode-se dizer que foi ele quem, sem me conhecer, me iniciou nestas coisas da escrita. Foi através de duas cartas que lhe enviei a pedir (muitas) informações. Estava-se em 1959. Mais tarde MCF ingressa nos circuitos cineclubistas, que a curiosidade não era qualquer circuito comercial que a satisfazia. Acasos acabaram por o levar para o Cineclube Imagem, onde acabou por fazer parte da direcção durante vários anos. Foi por essa altura que comecei a escrever as minhas notazinhas — como ainda hoje, modesto, continua a referir os seus textos — em regime de voluntariado, é claro. Éramos uns carolas que faziam de tudo, desde traduções a textos originais. Foi aí que me tornei um verdadeiro militante do cinema.

John Wayne em A Desaparecida de John Ford.

No início dos anos setenta, devido a certos problemas que começavam a infectar o cineclubismo, afastou-se um pouco. Como aficcionado que se preza, porém, ia ver tudo, comprava todos os livros (insiste em ser sempre o primeiro a descobrir as novidades das Distris) e dedicava-se às revistas que iam aparecendo. Os sacrossantos Cahiers Du Cinema — que já então eu não via com muito bons olhos — (oh preconceitos!), a Positif, a Cinema Nuovo. Americanas nicles. E continuo a achar que os americanos têm vindo a colocar as questões do cinema de forma muito mais correcta que os franceses.
No período que sucedeu imediatamente ao 25 de Abril, também para estes lados as coisas aqueceram e começaram a surgir publicações nacionais diversas que MCF se diverte a recordar, fazendo sempre a vénia devida a Lauro António e a Duarte Ramos, os grandes impulsionadores de quase todos os actualmente nomes grandes da crítica. Entretanto, ia mais sobrevivendo que vivendo ali pelas bandas da Rua do Quelhas, como realizador da Antena Um, fazendo  coisas mais burocratas que criativas.  Não gosta de se alargar sobre o assunto que visivelmente não deixou grandes memórias. Até a Maria José Mauperrin o convidar para uma participação regular no memorável, saudoso, Café Concerto, onde apresentava apontamentos de tudo o que ao cinema dissesse respeito.

Manuel Cintra Ferreira no Café Concerto. 1983.
Foto copiada do Jornal Expresso.

A partir do meio dos anos oitenta já o seu percurso é público e a notoriedade inabalável. Aconteceu o «Expresso» (foi uma escola óptima, fundamental, com o João Lopes, o Leitão Ramos, o A.M. Seabra e o Vicente Jorge Silva),  a Cinemateca, a convite de Luís de Pina e Bénard da Costa e, mais recentemente, o «Público», onde escreve «como se disso dependesse a sua sesta». O Vicente meteu-se nessa história e fomos convidados a quase juntar a mesma equipa. Devo dizer que assim à primeira vista fiquei um bocado receoso. Mas acredito sempre numa experiência e nunca me arrependo. Aprendemos sempre qualquer coisa. Se eu soubesse o trabalho que me ia dar!... Ri-se e percebe-se que não está nem um pouco arrependido. Da capacidade de trabalho que aquelas páginas testemunham avança muito simplesmente: é que não consigo estar sossegado. Uma conversa, um filme, até a dormir estou sempre a pensar em coisas para escrever.  Garante que dorme o normal, deita-se à uma e levanta-se às sete. O normal. O normal?! Também deve achar normal os intermináveis ficheiros que possui sobre cinema, em papel e, sobretudo, na cabeça. E claro que é inacreditável. Só mesmo assistindo à frequência com que responde prontamente às perguntas de toda a gente sobre filmes estreados há um, dez, cinquenta anos, como se nada fosse.
Da crítica prefere não tecer considerações pessoalizantes, obviamente melindrosas, mas frisa o facto de ter havido períodos bem mais interessantes que o actual. Nos anos 30, altura do Cinéfilo e da Imagem, de António Lopes Ribeiro e José Gomes Ferreira, em que a critica era bastante capaz e agressiva e, depois, na altura do cinema novo, em que a critica era muito mais viva, provocante e, em certa medida, mais eficaz, não só para o público leitor como para a própria actividade cinematográfica. Sobre todas essas questões que são também o cinema, MCF afirma ser atribuição do critico pronunciar-se, coisas tão desagradáveis como ver um filme ser exibido num formato diferente daquele em que foi concebido, ou o desastre que é a exibição ser agora de pior qualidade do que quando havia censura, ou da forma como os filmes portugueses são, ou não são, exibidos. Mas, remata: o melhor crítico que existe é o tempo. Daí achar um pouco forçado autodenominar-se crítico. Sou um tipo que gosta daquilo que faz, tenta valorizar aquilo que gosta e não sente necessidade de destruir necessariamente aquilo de que não gosta.
Do que gosta verdadeiramente é do conceito de comunhão que Ford foi o melhor a encenar, a amizade de uma consistência que não é pedida, é dada. É algo que é mais ideal que existente: é pena... O gosto pelos temas fordianos não é igual ao amor dos natais ou sequer a uma relação familiar particularmente motivante. Sou, digamos uma pessoa com raízes. E tenho uma memória com uma certa força. São, decerto,essas raízes, que lhe permitem dizer que o cinema é Ford e o resto são satélites, ou que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Sem ter medo dessas graças generalizantes porque sabe muito melhor que muita gente que é também dessas substâncias, crenças irremediavelmente certas, que são feitas as raízes. São com certeza elas também as responsáveis pela imensa disponibilidade de MCF que continua a correr com muito gosto, incansável, a enganar o tempo e as matérias a seu bel-prazer. Exactamente como faz o cinema.

