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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A ‘IDA’ AO POVO


AS CAMPANHAS DE DINAMIZAÇÃO CULTURAL (1974-75)



Por
Cláudia Lobo
Revista Visão História 01-07-2010

Coisas boas em jornais

«ALDEIA DE MÓS, CASTRO DAIRE, MAIO DE 1975 - A Operação Beira-Alta seria a mais longa e mais completa de todas as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA. Em Mós os militares procederiam à vacinação de bovinos com a ajuda de uma equipa de veterinários dirigida pelo tenente-coronel Ribeiro (ao centro) e pelo capitão-veterinário Sá Dantas.» 1975. Guy Le Querrec. Foto copiada da revista Visão História.


Quando, a 30 de maio de 1975, foi finalmente publicado o decreto-lei que criava o Serviço Cívico Estudantil, Fernando Negreira estava a acabar o 7º ano no Liceu Gil Vicente, em Lisboa. Queria entrar em Engenharia, mas os caminhos da Revolução levá-lo-iam à «universidade da vida»: quem quisesse ingressar na faculdade devia prestar voluntariamente, durante um curto período de tempo, aquilo a que hoje se chamaria serviço à comunidade.
A ideia do Serviço Cívico Estudantil germinara em outubro de 1974, mês em que o capitão Ramiro Correia e o diretor-geral de Cultura e Espetáculos apresentaram em conferência de imprensa as linhas de orientação das Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica do MFA, tuteladas pela Comissão Dinamizadora Central (CODICE) da 5ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas. O espírito que presidia às duas iniciativas — tal como o que norteou outros projetos, nomeadamente o SAAL — era semelhante. «Pretendia-se não só conhecer a ‘verdadeira vida do povo’, diagnosticando a sua situação, como também agir e contribuir para a sua ação na construção de uma nova sociedade que vencesse a questão da desigualdade social», escreve a socióloga e professora do ISCTE Luísa Tiago de Oliveira, na tese de doutoramento Estudantes e o Povo na Revolução — O Serviço Cívico Estudantil (Celta Editores). É sua a expressão ‘ida ao povo’.


«SERVIÇO CÍVICO - No Cachão, ensinando adultos a aprenderem a ler, em agosto.» 1975.
Foto Fernando Negreira copiada da revista Visão História.


SEDE DE APRENDER

Visão História
Cabia ao Ministério da Educação e Cultura a responsabilidade do Serviço Cívico, no qual se inscreveriam em 1975, na contabilidade de Luísa Tiago de Oliveira, 11 814 alunos. Os estudantes seriam colocados segundo a sua lista de preferências — e Fernando foi parar à sua segunda opção, a campanha de alfabetização. «A minha primeira escolha tinham sido as Brigadas Giacometti.»
Com um passe da CP fornecido pelo Serviço Cívico, parte para Trás-os-Montes. Durante agosto, dormindo no chão da sala da Junta de Freguesia, dá aulas a adultos na escola primária do Cachão, aldeia do concelho de Mirandela onde se situava um importante Complexo Agro-Industrial. Consigo estavam mais nove ‘professores’, chegados de Coimbra e do Porto, e um orientador, esse já universitário. Os filhos dos transmontanos a quem Fernando dava aulas haviam emigrado; restavam avós e netos. «As pessoas queriam muito aprender», recorda. «Dávamos aulas duas vezes por dia, ao final da tarde e ao princípio da noite — a partir das 10 horas faltava muitas vezes a luz.» 
Era troca por troca — letras por pão. «As pessoas traziam-nos tachos, e era dali que comíamos.» A fome de aprender era grande — Portugal tinha mais de 30% de analfabetos quando a Revolução chegou.


«MICHEL GIACOMETTI - O pai do Plano de Trabalho e Cultura, que funcionou nesse verão.» 1975.
Foto Arquivo A Capital copiada da revista Visão História.


Visão História
O SONHO DE TRÁS-OS-MONTES

Enquanto esteve em Trás-os-Montes, o nosso jovem futuro engenheiro que nunca chegaria a sê-lo não se cruzou com militares. Mas os homens das brigadas do MFA andavam por terras quentes: decorria a campanha Maio-Nordeste, sob o lema «Trabalhar com o Povo — Construir a Revolução»
«Trás-os-Montes, o país real, é uma ferida aberta no País», escrevia o jornalista Mário Contumélias no Diário de Notícias de 3 de junho. O repórter estava em Faílde, uma aldeia sem água canalizada, posto médico ou Casa do Povo. «Começamos a perder o entusiasmo e as ilusões: vai demorar ainda muito tempo antes que as coisas melhorem tanto quanto queremos e é necessário.»



