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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O Feio Alheio


Perguntai a um sapo o que é a beleza, o verdadeiro belo. Responder-vos-á que consiste na sua mulher, com os seus belos olhos redondos que se projectam para fora da pequena cabeça, o pescoço grosso e achatado, o ventre verde e as costas castanhas. Interrogai o diabo: dir-vos-á que o belo é um par de cornos, quatro patas com garras e um rabo.
Aparentemente, beleza e fealdade são conceitos que mutuamente se exigem: habitualmente entende-se a fealdade como o oposto da beleza, de modo que bastaria definir a primeira para se saber o que é a outra. Mas as diversas manifestações do feio através dos séculos são mais ricas e imprevisíveis do que comummente se julga. Por isso, não só os textos antológicos, mas também as ilustrações extraordinárias deste livro, levam-nos a percorrer um itinerário surpreendente entre pesadelos, terrores e amores de quase trinta mil anos, onde os actos de repulsa caminham de mãos dadas com comoventes movimentos de paixão, e a rejeição da deformidade é acompanhada de êxtases decadentes que, as mais das vezes, são violações sedutoras de todos os cânones clássicos.
In Introdução, HISTÓRIA DO FEIO de  Humberto Eco (direcção), Editora  Difel, 2007.


HISTÓRIA DO FEIO de  Humberto Eco (direcção). Capa e página 393
.



Para eles eram feios

Relatórios de leitura e recensões


«As composições de Johann Sebastian Bach são totalmente sem beleza, harmonia e sobretudo, clareza.»
(Johann Adolph Scheibe, Der critische Musikus, 1737)

«Uma orgia de barulho e vulgaridade.»
(Louis Spohr aquando da estreia da 5ª sinfonia de Beethoven)

«Se (Chopin) tivesse sujeitado as suas músicas ao juízo de um perito, ele tê-las-ia rasgado… Em todo o caso, gostaria de ter sido eu a fazê-lo.»
(Ludwig Rellstab, Iris im Gebiete der Tonkunst, 1833)


Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven Frédéric Chopin.


«O Rigoletto é carente no plano melódico. Esta ópera não tem nenhuma possibilidade de inserir-se no reportório.»
(Gazette Musicale de Paris, 1853)

«Estudei durante muito tempo a música daquele velhaco. É um bastardo sem qualidade.»
(Tchaikovsky no seu Diário, acerca de Brahms)

«Dentro de cem anos, Les fleurs du mal serão recordados com uma curiosidade.»
(Émile Zola, por ocasião da morte de Baudelaire)

«Terá tido os dotes de um grande pintor, mas faltou-lhe vontade.»
(Émile Zola sobre Cézanne)

«É a obra de um louco.»
(Ambroise Vollard em 1907 sobre Les demoiselles d’Avignon de Picasso)


Les demoiselles d’Avignon. 1907. Pablo Picasso.


«Serei talvez duro para compreendê-lo, mas não consigo capacitar-me do facto de que um senhor possa empregar trinta páginas para descrever como se dá voltas e mais voltas na cama antes de adormecer.»
(Relatório de leitura sobre a Recherche de Proust)

«Senhor, sepultaste o vosso romance num cúmulo de pormenores que estão bem desenhados, mas totalmente supérfluos.»
(Carta de um editor a Flaubert, acerca de Madame Bovary)

«Nos seus romances não há nada que revele particulares dotes imaginativos, nem a trama, nem as personagens, Balzac nunca ocupará um lugar de relevo na literatura francesa.»
(Eugène Poitou, Revue des deux mondes, 1856)

«Em O monte dos vendavais, os defeitos de Jane Eyre [da irmã Charlotte] multiplicaram-se por mil. Pensando bem, a única consolação que nos restará é o pensamento de que o romance nunca se tornará popular.»
(James Lorimer, North British Review, sobre Emily Bronte, 1849)

«A incoerência e a falta de forma das suas poesíolas – não saberia defini-las de outro modo – são espantosas.»
(Thomas Bailey Aldrich, The Atlantic Monthly, sobre Emily Dickinson, 1882)

«Moby Dick é um livro triste, esquálido, chato e até ridículo… Depois, aquele capitão louco, é de um aborrecimento mortal.»
( The Southern Quarterly Review, 1851)


Moby Dick de Herman Melville. Publicado em 1851.