Teresa Carmo
Se7e
21-11-91

terça-feira, 5 de março de 2013

O amante de Laura


Dana Andrews e o retrato de Laura.
Foto de avaxhome.ws

Gene Tierney e Dana Andrews (colorizados) em "Laura" de Otto Preminger. 1944.
Foto de www.fabuloushollywoodmemories.com


O amante  de Laura
Texto de
Manuel Cintra Ferreira
Expresso,  24  Dezembro  1992


Coisas boas em jornais

MESMO que outro papel não tivesse feito, bastava-lhe ter sido o apaixonado de Laura para Dana Andrews (...), ter garantido o lugar no panteão dos mitos de Hollywood. Paixão, primeiro, por uma imagem (o retrato), depois pela sombra (que se delineia em contraluz), depois pelo corpo. Querem evolução mais cinéfila? É esta  imagem, mais do que a da sua dependência do álcool, que fica na memória dos que acompanharam a sua carreira. Porque Andrews, não foi apenas o «amante de Laura». Começou como secundário, enfrentando Gary Cooper em A Última Fronteira,  de William Wyler, e percorreu as planícies do Oeste ao «lado» de Kit  Carson (As Aventuras de Kit Carson). Ao lado de Belle Starr  (A Lenda da Raposa Vermelha) tem o primeiro encontro com Gene Tierney, com quem formará um par mítico do cinema em Laura e O castigo da Justiça. Se não alcançou um estatuto de primeira grandeza, teve, porém, uma filmografia invejável. Alguns dos melhores realizadores americanos souberam explorar o seu rosto singular e pétreo, que parecia não deixar ver as emoções, mas de onde ressaltava, com frequência uma espécie de turbação inquietante. Que se julgue pela lista : Jacques Tourneur (Amor Selvagem, Noite do Demónio, Os Fabricantes do Medo), Renoir (Águas  Sombrias), Ford (A Estrada do Tabaco), Wellman (Consciências Mortas), Wyler (Os Melhores Anos da Nossa Vida), Preminger (Laura, O Castigo da Justiça, Anjo ou Demónio, Entre o Amor e o Pecado) e, «last but not least», Elia Kazan (Crime sem Castigo e o seu último filme importante, O Grande Magnate). Uma lista de fazer inveja a vedetas mais famosas.

Manuel Cintra Ferreira
Expresso,  24  Dezembro  1992


Dana Andrews (1909-1992). Califórnia. 1944. John Florea.
Foto de LIFE Archive

 Gene Tierney (1920-1991) é a Laura de Preminger.
Foto de ocinema.blogs.sapo.pt

Em 1983, encontro de Dana Andrews, Gene Tierney e Vincent Price em Hollywood.
Foto de greggorysshocktheater.tumblr.com



sábado, 3 de novembro de 2012

Cinemas onde vi filmes: O Politeama


«A fachada do novo teatro Politeama depois de retirado o tapume: o emprezario sr. Luiz Pereira à janela.» Foto Joshua Benoliel, copiada da revista Ilustração Portugueza de 22-12-1913.


Ao Politeama fui muitas vezes já adolescente e depois em adulto, creio que deixei de ir lá a seguir ao 25 de Abril, quando comecei a querer ver outro tipos de filmes. No Politeama, fui expulso uma vez porque não tinha idade para ver o filme (já não recordo qual, sei que tinha 15 ou 16 anos e o filme era para maiores de 17), mas o "sacana" do porteiro que já me tinha cortado o bilhete, quando reparou em mim, foi-me buscar ao hall e meteu-me na rua. Geralmente ia para os lugares mais baratos que era no chamado galinheiro e parecia que estava no 3º anel do estádio da Luz.
Anos depois em 1989, voltei ao Politeama para fazer as luzes de uma peça (Final de Samuel Beckett), encenada pelo Mário Viegas, que tinha conseguido o empréstimo? da sala entre as 19h e as 21h, porque as sessões de cinema continuavam às 14h, 16h e 21,30h. Passei cerca de três noites no Politeama depois da última sessão de cinema, o que quer dizer que só começava a trabalhar por volta da meia noite. O Mário Viegas pediu à Secretaria de Estado da Cultura alguns projectores e a mesa de comando e eu montei todo o material. 


A sala do Politeama em 1944/45. Estúdio Mário Novais.


Estava sozinho  e digo-vos que é um bocado assustador estar num edifício antigo, sozinho durante toda a noite, ouve-se o ranger das madeiras e parece-nos outra coisa. Além disso circulavam umas histórias de fantasmas (como existem em vários teatros antigos), mas o esquisito é que de vez em quando cheirava a rosas nos bastidores e não havia lá flores nenhumas, nem outra coisa que pudesse deitar aquele cheiro. Tentava não pensar nisso e lá fiz o trabalho de iluminação, que foi difícil, porque a parte principal da iluminação, teve que ser montada no galinheiro e dentro do palco não havia sitio para pendurar projectores. Tive que os pendurar na cortina corta-fogo (que é toda em ferro) e segurá-los com arames. A iluminação da peça no palco, foi mais difícil porque o écran subia e quando descia para as sessões de cinema, não podia haver projectores no seu caminho, o que colocou algumas limitações, mas lá se fez um trabalho digno e a peça ganhou o prémio do espectáculo teatral do ano. Muitas vezes encontra-se referências na net e não só, dizendo que foi o Filipe La Féria, que reabriu o Politeama para o teatro (desde os anos 60). Não é verdade, foi o Mário Viegas em 1989 e ainda nesse ano voltei a fazer iluminação de uma peça de A Barraca, que aproveitou a ideia do Viegas e fez lá no Politeama a peça " O Menino de sua Mãe", baseado em Fernando Pessoa, com a Maria do Céu Guerra, a Ilda Roquete e o José Maria Pinto.


