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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Federico e os outros


Federico García Lorca. Granada. 1919 e, Lorca junto a um vendedor de jornais. Cuba. 1930. 
Fotos de www.huertadesanvicente.com

por
Francisco Belard
Expresso, 28 Junho 1986
Coisas boas em jornais


Los cuatro muleros de Federico Garcia Lorca, versão cantada por Estrella Morente.


Pela sua morte trágica, «em consequência de feridas causadas por facto de guerra», Federico Garcia Lorca é sempre um dos lembrados, enquanto outros escritores são esquecidos. Mas Lorca, como Unamuno — morto também em 1936 — é um símbolo do drama das «duas Espanhas»

Federico García Lorca por Luís Buñuel, 1925.
Foto de carmenferreiroesteban.wordpress.com
O OUTONO em Nova Iorque é talvez a época mais bonita do ano, como em toda a parte».  Em Setembro de 1929, Federico Garcia Lorca mora num quarto da residência universitária John Jay. Da janela vê os edifícios da Universidade de Columbia, «o rio Hudson e um longínquo panorama de arranha-céus brancos e rosados» — escreve aos pais. «O céu é magnífico e a temperatura admirável». Satisfação idêntica transparece noutras cartas desse tempo norte-americano. Mas na que citamos há também esta frase sobre Espanha: «É  o único país forte e vivo que resta no mundo».
   É preferível lembrar Garcia Lorca nessa época feliz. Mas sempre que se fala deste poeta há uma outra data que domina: 19 de Agosto de 1936. E outro lugar: Granada. Lorca é assassinado, mas o horror ainda mal começou; a Espanha de 1936 e dos intermináveis anos seguintes é o regresso trágico e o mais feroz dos grandes cemitérios debaixo da lua. Para além dela, os sinos irão dobrar por toda a Europa. «Ninguém dorme no mundo» (cito a trad. de José Bento), mas não pelos motivos que poucos anos antes era possível imaginar na ponte de Brooklyn. Ou talvez, no fundo, no Poeta en Nueva York, com o seu poder de pressentir «as falsas taças», o sangue, as lágrimas e o veneno (longe do tom idílico das cartas), estivesse já o adivinho que costuma existir no seu ofício. Lorca sabe que  «a vida não  é sonho», tal como três séculos antes, em 1635, Pedro Calderón de la Barca sabia que  «a vida é sonho». Têm ambos razão, mesmo que a tragicomédia tenha de decompor-se em tragédia e em farsa.

García Lorca e Luis Buñuel nas Festas de Santo Antonio de la Florida. Madrid. 1923. 
Foto de news.bbc.co.uk


«Facto de guerra»

   Se percorrermos os nomes que por volta de 1930 formam, no dizer de Octavio Paz,  «o grupo de poetas mais rico e singular da Espanha desde o século XVII: Jorge Guillén, Federico Garcia Lorca, Rafael Alberti, Luís Cernuda, Aleixandre...», torna-se difícil não pensar que a fama desigual por eles adquirida foi alheia a factos que nada acrescentam nem retiram aos respecticos génios poéticos (em Portugal, onde esse «grupo», divulgado em 1930 pela antologia de Gerardo Diego, está hoje ainda tão pouco editado, a disparidade da fortuna é particularmente óbvia). Na entre nós tardia difusão de Vicente Aleixandre pesou a atribuição do Nobel. No caso de Garcia Lorca valeu universalmente a morte «em consequência de feridas produzidas por facto de guerra» — como se lê numa certidão de óbito passada em 1940 em Granada, lugar do crime.
   Granada estava separada da zona republicana. Num livro sobre a repressão nacionalista em Granada e a morte de Lorca, Ian Gibson nota que as primeiras notícias do assassínio foram dadas pela Imprensa republicana. Somente passados dias ou semanas os jornais da zona rebelde começaram a noticiar o caso, imputando-o aos «marxistas». A 10-9-36, o jornal de Huelva usou a seguinte linguagem: «Para escapar à fúria vermelha o autor do Romanceiro Gitano não ganhou nada em ser 'correligionário' de Azana em política, em literatura, e em... como dizê-lo? — em sexualidade vacilante».  No dia 14 de Outubro, o diário republicano «El Sol» divulgava o telegrama enviado por H. G. Wells, presidente do Pen Club de Londres, ao coronel governador de Granada, e a resposta lacónica deste: «Ignoro lugar hállase D. Federico Garcia Lorca».