«Walt Whitman tem a mesma relação com a arte que um porco com a matemática.»
(The London Critic, 1855)

«Pouco interessante para o leitor comum e não bastante aprofundado para o leitor científico.»
(Relatório de leitura sobre H. G. Wells, A máquina do tempo, 1895)

«A história não chega a uma conclusão. Nem o caracter nem a a carreira do protagonista parecem chegar a um ponto que justifique o final. Em suma, parece-me que a história não conclui.»
(Relatório de leitura sobre Francis Scott Fitzgerald, Este lado do paraíso, 1920)

«Meu Deus, meu Deus, não podemos publicá-lo. Acabamos todos na prisão.»
(Relatório de leitura sobre Faulkner, Santuário, 1931)

«É impossível vender histórias de animais nos EUA.»
(Relatório de releitura sobre George Orwell, O triunfo dos porcos, 1945)

«Esta rapariga não parece ter uma especial percepção ou então o sentimento de como se pode levar este livro acima de um nível de simples curiosidade.»
(Relatório de leitura sobre o Diário de Anne Frank, 1952)

«Deveria ser contado a um psicanalista e provavelmente foi e transformou-se num romance que contém alguns passos de bela escrita, mas é excessivamente nauseabundo… Recomendo que seja sepultado por mil anos.»
(Relatório de leitura sobre Nabokov, Lolita, 1955)


Lolita de Vladimir Nabokov. Publicado em 1955.


«Os Buddenbrook não são senão dois volumes em que o autor conta histórias insignificantes de gente insignificante num estilo insignificante.»
(Eduard Engel sobre Buddenbrook de Thomas Mann, 1901)

«Acabo de ler o Ulisses e julgo-o um insucesso… É prolixo e desagradável. É um texto grosseiro, não só em sentido objectivo, mas também do ponto de vista literário.»
(Do Diário de Virginia Wolf)

«Aquele rapaz não tem o mínimo talento.»
(Manet a Monet sobre Renoir)

«Nenhum filme sobre a guerra civil deu dinheiro.»
(Irving Thalberg da Metro, desaconselhando a compra dos direitos de E tudo o vento levou)

Cartaz de Gone With The Wind (E tudo o vento levou, 1939) de Victor Fleming.


«E tudo o vento levou será o mais clamoroso fiasco da história de Hollywood. Estou muito contente por ser Clark Gable e não Gary Copper quem enfrentará as dificuldades.»
(Gary Cooper, depois de ter recusado o papel de Rhett Butler)

«Que farei eu com um tipo com aquelas orelhas?»
(Jack Warner depois do ensaio de Clark Gable, 1930)

«Não sabe recitar, não sabe cantar e é calvo.»
(Dirigente da Metro, depois de um ensaio de Fred Astaire, 1928)


Transcrito da página 393 de HISTÓRIA DO FEIO de Humberto Eco (direcção), Editora Difel, 2007.



 Clark Gable (1936), por Alfred Eisenstaedt e Fred Astaire (1945), por Bob Landry.




(Fotos LIFE Archive e da net)






quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dinheiro do céu


Texto de
Maria João MARTINS


Coisas boas em jornais


Louis B. Mayer, o big boss da MGM; talvez o homem mais poderoso de Hollywood no seu apogeu. Nesta foto, está rodeado por 65 estrelas de cinema da MGM e estátuas do Oscar (organizadas de acordo com o lucro de bilheteria), para comemorar o 20º aniversário da MGM. Hollywood, 1943, Walter Sanders.