«POVO MFA - João Abel Manta desenhou os autocolantes das campanhas de dinamização.»  Pintura (cartazes); “MFA-Povo-MFA” e “Sentinela do Povo”. Dinamização Cultural, Lisboa 1974. Foto de arte-factoheregesperversoes.blogspot.pt


Duas semanas mais tarde, as brigadas do MFA chegariam a Paio-Torto, concelho de Mirandela, onde na escola só não se tiritiva de frio graças ao calor dos animais, colocados no andar de baixo do edifício, a chamada «loja». Aulas com cheiro a bosta, casa de banho ao lado das manjedouras das vacas. A população elegera uma Comissão de Aldeia sob a orientação do MFA, que reunira já 130 contos para resolver o problema da escola.
«O povo não é facilmente mobilizado por ideologias, mas sim por objetivos concretos, mostrando as populações grande interesse e preocupação em ver alguns dos seus problemas resolvidos», lê-se num documento do MFA de balanço da Maio-Nordeste, citado em Camponeses, Cultura e Revolução, tese de doutoramento da antropóloga Sónia Vespeira de Almeida, sobre as Campanhas de Dinamização Cultural do MFA (Edições Colibri). 
«É verdadeiramente através da solução de problemas concretos que o MFA se transforma em imaginário social de libertação, no centro de um universo simbólico de luta contra a miséria e a injustiça», defende o sociólogo Boaventura Sousa Santos na comunicação Crise do Estado e a Aliança Povo/MFA em 1974-1975, escrita dez anos depois do 25 de Abril.


Campanha de ação cultural e cívica, realizada por uma equipa veterinária do Movimento das Forças Armadas (MFA). Visita a um agricultor. Beira Alta, Concelho de Castro Daire. Aldeia de Parada de Ester. Maio 1975. Guy Le Querrec.


ALIANÇA POVO-MFA

Nesta altura, as campanhas de Dinamização Cultural já tinham efetuado centenas de sessões de esclarecimento, ajudado a traçar estradas e a rasgar caminhos, levando eletricidade e água potável a aldeias, transportado médicos e veterinários a lugarejos escondidos. As brigadas centraram-se sobretudo no Minho, Trás-os-Montes, Beira Alta e Beira Baixa, segundo Sónia Vespeira de Almeida.
Para trás ficara uma primeira fase, terminada em março, centrada na ideia da revolução cultural e que agregou à volta dos militares centenas de artistas. Para citar apenas alguns exemplos: no teatro, a Cornucópia e a Comuna; nas Artes Plásticas, João Abel Manta e Vespeira ; na música, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Carlos Paredes; cinema, bailado e circo também estavam presentes.
O Documento Guia da Aliança Povo-MFA, de julho de 1975, conhecido como «Documento do Copcon», marca uma nova etapa no rumo do Verão Quente, institucionalizando «os órgãos do poder popular ancorados em organismos de base como as comissões de moradores, as comissões de trabalhadores, os conselhos de aldeia». A segunda diretiva do CODICE, que estipula a colaboração com o Copcon, é clara: um dos objetivos fundamentais passa a ser «incrementar a reunião de Assembleias Populares». Daí a Comissão de Aldeia em Paio-Torto.


Campanha de ação cultural e cívica, realizada por uma equipa veterinária do Movimento das Forças Armadas (MFA). Vacinação de suínos. Beira Alta, Concelho de Castro Daire. Aldeia de Parada de Ester. Maio 1975. Guy Le Querrec.