Teatro Politeama em 1990, à espera do La Féria. 1990. Michel Waldmann.


Os 75 anos do Politeama
Texto de Manuel Cintra Ferreira em 1988

EMERGINDO das camadas de sujidade que lhe desfiguravam a fachada, o velho Teatro Politeama retoma uma imagem que ainda há poucas décadas era a de uma das salas mais populares de Lisboa. A limpeza que ali decorre tem a ver com os novos projectos que a Lusomundo tem para a velha sala da Rua das Portas de Santo Antão, procurando reconquistar o público com uma programação mais cuidada, estando a inauguração prevista  para o dia 6, data em que o Politeama comemora os 75 anos de existência. Não são muitas as salas que se podem orgulhar de terem resistido ao camartelo durante tanto tempo, e menos ainda as que prosseguem o mesmo tipo de actividade. 


A sala do Politeama. 1944/45. Estúdio Mário Novais. Ver as fotos seguintes.

Félix Ribeiro no seu livro  Os Mais Antigos Cinemas de Lisboa  dá conta da forma com surgiu o Teatro Politeama, uma obra a cargo do arquitecto Ventura Terra, e resultado da iniciativa de Luís António Pereira. A sala foi inaugurada a 6 de Dezembro de 1913, na presença do então Presidente da República Manuel de Arriaga e de Afonso  Costa, com a opereta Valsa de Amor
Este tipo de espectáculo terá ali, carácter dominante durante algumas décadas; apesar de, logo no ano seguinte, a 10 de Setembro de 1914, terem tido início as exibições cinematográficas com o filme de Carmine Gallone La Donna Nuda (A Mulher Nua) interpretado por Lyda Borelli, uma das actrizes italianas que António Ferro incluiu no Grandes Trágicas do Silêncio. Só a partir do princípio da década de 30 a sala passará a apresentar maioritariamente uma programação cinematográfica, embora o seu palco continue a ser usado, com frequência  até fins dos anos 40 por várias companhias de teatro, entre elas a Companheiros da Alegria. 


Hall ou a sala de fumo do Politeama. Aumentando a foto dá para perceber que o filme que está nos cartazes é A Mulher do Cabelo Vermelho (Lady with Red Hair, 1940) de Curtis Bernhardt, que estreou em Portugal em 28 de Dezembro de 1944 e saiu de cartaz em 04-01-1945, o que significa (em principio), que todas as fotos do Estúdio Mário Novais, são de 1944 ou inicio de 1945. Mas, também pode ter acontecido ter havido uma reposição do filme anos depois. Ver a seguir os anúncios dos filmes no Diário de Lisboa de 1944 e 45.

Seria ainda outra das «trágicas» italianas, Francesca Bertini, a inaugurar em 1927, uma temporada de maior regularidade na apresentação de filmes, com Monte Carlo (O Fim de Monte Carlo), realizado em 1927 por Mario Nalpas. Com estreias e reposições de filmes que então se incluíam numa designação de «filme d'arte», herdeira daquela que no começo do século teve início em França com O Assassinato do Duque de Guise, a sala adquiriu um certo prestígio. Foi lá que teve lugar, em 1916, a estreia do famoso Cabíria, de Pastrone, que se diz ter influenciado Griffith para o seu  Intolerância, e lá teve lugar  também aquele que se pode considerar o primeiro acto de censura sobre um  filme em  exibição em Portugal. Foi em 1917, em Novembro, quando o país estava em guerra, e era ministro da dita o general Norton de Matos que mandou retirar de exibição o filme de Thomas Inos, Civilização. As razões invocadas tinham a ver com as teses pacifistas que Civilização defendia (o filme, americano, datava  de 1916 e fora feito antes da intervenção dos EUA na Grande Guerra). A proibição não foi recebida de bom grado e deu origem a uma certa agitação em frente do cinema, que provocou mesmo a intervenção da GNR a cavalo. 


Anúncios no Diário de Lisboa em 28-12-1944 e 04-01-1945.


Quando nos anos 30 as sessões  de cinema  entraram numa relativa regularidade, o modelo utilizado, era, regra geral, o «double bill», o programa duplo, à excepção de uma ou outra obra de prestígio que por si só fosse suficiente para atrair  o público. 
No chamado lote dos filmes «de prestígio», durante o mesmo período, são vistos,  O Último Escravo, de Leo McCarey, O Malvado Zaroff,  de  Ernst Schoedsack, Não Sou  um  Anjo, com Mae West, Os Quatro Espiões de Hitchcock e O General Morreu  ao Amanhecer de Milestone, entre outros. Vale a pena destacar que, em 1937, é apresentado no Politeama A Filha do Bosque Maldito, o segundo filme a usar a nova fórmula do Technicolor dois meses depois da estreia do primeiro filme feito com este processo: A Feira da Vaidade. A programação durante esses anos divide-se entre a Columbia, a Warner Brothers e a Paramount, ainda que em breve a segunda ao lado da RKO, passasse a ocupar, quase exclusivamente, aquela sala, no que foi, talvez; o período mais rico da sua existência. Antes, porém, a  sala do Politeama serviu ainda de lançamento a uma curiosa experiência. 