Alguns dos grandes produtores pioneiros do cinema americano, (não referidos no texto) celebrando a criação da Famous Players-Lasky em 1916. Da esquerda para a direita: Jesse L. Lasky, Adolph Zukor, Samuel Goldfish (mais tarde Goldwyn), Cecil B. DeMille e Albert Kaufman.


ALGUNS DOS GRANDES PRODUTORES DO CINEMA AMERICANO

"O sonho americano existe e concretiza-se. Aos mais descrentes, aponte-se um pequeno grupo de «Tycoons» — Darryl F. Zanuck, David O. Selznick, Howard Hughes, Irving Thalberg e Louis B. Mayer. Todos eles encarnaram os protótipos do «American way of success»: origens pouco brilhantes, percalços financeiros na juventude, muito esforço e, porque Deus ajuda quem cedo madruga, a vitória final com auréola mítica e reino à altura."


   Os estúdios que dirigiam eram, eles próprios, sinais exteriores do triunfo americano. Nota-o bem o escritor Joseph Kessel ao contar: «A Metro Goldwyn Mayer construiu as suas instalações sobre um campo de petróleo. O que há de mais eloquente e brutal que este desdém por um líquido que leva as nações ao confronto, que esta preferência dada à fábrica de imagens em detrimento da oleosa riqueza?»
   O que se dizia da Metro aplica-se com a mesma felicidade à Warner Brothers, Paramount, Columbia, 20th Century Fox, às próprias David O. Selznick Productions e aos homens que as ergueram à custa de sangue, suor e incondicional determinação; equivalentes cinematográficos do que Henry Ford fez, nos automóveis. Como ele, destacavam-se pela crueza e desdém. Mas, ao aço e aos hamburgers, preferiam vender sonhos e tornar gratos os compradores. O seu dinheiro era, por isso, diferente. Não só por ser muito, mas por ter vindo do céu.


Daryl Zanuck assistindo a um filme, Hollywood, USA. 1937, foto de Peter Stackpole.


Darryl F. Zanuck (1902-1979)

"Pelo amor de Deus não diga sim, até eu terminar de falar."
Daryl F. Zanuck

   «Encontramo-lo» em todo o esplendor do poder em «Guilty By Suspicion» de Irvin Winkler. Como escreve João Bénard da Costa em «O Musical» (III volume) «parecia inventado para fazer de tycoon, e nenhum caricaturista teria inventado melhor». Os grandes charutos que fumava, as beldades que jamais o largavam, o anti-sentimentalismo eram características suas que vêm assegurar a credibilidade ao sonho americano.
   Nascido, como não podia deixar de ser, numa família pobre do Nebraska, Zanuck chegou ao cinema através dos seus dotes literários. Começou por publicar «short-stories» em revistas populares, mas não tardou a escrever para cinema. Trabalhou, então, com Mark Sennett, Harold Lloyd e, sobretudo, com os irmãos Warner que não lhe regatearam voto de confiança. No primeiro grande estúdio da sua vida, foi director de produção com poderes ilimitados. A ele se associam, pois, sucessos ciclópicos: a série Rin Tin Tin, a revolução do sonoro com «O Cantor de Jazz» «produced by Darryl F. Zanuck» e os primeiros musicais da casa WB. Em 1933, divergências com os patrões, levaram-no a trocar a Warner pela aventura. Não parou.
   Fundou, em 1934, a «20th Century Fox», onde, uma vez mais, se tornou no todo poderoso director de produção. Nesse cargo, deu muito dinheiro a ganhar à Fox. Criou as vedetas de uma casa que as não tinha. Descobriu os filões Shirley Temple. Alice Faye, e Carmen Miranda versão «hollywoodesca». Trabalhou com John Ford, Henry King, Fritz Lang, Henry Hathaway, Otto Preminger, Joseph L. Mankiewicz, Elia Kazan e Howard Hawks. Na década de 50, uma campanha pouco clara dirigida por Spyros Spoukos levou-o a abandonar o estúdio que moldara à imagem da sua vontade. Com todos os verdadeiros «tycoons», voltou ao local do crime para ser o último a rir. Em 1963, quando o cinema deixara de ser um negócio da China, tornou-se presidente da Fox e riu-se mesmo. Dois anos depois, aí estava «Música no Coração» a superar recordes de bilheteira. Morreu em 1979. Para trás, ficou o homem. Para sempre, restou uma lenda de riqueza, sonho e poder. Bigger than life.