ESPÓLIO DO VERÃO QUENTE

Constantim, Cicouro e S. Martinho da Angueira, concelho de Miranda do Douro, talvez não tivessem comissões de aldeia — mas a Revolução também lá se fez sentir. Pelas três passou Luísa Tiago de Oliveira cumprindo o Serviço Cívico, com uma das brigadas de Giacometti, as tais onde Fernando Negreira não foi colocado.
Visão História
O nome correto destes grupos era, na verdade, brigadas do Plano de Trabalho e Cultura. Mas ficariam conhecidas pelo nome do homem da ideia, 
Michel Giacometti, etnólogo corso apaixonado pelo nosso folclore que percorrera Portugal durante os 17 anos anteriores. Integrado no Serviço Cívico, e com o apoio do INATEL e da Gulbenkian, o Plano de Trabalho e Cultura foi organizado em três meses. Antes de partirem para o terreno, os 124 jovens escolhidos frequentaram um curso de formação em áreas tão diferentes como higiene pública, cooperativismo ou literatura popular. Gravador e máquina fotográfica viajavam na bagagem das 32 equipas que em julho, agosto e setembro percorreram os caminhos traçados por Giacometti. 
A herança desse Verão Quente é impressionante: recolha de 1 200 instrumentos de trabalho agrícola, registo sonoro de 3 mil trechos de literatura oral (contos, lendas, provérbios, rezas, etc.), compilação de fórmulas medicinais populares. 
Luísa Tiago de Oliveira viria a fazer do Serviço Cívico Estudantil o tema do seu doutoramento em Sociologia. Quanto a Fernando Negreira, que se tornou fotógrafo, decidiu nesse verão partir para outra aldeia, Arcozelo, com uma equipa de filmagens que rodava uma película sobre as campanhas de alfabetização. A liberdade estava mesmo a passar por ali.

Cláudia Lobo, Revista Visão História 01-07-2010


Campanha de ação cultural e cívica, realizada por uma equipa veterinária do Movimento das Forças Armadas (MFA). Vacinação de animais. Beira Alta, Concelho de Castro Daire. Vila de Laboncinho. Maio 1975. Guy Le Querrec.


Campanha de ação cultural e cívica, realizada por uma equipa veterinária do Movimento das Forças Armadas (MFA). Vacinação de Animais. Beira Alta, Concelho de Castro Daire. Aldeia de Mós e Termas do Carvalhal. Maio 1975. Guy Le Querrec.


Campanha de ação cultural e cívica, realizada por uma equipa veterinária do Movimento das Forças Armadas (MFA). Bebendo um copo oferecido por um habitante depois da vacinação de animais. Beira Alta, Concelho de Castro Daire. Aldeia de Parada de Ester. Maio 1975. Guy Le Querrec.


(Fotos de Guy Le Querrec/Magnum Photos)

GUY LE QUERREC - Nascido em Paris em 1941 em uma família modesta da Bretanha, Guy Le Querrec fez as suas primeiras imagens com músicos de jazz de Londres na década de 1950, fazendo a sua estréia profissional em 1967. Dois anos mais tarde, ele foi contratado pela revista Afrique Jeune como editor de imagem e fotógrafo, e fez as suas primeiras histórias na África francófona, incluindo o Chade, Camarões e Níger. Em 1971, ele confiou os seus arquivos à Vu, recentemente fundada por Peter Fenoyl, e em 1972 co-fundou a cooperativa agência Viva, que deixou três anos depois. Guy Le Querrec juntou-se à Magnum em 1976. No final de 1970, ele co-dirigiu dois filmes, e em 1974 e 1975 esteve em Portugal e fotografou a "revolução", principalmente as campanhas de dinamização cultural, cujas fotos podem ser vistas no site da Magnum. Em 1979 publicou um livro: Portugal 1974-1975 : Regards sur une tentative de pouvoir populaire.


João Abel Manta, “Muito prazer em conhecer vocelências”. 1975?


Um testemunho das campanhas LER AQUI




quarta-feira, 30 de maio de 2012

Stuart de Carvalhais, A vida sem rede

«A distância em relação ao poder é a escola mais importante de Stuart .»
(António, Cartonista em Jornal de Letras, 28-08-89)


Stuart de Carvalhais (1887-1961)


José Herculano Stuart Torrie de Almeida Carvalhais, mais conhecido por Stuart de Carvalhais, foi um pintor, e autor de banda desenhada. É considerado o pai da banda desenhada em Portugal. Para além de divertir o público com os desenhos que apareciam nos jornais, revistas ou livros, quem com ele privou é unânime em afirmar que na vida pessoal sempre foi uma pessoa de trato muito divertido, sendo mais que muitas as anedotas reais que se passaram consigo. Apesar de grande parte do meio intelectual do seu tempo o olhar com desdém, o grande escritor que foi Aquilino Ribeiro definiu-o na perfeição: "O grande e pobre Stuart". (In, infopedia.pt)

Coisas boas em jornais


STUART, A vida sem rede
por
Fernando Assis Pacheco


Stuart de Carvalhais.
Contam-se por milhares os seus cartoons, sabe-se lá quantos perdidos para todo o sempre. Stuart de Carvalhais executava-os à medida das, encomendas e à cadência das necessidades próprias, mas um dia desabafou para Aquilino Ribeiro: «Há dezoito anos que almoço desenhos, que janto desenhos, que visto desenhos...»