Federico e sua irmã Isabel Garcia Lorca, Granada. 1914 
e, com seu irmão Francisco Garcia Lorca. Granada. 1918. 
Fotos de www.huertadesanvicente.com


«Viva  la muerte»

Unamuno lendo uma obra teatral a um
 grupo de actores. Copiado do Expresso.
   Numa história da guerra civil espanhola em publicação por «El País», escreve Juan Marichal: «Todo o exílio revela sempre a densidade cultural de um país (...) a de Espanha em 1936 era a mais alta de toda a sua história». Mas não foi apenas o exílio, estrangeiro ou «interno», que cortou brutalmente a cultura liberal em Espanha. Houve casos em que coube à morte física assinalar o final de um mundo. A par da de Lorca, uma outra morte pode servir de símbolo às batalhas perdidas pelo pensamento dos que mais tarde perderiam a própria guerra: a de Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, catedrático de Grego e escritor de livros como  O sentimento trágico da vida nos homens e nos povos. O  fim amargurado de Unamuno foi precedido por um incidente que ficou célebre e ganhou um carácter emblemático. Na abertura do ano lectivo de 1936-37, Unamuno (que semanas antes fizera, numa entrevista, referência favorável à sublevação militar como defensora «da civilização ocidental»)  clamou contra os rebeldes «nacionais». «Vencereis, mas não convencereis». Milián Astray,  general  mutilado — outro símbolo — das guerras norte-africanas, replicou-lhe: «Morra a inteligência!» E terá acrescentado um «viva a morte»  que deu brado.

As duas Espanhas

   No «único país forte e vivo», então, só a morte parece sobreviver. Por entre atrocidades de ambos os lados, ela é um instrumento sinistramente igualitário.  «E como iguala a morte/os vermelhos e os azuis!» — escreve o nacionalista José Maria Pemán. Em tudo o mais, a Espanha está dilacerada; há «duas Espanhas» (como  no conhecido verso de António Machado) e raros acreditam já numa terceira. Quem, nessa altura, tivesse profetizado uma Espanha como a de 1986 seria considerado louco ou visionário. Da «consciência democrática autenticamente liberal» que Unamuno desejara, do «liberalismo e modernidade»  a que Ortega y Gasset aspirara, restavam escombros. Exilado nos EUA depois da guerra, Américo Castro perguntará:  «Como e porquê chegou a ser tão dura e tão áspera a convivência entre espanhóis? Qual o motivo por que se tornou endémica entre nós a necessidade de expulsar do país ou de exterminar quem divergia do que os mais poderosos criam e queriam?»

Benjamin Jarnes, Humberto Perez Ossa, Luis Buñuel, Rafael Barradas e Federico García Lorca. 
Madrid?, 1927. e Lorca «com duas crianças americanas na época de "Poeta  em Nova  Iorque"».
 Foto (esq.) de 50watts.tumblr.com  e a outra foi copiada do Expresso.


   As duas Espanhas matam-se na «arena ibérica». Bernard Shaw, num cartão enviado a Marichal, diz:  «O que sei da Espanha e da guerra civil, sei-o pelo meu amigo Salvador de Madariaga, que me contava que tanto os fascistas como os vermelhos eram uns bandidos».  Depois de 1936, a Espanha é um campo de extermínio. Seria a guerra civil uma fatalidade nacional, a expressão trágica de um «carácter espanhol» que desde o século XVI  trazia a violência e a intolerância inscritas no seu código genético?  Não entraremos na longa discussão — em que um dos eixos é a polémica entre Américo Castro e Claudio Sanchez Albornoz — sobre a essência do «espanhol», a «identidade» ou sequer a «dualidade» espanhola. Em boa parte, como nota Juan Marichal, a guerra era  «a manifestação em Espanha da tragédia europeia».  Era corno se o conflito interno fosse o preço, póstumo e antecipado, de não participar nas duas guerras mundiais.