Da direita para a esquerda: Darryl Zanuck, Elia Kazan, Gregory Peck e Moss Hart.
Foto sem data encontrada em acertaincinema.com.


David O. Selznick (1902-1965)

“O sucesso de uma produção depende da atenção dada aos detalhes.”
David O. Selznick

As primeiras palavras de «O Último Magnate» podiam aplicar-se-lhe perfeitamente. O pai David O. Selznick, sem ter o carismático O. no nome, dedicava-se ao negócio do cinema, como quem negoceia na indústria do algodão ou do aço. Saiu-se mal. Mas o filho não aprendeu a lição, antes, se decidiu a vingar a falência paterna. Em 1929, encontramo-lo na Paramount, onde produz meia dúzia de filmes de sucesso. Em 1931, troca de «major» — como vice-presidente da R K O supervisiona quinze produções de primeira, com destaque para «What Price, Hollywood?» de George Cukor e «Bird of Paradise» de King Vidor.
   Mas Selznick quer a Lua. Casa com Irene Mayer e torna-se o menino do sogro (Louis B. Mayer), quando a morte de Irving Thalberg surpreende a Metro com um vazio no topo. Nos três anos em que ruge com o leão, David O. Selznick justifica o «O.» (acrescentado) do seu nome. Afirma dotes de produtor, gestor, argumentista e de esteta contestado, mas, antes de mais, afirma apetência pelo poder.
   Após ter produzido para a Metro filmes como «Drama em Manhattan», «Anna Kerenina» e «David Copperfield», Selznick apreendera já o suficiente para fundar a Selznick International. A esta casa se devem alguns objectos de «glamour» da história do cinema, poucos, mas todos comparáveis a Rolls-Royces. Entre eles, «O Pequeno Lord Fountleroy», «Nasceu uma Estrela», «O Prisioneiro de Zenda», «Retrato de Jennie» e «Duelo ao Sol». Acima deles, o mítico «E Tudo o Vento Levou», por cuja produção se bateu até à necessidade de calmantes. Fez o impensável. Recorreu ao impossível. Mais do que um filme começado por Cukor e concluído por Fleming, «E Tudo o Vento Levou» transformou-se, para o bem e para o mal, na obra-prima do homem que a produziu. Para o bem porque lhe ergueu o nome acima do esquecimento. Para o mal, que de admirável fez, após 1939, perdeu com a comparação.
   Ainda assim, Selznick não foi tão-só o inventor de um mito. Foi ainda um hábil estratego e um considerado descobridor de talentos. Ao seu olhar bem treinado não escaparam figuras desconhecidas do meio como Vivien Leigth, Alida Valli, Ingrid Bergman e a sua muito amada Jennifer Jones.
Thank God!

Howard Hughes, durante as filmagens do seu filme, The Outlaw (A Terra 
dos Homens Perdidos, 1943), Hollywood, USA. 1943, foto de Bob Landry.