Filho de um engenheiro agrónomo e de uma senhora de ascendência escocesa, ambos transmontanos, José Herculano Torrie Suta rt d'Almeida Carvalhais nasce em 07.03.1887 na cidade de Vila Real, de onde, muito pequeno, o pai o leva para Zalamea la Real, província do Huelva, ao ser ali colocado nas minas de Rio Tinto. Aprende então Espanhol e mistura-o generosamente com o Português enquanto aprende as primeiras letras.
Aos seis anos a família regressa a Portugal: Alenquer, mais tarde Montemor-o-Novo e Lisboa. José Herculano faz parte do curso dos liceus em Évora, apanhando um irónico chumbo em Desenho.
Lisboa, para onde os Carvalhais vêm em 1901 — o pai contratado pelo Museu Etnográfico na qualidade de colector-preparador, por empenho de Leite de Vasconcelos —, não parece vê-lo melhorar por aí além quanto aos estudos. A mãe ainda alimenta o sonho de vê-lo cursar Belas Artes. Em vez disso entra para o atelier de Jorge Colaço e inicia-se na técnica do azulejo, ganhando como aprendiz 5$00 por metro quadrado. (Ao azulejo voltará em 1921, com Francisco Valença, para decorar a escadaria do Diário de Lisboa.)

É Colaço que o inicia na ilustração e na caricatura, acompanhando-lhe os primeiros passos, a estreia absoluta no Tiro e Sport logo seguida de uma colaboração regular n'O Século Cómico, em 1906. Até 1913, ano da partida para Paris, Stuart faz a mão em tudo quanto é publicação de humor, dirigindo mesmo uma folha, A Sátira (1911). Também experimenta ser clown, com o nome artístico de Mr. Billot, no Palácio Foz, então um local muito in da Lisboa Alegre. E torna-se habitué do teatro de revista. Da fama de Don Juan não se livra: traz uma girl por conta, ou vice-versa, que é ainda mais gratificante.
Evitemos a minúcia biográfica, mais próxima de uma obra de fundo como Crónicas d'um Stuart, de Osvaldo de Sousa, edição recente (Dom Quixote). Mas 1913 merece algumas linhas largas.
«Usava os cabelos soltos ao vento, um rolo de papéis debaixo do braço...», «contará a Vasco Callixto. «E um desejo imenso de visitar Paris...» A oportunidade surge-lhe à conversa com Carlos Franco, José Pacheko e Valentim Talone, no Café Martinho. Entre o «queres vir?» e o «vou!» é um sopro, do Rossio à Gare d'Austerlitz correm 34 horas zebradas — o verbo vai estar na moda — de ânsia e premonição de triunfo. Entre as redacções, claro. E uma delas promoverá mesmo Stuart a vedeta. Título, Ruy Blas.


"Lisboa numa roda só:  aí vai Stuart de Carvalhais empurrado 
rua fora, nos tempos em que viver era formidável".

A experiência parisiense do exdiscípulo de Jorge Colaço tem essa vertente profissional séria, em que ele multiplica as colaborações por várias revistas e jornais de humor, ao mesmo tempo que apura o traço na boa escola de Gousbofa e Poulbot, como diz João Abel Manta; e o lado boémio, de adolescente retardado, bebendo mais do que a conta e, confissão ou hipérbole, fazendo pé de alferes às beldades do bairro, entre as quais uma empregada doméstica com que se terá tomado de amores. Pobre ingénua Louise. Uma vez o português mostra-lhe um postal com a Torre de Belém. (Et c'est quoi?), pergunta a rapariga abrindo muito os olhos. «Le palais de ma famille!», diz Stuart .
Louise, aliás Louisette, haveria desempenhado um papel importante no contrato do Ruy Blas, isto segundo uma das versões do artista, que também avançará com uma outra não coincidente. Pecha bastante sua: o passado retocado. A versão Louisette é digna de romance, incluindo um encontro com a mulher de um cabeleireiro que arranja a coiffure da mulher do director do Ruy Blas... Impagável. Mas, como quer que seja, o todo-poderoso Muller, director da revista, gosta de Stuart e propõe-lhe 500 francos por mês, sob exclusivo.