«Miguel de Unamuno, recorriendo el claustro de su querida Universidad de Salamanca» 1936? 
Foto encontrada em www.almargen.com.ar


   Uma visão do drama intelectual desse período poderia ser dada a partir das revistas. Entre outras, Cruz y Raya, de José Bergamín (católico favorável à República), Hora de Espana (onde, na Valência de 1937,  escrevem António Machado, Bergamín, Maria Zambrano e Gil-Albert) e Escorial, onde intelectuais do lado franquista (como Ridruejo e Laín Entralgo) procuram cicatrizar feridas e restabelecer — com o apoio de nomes como Menendez Pidal, que entretanto regressara ao país — a comunicação entre as duas Espanhas. Mas é também o tempo do exílio, que em muitos casos torna o caminho do México ou da Argentina. Podemos generalizar aquilo que José Bento diz sobre os poetas do grupo de 1927: «A Guerra Civil destroçou o grupo. O assassínio de Lorca ficou a simbolizar o golpe que a guerra vibrou nesse conjunto admirável».
   Nos campos desolados pela chacina, só resta ver a Espanha do lado de fora — por estrangeiros que nela situam os seus escritos de combate (seja este a guerra, o amor ou a tauromaquia...) ou nela imobilizam o olhar para o instante da morte (como na fotografia de Robert Capa que tantas vezes foi o ícone de um episódio sangrento), mas também por espanhóis exilados, como José Ferrater Mora. Para este pensador, já não se trata de recomeçar tudo, de retomar a busca da «terceira Espanha» com a função de medianeira entre os irmãos inimigos, mas sim de permitir que haja muitas Espanhas e de ultrapassar a menoridade culpada, a tortura de supor que um país é intrinsecamente cruel. Ferrater recorda, por outras palavras, que um país  como  a Suécia — o mais bem comportado deste século — teve, no passado, lutas internas sanguinárias.

 Federico García Lorca. Sem data. 
Foto encontrada em www.orartswatch.org


Tirar o luto

   Talvez agora possamos tirar o luto e imaginar Federico feliz, no tempo em que ainda não se sabe como se vai morrer, ou até que se vai morrer, em Nova Iorque ou em Granada: «en abril de mi infancia yo cantaba». Embora saibamos, como Aleixandre, que a sua atitude profunda, «como a de todo o grande poeta, não era a da alegria». Embora saibamos que Jorge Guillén se enganou ao dizer ao pai do poeta:  «Em caso de revolta, se houver um só espanhol que se salve, será Federico». Embora, ainda, saibamos que outros poetas, como Larrea ou Cernuda, mereciam ser lidos entre nós. E que outros centenários ou cinquentenários, como o de Castelao, o de Valle Inclán e o de Unamuno (deste, vejam-se os escritos sobre Portugal, no excelente estudo e recolha que em 1985 publicou Angel Marcos de Dios, ed. Gulbenkian, Paris; e esperemos a edição da sua correspondência com Pascoaes, na Assírio e Alvim), se propõem este ano à atenção pública. Lorca, em Portugal, teve a felicidade póstuma de magníficas traduções por Eugenio de Andrade. Essa felicidade, que é a da escrita, ninguém pode tirar-lha. Em vida, como disse Guillén, parecia que nenhum obstáculo poderia detê-lo: «Apenas tinha de lutar contra as dificuldades que toda a escrita tem». Em poesia fez esta «despedida»:  «Si  muero, dejad el balcón abierto».


Francisco Belard
Texto e títulos em
Expresso, 28 Junho 1986



García Lorca e Salvador Dali. 1925. Cadaqués, Catalunha 
e, Lorca com Pedro Salinas e Rafael Alberti. Madrid. 1927
Fotos de www.huertadesanvicente.com


Aurora de Nueva York, poema de Garcia Lorca. Impressionado pelo contacto com Nova York em 1929-30. Aqui é cantado por Chico Buarque e Raimundo Fagner no CD (1986) de homenagem a Lorca "Poetas en Nueva York", em que participam, interpretando os seus poemas, entre outros; Patxi Andion, Paco e Pepe De Lucía, Lluis Llach, Leonard Cohen, Víctor Manuel, George Moustaki e Mikis Theodorakis.