A história do Politeama por Manuel Félix Ribeiro, em OS MAIS ANTIGOS CINEMAS DE LISBOA 1896-1939, edição da Cinemateca. Clique para ler.


Foi no, início de 1940. A distribuidora Lisboa Filme formara-se recentemente e apresentara nessa sala, em Novembro do ano anterior, os primeiros filmes do seu catálogo: A Linha Siegfried  e Precisam-se de 13 Mulheres, ambos alemães, o primeiro um documentário sobre a famosa linha que se opunha à francesa Maginot (isto mesmo no início da guerra). Também alemães foram os filmes que nesses começos de 1940 passaram de forma, original, naquele cinema:  O Chapéu Florentino e Hora de Tentação que apresentavam a particularidade de serem parcialmente dobrados em português. A experiência foi, no entanto, efémera, apesar da curiosidade do primeiro para o qual foi filmada uma introdução, cujo autor tudo indica ter sido Arthur Duarte, e que contava com a participação de, entre outros, Manuel dos Santos Carvalho. Um trabalho que hoje se julga perdido. A nova tentativa de  dobragem morreu à nascença. 


Lista dos filmes para estreia no Politeama, na época de 1948-1949  e planta do Politeama em: Plantas e Programas dos Cinemas de Estreia em Lisboa, época 1948/49. Esta publicação de 1948 era distribuída pela companhia de seguros Mundial Confiança aos clientes.


Os  anos 40 e parte dos 50: são os mais prolixos do Politeama, tanto em qualidade, como no número de êxitos  comerciais. Em parte, como já se disse,  devido a programação com base em  filmes  da  Warner  e  RKO, primeiro,  e da Fox, depois. Em especial os filmes com Errol Flynn que provocavam verdadeiras enchentes: sete semanas para Aventuras de Robin dos Bosques, outras tantas para o Gavião dos Mares, quatro para Vida Nova: Os números podem ter pouco sentido hoje em dia, mas um sucesso comercial,  então, media-se pelas duas ou  três semanas. Imbatíveis foram as 8 semanas com que Casablanca entusiasmou os cinéfilos lisboetas. E não só. Estreado só em 1945, já no fim da guerra, a sua exibição era pretexto para algumas manifestações contra regime,  especialmente no momento do filme em que se canta a Marselhesa cujo coro se  confundia com o da plateia. 


 O Politeama e a Rua das Portas de Santo Antão. A da esquerda é de Alberto Carlos Lima e só se sabe que é posterior a 1913. Possivelmente será da década de 30. A da direita é de Arnaldo Madureira e foi tirada por volta de 1960.

Os anos 50 assistiram ao progressivo predomínio da Fox, em especial a partir de 1954, com a inauguração do Cinemascope, sendo o Politeama a quarta sala a o utilizar o novo formato, depois do Tivoli, S. Jorge e S. Luiz. No fim desse ano, o ecrã largo do  Politeama apresentava a continuação de A Túnica, Demétrio O Gladiador. Mas, o maior sucesso comercial dessa década teria lugar em 1956 com o filme de Hathaway, O Fundo da Garrafa, segundo uma novela de Simenon, que esteve em exibição 8 semanas. Outro triunfo desse anos foi o cómico mexicano Mario Moreno (Cantinflas), cujos filmes, distribuídos pela Columbia, eram quase um exclusivo deste cinema. É a partir de 1957 com Cantinflas na Ribalta, primeiro, e O  Bolero de Raquel, depois. 


«Foi no Politeama por volta de 1916 que se estreou "Cabiria", o famoso filme italiano de Giovanni Pastrone». «Para inauguração da sua temporada 1927/28 o Politeama escolheu um filme da famosa e belissima actriz Francesca Bertini. Assim a partir de Outubro de 1927 pela tela do Politeama, por onde alguns filmes de Francesca Bertini haviam anos antes corrido, voltou a imagem da popularissima actriz italiana a ser projectada». (Manuel Félix Ribeiro)

Será, aliás, Cantinflas a única nota, de êxito a partir do fim da década de 50 quando  a programação começa progressivamente a cair numa irremediável mediocridade. Cinema de características populares, o Politeama passa a reflectir a deterioração dos modelos  da série B, recorrendo profusamente ao «peplum» e ao «western spaghetti», e a um estilo de comédia erótica de características «soft». As recentes tentativas de recuperação da sala não tem sido felizes. 
Ao optar por um filme como Tucker, a obra-prima de Francis Coppola, para a reabertura do Politeama parece haver, por parte dos seus responsáveis, uma decidida vontade de lhe devolver o velho prestígio. 

Manuel Cintra Ferreira 
Expresso, 03-12-1988


Noticia sobre a inauguração do Polytheama em 1913 e critica à Opereta com que o teatro foi inaugurado  no jornal A Capital - Diário Republicano da Noite, dias 5 e 7 de Dezembro de 1913. A noticia da direita é de 1968 e conclui-se dela que a Gulbenkian organizava Bailados regularmente no Politeama e que, tinha havido grandes obras no Teatro.