"Quatro tipos de Lisboa apanhados em flagrante nos bairros pobres, às vezes
Stuart limitava-se a usr um pau de fósforo para dar vida às suas personagens"

Todavia esta cláusula leonina não existe no seu mundo, é uma violência inaudita para quem se vê assoberbado com pedidos de colaboração, tentado por ofertas em metal sonante. Ei-lo a mandar desenhos e caricaturas para Le Journal, Cri de Paris, Le Sourire, L'Assiette au Beurre, Pel-Mel, Pages Folies, a coberto de pseudónimos que não funcionam diante da evidência do traço. Crê-se, de resto, que terá pesado na decisão de voltar para Lisboa uma presumível ameaça de processo judicial: Muller deu à casca, reclama a pele de Stuart. Ou foi para fugir a um outro perigo, o da mobilização? Os estrangeiros residentes em França não estavam a salvo do Distrito de Recrutamento, e disso falou insistentemente o português para se limpar do regresso precipitado, em 1914.
Reinaldo Ferreira, o Repórter X das manchetes, ouvi-lo-á lamentar que foi «maluco em vir embora». Por cá a glória não excede as participações nos Salões dos Humoristas (1912, 1913) e a estima dos seus pares, a vida sem rede abre novo capítulo: aí está ele casado com D. Fausta Moreira, que lhe dará o filho único, Raul, prometido também a uma carreira de desenhador, mas não na faixa humorística. Lisboa. Uma paixão, uma cisma, um deambular entre a gente modesta que lhe vale meia dúzia de tipos (a varina, o guarda do chanfalho, a cocotte barata, a megera do carrapito, o ardina, o amigo, do briol) repetidos até à exaustão.

"O outro Stuart, artista «tout court», sem
necessidade de legenda, fez uma única
exposição (de pintura) nos anos 30"
Vinte e seis anos depois da morte, como o vê o cartoonista Vasco, também vila-realense, também com Paris às costas — mais longo, por motivo diferente?
«Era um galeriano como o Camilo. Nas condições concretas da Lisboa do seu tempo, deu-se à preguiça, mas de qualquer maneira comia do que trabalhava. E tem um prestígio ingrato: alcoólico, boémio, artista à portuguesa. Parece que era um tipo de uma grande bondade, coisa má nesta terra. Artisticamente facilitou, mas era um poderossímo talento
Vasco acha que não houve apenas um Stuart, sim vários. E desses vários preza muito especialmente «o anarquista», colaborador d'A Batalha.
«O Stuart de que falo aqui vem na tradição de Goya e Daumier: o desenho satírico de 'combate', o estilo forte e agressivo. Mais tarde, vítima das circunstâncias, vai cair no pitoresco e no picaresco, que é um equívoco nesta galáxia do desenho de humor
Dói-lhe «a vida frustrada» do conterrâneo, o adivinhar que ele talvez não tenha sido levado a sério no seu tempo. «Coitado do Stuart, a vender bonecos pelas redacções. Agora não pode ser, passe mais logo... Tudo isso não era nada nobilitante.» Para Vasco este «andar à trincha» foi a pior fase de Stuart.