“Canto a España y la siento hasta la médula, pero antes que esto soy hombre del mundo y hermano de todos. Desde luego no creo en la frontera política.”
Federico García Lorca




sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O Feio Alheio


Perguntai a um sapo o que é a beleza, o verdadeiro belo. Responder-vos-á que consiste na sua mulher, com os seus belos olhos redondos que se projectam para fora da pequena cabeça, o pescoço grosso e achatado, o ventre verde e as costas castanhas. Interrogai o diabo: dir-vos-á que o belo é um par de cornos, quatro patas com garras e um rabo.
Aparentemente, beleza e fealdade são conceitos que mutuamente se exigem: habitualmente entende-se a fealdade como o oposto da beleza, de modo que bastaria definir a primeira para se saber o que é a outra. Mas as diversas manifestações do feio através dos séculos são mais ricas e imprevisíveis do que comummente se julga. Por isso, não só os textos antológicos, mas também as ilustrações extraordinárias deste livro, levam-nos a percorrer um itinerário surpreendente entre pesadelos, terrores e amores de quase trinta mil anos, onde os actos de repulsa caminham de mãos dadas com comoventes movimentos de paixão, e a rejeição da deformidade é acompanhada de êxtases decadentes que, as mais das vezes, são violações sedutoras de todos os cânones clássicos.
In Introdução, HISTÓRIA DO FEIO de  Humberto Eco (direcção), Editora  Difel, 2007.


HISTÓRIA DO FEIO de  Humberto Eco (direcção). Capa e página 393
.



Para eles eram feios

Relatórios de leitura e recensões


«As composições de Johann Sebastian Bach são totalmente sem beleza, harmonia e sobretudo, clareza.»
(Johann Adolph Scheibe, Der critische Musikus, 1737)

«Uma orgia de barulho e vulgaridade.»
(Louis Spohr aquando da estreia da 5ª sinfonia de Beethoven)

«Se (Chopin) tivesse sujeitado as suas músicas ao juízo de um perito, ele tê-las-ia rasgado… Em todo o caso, gostaria de ter sido eu a fazê-lo.»
(Ludwig Rellstab, Iris im Gebiete der Tonkunst, 1833)


Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven Frédéric Chopin.


«O Rigoletto é carente no plano melódico. Esta ópera não tem nenhuma possibilidade de inserir-se no reportório.»
(Gazette Musicale de Paris, 1853)

«Estudei durante muito tempo a música daquele velhaco. É um bastardo sem qualidade.»
(Tchaikovsky no seu Diário, acerca de Brahms)

«Dentro de cem anos, Les fleurs du mal serão recordados com uma curiosidade.»
(Émile Zola, por ocasião da morte de Baudelaire)

«Terá tido os dotes de um grande pintor, mas faltou-lhe vontade.»
(Émile Zola sobre Cézanne)

«É a obra de um louco.»
(Ambroise Vollard em 1907 sobre Les demoiselles d’Avignon de Picasso)


Les demoiselles d’Avignon. 1907. Pablo Picasso.


«Serei talvez duro para compreendê-lo, mas não consigo capacitar-me do facto de que um senhor possa empregar trinta páginas para descrever como se dá voltas e mais voltas na cama antes de adormecer.»
(Relatório de leitura sobre a Recherche de Proust)

«Senhor, sepultaste o vosso romance num cúmulo de pormenores que estão bem desenhados, mas totalmente supérfluos.»
(Carta de um editor a Flaubert, acerca de Madame Bovary)

«Nos seus romances não há nada que revele particulares dotes imaginativos, nem a trama, nem as personagens, Balzac nunca ocupará um lugar de relevo na literatura francesa.»
(Eugène Poitou, Revue des deux mondes, 1856)

«Em O monte dos vendavais, os defeitos de Jane Eyre [da irmã Charlotte] multiplicaram-se por mil. Pensando bem, a única consolação que nos restará é o pensamento de que o romance nunca se tornará popular.»
(James Lorimer, North British Review, sobre Emily Bronte, 1849)

«A incoerência e a falta de forma das suas poesíolas – não saberia defini-las de outro modo – são espantosas.»
(Thomas Bailey Aldrich, The Atlantic Monthly, sobre Emily Dickinson, 1882)

«Moby Dick é um livro triste, esquálido, chato e até ridículo… Depois, aquele capitão louco, é de um aborrecimento mortal.»
( The Southern Quarterly Review, 1851)


Moby Dick de Herman Melville. Publicado em 1851.