Howard Hughes (1905-1976)

“Todo o homem tem  o seu preço, ou uma pessoa como eu não poderia existir.”
Howard Hughes

Era o «tycoon» por excelência. Sobrinho do cineasta e escritor Rupert Hughes, tornou -se um dos homens mais ricos da América quando, aos dezoito anos, herdou a Hughes Tool Company, empresa exploradora da maior parte do petróleo texano. Mas Hughes não se entretinha com o som do dinheiro a crescer. Preferia ouvi-lo nos aviões que amava superiormente e também nos filmes.
   O cinema deve-lhe, entre outros favores, a promoção de duas rainhas. Com poder extensivo a todos os meios publicitários, tornou Jean Harlow na «loura platinada» e Jane Russel no «busto». Produziu «The Front Page», de Lewis Milestone, «Scarface» e «The Big Sky», ambos de Hawks, «Jet Pilot» e «Macao», de Sternberg. Na realização, esteve no filme que consagrou Harlow («Hell's Angels») e no filme que a censura não queria: «The Outlaw», com o corpo de Jane Russell muito mais à solta do que se usava na época.
   Hughes acabou os seus dias à maneira das lendas: livre, responsável apenas pelas suas extravagâncias, fugindo das doenças e dos homens das Finanças.


 Rodagem de  La Boheme de King Vidor (A Boémia, 1926), da esquerda para a direita: Hendrik Sartov, King Vidor, Irving Thalberg, e Lillian Gish, 1925. Foto encontrada em www.altfg.com. \ Os irmãos Marx com Irving Thalberg. Foto sem data encontrada em mythicalmonkey.blogspot.



Irving Thalberg (1899-1936)

“A história nunca parece tão boa como quando outro a compra.”
Irving Thalberg

Um dos maiores romancistas da América (Scott Fitzgerald) consagrou-lhe as suas últimas páginas e forças. Se mais não houvesse, o simples facto do escritor dos belos e malditos se ter fascinado por ele, bastaria para alimentar a lenda. Mas há. E, como tal, Irving Thalberg foi uma daquelas personagens que vivem fugazmente para, ao desaparecerem, nos brindarem com um manto de luz.
   Para um homem com poder comparável (ou mesmo ligeiramente superior) ao de um Darryl F. Zanuck, ou ao de um Louis B. Mayer, Thalberg assumia um comportamento inesperado. Em público, era tímido e delicado. Em privado, apreciava romances de vanguarda. A propósito do «paradoxo», Jim Tully escreveu: «O mais surpreendente nele era o seu ar delicado e sonhador; a sua quase pacata personalidade. Para um rapaz franzino, ele tinha uma espantosa energia — uma enorme vitalidade.»
   Irving Thalberg chegou à Universal com dezanove anos, onde imediatamente deu um ar da sua graça. A fundação da Metro levá-lo-á, no entanto, a mudar de casa e a assumir o papel que será, afinal, o da sua vida.
   A frente do mais carismático estúdio de Hollywood, ele tomará decisões definitivas na História do Cinema. Entre elas, a grande oportunidade americana oferecida a uma sueca bonita, chamada Greta.
Em vida, rodeava-o a auréola de sussurros própria dos eleitos. Joseph Kessel, no seu livro «Hollywood, Ville Mirage» conta como era uma sessão a que assistisse o «tycoon»: «Gostei de um velhote doente que tinha a minúscula cantina fornecida, sobretudo, por maços de cigarros e pastilhas elásticas e que sorria todo o dia ao som do rádio. Quando falava de Charles Boyer, ele dizia o Charles, de Sylvia Sydney, Sylvia, do patrão, Walter.
   Ora, uma noite ao deter-me no seu estabelecimento, acercou-se de mim e confiou-me comovido:
   — Sabe, estão prestes a exibir «Mayerling»...
   — E então, não é um acontecimento?
   — Sim, mas desta vez, — disse o velhote que, até então, não me parecera capaz de distinções sociais — o senhor Thalberg vai ver o filme.
   E, mesmo na sala da projecção, ouvi murmúrios: «O Senhor Thalberg está cá... O Senhor Thalberg gostou muito... O Senhor Thalberg... O Senhor Thalberg...»
   Chamavam-lhe muito a sério, o Napoleão do cinema, mesmo que o seu nome jamais tivesse aparecido num único genérico. Credita-se-lhe geralmente uma intuição quase visionária do que o público iria gostar e, para completar, o mito, um grande amor pela estrela Norma Shearer. Casados em 1927, ela transformou-se — por insistência dele — na primeira figura do «silver screen», até ao dia em que ficou viúva. Na praça despe quem o alheio veste e Hollywood fez Norma despir o que, nela, eram méritos do cônjuge.
   Um erro monumental na história deste «tycoon» de expressão triste: quando Louis B. Mayer considerou a adaptação de «E Tudo o Vento Levou», Thalberg saiu-se com o famoso: «Forget it, Louis. No one Civil War picture ever made a nickel». Mentira!