Mas antes disse ele faz nome, cria imagem, poisa um decidido pé no cimento fresco do átrio da fama. É o desenhador da moda, o cartoonista requestado, e mais ainda pela facilidade do traço, a rapidez, a bonomia (não faz exigências, acomoda-se ao que há). Na falta de outro material usa um pau de fósforo aparado, ou o pincel careca, de dois pelos, que molha no seu frasquinho de nanquim. Se necessário usa também graxa. E papel qualquer serve. Não havendo branco, vá uma demão de guache. Colaborou n’A Batalha? Ora, e os desenhos para o Papagaio Real monárquico saudosista? Depois, é certo, chegou a chamuscar o coiro no 7 de Fevereiro (de 1927), conforme depoimento inquestionável de Aquilino, a quem teria pedido «uma espingardinha» para o que desse e viesse. Em 1934, porém, já está às sopas da Câmara Municipal de Lisboa (cartazes para as festas da cidade), em 1937 ilustra um escrito macaco editado pelo SNI, Le peuple portugais et ses caractéristiques sociales, de Francisco Casanova. «Não passo de um fabricante de desenhos...»
José-Augusto França, a propósito: «O seu lápis não tinha ideologias». (Mas quem o conheceu, mesmo nos piores anos, garante uma coisa: Stuart não era homem para andar com Salazar ao peito. Sabia-lhe a vinho martelado?)
Recapitulemos. Sobre desenhador de humor, o vila-realense pode ser considerado pioneiro da Banda Desenhada; mesmo a nível mundial não houve muita gente de qualidade antes dele, poderia fazer-se a prova traduzindo algumas tiras, aí estão as Aventuras de Quim e Manecas, em 1915, n'O Século, que igualmente passarão ao cinema em realização sua.
"Quim e Manecas, a banda desenhada de 1915, faz
de Stuart um pioneiro no género"
Ao mesmo tempo é o cartazista, o capista de partituras musicais duas vezes premiado no estrangeiro, o cenógrafo e figurinista de teatro, o decorador (d'A Brasileira, do Bristol Clube, do I Salão de Outono de Elegância Feminina, mas também da Feira Popular, a convite de Leitão de Barros), o desenhador de selos para os CTT, enfim o pintor — escasso, tímido, com uma exposição individual em 1932, na Casa da Imprensa. É amigo de Abel Manta, de Botelho e outros artistas sediados n'A Brasileira, mas a título individual, não do grupo em si, com o qual se sente pouco à vontade. O seu território: Bairro Alto, Camões, orografia do zinco.
António dá-o como sendo a ponte entre a geração de desenhadores de humor do fim da I República e os do pós-25 de Abril, José de Lemos atribui-lhe dimensão europeia, Baltazar diz que ele «marcou várias gerações como personagem e como cidadão» (inquérito de António Valdemar in Diário de Notícias, 2.3.1986).
Que intervenção foi a sua? Mais através da ironia do que da sátira, embora em cartoons da primeira fase atinja um alto grau de agressividade. Depois, implantada a censura estadonovista, volta e meia tenta o drible em habilidade, mas há notícias (do Sempre Fixe) de que o lápis azul o não deixa preopinar além do tacitamente estipulado. Nos dias de azebre Botelho vinga-o com o célebre mocho Piu, sinal de que um alferes lateiro de má morte cortou a eito nos bonecos. Com o andar dos anos perde gás e perde graça, tipifica, estiliza, cede à facilidade do improviso. A terra é madrasta, o génio pessoal displicente.

Quem o não ler com vagar — vagar e simpatia — arrisca-se a tropeçar apenas no boémio. Mas para tanto é necessário ir às bibliotecas e às hemerotecas, folhear A Sátira, O Século, O Século Cómico, o Papagaio Real, A Situação, o ABC, o ABC a Rir, o ABCzinho, o Sportsinho, Os Ridículos, A Ilustração, o Magazine Bertrand, o Diário Popular, o Fixe, o Diário de Notícias, Ó Picapau, o Cara Alegre, passos achados e perdidos da sua paixão.
« Stuart não era um alcoólico, mas era o mais simpático dos bêbados que conheci e o mais autêntico e abandonado dos artistas», defende Thomaz de Mello (Tom) no inquérito do Diário de Notícias.
Fará, não obstante, curas de desintoxicacão alcoólica, a primeira quando tem 39 de idade. E é um facto que grande parte dos testemunhos dos seus contemporâneos refere explícita ou implicitamente esse feitio laxista e dissipador.
As histórias de Stuart são como as cerejas. Encomendam-lhe um boneco urgente, fecham-lhe a porta da saleta à chave: na fase em que anda, costuma pirar-se e ir ao tinto. Inútil, quando o chefe de redacção volta: está a saleta vazia, e o papel em branco. Ou muda de casa, para um modesto piso . desguarnecido de móveis, e como não tem despensa trata de desenhar presuntos e salpicões numa parede. Ou quer fazer ,- diz — uma exposição, procura um amigo a quem pede trabalhos seus, depois vende-os, o amigo refila, «Bolas, mas eu tinha-te comprado os bonecos!», e ele escarninho, sonso, «Ah sim? E para que é que tu querias essa merda ?»
Lopo Lauer, empresário de teatro, justa com Stuart a confecção de um pano de fundo para um quadro musical no Eden. Dá-lhe o material preciso e diz-lhe que pode ir a um restaurante próximo - basta pôr na conta. O artista deixa sair Lauer, corre à sala de mesa, deita abaixo uma lautíssima ceia e entorna-se. Quando reentra no Éden, tem uma náusea e vomita sobre a tela que está a pintar. Lauer, que o espreitava do balcão, viu a cena, irrita-se, arrepela-se. «Tudo perdido!, i Não está: disfarçando as manchas de vinho num cenário roxo, Stuart salva a estreia do espectáculo. Bate as casas de penhores, as redacções, os amigos endinheirados. quando lhe surge á oportunidade de fazer qualquer coisa na Feira Popular, onde tem Leitão de Barros e José André dos Santos a abençoa-lo, inventa uma barraca para ler a sina: é a Bruxa, uma moscambilha do alto coturno. Muitas histórias suas abonam a falta de senso comum, mas perguntar se em mais de uma ocasião não terá sido desfrutado. É a vida sem rede, a dez metros de angústia sobre a pista.
João Abel Manta, que põe reservas a grande parte da obra gráfica de Stuart, filia o seu estilo em Gousbofa, admitindo que os vagabundos e os piteireiros do português descendam dos clochards do francês Estes vegetam sous les pouts, aqueles empinam copos de dois ou enxotam moscas na Feira das Mercês, excursão anual do' desenhador. Por outro lado, diz Manta, os Quins,'os Manecas e outros miúdos da galeria stuartiana evocariam Poulbot e o seu Poil de Garotte. «Era um intuitivo que nunca teve grande preparação técnica. A coisa mais gira dele e a sua forma de tratar o pretò e o branco, e o modo como faz os contornos. O seu preto e branco seria depois muito usado na Banda Desenhada: por exemplo Hugo Pratt