«Walt Whitman tem a mesma relação com a arte que um porco com a matemática.»
(The London Critic, 1855)

«Pouco interessante para o leitor comum e não bastante aprofundado para o leitor científico.»
(Relatório de leitura sobre H. G. Wells, A máquina do tempo, 1895)

«A história não chega a uma conclusão. Nem o caracter nem a a carreira do protagonista parecem chegar a um ponto que justifique o final. Em suma, parece-me que a história não conclui.»
(Relatório de leitura sobre Francis Scott Fitzgerald, Este lado do paraíso, 1920)

«Meu Deus, meu Deus, não podemos publicá-lo. Acabamos todos na prisão.»
(Relatório de leitura sobre Faulkner, Santuário, 1931)

«É impossível vender histórias de animais nos EUA.»
(Relatório de releitura sobre George Orwell, O triunfo dos porcos, 1945)

«Esta rapariga não parece ter uma especial percepção ou então o sentimento de como se pode levar este livro acima de um nível de simples curiosidade.»
(Relatório de leitura sobre o Diário de Anne Frank, 1952)

«Deveria ser contado a um psicanalista e provavelmente foi e transformou-se num romance que contém alguns passos de bela escrita, mas é excessivamente nauseabundo… Recomendo que seja sepultado por mil anos.»
(Relatório de leitura sobre Nabokov, Lolita, 1955)


Lolita de Vladimir Nabokov. Publicado em 1955.


«Os Buddenbrook não são senão dois volumes em que o autor conta histórias insignificantes de gente insignificante num estilo insignificante.»
(Eduard Engel sobre Buddenbrook de Thomas Mann, 1901)

«Acabo de ler o Ulisses e julgo-o um insucesso… É prolixo e desagradável. É um texto grosseiro, não só em sentido objectivo, mas também do ponto de vista literário.»
(Do Diário de Virginia Wolf)

«Aquele rapaz não tem o mínimo talento.»
(Manet a Monet sobre Renoir)

«Nenhum filme sobre a guerra civil deu dinheiro.»
(Irving Thalberg da Metro, desaconselhando a compra dos direitos de E tudo o vento levou)

Cartaz de Gone With The Wind (E tudo o vento levou, 1939) de Victor Fleming.


«E tudo o vento levou será o mais clamoroso fiasco da história de Hollywood. Estou muito contente por ser Clark Gable e não Gary Copper quem enfrentará as dificuldades.»
(Gary Cooper, depois de ter recusado o papel de Rhett Butler)

«Que farei eu com um tipo com aquelas orelhas?»
(Jack Warner depois do ensaio de Clark Gable, 1930)

«Não sabe recitar, não sabe cantar e é calvo.»
(Dirigente da Metro, depois de um ensaio de Fred Astaire, 1928)


Transcrito da página 393 de HISTÓRIA DO FEIO de Humberto Eco (direcção), Editora Difel, 2007.



 Clark Gable (1936), por Alfred Eisenstaedt e Fred Astaire (1945), por Bob Landry.




(Fotos LIFE Archive e da net)






sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Flash Gordon



«O "31 partes" mais Popular do meu tempo»

por
Dinis Machado
Se7e 26-10-78

 Coisas boas em jornais


O Imperador Ming cobiça a loira Dale Arden (companheira de Flash Gordon). Ming para Dale: ".. seus olhos, seu cabelo, sua pele ... Eu nunca vi ninguém como você antes ... você é linda .." Com Buster Crabbe como Flash Gordon, Jean Rogers como Dale Arden e Charles Middleton como Ming. Este serial foi selecionado para preservação no Arquivo Nacional de Cinema dos Estados Unidos. Aqui fica uma pequena amostra.


«Nos últimos meses, ao tentar arrumar prateleiras, grandes e pequenas, dos arquivos da aprendizagem, recuei tempo e escrevi em jornais homenagens menores a Raymond Chandler, Federico Fellini, Rent Goscinny, Charles Chaplin e Manuel Bandeira. Hoje, aqui onde me vêem e recuando para aí quarenta anos, tiro o chapéu que não uso a um dos mais antigos e jovens companheiros que nunca vi: Alex Raymond, inventor de Flash Gordon para papel impresso, depois peliculado na silhueta nervosa e na expressão decidida de Larry Buster Crabe, campeão das crianças pobres das cidades portuguesas nos anos 30-40. Mosqueteiro para retrato de família com Mandrake, Dick Tracy e Tarzan. Era a ofensiva cultural americana, a colonização organizada através da mais poderosa máquina de produzir passatempo. A maravilha súbita e exaltante. E o negócio.

Buster Crabbe (Flash Gordon), lutando com os monstros. Foto copiada do jornal.