Entrevista com o Gerente do Politeama em 1970



Em 1970, o critico Eduardo Geada e o jornal A Capital fizeram uma série de entrevistas aos distribuidores de filmes, exibidores e gerentes de cinema, que são um grande retrato da comercialização e exibição de filmes em Lisboa em 1970. Neste caso, o entrevistado é Correia de Melo, gerente do Politeama desde 1967. «Pretendo  fazer voltar ao Politeama o prestígio que antigamente tinha. Determinado público foi-se habituando a ver neste cinema filmes de accão, mas eu gostava de, sem perder o público actual, reconquistar também os espectadores que gostam  de outro género de filmes. Por isso, este ano vamos inaugurar  a temporada com um filme de Carlos Saura. Como a coisa tem  de  ser  feita gradualmente, já comecei a apresentar alguns espectáculos de «ballet» para um público de escol e prossigo com as sessões clássicas dos  «Romances  de Amor» que o Politeama inaugurara há bastantes anos. O meu maior  problema consiste  em obter  filmes de grande nível que chamem o público. Somos um cinema independente a esgrimir sozinhos contra poderosos grupos de exibidores que apanham quase sempre os melhores filmes. A maior parte das vezes somos obrigados a fazer o contrato sem ter visto os filmes ou a aceitar outros para poder escolher o que queremos; chegam mesmo a apresentar-nos apenas uma lista limitada aos filmes de acção. O meu projecto é entremear os filmes de aventuras com outros de maior qualidade, para  o que  seria ideal o apoio de um distribuidor. E claro que o exibidor pode vir a influenciar a programação dos distribuidores se recusar sistematicamente determinado género de filmes bastante maus, que são normalmente os mais baratos. Mas para isso  é necessária a  força de mais de uma sala exibidora que garanta o escoamento e o apoio, do cinema de qualidade.»



Alguns filmes (para não lhe chamar outra coisa), que passaram no Politeama


Este de Michael Curtiz é o melhor de todos os filmes destes anúncios, foi em 1955.


O Politeama em 1965?. Foto copiada de jornal.

 Anúncios em 1966.

Anuncio de 1966.

 Anúncios de 1968 e 1972.


Anos 70 ou 80. Foto copiada de jornal.

Anos 70 ou 80. Foto copiada de jornal.

Há poucos anos atrás, estava assim o Politeama. Antes isso. Foto da net.



(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML e da Fundação Calouste Gulbenkian)




segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A GUERRA DOS APACHES

«...vi apodrecer muitos corpos humanos, mas nunca fui capaz de ver a parte a que se chama espírito; não sei o que seja; nunca fui capaz de perceber essa parte da religião cristã.» 
Jerónimo na sua auto biografia, citada por Manuel João Gomes, Jornal de Letras 25-08-1986


Coisas boas em jornais
Manuel Cintra Ferreira
Expresso, 27-05-1994

Jerónimo (Guiyatle), Apache. 1898. Frank A. Rinehart. Foto de commons.wikimedia.org


«OS PASSAGEIROS de um comboio que cruza o Novo México e o Arizona encontram no percurso uma pequena povoação de nome Jerónimo. É um dos muitos vestígios que, numa região bem conhecida dos cinéfilos por ser invariavelmente palco de «westerns», testemunham a presença do último povo guerreiro a enfrentar a máquina de guerra da jovem nação EUA, formada nos territórios dos americanos nativos (Chiricahua Mountains, Chiricahua Peak, Apache Pass, etc.), após a sua expulsão por levas sucessivas de emigrantes europeus.
Vindos do Norte, os povos que formaram as várias famílias de apaches (que a si próprios se chamavam «dineh», o povo, sendo o termo «apache» de criação espanhola, inspirado num vocábulo do dialecto zuni que significava inimigo) ocuparam há alguns milhares de anos uma região de fronteiras fluídas, que iam de parte do Arizona de hoje até ao Norte do México. O primeiro contacto com o «homem branco» fez-se com os «conquistadores» espanhóis, que buscavam as sete cidades de Cibola, o mítico El Dorado. Encontro pacífico e, de certo modo, proveitoso, na medida em que foram os espanhóis que trouxeram uma das suas bases de alimentação e indústria futura, os carneiros, além do cavalo. Se as relações rapidamente perderam o carácter pacífico, a norte do Rio Grande os conflitos geravam-se apenas com tribos inimigas, os kiowas, em especial, que na sua família incluíam também uma tribo de origem apache, adversária dos seus irmãos de língua do Sul.


Prisioneiros Apache, a caminho de Fort Marion, incluindo Jerónimo (primeira linha, terceiro da direita), sentados em um barranco fora do vagão de trem, perto de Nueces Rio, no Texas. 1886. Arizona. Foto de commons.wikimedia.org

Até meados do século XIX. Os apaches encontram os americanos pela primeira vez em 1848, aquando da guerra destes com o México. É chefe dos apaches mimbrenos Dasodahe, a quem os mexicanos deram o nome de Mangas Coloradas. O encontro é pacífico, pois aquela guerra nada tem a ver com os apaches. Pacífica é também a recepção de uma companhia de dragões americanos (soldados de infantaria) em 1856, que cruzavam o Arizona na sua expansão para o Pacífico. Cochise — que mais tarde dirá «quando eu era jovem andava por todo este território e nunca vi outro povo além dos apaches» — recebe os intrusos de forma cordial. A paz, porém, é breve. Atrás dos soldados vêm pioneiros e pesquisadores que ameaçam os índios que se aproximam dos seus acampamentos.
Em 1861, Cochise é atraído a uma emboscada para ser preso acusado falsamente de rapto de uma criança. Evade-se, mas os seus companheiros não têm tanta sorte. Começa então a primeira guerra apache, com Mangas Coloradas chefiando os seus, a que se juntam os chiricahuas de Cochise. O combate mais importante tem lugar em Apache Pass (a 15 de Julho de 1862), em que 300 soldados americanos caem numa emboscada. O Governo americano procura utilizar com estas aguerridas tribos a táctica aplicada com sucesso nas tribos das planícies: a força e a negociação para os colocar em reservas. Em 1863, Mangas Coloradas é assassinado na prisão (espicaçado com baionetas em brasa na prisão, Mangas é forçado a reagir, sendo de seguida abatido com quatro tiros na cabeça «por tentativa de evasão»). Cochise toma a liderança tendo como braço-direito um outro chefe famoso, Vittorio dos Mescaleros. Junta-se-lhes outro guerreiro chiricahua que irá dar que falar, Goyathlay, conhecido pelo nome espanhol de Jerónimo.