Louis B. Mayer, com as suas "máquinas" de fazer dinheiro; Judy Garland e Mickey Rooney.
Foto sem data encontrada em www.jgdb.com.


Louis B. Mayer (1885-1957)

"Você sabe porque eu sou esperto? É porque me rodeio de pessoas que sabem mais do que eu."
Louis B. Mayer

Comeu pó para chegar ao topo. Nasceu em Minsk (URSS) e chamava-se realmente Eliezer Mayer. Muito jovem ainda, fugiu com a família toda para os Estados Unidos e tratou de concretizar o seu sonho americano. Em 1907 — data histórica — adquiriu o primeiro cinema. Cresceu e multiplicou-se. Em breve, a cadeia de sala de cinema de Mayer estendia-se até ao Canadá, com receitas garantidas pelos filmes de Griffith.
   Em 1915 passou-se da exibição para a produção, numa tal de Alco's Company. Nove anos depois, chega ao posto definitivo: presidente da MGM, onde, apesar da crise, a sua mesa se mantém como brasão em casa de nobres.
   Sobravam-lhe inimigos. Sem a subtileza nem a educação esmerada do parceiro, Thalberg, impôs um regime de paternalismo tirânico nos estúdios. Esse firmamento, em que as estrelas respondiam pelos nomes de Clark Gable, Spencer Tracy, Jean Harlow, Katherine Hepburn, James Stewart, Judy Garland ou Greer Garson, era muito dele. Os actores e actrizes sob contrato eram os seus filhos dilectos ou, quando muito independentes, as suas ovelhas ranhosas.
   O golpe da vida dele foi, evidentemente, a associação com o genro na distribuição de «E Tudo o Vento Levou». O erro não chegou a sê-lo porque, na Metro, viviam mais do que «burrinhas de presépio». Quando, em 1938, Mayer desesperava à falta de vedeta para «O Feiticeiro do Oz», os autores de musicais, Freed e Harburg, apontaram-lhe a alternativa: Judy Garland. «A minha corcundinha?» — perguntou, surpreso, o todo poderoso «tycoon». A história do cinema encarregar-se-ia de lhe responder.

Maria João Martins
Jornal Se7e 
25-07-1991


 Mais dois produtores que ficaram de fora do texto: Adolph Zukor e Samuel 
Goldwyn no funeral de Cecil B. DeMille. Hollywood, 1959, Allan Grant. 



(Fotos da LIFE Archive, excepto as assinaladas)




quinta-feira, 21 de junho de 2012

As tangas de Tarzan e Jane

Me Tarzan, tu Jane
(frase que se dizia às miúdas)



Inventado em 1912, por Edgar Rice Burroughs, Tarzan resistiu todas as modas, ele foi o mais bem sucedido de todos os heróis criados pela Pulp Fiction (literatura barata para consumo de grandes populações). Foram 49 adaptações oficiais, incluindo séries de TV, mas não todas as imitações. Nenhum delas seguindo fielmente os livros do criador. Mas é difícil se encontrar mais óbvia aventura do que nos filmes de Tarzan. Os livros partiam para a ficção científica, a mais pura fantasia. Os filmes respondiam a algo mais simples, a necessidade que o público urbano tinha de conhecer e imaginar os perigos da selva africana, para eles  distantes e assustadoras. Era típico filme de matine de domingo em cinema de reprise. Tinha bichos da selva, as palhaçadas da macaca Chita (ou Cheetah) e roteiros altamente previsíveis (a luta com o crocodilo, os elefantes sempre chegando como a cavalaria para salvar a situação). Certamente ingénuos, mas talvez por isso mesmo se tornaram lendas na história da aventura no cinema..