Buster (Flash Gordon) Grable passou como um furacão por salas de cinema que começam agora a ter a sua história: o Olímpia, o Loreto, que era o do meu sítio (e que hoje é o Cine Camões), o Chantacler, ou o Galo, o Coliseu, o Arco Bandeira, o Salão Lisboa, também chamado o «Piolho», onde se guardava o lugar com o lenço atado no banco quando chegava o intervalo. Melhor: o segue imediatamente. O segue imediatamente, nessas salas, era o fim da bobina, a hora de beber o copo de água e comer o matacão. (Aqui, na Televisão, em vossas casas, o segue imediatamente é ocupado pela publicidade: sinal dos tempos). Mas eu estava a falar das salas de bairro, o cinema de bater com os pés, de avisar aos gritos que vinha lá o bera e de rir alto com o cómico que atirava o bolo de noiva à cara do parceiro que se baixava — e o que estava atrás é que apanhava com ele.
Os filmes mais compridos, aquilo a que se chama o serial, tardes imensas baptizadas em linguagem de rua de fitas de 31 partes, foram o cinema acrescentado ao cinema, a grande corrida ao oiro das quimeras. Lone Ranger, Dick Tracy, Fu Manchu e outros fizeram essa expedição das fitas enormes, onde a arte e a indústria respiravam muito bem a sua vocação e o seu espaço de multidões. O cinema, que sempre andou muito depressa para encontrar gente, escolheu o serial para encontrar mais gente ainda. Isto foi Hollywood, laboratório do dólar e, quase sem dar por isso muitas vezes, do talento.


Dr. Alexis Zarkov (Frank Shannon) e Flash Gordon (Buster Crabbe) no serial de 1936,  “Flash Gordon”, Episódio 13, intitulado “Rocketing To Earth.”. Foto encontrada em www.cinemaisdope.com

Flash Gordon, ou Buster Crabbe (aquele era o desenho, o outro era o actor, mas isso era igual) foi o trinta e uma partes mais popular e barulhento. Falava-se dele assim: tinha tudo. Este tudo era, mais ou menos: a narrativa dinâmica, o movimento calculado, a surpresa da encenação (eram filmes de grandes orçamentos), a técnica do suspense no fim do episódio (segundo o modelo da própria banda desenhada, do próprio Raymond), o espírito de evasão e de aventura, a gramática simplificada, o alvoroço de uma nova geografia. Era a gesta heróica e mesmo à mão por dez tostões (refiro-me, mais coisa menos coisa, ao preço do bilhete). E, como sempre, o cinema de actor. Buster Crabbe, herdeiro do mudo ainda com uma certa mímica caricatural, sem a gama de sentimentos que o rosto de Chaplin ou o de Stroheim, por exemplo, transmitiam, era um actor directo, de uma só proposta, ou de uma só leitura, mas que anunciava já a qualidade física e humana dos grandes actores sonoros, de que Bogart talvez tenha sido o paradigma. Buster Crabbe, que também foi Tarzan no cinema, e quase tão popular como Johnny Weissmuller, encontrou em Flash Gordon a roupa à sua medida, um estilo da época. Este Flash-Buster, visto hoje sem complacências e sem ternuras revivalistas, é o emblema da frescura que se perdeu, que o cinema perdeu e que nós vamos perdendo com o tempo, mas é também, e isto tem um valor incalculável, o museu que nos visita, tão depositado da pátine que se ganhou. 



Buster Crabbe como Tarzan no filme, O Rei da Selva (King of the Jungle, 1933) de H. Bruce Humberstone e Max Marcin. Foto encontrada em sadburro.tumblr.com