"Um miligrama de chouriço ou a arte
portuguesa de enganar a malvada"
Compará-lo aos Forain, aos Gousbofa, é trabalho vão. A melhor homenagem que lhe podemos mostrar seria uma exposição de bonecos muito escolhida, da ordem das duas, três centenas. Dar-lhe dignidade implica pôr de lado a produção menor.
Em Junho de 1926, dias depois do golpe, Stuart publica, no Fixe um rápido cartoon figurando a Republica de barrete frígio a tocar tambor. Legenda: «Mortos de pé!... Os vivos estão de cócoras».
Tem para viver ainda 35 anos e um lápis, ou um pau de fósforo. Bem pergunta o talhante ao homem do chapéu: «Então quanto quer de chouriço», E o outro, esquálido «Um miligrama...»



Artigo de Fernando Assis Pacheco em O Jornal 24-07-89
as fotos e as gravuras foram copiadas do próprio jornal.






Alguns exemplos de trabalhos
de Stuart Carvalhais

Outra Faceta do Fado, desenho de Stuart Carvalhais, anos 40




Contam-se por milhares os seus cartoons, sabe-se lá quantos perdidos para todo o sempre. Stuart de Carvalhais executava-os à medida das, encomendas e à cadência das necessidades próprias, mas um dia desabafou para Aquilino Ribeiro: «Há dezoito anos que almoço desenhos, que janto desenhos, que visto desenhos...»
(Fernando Assis Pacheco em O Jornal, 24-07-87)





(Fotos e desenhos encontrados na net)


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

As Campanhas de Dinamização Cultural

 (1974-75)

Há muitas ideias feitas, espalhadas e arreigadas sobre estas campanhas. 
A quem as viveu, cabe tão só testemunhar o que se passou. 
Por Manuela de Freitas


Nem tudo o que luz é oiro. Mas só com luz se pode distinguir.


Saíam de Lisboa, em carros do exército, os militares do MFA [Movimento das Forças Armadas] e os actores. Chegavam à cidade e instalavam-se todos no quartel, onde ficavam durante uma a duas semanas. Dali partiam diariamente para as várias vilas e aldeias da zona onde se realizavam as sessões. Montavam o palco e preparavam a sala. Depois iam pelo povoado, chamando as pessoas, com quem, no café, nas ruas, conversavam e as convidavam para o encontro dessa noite. Não se sabia quais as vedetas que mais atraíam a atenção das populações: se os protagonistas do teatro, se os protagonistas da Revolução dos Cravos.


João Abel Manta, “Muito prazer em conhecer vocelências”. M.F.A. Campanha de dinamização cultural, 1974

Quando a peça acabava, estabelecia-se o debate. O público começava por falar com os actores sobre o espectáculo e, a propósito dele, os militares explicavam quem eram e o que estavam ali a fazer: depois de terem libertado Portugal do fascismo, queriam saber o que era preciso fazer para reconstruir o país e melhorar a vida das pessoas. E ali ficavam a responder a perguntas, a tomar notas, a ouvir as queixas, as esperanças, as dúvidas, os medos: “Construam-nos um cemitério porque o mais perto é a 20 quilómetros e, no inverno, quando levamos um de nós a enterrar, morrem mais dois ou três pelo caminho”. “Precisamos de uma ponte”. “Uma estrada dava muito jeito”. “Façam escolas para podermos aprender a ler”. “O que é que vão fazer aos patrões?”. “Limparam mesmo os fascistas todos?”. “E vocês, que ainda por cima têm armas, como é que nos garantem que não vão fazer pior?”.