Johnny Weissmuller e Maureen O'Sullivan 
(os verdadeiros Tarzan e Jane)


Tarzan the Ape Man (Tarzan, o Homem Macaco, 1932) de W.S. Van Dyke. O primeiro filme de Tarzan da era do cinema sonoro e também o primeiro filme de Johnny Weissmuller, como Tarzan e Maureen O'Sullivan, como Jane.


É estranho que Tarzan tenha sido uma invenção do século XX quando seu espírito, sua origem, fosse tão anterior. Deveria ter sido concebido por alguns dos românticos, aqueles que conceberam a noção do “Beau Sauvage”, partidários da filosofia de Rousseau de que “o homem nasceu bom, foi a sociedade que o corrompeu”.  De uma certa maneira Mowgli, o Menino Lobo de Kipling (publicado na viragem do século) e até o nosso Peri, de O Guarani foram seus predecessores. É nesse espírito que Tarzan se tornou tão popular, é a fantasia de que um homem branco ainda podia ser livre e viver na selva com todo respeito e dignidade (mas claro que como rei dos animais) e quando preciso rejeitaria a sociedade moderna (como Tarzan fez várias vezes nos filmes). É um mito que continua moderno, ainda que desacreditado. Havia ainda um componente erótico forte. Não esqueçam que até meados dos anos cinquenta a nudez mesmo parcial era tabu e proibida pelo Código de Censura de Hollywood. Bem que tentaram, mas não conseguiram evitar que Tarzan e Jane andassem de tangas. Ou seja, sempre houve um forte elemento erótico, em particular nos dois primeiros filmes deles na Metro.



Tarzan the Ape Man (Tarzan, o Homem Macaco, 1932) de W.S. Van Dyke. Neste primeiro filme a tanga/vestido de Jane é bastante comedida e a de Johnny Weissmuller é uma verdadeira tanga.


Tarzan chegou ao cinema ainda na época do mudo. Mas, o cinema falado não prejudicou Tarzan, até porque ele sempre foi um homem de poucas palavras. Em 1931, a MGM, o maior de todos os estúdios de Hollywood estava ansiosa para continuar na linha de Trader Horn, um filme que fez grande sucesso (era uma história sobre uma deusa branca que vive na selva). Havia sobrado um grande número de cenas de selva que estavam arquivadas e poderiam ser usadas numa aventura de Tarzan. Quem deu a sugestão foi o próprio director do Edgar Rice Burroughs Incorporated. Irving  Thalberg, chefe de produção gostou da ideia e comprou os direitos exclusivos (com opção de mais um filme). E logo anunciaram que estavam preparando o mais colossal épico de todos os tempos. E com o mesmo director de Trader Horn, William S. Van Dyke (que tinha o apelido de “One Take” Van Dyke, porque gostava de rodar tudo rápido, se possível, em apenas uma tomada). Começou então a busca pelo Tarzan ideal. Que fosse jovem, forte, bem feito de corpo, bastante atraente e actor competente. Charles Bickford era velho demais. Joel McCrea (desconhecido), Johnny MacBrown (baixo demais), Clark Gable (não tinha corpo), foram alguns dos rejeitados. Douglas Fairbanks Jr. recomendou o campeão de futebol americano Herman Brix, mas este quebrou o ombro quando estava fazendo outro filme (ele voltará ao papel daqui a pouco, aguardem). Foi o roteirista Cyril  Hume quem viu Johnny Weissmuller num hotel.