Grupo de Apaches a sul do Arizona, fotografados (antes de 1886) enquanto estavam sendo perseguidos por um terço do Exército dos EUA (20.000 homens) e mais 3.000 soldados mexicanos. Esta é a única fotografia existente de uma força americana nativa em luta contra o Exército dos EUA. Totalizando cerca de 39 homens, mulheres e crianças, este grupo de Apaches incluia Naiche, filho de Cochise (a cavalo) e Jerónimo (em pé na frente de Naiche).  Foto LIFE Archive.

Até 1872 os apaches resistem num território cada vez mais reduzido, explorando a seu favor a fronteira  com  o México (a Sierra Madre será em 1885 e 1886 o último refúgio de Jerónimo), Nesse  ano, Cochise rende-se graças aos esforços do general O.O. Howard e de Tom Jeffords, que tinha a confiança de Cochise. Se tal foi possível deve-se também ao impacte que teve na imprensa de Leste o massacre da reserva de Camp Grant, em Abril de 1871, quando a população de uma região próxima massacrou mais de uma centena de pacíficos apaches aravaipa que ali viviam da agricultura. O Presidente Grant quer ver o problema apache resolvido e envia para a região o general Crook. A táctica deste militar consistiu na busca de uma alternativa para a solução militar, com criação de reservas e tentativas de aproximação aos resistentes para negociações. A rendição de Cochise foi o primeiro resultado. Crook recorreu a outro método para esta aproximação e combate: o uso de apaches «assimilados». Estes revelar-se-ão úteis na campanha de 1873/4 contra os apaches tontos, dirigidos por Delshay, que terminou com a morte deste e a sua cabeça exposta à entrada da reserva.
Em 1875 a maior parte dos apaches estão encerrados em reservas, vivendo em condições precárias, apesar do esforço de brancos bem intencionados (Jeffords e John Clum, responsável pela reserva de San Carlos) e de apaches cansados de guerra, como Taza, um dos filhos de Cochise, que toma a chefia da tribo após a morte do pai em 1874. Taza não tem o carisma de Cochise e a reserva começa a agitar-se devido às dificuldades de vida. Em companhia de Jeffords, Taza vai a Washington interceder pelo seu povo junto do Presidente, mas morre de uma febre, levantando suspeitas no seu irmão Naiche. Em San Carlos, incapaz de impedir os atropelos às suas tentativas de auxílio aos índios, John Clum demite-se. A agitação aumenta e Vittorio evade-se com a tribo de White Spring.


A partir da esquerda: Yahnozah (irmão de Jerónimo), Chappo (filho de Jerónimo), Fun (segundo primo de Jerónimo) e Jerónimo, Tombstone, Arizona.  Foto tirada no acampamento antes da rendição ao general George Crook em 27 de marco de 1886. Foto encontrada em hem.passagen.se

De 1877 a 1880 decorre a nova «guerra apache», com Vittorio refugiado no México e lançando a partir daí mortíferos ataques-surpresa. A 14 de Outubro de 1880 tem lugar o massacre de 3 Castillos, desta vez a cargo dos mexicanos. Vittorio morre em combate ao lado de 78 apaches. Nana, outro dos chefes, consegue escapar com 30 sobreviventes, tomando a direcção da guerrilha. As suas operações provocam agitação nas reservas de White Mountain e San Carlos, da qual se evadem Jerónimo, Naiche e mais 70, que se refugiam na Sierra Madre. Em 1882, Jerónimo regressa a San Carlos e leva consigo outros apaches. Enquanto isso, os soldados mexicanos atacam o refúgio matando mulheres e crianças. Jerónimo com os seus junta-se a Nana. O general Crook, que entretanto fora enviado para combater os índios da planície, regressa em 1882 com ordens para acabar de vez o conflito. Crook consegue, ao fim de várias tentativas, chegar a Jerónimo, convencendo-o a render-se, na Canon de los Embudos. Jerónimo aceita desde que possam voltar a San Carlos e não irem para a Florida. Para sua surpresa, Crook aceita. Porém, o Governo não esteve pelos ajustes, e o compromisso de Crook não passou das palavras.
Inicia-se a última fase do drama apache. Descontentes com o resultado, mas também manipulados por comerciantes que procuravam um pretexto para correr com os índios, embriagando-os e lançando boatos, Jerónimo e Naiche fogem de Forte Bowie com 34 homens e uma centena de mulheres. Outro chefe, Chato, recusa-se a segui-lo, e será, mais tarde, um dos auxiliares do exército na última perseguição ao velho guerreiro. Outro será Alchise, um dos filhos de Cochise. A sua evasão leva o Governo a demitir Crook; substituindo-o pelo general Nelson Miles. Entre os fugitivos, há também dissenções: Jerónimo procura levar o seu povo para a Sierra Madre sem combates, o que provoca a separação de outro chefe, Chihuahua, cujos ataques na região serão atribuídos a Jerónimo.
Durante 1886, Miles vai utilizar forças incríveis para perseguir o pequeno bando: 42 companhias do exército americano, 500 batedores, milicianos e não regulares, para além dos mais modernos instrumentos de comunicação em uso, enquanto do outro lado da fronteira 4000 soldados mexicanos perseguem o mesmo objectivo. Mas, mais uma vez, será apenas através de enviados (o oficial Gatewood e dois apaches) que conseguirá chegar a Jerónimo.