Cartaz do MFA.
Altas horas voltavam, actores e militares, para o quartel. E, no dia seguinte, iam fazer o mesmo noutra vila ou aldeia próxima.
Assim foi na primeira campanha (Beira Alta), na segunda (Douro) e na terceira (Trás-os-Montes) ao longo de 1974 e nos princípios de 1975.
Os MFAs fizeram o cemitério, a estrada, a ponte. Mas, a pouco e pouco - confrontados com a pesada herança de 48 anos de fascismo, com o atraso, as carências, a situação social, o caciquismo – esvaía-se-lhes o ânimo voluntarista e emergia uma frustrante consciência da sua total ausência de preparação política. A generosa energia dos “salvadores” dava lugar à apreensão e ao pessimismo dos “responsáveis pelo cumprimento das promessas de Abril”. Confessavam começar a perceber que só com espingardas não conseguiriam levar a bom termo a difícil tarefa – que o povo deles esperava porque a ela se tinham comprometido – de construir um país novo. Seria, por isso, necessário apoiarem-se em quem tinha competência e experiência dessas coisas. Embora com algumas reservas, só o PCP [Partido Comunista Português] lhes parecia estar em condições de os ajudar, porque era a única força de esquerda com uma poderosa organização e uma sólida formação política.
E assim, progressivamente, se assistiu à invasão e ao controle, pelo PCP, da 5ª Divisão (instância das Forças Armadas encarregue das Campanhas de Dinamização Cultural).
Aquele grupo de actores começou a tornar-se incómodo e desajustado às circunstâncias. Porque não aceitou que lhe censurassem os textos do programa; porque se recusou a fazer o espectáculo em condições que considerava atentatórias da qualidade e da boa recepção por parte do público; porque, nos debates, assumiu posições contrárias aos agora mentores do povo e porque, obviamente, não simpatizava com o PCP… voltou para Lisboa a meio da quarta campanha (Minho). E nunca mais foi solicitado para participar em nenhuma, se é que as houve.

Beira Alta. Conselho de Castro Daire. Vila de Parada de Ester. Vacinação de animais. Campanha de Dinamização Cultural , Maio 1975. Fotos de Guy Le Querrec da Magnum Photos.


Seguiu-se uma afincada e habilmente programada descredibilização, política e cultural, do que tinham sido as Campanhas de Dinamização: “os militares do MFA andaram pelo país a catequizar o povo, a colonizá-lo politicamente, acolitados por um grupelho de Lisboa que, em total desrespeito pela identidade cultural própria das comunidades, lhes impingia produtos artisticos que elas recusavam porque lhes eram totalmente alheios”. Esta versão dos acontecimentos foi sendo repetida ao longo dos anos pelos militantes do PCP, em toda a parte e por todas as formas, ora com argumentos culturais ora com argumentos políticos, conforme a quem se dirigiam. E assim - encontrando na má-fé, no sectarismo, na inveja ou na simples ignorância, o terreno propício para criar raízes - esta foi a verdade sobre as campanhas que ficou para a história.

Francisco Martins Rodrigues

É dificil encontrar quem não a repita ainda hoje. Francisco Martins Rodrigues (um dos mais prestigiados e influentes mentores da esquerda), na pág. 23 do seu livro O Comunismo que aí vem (Abrente Editora, 2004), escreve: «Na realidade, as comissões do “poder popular” que mais tarde vieram a reunir sob a presidência benévola dos oficiais, vinham na linha de continuidade das campanhas de “dinamização cultural”, que tinham percorrido a província, a explicar às populações o que era bom para elas. Eram uma reminiscência sublimada da “acção psico-social” em África.» [artigo que fora antes publicado no nº 1 da revista Política Operária, Setembro-Outubro de 1985].


Se, nos bastidores daquela experência, havia intenções e vontades ocultas e o que se passou no terreno foi afinal um desvio indesejado que escapou ao controle dos seus promotores, espera-se que historiadores credíveis o revelem, documentadamente.


Se, apesar das boas intenções dos intervenientes, aquela não foi a melhor forma político-cultural de fazer as coisas, espera-se que políticos e ideólogos credíveis a critiquem e, analisando-a, tirem conclusões para o futuro.
A quem a viveu, cabe tão-só testemunhar o que se passou.

(Manuela de Freitas, 24 de Abril de 2009, in passapalavra.info)   



(Fotos da Magnum Photos; desenhos de João Abel Manta e foto de Francisco Martins Rodrigues á solta na net)