No segundo Tarzan é que as tangas ficaram pequenas.
(aqui houve "mãozinha" de Irving Thalberg ou não fosse ele o produtor)

Tarzan and His Mate (Tarzan e a Companheira, 1934) de Cedric Gibbons. Neste segundo filme de Tarzan da era do cinema sonoro, as tangas ficaram como devem ser as tangas. Johnny Weissmuller e Maureen O'Sullivan são outra vez Tarzan e Jane.


Ele havia sido campeão olímpico de natação em 1924 e 1928  e ganhou o papel sem mesmo fazer um teste. Sua publicidade dizia: “O único homem em Hollywood que fica natural sem roupa e sabe representar pelado”. Para Jane, foi escolhida uma jovem irlandesa de vinte anos, morena e delicada, Maureen O´Sullivan (mãe de Mia Farrow e mulher do director John Farrow, de quem frequentemente estava grávida). O primeiro filme, Tarzan, O Homem-Macaco, omitia referências às origens do herói e foi rodado durante cinco meses no Lago Toluka, a norte de Hollywood. Não contém a frase famosa, “Me Tarzan, You Jane” como dizem os humoristas (na verdade, ele diz somente “Tarzan-Jane”). Todos os Tarzan anteriores eram fiéis ao livro, eram lordes ingleses inteligentes e falando perfeito inglês. Aqui, ele dá grunhidos e tem um grito estranhíssimo para chamar os animais. Mudanças que desgostaram o autor, mas quem sabe, podem ter sido a razão do fenomenal sucesso. (texto de Rubens Ewald Filho, in, noticias.r7.com)


Cena censurada, que não aparece no filme.


Tarzan and His Mate (Tarzan e a Companheira, 1934) de Cedric Gibbons. Maureen O'Sullivan (Jane) nadando nua no rio.



Johnny Weissmuller e Maureen O'Sullivan em Tarzan e a Companheira, 1934. Reparem bem nas tangas, isto em 1934.

Johnny Weissmuller e Maureen O'Sullivan em Tarzan and His Mate, (Tarzan e a Companheira, 1934) de Cedric Gibbons.


A partir daqui as tangas nunca mais foram as mesmas.


Tarzan Escapes (A Fuga de Tarzan, 1936) de Richard Thorpe. As tangas passaram a "grandes tangas", repare-se na de Johnny Weissmuller e principalmente na de Maureen O'Sullivan, que passou a ser um vestido.

Tarzan Finds a Son! (Tarzan Encontra um Filho, 1939) de Richard Thorpe. Neste filme, as tangas tornaram-se ridículas; a de Johnny Weissmuller, passou a ser dupla e a de Maureen O'Sullivan, passou a ser desenhada por um estilista e teve direito a malinha de mão e sandálias. A hipocrisia da censura e da sociedade americana atingiria neste filme a histeria, quando o casal foi acusado de viver em pecado (porque não se casaram oficialmente na igreja) e por isso não puderam ter o filho, teria que ser adotado.

Tarzan's Secret Treasure (O Tesouro de Tarzan, 1941) de Richard Thorpe. A de Johnny Weissmuller, parece um lençol e a de Maureen O'Sullivan, continou a ser desenhada por um estilista, repare-se na costura do vestido.


Tarzan's New York Adventure (Tarzan em Nova Iorque, 1942) de Richard Thorpe. Neste filme o impossivel acontece, Tarzan e Jane estão completamente vestidos e talvez por isso Maureen O'Sullivan não fez mais nenhum filme de Tarzan. Johnny Weissmuller, faria ainda mais seis filmes, desde ir há guerra, ao deserto, até encontrar mulheres leopardo, amazonas, sereias, etc. Uma última palavra para a Cheetah ou Chita, que sempre que apareceu, vinha sempre ao natural.

Depois vieram outros Tarzan's, outras Jane's e 
outras tangas, mas já não eram a mesma coisa.


(Fotos encontradas em www.doctormacro.com)