Jerónimo e Naiche, (filho de Cochise, líder dos Apaches), a cavalo, ladeados por Chappo (filho de Jerónimo), à direita e um homem não identificado (segurando um bebê). 1881-1885. Local e fotógrafo desconhecidos. Foto de otrwjam.files.wordpress.com


Jerónimo rende-se a Gatewood na Sierra Madre e desta vez o seu destino será a Florida. Preso o último chefe segue-se a limpeza: todos os apaches, mesmo os colaboradores e os pacíficos aravaipas são enviados para os pântanos da Florida em 1886. Os velhos amigos dos apaches, Crook, John Clum e Hugh Scott desencadeiam uma campanha para ajuda. Agora que o perigo passara, os corações de Leste comovem-se. Os aravaipa regressam a San Carlos, enquanto velhos inimigos dos apaches, os kiowas e os comanches oferecem ao povo de Jerónimo parte da sua reserva em 1894.
Em Forte Still, em 1909, morre Jerónimo, já uma lenda, mas vivendo os últimos dias da venda de postais seus e de recordações aos turistas, deixando uma autobiografia escrita em colaboração com S.M. Barrett, e dedicada ao Presidente Theodore Roosevelt (apesar de inicialmente proibida pelo War Department), que se encontra editada em português pelas edições Antígona. Em 1912, o cinema apoderava-se da sua imagem com o filme Geronimo's Last Stand.
Em 1866 o Governo americano promulgara a lei dos Direitos Cívicos reconhecendo a igualdade de negros e brancos (em consequência da vitória do Norte). Aos americanos primitivos não foi sequer reconhecido o direito de existirem como cidadãos. A política do Departamento dos Índios só viria a ser alterada na década de 30 deste século. Até então, eram prisioneiros na sua terra. Durante a Primeira Guerra, os americanos primitivos que prestaram serviço militar voltaram como prisioneiros para as reservas após o conflito.»

Manuel Cintra Ferreira
Expresso, 27-05-1994

Como Jerónimo viu o Cinema


"Particularmente significativa é a  reacção de Jerónimo ao contacto com a civilização americana, depois de se ter rendido e submetido ao cativeiro. Os carcereiros levaram-no mais de uma vez a assistir e participar em manifestações mais ou menos espectaculares e artísticas, ao cinema, à exposição internacional de Saint-Louis, onde pôde vender, autografadas, fotografias suas, com o que ganhou muito dinheiro (2 dólares diários, no princípio do século, não era pouco). Aqui fica como ele viu o cinema:"  «Um dia fomos ver um outro espectáculo e, mal entrámos, fez-se noite. Era noite a sério, porque senti a humidade do ar; às tantas começou a trovejar e a relampejar. Os  relâmpagos eram verdadeiros, porque o estrondo era mesmo por cima das nossas cabeças. Protegi-me e quis fugir, mas não sabia como havia de sair dali.(...) Diante de nós apareceram então pessoas pequenas e estranhas; depois tornei a olhar para o ar e vi que as nuvens tinham desaparecido e que brilhavam já as estrelas. As pessoas pequenas pareciam levar pouco a sério o que faziam e eu fiz troça delas. Mas as pessoas que estavam ao meu lado pareciam fazer troça de mim.»
Jerónimo na sua auto biografia, citada por Manuel João Gomes, Jornal de Letras 25-08-1986

Os últimos guerreiros


Os Apaches, vistos por John Ford. Foto do filme Forte Apache (1948), encontrada em cockeyedcaravan.blogspot

«JUNTAMENTE com os índios das grandes planícies, em especial os Sioux e os Comanches, os Apaches são a presença mais frequente no cinema. Ainda antes do «western» se constituir como género, a figura do seu último chefe, Goyathlay (Jeronimo), seria objecto de uma abordagem em Geronimo’s Last Stand (1912). Contudo, a imagem que vemos raramente corresponde à realidade, pelo menos até há bem pouco tempo. Os seus intérpretes (secundários e figurantes) misturam mexicanos, brancos e índios de outras tribos (John Ford, por exemplo, usava os Navajos, tribo próxima, mas culturalmente diferente, para os Apaches de A Cavalgada Heróica e Forte Apache). Quanto aos intérpretes principais, quando a história o requeria, cabiam geralmente a actores brancos maquilhados, mesmo nos tempos em que começou a mudar o olhar sobre o americano primitivo, a década de 50: Jeff Chandler ou John Hodiak, como Cochise, Burt Lancaster em O Ultimo Apache, Jack Palance em O Apache Branco, Michael Pate, em Hondo, Rock Hudson (!) em Herança de Honra, mais tarde Chuck Connors no Geronimo de Arnald Laven e Charles Bronson como Chato em Desforra Apache. Mesmo o Geronimo de Walter Hill é interpretado por Wes Studi, um Cherokee. Foram, aliás, estes «biopics» que marcaram a revisão da imagem do Apache no cinema: Cochise aparece em três filmes (A Flecha Quebrada, Cochise, Gigantes da Planície), Jerónimo tivera já direito a «biopic» em 1938 (mas na faceta de «inimigo público»), Taza em Herança de Honra, Vittorio em Hondo, o agente dos índios John Clum, interpretado por Audie Murphy, em As Fronteiras do Orgulho.