O Flash Gordon que começa hoje na Televisão — três filmes de 31 partes, com três episódios em cada sábado — é uma fonte de cinema, é uma estafeta do seu percurso, uma experiência e um projecto, uma página do seu inventário, e também da sua lição. E a TV, imagem da nossa intimidade quotidiana, é também ela, por dever cívico e razões de convivência, memória do cinema. Que traga, pois, outras memórias. Espectadores sofisticados que somos hoje, e alunos (avisados) do senhor Orson Welles, vamos lá atrás e temos nestas fitas a pose retocada do navegador estelar, como se o próprio Raymond tivesse desenhado isto com uma espécie de lápis mágico feito câmara. No genérico destes filmes, além dos nomes dos técnicos e dos actores, deviam estar Júlio Verne, H.G. Wells e outros loucos de ontem. E onde isto acaba já começaram Ray Bradbury, Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick, odisseias no espaço, solaris, guerra de estrelas e encontros imediatos. E também: este cinema americano misturado de contradições porque abre as portas ao sonho e visa alvos económicos, que semeia novas áreas de espectáculo e que se prepara como produto comercial, é um cinema de lances simultâneos: onírico, prático, generoso, mercantil. E é o futuro tacteado. Com Flash Gordon, com esta ingenuidade cósmica, cumpre-se, na data que está lá escrita, a saga espacial em embalagem popular, constrói-se a space-opera para muitos olhos e ouvidos, sobem ao céu, antes de terem realmente subido, as Soyuz e as Apollos de tão profundas ciências. Flash e companheiros contra Ming, o imperador, passando por cidades submarinas, cidades aéreas, lutando contra muitos inimigos e muitos perigos para que Mongo possa ser livre. E voltará à Terra, como decretou Alex Raymond, para a defender da ameaça nazi. Ele, o herói, e outros, anti-heróis. Mas isso é outra história. E outras séries. E agora: o foguetão imparável do cinema, o sonho imparável do homem, a sua tão esplêndida vontade de imaginar e de descobrir. Isto foi há quarenta anos.»

Dinis Machado
se7e 26-10-78


(Nota para Dinis Machado)
Por Rolo Duarte

«Nesta maratona dos dois «canais» apanhei-te mesmo à tabela: lá estavas tu, anfitrião na «casa» de Flash Gordon a fazer as apresentações aos mais novos — e a recordá-lo aos da nossa geração quarentona. Ao ouvir-te falar do «nosso herói» (ou de um dos heróis da época em que «nimas» eram todos os cinemas e não só o da Avenida 5 de Outubro...) imaginei-te, para não dizer que eu também «lá estava», nos bancos estofados a sumapau do velho «Loreto» (esse mesmo, o «piolho») que depois foi o «Salão Ideal» e que hoje é o «Cine-Camões», a «sofrer» as aventuras do «Flash Gordon» que voltei há pouco a «seguir» na b.d. do Alex Raymond editada em Espanha, seguramente com a mesma intenção (revivalista?) com que a «King Features» aceita reeditar os filmes da Universal que a RTP-2 «passa» às sextas. O «Loreto», onde «nasceste» cinéfilo é, para mim, que não sou de lá «natural», o símbolo de uma época que terminou ali, o «the end» das «31 partes» Com o bandido atrás da porta que nós próprios denunciávamos em voz alta e o «rapaz» de chapéu que desafiava as leis da gravidade... Digamos que fui, em meados dos anos 50, o Peter Bogdanovich do «Loreto» — e já vais saber porquê.

Foto (talvez dos anos 50), do interior do Cinema Ideal "O Loreto", vendo-se os lenços amarrados nos bancos para marcar o lugar. Foto copiada do jornal Se7e.

É que na véspera da remodelação total da velha sala, onde anos antes pianistas bem pagos acompanhavam filmes mudos, estive no «Loreto» com o Pimentel para fazermos talvez a última (ia a dizer a única) reportagem de uma «última sessão» pública de um «piolho» dessa época. Exibia-se «O Filho da Selva» com o Sabú também nosso «conhecido» — e das várias fotografias que tenho agora aqui à mão escolho esta do «intervalo» porque são visíveis os lenços que marcavam os lugares, tal como recordaste no saboroso texto para a televisão que o «Se7e» reproduz hoje na íntegra.

Era o fim de um período importante na história dos velhos cinemas de Lisboa — da nossa própria «condição» de cinéfilos inveterados, quarenta e picos anos depois da «Chegada dos Operários à Gare de Lion» e do «Regador Regado» dos manos Lumière. Por isso, caro Dinis Machado, aqui te deixo a fotografia desse «intervalo» longínquo apenas para confirmar, numa imagem só, a evocação de sábado na TV-2. Realmente, nem fila A, nem fila B, nem os números que nos garantem hoje lugar certo... Em vez de tudo isso, um lenço...
Era o cinema da malta do teu bairro, era, nessa «última sessão», uma «fita» do Sabú — quem sabe se um daqueles lenços era teu...»

se7e 26-10-78



Cartaz original do serial Flash Gordon, encontrado em 20thcenturytrash.blogspot.pt