A rendição dos Apaches por John Ford em Forte Apache (1948). Foto encontrada em www.doctormacro.com

De qualquer modo, a imagem do Apache percorre o cinema de Hollywood ao longo de dezenas de «westerns», na esmagadora maioria apresentados como irredutíveis selvagens. As excepções encontram-se a partir de 1950, mas o olhar sobre eles enferma de uma visão simplista, invertendo de súbito a situação: o guerreiro passa a vítima. Se a intenção é «boa», o resultado é o apagamento de uma das suas maiores qualidades: o arreigado amor liberdade e a luta implacável que levaram a cabo para a preservar. Esta visão «rousseauniana», que marca grande parte dos «westerns» dos anos 50 (de A Última Caçada a O Caçador de Indios) e se prolonga nas décadas seguintes (As Brancas Montanhas da Morte, O Pequeno Grande Homem), tem algumas surpreendentes excepções que resultam menos das intenções dos filmes do que da leitura que deles se faz: Forte Apache (1948), O Apache Branco e A Fuga de Forte Bravo ambos de 1953, Ulzana, o Perseguido (1972), podendo-se também ter em consideração O Ultimo Apache, de 1954. Os dois últimos, dirigidos por Robert Aldrich, colocam-se já fora do que se chamou «apacheria»: são resistentes individuais, sobre os quais é lançado o mesmo olhar que depois se deitou aos últimos pistoleiros. O Ultimo Apache fica viciado por um «happy-end» imposto pela companhia: Masai (Lancaster) é deixado em paz quando lhe nasce o filho. O argumento original terminava com o índio abatido pela patrulha que o perseguia. Ulzana, o Perseguido, é mais irredutível: Ulzana lança-se numa guerra privada para recuperar o filho capturado pelos brancos, e o argumento não procura justificações ou alibis humanistas.


Dustin Hofman em O Pequeno Grande Homem de Arthur Penn; um outro olhar sobre os índios. Foto encontrada em www.toutlecine

É também este o olhar de John Ford no filme que primeiro retratou o americano primitivo com dignidade: Forte Apache. Se a história do filme é outra, a presença dos Apaches é feita em traços fortes, expondo-se as razões que os levam para a luta sem tréguas, e dando-se-lhes a dignidade do guerreiro à altura dos seus inimigos.
O Apache Branco, dirigido por Charles Marquis Warren e A Fuga de Forte Bravo, de John Sturges, são verdadeiros choques quando hoje se vêem com um novo olhar (foram recentemente exibidos no pequeno ecrã). No primeiro não há conciliação possível entre as forças em presença: é uma guerra total. Se a posição do filme era (e é) extremamente racista, mostra, porém, que o índio, para combater o invasor da sua terra, precisa de conhecer os seus métodos e as suas armas: o chefe, interpretado por Jack Palance, vai para a escola dos brancos, não para assimilar a sua cultura, mas para possuir o saber para os combater. A acção de A Fuga de Forte Bravo decorre num forte do Arizona durante a guerra entre os Estados, o que significa que as operações de guerrilha dos Apaches são de Mangas Coloradas ou Cochise, revelando uma impecável estratégia de divisão e aniquilamento do pequeno grupo de brancos: cercados no deserto, é traçado à sua volta um círculo de lanças, que é a «mouche» para as nuvens de flechas rigorosamente disparadas das colinas próximas, indo a pouco e pouco abatendo os seus ocupantes. Nestes filmes clássicos, sem preocupações de rigor histórico, se encontra, no fim de contas, um maior respeito pelos últimos guerreiros que se opuseram aos americanos no interior do território dos EUA.»

Manuel Cintra Ferreira
Expresso,  27-05-1994


«Quando  Usen criou os apaches, criou também o território deles no oeste. Deu-lhes sementes, frutos e caça, porque eles precisavam de comer. Para se curarem quando a doença os afligia, fez crescer plantas diversas. Ensinou-lhes a encontrar estas ervas e o modo de as transformarem em remédios. Ofereceu-lhes um clima ameno e o necessário para se vestirem estava ao alcance das suas mãos. Assim era no princípio, os apaches e o seu território, este criado para aqueles pelo próprio Usen. Quando eles são arrancados do seu território, ficam fracos e morrem. Quanto tempo faltará para deixar de haver apaches?» (Jerónimo)


«Se fosse possível realizar este meu desejo, creio que seria capaz de esquecer todas as injustiças  que me fizeram na minha velhice e morreria feliz e contente.(...) Se em vida minha não se fizer o que peço, se tiver de morrer no cativeiro, desejo que se conceda aos sobreviventes da tribo apache, quando eu  desaparecer, o privilégio que eles pedem: o  regresso ao Arizona.» (Jerónimo)

«...fora do seu ambiente, em Fevereiro de 1909, Jerónimo morreria no cativeiro, sem ver cumpridos os seus últimos desejos: o regresso do seu povo, praticamente extinto, ao Arizona natal:  Não lhe fizeram nenhuma dessas vontades. A bem da democracia.» 


Manuel João Gomes, Jornal de Letras 25-08-1986